terça-feira, 26 de junho de 2012

Pessimismo?

por Oswald Spengler



O meu livro (O Declínio do Ocidente, Vol I) se deparou com ampla incompreensão. Em um certo sentido, isso é quase um concomitante inevitável para qualquer abordagem nova que chegue a novas conclusões. Tal reação é mais ainda esperada quando as conclusões alcançadas, ou mesmo as perspectivas e metodologia que levou a elas, apresentam um desafio sério ao humor dominante de uma era. Quando um livro assim por acaso se torna popular, as incompreensões se multiplicam. Pois então as pessoas são confrontadas subitamente por um complexo de idéias que elas de fato não deveriam ter tentado diferir até anos depois de leituras preparatórias.

Com meu próprio livro há ainda a dificuldade de que apenas o lado negativo da figura chegou até então ao público. A maioria dos livros esqueceu de observar que este primeiro volume representa apenas um fragmento a partir do qual, como eu logo perceberia, não é fácil formar conclusões sobre o que deve seguir. O segundo volume ainda por vir abordará a "Morfologia da História Mundial", levando então a um fim meu exame de ao menos um aspecto do problema. Leitores atentos terão notado que eu toquei brevemente em um segundo aspecto, a questão ética, em meu ensaio Prussianismo e Socialismo.

Um outro obstáculo a uma compreensão do meu livro é o título um tanto quanto desconcertante que ele leva. Eu fui cuidadoso em enfatizar que este título foi escolhido anos antes de sua publicação, e que ele objetivamente descreve um fato simples para o qual evidências podem ser encontradas nos eventos mais familiares da história mundial. Ainda assim, há pessoas que não podem ouvir a palavra "declínio" sem pensar em uma calamidade súbita e temível. Meu título não implica catástrofe. Talvez possamos eliminar o "pessimismo" sem alterar o sentido real do título se substituíssemos "declínio" pela palavra "realização", tendo em mente as funções especiais que Goethe atribuiu a esse conceito em sua própria visão-de-mundo.

Porém, mesmo a primeira parte do meu livro não era dirigida a pessoas especulativas, mas sim ativas. Meu objetivo era apresentar uma imagem do mundo com o qual se deve viver, ao invés de construir um sistema para que sobre ele filósofos profissionais ruminem. Eu não percebia essa distinção à época, mas ela obviamente previne um grande número de leitores de chegarem a uma compreensão verdadeira do tema do livro.

A pessoa ativa vive no mundo dos fenômenos e com eles. Ele não demanda provas lógicas, de fato geralmente ele não as pode compreender. O "ritmo fisionômico" - um dos termos que praticamente ninguém foi capaz de compreender totalmente - lhe dá percepções mais profundas do que qualquer método baseado na prova lógica jamais poderia dar. Eu fiz afirmações em meu livro que leitores acadêmicos consideraram como completamente contraditórias. Ainda assim, todas essas são coisas que há muito já tem sido consideradas e sentidas privadamente, ainda que não necessariamente de modo consciente, por indivíduos inclinados a uma vida de ação. Quando tais indivíduos leem livros, isto quer dizer, quando eles entram no reino da teoria, eles rejeitam o mesmo "relativismo histórico" que é segunda natureza para eles quando estão engajados em atividades práticas, ou quando estão observando pessoas e situações para os propósitos de ação.

A pessoa contemplativa, por outro lado, é por natureza remota da vida. Ele a vê à distância, por ele é estranho e nada contra a maré. Assim que ela ameace se tornar algo mais do que um objeto observado, ele se incomoda. Pessoas contemplativas colecionam, dissecam e arrumam coisas, não para qualquer propósito prático, mas simplesmente porque isso as satisfaz. Elas demandam provas lógicas e sabem como consegui-las. Para eles, um livro como o meu deve permanecer eternamente uma aberração.

Pois eu confesso que eu jamais tive nada além de desprezo pela "filosofia pela filosofia". Para o meu modo de pensar não há nada mais tedioso do que a lógica pura, a psicologia científica, a ética geral, e a estética. A vida não é feita de ciência e generalidades. Cada linha que não é escrita à serviço da vida ativa me parece supérflua. Sob risco de ser entendido literalmente demais, eu diria que meu modo deo lhar o mundo se relaciona ao modo "sistemático" assim como as memórias de um estadista se relacionam ao Estado ideal de um utópico. O primeiro escreve o que ele viveu; o segundo registra o que ele sonhou.

Agora de fato existe, particularmente na tradição germânica, o que se pode chamar de um modo estadista de experimentar o mundo, uma atitude não-forçosa e assistemática em relação a vida que só pode ser registrada por um tipo de escrita memorial metafísica. É importante perceber que meu livro pertence a essa tradição. Se a seguir eu menciono alguns nomes ilustres, isso não tem como intenção implicar qualquer coisa sobre a qualidade do livro, mas meramente indicar o tipo de visão que estava presente em sua criação.

Uma poderosa corrente de pensamento germânico corre de Leibniz a Goethe e Hegel, e segue em direção ao futuro. Como todas as coisas germânicas, essa corrente foi forçada a correr de modo subterrâneo e a seguir desapercebida ao longo dos séculos. Por mais do que esse período mesmo os criadores dessa tradição descobriram que eles tinham que se adaptar a padrões de pensamento estrangeiros e superficiais.

Leibniz foi o grande professor de Goethe, ainda que este jamais tivesse tido consciência disso. Goethe costumeiramente adotou idéias genuinamente leibnizianas, seja por uma afinidade natural por seu pensamento ou pela influência de seu amigo Herder. Em tais instânicas, porém, ele sempre se referiu a Espinoza, cujo modo de pensar era na verdade bastente diferente. A característica notável de Leibniz era seu envolvimento constante nos eventos importantes de seu tempo. Se removessemos de suas obras todos os itens que são relativos à política, à reunificação das igrejas, aos projetos de mineração, e à organização da ciência e da matemática, não sobraria muito. Goethe se assemelha a ele no sentido de que ele sempre pensou historicamente, ou seja, com referência constante aos fatos reais da existência. Como Leibniz, ele jamais teria sido capaz de construir um sistema filosófico abstrato.

Hegel foi o último grande pensaro a tomar as realidades políticas como seu ponto de partida sem deixar seu pensamento ser completamente sufocado por abstrações. Então veio Nietzsche, um diletante no melhor dos sentidos, que se manteve firmemente distante da filosofia acadêmica, que à sua época já havia se tornado completamente estéril. Ele foi tomado pelas teorias de Darwin, e ainda assim ele transcendeu a era do darwinismo inglês. Ele nos deu a visão com a qual nós podemos agora concretizar uma vitória para uma abordagem vital e prática da história mundial.

Essas são, como eu vejo agora, as premissas que inconscientemente influenciaram minha escrita. Entre elas não há um único "sistema" de generalidades. As compilações históricas de Leibniz, as observações da natureza de Goethe, e as palestras de Hegel sobre a história mundial foram todas escritas tendo claramente em vistas a realidade factual - algo que não pode ser dito das obras de Kant e Schopenhauer.

Eu construo as relações entre realidade e pensamento especulativo de uma maneira completamente diferente dos filósofos sistemáticos. Para eles a realidade é matéria morta da qual se pode derivar leis. Para mim, a realidade apresenta exemplos que iluminam um pensamento experimentado, um pensamento que é comunicável apenas nessa forma.

Porque essa abordagem é acientífica, ela requer uma facilidade incomum para pensar em linhas amplas e em sintetizar. Normalmente ocorre, como eu já percebi ocasionalmente, que conforme o leitor se concentra em um ponto de meu livro ele rapidamente perde vistas dos outros. Ao fazê-lo, ele entende tudo errado, pois o livro é tão coeso que isolar um único detalhe equivale a cometer um erro. Ademais, é necessário ser capaz de ler nas entrelinhas. Muitas coisas são apenas sugeridas, enquanto outras não podem ser ditas de modo algum de modo científico.

A idéia central é o conceito de Destino. A razão pela qual é tão difícil fazer o leitor compreendê-lo é que o processo do pensamento sistemático e racional o leva a seu oposto: a idéia de causalidade. Destino e Acaso são questões bastante remotas da apreensão da causa e do efeito, do antecedente e do consequente. Há um perigo em que o Destino possa ser equivocadamente compreendido como simplesmente outro modo de se referir a uma sequência causal que existe sem estar prontamente visível. A mente científica jamais será capaz de entender isso. A habilidade de perceber fatos de natureza emocional e vital cessa logo que se começa a pensar analiticamente. O Destino é uma palavra cujo significado é sentido. O Tempo, o Anseio e a Vida são conceitos próximos. Ninguém pode presumir compreender a essência do meu pensamento a não ser que ele possa sentir o sentido último dessas palavras do modo que eu pretendi.

A idéia de Destino leva a um tipo de experiência que é excessivamente difícil de compreender. Eu a chamo de "experiência de profundiade". Ela é mais proximamente relacionada ao pensamento racional, mas apenas em seu efeito final, não em suas origens. Esse conceito nos apresenta com dois dos problemas mais difíceis. O que se quer dizer pela palavra "Tempo"? Não há resposta científica para essa questão. O que se quer dizer pela palavra "Espaço"? Aqui, o pensamento racional pode talvez nos dar uma resposta. Porém uma conexão existe entre Destino e Tempo, e também entre Espaço e Causalidade. Qual é, então, a relação entre Destino e Causa? A resposta para isso é fundamental para o conceito de experiência de profundidade, mas ela se encontra para além todos os modos de experiência e comunicação científica. O fato da experiência de profundidade é tão indisputável quanto inexplicável.

Um terceiro conceito, também muito difícil de compreender, é aquele de Ritmo Fisionômico. Isso é na verdade algo que todo ser humano possui. Ele vive com isso e constantemente o aplica para fins práticos. É algo com o que se nasce e que não pode ser adquirido. A ingenuidade proverbial e a comicidade demonstrada em questões públicas pelo retrógrado acadêmico abstrato é um resultado do desenvolvimento retardado desse ritmo. Não obstante, mesmo esse tipo de personalidade possui o bastante dele para seguir vivendo.

O que eu tenho em mente, porém, é uma forma bastante exaltada desse Ritmo, uma técnica inconsciente de compreender não apenas os fenômenos da vida quotidiana, mas o sentido do universo. Poucas pessoas podem ser consideradas como mestras nisso. Essa é a técnica que faz do genuíno historiador igual ao estadista nato, apesar da disparidade entre teoria e prática. Das duas principais técnicas de adquirir conhecimento e entendimento, essa é sem dúvidas a mais importante para a história e para a vida real. O outro método, o pensamento sistemático, serve apenas para descobrir verdades. Mas fatos são mais importantes do que verdades. Todo o curso da história política e econômica, de fato de todas as realizações humanas, é dependente da aplicação constante dessa técnica por indivíduos, incluindo os indivíduos significativos que são historicamente passivos bem como os grandes que fazem a história.

A técnica fisionômica é predominante durante a maior parte da vida dos indivíduos historicamente ativos e passivos. Por comparação, a técnica sistemática, que é a única reconhecida pela filosofia, é virtualmente reduzida à insignificância histórica. O que faz da minha abordagem tão heterodoxa é o fato de que ela é conscientemente baseada na técnica da vida real. Como resultado, ela é interiormente consistente, ainda que careça de um sistema.

O conceito que causou as incompreensões mais sérioes é aquele ao qual eu assignei, não muito afortunadamente talvez, o termo "relativismo". Este não possui absolutamente nada em comum com o relativismo da ciência física, que é baseado tão somente no contraste matemático entre constante e função. Levará anos para que leitores se tornem suficientemente familiarizados com meu conceito para que ele ganhe vigência real. Pois ele é uma visão completamente ética do mundo no qual as vidas individuais tem seu curso. Para aqueles que não compreenderam o conceito de Destino, esse termo parecerá sem sentido. Como eu o vejo, o Relativismo na história é uma afirmação da idéia de Destino. A singularidade, irrevogabilidade, e não-recorrência de todos os eventos é a forma na qual o Destino se manifesto aos olhos humanos.

Como a Técnica Fisionômica, esse Relativismo existiu, seja na vida ativa ou na observação passiva, em todos os tempos. Ele é uma parte tão natural da vida real, e está em tamanho controle das ocorrências quotidianas, que ele não alcança a consciência. Em verdade, quando a mente se engaja na teorização, ou seja, quando ela está formando generalizações, a existência desse Relativismo é normalmente negada empiricamente. A idéia não é realmente nova enquanto tal. Em nossa era tardia não pode haver idéias novas. Ao longo de todo o século XIX nem uma única questão foi levantada que já não houvesse sido descoberta, refletida, e brilhantemente formulada pelos Escolásticos.

É apenas porque o Relativismo é uma elemento tão intrínseco da vida, e assim uma idéia tão não-filosófica, que ele nunca foi considerado adequado como parte de um "sistema". O velho adágio "A carne de um é o veneno de outro", é basicamente o contrário de toda filosofia acadêmica. O acadêmico é impelido a demonstrar que a carne de um é carne para todos os homens, ou seja, que o ponto ético que ele acaba de demonstrar em seu livro vincula a todos. Eu de modo bastante consciente assumi a perspectiva oposta, nomeadamente aquela da vida, e não a do pensamento. As duas posições ingênuas, mantém ou que existe algo que possui valor normativo por toda a eternidade independentemente de Tempo e Destino, ou que tal coisa não existe.

Porém, o que é aqui chamado Relativismo não é nenhuma dessas duas posições. É aqui que eu criei algo novo. É um fato experimentado que a "história mundial" não é uma sequência unificada de eventos, mas uma coleção de altas culturas, das quais houve oito em número até agora. As histórias vitais dessas culturais são bastante independentes umas das outras, porém cada uma partilha de um padrão estrutural similar à de todas as outras. Estando isso estabelecido, eu demonstrei que cada observador, independentemente de ele pensar em termos de vida ou apenas de pensamento, pensa unicamente como representante de seu tempo particular. Com isso nós podemos descartar uma das críticas mais absurdas lançadas contra minhas perspectivas: o argumento de que o Relativismo carrega consigo sua própria refutação.

A conclusão a ser tirada é que para cada cultura, para cada época dentro de uma cultura, e para cada tipo de indivíduo dentro de uma época, existe uma perspectiva geral que é imposta e comandada pelo tempo em questão. Essa perspectiva deve ser considerada absoluta para aquele tempo particular, mas não em relação a outros tempos. Há uma perspectiva imposta pelo nosso próprio tempo, porém é desnecessário dizer que ela é diferente daquela da Era de Goethe. "Verdadeiro" e "falso" são conceitos que não podem ser aplicados aqui. Os únicos termos descritivos pertinentes são "profundo" e "superficial". Quem pense diferente é, de qualquer modo, incapaz de pensar historicamente.

Qualquer abordagem vital dos problemas da história, incluindo a que eu estou propondo, pertence a um único tempo. Ela evoluiu a partir de uma abordagem prévia e por sua vez evoluirá em outra. Há em toda a história tão poucas abordagens totalmente corretas ou totalmente falsas quanto há fases certas e erradas do crescimento deu uma planta. Todas são necessárias, e a única coisa razoável a se dizer é que uma certa fase é bem sucedida ou não em relação às demandas do momento. O mesmo é verdadeiro para cada visão de mundo, não importa quando ela emerja. Mesmo o filósofo mais ferrenhamente sistemático sente isso. Ele usa termos como "obsoleto", "típico de sua época", e "prematuro" para descrever as opiniões dos outros. Ao fazê-lo ele está admitindo que os conceitos de verdade e falsidade possuem sentido apenas para a casca externa da ciência, mas não para sua essência vital.

Assim nós chegamos à distinção entre fatos e verdades. Um fato é algo único, algo que realmente existiu ou realmente existirá. Uma verdade é algo que pode existir como possibilidade sem jamais adentrar a realidade. O Destino tem relação com fatos; a relação entre causa e efeito é uma verdade. Tudo isso tem sido sabido desde tempos imemoriais. O que os homens falharam em perceber, porém, é que a vida, por essa mesma razão, tem a ver apenas com fatos, que ela é exclusivamente feita de fatos, e que seu único modo de resposta é factual. Verdades são quantidades de pensamento, e sua importância reside somente circunscrita no reino do pensamento. Verdades podem ser encontradas em uma dissertação doutoral em filosofia; ser reprovado em um exame de doutorado é um fato. A realidade começa onde o reino do pensamento finda. Ninguém, nem mesmo o sistemático mais ascético, pode ignorar esse fato da vida. E, de fato, ele não o ignora. Mas ele o esquece assim que ele começa a pensar a vida ao invés de vivê-la.

Se eu posso reivindicar alguma realização, é que ninguém jamais poderá ver o futuro de novo como uma tábua em branco na qual qualquer um pode inscrever o que lhe agradar. A perspectiva caprichosa e arbitrária que defende o motto "Que assim seja!" deve agora dar lugar a uma visão fria e clara que vê os possíveis, e portanto necessários, fatos do futuro, e que constrói suas opções de acordo. A primeira coisa que confronta o homem na forma do Destino é o tempo e lugar de seu nascimento. Este é um fato inescapável; nenhuma quantia de pensamento pode compreender sua origem, e ninguém pode impedi-la. Ademais, este é o fato mais decisivo de todos. Todo mundo nasce dentro de um povo, uma religião, uma classe, uma época, uma cultura. É o Destino que determina se um homem nascerá escravo na Atenas de Péricles, um cavaleiro na época das Cruzadas, ou um filho de um trabalhador ou de um burguês em nossos dias. Se algo pode ser chamado de fado, fortuna, ou destino, é isso. A história significa que a vida está constantemente mudando. Para o indivíduo, porém, a vida é precisamente de certo modo, e não de outro. Com seu nascimento o indivíduo recebe sua natureza e uma amplitude particular de tarefas possíveis, dentro da qual ele possui o privilégio da livre escolha. Independentemente do que sua natureza deseje ou seja capaz, independentemente do que seu nascimento permita ou impeça, para cada indivíduo está prescrita uma amplitude definida de felicidade ou miséria, grandeza ou covardia, tragédia ou absurdo, que fará de sua vida exclusivamente sua. E mais, o Destino determina se sua vida terá significância para as vidas daqueles que o cercam, isto é, se ela será significativa para a história. Sob essa luz, os mais fundamentais dos fatos, toda filosofia sobre "a" tarefa da "humanidade" e "a" natureza da "moralidade" é perda de tempo.

Isto é o que é verdadeiramente novo em minha abordagem, uma idéia que teve que ser expressa e feita acessível à vida após todo o século XIX ter buscado por ela: a relação consciente do homem faustiana com a história. As pessoas não entenderam por que eu escolhi colocar uma imagem nova no lugar do padrão usual (antiguidade - idade média - tempos modernos). O homem vive constantemente "em uma imagem"; ela governa suas decisões, e molda sua mentalidade. Ele jamais pode se livrar de uma velha imagem até que ele tenha adquirido uma nova e a tenha tornado completamente sua.

"Visão histórica" - isso é possível apenas para o homem europeu ocidental, e mesmo para ele isso é possível apenas desse momento em diante. Nietzsche podia ainda falar da doença histórica. Ele usou este termo para descrever o que ele viu ao seu redor: o romantismo sentimental dos poetas e escritores, a nostalgia onírica dos filólogos pelo passado distante, o habito dos patriotas de timidamente consultar a história prévia antes de chegar a qualquer decisão, a avidez pela comparação, sintomática de independência mental insuficiente.

Desde 1870 nós alemães temos sofrido mais dessa doença do que qualquer outra nação. Não é verdade que nós temos continuamente olhado para os antigos teutônicos, para os cavaleiros cruzados, e para os gregos de Hölderlin sempre que não sabemos o que fazer na Era da Eletricidade? Os britânicos tem sido mais sortudos. Eles preservaram todas as instituições que emergiram após a Conquista Normanda: suas leis, liberdades, e costumes. Em todos os tempos eles tem sido capazes de sustentar uma impressionante tradição sem jamais colocá-la em perigo. Eles jamais sentiram a necessidade de compensar por mil anos de ideais despedaçados olhando nostalgicamente para o passado remoto. A diença histórica perdura ainda no idealismo e humanismo da Alemanha de hoje. Ela está nos fazendo desenvolver planos pretensiosos para melhorar o mundo; cada dia traz algum esquema radicalmente novo e infalível para dar a todos os aspectos da vida sua forma correta e final. O único resultado prático de todos esses desenhos reside no fato de que eles estão exaurindo energícias cruciais através de querelas inúteis, desperdiçando nossas chances de descobrirmos oportunidades reais, e falhando em dar a Londres e Paris qualquer competição real.

Visão histórica é o oposto direto disso. Aqueles que a tem são especialistas - confiantes e frios especialistas. Mil anos de pensamento e pesquisa históricas espalharam diante de nós um vasto tesouro, não de conhecimento, pois isso é relativamente desimportante, mas de experiência. Uma vez que essas experiências sejam vistas na perspectiva que eu acabei de descrever, elas adquirem um significado inteiramente novo. Até agora - isso é mais verdadeiro para os alemães do que para qualquer outra naçã - nós temos olhado para o passado em busca de modelos segundo os quais viver. Mas não há modelos. Há apenas exemplos de como a vida de indivíduos, povos, e culturas tem evoluído, alcançado a maturidade, e se extinguido. Esses exemplos nos mostram as relações que existem entre caráter inato e condições externas, entre Tempo e Duração. Não nos são dados padrões a imitar. Ao invés, nós podemos observar como algo ocorreu, e assim aprender que consequências esperar de nossa situação.

Até agora poucas pessoas tiveram tais percepções, e então apenas em relação a seus pupilos, subordinados ou cotrabalhadores diretos. Alguns estadistas superiores também as tiveram, mas apenas em conexão com personalidades e nações de seu próprio tempo. Essa era a arte refinada de controlar as forças vitais, adquiridas pela habilidade de tomar de assalto suas oportunidades e prever suas mudanças. Com essa arte é possível se tornar mestre sobre outros ou mesmo ser o próprio Destino. Nós estamos agora em uma posição de fazer o mesmo por nossa própria cultura, prevendo seu curso pelos séculos vindouros como se ela fosse um organismo cuja estrutura interior nós estudamos exaustivamente. Nós percebemos que cada fato é uma ocorrência do acaso, imprevista e imprevisível. Ainda assim com a figura de outras culturas diante de nós, nós podemos ter tanta certeza de que a natureza e curso da vida futura, de indivíduos bem como de culturas, não são acidentais. Desenvolvimentos futuros porém, é claro, ser levados à perfeição, ameaçados, corrompidos, e destruídos pela livre escolha de pessoas ativas. Mas eles jamais podem ser afastados de sua direção e sentido.

Isso tornou possível pela primeira vez uma verdadeiramente grande forma de educação. Ela demandará o reconhecimento de potencialidades interiores. Ela significará impor obrigações, não com base em abstrações "ideais", mas em concordância com a previsão de fatos futuros. Ela necessitará do treinamento de indivíduos e gerações inteiras para a realização dessas obrigações. Pela primeira vez nós somos capazes de ver que toda a literatura de "verdades" ideais, todos aqueles esquemas, contornes e inspirações nobres, de boa intenção, e tolas, todos aqueles livros, panfletos, e discursos são completamente inúteis. Todas as outras culturas, em uma fase correspondente de seu desenvolvimento, chamaram essas coisas pelo que elas são e as consignaram ao esquecimento. Seu único efeito tangível foi fazer com que acadêmicos decrépitos escrevessem livros sobre elas depois. Permitam-me repetir: Para o mero observador pode haver tais coisas como verdades; para a vida não há verdades, somente fatos.

Isso me leva à questão do pessimismo. Quando em 1911, sob a impressão dos eventos em Agadir, eu subitamente descobri minha "filosofia", o mundo euro-americano estava infundido com o otimismo trivial da era darwinista. Com o título de meu livro, escolhido em oposição instintiva ao humor dominante, eu inconscientemente coloquei o dedo no aspecto da evolução que ninguém queria ver. Se eu tivesse que escolher de novo agora, eu tentaria com outra fórmula atingir o pessimismo igualmente trivial de hoje. Eu seria a última pessoa a manter que a história pode ser avaliada por meios de um slogan.

Mas seja como for, no que concerne ao "objetivo da humanidade" eu sou um pessimista convicto e cabal. Conforme eu vejo, a humanidade é uma entidade zoológica. Eu não vejo progresso, nem objetivo ou caminho para a humanidade, exceto talvez nas mentes dos progressistas ocidentais. Nessa mera massa de população eu não posso distinguir tal coisa como um "espírito", nem falar em uma unidade de esforço, sentimento, ou entendimento. O único lugar onde eu posso identificar um avanço significativo da vida em direção a algum objetivo particular, uma unidade de alma, vontade, e experiência, é na história das culturas. O que nós descobrimos ali, com certeza, é limitado e factual. Ainda assim nos mostra uma progressão do desejo à realização, culminando em novas tarefas que não assumem a forma de slogans éticos e generalidades mas, ao invés, de objetivos históricos tangíveis.

Quem escolha chamar isso de pessimismo revelará assim seu idealismo absolutamente pedestre. Esse tipo de pessoa vê a história como uma estrada, com a humanidade seguindo constantemente em uma direção, eternamente seguindo algum clichê filosófico ou outro. Os filósofos, cada um a sua própria maneira, mas não obstante "corretamente" em cada caso, há muito já atingiram a terminologia sublime e abstrata para descrever o verdadeiro objetivo e essência de nossa jornada terrena. Consiste ainda em otimismo seguir perseguindo esses slogans sem jamais alcançá-los. Um fim concebível para toda essa busca estragaria o ideal. Quem levante objeção a tudo isso é um pessimista.

Eu me envergonharia se seguisse pela vida com ideais tão vulgares. Há em tudo isso a insegurança dos sonhadores e covardes natos, pessoas que não são capazes de encarar  realidade e formular um objetivo real com umas poucas palavras razoáveis. Eles insistem em generalidades amplas que brilham à distância. Isso acalma os medos daqueles que são impotentes em relação a tudo que demanda liderança ou iniciativa. Eu sou consciente de que um livro como o meu pode ter consequências devastadoras para essas pessoas. Alemães tem escrito para mim da América, que para pessoas determinadas em ser algo na vida, o livro possui o efeito de um tônico fortificante. Ainda assim, aqueles nascidos apenas para sonhos, poesia, e oratória podem ser contaminados por qualquer livro. Eu conheço esses "belos jovens"; as universidades e círculos literários estão repletas deles. Primeiro foi Schopenhauer, e então Nietzsche, que os libertaram da obrigação de gastar energias. Agora eles encontraram um novo libertador.

Não, eu não sou um pessimista. Pessimismo significa não ver mais qualquer tarefa. Eu vejo tantas tarefas por resolver que eu temo que não terei nem tempo, nem homens suficientes para realizá-las. Os aspectos práticos da física e da química nem ao menos se aproximam dos limites de suas possibilidades. A tecnologia tem ainda que alcançar seu pico em quase todos os campos. Uma das principais tarefas ainda confrontando a filologia clássica é criar uma imagen da antiguidade que removerá das mentes de nossa população educada a imagem "clássica", com seu convite ao idealismo pedestre.

Não há lugar melhor do que a antiguidade clássica para entender como as coisas realmente estão no mundo, e como o romantismo e os ideais abstratos tem sido despedaçados de novo e de novo por eventos factuais. As coisas seriam bastante diferentes para nós se nós tivéssemos gasto mais tempo na escola com Tucídides e menos com Homero. Até agora nenhum estadista já pensou em escrever um comentário sobre Tucídides, Políbio, ou Tácito para nossos jovens. Nós não temos nem uma história econômica da antiguidade, nem uma história da política antiga. Apesar dos paralelos assombrosos com a história européia ocidental ninguém jamais escreveu uma história política da China até o reino de Shih Huang Ti. A Lei, imposta pela estrutura social e econômica de nossa civilização, está ainda em seus estágios iniciais de ser investigada. Segundo aqueles familiares com o campo, a ciência da jurisprudência tem ainda que se expandir para além da filologia e do escolasticismo seco. A economia política ainda não é efetivamente uma ciência.

Eu vou evitar discutir as tarefas políticas, econômicas, e organizacionais que nós encaramos em nosso próprio futuro. O que nossos contemplativos e idealistas estão buscando é uma Weltanschauung confortável, um sistema filosófico que demanda apenas que sejamos convencidos por ele; eles querem uma desculpa moral para sua covardia. Esses são os debatedoes natos que desperdiçam seus dias nos rincões remotos da vida discutindo coisas. Deixemos que eles fiquem lá.

Nós não podemos desenvolver um programa para o futuro milênio da humanidade sem correr o risco dele ser abortado imediatamente pela realidade. É possível, porém, fazer algo do tipo para os próximos poucos séculos de cultura faustiana, cujos contornos históricos são visíveis. Quais são as implicações desses fatos? O orgulho puritano da Inglaterra diz, "Tudo é predestinado. Portanto eu devo emergir vitorioso". Os outros dizem, "Tudo é predestinado. Isso é prosaico e nada idealista. Assim não vale a pena nem tentar". Mas a verdade é que as tarefas encarando as pessoas factuais entre nós ocidentais são inúmeras. Para os românticos e ideólogos, porém, que não podem pensar o mundo sem escrever poemas, pintar quadros, desenvolver sistemas éticos, ou solenes Weltanschauungen, é bem compreensivelmente um prospecto desesperançoso.

Eu afirmarei diretamente - que aqueles que quiserem chorem em protesto: a importância histórica da arte e do pensamento abstrato é seriamente superestimada. Não importa o quão importante seu papel tenha sido durante grandes eras, sempre houve coisas mais essenciais. Na história da arte a importância de Grünewald e Mozart não pode ser superestimada. Na história real das de Carlos V e Luís XIV sua existência é completamente insignificante. Pode ser que um grande evento histórico estimule um artista. O reverso jamais ocorreu. O que está sendo produzido ao nível de arte hoje nem ao menos possui importância para a história da arte. E no que concerne a filosofia acadêmica de hoje, nenhuma de suas várias "escolas" possui a menor pertinência para a vida ou para a alma. Nem nossos cidadãos educados ou acadêmicos nas outras disciplinas estão realmente prestando atenção a elas. Tudo para que elas servem é para que dissertações sejam escritas sobre elas, que serão citadas em ainda outras dissertações, nenhuma das quais jamais será lida a não ser por futuros professores de filosofia.

Foi Nietzsche quem questionou a validade da ciência. Já é hora de fazermos as mesmas perguntas à arte. Eras sem arte e filosofia genuínas podem ainda ser grandes eras; os romanos demonstraram isso para nós. Porém para aqueles que estão sempre um passo atrás dos tempos, as artes são sinônimo da própria Vida.

Não para nós, porém. Pessoas me disseram que sem arte a vida não vale a pena ser vivida. Eu pergunto em retorno: Para quem ela não vale a pena ser vivida? Eu não daria a mínima para o fato de ter vivido como escultor, filósofo ético, ou dramaturgo nos dias de Caio Mário e César. Nem eu me interessaria por ter sido membro de algum Círculo Stefan George, atacando a política romana de trás do Fórum com a pose grandiosa do littérateur.

Ninguém poderia ter uma afinidade maior pela grande arte de nosso passado - pois não há nenhuma hoje - do que eu. Eu não me interessaria por viver sem Goethe, Shakespeare, ou os grandes monumentos arquitetônicos antigos. Eu fico excitado com qualquer obra de arte renascentista sublime, precisamente porque eu tenho noção de suas limitações. Eu amo Bach e Mozart mais do que posso expressar; mais isso não pode me fazer falar dos milhares de escritores, pintores, e filósofos que inundam nossas cidades como verdadeiros artistas e pensadores.

Há mais pintura, escrita, e "delineações" acontecendo na Alemanha hoje do que em todos os outros países juntos. Isso é cultura? Ou é uma deficiência de nosso senso de realidade? Nós somos tão ricos assim em talento criativo, ou carecemos de energia prática? E os resultados justificam de alguma maneira toda a auto-propaganda barulhenta?

O expressionismo, a moda de ontem, não produziu uma única personalidade ou obra artística notável. Assim que eu comecei a questionar a sinceridade daquele movimento eu fui silenciado por mil vozes. Pintores, músicos, e poetas tentaram provar que eu estava errado, mas com palavras, não com ações. Eu estarei refutado quando eles se apresentarem com um equivalente de Tristão, da Sonata para Piano nº29, de Rei Lear, ou das pinturas de Marées.

É um grande equívoco considerar esses "movimentos" flácidos, afeminados, supérfluos como os fenômenos necessários de nossa era. Eu chamo isso de abordagem decorativa. A arquitetura, a pintura, a poesia, a religião, a política, mesmo a filosofia são tratadas como artesanatos, como técnicas que podem ser ensinadas e aprendidas entre as quatro paredes do estúdio. Este é o argumento que emana de todos os nossos "círculos" e fraternidades, cafés e salões de leitura, exibições, jornais, e editoras - e seu fedor alcança os céus. Ele não apenas quer ser tolerado, como ele quer domínio total. Ele se diz alemão. Ele almeja reivindicar o futuro.

Mesmo nessa área eu vejo tarefas a nossa frente, porém eu procuro em vão pelos homens (homens!) para realizá-los. Uma das tarefas para nosso século é o romance alemão. Até agora nós tivemos apenas Goethe. A arte do romance demanda personalidades impressionantes, superiores em vigor e amplitude de visão, geradas em excelência cultural, altivas porém dotadas de tato em suas perspectivas. Ainda não há prosa alemã comparável à inglesa e à francesa. O que nós temos é o estilo individual de escritores singulares, exemplos isolados de maestria pessoal contra um pano-de-fundo de performance média muito pobre. O romance poderia fazer emergir essa melhora. Hoje em dia, porém, homens práticos como os industrialistas e oficiais do exército estão usando uma linguagem melhor, mais sonora, mais clara, e mais profunda do que os rascunhadores de quinta categoria que acham que estilo é um esporte.

Aqui na terra de Till Eulenspiegel nós temos que ainda produzir uma comédia à grande maneira, sublime e profunda, esperta, trágica, leve e refinada. É agora quase a única forma remanescente na qual um escritor pode ser poeta e filósofo ao mesmo tempo, e sem pretensiosidade. Como Nietzsche há pouco tempo, eu ainda sinto a necessidade por uma Carmen alemã, cheia de tempero espirituosidade, faiscando com melodia e ritmo, uma obra para se erguer na orgulhosa tradição de Mozart, Strauss, Bruckner, e do jovem Schumann. Mas os acrobatas orquestrais de hoje são incompetentes. Desde a morte de Wagner nenhum único grande criador de melodia apareceu em cena.

Houve um tempo em que a arte era uma iniciativa vital, quando o ritmo da vida tomava o controle de artistas, de suas obras, e de seu público de maneira tão notável que a profundidade de pensamento, ao invés da exatidão formal, era o verdadeiro critério de grandeza artística. Ao invés desse ritmo vital, nós temos hoje o que é chamado de "contorno criativo" - a coisa mais desprezível imaginável. Tudo que carece de vida está sendo "delineado". Estão "delineando" uma cultura privada com teosofia e cultistas; estão "delineando" uma religião privada com edições de Buda em papel manufaturado; estão "delineando" um Estado no espírito de Eros. Desde a Revolução tem havido "delineamentos" para agricultura, comércio, e indústria.

Esses ideais deveriam ser despedaçados; quanto mais barulhento, melhor. Dureza, dureza romana está agora assumindo o controle. Logo não haverá espaço para nada mais. Arte, sim; mas em concreto e aço. Literatura, sim; mas escritas por homens com nervos de aço e profundidade descompromissada de visão. Religião, sim; mas pegue seu hinário, não sua edição clássica de Confúcio, e vá à Igreja. Política, sim; mas nas mãos de estadistas, e não idealistas. Nada mais será de consequência. E nós não devemos jamais perder de vistas o que se encontra por trás e diante de nós, cidadãos desse século. Nós alemães jamais produziremos de novo um Goethe, mas sim um César.


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