06/07/2013

Michel Chossudovsky - Raízes Históricas da Crise Social: O Papel do FMI

por Michel Chossudovsky



Milhões de pessoas por todo o Brasil aderiram a um dos maiores movimentos de protesto da história do país. Ironicamente, o levantamento social dirige-se contra as políticas económicas de uma auto-proclamada alternativa “socialista” ao neoliberalismo conduzido pelo governo do Partido dos Trabalhadores (PT) da presidente Dilma Rousseff.

O “remédio económico forte” do FMI, incluindo medidas de austeridade e a privatização de programas sociais, foi implementado sob a bandeira “progressista” e “populista” do PT, em acordo com elites económicas poderosas do Brasil e em estreita ligação com o Banco Mundial, o FMI e a Wall Street.

Apesar de o governo PT apresentar-se como “uma alternativa” ao neoliberalismo, comprometido com o alívio da pobreza e a redistribuição de riqueza, sua política monetária e fiscal está nas mãos dos seus credores da Wall Street.

Ironicamente, o governo PT de Dilma Rousseff e do seu antecessor Luís Ignaio da Silva foi louvado pelo FMI devido a:

“uma notável transformação social no Brasil com base na estabilidade macroeconómica e na ascensão de padrões de vida”. 

As realidades sociais subjacentes são outras. As “estatísticas” do Banco Mundial sobre pobreza são grosseiramente manipuladas. Só 11% da população, segundo o Banco Mundial , estão abaixo da linha de pobreza. E 2,2% da população estão a viver em pobreza extrema.

O padrão de vida no Brasil entrou em colapso desde que o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder em 2003. Milhões de pessoas foram marginalizadas e empobrecidas, incluindo uma parte significativa da classe média urbana.

Apesar de o PT apresentar uma imagem “progressista” orientada para o povo, oficialmente oposta à “globalização corporativa”, a agenda macroeconómica foi reforçada. O governo PT sistematicamente manipulou as suas bases, tendo em vista impor o que o “Consenso de Washington” descreve como “uma estrutura política forte”.

Os investimentos estruturais de muitos milhares de milhões de dólares orientados pelo lucro para a Copa Mundial em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016, forjados pela corrupção corporativa, contribuíram para um aumento significativo da dívida externa do Brasil, a qual por sua vez reforçou o controle da política económica pelos seus credores da Wall Street.

O movimento de protesto é em grande parte composto por pessoas que votaram pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

O apoio das bases do governo PT foi rompido. A base do Partido dos Trabalhadores voltou-se contra o governo.



História: a traição do Partido dos Trabalhadores

O Partido dos Trabalhadores está no poder há mais de dez anos.

A crise social em curso no Brasil é a consequência da agenda macroeconómica lançada no início do acesso de Luís Ignácio da Silva à presidência, em 2003.

A eleição de Lula em 2003 corporificou a esperança de uma nação inteira. Representou uma votação esmagadora contra a globalização e o modelo neoliberal, o qual por toda a América Latina resultou na pobreza em massa e no desemprego.

A eleição de Lula no fim de 2002 por entendida como um importante ponto de ruptura, um meio de rejeitar a estrutura política do seu antecessor Fernando Henrique Cardoso.

Enquanto era abraçado em coro pelos movimentos progressistas de todo o mundo, a administração Lula também estava a ser aplaudida pelo principal protagonista do modelo neoliberal. Na palavras do Director Administrativo do FMI, Horst Kohler:

“Sou entusiasta [da administração Lula]; mas é melhor dizer que estou profundamente impressionado pelo presidente Lula … o FMI ouve o presidente Lula e a equipe económica, esta é a nossa filosofia”.

Não é de admirar que o FMI seja “entusiasta”. As principais instituições da administração económica e financeira foram oferecidas numa bandeja de prata à Wall Street e a Washington.

O FMI e o Banco Mundial têm louvado o governo do Partido dos Trabalhadores pelo seu compromisso com “fortes fundamentos macroeconómicos”. Tanto quanto o FMI está preocupado, o Brasil “está na trilha” em conformidade com as balizas do FMI. O Banco Mundial elogiou tanto os governos Lula como Dilma: “O Brasil está a buscar um programa social arrojado com responsabilidade fiscal”.

De acordo com o Professor James Petras:

"A maior parte dos responsáveis políticos da Wall Street e de Washington, surpreendidos pela selecção de uma equipe económica ortodoxa liberal, ficou perfeitamente extasiada quando ele começou a promover vigorosamente uma agenda neoliberal radical, incluindo privatização da segurança social, rebaixamento substancial de pensões para empregados de sectores públicos e redução do custo e facilitação das exigências para capitalistas despedirem trabalhadores." ( Global Research, 2003 )

Segundo Marcos Arruda, do PACS, um centro de investigação não governamental no Rio de Janeiro:


“A equipe económica de Lula ao prosseguir políticas impostas pelo FMI está estripando pagamentos sociais não só para os aposentados como também para os deficientes e as famílias mais pobres”. O prosseguimento de políticas económicas ortodoxas também empurrou o desemprego oficial para 12%, ao passo que as taxas de juro internas posicionam-se nos 26,5%, entre as mais altas taxas do mundo. Em São Paulo, a maior cidade do Brasil, o desemprego atingiu os 20%." (Ver Roger Burbach, Global Research, June 2003 )

O Brasil sob o governo PT não endossou apenas o neoliberalismo “com um rosto humano”, ele também apoiou a militarização da América Latina e do Caribe conduzida pelos EUA.

Lula estabeleceu um relacionamento pessoal com George W. Bush. Se bem que fosse um crítico firme da guerra iraquiana conduzida pelos EUA e um apoiante de Hugo Chavez, ele tacitamente também apoiava interesses estratégicos dos EUA na América Latina.

No rastro do golpe de Estado no Haiti patrocinado pelos EUA-França-Canadá, em Fevereiro de 2004, contra o governo eleito devidamente de Jean Bertrand Aristide, o presidente Luís Ignacio da Silva endossou a ocupação militar do Haiti e despachou tropas brasileiras para Port au Prince, sob os auspícios da Missão de Estabilização das Nações Unidas (MINUSTAH).

O artigo publicado por Global Research e resistir.info em Abril de 2003 , no início do governo PT de Luís Ignacio da Silva, descreve como, desde o início a liderança do Partido dos Trabalhadores traiu toda uma nação.

Não pode resultar qualquer mudança significativa de um debate sobre “uma alternativa ao neoliberalismo”, o qual na superfície parece ser “progressista” mas que tacitamente aceita como legítimo o direito de os “globalizadores” dominarem e pilharem o mundo em desenvolvimento.

O movimento de protesto social que tem varrido o Brasil é o resultado de 10 anos da repressão económica de “livre mercado” sob o disfarce de uma “agenda progressista”.

01/07/2013

Kerry Bolton - Marx Contra Marx: Uma Crítica Tradicionalista Conservadora do Manifesto Comunista

por Kerry Bolton


Há muita coisa no Manifesto Comunista que é válida desde uma perspectiva tradicionalista/conservadora. Marx foi um produto do "espírito" de sua Era, ou zeitgeist. Esse zeitgeist oitocentista permanece o mesmo hoje. Assim, Marx fornece um insight no materialismo, ou o que poderia também ser chamado determinismo econômico, que continuou a ser o ethos dominante do século XX e do atual. Como Oswald Spengler apontou, o marxismo não busca transcender o espírito do Capital, mas expropriá-lo. A perspectiva fundamental de um marxista ou de um CEO corporativo globalista é a mesma. Este artigo examina a análise marxista do que hoje é chamado "globalização", mas o faz sob uma perspectiva conservadora.

O método de análise histórica de Marx era o da dialética: tese, antítese e síntese. Sua atitude frente ao capitalismo como parte necessária da dialética histórica precisa ser compreendida sobre essa base. Não é necessário ser um marxista para apreciar a dialética como método válido de interpretação histórica, e Marx de fato repudiou Hegel, o mais conhecido dos teóricos dialéticos, por causa da abordagem metafísica de Hegel. Em contradistinção, o método de Marx é chamado "materialismo dialético".

Dialeticamente, a antítese, ou "negação" como Hegel a teria chamado, do marxismo é o "reacionismo", para usar o próprio termo de Marx, e se for aplicada uma análise dialética aos argumentos fundamentais do Manifesto Comunista uma metodologia prática para a sociologia da história de uma perspectiva "reacionista" emerge.

Conservadorismo e Socialismo

Pelo menos nos países anglófonos há uma dicotomia nebulosa em relação a Esquerda e Direita, particularmente entre especialistas da mídia e acadêmicos. O que é normalmente chamado "Nova Direita" ou "Direita" no mundo anglófono é mais precisamente identificável com o Liberalismo Whig. O filósofo conservador inglês Anthony Ludovici sucintamente definiu a dicotomia histórica, ao invés de comunalidade, entre Toryismo e Liberalismo Whig, quando discutindo a saúde e vigor da população rural em contraste à urbana:

"...E não é assombroso portanto que quando o tempo da Grande Rebelião, a primeira grande divisão nacional, ocorreu por uma grande questão política, o Partido Tory-Rural-Agrícola deveria ter se mobilizado em proteção e defesa da Coroa, cotra o Partido Whig-Urbano-Comercial. Verdade, Tory e Whig, como a designação dos dois principais partidos no Estado, ainda não eram conhecidas; mas nos dois lados que se digladiavam sobre a pessoa do Rei, o temperamento e objetivos desses partidos já eram discerníveis com clareza.

Carlos I, como eu apontei, foi provavelmente o primeiro Tory, e o maior conservador. Ele acreditava em garantir a liberdade pessoal e a felicidade do povo. Ele protegeu o povo não só contra a rapacidade dos empregadores no comércio e na manufatura, mas também contra a opressão dos poderosos e grandes".

Foi a ordem tradicional, com a Coroa no ápice da hierarquia, que resistiu aos valores monetários da revolução burguesa, manifesta pela primeira vez na Inglaterra, e então na França e por muito do resto da Europa do século XIX. O mundo permanece sob a influência dessas revoluções, como o faz ainda sub a Reforma que forneceu à burguesia uma sanção religiosa. Essas Revoluções foram parte da dialética histórica que Marx via como necessária na marcha rumo ao comunismo.

Como Ludovici apontou, pelo menos na Inglaterra, e portanto como uma herança mais ampla das nações anglófonas, a Direita e os Liberais "Livre-Mercadistas" emergiram não só como adversários ideológicos, mas como soldados em um conflito sangrento durante o século XVII. O mesmo conflito sangrento se manifestou nos EUA na guerra entre o Norte e o Sul, a União representando no sentido político inglês o puritanismo e os interesses plutocráticos concomitantes; o Sul, um renascimento da Tradição da Cavalaria, o ruralismo e o ethos aristocrático. Era assim, pelo menos, que o Sul percebia o seu conflito e estava agudamente consciente dessa tradição. Daí, quando em 1863 o Secretário Confederado de Estado Judah P. Benjamin foi questionado por idéias para um Selo nacional dos Estados Confederados da América, ele sugeriu "um cavaleiro" baseado na estátua equestre de Washington na Praça do Capitólio em Richmond e afirmou:

"Faria honra justa ao nosso povo. A figura do cavaleiro é típica do cavalheirismo, da bravura, da generosidade, da humanidade, e de outras virtudes da cavalaria. Cavalier é sinônimo de 'gentil-homem' em quase todas as línguas modernas... a palavra é eminentemente sugestiva da origem da sociedade sulista como usada em distinção à puritana. Os sulistas permanecem o que seus ancestrais foram, cavalheiros".

Esse é o fundamento histórico pelo qual, para a indignação de Marx, os resquícios das classes governantes tradicionais buscavam uma solidariedade anticapitalista com os camponeses e artesões crescentemente proletarizados e urbanizados. Para Marx, tal "reacionismo" era uma interferência no processo dialético ou na "roda da história".

O filósofo-historiador conservador Oswald Spengler era intrinsecamente anticapitalista. Ele e outros conservadores viam no capitalismo e na ascensão da burguesia o agente da destruição das bases da ordem tradicional, assim como Marx. Quase nada disso é compreendido pelos conservadores hoje, especialmente no mundo anglófono, onde o conservadorismo é geralmente considerado como uma defesa do capitalismo, que é também equiparado com "propriedade privada", apesar das tendências centralizantes que Marx previu - com razão.

O marxismo, crescendo a partir do mesmo zeitgeist que o capitalismo inglês em meio a revolução industrial, procede do mesmo ethos. Marx escolheu a escola inglesa de economia, e desprezou a escola alemã, de orientação conservadoria-protecionista. Spengler notou que:

"Marx era assim um pensador exclusivamente inglês. Seu sistema biclasse deriva da situação de um povo mercantil que sacrificou sua agricultura ao grande capital, e que nunca havia possuído um corpo de servidores civis com uma consciência estatal pronunciada, prussiana. Na Inglaterra havia apenas 'burguesia e proletariado', agentes ativos e passivos nas questões empresariais, ladrões e roubados - todo o sistema era bastante viking. Transferidos para o âmbito dos ideais políticos prussianos, esses conceitos não fazem sentido".

Spengler em Declínio do Ocidente afirma que no ciclo tardio de uma Civilização há uma reação contra o domínio do dinheiro, que derruba a plutocracia e restaura a tradição. É um conflito final na Civilização Tardia do que ele chama "sangue contra dinheiro":

"...Se chamamos a esses poderes financeiros de 'Capitalismo', então nós podemos designar como socialismo a vontade de chamar à vida uma poderosa ordem político-econômica que transcende todos os interesses de classe, um sistema de consciência elevada e senso de dever que mantém a totalidade em boas condições para a batalha decisiva de sua história, e essa batalha é também a batalha do dinheiro e da lei. Os poderes privados da economia querem caminhos livros para sua aquisição de grandes recursos..."

Em uma nota de rodapé ao trecho acima Spengler lembra os leitores em relação ao "capitalismo" que, "nesse sentido a política de interesses dos movimentos de trabalhadores também pertencem a ele, na medida em que seu objetivo não é a superação dos valores monetários, mas a sua posse".

O conceito "prussiano" de "socialismo" pode ser resumido em um de serviço ao interesse comum, acima dos interesses seccionais: "organização, disciplina, cooperação. Todas as coisas que são independentes de qualquer classe singular". Spengler afirma que Marx tomou essas características externas do que é essencialmente uma idéia ética, e os tornou instrumentos de uma luta de classes, como uma doutrina para o saque.

Enquanto Spengler era motivado pelo "espírito prussiano" da disciplina e do dever, em distinção ao individualismo inglês, que ele via no programa marxista, havia aqueles na Inglaterra que também buscavam uma alternativa ao ethos monetário tanto do capitalismo como do marxismo, e doutrinas como o Crédito Social, o Distributismo e o Socialismo de Guildas, muitas vezes em aliança e centrados ao redor do milieu de A.R. Orage e sua revista The New Age, emergiram e chamaram a atenção de Ezra Pound, T.S. Eliot, Hillaire Belloc, G.K. Chesterton e o poeta neozelandês Rex Fairburn.

Casta & Classe

O "conservadorismo revolucionário" de Spengler et al é predicado no reconhecimento do caráter eterno de valores centrais e instituições que refletem o ciclo - ou morfologia - de culturas no que Spengler chamou de sua época da "Primavera". Um exemplo dessa diferença em ethos entre ciclos tradicionais ("Primavera") e modernos ("Inverno") de uma civilização é visto em manifestações como a casta, como um reflexo espiritualmente fundado das relações sociais, em distinção à classe como entidade econômica; ou profissão como dever social de proveniência divina representada pela corporação de ofícios, como distinta de ser um enfado econômico representado pelos sindicatos (incluindo associações de empregadores) como instrumentos de divisão de classe. A ordem tradicional representa o ethos espiritual e cultural; a época "moderna", o dinheiro, algo reiterado por Spengler em nosso próprio tempo. Os livros sagrados de muitas culturas dizem muito do mesmo, e se poderia apontar para o Livro das Revelações.

O Mito do "Progresso"

Enquanto a Civilização Ocidental se orgulha de ser o epítome do "progresso" através de sua atividade econômica, ela é baseada na ilusão de uma evolução darwiniana linear do "primitivo" ao "moderno". Talvez algumas palavras mais sucintamente expressem a antítese entre as percepções modernista e conservadora tradicional da vida do que o otimismo vivaz do darwinista oitocentista Dr. A.R. Wallace em seu O Século Maravilhoso (1898):

"Não só nosso século é superior a qualquer um que já tenha passado mas...ele pode ser comparado melhor com todo o período histórico precedente. Deve ser assim sustentado que ele constitui o início de uma nova era de progresso humano... Nós homens do século XIX não temos sido lentos em elogiá-lo. O sábio e o tolo, o erudito e o ignaro, o poeta e o jornalista, o rico e o pobre, todos incham o coro de admiração pelas invenções e descobertas maravilhosas de nossa própria era, e especialmente por aquelas inúmeras aplicações da ciência que agora fazem parte de nossa vida quotidiana, e que nos lembram a cada hora de nossa imensa superioridade sobre nossos comparativamente ignorantes ancestrais".

Como a crença de Marx de que o comunismo é o último modo de vida humana, o capitalismo possui a mesma crença. Em ambas visões-de-mundo não há nada além de mais "progresso" de natureza técnica. Ambas doutrinas representam o "fim da história". O tradicionalista, porém, vê a história não como uma linha reta do "primitivo ao moderno" mas como um contínuo fluir, de ondas históricas cósmicas, ou ciclos. Enquanto a "roda da história" de Marx se move para a frente atropelando toda tradição e herança até se deter eternamente em um muro cinzento de concreto e aço, a "roda da história" tradicionalista revolve em um ciclo em um eixo estável, até o momento em que o eixo apodrece - a não ser que esteja suficientemente lubrificado ou seja substituído na hora certa - e os raios caem; para ser substituída por outra "roda da história".

Dentro do contexto ocidental, as revoluções de 1642, 1789 e 1848, ainda que em nome do "povo", buscaram dar poder ao mercador sobre as ruínas do Trono e da Igreja. Spengler escreve sobre esta última era que na Inglaterra, "...a doutrina do Livre Comércio da Escola de Manchester foi aplicada pelas corporações de ofício à forma de bens chamada 'trabalho', e eventualmente receberam formulação teórica no Manifesto Comunista de Marx e Engels. E assim foi completado o destronamento da política pela economia, do Estado pelo banco..."

Spengler chama os tipos marxianos de socialismo de "capitalistas" porque eles não objetivam substituir os valores fundados no dinheiro, "mas possuí-los". Ele afirma do marxismo que ele não é "nada além de um capanga confiável do Grande Capital, que sabe perfeitamente bem como fazer uso dele". Ainda:

"Os conceitos de liberalismo e socialismo são postos em movimento apenas pelo dinheiro. Foram os Equites, o partido do dinheiro, que tornou o movimento popular de Tiberius Gracchus possível; e assim que a parte das reformas que lhes era vantajosa havia sido legalizada com sucesso, eles se retiraram e o movimento entrou em colapso.

Não há movimento proletário, ou mesmo comunista, que não haja operado nos interesses do dinheiro, nas direções indicadas pelo dinheiro, e pelo tempo permitido pelo dinheiro - e isso sem os idealistas entre seus líderes terem a menor suspeita do fato"

É essa identidade de espírito entre capitalismo e marxismo que muitas vezes se tem manifesto no subsídio de movimentos "revolucionários" pela plutocracia. Alguns plutocratas são capazes de discernir que o marxismo e movimentos similares "do povo", são de fato instrumentos úteis para a destruição de sociedades tradicionais e estorvos para a maximização global de lucros. O Duque de Orleans buscava usar "o povo" para os mesmos propósitos na França durante o século XVIII.

O Capitalismo na Dialética Marxista

Enquanto o que é muitas vezes suposto ser "Conservadorismo" é defendido por seus aderentes como o custódio do "livre comércio", que por sua vez é tornado sinônimo de "liberdade", Marx compreendeu o caráter subversivo do Livre Comércio, que é qualquer coisa além de uma tendência conservadora. Spengler cita a posição de Marx em relação ao Livre Comércio expressa em 1847:

"Geralmente falando, o sistema protecionista de hoje é conservador, enquanto o sistema de livre comércio possui um efeito destrutivo. Ele destrói as nacionalidades e torna os contrastes entre proletariado e burguesia mais agudos. Em uma palavra, o sistema de livre comércio precipita a revolução social. E apenas nesse sentido revolucionário eu voto favoravelmente pelo Livre Comércio".

Para Marx, o capitalismo era parte de um processo dialético inexorável que, como na visão progressiva-linear da história, vê a humanidade ascendendo do comunismo primitivo, através do feudalismo, do capitalismo, do socialismo e finalmente - como o fim da história - a um mundo milenarista do comunismo. Ao longo desse desdobramento dialético progressivo a força impulsora da história é a luta de classes pela primazia dos interesses econômicos seccionais. No reducionismo econômico marxiano, a história é relegada à luta:

"[uma luta entre] homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de guilda e aprendiz, em uma palavra, opressor e oprimido...em constante oposição um ao outro, travada ininterruptamente, agora oculta, agora aberta, uma luta que a cada vez terminou, ou em uma reconstituição revolucionária da sociedade em geral, ou na ruína comum das classes em confronto".

Marx corretamente descreve a destruição da sociedade tradicional como intrínseca ao capitalismo, e segue para descrever o que hoje chamamos "globalização". Aqueles que defendem o Livre Comércio enquanto ao mesmo tempo chamam a si mesmos conservadores poderiam querer considerar o motivo pelo qual Marx apoiava o Livre Comércio e o descrevia tanto como "destrutivo" e "revolucionário". Marx o via como ingrediente necessário do processo dialético que está impondo a padronização universal; que é também o objetivo do comunismo.

Marx ao descrever o papel dialético do capitalismo, afirma que onde quer que a "burguesia adquiriu a predominância ela pôs um fim a todas as relações feudais, patriarcais e idílicas". A burguesia ou o que poderíamos chamar de classe mercantil - a qual é atribuída uma posição subordinada nas sociedades tradicionais, mas assume dominância sob o "modernismo" - "tem impiedosamente arrasado" os laços feudais, e "não tem deixado qualquer outro nexo entre homem e homem do que o egoísmo nu", e o "indiferente pagamento em dinheiro". Ele, entre outras coisas, "afogou" a religiosidade e o cavalheirismo "nas águas gélidas dos cálculos egoístas". "Ele resolveu o valor pessoal em valor de troca, e no lugar das inumeráveis liberdades irrevogáveis, estabeleceu aquela única liberdade desarrazoada - o Livre Comércio". Onde o conservador de discernimento se situa em oposição à análise marxiana do capitalismo é onde Marx considera o processo inexorável e desejável.

Marx condenava a oposição a esse processo dialético como "reacionária". Marx estava aqui defendendo comunistas contra as acusações dos "reacionários" de que seu sistema resultaria na destruição da família tradicional, e relegaria as profissões a mero "trabalho assalariado", afirmando que isso já estava sendo feito pelo capitalismo de qualquer jeito e que, portanto, não era um processo a ser resistido - o que seria "Reacionismo" - mas saudado como fase necessário na caminhada rumo ao comunismo.

Tendências Universalizantes

Marx via a necessidade constante de revolucionar os instrumentos de produção como inevitável sob o capitalismo, e isso por sua vez punha a sociedade em um contínuo estado de fluxo, de "incerteza e agitação duradouras", que distingue a "época burguesa de todas as outras". A "necessidade para uma constante expansão do mercado" significa que o capitalismo se espalha globalmente, e portanto dá um "caráter cosmopolita" a "modos de produção e consumo em cada país". Isso na dialética marxista é uma parte necessária da destruição das fronteiras nacionais e culturas distintas como prelúdio para o socialismo mundial. É o capitalismo quem estabelece a base para o internacionalismo. Portanto, quando o marxista clama contra a "globalização" ele o faz como retórica na defesa de uma agenda política; não por uma oposição ética ao globalismo enquanto tal.

A esse processo capitalista internacionalizante Marx identifica os oponentes não como revolucionários, mas como "reacionistas". Os reacionários ficam horrorizados com o fato de indústrias nacionais e locais estarem sendo destruídas, a autossuficiência estar sendo solapada, e "nós temos...uma interdependência universal de nações". Similarmente na esfera cultural, onde "literaturas nacionais e locais" são deslocadas por "uma literatura mundial". O resultado é uma cultura econômica global, e mesmo um humano global, apartado de todos os laços geográficos e culturais, como enaltecido por apologistas da globalização como G. Pascal Zachary. Um tipo de nômade emerge que serve aos interesses de uma economia internacional onde quer que ele seja necessário.

Com esse revolucionamento e padronização dos meios de produção vem uma perda do sentido de ser parte de um ofício ou profissão, ou "vocação". A obsessão com o trabalho se torna um fim em si mesmo, o qual deixa de fornecer um significado superior pelo fato de se reduzir a uma mera função econômica. Em relação à ruína da ordem tradicional pelo triunfo da "burguesia", Marx disse o seguinte:

"Devido ao uso extensivo de maquinário e à divisão do trabalho, o trabalho dos proletários perdeu todo caráter individual, e, consequentemente, todo encanto para o trabalhador. Ele se torna um apêndice da máquina, e é apenas a habilidade mais simples, monótona e facilmente adquirida, que é demandada dele..."

Enquanto as corporações clássicas e as guildas medievais preenchiam um papel que era metafísico e cultural em termos da própria profissão, estes foram substituídos pelos sindicatos e associações patronais como nada além de instrumentos de competição econômica. A totalidade da civilização ocidental, e singularmente, muito do resto do mundo, por causa do processo de globalização, se tornou uma expressão de valores monetários. Porém, a preocupação com o PIB - geralmente a única preocupação da politicagem de urnas - não pode ser um substituto para valores humanos mais profundos. Daí é amplamente percebido que aqueles entre os ricos não são necessariamente o que estão realizados, e o afluente muitas vezes existe em um vácuo, com um anseio indefinido que pode ser preenchido com drogas, álcool, divórcio e suicídio. O ganho material não se iguala com o que Jung chama "individuação". De fato, a preocupação com acúmulo material, seja sob capitalismo ou sob o marxismo, encadeia o homem ao mais baixo nível da existência animalista.

A Megalópole

De interesse particular é que Marx escreve da maneira pela qual a base rural da ordem tradicional sucumbe à urbanização e industrialização, que é o que formou o "proletariado", a massa desenraizada que é defendida pelo socialismo como o ideal e não como uma aberração corrupta do camponês e do artesão. As sociedades tradicionais são literalmente enraizadas no solo, com um senso de continuidade através das gerações. Sob o capitalismo a vida campesina e a vida localizada, são, como disse Marx, tornadas ultrapassadas pela cidade e pela produção em massa. Marx se referiu ao campo sendo sujeito ao "domínio das cidades". Era um fenômeno - a ascensão da Cidade concomitante com a ascensão do comerciante - que Spengler afirma como sintoma da decadência de uma Civilização em sua fase estéril, onde valores monetários imperam.

Marx escreve que o que foi criado foram "cidades enormes"; o que Spengler chama "Megalopolitismo". Novamente, o que distingue Marx em sua análise do capitalismo dos tradicionalistas conservadores, é que ele saúda esse caráter destrutivo do capitalismo. Quando Marx escreve sobre urbanização e da alienação do antigo campesinato e artesãos por sua proletarianização nas cidades, se tornando engrenagens no processo de produção em massa, ele se refere a isso não como a um processo a ser resistido, mas como inexorável e tendo "resgatado parte considerável da população da idiotice da vida rural".

"Reacionismo"

Marx aponta no Manifesto Comunista que os "reacionistas" veem com "grande desapontamento" os processos dialéticos do capitalismo. O reacionário ou conservador no sentido tradicional, é anticapitalista par excellence, porque ele está acima e além do zeitgeist do qual tanto capitalismo como marxismo emergiram, e ele rejeitam na totalidade o reducionismo econômico em que ambos são fundados. Assim a palavra "reacionário", usualmente usada em sentido derrogativo, pode ser aceita pelo conservador como um termo preciso para o que é necessário para uma renascença cultural, ética e espiritual.

Marx condenava a resistência ao processo dialético como "reacionista", e identificava o conservadorismo como a força real em revolta contra o espírito mercantil:

"A classe média baixa, o pequeno manufatureiro, o lojista, o artesão, o camponês. Todos esses lutam contra a burguesia, para salvar da extinção sua existência como frações da classe média. Eles são, portanto, não revolucionários, mas conservadores. Não, mais, eles são reacionários, pois eles tentam reverter a roda da história. Se por acaso eles são revolucionários, eles o são apenas em vistas de sua transferência iminente para o proletariado, eles assim defendem não seu presente, mas seus interesses futuros, eles desertam assim de seu próprio ponto de vista para se situarem no do proletariado".

Essa chamada "classe média baixa" está portanto inexoravelmente condenada ao purgatório da despossessão proletária até o tempo em que reconheça seu papel histórico como classe revolucionária, e "exproprie os expropriadores". Essa "classe média baixa" pode ou emergir do purgatório se juntando as fileiras do povo escolhido proletário, se tornando parte da revolução socialista e ingressando em um novo milênio, ou ela pode descer de seu purgatório de classe, se insistir em tentar manter a ordem tradicional, e ser relegada ao esquecimento, que pode ser acelerado pelos pelotões de fuzilamento do bolchevismo.

Marx devota a seção três de seu Manifesto Comunista a um repudio do "socialismo reacionário". Ele condena o "socialismo feudal" que emergiu entre os velhos remanescentes da aristocracia, que buscava unir forças com a "classe trabalhadora" contra a burguesia. Marx afirma que a aristocracia, ao tentar reafirmar sua posição pré-burguesa, havia na verdade perdido de vistas seus interesses de classe ao ter que se aliar com o proletariado. Isso não faz sentido. Uma aliança das profissões despossuídas no que se tornou o proletariado, com a cada vez mais despossuída aristocracia, é uma aliança orgânica, que encontra seus inimigos tanto no marxismo como no mercantilismo. Marx se enfurecia contra a aliança emergente entre a aristocracia e aquelas profissões despossuídas que resistiam a proletarização. Daí, Marx condena o "socialismo feudal" como "parte eco do passado, parte ameaça do futuro". Era um movimento que desfrutava de apoio significativo entre os artesãos, o clero, os nobres e letrados na Alemanha em 1848, que repudiavam o livre mercado que havia divorciado o indivíduo da Igreja, do Estado e da comunidade, "e posto o egoísmo e o interesse próprio antes da subordinação, da comunalidade e da solidariedade social" (isto é, os elementos do que Spengler definiria como "Socialismo Prussiano"). Em relação a esses "reacionistas", Max Beer, um historiador do socialismo alemão, afirmou o seguinte:

"A era moderna parecia a eles ser construída sobre areia movediça, ser caos, anarquia, ou uma explosão completamente imoral e profana de forças intelectuais e econômicas, que deve inevitavelmente levar a agudos antagonismos sociais, a extremos de riqueza e pobreza, e à tormenta universal. Nesse visão, a Idade Média, com sua firme ordem na Igreja, na vida social e econômica, sua fé em Deus, suas instituições feudais, seus claustros, suas associações autônomas e guildas pareciam a esses pensadores como um edifício bem construído..."

É exatamente tal aliança de todas as classes - outrora veementemente condenada por Marx como "reacionista" - que é necessária para se resistir aos fenômenos subversivos comuns do Livre Comércio e da revolução. Algo do tipo foi visto novamente, como mencionado antes, nas doutrinas pós-Primeira Guerra do Distributismo, do Crédito Social e do Socialismo de Guilda, os primeiros dois pelo menos, tendo recebido ímpeto por encíclicas papais, que viam o perigo do marxismo como subproduto dos excessos do capitalismo, e ambos como formas de materialismo levando a um mundo desprovido de fé. É esse mundo secular e sem fé, onde Mammon governa, o que Spengler viu como a época do declínio, mas talvez também como uma de prelúdio de revolta contra o "dinheiro" e de uma "Segunda Religiosidade".

23/06/2013

Andrew Tait - De Istambul ao Brasil: Neoliberalismo, Democracia e Resistência

por Andrew Tait



Três semanas atrás, a polícia avançou para limpar um campo de manifestantes em um parque urbano, para abrir espaço para um shopping.

Os manifestantes eram de vários tipos: esquerdistas, ambientalistas, até arquitetos, que sentiam não possuir outra opção que a ação direta para deter a destruição de outro pedaço de história, outro parque, outro espaço social partilhado. A polícia avançou com brutalidade, com força quase letal. Imagens de sua violência foram partilhadas na internet e instantaneamente despertaram a raiva de centenas de milhares de pessoas, especialmente os jovens. Após três semanas de protestos e contraprotestos, a polícia conseguiu limpar e ocupar a praça e os protestos se silenciaram. Mas após a polícia ter avançado, operários avançaram, plantando árvores e flores - talvez um sinal de que a construção do shopping havia sido abandonada.

Em outro lugar, um protesto contra o preço dos transportes públicos foi atacado pela polícia, fazendo transbordar a raiva e protestos e levantes análogos. Em uma cidade, um prédio da polícia foi incendiado e a Prefeitura foi atacada. O governo recuou e os aumentos de preço foram descartados, mas os protestos estão continuando - agora contra o gasto de bilhões em sediar um evento desportivo ao invés de financiar saúde e educação.

O primeiro país é a Turquia e o segundo é o Brasil. Os mesmos eventos poderiam ter ocorrido em quase qualquer país desenvolvido - em Auckland, Jo'burg, Paris, Pequim. Ainda que cada país tenha sua cultura e história, há uma convergência política massiva em operação de Istambul ao Brasil.

Uma razão muitas vezes sugerida para essa convergência é a internet. A habilidade de compartilhar não apenas mensagens, mas imagens, filmes e música erodiu as fronteiras tradicionais entre jovens em diferentes países e rompeu as amarras do monopólio midiático.

Mas ainda que essa tecnologia seja muito importante, há uma razão mais profunda: o neoliberalismo globalizou a produção, o que significa que o trabalho e salários são similares em mais países do que jamais antes, e o neoliberalismo privou a democracia de conteúdo real porque "não há alternativa" ao mercado e à austeridade. Há mais países supostamente democráticos no mundo do que em toda a história - mas a amplitude de escolhas políticas e de participação dos cidadãos está declinando.

Tanto Brasil como Turquia são "novas democracias", que somente emergiram de ditaduras militares na década de 80. Ambos possuem economias florescentes. O Brasil emergiu do status terceiromundista semicolonial para se tornar a sétima maior economia do mundo. Ele é comumente citado, junto da Rússia, Índia e China, como uma potência emergente. A Turquia, apesar de menor, também tem desfrutado de um elevado crescimento do PIB recentemente, mas o benefício desse crescimento, como no Brasil, não tem sido bem distribuído. Ele é agora um dos países mais desiguais na OECD.

Os protestos no Brasil e na Turquia demonstram que nem tudo vai bem. Porém, seus governos estão ávidos por desmentir qualquer idéia de que uma revolução esteja no ar. O Presidente turco Abdullah Gul recentemente garantiu a empresários ansiosos que estes eventos não eram comparáveis às revoluções que eclodiram na Tunísia e no Egito em 2011. Se dirigindo a um encontro da Associação de Investidores Internacionais da Turquia apenas um dia depois do mercado de ações de Istambul cair 10.5% em resposta à reviravolta popular, Gul disse: "Dois anos atrás em Londres, carros foram queimados e lojas foram saqueadas por causa de razões similares.

"Durante revoltas na Espanha devido a crise econômica, as pessoas encheram as praças.

"O Movimento Occupy Wall Street continuou por meses nos EUA. O que acontece na Turquia é similar a esses países".

Gul está ansioso por demonstrar que a Turquia, que é um país candidato a membro da União Européia, é mais similar ao Ocidente do que é à Síria. Isso é verdade, mas diz mais sobre a fragilidade da democracia ocidental do que da força da democracia turca.

A Nova Ordem Mundial: Estados falidos e Estados de Polícia

Durante a Guerra Fria, Estados autoritários, muitas vezes militarizados, eram a regra por todo lugar - mesmo em países sofrendo com guerras civis. Desde o fim da Guerra Fria, o colapso estatal tem se tornado cada vez mais comum - no Afeganistão, Somália, Mali, Congo, Iugoslávia, Iraque e mais recentemente, Síria.

No mundo bipolar da Guerra Fria, o colapso de um Estado era visto como uma oportunidade para o lado oposto - seja os EUA ou a URSS para avançar e estabelecer um regime cliente. No Terceiro Mundo, regimes autoritários, ou pró-EUA ou pró-URSS foram encorajados e a democracia formal sofreu. Brasil e Turquia foram regimes autoritários pró-EUA. As ditaduras militares das décadas de 70 e 80 foram estabelecidas em relação ao movimento de 1968, a mais recente rebelião mundial da juventude e dos trabalhadores para abalar o capitalismo.

Na França, Espanha, Portugal e Grécia, os movimentos populares foram bem sucedidos em derrubar governos de estilo autoritário e deram início a uma era mais liberal, mas na Turquia e no Brasil, a democracia era vista como um luxo desnecessário, pelo medo de que eleições levariam esses países a se unirem ao "Lado Negro" - a URSS.

Brasil e Turquia, como o Chile, se tornaram campo de testes para uma nova teoria econômica - o neoliberalismo - que pregava a privatização e a austeridade ao invés de welfare e desenvolvimento industrial liderado pelo Estado. As Forças Armadas forma capazes de esmagar sindicatos e a oposição campesina e abrir partes da economia mundial para a finança internacional - principalmente americana mas também de outros jogadores, tais como o Desafio de Fletcher na Nova Zelândia.

Inicialmente, esses experimentos pareceram ter sucesso. Riqueza massiva foi criada - para as elites - em um round renovado de acumulação primitiva conforme salários são cortados, e a segurança ambiental desconsiderada. O neoliberalismo cresceu de modo prolífico conforme foi lavado com o sangue de centenas de milhares de ativistas da oposição, camponeses e trabalhadores.

Então o "tiro saiu pela culatra" no Primeiro Mundo conforme os assessores militares e financeiros ocidentais dos regimes neoliberais militares no Terceiro Mundo - Negroponte por exemplo - começaram a voltar sua atenção para o que poderia ser alcançado pelo neoliberalismo no Primeiro Mundo também.

Margaret Thatcher foi eleita em 1979 no Reino Unido e Ronald Reagan em 1980 nos Estados Unidos. Ambos visaram destruir o movimento sindical, acabar com a previdência social e privatizar tudo que se movesse. Seus métodos foram copiadas por todo o Primeiro Mundo, e na Nova Zelândia sob David Lange.

Os resultados foram uma ampliação massiva na disparidade entre ricos e pobres, e um enfraquecimento da democracia. Muito simplesmente, no passado, muito mais da vida estava ou sob controle estatal (por exemplo, a antiga Câmara de Eletricidade neozelandesa) ou não estava nem sob controle estatal ou de mercado - as pessoas eram donas das próprias casas, cultivavam mais a própria comida, participavam em esportes e grupos comunitários que erram independentes do mercado ou do Estado. Isso significava que as comunidades possuíam maior autonomia sobre suas vidas do que hoje.

Uma ilustração clássica do neoliberalismo são as medidas do Governo Nacional que forçam mães solteiras a trabalhar. Se espera de mulheres que recebem auxílio e que tem outro filho que entreguem a criança para uma creche e vão trabalhar. O Estado força as mulheres a voltarem ao mercado de trabalho e a usarem assistência infantil privatizada.

Outro efeito tem sido a perda de empregos, especialmente na manufatura, para o outrora Terceiro Mundo. Capitalistas chineses, turcos e brasileiros tem todos eles se beneficiado do outsourcing de fábricas para economias que pagam salários baixos.

A estabilidade do Primeiro Mundo, com democracia, partidos trabalhistas, sindicatos e empregos vitalícios está cada vez mais se parecendo com algo do passado. Enquanto isso, nos países em desenvolvimento, a riqueza material que supostamente deveria garantir um melhor padrão de vida e mais liberdade para todos ao invés tem sido sugada pelos ricos - locais e ultramarinos.

Isso por sua vez tem significado que os padrões de vida dos jovens por todo o mundo começam a se tornar parecidos.

Resistência

Como resultado, a resistência parece mais e mais a mesma, de Wall Street à Praça Gezi. Não só estamos usando a mesma tecnologia, nós também estamos trabalhando nos mesmos tipos de empregos (até para as mesmas companhias), com segurança do trabalho cada vez mais similar, enfrentando as mesmas lutas para pagar por comida e moradia, e manter nosso débito privado sob controle.

Politicamente, enquanto as pessoas no antigo Terceiro Mundo tem que lidar com o legado antidemocrático do autoritarismo - milhares de pessoas tem sido presas em batidas matinais - na Nova Zelândia e em outros lugares no antigo Primeiro Mundo nós também temos cada vez menos controle sobre a política.

Na turquia, o Ministro da União Européia Egemen Bagis disse "De agora em diante o Estado infelizmente terá que considerar todos que permanecem aqui [na Praça Gezi] um apoiador ou membro de uma organização terrorista". Na Nova Zelândia, o governo trabalhista introduziu legislação anti-terror afirmando que ela não seria usada contra neozelandeses, mas então a usou (obviamente) contra os maori.

Nós temos cada vez menos controle sobre a política, a política partidária decaiu e nós somos mais do que nunca um Estado de Polícia - de todas as maneiras.

Isso quer dizer que os protestos acontecem com menos frequência, mas quando ocorrem eles são mais explosivos e imprevisíveis.

Há grandes perigos aí. Até então tenho falado sobre Estados autoritários que foram transformados na década de 80 em democracias neoliberais, mas em muitos outros países, os Estados autoritários jamais se transformam, eles apenas entram em colapso.

Saddam Hussein, Assad, Mubarak e Gaddafi regiam regimes capitalistas ou nacional-capitalistas, e agora todos com exceção do Egito estão se dissolvendo no caos. A loucura do mercado que substitui trens por caros e destrutivos carros e caminhões privados e falha de novo e de novo em fornecer as necessidades básicas pode levar a um tipo de loucura mais cruel e mais atávico, onde as pessoas dependem do patronato e de redes comunitárias para sobreviver em uma competição violenta.

A maior parte da África é mantida nessa condição, com pouca esperança de um Occupy Wall Street ou de uma Praça Tahrir romper o controle oligárquico, por causa do nível de violência e tribalismo. Essa não é uma crítica cultural. Isso poderia acontecer em qualquer lugar.

A Iugoslávia já foi uma economia próspera, ao estilo ocidental, altamente educada e industrializada, com comunidades bem integradas, que do dia para a noite decaiu na selvageria tribalista. A combinação de austeridade neoliberal com política nacionalista se provou aguda demais para que aquele país suportasse.

A chave, como sempre, é a classe trabalhadora organizada. No Egito a revolução derrubou Mubarak rapidamente, por causa do poder da classe trabalhadora organizada. Na Turquia, a classe trabalhadora organizada, sofrida e ferida por anos de repressão e leis anti-sindicais, não foi capa de se mobilizar em números convincentes em apoio aos protestos de Gezi. Sem a classe trabalhadora, nos sobra a visão do "Homem Em Pé", um indivíduo solitário confrontando o Estado de uma maneira bastante estética, mas puramente simbólica.

13/06/2013

Noam Chomsky - Como Destruir um Planeta Quase sem Querer

por Noam Chomsky



O que será do futuro, provavelmente? Uma ideia razoável para saber pode ser olhar para a espécie humana de fora. Então, imagine que você é um observador extraterrestre que está tentando descobrir o que está acontecendo aqui, ou imagine que você é um historiador daqui a 100 anos – supondo que existirão historiadores daqui a 100 anos, o que não é óbvio – e você estará olhando para o que está acontecendo hoje. Você veria algo bastante notável.

Pela primeira vez na história da espécie humana, nós claramente desenvolvemos a capacidade de nos destruir. Isso tem sido verdadeiro desde 1945. Agora estamos finalmente reconhecendo que há processos de mais longo prazo, como a destruição ambiental que conduz na mesma direção, talvez não a destruição total, mas pelo menos a destruição de uma existência decente.

E há outros perigos, como pandemias, que têm a ver com a globalização e a interação. Portanto, há processos em andamento e instituições ideais, como sistemas de armas nucleares, para levar-nos a sério golpe, ou talvez o término de uma existência organizada.

Como destruir um planeta sem querer

A questão é: o que as pessoas estão fazendo sobre isso? Nada disso é um segredo. Na verdade, você tem que fazer um esforço para não ver.

Tem havido uma série de reações. Há aqueles que estão se esforçando para fazer alguma coisa sobre essas ameaças e outros que estão agindo para sua escalada. Se você verificar quem eles são, esse historiador do futuro ou observador extraterrestre iria ver algo realmente estranho. Tentando mitigar ou superar essas ameaças estão as sociedades menos desenvolvidas, as populações indígenas, ou o que restou delas, sociedades tribais e as primeiras nações do Canadá. Eles não estão falando de uma guerra nuclear, mas do desastre ambiental, e estão realmente tentando fazer alguma coisa.

Na verdade, em todo o mundo – Austrália, Índia, América do Sul – há batalhas acontecendo, por vezes, guerras. Na Índia, é uma grande guerra sobre a destruição ambiental direta, com sociedades tribais que tentam resistir a extrações de recursos que são extremamente prejudiciais localmente, mas também tem suas conseqüências gerais. Em sociedades onde as populações indígenas têm uma influência, muitos estão tomando uma posição. O movimento mais forte no que diz respeito ao aquecimento global está na Bolívia, que tem uma maioria indígena e normas constitucionais que protegem os “direitos da natureza”.

O Equador, que também tem uma grande população indígena, é o único exportador de petróleo onde o governo está buscando ajuda para manter o petróleo no solo, em vez de produzir e exportar – e o chão é o lugar onde ele deveria estar.

As sociedades mais ricas e poderosas da história do mundo, como Estados Unidos e Canadá, estão correndo a toda velocidade para destruir o meio ambiente o mais rápido possível.

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, que morreu recentemente, foi objeto de zombaria, insulto e ódio de todo o mundo ocidental quando participou de uma sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, há alguns anos, em que chamou George W. Bush de diabo. Ele também fez um discurso bastante interessante. Claro, a Venezuela é um grande produtor de petróleo. O petróleo é praticamente todo o seu produto interno bruto. Nesse discurso, ele alertou para os perigos do uso excessivo de combustíveis fósseis e pediu aos países produtores e consumidores para se reunir e tentar descobrir formas de reduzir o uso de combustíveis fósseis. Isso foi muito surpreendente vindo de um produtor de petróleo. Você sabe, ele era parte indígena. Ao contrário das coisas engraçadas que disse, esse aspecto de suas ações na ONU nunca foi sequer relatado.

Assim, em um extremo você tem as sociedades indígenas, tribais, tentando conter a corrida para o desastre. No outro extremo, as sociedades mais ricas e poderosas da história do mundo, como Estados Unidos e Canadá, correndo para destruir o meio ambiente o mais rápido possível.

Ambos os partidos políticos americanos, o presidente Obama e a mídia internacional parecem estar olhando com grande entusiasmo para o que chamam “um século de independência energética” nos Estados Unidos. A independência energética é um conceito quase sem sentido, mas deixemos isso de lado. O que eles querem dizer é: teremos um século para maximizar o uso de combustíveis fósseis e contribuir para destruir o mundo.

Na verdade, quando se trata de desenvolvimento de energia alternativa, a Europa está fazendo alguma coisa. Enquanto isso, os EUA, o país mais rico e poderoso na história do mundo, são a única nação entre as 100 mais relevantes que não tem uma política nacional para restringir o uso de combustíveis fósseis e nem sequer tem metas para as energias renováveis. Não é por que a população não queira. Os americanos estão muito perto da norma internacional em sua preocupação com o aquecimento global. Interesses comerciais não permitem isso e são esmagadoramente poderosos na determinação da política.

Então é isso o que o futuro historiador – se houver – veria. Ele também pode ler revistas científicas de hoje. Mas cada uma que você abre tem uma previsão mais terrível do que a outra.

“O momento mais perigoso na História”



A outra questão é a guerra nuclear. É sabido há muito tempo que, se houvesse um primeiro ataque de uma grande potência, mesmo sem retaliação, provavelmente isso destruiria a civilização apenas por causa das conseqüências do inverno nuclear que se seguiria. Você pode ler sobre isso no Boletim de Cientistas Atômicos. Assim, o perigo sempre foi muito pior do que pensávamos que era.

Acabamos de passar o 50º aniversário da Crise dos Mísseis de Cuba, que foi chamado de “o momento mais perigoso da história” pelo historiador Arthur Schlesinger, assessor do presidente John F. Kennedy. E era mesmo. Era um alerta, e não o único. Em alguns aspectos, no entanto, a coisa mais desagradável é que as lições não têm sido aprendidas.

O que aconteceu na crise dos mísseis em outubro de 1962 foi enfeitado para parecer que atos de coragem abundavam. A verdade é que todo o episódio era quase insano. Houve um momento, quando a crise chegava ao auge, que o premiê soviético Nikita Khrushchev escreveu a Kennedy oferecendo-se para liquidar a crise em troca do anúncio público da retirada dos mísseis russos de Cuba e dos mísseis americanos na Turquia. Na verdade, Kennedy nem sabia que os EUA tinham mísseis na Turquia naquele momento. Eles estavam sendo retirados de qualquer maneira porque seriam substituídos por submarinos nucleares Polaris, mais letais e invulneráveis.

Essa foi a oferta. Kennedy e seus assessores a consideraram – e rejeitaram. Kennedy estava disposto a aceitar um risco muito elevado de destruição em massa, a fim de estabelecer o princípio de que nós – e só nós – temos o direito de ter mísseis ofensivos além das nossas fronteiras, na verdade em qualquer lugar que quisermos, não importa o risco. Nós temos esse direito e mais ninguém.

Khrushchev tinha de ser humilhado e Kennedy tinha de manter sua imagem de macho. Ele é muito elogiado por isso: a coragem e a frieza sob ameaça e assim por diante. O horror de suas decisões não é sequer mencionado.

Um par de meses antes de a crise explodir, os Estados Unidos tinham enviado mísseis com ogivas nucleares a Okinawa. Estes foram apontados para a China durante um período de grande tensão regional.

Bem, quem se importa? Temos o direito de fazer o que quisermos em qualquer lugar do mundo. Essa foi uma lição cruel daquela época, mas outras viriam.

Dez anos depois, em 1973, o secretário de Estado Henry Kissinger fez um alerta nuclear de alto nível. Era a sua maneira de advertir os russos para não interferir no curso da guerra árabe-israelense. Felizmente, não aconteceu nada.

O que fazer com as crises nucleares iranianas e norte-coreanas

No momento, a questão nuclear é frequentemente noticiada no caso da Coréia do Norte e do Irã.

Tomemos o caso do Irã, que é considerado no Ocidente – não no mundo árabe, e não na Ásia – a mais grave ameaça à paz mundial. É uma obsessão ocidental, e é interessante olhar para as razões disso, mas vou deixar de lado aqui. Existe uma maneira de lidar com a suposta grave ameaça à paz mundial? Uma forma, bonita e sensata, foi proposta dois meses atrás em uma reunião dos países não alinhados em Teerã. Na verdade, eles estavam apenas reiterando uma proposta que existe há décadas e foi aprovada pela Assembleia Geral da ONU.

A proposta é avançar para o estabelecimento de uma zona livre de armas nucleares na região. Isso não seria a resposta para tudo, mas seria um passo muito significativo adiante. E havia maneiras de proceder assim. O que aconteceu?

Você não vai ler sobre isso nos jornais porque não foi relatado – apenas em revistas especializadas. No início de novembro, o Irã concordou em participar da reunião. Dois dias depois, Obama cancelou a reunião, dizendo que não era o momento certo. O Parlamento Europeu emitiu uma declaração pedindo para que ele confirmasse a presença, assim como os estados árabes. Nada resultou. Então, avançamos para sanções cada vez mais duras contra a população iraniana – sem ferir o regime — e talvez a guerra. Quem sabe o que vai acontecer?

No nordeste da Ásia, é a mesma coisa. A Coréia do Norte pode ser o país mais louco do mundo. É certamente um bom concorrente para esse título. Imagine a situação dos norte-coreanos.

Tenha em mente que a liderança norte-coreana provavelmente leu os relatórios militares públicos dos EUA explicando que, como tudo na Coréia do Norte tinha sido destruído, a Força Aérea seria enviada para destruir as barragens, enormes represas que controlavam o abastecimento de água – um crime de guerra, por sinal, pelo qual pessoas foram enforcadas em Nuremberg. E esses relatórios oficiais falavam animadamente sobre como era maravilhoso ver a água escorrendo, escavando os vales, e os asiáticos correndo em volta, tentando sobreviver. Os relatos exultavam sobre o que isso significava aqueles “asiáticos”, horrores além da nossa imaginação. Isso significava a destruição de sua cultura do arroz, que por sua vez significava fome e morte. Magnífico! Não está na nossa memória, mas está na deles.

Vamos voltar ao presente. Há uma história recente interessante. Em 1993, Israel e Coréia do Norte caminhavam na direção de um acordo em que a Coreia do Norte iria parar de enviar quaisquer mísseis ou tecnologia militar para o Oriente Médio e Israel iria reconhecer aquele país. O presidente Clinton interveio e bloqueou. Pouco depois, em represália, a Coreia do Norte realizou um teste de mísseis menor. Os EUA e a Coréia do Norte, em seguida, chegaram a um acordo em 1994, que interrompeu o esforço nuclear e foi mais ou menos honrado por ambos os lados. Quando George W. Bush chegou ao poder, a Coreia do Norte tinha talvez uma arma nuclear verificável e não estava produzindo mais nada.

Bush imediatamente lançou seu militarismo agressivo, ameaçando a Coréia do Norte – o “eixo do mal”. No momento em que Bush deixou o cargo, eles tinham de oito a 10 armas nucleares e um sistema de mísseis, outra grande conquista neocon. Nesse meio tempo, outras coisas aconteceram. Em 2005, os EUA e a Coréia do Norte chegaram a um acordo em que a Coreia do Norte acabaria com todas as armas nucleares e o desenvolvimento de mísseis. Em contrapartida, o Ocidente, principalmente nos Estados Unidos, proporcionaria um reator de água para suas necessidades médicas e daria fim a declarações agressivas. Eles, então, firmaram um pacto de não-agressão e se moveram em direção à acomodação.

Foi muito promissor, mas quase imediatamente Bush minou tudo. Ele retirou a oferta do reator de água leve e os programas para obrigar os bancos a interromper o processamento de todas as transações da Coréia do Norte, mesmo as perfeitamente legais. Os norte-coreanos reagiram reavivando seu programa de armas nucleares. E é isso o que vem acontecendo.

O que eles dizem é: é um regime muito louco. Você faz um gesto hostil e nós vamos responder com um gesto louco do nosso próprio país. Você faz um gesto acomodando a discussão e nós vamos retribuir de alguma forma.

Ultimamente, por exemplo, houve exercícios militares da Coreia do Sul e dos EUA na península coreana. Nós achamos que eles estavam ameaçando o Canadá de olho em nós. Os bombardeiros mais avançados da história, de Stealth B-2 a B-52s, estão realizando bombardeios nucleares simulados na fronteira da Coreia do Norte.

Isso certamente desencadeia o alarme do passado. Eles lembram que o que ocorreu e estão reagindo de uma forma muito agressiva, extrema. Bem, o que aparece no Ocidente é quão loucos e terríveis os líderes norte-coreanos são. Sim, eles são. Mas essa é quase toda a história.

Não é que não haja alternativas. As alternativas simplesmente não estão sendo consideradas. Isso é perigoso. Então, se você perguntar para onde o mundo está indo, não verá uma imagem bonita. A menos que as pessoas façam algo a respeito. Nós sempre podemos fazer.

05/06/2013

Keith Stimely - Spengler: Uma Introdução a Sua Vida & Idéias

por Keith Stimely



Oswald Spengler nasceu em Blankenburg (Harz) na Alemanha central em 1880, o mais velho de quatro filhos, e o único menino. O lado materno de sua família possuía uma forte tendência artística. Seu pai, que originalmente havia sido técnico em mineração e veio de uma longa linhagem de mineradores, era um oficial na burocracia postal alemã, e garantia para sua família um lar de classe média simples, porém confortável.

O jovem Oswald jamais desfrutou do melhor da saúde, e sofria de enxaquecas que o perseguiriam por toda sua vida. Ele também tinha um complexo de ansiedade, ainda que não lhe faltassem pensamentos grandiosos - os quais, por causa de sua constituição frágil, tinham que se aplicados apenas em seus sonhos despertos.

Quando ele tinha dez anos de idade a família se mudou para a cidade universitária de Halle. Aqui Spengler recebeu uma educação clássica, estudando grego, latim, matemática e ciências naturais. Aqui também ele desenvolveu sua forte afinidade pelas artes - especialmente poesia, drama e música. Ele experimentou com algumas criações artísticas juvenis suas, poucas das quais sobreviveram - elas são indicativas de um tremendo entusiasmo, mas não muito mais que isso. À essa época ele caiu sob influência de Goethe e Nietzsche, duas figuras cuja importância para Spengler, o jovem e o homem, não pode ser subestimada.

Após a morte de seu pai em 1901, Spengler aos 21 entrou para a Universidade de Munique. Segundo os costumes estudantis alemães da época, após um ano ele seguiu para outras universidades, primeiro Berlim e depois Halle. Seus principais cursos de estudo foram nas culturas clássicas, matemática e ciências físicas. Sua educação universitária foi financiada em grande parte por um legado de uma tia falecida.

Sua dissertação doutoral em Halle foi sobre Heráclito, o "filósofo obscuro" da Grécia antiga cuja linha mais memorável era "A Guerra é o Pai de todas as coisas". Ele não conseguiu passar em seu primeiro exame por causa de "referências insuficientes" - uma característica de todos os seus escritos posteriores que alguns críticos sentem um enorme prazer em apontar. Porém, ele passou em um segundo exame em 1904, e então partiu para escrever a segunda dissertação necessária para se qualificar como professor de segundo grau. Esta se tornou "O Desenvolvimento do Órgão da Visão nos Âmbitos Superiores do Reino Animal". Ela foi aprovada, e Spengler recebeu seu certificado de licenciatura.

Seu primeiro posto foi em uma escola em Saarbrücken. Então ele se mudou para Düsseldorf e, finalmente, Hamburgo. Ele ensinava matemática, ciências físicas, história e literatura alemã, e segundo todos os relatos era um instrutor bom e consciencioso. Mas seu coração não estava realmente aí, e quando em 1911 a oportunidade se apresentou para ele "seguir o próprio caminho" (sua mãe havia morrido e deixado para ele uma herança que lhe garantia uma medida de independência financeira), ele a tomou, e abandonou a profissão de educador para sempre.

Explicação História de Tendências Atuais

Ele se assentou em Munique, para viver a vida de um filósofo/estudioso independente. Ele começou a escrever um livro de observações sobre a política contemporânea cuja idéia lhe havia preocupado por algum tempo. Originalmente a ser chamado Conservador e Liberal, ele havia sido planejado como uma exposição e explicação das tendências atuais na Europa - uma corrida armamentista em aceleração, um "cerco" da Entente à Alemanha, uma sucessão de crises internacionais, a crescente polaridade das nações - e para onde elas levavam. Porém ao fim de 1911 ele foi subitamente acometido pela noção de que os eventos do dia só poderiam ser interpretados em termos "globais" e "culturais-totais". Ele via a Europa como marchando rumo ao suicídio, um primeiro passo na direção da destruição final da cultura européia no mundo e na história.

A Grande Guerra de 1914-1918 apenas confirmou em sua mente a validade de uma tese já desenvolvida. Sua obra planejada continuava aumentando em escopo, para muito além das fronteiras originais.

Spengler havia amarrado a maior parte de seu dinheiro em investimentos estrangeiros, mas a guerra havia de modo geral os invalidado, e ele foi forçado a passar os anos de guerra em condições de genuína pobreza. Não obstante, ele se manteve trabalhando, muitas vezes escrevendo à luz de vela, e em 1917 estava pronto para publicar. Ele encontrou grandes dificuldades em achar um editor, parcialmente por causa da natureza de sua obra, parcialmente por causa das condições caóticas dominando à época. Porém no verão de 1918, coincidente com o colapso alemão, finalmente apareceu o primeiro volume de O Declínio do Ocidente, subtitulado Forma e Atualidade.

Sucesso Editorial

Para não pouca surpresa tanto de Spengler como de seu editor, o livro foi um sucesso imediato e sem precedentes. Ele oferecia uma explicação racional para o grande desastre europeu, explicando-o como parte de um processo histórico-mundial inevitável. Leitores alemães especialmente o levaram no coração, mas a obra logo se provou popular por toda Europa e foi rapidamente traduzida para outras línguas. 1919 foi o "ano de Spengler", e seu nome estava em muitos idiomas.

Historiadores profissionais, porém, lidara com enorme ressentimento com essa obra pretensiosa de um amador (Spengler não era um historiador treinado), e suas críticas - particularmente de vários equívocos factuais e da abordagem única e incontritamente "não-científica" do autor - encheram muitas páginas. É mais fácil agora do que à época dispor dessa linha de rejeição-crítica. Mas de qualquer forma, em relação à validade de seu postulado sobre o rápido declínio ocidental, o spengleriano contemporâneo só precisa dizer uma coisa a seus críticos: Olhe ao seu redor. O que você vê?

Em 1922 Spengler publicou uma edição revisada do primeiro volume contendo pequenas correções e revisões, e o ano seguinte viu o aparecimento do segundo volume, subtitulado Perspectivas da História Mundial. Ele daí em diante permaneceu satisfeito com a obra, e todos os seus escritos e pronunciamentos posteriores são apenas ampliações sobre o tema disposto em Declínio.

Abordagem Direta

A idéia básica e os componentes essenciais de Declínio do Ocidente não são difíceis de compreender ou delinear. (Na verdade, é a própria simplicidade da obra que era excessiva para seus críticos profissionais). Primeiro, porém, uma compreensão adequada demanda um reconhecimento da abordagem especial spengleriana. Ele próprio a chamava de abordagem "fisiogmática" - olhar para as coisas diretamente na face ou coração, intuitivamente, ao invés de uma forma estritamente científica. Vezes demais o sentido real das coisas é obscurecido por uma máscara de "fatos" científico-mecanicistas. Daí a cegueira do historiador profissional "científico", que em uma grande falta de imaginação vê apenas o visível.

Utilizando sua abordagem fisiogmática, Spengler estava confiante em sua habilidade de decifrar o enigma da História - mesmo, como ele afirma na primeira frase de Declínio, predeterminar a história.

O que segue são seus postulados básicos:

1 - A visão "linear" da história deve ser rejeitada, em favor da cíclica. Até então a história, especialmente a história ocidental, tem sido vista como uma progressão "linear" do inferior para o superior, como plataformas em uma escada - uma ilimitada evolução para cima. A história ocidental é assim vista como se desenvolvendo progressivamente: Grega > Romana > Medieval > Renascentista > Moderna, ou, Antiga > Medieval > Moderna. Este conceito, insistia Spengler, é apenas um produto do ego do homem ocidental - como se tudo no passado apontasse para ele, existisse tão somente para que ele possa existir como uma forma mais aperfeiçoada.

Esse "esquema sem sentido e incrivelmente infantil" pode finalmente ser substituído por um agora discernível desde o ponto de vantagem dos anos e de um maior e mais fundamental conhecimento do passado: a noção da História como se movendo em ciclos definidos, observáveis e - exceto de pequenas maneiras - não relacionadas.

Altas Culturas

2 - Os movimentos cíclicos da história não são aqueles de meras nações, Estados, raças ou eventos, mas de Altas Culturas. A história gravada nos dá oito dessas "altas culturas": a indiana, a babilônica, a egípcia, a chinesa, a mexicana (maia-azteca), a árabe (ou "magiana"), a clássica (grega e romana), e a européia ocidental.

Cada Alta Cultura possui como traço de distinção um "símbolo primário". O símbolo egípcio, por exemplo, era o "Caminho", que pode ser visto na preocupação dos egípcios antigos - na religião, arte e arquitetura - com as passagens sequenciais da alma. O símbolo primário da cultura clássica era a preocupação com o "ponto-presente", ou seja, o fascínio pelo próximo, o pequeno, o "espaço" da visibilidade imediata e lógica: note aqui a geometria euclidiana, o estilo bidimensional da pintura clássica e da escultura em relevos (você jamais verá um ponto de fuga no fundo, isto é, onde até mesmo haja algum fundo), e especialmente: a ausência de expressão facial dos bustos e estátuas gregos, significando nada além ou por trás do exterior.

O símbolo primário da cultura ocidental é a "alma faustiana" (do conto do Doutor Faustus), simbolizando o anseio dirigido para cima rumo a nada menos que o "Infinito". Este é basicamente um símbolo trágico, pois ele busca alcançar até mesmo aquilo que se considera inalcançável. É exemplificado, por exemplo, pela arquitetura gótica (especialmente os interiores das catedrais góticas, com suas linhas verticais e aparente "falta de teto").

O "símbolo primário" afeta tudo na Cultura, se manifestando na arte, ciência, técnica e política. Cada alma-símbolo de uma cultura se expressa especialmente em sua arte, e cada Cultura possui uma forma de arte que é mais representativa de seu próprio símbolo. No clássico, eram escultura e drama. Na cultura ocidental, após a arquitetura na era gótica, a grande forma representativa foi a música - atualmente a expressão mais perfeita da alma faustiana, transcendendo como o faz os limites da visão pelo mundo "ilimitado" do som.

Desenvolvimento "Orgânico"

3 - Altas Culturas são coisas "vivas" - orgânicas em natureza - e devem passar pelas fases de nascimento-desenvolvimento-plenitude-decadência-morte. Daí uma "morfologia" da história. Todas as culturas anteriores passaram por essas fases distintas, e a cultura ocidental não pode ser exceção. Na verdade, sua fase atual no processo de desenvolvimento orgânico pode ser precisada.

O ponto alto de uma Alta Cultura é sua fase de plenitude - chamada de fase "cultural". O início do declínio e decadência em uma Cultura é o ponto de transição entre sua fase "cultural" e a fase "civilizacional" que inevitavelmente segue.

A fase "civilizacional" testemunha drásticas reviravoltas sociais, movimentos massivos de povos, guerras contínuas e crises constantes. Tudo isso se passa paralelamente ao crescimento das grandes "megalópoles" - imensos centros urbanos e suburbanos que sugam os interiores circundantes de sua vitalidade, intelecto, força e alma. Os habitantes dessas conglomerações urbanas - agora o grosso da população - são uma massa desenraizada, desalmada e materialista, que não amam nada além de seu panem et circenses. Desses vem os sub-humanos fellaheen - participantes dignos nos estertores finais de uma cultura.

Com a fase civilizacional vem o mando do Dinheiro e seus instrumentos gêmeos, Democracia e Imprensa. O Dinheiro governa sobre o caos e só o Dinheiro lucra com isso. Mas os verdadeiros portadores da cultura - os homens cujas almas ainda estão unidas à alma-cultural - se sentem enojados e repelidos pelo poder-dinheiro e seus fellaheen, e agem para rompê-lo, como se fossem compelidos a isso - e conforme a alma-cultural das massas compele finalmente ao fim da ditadura do dinheiro. Assim a fase civilizacional conclui com a Era do Cesarismo, onde grande poder chega às mãos de grandes homens, ajudados nisso pelo caos do mando do Dinheiro. O advento dos Césares marca o retorno de Autoridade e Dever, de Honra e "Sangue", e o fim da democracia.

Com isso chega a fase "imperialista" da civilização, na qual os Césares com seus bandos de seguidores se enfrentam uns aos outros pelo controle do mundo. As grandes massas são incompreensíveis e indiferentes; as megalópoles lentamente se despovoam, e as massas gradativamente "retornam à terra", para se ocuparem lá com as mesmas tarefas rurais que seus ancestrais séculos antes. A tormenta de eventos se dá por cima de suas cabeças. Agora, em meio a todo o caos dos tempos, vem uma "segunda religiosidade"; um retorno nostálgico aos velhos símbolos da fé da cultura. Fortificadas dessa forma, as massas em um tipo de contentamento resignado enterram suas almas e seus esforços no solo a partir do qual eles e sua cultura emergiram, e contra esse pano de fundo a morte da Cultura e da civilização que ela criou se desenrola.

Ciclos Vitais Previsíveis

O ciclo vital de cada Cultura parece durar por volta de mil anos: a clássica existiu de 900 a.C. a 100 d.C.; a árabe (hebraico-semítica islamo-cristã) de 100 a.C. a 900 d.C.; a ocidental de 1000 d.C. a 2000 d.C. Porém, essa extensão é a ideal, no sentido de que uma expectativa de vida ideal de um homem é 70 anos de idade, ainda que ele possa nunca alcançar essa idade, ou viver muito além dela. A morte de uma Cultura pode na verdade se desenrolar por centenas de anos, ou pode ocorrer instantaneamente por causa de forças exteriores - como no fim súbito da Cultura Mexicana.

Também, ainda que cada cultura possua sua Alma única e seja em essência uma entidade especial e separada, o desenvolvimento do ciclo vital é paralelo em todas elas: Para cada fase do ciclo em uma dada cultura, e para todos os grandes eventos afetando seu curso, há uma contraparte na história de cada outra cultura. Assim, Napoleão, que inaugurou a fase civilizacional da ocidental, encontra sua contraparte em Alexandre da Macedônia, que fez o mesmo para a clássica. Daí a "contemporaneidade" de todas as altas culturas.

Em um rascunho simples esses são os componentes essenciais da teoria spengleriana dos ciclos culturais históricos. Em umas poucas frases ela pode se resumir assim:

A história humana é o registro cíclico da ascensão e queda de Altas Culturas não relacionadas. Essas Culturas são na realidade super formas vitais, isto é, elas são orgânicas em natureza, e como todos os organismos devem passar pelas fases de nascimento-vida-morte. Ainda que entidades separadas em si mesmas, todas as Altas Culturas experimentam desenvolvimento paralelo, e eventos e fases em qualquer uma encontram seus eventos e fases correspondentes nas outras. É possível desde o ponto de vantagem do século XX deduzir do passado o sentido da história cíclica, e assim prever o declínio e queda do Ocidente.

Desnecessário dizer, tal teoria - ainda que mais ou menos prenunciada na obra de Giambattista Vico e no russo oitocentista Nikolai Danilevsky, bem como em Nietzsche - estava destinada a abalar as fundações do mundo intelectual e semi-intelectual. Ela o fez parcialmente devido ao momento oportuno, e parcialmente ao brilhantismo (ainda que não sem falhas) com o qual Spengler a apresentou.

Estilo Polêmico

Há livros mais fáceis de ler do que Declínio - há também mais difíceis - mas uma grande razão para seu sucesso popular (para esse tipo de obra) sem precedentes foi a mesma razão para sua desconsideração geral da parte dos críticos acadêmicos. Desprezando o tipo de "eruditismo" que demandava somente afirmações cautelosas e judiciosas - cada uma apoiada por uma nota de rodapé - Spengler deu vazão a suas opiniões e juízos. Muitas passagens estão ao estilo de uma polêmica onde nenhuma discordância é tolerada.

Certamente, os dois volumes de Declínio, não importa quão cheio de opiniões o estilo e quão pouco convencional a metodologia, são essencialmente uma justificativa compreensiva das idéias apresentadas, retirada das histórias das diferentes Altas Culturas. Ele usou o método comparativo que, é claro, é apropriado se de fato todas as fases de uma Alta Cultura forem contemporâneas com as de qualquer outra. Nenhum homem poderia ter um conhecimento igualmente amplo de todas as Culturas examinadas, daí o tratamento de Spengler ser desigual, ele gasta relativamente pouco tempo na mexicana, indiana, egípcia, babilônica e chinesa - se concentrando na árabe, na clássica e na ocidental, especialmente essas últimas duas. A porção mais valiosa da obra, como mesmo seus críticos reconhecem, é a delineação comparativa dos desenvolvimentos paralelos das culturas clássica e ocidental.

O vasto conhecimento de Spengler sobre as artes lhe permitiu enfatizar sua importância para o simbolismo e sentido interior de uma Cultura, e as passagens sobre formas de arte são geralmente consideradas como estando entre as mais instigantes. Também notável é um capítulo (o primeiro, na verdade, após a Introdução) sobre "O Significado dos Números", onde ele afirma que mesmo a matemática - supostamente o único campo certamente "universal" do conhecimento - possui um significado diferente em diferentes culturas: números são relativos aos povos que os usam.

A "verdade" é similarmente relativa, e Spengler concedeu que o que pode ser verdadeiro para ele pode não ser verdadeiro para outro - mesmo para outro completamente da mesma cultura e era. Assim uma das maiores inovações de Spengler pode ser talvez sua postulação da não-universalidade das coisas, a "diferencialidade" ou distintividade de diferentes povos e culturas (apesar de seu fatídico fim comum - uma idéia que está começando a se enraizar no Ocidente moderno, que começou este século supremamente confiante na sabedoria e possibilidade de moldar o mundo a sua imagem e semelhança).

Era de Césares

Mas foi a sua colocação do Ocidente atual em seu esquema histórico que despertou mais interesse e mais controvérsia. Spengler, como o título de sua obra sugere, viu o Ocidente como fadado à mesma extinção eventual que todas as outras Altas Culturas haviam conhecido. O Ocidente, ele disse, estava agora no meio de sua fase "civilizacional", que havia começado, aproximadamente, com Napoleão. A vinda dos Césares (dos quais Napoleão foi apenas o prenúncio) estava talvez apenas há décadas de distância. Ainda assim Spengler não aconselhou qualquer tipo de resignação pesarosa ao destino, ou aceitação desleixada da derrota e morte vindouras. Em um ensaio posterior, "Pessimismo?" (1922), ele escreveu que os homens do Ocidente devem ainda ser homens, e fazer tudo que puderem para perceber as imensas possibilidades ainda abertas. Acima de tudo, eles devem abraçar o único imperativo absoluto: A destruição do Dinheiro e da democracia, especialmente no campo da política, este imenso campo de atividade.

Socialismo "Prussiano"

Após a publicação do primeiro volume de Declínio, os pensamentos de Spengler se voltaram cada vez mais para a política contemporânea na Alemanha. Após experimentar a revolução bávara e sua curta república soviética, ele escreveu um pequeno volume chamado Prussianismo e Socialismo. Seu tema era que um equívoco trágico dos conceitos estava em andamento: Conservadores e socialistas, ao invés de estarem nas antípodas, deveriam se unir sob o estandarte de um verdadeiro socialismo. Este não seria a abominação marxista-materialista, ele disse, mas essencialmente a mesma coisa que o Prussianismo: um socialismo da comunidade germânica, baseado em sua ética de trabalho, disciplina e hierarquia orgânica singulares ao invés do "dinheiro". Esse socialismo "prussiano" ele contrastou marcadamente tanto à ética capitalista da Inglaterra como ao "socialismo" de Marx, cujas teorias se resumiriam a "capitalismo para o proletariado".

Em suas propostas corporativistas Spengler antecipou os fascista, ainda que ele nunca tivesse sido um, e seu "socialismo" fosse essencialmente o mesmo que o dos Nacional-Socialistas (mas sem o racialismo völkisch).   Sua apreciação por uma corporação da qual o Estado teria o controle diretivo mas não a propriedade ou a responsabilidade direta sobre os vários segmentos privados da economia soava muito como a posterior avaliação favorável da economia Nacional-Socialista por Werner Sombart em sua Uma Nova Filosofia Social.

Prussianismo e Socialismo não teve uma reação favorável da crítica ou do público - ainda que o público estivesse inicialmente ansioso para conhecer suas opiniões. A mensagem do livro era considerava muito "visionária" e excêntrica - ela desafiava muitas linhas partidárias. Os anos de 1920-23 viram Spengler voltar à preocupação com a revisão do primeiro volume de Declínio, e ao término do segundo. Ele ocasionalmente dava palestras, e escrevia alguns ensaios, poucos dos quais sobreviveram.

Envolvimento Político

Em 1924, após a reviravolta sócio-econômica da terrível inflação, Spengler entrou na briga política em um esforço para trazer o general da Reichswehr Hans von Seekt ao poder como líder nacional. Mas o esforço não rendeu. Spengler se provou totalmente ineficaz na prática política. Era a velha história do "rei-filósofo", que era mais filósofo do que rei (ou fazedor de reis).

Após 1925, no início do breve período de estabilidade relativa da República de Weimar, Spengler devotou a maior parte de seu tempo a sua pesquisa e à escrita. Ele estava particularmente preocupado com o fato de ter deixado um vazio importante em sua grande obra - o da pré-história do homem. Em Declínio ele havia escrito que o homem pré-histórico estava basicamente sem uma história, mas ele revisou essa opinião. Seu trabalho sobre o tema foi apenas fragmentário, mas 30 anos após sua morte uma compilação foi publicada sob o título Período Primitivo da História Mundial.

Sua principal tarefa como ele a via, porém, era uma grande e compreensiva obra sobre sua metafísica - da qual Declínio havia dado apenas indícios. Ele jamais a terminou, ainda que Questões Fundamentais, basicamente uma coletânea de aforismas sobre o tema, tenha sido publicado em 1965.

Em 1931 ele publicou O Homem e a Técnica, um livro que refletia seu fascínio com o desenvolvimento e uso, no passado e no futuro, do técnico. O desenvolvimento de tecnologia avançada é único ao Ocidente, ele previu para onde isso levaria. O Homem e a Técnica é um livro racialista, ainda que não no sentido "germânico" estreito. Ao invés ele alerta as raças européias ou brancas do perigo crescente das raças de cor. Ele prevê um tempo em que os povos de cor da Terra usarão a própria tecnologia do Ocidente para destruir o Ocidente.

Reservas em relação a Hitler

Há muito no pensamento de Spengler que permite que ele seja caracterizado como algum tipo de "proto-nazi": seu chamado por um retorno à Autoridade, sue ódio à democracia "decadente", sua exaltação do espírito do "Prussianismo", sua idéia da guerra como essencial à vida. Porém, ele jamais se uniu ao Partido Nacional-Socialista, apesar de repetidos convites de luminares como Gregor Strasser e Ernst Hanfstängl. Ele considerava os Nacional-Socialistas como imaturos, fascinados com marchinhas de banda e slogans patrióticos, brincando com a bola do poder mas não percebendo a significância filosófica e os novos imperativos da era. De Hitler se supõe ter dito que o que a Alemanha precisava era de um herói, não de um tenor. Ainda assim, ele votou em Hitler contra Hindenburg nas eleições de 1932. Ele se encontrou com ele pessoalmente apenas uma vez, em julho de 1933, mas Spengler saiu pouco impressionado de sua longa conversa.

Suas opiniões sobre os Nacional-Socialistas e a direção que a Alemanha deveria estar tomando apareceram ao fim de 1933, em seu livro A Hora da Decisão. Ele começa afirmando que ninguém poderia ter desejado pela revolução Nacional-Socialista tanto quanto ele. No curso da obra, porém, ele expressou (às vezes de forma velada) suas reservas sobre o novo regime. Ainda que ele fosse certamente germanófilo, não obstante ele via os Nacional-Socialistas como muito estreitamente germânicos em caráter, e não suficientemente europeus.

Ainda que ele continuasse o tom racialista de O Homem e a Técnica, Spengler fez pouco do que ele considerada como a exclusivismo do conceito Nacional-Socialista de raça. Em face do perigo exterior, o que deveria ser enfatizado é a unidade das várias raças européias, não sua fragmentação. Para além de um reconhecimento prático do "perigo das raças de cor" e da superioridade da civilização branca, Spengler repetiu sua própria concepção "não-materialista" da raça (que já havia sido expressa em Declínio): Certos homens - qualquer seja sua origem - possuem "raça" (um tipo de vontade de poder), e estes são os fazedores da história.

Prevendo uma Segunda Guerra Mundial, Spengler alertou em A Hora da Decisão que os Nacional-Socialistas não estavam suficientemente vigilantes em relação às poderosas forças hostis fora do país que se mobilizariam para destruí-los, e a Alemanha. Sua crítica mais direta foi expressa dessa forma: "E os Nacional-Socialistas acreditam que eles podem ignorar o mundo ou se opôr a ele, e construir seus castelos em nuvens sem criar uma possivelmente silenciosa, ainda que muito palpável reação vinda de fora". Finalmente, mas após já ter alcançado uma ampla circulação, as autoridades proibiram a distribuição continuada do livro.

Oswald Spengler, pouco após prever que em uma década não haveria mais um Reich Alemão, morreu de um ataque cardíaco em 8 de maio de 1936, em seu apartamento de Munique. Ele foi para a morte convicto de que ele havia estado certo, e que os eventos estavam se desdobrando em cumprimento do que ele havia escrito em Declínio do Ocidente. Ele estava certo de que ele viveu no período crepuscular de sua Cultura - que, apesar de suas previsões agourentas e sombrias, ele amava profundamente até o fim.