quarta-feira, 7 de março de 2012

Quarta Aula de Eva Perón - 12/04/1951

por Eva Perón


Em minhas aulas anteriores, falei da história universal, referindo-me às duas histórias: a dos homens e a das massas em seu afã por converter-se em povo, e a história dos grandes homens até chegar em Perón. Aqui paramos, como quem se detém logo de haver viajado à noite, contemplando nas estrelas a aurora que logo chega com o sol.

Fomos à história das massas, em seu afã para converter-se em povo, ou seja, em suas lutas de superação, até chegar ao 17 de Outubro, que talvez seja a história mais formidável de um povo defendendo seu próprio destino. O quê é um povo para um peronista? Eu acreditava que se havia esgotado o tema na classe anterior e havia me disposto hoje para falar da história do capitalismo, pensando que assim, por contraste de luz e sombras, nos entenderíamos melhor e entenderíamos melhor o peronismo, mas meditando sobre o tema de minha última aula, adverti que, todavia, não tinha terminado e que ainda havia muitos pontos, para mim, de fundamental importância. Não quero deixar de insistir sobre o tema das massas e dos povos na história, porque, para mim, quem não entende e sinta bem o quê é o povo, não poderá ser jamais um autêntico peronista.

Eu sempre digo que os três grandes amores de um peronista são o povo, Perón, e a Pátria, e vejam vocês, se um peronista pode ser um peronista sem entender estes três grandes amores, tal como o sinto, e não somente como uma linda palavra.

O amor é o sacrifício, e ainda que isso pareça um título de uma novela sentimental, é uma verdade grande como o mundo e a história. Não há amor sem sacrifício, mas nada se sacrifica por algo que não se quer, e nada se pode querer o que não se conhece. Nós dizemos muitas vezes que estamos dispostos a morrer pelo povo, pela Pátria e por Perón, mas quando esse momento chegar, se chegar – e não sejamos traidores, desleais e vendedores da pátria -, teremos que sentir verdadeiramente esses três grandes amores, e por isso devemos conhecê-lo íntima e profundamente.

É necessário conhecer, sentir e servir ao povo, para ser um bom peronista. Há muitos peronistas, já o são; mas nós queremos peronistas na prática e não na teoria.

É urgente que insistamos, dentro de nosso movimento, a necessidade que temos de fazer conhecer e amar ao povo – e vocês verão, mais adiante, porque é urgente, e ainda mais em nosso movimento – se é que não queremos perder e estragar esta maravilhosa doutrina que o General Perón nos deu. Talvez isto seja mais necessário para conhecer e querer mais profundamente Perón.

O General tem uma grandeza espiritual tão extraordinária que está sempre muito presente nos nossos sentimentos e no nosso coração; mas muito temo que não aconteça o mesmo com o povo, e as vezes penso que não são todos os peronistas que me entendem e me crêem quando digo que Perón é o povo.

Não se deram conta, todavia, do que isso significa; não hão advertido que isso significa que para querer Perón há que querer o povo; que não se pode ser peronista sem conhecer, sem sentir, e sem querer, o povo – mas querê-lo profundamente – e, sobretudo, servir a causa do povo. Um peronista que não conhece, não sente, e não serve ao povo, para mim, não é peronista.

Demonstrarei nesta aula de hoje que a melhor maneira de saber se um peronista é verdadeiramente peronista consiste em saber se tem um conceito peronista do quê é povo; se sente o mesmo em relação ao povo e não possui ambições de privilégios; se serve lealmente o povo.

Vocês dirão que no lugar de dar minha aula de história sobre o peronismo eu estou ditando meticulosamente a moral peronista. Não é o caso. Havia dito na aula anterior que iria falar sobre o capitalismo, mas primeiro acreditei ser melhor dar uma aula de ética peronista e, especialmente, sobre oligarquia, para depois passar ao capitalismo. E para não ser oligarca e ser um bom peronista, teremos que nos basear em um amor profundo pelo povo e por Perón, sustentando-se em valores espirituais e em um grande espírito de sacrifício e renúncia, não proclamamos senão profundamente sentidos.

Todas estas coisas não as digo por que sim, nem porque gosto do tema. Vocês sabem que dizer a verdade me custou muitas dores de cabeça, e posso dizer com orgulho que nunca fui desleal a quem foi leal à Perón.



Mas também posso dizer com orgulho que jamais tive mantida minha amizade em um círculo ou em um grupo, senão que nada mais do que a lealdade, e a lealdade não me compromete nada mais do que enquanto se é leal a Perón, se é leal ao povo e ao movimento.

Se falo dessas coisa, é porque sei que o General se preocupa com o tema, e deve nos preocupar à todos os que queremos profundamente o movimento, e ansiamos que seja um movimento permanente. Preocupa, sobretudo, que todavia há peronistas que, por seu afã de obter privilégios, mais bem parecem oligarcas. Meus ataques à oligarquia vocês conhecem bem, porque não ouviram só uma, mas muitas vezes em meus discursos.

E estou segura de que alguns de vocês têm pensado sobre o quê outros me hão dito tantas vezes: “por que se preocupa tanto, senhora, se essa classe de gente não voltará mais ao governo?”.

Não; já sei que a oligarquia, a de 17 de Outubro, a que esteve na praça San Martín, essa não voltará mais ao governo, mas não é essa que me preocupa. A que me preocupa é a que pode voltar. O quê me preocupa é que pode retornar ‘espírito’ oligarca em nós. É disso que eu tenho medo, muito medo, e para que isto não suceda hei de lutar enquanto tenho um pouco de vida – e hei de lutar muito – para que nada se deixe tentar pela vaidade, pelo privilégio, pela soberba ou ambição.

Eu tenho medo do ‘espírito’ oligarca por uma simples razão. O ‘espírito’ oligarca se opõe completamente ao espírito do povo. São duas coisas totalmente distintas, como o dia e a noite, como o azeite e o vinagre. Vamos demonstrar o ‘espírito’ oligarca na história, trazendo alguns exemplos. Eu, em minhas lutas diárias – e vocês as têm visto – para ser uma boa peronista, trato de ser mais humilde, trato de jogar fora de mim toda vaidade que pode tomar espaço no meu coração. Eu não podia ser a esposa do General Perón, nem boa peronista, se tivesse vaidade, orgulho, e, sobretudo, ambição, porque a ambição é o ‘espírito’ oligarca que botaria todo nosso movimento a perder.

Eu não sei o quê pensarão de mim os historiadores e os que comentam a história, mas creio firmemente – e desta idéia não me poderão pegar – que a causa de todos os males da história dos povos é, precisamente, o predomínio do espírito oligarca sobre o espírito do povo. Qual é o espírito oligarca? Para mim, é o afã do privilégio, a soberba, o orgulho individualista*, a vaidade e a ambição; digo, o quê fez milhares e milhares de escravos sofrerem no Egito, que viviam e morriam construindo as pirâmides; é o orgulho, a soberba, e a vaidade, de uns quantos privilegiados que faziam, em Grécia e Roma, sofrer os hilotas e escravos; o espírito oligarca é de uns poucos espartanos e aristocráticos e de uns poucos patrícios que governavam Esparta, Atenas e Roma; o sofrimento de milhões e milhões de hindus se deveu ao orgulho das seitas dominantes; a dor da Idade Média deveu-se à soberba dos senhores feudais, dos reis e dos imperadores ambiciosos, que só pensavam em dominar seus iguais; o sofrimento que provocou a rebeldia do povo francês em 1789, a Revolução Francesa, tem causa nos privilégios da nobreza e do clero; a Rússia dos czares, que fez nascer no mundo a revolução comunista, é outra expressão dos sofrimentos provocados pelo espírito oligarca, a vaidade, a ambição, o egoísmo, e o orgulho, de uns poucos, esmagando as massas.

O peronismo que nasce em 17 de Outubro é a primeira vitória real do espírito do povo sobre a oligarquia. A Revolução Francesa, tal como a história testemunha – e eu trato de aprofundá-la e de ler muito sobre o que se tem escrito não foi realizada pelo povo, mas pela burguesia. Isto, não recordamos muito frequentemente.

A burguesia se aproveitou da real loucura desse povo faminto, despossuídos, e é por isso que preferimos recordar da Revolução Francesa três palavras de seu lema: Liberdade, Igualdade, e Fraternidade, três belas palavras dos intelectualóides franceses, que diziam coisas muito belas, mas que realizavam muito pouco. E é por isso que nos esquecemos de algo extraordinário. Nos esquecemos de que a Constituição de 1789 proibia a sindicalização. Pode uma revolução ser do povo quando dita uma Constituição que proíbe a sindicalização?

O povo seguiu a burguesia, mas esta não respondeu honrada e lealmente ao povo, que jogou sua vida na vala.

A Revolução Francesa quis suprimir, e conseguiu, até com a guilhotina, ao privilégio aristocrático, mas trouxe ao mundo o conceito de liberdade individual absoluta, criando com esse conceito outros privilégios, como o da riqueza, que conduziu tudo rapidamente ao capitalismo.

A revolução russa também quis suprimir a oligarquia aristocrática, utilizando para ela o povo, cuja reação violenta também provocou a morte dos czares. Mas depois se criou na Rússia uma nova oligarquia: a de uns quantos homens que não consultam ao povo, senão que o levam aonde o querem. Eles não fazem o quê o povo quer, mas o povo tem que fazer o quê eles querem. Creio que há uma pequena diferença...

Tão oligárquico é o sistema feudal como o absolutismo dos reis, como o sistema de casta que imperou em nosso país, sistema fechado com a “Yale”, dos apelidos ilustres que conhecemos. Tão mais ilustres esses apelidos quanto mais tinham dinheiro no banco. Tão oligárquico o sistema capitalista que domina desde Wall Street até o sistema comunista que impera na Rússia.

Portanto, afirmo que o peronismo nascido em 17 de Outubro é uma vitória do povo autêntico sobre a oligarquia. E para que esta vitória não se perca, como se perdeu a Revolução Francesa e a revolução russa, é necessário que os dirigentes do movimento peronista não se deixem influenciar pelo espírito oligarca.

É necessário, portanto, que todas essas coisas que dizemos não caiam no vazio. Eu às vezes observo que quando se disse coisas importantíssimas, nos aplaudem, se temos razão, mas na prática fazem tudo o contrário. Há que aplaudir e gritar menos, e atuar mais. Claro que ao dizer isto, falo no geral.

Nosso movimento é muito sério, porque temos um homem, o General Perón, que está queimando sua vida para nos deixar consolidada sua doutrina e para entregar-nos e depositar em nossas mãos a bandeira da justiça e uma Pátria socialmente justa, economicamente livre e politicamente soberana.

Isso era para nós um sonho. Era um sonho para os argentinos, pensar que algum dia, em nosso país, um homem, com sentido patriótico, um homem extraordinário, e sobretudo com grande valentia, pudera anunciá-lo e realizá-lo.

Porém, há que reconhecer que o homem que há criado sua doutrina e que há realizado esta obra tão extraordinária, é um homem de valores morais extraordinários.

Nós vemos em Perón a humildade, um homem simples, sem vaidade ou orgulho, um homem que sente alergia pelos privilégios.

Então, nós, que desejamos Perón, tratamos de nos unir, tratamos de nos igualarmos a ele, tratamos de nos sentir humildes, de não sermos ambiciosos, de não sentir orgulho nem vaidade.

Nisto, é só o que podemos tratar de igualarmos a Perón, e, se conseguirmos, vai ser tão grandioso que teremos banido o peronismo do espírito oligarca, que, do contrário, terminaria conosco. Perón não veio montar outra casta; ele veio implantar o povo, para que seja soberano e governe. Por isso, temos que nos sentir humildes e consultar ao povo todo, mas consultá-lo também em sua humildade. Não sentirmos, quando o movimento nos chama a uma função, importantes nem poderosos.

A mim me preocupa extraordinariamente esta questão. Hei tido uma grande desilusão com gente a que aprecio, quando vi se esvanecer como pavões, quando vi sentirem-se importantes. Não há mais importância, nem mais privilégio, nem mais orgulho, que sentir-se povo. Mas alguns se sentem senhores; e o senhor não se sente, se nasce assim, ainda nos mais humildes! Quando vi em personagens, me entrou frio, medo, angústia, e uma profunda tristeza. Mas a força e a esperança me renasce quando vejo Perón trabalhando incansavelmente e o povo colaborando com ele.

Eu observo o General, porque não quero ser dentro do movimento nada mais que uma boa aluna sua; quero servir ao movimento e não servir-me dele. Se atuarmos assim sempre, a humanidade seria mais feliz e seríamos muito mais úteis ao povo.


O General Perón é humilde, apesar de todo seu poder, e não digo poder por ser o Presidente da República, mas do seu poder espiritual, pois o é muito mais poderoso que seus títulos, que seus galões e direitos, porque reina sobre o coração de milhões de argentinos.

Eu tenho visto o General não com essa embalagem humilde e fingida a qual vocês às vezes advertem sobre os homens, nos pequenos detalhes, mas que nos grandes, e que é o teatro que muitos políticos fazem, que parecem muito humildes para que os vejamos em grupo, mas que no fundo são déspotas, soberbos, vaidosos, e frios. A Perón, do contrário, que há feito obras extraordinárias, o vejo todas as manhãs ao chegar à Casa do Governo – para dar um exemplo, porque, como dizia Napoleão, com um exemplo se esclarece o todo – tocar o anel e dizer, sempre, à portaria que acude: “Bom dia, filho; quer fazer-me o favor de me trazer um cafezinho?”. E quando o trazem, assim seja com um embaixador, com um ministro, ou que o for, o dá um abraço, agradecendo-lhe; mas isso é normal nele, sai de dentro. Não é teatro: sai do coração. E eu penso, então, se todos os peronistas, seríamos capazes de fazer outro tanto. Não temos que ter privilégio de sermos gênios e grandes como Perón, mas podemos nos propor em ser bons como ele.

As pessoas se esquecem facilmente do povo, e nós, os peronistas, que dizemos que queremos Perón, que amamos profundamente sua figura, seu nome, sua doutrina e seu movimento, não podemos nem devemos esquecer jamais do povo, porque se traímos Perón, traímos sua maior preocupação. Não esqueçam que Perón trabalha, luta, sonha, e se sacrifica por um ideal: seu povo.



Alguns peronistas não se dão conta de que tudo o quê somos, devemos a Perón e ao povo, e às vezes não acreditamos que chegamos por nós mesmos, nos consideramos importantes e insubstituíveis, e até às vezes nos cremos diretores de orquestra. De qual orquestra somos diretores?

A humildade deve ser uma de nossas grandes preocupações, como a bondade, a falta de vaidade, e a ausência de ambição. Não devemos ter mais que uma só ambição: a de desempenhar bem nosso cargo dentro do movimento.

O General Perón disse faz alguns dias: não são os cargos que dignificam os homens, mas os homens quem honram seus cargos. Nós devemos aspirar a ocupar um cargo de luta, não importa qual for, mas cumpri-lo honradamente, com espírito de sacrifício e de renúncia, que nos traga ante nossos companheiros dignos do movimento e nos eleve em consideração de todos. Assim cumpriremos com o povo e com o movimento. Não esqueçamos do homem que trabalha até o sol se pôr, para construir a felicidade de todo o povo argentino e a grandeza da Nação, e nós, sob sua sombra maravilhosa, não devemos amargar seus sonhos de patriota, com ambições mesquinhas e desmesuradas como as que alguns peronistas que já se crêem dirigentes importantes.

A característica exclusiva do peronismo, a qual nenhum outro sistema tem feito até agora, é a de servir o povo, e, aliás, a de obedecer-lho. Quando em cada 17 de Outubro, Perón pergunta ao povo se está satisfeito de seu governo, talvez por ter Perón demasiado próximo, não nos detemos em pensar nas coisas tão grandes a que tem nos acostumados, a algo que não se passa na humanidade. Quando, algum governante, alguma vez no mundo, reuniu uma vez por ano o povo para perguntar-lhe se está satisfeito com seu governo?

Quando, algum governante no mundo, disse que não haverá nada senão o que o povo quer? Entretanto, Perón pode falar porque seu coração está junto ao do povo. A atitude argentina do General Perón na Conferência de Cancilleres: “Não se colocará tropas no exterior sem consultar ao povo!”, não se tem visto nunca no mundo, quando um governo tem perguntado, antes de enviar tropas ao exterior, se o povo está conforme? Nunca foi feito, porque quando hão querido, enviaram tropas ao exterior sem consultar jamais o povo.

Estes três exemplos nos demonstram a grandeza de Perón, a honradez de seus procedimentos, o amor profundo e querido que sente pelo povo e o respeito pelo “soberano”, que de soberano não tinha mais do que o nome, até que Perón chegou, porque o povo jamais tinha sido respeitado. Assim é o General Perón, e se o é, tratando de ouvir as inquietudes do povo, como nós peronistas, que o acompanhamos e pretendemos ajudá-lo, não vamos ao extremo com nossa energia e esforço para aproximarmo-nos em desejo de servi-lo leal, honrada, e humildemente?

Esse deve ser um dever dos peronistas. Devemos pensar sempre que o General Perón respeita o povo, não somente nas questões fundamentais, mas também nas pequenas.

Eu disse outro dia que a massa não faz mais do que sentir, que não pensa. Por isso os totalitarismos, sejam fascistas ou comunistas, organizam o povo como um treinado soldado militar, para que este sirva melhor à pátria. Perón, entretanto, favorece o sindicalismo e a organização do povo, não para que o povo sirva o peronismo, mas para que o peronismo sirva melhor o povo, entre os quais há uma grande diferença. A fim de que o povo conserve e conquiste seus direitos, Perón trata o povo, não como um militar aos seus soldados, mas como um pai aos seus filhos. Como Perón faz, servindo o povo, devemos fazer cada vez mais.

Eu quis que essa aula – e é um desejo fervente meu – vocês tivesse sempre muito presente em seus corações e em suas mentes para tratar todos os dias de incutir aos peronistas e nós mesmos adotá-la em nossos procedimentos, e assim nos sentiremos mais tranqüilos em nossa consciência de peronistas, de argentinos, de mulheres e homens do povo. Nossa consigna deve ser a de servir o povo e não nosso egoísmo, que no fundo todos temos, nem à nossa ambição, porque isso seria ter o quê eu chamo de espírito oligarca.

Vamos dar um exemplo de espírito oligarca, mesmo que eu já tenha dado muitos: o funcionário que se serve do seu cargo é um oligarca. Não serve ao povo senão que à sua vaidade, ao seu egoísmo, ao seu orgulho, e à sua ambição. Os dirigentes peronistas que formam círculos pessoais servem aos seus egoísmos e desmesurada ambição.

Para mim estes não são peronistas. São oligarcas, são ídolos de barro, porque desprezam o povo, ignorando-lhes e até compadecendo-lhes. A oligarquia de 17 de Outubro, a que derrotamos este dia, para mim está morta. Por isso que tenho mais medo da oligarquia que pode star dentro de nós, que a esta que vencemos em 17 de Outubro, porque aquela nós combatemos, arrolamos e vencemos. Entanto que essa pode nascer cada dia em nós. Por isso, os peronistas devemos tratar de ser soldados para matar e esmagar essa oligarquia onde quer que nasça.

Nós dizemos, com Perón, que não queremos nem reconhecemos mais que uma classe de homens: a dos que trabalham. Isto quer dizer que para nós não existe mais de uma só classe de argentinos, a que constitui o povo, e o povo é autenticamente trabalhador.

Quê diferença há entre esta nova classe e a classe oligárquica que governou até 1943? É muito fácil explicá-la.

A oligarquia era uma classe fechada, ou seja, como eu disse anteriormente, uma casta. Nada podia entrar nela. O governo os pertencia, como se nada mais que a oligarquia pudesse governar o país. Em realidade, como que a eles dominava o espírito da oligarquia, que é egoísta, orgulhoso, soberbo e vaidoso, todos estes defeitos e más qualidades os levaram pouco a pouco aos piores extremos, e terminaram vendendo tudo, até a Pátria, com tal de seguir aparentando riqueza e poder.

Quando vemos um político que não quer que nada mais que seus amigos entrem no círculo, pensamos que também é um oligarca. Esse também quer preparar outra casa para ele, mas se esquece que há muitos soldados e servidores do General, que o interpretamos, que o seguimos honradamente, que temos o privilégio de sermos os eternos vigias da Revolução.

Portanto, estaremos em guarda permanente para destroçar e esmagar esses senhores que vocês conhecem, como disse anteriormente. O peronismo é um movimento aberto à todo o mundo. Vocês vêem que qualquer que chega a mim, seja um dirigente deste ou de outro, sempre digo que ele, para mim, não é mais que um dirigente de Perón. Quando me dizem que Fulano é dirigente que responde a Mengano ou a Zutano, penso que não é um dirigente, mas um canalha, porque sob o lema da Justiça, o povo e a Pátria constituem uma grande família, na qual todos somos iguais, felizes e contentes, respondendo somente à Perón.

Dentro do nosso movimento não é necessário ter títulos universitários, ser intelectual, nem ter quatro apelidos, para integrar o governo de Perón. Ao lado dele há homens de todas as condições sociais: médicos, advogados, pedreiros, ricos e pobres, de todas as classes, mas sem esse espírito oligarca, que é a negação do nosso movimento. Pelo menos aspiramos a isso. Nesse sentido, temos uma árdua e longa tarefa para realizar. Qualquer peronista pode chegar a ocupar os mais altos cargos dentro do nosso movimento. Se trabalha honradamente, pode aspirar a qualquer, e nesse sentido devemos ter em conta uma frase do General Perón, que se deveria gravar no coração de todos os peronistas: “Sejam todos artífices do destino comum, mas nenhum instrumento de nenhuma ambição”.

Não sejam tontos, aqui não se necessita de padrinhos; aqui, o único que se valoriza é o sacrifício, a eficácia e o trabalho. Eu sempre senti alergia pelos recomendados.

Sempre os atendi muito bem e os solucionaram o assunto, mas sempre tive uma profunda pena de que essas pessoas não sabem que não necessitam a recomendação. No nosso movimento não há mais recomendação do que ser peronista. É por isso que qualquer peronista, por humilde que seja, pode aspirar, como hei dito, aos mais altos cargos, com somente tratar de interpretar as inquietudes do General Perón. Isto é fundamental para que nós possamos formar um governo permanente, consolidado no espaço e no tempo. Nosso movimento é o mais profundo e maravilhoso de todos, porque tem uma doutrina perfeita e um condutor genial como General Perón.

Eu, que tenho a debilidade de estudar profundamente todos os grandes da história, e vocês, que haverão feito tanto como eu, sabemos que em todos os grandes homens há erros e defeitos, que se perdoa por serem gênios, e aos gênios se perdoa tudo. Mas – às vezes, aos argentinos parece mentira – Perón é um gênio que não possui defeitos, e se tivesse um, seria um só: ter um coração demasiado grande, que seria o mais sublime de todos os defeitos, já que Cristo perdoou aqueles que o crucificaram. Nós devemos pensar nisso, na grandeza, nas virtudes, e nas condições morais do General Perón, e, sobretudo, em sua humildade, que é o que o torna maior.

Deveríamos, nós, elevar todos os dias nosso olhar e nossa memória, à figura patrícia do General Perón; seríamos, então, cada dia melhor. E ao deitarmo-nos, deveriamos realizar um balance do que temos feito, e ver se temos tratado bem um companheiro, se temos servido honradamente ao povo, se temos cumprido com humildade, com desinteresse e com sacrifício, nosso trabalho. Então, podemos nos deitar tranquilos, porque cumprimos com a Pátria, com Perón, e com o Povo.

Eu pretendi que meu escritório fosse o mais popular e o mais sem-camisa; não em suas paredes – porque não nos vestimos de trapos para receber o povo, mas nos vestimos de gala para receber-los com as melhores honrarias, como se merece - , mas sim sem-camisa pelo carinho, pelo coração, a humanidade e o espírito de sacrifício e de renúncia. Às vezes me parece que isto não é suficientemente grande para merecer ser, eu, a esposa do General Perón; mas penso que não posso me assemelhar ao General, porque Perón há somente um, mas trato, pelo menos, de merecer o carinho e a consideração do General e dos peronistas, trabalhando com um grande espírito de desinteresse, de sacrifício, de renúncia, e de amor. E é por isso que quando chegam ao meu escritório os ministros, eu me alegro, porque os vejo mesclados com os trabalhadores e com os pobres, quero dizer, com nosso povo autêntico. E creio que assim, me vendo trabalhar confundida com o povo, e vendo a maravilha que nosso povo é, não se farão oligarcas.

Isso significa que nós queremos uma só classe de argentinos. Não quer dizer que queremos que não haja ricos, e que não haja intelectuais e homens superiores. Bem pelo contrário: o grande do peronismo é que todos os argentinos podem chegar a ser o que querem, até Presidente da República.

Prova de que o peronismo quer isto, é que temos um ministro trabalhador, agregamos trabalhadores nas embaixadas, trabalhadores nas Câmaras, trabalhadores em todas as partes; e também no aspecto cultural temos o teatro trabalhador e os salões de arte trabalhadores, ainda que nesse aspecto temos muito, muito, o quê fazer, para cumprir com os desejos e com as inquietudes do General Perón.

Graças ao General Perón, nós logramos ter as universidades abertas a todo o povo argentino. Isso nos demonstra a preocupação do governo argentino por elevar a cultura do povo e porque nosso povo pode chegar às universidades, que já não estão reservadas a uns poucos privilegiados. Agora, os humildes podem ser advogados e médicos, de acordo com suas vontades.

Eles, com seu senso de povo, serão mais humanos, e as futuras gerações poderão nos agradecer de que os tornamos compreendidos e apoiados.

Ser peronista, para fazer a síntese de tudo que foi falado, requer ter os três amores a que eu fiz menção no início: o Povo, Perón, e a Pátria. O peronismo é a primeira vitória do povo sobre a oligarquia; por isso há que cuidá-lo e não desvirtuá-lo jamais. O peronismo só se pode desvirtuar pelo espírito oligarca que pode infiltrar-se na alma dos peronistas, e perdoem, meninas e meninos, que eu repita tanto isto, mas se assim o faço é porque quis que o levassem sempre profundamente gravado nos seus corações. É fundamental para nosso movimento.

Para evitar que se desvirtue o peronismo, há que combater os vícios da oligarquia com as virtudes do povo. Os vícios da oligarquia são: em primeiro lugar, o egoísmo, poderíamos tomar como exemplo o termo de Las Damas de Beneficencia.

Faziam caridade, mas uma caridade degradante. Para dar, há que se fazer perdoar o ter que dar. É mais lindo receber do que dar, quando se sabe dar, mas as damas tratavam sempre de humilhar aos que ajudavam. Depois da desgraça de ter que pedir, o humilhavam no momento de dar a esmola, com a qual nem sequer solucionavam o problema. Em segundo lugar, está a vaidade. A vaidade traz consigo a mentira e a dissimulação, e quando se entra na mentira e na dissimulação o homem deixa de ser construtivo, na sociedade. Em último lugar, temos a ambição e o orgulho, com os quais se completam os quatro vícios da oligarquia: egoísmo, vaidade, ambição, e orgulho.

As virtudes do povo são: em primeiro lugar, a generosidade. Todos vocês hão advertido o espírito de solidariedade que há entre os sem-camisa. Quando um companheiro de fábrica cai em desgraça, em seguida se faz uma coleta para ajudá-lo, coisa que não ocorre em outros ambientes. O mesmo é o caso dos trabalhadores e os da Fundação. Eles viram que a Fundação ia diretamente ao povo, diferente das ‘damas de benevolencia’ que guardavam oitenta e davam vinte, de cada cem que recebiam, com o quê o povo havia perdido a esperança e a fé. Como teria prestígio alguma coisa na qual o povo não acreditava? Quando viram que a Fundação realizava o caminho novo do peronismo, de ajudar e de defender os centavos como se fossem pesos, os trabalhadores se aglutinaram e desinteressadamente contribuíram a uma obra que vinha servir, honrada e lealmente, a seus próprios companheiros. É assim que foi feito o milagre de que as massas trabalhadoras sejam as verdadeiras criadoras da obra da Fundação.

Temos logo a sinceridade. A sinceridade é a virtude inata de nosso povo, que fala de sua franqueza. O desinteresse: vocês vêem que os sem-camisa são puro coração, são desinteressados. E a humanidade que devemos tê-la tão presente.

Portanto, as virtudes do povo são: generosidade, sinceridade, desinteresse, e humildade. A humildade deve ser a virtude fundamental do peronista. O peronista nunca diz “eu”. Esse não é peronista. O peronista diz “nós”. O peronista nunca atribui a si suas vitórias, mas as atribui sempre a Perón, porque se fazemos algo é pelo General Perón, não nos enganemos. E quando, no movimento, há uma fracasso, observamos freqüentemente – vocês que andam pela rua não têm notado melhor do que eu – que se diz: “E a culpa foi do Fulano”, sempre vem de “cima”. Os êxitos são deles, que tanto influíram e tanto fizeram, trabalharam tanto que conseguiram...o fracasso é sempre dos de cima, segundo eles. O fracasso, infelizmente, é devido ao mal-entendido, é produto da guerra, de que, todavia, ainda não fomos capazes da libertação peronista, mas de que nos libertaremos, custe o quê custar...

Não me refiro, portanto, a esses que dizem que o fracasso vem de cima, senão aos próprios peronistas. Os fracassos são nossos, infelizmente. Eu as vezes penso, quando me equivoco – também cometo grandes erros, já que nada está isento deles, pois o que não se equivoca é porque também não faz nada – penso o quanto de ruim faço ao General. Unicamente os gênios como Perón não se equivocam nunca. Mas o povo não está povoado de heróis nem de gênios, e menos de gênios do que de heróis. Repito que os fracassos são nossos. O peronista se deve atribuir sempre os fracassos, e ao dizer “peronista”, dizemos em todo sentido da palavra. As vitórias, diferentemente, são do movimento, ou seja, de Perón. Eu teria feito tudo que já fiz, na Fundação, se Perón não tivesse nos salvado da oligarquia? Eu teria feito todo o bem que faço aos humildes da Pátria, a colaboração aos sindicatos de todo o país, se Perón não tivesse feito em nosso país esta revolução social tão extraordinária, nos tornando independentes da oligarquia, nos dando, ademais, a justiça social, a independência econômica, a soberania política, e sua maravilhosa doutrina? Existiria Eva Perón se não tivesse existido o Perón? Não. Por isso digo que o peronismo começa com Perón, segue com Perón e termina em Perón.

Nem mesmo depois poderão mover o General, porque o General Perón não será movido jamais do coração do povo. O dia em que alguém, em sua ambição e interesse mesquinho e bastardo, pensar que poderá ser a bandeira do movimento, esse dia ele terá terminado.

Por isso digo que não temos nada mais que Perón, e nós, para consolidar e colaborar com sua obra, devemos ser bons pregadores de sua doutrina.

Quando alguém se enoja e se lamenta de erros, entre os católicos, e contesto que a doutrina católica é a maior que há, que os maus são os pregadores e não a doutrina. Aquilo é eterno. Nisso, que é terreno, temos que ter bons pregadores e também bons realizadores.

A doutrina de Perón é genial; os maus seremos nós, já que de barro somos feitos, mas temos que tratar de ser cada dia mais superiores e mais dignos do maravilhoso povo, e do ilustre apelido dos argentinos. Por isso que nós aspiramos, cada dia mais, ser bons e melhores pregadores da doutrina do General, mas não somente bons na pregação, mas também na prática. Para conseguirmos, o peronista deve ser sempre de uma grande humildade, reconhecer que ele não significa nada e que Perón e o Povo são tudo.

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