15/06/2012

Mark Sleboda - Religião Verde e Ecologia Profunda: Em Direção a uma Síntese entre Tradicionalismo e Teoria Verde

por Mark Sleboda


Este breve artigo examinará as "Teorias Verdes" ecocêntricas da "Religião Verde Escura" e da "Ecologia Profunda" a partir de uma perspectiva Tradicionalista. Ele não afirma que estes sistemas de crenças devam, de fato, ser considerados "Tradicionalistas", mas vai analisar e comparar seus princípios e crenças básicos com os preceitos do Tradicionalismo com o objetivo de iniciar um diálogo para discutir comunalidades e diferenças entre eles e eventualmente seguir em direção a uma aceitação mútua e síntese.

Este artigo também não examinará o fenômeno relacionado do "enverdecimento" das religiões mundiais mais estabelecidas, como o Cristianismo, o Islã, o Hinduísmo e o Budismo à luz do entendimento e crises ecológicas modernas. Conquanto este permaneça sendo um campo interessante e valioso para discussão e exploração a partir de uma perspectiva tradicionalismo, o tempo e o espaço o precludem desse artigo.

O renascimento das fés e espiritualidade naturocêntricas e o já mencionado "enverdecimento" das religiões mais estabelecidas, institucionalizadas e comuns ocorre no contexto das crises e catástrofes ecológicas globais como resultado estilos de vida, processos, práticas e externalidades destrutivas da modernidade impulsionadas pelo capitalismo global e pelo industrialismo. A ciência ecológica e climática nos conta que como resultado da atividade antropogênica nosso planeta alcançou certos limites planetários que já foram ultrapassados ou que estão em perigo iminente de serem ultrapassados, todos os quais ameaçam não somente a biosfera global mas também por extensão, a própria civilização humana, incluindo aí: mudanças climáticas, acidificação oceânica, esgotamento do ozônio estratosférico, o ciclo do nitrogênio, o ciclo do fósforo, o uso de água doce, o acúmulo atmosférico de aerosol, e a poluição química (Rockstrom, Steffen and others, 2009).

Assim nós temos um cenário no qual um ramo da ciência nos relata que o resto da ciência e a exploração de seus produtos pela modernidade, pelo industrialismo, e pelo consumismo ameaça toda a vida no planeta. Esta é uma preocupação material, é claro, ainda que em uma escala global e existencial, mas ela é também muito mais do que isso. Este é um fracasso espiritual e uma condenação bastante forte e crítica da modernidade e da própria idéia iluminista de "progresso" com seu materialismo acompanhante. Muitos cientistas ecológicos , eles mesmos, estão afirmando que o positivismo puro e a razão falharam com a humanidade como metodologia e que uma nova teoria moral e uma nova metafísica de apoio sobre nosso lugar no universo, uma nova ontologia e espitemologia, são necessárias de modo a lidar adequadamente com as crises e mudar o comportamento público. Assim, eles estão pelo menos se voltando em busca de inspiração de algumas das religiões e crenças espirituais mais antigas para lhes informar sobre um tempo mais primevo no qual a humanidade vivia em harmonia como parte da natureza: o animismo, o xamanismo, e o paganismo dos caçadores-coletores e das civilizações nômades.

O filósofo tradicionalista Seyyed Hossein Nasr disse em Homem e Natureza: A Crise Espiritual no Homem Moderno, que:

"A crise ambiental é tão crítica que é necessário ir rapidamente além do que já foi feito durante as últimas décadas para resolvê-la. O que é necessário é a reexaminação de nosso próprio entendimento do que significa ser humano e do que é a natureza, junto com o estabelecimento da harmonia entre homem e natureza" (Nasr, 2004, p.6).

Bron Taylor, um acadêmico e conservacionista americano, Professor de Religião e Natureza, Ética Ambiental, e Estudos Ambientais na Universidade da Flórida, cunhou o termo "religião verde escura" e a desenvolveu como campo. Ele definiu amplamente a religião verde escura como uma bricolagem de religiões ou conjuntos espirituais de crenças e práticas, caracterizadas por uma convicção central de que "a natureza é sagrada, possui valor intrínseco, e demanda, portanto, cuidado reverencial". Associado com este conceito está uma irmandade nutrida por entidades não-humanas e uma percepção consciente da natureza interconectada e interdependente da vida no planeta. Geralmente, esses sistemas de crenças são profundamente ecológicos, biocêntricos ou ecocêntricos. Religiões verde escuras, via de regra, rejeitam a ontologia e cosmogonia antropocêntricas, bem como a metodologia positivista, e são críticas da modernidade, do materialismo, do consumismo, e das idéias iluministas de progresso humano. Religiões verde escuras adotam uma perspectiva holística ao invés de uma perspectiva individualista atomizada; isto é, elas valorizam populações, espécies, ecossistemas, e a ecosfera como um todo (Taylor, 2010, 45-57). A inclusão por Bron da palavra "escura" como descrição, é uma reflexão do reconhecimento de que como parte de uma natureza sagrada, o homem é tanto predador como presa, um reconhecimento lúgubre da escala e escopo das crises ambientais que nos confrontam, e uma reflexão de que como resultado, a ação revolucionária e o uso de força violenta podem bem ser necessárias para mudar o comportamento de nossas sociedades de modo a salvar o planetar e evitar nosso próprio suicídio civilizacional.

Taylor categoriza quatro formas inclusivas gerais de religião verde escura no milieu ambiental que possuem poder explanatório e interpretativo: animismo espiritual, animismo naturalista, espiritualidade gaia, e naturalismo gaio. Essas categorias incluem nelas sistemas de crença tão tiversos quanto o animismo, o xamanismo, o panteísmo, o panenteísmo, e muitas formas de paganismo e politeísmo antigo, bem como formas mais modernas de espiritualidade naturocêntrica, filosofias, e ativismo ambiental radical. A "Ecologia Profunda", uma filosofia ambiental ecocêntrica moderna com fortes tonalidades espirituais, desenvolvida principalmente pelo filósofo norueguês Arne Naess, também pode se encaixar nessas categorias de "religião verde escura" (Naess, 1989). Obviamente, nem todos estes tipos de religião verde escura correspondem bem com o Tradicionalismo, assim como tampouco todos os ramos do Cristianismo e do Islã correspondem, porém muitos deles, particularmente aqueles informados por tradições antigas, tais como o animismo espiritual correspondem. Portanto, o resto deste artigo focará nesses aspectos mais "tradicionalistas" da Religião Verde Escura em comparação com o Tradicionalismo.

Ainda que um campo diverso e eclético, as características mais vitalmente definidoras do Tradicionalismo são comumente consideradas como incluindo o princípio do perenialismo, da inversão, a necessidade de iniciação, e um foco no esoterismo acima do exoterismo (Sedgwick, 2004).

Em termos de perenialismo, as religiões verdes escuras sustentam que a própria natureza seja sagrada e, de um modo ou outro, divina. Um dos únicos e talvez mais vitais universalismos é a dependência de toda a humanidade em relação a Terra. Não importante o quão dissociados e alienados da natureza nós possamos ser em nossas vidas urbanizadas modernas, no fim todos nós dependemos do mundo natural, da biosfera, como sistema de suporte de nossa vida. Toda a humanidade pode encontrar uma base comum e original na necessidade de manter e viver em harmonia com o mundo natural, tanto por razões espirituais como existenciais. Assim, para as religiões verde escuras, a própria natureza, enquanto universalmente sagrada, garante a base metafísica primordial que subjaz todas as culturas, sociedades, e civilizações, através do que toda a humanidade poderia, portanto, se dizer transcendentalmente unida.

Em termos de "inversão", o princípio de que a maior parte das mudanças e desenvolvimento no mundo ocidental, e que agora se espalharam para o resto do globo através da globalização capitalista, são para pior, o Tradicionalismo e a Religião Verde Escura estão firmemente alinhadas. Ambas consideram que o que é comumente pensado como "Progresso" é em realidade um processo destrutivo. Essa inversão também dá tanto ao Tradicionalismo como às Religiões Verde Escuras seu conteúdo apocalíptico e potencial revolucionário. Porém, a Religião Verde Escura, ainda que compartilhando com o Tradicionalismo estabelecido a concepção de inversão em termos espirituais, também acrescenta a poderosa crítica das crises e catástrofes ambientais, com sua ameaça potencialmente existencial à civilização humana, como mais uma condenação da modernidade. Isso necessita de uma mudança ontológica e da restauração global de uma espiritualidade e metafísica que considerem a natureza como sagrada em resposta.

Em termos de "iniciação", a Religião Verde Escura busca restaurar as práticas das tradições antigas de animismo, xamanismo, e paganismo (as formas mais pós-modernas de Religião Verde Escura, como a espiritualidade gaia, obviamente não preenchem este aspecto do Tradicionalismo). Isso garante rituais e testes de indução em uma corrente de adeptos espirituais indo de volta à encarnações sobrenaturais do mundo natural como expressas através de um plano superior. Essas tradições espirituais são as mais primordiais e antediluvianas das crenças religiosas humanas, datando às primeiras sociedades caçadoras-coletoras, nômades, e às primeiras sociedades agrícolas, quando a humanidade vivia uma existência que era ecologicamente sustentável e majoritariamente em harmonia com a natureza, sua fonte do divino. Aqueles assim iniciados através do contato com espíritos e/ou divindades que encarnam aspectos do mundo natural transcendente, formam uma "vanguarda" ou guias que se assemelham a lojas ou grupos nas fés Tradicionalistas estabelecidas.

Há precedente para essa inclusão de fés xamanistas e animistas em consideração por círculos Tradicionalistas. Frithjof Schuon possuía um intenso itneresse pelo xamanismo nativo americano. Em 1959 e 1963 ele viajou aos EUA para buscar entendimento, diálogo, e eventualmente iniciação com a natureza primordial da religião nativo americana, como manifestação direta da Tradição Primordial em seu "estado mais puro" (Sedgwick, 2004, 148-149).

As antigas tradições da Religião Verde Escura, porém, se deparam com a crítica e hostilidade potencial dos monoteísmos abraâmicos, incluindo acusações de que suas tradições são majoritariamente reconstruções modernas, e assim possuem pouca integridade histórica ou metafísica. Isto é, é claro, irônico considerando o grande número de tradições, rituais, e símbolos que os monoteísmos adotaram e cooptaram das próprias religiões pagãs.

As várias religiões naturais antigas dentro do milieu Verde Escuro, como no Tradicionalismo, possuem cada uma suas próprias dimensões exotéricas tais como ritos religiosos, textos sagrados, e teologia moral e dogmática. Porém, quando a questão do esoterismo das Religiões Verde Escuras é examinado, nós vemos um forte conflito com a maior parte das religiões estabelecidas do Tradicionalismo, a maioria das quais adere a uma ontologia antropocêntrica e estabelecem uma divisão dualista entre Deus e a "Criação", ou natureza (isso é menos problemático em comparação com o hinduísmo e o budismo). Para Religiões Verde Escuras, sua concepção de Deus, ou do sagrado ou divino, é a Criação, unida a ela, ou um aspecto dela. Elas demandam o estabelecimento de uma ontologia ecocêntrica como um credo de fé e um meio de restaurar o equilíbrio sustentável adequado entre natural e sobrenatural. O homem já é considerado como parte da natureza, como o divino, e necessita apenas comungar e viver em harmonia com ela, e, eventualmente, morrer e retornar à natureza sagrada, ao invés de desperdiçar a vida buscando uma fuga para um estado superior de ser. Essa divisão de esoterismo e ontologia entre as Religiões Verde Escuras e as fés Tradicionalistas mais estabelecidas pareceria apresentar uma divisão séria e ponto de diferença em uma metafísica fundamental que deve ser trabalhada através do diálogo antes de que qualquer síntese ou reconciliação possa ocorrer.

Assim, em conclusão, as religiões antigas da natureza dentro da Religião Verde Escura possuem muito em comum com as formas estabelecidas de Tradicionalismo, mais importantemente a rejeição da modernidade e das idéias iluministas de progresso, bem como a busca por um retorno a uma sociedad menos materialista e mais espiritual. A Religião Verde Escura garante uma nova crítica ambiental poderosa da modernidade como inerentemente suicida, ao destruir seu próprio sistema de suporte vital, a natureza. Tendo sido dito isso, permanecem ainda diversas divisões metafísicas e ontológicas básicas que devem ser abordadas pelo diálogo antes que qualquer síntese entre ambas possa ocorrer. Tai diálogo seria, porém, em minha humilde opinião, de muito valor, na medida em que o Tradicionalismo e a Religião Verde Escura possuem muito a oferecer um ao outro como aliados na luta contra a modernidade e o materialismo.

13/06/2012

Compreender É Derrotar

Aleksandr Dugin



Um estudo objetivo e imparcial do destino religioso, cultural e histórico do povo judeu pode resultar em uma grande conclusão, a qual somente poderá ser desafiada por completos hipócritas ou diletantes. Essa conclusão consiste no seguinte: os judeus são os portadores de uma cultura religiosa que é profundamente distinta de todas as demonstrações históricas de espiritualidade indo-europeia - dos antigos cultos pagãos ao hinduísmo e ao cristianismo. A isolação voluntária ou forçada da diáspora judaica em relação aos povos indo-europeus não pode ser um episódio casual da história, e nenhum judeu ortodoxo jamais negará a base teológica subjacente nessa "peculiaridade" judaica. A questão judaica, não importando por quem ou como ela foi colocada, deve começar com um reconhecimento desse fato fundamental - "os judeus são uma comunidade que guarda o segredo de suas diferenças radicais de outros povos". Se nós não admitimos distinção, então é simplesmente sem sentido falar sobre a questão judaica.

Obviamente a distinção entre pessoas e comunidades é o que constitui, estritamente falando, sua essência e singularidade histórica e espiritual. A distinção entre comunidades étnicas é também o instrumento para definir sua percepção da própria identidade. E onde esteja presente na civilização indo-europeia, que une uma varidade de formações étnicas, estatais e políticas, a comunidade judaica sempre foi experimentada como algo estranho, como algo profundamente alienígena ao modo de pensar e cultura dos indo-europeus.

A investigação dos princípios metafísicos, sobre os quais, por um lado, a metafísica judaica é baseada, e por outro lado o espectro tradicional indo-europeu unido por um "estilo" metafísico comum, inequivocadamente demonstra que a distinção básica entre a teologia dos judeus e a teologia dos indo-europeus é um modo de compreender o Cosmos. O judaísmo vê o mundo como uma criação alienada de Deus, como um exílio, como um labirinto mecânico, no qual vaga o povo escolhido, cuja missão real não é encontrada nas famosas vitórias de Josué, filho de Nun ou do profeta Esdras, mas nas reviravoltas trágicas da dispersão. Em particular a diáspora corresponde bem precisamente ao espírito do judaísmo clássico, traçando um abismo intransponível entre o Criador e a Criação.

As tradições indo-europeias, incluindo o cristianismo, que se espalhou principalmente entre os indo-europeus, insistem em uma visão completamente diferente do Cosmos. O Cosmos indo-europeu é uma realidade viva, que é conectada diretamente com Deus ou, pelo menos, com o Filho de Deus. Mesmo nos tempos mais sombrios, na Idade do Lobo, sobre a qual a tradição nórdica fala, a conexão entre Criação e o Criador, os habitantes do Espaço e o Caos Primal, não é rompida. Ela continua através do milagre da Eucaristia, da qual um elo misterioso e contínuo permanece ininterrupto apesar das mais terríveis perseguições da Igreja, ou através da superação heróica, ou através de um ascetismo corajoso e salvífico. A consciência religiosa indo-europeia é uma consciência predominantemente indígena, uma consciência conectada com o solo ao invés da dispersão, com posse ao invés de perda, e com conexão ao invés de separação.



Foi essa distinção fundamental em relação à perspectiva global que inicialmente traçou uma linha de separação entre a visão-de-mundo judaica e a compreensão indo-europeia do Sagrado. Judeus ortodoxos, segundo seus próprios prospectos religiosos e místicos, consideram não-judeus como "goyim" (não-judeus). Em muita literatura existente em língua inglesa, os indo-europeus são percebidos como "otimistas infantis e ingênuos", não percebendo os terríveis segredos do Abismo, o drama teológico da dispersão e os segredos terríveis da diáspora cósmica. Os indo-europeus, por sua vez, acreditam que o "pessimismo religioso" dos judeus deforma as proporções do Cosmos Sagrado, retira dele suas energias salvíficas, profanando a Terra, o Espaço, o Tempo e o destino único dos povos indígenas. É necessário começar ao nível da buasca por aquela Distinção primordial e insuperável, que encarnou historicamente nas diferenças éticas, nacionais, culturais, políticas e econômicas entre "Judeus" e "Helenos". Em um certo sentido, a afirmação de São Paulo, o Apóstolo de que "não há judeus, nem helenos" carrega consigo um sabor "indo-europeu", porque no contexto de um apelo providencial da religião cristão aos povos do norte, aos indo-europeus, ela carregou consigo a idéia de que "não há judeu", enquanto que o "heleno" (modificado e convertido, mas não obstante ainda "helênico") existe. O caráter anti-judaico da mensagem cristão foi perfeitamente compreendido pelos judeus ortodoxos (o que já afetou o Talmud), pelos Pais da Igreja e posteriormente pela maioria dos teólogocs cristãos ortodoxos.

Nossas visões-de-mundo são diferentes, elas são até mesmo bastante opostas. Ademais, algumas vezes elas se exluem mutuamente. Mas o próprio reconhecimento dessa oposição eleva nosso espírito às alturas de um problema puramente metafísico. Foi em oposição aos fariseus que o Salvador formulou o princípio fundamental de nossa nova religião indo-europeia?

Um diálogo metafísico com a metafísica judaica, a tradição judaica e o espírito judaico deveria necessariamente começar no mais alto nível. Não há dúvidas de que essa corajosa colisão de dois universos metafísicos é capaz de despertar a consciência sagrada adormecida dos indo-europeus. Foi até mesmo pela negação total dos "impérios goyim" que a clara e aperfeiçoada doutrina judaica foi construída ao longo de milênios. Ao invés de uma semi-reconciliação frouxa e ecumênica baseada na negação mútua de nossas profundas tradições, uma livre e viçosa oposição entre as metafísicas da "diáspora" e a "indígena" concederão uma força original, um aspecto providencial sagrado ao diálogo indo-europeu/judaico.

Chega um tempo em que devemos abordar as coisas com seus verdadeiros nomes. As energias de nossas comunidades étnicas, nossos instintos "religiosos", teológicos e sacrais logo irromperão através dos farrapos das doutrinas anti-naturais, insolventes, irrealistas e não-explanatórias (sejam elas marxistas, economicistas ou liberais). Para impedir que essas energias sigam pela terrível trajetória do ódio cego e da violência, nós devemos erguer os estandarts metafísicos da luta inevitável do futuro de antemão, devemos estabelecer regras cavalheirescas e não admitir a transformação da grande e profunda disputa metafísica em uma "guerra total", sobre cujos riscos o inteligente jurista alemão Carl Schmitt alertou.

A diferença entre guerra metafísica e guerra física é que a primeira aspira a uma vitória da síntese tradicional da Verdade e, em segundo lugar, aspira a fazer um dois dos lados combatentes vitorioso. Nenhum dos métodos físicos é aceitável nessa oposição histórica dramática. Os campos de concentração alemães, percebeu-se, podem destruir judeus, mas não são capazes de extirpar a Judiaria. Por outro lado os comissários hassídicos foram incapazes, apesar de todo seu genocídio sanguinário, de apagar a população do eterno "Império Russo".

Mesmo esses exemplos demonstram, que a "questão judaica" e a "questão goyim" são impossíveis de resolver pela força física. Em relação à malícia judaica - uma arma da "minoria eterna" - a história mostra que ela às vezes cede à agudeza da mente indo-europeia. E ademais, os judeus às vezes se envergonham da diáspora e de suas táticas duvidosas e revelam aos "goyim" os terríveis segredos da "guerra judaica" (Arthur Koestler, Otto Weininger, Michelstaedtter, Martin Buber, etc.).

O tempo requer que ajamos abertamente. E é por isso que é tão valioso que no campo judaico haja tradicionalistas corajosos, nobres e profundos, que, sem dar um passo para longe da fidelidade tradicional à religião "iídiche", rejeitam a "mentira tática" de seus irmãos religiosos apelando a nós - nós os indo-europeus, nós os cristãos, nós os indígenas - para fortalecer nossas próprias posições antes da Batalha Final. Nossos Universos pertencem a pólos opostos da realidade. Tudo é diferente neles - a Shekhina expulsa e sofredora é incomparável com a comunidade espiritual da elite indo-europeia - no que se refere à igreja cristão e ao triunfo eterno de sua presença. Apenas uma coisa aproxima nossos mundos: Aqui e lá à "direita", mesmo em campos opostos, é atribuída a mesma nobreza, o mesmo estilo de honra e justiça, pela qual, os "liberais" de ambos Universos não são conhecidos. Ainda que isso certamente se refira não tanto à "direita" usual mas aos "Conservadores Revolucionários", aos intelectuais radicais, aos tradicionalistas e à elite religiosa.

O mundo da "Judaica" é um mundo hostil a nós. Mas nosso senso de justiça indo-europeia e a gravidade de nossa situação geopolítica demanda a compreensão de suas leis, regras e interesses.

A elite indo-europeia se encontra hoje diante de uma tarefa titânica - compreender aqueles que são não apenas culturalmente, nacionalmente e politicamente, mas também metafisicamente diferentes. E nesse caso, "compreender" não significa "perdoar", mas "derrotar". E "derrotar com a Luz da Verdade".

11/06/2012

O Sobrenatural no Mundo Moderno

por Julius Evola




“É a hora propícia para todas as empresas equívocas de falso misticismo que mesclam curiosamente as confusões espiritualistas com a sensualidade materialista. As forças espirituais invadem tudo por toda parte. Não se pode dizer mais que o mundo moderno careça do sobrenatural. É possível vê-lo aparecer por todas as partes em múltiplas espécies e variedades. E o grande mal de hoje em dia já não é mais o materialismo ou o cientificismo, senão que é uma espiritualidade desencadeada. Mas o sobrenatural verdadeiro não resulta por isso mais reconhecido. O “mistério” o envolve todo, instala-se nas regiões obscuras do Eu, que devasta, no centro da razão, que o expulsa todo de seu domínio. Está-se sempre pronto para reintroduzi-lo por todo lugar, exceto na ordem divina, onde o mesmo verdadeiramente reside”.

Assim escreveu o católico Henri Massis numa obra não recente[1]. Mas são palavras estas que ainda hoje possuem seu peso. Com efeito, ainda hoje em dia são numerosos e pujantes os grupos, as seitas e os movimentos que se consagram ao oculto e ao “sobrenatural”. Reavivados pela intensificação da crise do mundo ocidental, tais correntes reúnem seus aderentes em número notório, havendo o Espiritismo por si só alcançado milhões de participantes. Doutrinas exóticas de todo tipo são importadas e quanto mais apresentam as características do estranho e do misterioso, mais exercem uma verdadeira fascinação. Pode-se dizer que qualquer “misturada” encontra um lugar importante no “espiritualismo”, incluindo aqui as diferentes adaptações do Yoga, variedades da mística espúria, “ocultismo” dentro das margens das lojas maçônicas, neorrosacruzismo, regressões naturais e primitivistas de fundo panteísta, neognosticismo e divagações astrológicas, parapsicologia, mediunidade e coisas semelhantes, sem falar de tudo que é meramente uma pura mistificação. Em geral, é suficiente que algo se aparte da ordem daquilo que se convém denominar como normal, é suficiente que se apresente os caracteres do excepcional, do oculto, do místico e do irracional para que uma notória quantidade de nossos contemporâneos se interesse por tudo isso com uma grande facilidade. Finalmente, até a própria “ciência” interviu aqui: em algumas de suas vertentes, como a Psicanálise e a “psicologia profunda”, a mesma termina muitas vezes em promíscuas evocações nas regiões de fronteira do Eu e da personalidade consciente. Tem-se visto ademais este paradoxo: que justamente os representantes daquelas disciplinas “positivas” que, para poder justificar-se e organizar-se a si mesmas, entregaram-se a uma sistemática negação de qualquer concepção do mundo que contivesse elementos suprassensíveis, justamente estes representantes, em um setor a parte, hoje são indulgentes não poucas vezes com formas primitivas de neo-espiritualismo. E então a reputação que sua seriedade adquiriu nos domínios de sua competência é conduzida em forma abusiva como aval para o valor de ditas formas e transforma-se em um perigoso instrumento de sedução e propaganda, típico foi o caso dos físicos Crooke e Lodge[2] no relativo ao espiritismo. É assim como ambos os setores do mundo ocidental hoje estão exalando um caos espiritual que os faz semelhantes estranhamente com o mundo asiatizado da decadência helenística. Nem tão pouco faltam os Messias em múltiplas edições e formatos.

É necessário, em primeiro lugar, orientar-se e ver quais são as causas principais do fenômeno.

Como primeiro traço principal, estaríamos induzidos a pensar em um impulso geral à evasão. Num certo aspecto o neo-espiritualismo tem indubitavelmente um rol análogo ao de tudo aquilo com o qual o homem de hoje em dia trata de evadir-se do mundo que o rodeia, das formas sufocantes assumidas pela civilização e pela cultura ocidental moderna, chegando, desde tal perspectiva, nos casos limites, ao uso mesmo de drogas, à explosões anárquicas, ao demonismo do sexo, à formas difundidas e variadas de compensações neuróticas.

A tal respeito, há sem embargo motivações das quais não se pode desconhecer sua parcial legitimidade. Não é casualidade que os começos do neo-espiritualismo são contemporâneos com a afirmação da concepção positivista-materialista a respeito do homem e do mundo em sua esquálida desespiritualização, agregando-se a isso o racionalismo, quer dizer, a pretensão da razão abstrata de negar tudo aquilo que pertence aos estratos mais profundos do ser e da psique. Ao mesmo tempo, deve-se assinalar a carência das formas de uma civilização tradicional em sentido superior, capaz de efetivas aberturas até o alto. Para o Ocidente trata-se sobretudo da religião que tem predominado, quer dizer, do Cristianismo, e do fato de que ela mesma cessou-se de se apresentar como algo vivente, de oferecer pontos de referência para uma verdadeira transcendência, reduzindo-se mais precisamente, no específico ao Catolicismo, por um lado a um inerte edifício teológico-dogmático, por outro a um devocionalismo confessional e um moralismo de caráter pequeno-burguês, de modo tal que terminou-se por falar na “morte de deus” e com a formulação da exigência de uma desmistificação da religião que reduza seu conteúdo válido à mera prática social (como por exemplo, no denominado cristianismo ateu).

Mas se ocorreu assim, da religião positiva diminuir-se a respeito de sua função mais elevada, ofereceu-se muito pouco àqueles que mais que uma fé e uma domesticação moralista de tipo burguês e social do animal humano, buscavam, ainda que obscuramente, uma experiência espiritual libertadora, estes, por sua vez, não podiam não suscitar finalmente um desconformismo e uma rebelião às máximas subversivas das ideologias últimas, para as quais o princípio e o fim do homem encontram-se sobre a terra e que, como fim, indicam uma sociedade da produção e do bem-estar de massa destinado a converter-se em insípido e aborrecido, e de qualquer forma a pagar com condicionamentos e mutilações múltiplas da personalidade.

A menos que não intervenham processos de fundamental degradação, no profundo da natureza humana subsiste a necessidade do “outro” e, no limite, do sobrenatural. Não se pode sufocá-lo em todos mais além de um certo limite. Nos tempos últimos, a “morsa” fechou-se em razão dos fatores recém mencionados. Daqui que em muitos apareça o impulso que crê achar uma satisfação e um desaguar em tudo o que o neo-espiritualismo pretende oferecer, em uma certa medida com caráter de coisa nova, com ideias que parecem abrir o acesso a uma mais vasta realidade, não tão só teoricamente, senão sobretudo como experiência espiritual vívida. O fato de que nos tempos últimos terminou-se por reconhecer, ainda esporadicamente, um “extranormal” como manifestação de energias, leis e possibilidades mais além das admitidas no anterior período positivista, tal fato tem constituído muitas vezes um fator ulterior para a particular orientação do impulso à evasão do qual pretendemos nos ocupar aqui.

Um último e não irrelevante fator tem sido o conhecimento, já não mais restrito a uma cultura superior especializada, de doutrinas de origem prevalecentemente oriental, as quais prometiam mais do que as religiões ocidentais positivas de sempre, mas sobretudo em suas formas últimas vazias e sem vigor, pareciam oferecer.

Este é, em síntese, a conjuntura “situacional” à qual se pode referir a difusão do neo-espiritualismo, o qual, tal como o temos notado em outra circunstância[3], apresenta em geral os caracteres do que Oswald Spengler definiu como a “segunda religiosidade”, que se manifesta não no período luminoso originário de uma civilização orgânica, qualitativa e espiritual encontrando-se no centro desta, senão na margem de uma civilização crepuscular e em dissolução, no caso específico do que Spengler definiu como o “Ocaso do Ocidente”, como um fenômeno peculiar do mesmo.

Depois do qual é preciso fixar alguns pontos fundamentais de referência para uma tomada de postura discriminatória ante as variedades do neo-espiritualismo e de qualquer outra corrente afim com o mesmo.

A tal respeito, devemos sublinhar que a nós sobretudo nos interessa aquilo que em dito espiritualismo não se reduz a teorias, senão que compreende tendências, as quais, as vezes sem querê-lo, propiciam evocações de forças da “outra margem” e levam indivíduos e grupos em contato com as mesmas a cultivar modalidades extranormais de consciência.

A premissa é obviamente que estas influências e estas modalidades existam tão realmente como as formas da realidade física e da psique ordinária. De uma maneira ou de outra isso tem sido sempre reconhecido em toda civilização normal e completa e foi tão só negado por algum decênio de “positivismo” ocidental. Hoje em dia, sem embargo, há que ir mais além de um simples reconhecimento em termos psicológicos ou, para dizer melhor, psicologistas, tal como acontece, por exemplo, no domínio da Psiquiatria e da Psicanálise. Pelo que nos interessa, este “espiritual” se deve compreender por sua vez em termos ontológicos, quer dizer, justamente como realidade.

Não se formula de outro modo o problema de perigo do “espiritual” (ou do espiritualismo) e do “extranormal”, ou do contrario conclui revestindo um caráter sumamente banal. Poderia falar-se das parodias, das paranoias, e das fantasias de mentes desequilibradas e desviadas, pelas quais não há que se alarmar em demasia.

Aqui tem que se referir à personalidade em sentido próprio. O contato com o “espiritual” e sua afloração podem representar um risco fundamental para o homem, no sentido de que podem ter por efeito uma diminuição de sua unidade interior, daquele pertencer a si mesmo, daquele poder de presença clara em si mesmo e de clara visão e ação autônoma que definem justamente a essência da personalidade.

Em sua forma atual a personalidade no mundo das coisas tangíveis e mensuráveis, dos pensamentos lógicos de forma pura, da ação pratica e de quanto em geral, possui relação com os sentidos físicos e com o cérebro que se encontra em sua própria casa, sobre um terreno firme. Ao invés no mundo do “espiritual” a mesma corre um continuo risco, a mesma volta ao estado problemático, posto que naquele mundo não exista mais nenhum dos apoios aos quais ela esta acostumada e dos quais possuem necessidades enquanto que é uma personalidade condicionada por um corpo físico.

Não é uma casualidade o fato de que muitos dos quais hoje em dia cultivam o “espiritualismo” são seres sem personalidade pronunciada (é significativa a presença de um grande numero de mulheres em seu seio), enquanto que em troca aqueles que dão sinal de uma personalidade forte e consciente mantém-se firmes nas coisas “positivas” e alimentam frente ao suprassensível uma repulsa invencível, sempre pronta para criar-se todo tipo de justificativas. Há de compreender que esta repulsa não é sinal da manifestação inconsciente, neles, de um instinto de defesa espiritual. As personalidades mais débeis, aonde tal instinto não existe ou é atenuado, são as dispostas a acolher e cultivar imprudentemente ideias, tendências e evocações, de cujo perigo elas não se dão conta.

Tais pessoas creem que qualquer coisa transcendente ao mundo no qual estão acostumadas constitui por eles mesmos algo superior, um estado mais alto. No momento em que neles atua a necessidade de “outra coisa”, como impulso à evasão, elas, as pessoas, tomam qualquer caminho, e não se dão conta quantas vezes elas em múltiplas circunstancias entram assim na orbita de forças que não se encontram acima, senão abaixo do homem como personalidade.

Este é um ponto fundamental: ver com suma clareza as situações nas quais, apesar de qualquer aparência ou mascara, o neoespiritualismo pode efetivamente ter um caráter regressivo e o “espiritual” não ser algo “sobrenatural”, senão “infranatural”; isto sempre em forma concreta e existencial, a parte de toda confusão e desvio doutrinal e intelectual.

Para poder ter uma ideia das influencias das quais podem ainda tratar-se quando se verificam esta abertura, que é para baixo e não para acima, e este distanciamento que é descendente e não ascendente, será oportuno fazer menção ao que em um sentido vasto e complexo deve-se compreender por “natureza”. Quando se fala de “natureza” hoje se entende no geral ao mundo físico, conhecido através dos sentidos físicos de cada “pessoa desperta” e medido pelas ciências exatas. Na realidade, este é tão somente um aspecto da natureza, uma imagem formada em relação com a personalidade humana, e mais ainda em certa fase de seu desenvolver histórico, sob a forma de uma experiência própria da mesma, e não de outras possíveis fases e formas de existência. O homem percebe a natureza nas formas tão definidas da realidade física porque tem se separado de sua mesma natureza, posto que tem se liberado e desprendido desta, em modo tal de senti-la finalmente como exterior, como “não-Eu”. A natureza em si, não é esta aparição no espaço, ela ao invés é captada ali onde este sentido de exterioridade se atenua, atenuando-se correlativamente o estado da consciência lúcida de vigília e penetrando estados nos quais o objetivo e o subjetivo, o “dentro” e o “fora” se confundem. Começam aqui os primeiros domínios de um mundo “invisível” e “psíquico” que, por ser tais, não deixam de ser “natureza”, é mais, são eminentemente “natureza”, e para nada “supranatureza”. Com a investigação cientifica objetiva sobre a matéria e a energia o homem no fundo se move em uma espécie de circulo mágico criado por ele mesmo. Sai de tal circulo e alcança a natureza somente quem retrocede da consciência pessoal formada até a subconsciência através da via que começa com as obscuras sensações orgânicas, com a emergência de complexos e de automatismos psíquicos em estado livre, ou seja, dissolvidos dos controles cerebrais, e logo se desenvolve descendendo no profundo da subconsciência física.

Algumas investigações recentes têm previsto os elementos para dividir este processo de regressão também desde um ponto de vista positivo. Com anestesias locais provocadas experimentalmente tem-se seguido o que acontece nas funções psíquicas quando são neutralizados progressivamente aqueles estratos do córtex cerebral, desde os mais externos e recentes até os mais internos e antigos, até eliminar totalmente a ação do cérebro e passar ao sistema simpático que se tem mostrando vinculado ainda com certas formas de consciência. Os primeiros em desaparecer têm sido então os conceitos de espaço, tempo e causalidade, ou seja, os conceitos sobre os quais se apoia a experiência da vigília da natureza e a concatenação lógica dos pensamentos na personalidade consciente. Em relação com estratos mais profundos, a mesma consciência ordinária distinta do “Eu” vem a menos e nos encontramos no umbral de funções inconscientes, em imediata relação com a vida vegetativa. Isto é precisamente o final da “persona” e o umbral do impessoal, da “natureza”.

Aquilo que a antiguidade denominara gênios, espíritos dos elementos, deuses da natureza, etc., à parte das assunções supersticiosas populares e folclóricas e à parte das aposições poéticas, não se reduzia a mera fabula: tratava-se por certo de “imaginações” – ou seja, de formas produzidas em determinadas circunstancias por uma faculdade análoga à que atua no sonho em relação com o simpático – as quais sem embargo, em sua origem, dramatizavam de maneira múltipla e variada, justamente da mesma maneira que os sonhos, as obscuras experiências psíquicas de contato com as forças, das quais as formas, os seres e as leis visíveis da natureza não são senão sua manifestação.

Igualmente os fenômenos de clarividência denominavam “natural”, ou bem de clarividência sonambúlica, se vinculam a uma neutralização e exclusão do cérebro e do apoio de uma consciência reduzida, que em certos seres subsiste graças as circunstancias especiais, justamente ao sistema simpático. Os plexos principais do mesmo, e sobretudo o plexo solar, se transformam então em um sensório e assumem a função do cérebro, que eles exercitam sem a ajuda do instrumento dos sentidos físicos em sentido estrito, sobre a base de estímulos e sensações que não vem desde o externo, senão desde o interno. Naturalmente, segundo os casos, os produtos desta atividade possuem um caráter mais ou menos direto, ou seja, estão mais ou menos mesclados com as formas que as mesmas usam para traduzir-se e converter-se em conscientes e que são em grande medida informadas pelo elemento espaço-temporal próprias do cérebro[3]. Porém, por maior que seja a parte das escorias, subsiste nestes fenômenos uma margem incontestável de objetividade, que se confirmam às vezes também em forma evidente, pela correspondência dos dados previstos por tal via com os controláveis sobre a base das percepções físicas crivadas e organizadas pela consciência de vigília.

Isso proporciona já um ponto de orientação. Existe toda uma zona “psíquica”, “oculta” com respeito à consciência ordinária, a qual e a sua maneira real (não “ilusão subjetiva” ou “alucinação”), porém que não deve confundir-se com o “espiritual” em sentido de valor, e tanto menos com o “sobrenatural”. Com maior razão, se poderia aqui ao invés de falar de infranatural, e aquele que se abre passivamente, “extaticamente” a este mundo, em realidade retrocede, faz descer no nível interno de um grau superior para um inferior.

Toda medida positiva para a verdadeira espiritualidade, para o homem, deve ser a consciência clara, ativa e distinta: a que ele possui quando escuta objetivamente a realidade exterior ou forma dos termos de um racionamento lógico, de uma dedução matemática, ou toma uma decisão em sua vida moral. Sua conquista, o que o define na hierarquia dos seres, é esta. Quando ele por sua vez passa nos estados de um misticismo nebuloso, de um desvio panteísta e na fenomenologia – por mais sensacional que este seja – que se verifica nas condições da regressão, do colapso psíquico, do transe, ele não ascende, senão que descende na escala da espiritualidade, passa de um mais para um “menos que espírito”. Não supera a “natureza”, senão que se restitui para ela, e mais, converte-se no instrumento das forças ínferas encerradas nas formas da mesma.

Só logo de ter visto com muita clareza este ponto se pode formular a ideia de uma diferente e antitética direção espiritual, que sirva para medir o que pode haver de válido no “espiritualismo” e que pode proporcionar a quem, tendo uma particular vocação e qualificação, busca uma “transcendência”; algo mais elevado do que oferece a concepção moderna do mundo, o espaço para uma superior liberdade mais além dos condicionamentos e do sem-sentido da existência de hoje em dia e das mesmas formas residuais das confissões religiosas. No nível dos princípios trata-se de formular a exigência de uma via para experiência que, longe de reduzir a consciência, transformam-na em supraconsciência, que, longe de abolir a distinta presença de si, tão fácil de conservar-se num homem são e desperto entre as coisas materiais e nas atividades práticas, elevem-na a um nível superior, de modo a não alterar os princípios que constituem a essência da personalidade, senão que em vez os integre. A via a experiências de tal tipo é a via ao verdadeiramente sobrenatural. Mas esta via não é cômoda nem sedutora para a imensa maioria. Pressupõe justamente a atitude oposta à dos entusiastas do “espiritualismo” e daquele que se encontra meramente impulsionado por uma tendência à evasão, pressupõe uma atitude e uma vontade de ascese, no sentido originário dessa palavra, distinto das assunções de ordem devocional mortificatória e monástica.

Não é fácil remeter a mentalidade moderna a considerar e a julgar em termos de interioridade, em vez que de aparência e de fenômeno ou de sensação. Muito menos é fácil, logo das devastações cumpridas pelo “biologismo”, pelo “antropologismo” e pelo evolucionismo, remeta-la ao sentido do que foi também e nominalmente ainda é hoje em dia um ensinamento católico: a dignidade e o destino sobrenatural da pessoa humana.

Agora bem, justamente este é, em câmbio, o ponto fundamental para a ordem das coisas das quais estamos tratando. Só aquele que tenha um tal sentido pode reconhecer com efeito que em tudo que não é mais material existem dois domínios diferentes, e mais, antitéticos. O correspondente a formas de consciência inferiores ao ponto de estado de vigília da pessoa humana normal é a ordem natural em sentido mais vasto. Tão só a outra ordem é a sobrenatural. O homem acha-se entre um e outro destes dois domínios, e quem sai de uma condição de êxtase ou de precário equilíbrio pode gravitar de uma a outro. De acordo com a antes mencionada doutrina da dignidade e do destino sobrenatural do homem, este não pertence à “natureza”, nem no sentido materialista do evolucionismo e do darwinismo, nem no sentido “espiritualista” do panteísmo e de concepções afins. Como personalidade ele se eleva já desde o mundo das almas místicas das coisas e dos elementos e desde o fundo de uma “cosmicidade” indiferenciada – e sua visão de coisas físicas claras, de crus contornos, objetivas no espaço, assim como sua experiência de pensamentos bem precisos e logicamente concatenados, expressa já quase uma espécie de catarse e de liberação a respeito daquele mundo, apesar da limitação dos horizontes e das possibilidades que disso derivam[4]. Quando em vez retorna ao mesmo, ele abdica e trai seu destino sobrenatural: cede sua “alma”. Ele toma, consciente ou inconscientemente, a via descendente, ali onde na fidelidade a seu fim lhe estaria eventualmente dado ir mais além de qualquer estado condicionado, por mais “cósmico” que este seja.

Este enquadre esquemático é suficiente já para uma primeira orientação ante as múltiplas correntes do “espiritualismo”. O desenvolvimento da crítica de cada uma delas permitirá precisar e integrar paulatinamente tais concepções de modo tal a deixar ver ao mesmo tempo quais podem ser os pontos positivos de referência.

Notas

[1] – H. Massis, Defense de l´Occident, Pais, 1927, pg. 245.

[2] – Ver nossa obra “Cavalgar o Tigre”.

[3] – Ver A. Shopenhauer, Parerga und Paralipomena, Ed. 1851.

[4] – Tem relação com esta postura o ensinamento budista segundo o qual os “deuses” (compreendidos como potências naturais) se querem obter a liberação, é preciso antes que passem ao estado humano, e que ali obtenham o “despertar”; com o qual vincula-se por sua vez o ensinamento hermético da superioridade do homem sobre os deuses como “senhor das duas naturezas”, mas também acerca do contínuo perigo no qual se encontra. Há que se notar – e à continuação o veremos de perto – que frente ao ideal da “liberação”, idêntico ao da completa realização do destino sobrenatural do homem, o conceito de “natureza” deve abarcar também os estados cósmicos e não-humanos, mas que se vinculam também eles ao mundo condicionado.

Texto retirado do “Mascara y Rostro del Espiritualismo Contemporáneo” (cap. I).

08/06/2012

Troy Southgate - O Caso do Entrismo Nacional-Anarquista

por Troy Southgate


Nós não temos feito segredo de nossa insatisfação com as táticas da maior parte das organizações separatistas raciais nesse país, e na verdade está claro para nós que a maneira cômica pela qual elas abordam a ação política está apenas nos levando mais perto do dia em que seremos completamente derrotados. Até agora, grupos dessa natureza se satisfizeram com eleições e ativismo de rua, como vendas de jornais, colagem de cartazes, colagem de stickers e distribuição de panfletos. Nossas opiniões sobre eleições já são bem conhecidas, mas há ainda lugar para o ativismo de rua. De fato, a propaganda de rua inteligente pode levar a resultados bastante eficazes. Os problemas começam sempre que nós começamos a confiar nesses métodos como nossos únicos meios de agitação política. Há duas razões para isso. Primeiro, é inacreditável que algumas pessoas sejam tão completamente ingênuas a ponto de acreditar que a revolução virá de emboçar as ruas com stickers e cartazes e que por algum milagre a população se mobilizará em favor de nossa causa. Qualquer um que tenha estado ativo por qualquer período significativo de tempo saberá o quanto isso é ridículo. Segundo, é precisamente porque o Estado cortou (ou melhor, pensa que cortou) todas as outras maneiras através das quais nós poderíamos transmitir nossa mensagem a uma audiência mais ampla, que praticamente todos os ativistas foram forçados a depender da prática inútil de disseminar cartazes e stickers. O Estado está perfeitamente feliz em permitir que nós nos demos ao luxo dessa atividade, porque ele sabe o quão pouco nós podemos ganhar de tal estratégia. De fato, se esse tipo de atividade alguma vez tivesse sido considerado uma ameaça real ao Estado, então ele teria sido banido imediatamente.

Nacionais-anarquistas não estão dispostos a permitir que o Estado dite que atividades nós podemos ou não realizar. Nós percebemos que potencialmente, ao menos, nós poderíamos nos tornar objeto de repressão estatal generalizada e que é cada vez mais difícil operar, mas ao invés de nos tornarmos pessimistas ou derrotistas tudo que é necessário é um pouco mais de pensamento inteligente. Dar um passo para trás e avaliar a situação pode muitas vezes ajudar a superar algumas das dificuldades aparentemente mais impráticas. E uma das soluções mais úteis que temos a nossa disposição é o entrismo.

Entrismo é o nome dado ao processo de penetrar ou infiltrar organizações de boa fé, instituições e partidos políticos como objetivo de ou ganhar controle deles para nossos próprios fins, desviar ou perturbá-los para nossos propósitos ou converter seções de seus quadros para nossa causa.

Essa tática já foi usada com sucesso pela Tendência Militante em Liverpool, que conseguiu adquirir o controle do Partido Trabalhista naquela cidade e acabou efetivamente governando a própria Liverpool. Décadas de colagem de cartazes e vendas de jornais não nos levarão a essa posição e, se continuarmos seguindo o caminho apenas do ativismo de rua, na melhor das hipóteses recrutamos um ativista decente de tempos em tempos de modo a substituir aqueles que se aposentam ou pulam fora. Em efeito, nós mantemos nossa força atual. Também é possível que diminuamos até uma posição na qual não é mais viável continuar a luta. O entrismo, portanto, é vital para a continuação e lengevidade de nossa causa e dele vem a única chance possível de vitória. Vejamos dessa maneira: muito do que passa por extrema-esquerda não possui ideologia viável, não tem nada a dizer e suas idéias são completamente desfuncionais. E ainda assim ela tem influência. Essa influência se deve parcialmente a estratégia organizacional. Por outro lado, nós temos boas idéias e muito pouca influência. Isso só pode ser resultado de organização tática pobre e estratégia fraca. Portanto, o que é necessário é a adoção do tipo de estratégia que, até agora, tem sido usada pela esquerda.

Então como realizamos o entrismo? Primeiro, é necessário o tipo certo de pessoa ou grupo para realizar esse tipo de trabalho. O que precisamos é de indivíduos inteligentes que estejam familiarizados com as idéias e pareçam adequados para isso. Normalmente, essas pessoas estariam sob a direção de um quadro mais experiente, mas isso não é essencial desde que eles saibam o que estão fazendo. Nem todos servem para esse tipo de trabalho, porém, porque indivíduos conhecidos ou com um histórico passado de ativismo de rua devem estar excluídas. Pessoas que estragaram o disfarce, por assim dizer, realmente não servem para nós nisso. Segundo, a organização alvo deve ser escolhida com cuidado. O jeito de fazer isso é escolher qualquer número de organizações ativas em uma certa localidade e visitar todas elas ao longo de um período, se possível com diferentes ativistas. Muitas vezes ocorre que indivíduos já ativos em uma organização também serão membros de um certo número de outros grupos na área, e nós não queremos chamar atenção para nós nessa fase inicial. Uma vez que a informação tenha sido reunida, você saberá que organização possui o maior potencial.

Então o que buscamos? Qualquer organização com uma liderança fraca, apática ou velha. Uma organização que possua uma seção de juventude ou membros jovens; grupos que contenham indivíduos de meia idade, de classe média ou satisfeitos consigo mesmos não tem qualquer utilidade para nós. O que necessitamos é de uma organização que possua idealistas, pessoas motivadas por ideologia e uma organização que tenha - ou que possa ter - alguma forma de influência, com a liderança correta, na comunidade.

Uma vez que o alvo tenha sido escolhido, coloque uma ou duas pessoas para se filiar pelos meios normais (ou seja, formulários de recrutamento, convites a encontros, etc.). Pareça entusiasmado, mas não em excesso e guarde sua opinião política para si mesmo. Demonstre interesse. Se te pedirem para fazer algo, então o faça diligentemente, trabalhe duro. Seja cortês, agradável, cultive relações e faça amizades. De todo jeito tenha uma opinião, mas guarde sua política para si mesmo. Deixe algum tempo passar, talvez seis meses ou um ano, e então coloque mais dos nossos para se unir. Vocês já eram amigos, então não levantará suspeita quando vocês se associarem. Você receberá crédito por trazer mais pessoas e aumentar o número de membros da organização. Deixe passar mais seis meses, talvez mais, e então comece a esquentar as coisas.

Selecione aqueles indivíduos que possam ser mais simpáticos em relação às idéias nacional-anarquistas e comece a trabalhar neles. Lentamente, silenciosamente, e com certo grau de sutileza. Não levante suspeitas, faça amizade com as pessoas citadas e arranje para se encontrar com ele ou ela fora dos eventos da própria organização. Façam deles parte de nosso grupo sem que eles nem saibam quem somos. Bajule eles, compre bebidas, faça com que se sintam em casa, mas mantenha sua política para si mesmo. Deixe mais tempo passar e então comece a esquentar as coisas ainda mais. Comece a criticar a organização alvo, talvez você possa focar em algo com o que os membros claramente não estão felizes. Faça isso dentro do seu próprio grupo. Pegue alguém do nosso pessoal, talvez até dois, para discutirem contra você para que não se levantem suspeitas. Não deixe que a pessoa ou as pessoas nas quais você está trabalhando ache que vocês estãos associados, mas garanta que seus "oponentes" eventualmente se rendam e passem para o seu lado da discussão.

Essa é a parte mais importante de toda a operação. É difícil e leva tempo, então seja bastante paciente. Não apresse as coisas, fique calmo e leve o tempo que for necessário. Seja perseverante. Lentamente, silenciosamente, tente expandir o grupo. Faça mais amigos e chame ainda mais dos nossos para se unir. Você vai começar a ser notado, há um punhado dos nossos agora e alguns dos outros membros podem começar a imaginar o que está havendo. Apenas relaxe. Não há nada acontecendo e vocês todos são apenas amigos trabalhando pela mesma causa. Ninguém percebe quem você realmente é ou o que você realmente representa. Se possível, tente eleger alguns dos nossos aos comitês de direção. Coloque-os em posições de responsabilidade. Veja se você consegue se tornar o tesoureiro. Mas não vá com sede demais, ou rápido demais. Tudo isso deve parecer um processo natural.

Vá o mais longe que você puder cultivando amizades e relacionamentos. Quantas pessoas nós tivermos nessa fase ditará o quão bem sucedido será o resultado final. Agora é a hora de decidir que rumo você quer tomar com a organização. Você pode querer ficar com o que já tem ou tentar alcançar uma posição de poder a partir da qual você possa reunir informação. Você pode sentir que algumas das pessoas com as quais você tem trabalhado podem ser recrutadas para a própria causa nacional-anarquista. Se este for o caso, tente recrutá-las. Se você tiver sucessos e a organização alvo não tiver nada mais a oferecer, simplesmente vá para outro lugar.

Pode haver outro cenário. Pode ser o caso que a organização a que você se filiou não possua potencial imediato e você pode não ser capaz de ter qualquer influência nela ou ganhar qualquer coisa dela. Mesmo assim, ela pode ser uma organização na qual precisemos ter uma influência, já que ela pode desempenhar um papel vital em uma situação revolucionária. Se este for o caso então você deve permanecer e perseverar, apenas se tornando ativo para nossa causa quando for a hora certa. Nós estamos nos preparando para o futuro. O objetivo é de longo prazo e nós precisamos colocar pessoas nas instituições sociais agora.

Outra opção pode ser uma defecção pública. Se você conseguiu abrir caminho até a hierarquia de uma organização e possui um punhado de pessoas ao seu redor com alguma influência, pode ser o caso que uma defecção bem pública por você ou seu grupo para o nacional-anarquismo seja bastante benéfica. Nós conseguimos isso em 1997, quando os dois principais organizados do ramo Burnly do Partido Nacional Britânico vieram para o Movimento Nacionalista Inglês e trouxeram diversos ativistas de West Yorkshire consigo. Imagine o tumulto midiático que ocorreria se um conselheiro ou político local abandonassem seus partidos para se unir às fileiras do nacional-anarquismo. Quanto mais respeitado o indivíduo, mais dano isso causará ao Sistema. E é usualmente o caso de que se um indivíduo proeminente deserta, ele ou ela leva muitos outros consigo.

A última opção é a mais interessante e possui um grande potencial. É a de tentar assumir o controle, desde dentro, da organização que você selecionou e então colocá-la a serviço de nossa própria agenda. Se tal organização possui influência na comunidade ou mesmo poder nela, nós nos encontraremos em uma posição de grande força.

O primeiro passo é formar uma facção, um grupo de propaganda combativa dentro da organização alvo. Escolha uma linha ideológica que esteja em sintonia com nossa própria posição e que ataque a atual posição da organização e, mais importante, seja uma idéia ou conjunto de idéias vistas como justas e sob as quais as pessoas possam se mobilizar. Os métodos a usar são panfletos, boletins, reuniões, debates abertos, palestras e reuniões sociais. Uma vez que a facção tenha sido formada, o momentum deve ser mantido e você deve agir rápido. A liderança da organização alvo ficará alarmada e, mais cedo ou mais tarde, eles terão que agir para te deter. Lute de volta. Coloque os jovens do seu lado, ataque abertamente a liderança atual, atrapalhe suas reuniões, provoque-os, ofusque-os. Quando você tiver conquistado pessoas suficientes, conclame os membros a derrubar a liderança e substitui-la com seu próprio pessoal. Essas serão nossas primeiras vitórias. Isso é entrismo. Isso é ação revolucionária. A organização está agora em nossas mãos e nós podemos fazer com ela o que quisermos.

Deve ser compreendido que se nós quisermos melhorar a situação do nacional-anarquismo nesse país e em outros lugares, a estratégia delineada neste artigo é uma que devemos efetivar e começar imediatamente. Não há barreiras para nós. Não há organizações ou instituições nas quais não possamos entrar. Alguns podem dizer que nós devemos evitar o inimigo e ficar longe daqueles sobre os quais ele tem influência. Não. Todos são alvos. O inimigo sempre fez isso e jamais hesitou em nos destruir ou sabotar. Nós agora devemos começar a destruir e sabotar eles. É o caso de que muitas organizações atualmente dominadas pela esquerda ou pela direita simplesmente precisam ser empurradas de sua ideologia atual para serem colocadas no caminho nacional-anarquista. Esse é um trabalho que nós mesmos devemos realizar. Mesmo que não possamos conquistá-los para nossa causa, nós ainda podemos estar entre eles, e confundi-los. Até agora, nós temos tentado enfrentar o inimigo abertamente, mas não mais. Nós devemos destrui-los de dentro.

O que o Estado mais teme é uma corrente organizada de insurgência que possa usar a cabeça. Atualmente, grupos como o PNB e o FN estão usando meios políticas que foram prescritos para eles pelo próprio Estado. De fato, quer seja a farsa ridícula das eleições ou hobbyistas das horas vagas aprisionados em um ciclo sem saída de ativismo de rua, o Estado pode lidar facilmente com eles e sempre o fará. O Sistema britânica teve trinta anos de experiência em Ulster para testar os métodos que usará contra subversivos aqui. Nós sabemos que a urna eleitoral não tem nada a nos oferecer. Nós sabemos que não podemos usar atualmente a força para liberar nossa terra, então nós devemos forjar um novo caminho.

Esse novo caminho é o entrismo, trabalhar dentro das instituições e organizações da sociedade com revolucionários comprometidos. Nessa fase de nosso desenvolvimento, é o único curso lógico de ação. A longo prazo, é a única estrada possível para a vitória.

04/06/2012

A Doutrina do Estado no Pensamento de Julius Evola - Sacralidade e Decadência

Por Juan Estaban Villaroel 


A problemática constante no pensar de toda filosofia Política acerca da natureza, origens, fundamento e também do próprio declive da ideia e da efetividade do Estado enquanto realidade histórica, poucas vezes encontrou nos tempos hodiernos, uma exposição tão profunda e ao mesmo tempo tão afastada e mesmo oposta aos habituais tópicos e convencionalismos, como a que desenvolveu o grande pensador italiano Julius Evola.

O presente e modestíssimo trabalho pretende justamente, frente à omnipresença das numerosas e, geralmente, inconsistentes linhas de especulação contemporâneas, resgatar e desenvolver alguns dos aspectos elementais do pensamento político do Barão italiano, particularmente a assinalada doutrina do Estado. Tudo isso, não obstante, sob uma perspectiva na qual subjaz uma tese básica e inevitável, sistematicamente ignorada ou incompreendida pelos modernos, a saber: o Estado originalmente possuiu um caráter sagrado, sendo a míngua e o obscurecimento desse mesmo caráter a raiz e a origem de sua ulterior decadência.

Para demonstrar e esclarecer a primeira afirmação, quer dizer, o caráter sacral do Estado no contexto do pensamento evoliano, temos intentado abordar, em linhas gerais, alguns temas relativos à essência e às características fundamentais desta instituição, que consideramos imprescindíveis para nosso propósito e que passamos a sintetizar brevemente a partir de agora.

O ponto de início que deve nunca ser perdido de vista é que, para Evola, o âmbito do sagrado não se reduz ao que atualmente entendemos por religião, nem tão pouco a uma concepção puramente contemplativa que exclui à ação a Política e o Estado. Ao contrário, trata-se de uma esfera muito mais ampla, que abarca diferentes aspectos e, eminentemente, ao Estado.

É em razão desta postura não dualista que para Evola uma noção capital em toda sua obra, isto é, a ideia de Tradição, não constitui nem poderia constituir um mero princípio de continuidade histórica, ou a simples entrega de conceitos, símbolos ou doutrinas, nem menos ainda uma criação humana atribuível a algum povo determinado, senão mais bem e antes de tudo, a presença efetiva de uma força, poder ou energia sacra no seio mesmo do tempo e do espaço, que, dominando e manifestando-se em todos os campos da civilização, define precisamente a existência, possibilidades e vitalidade desta mesma. A este fenômeno Evola o chama de “transcendência imanente”.

Agora bem, a Tradição, entendida neste sentido de “transcendência imanente”, concretava-se, segundo o pensamento do autor, no papel originário do Estado e, especificamente, em quem se encontrava em seu centro: o monarca sagrado ou Imperador, que era quem encarnava, irradiava e transmitia esta força, por distintos meios e formas, a todos os demais âmbitos. A esta figura, síntese do poderes temporal e espiritual, correspondia-lhe, ademais, o exercício e a titularidade de um poder absoluto, de natureza e fundamento transcendente, que necessariamente deve encontrar-se no núcleo de todo Estado que se aprecie como tal: a soberania.

É em relação com aquelas origens e nexos sagrados que Evola pôde caracterizar o Estado como a encarnação de uma ideia espiritual e uma manifestação do princípio viril, “formal” e qualitativo, distinto e ainda oposto à sociedade, ao demos e à nação, toda vez que para o autor estes são entes coletivos, caracterizados unicamente pelo numérico, naturalista e quantitativo, quer dizer, são expressões de outro princípio: o “material” e feminino. A relação então entre o Estado, por um lado, e a sociedade e a nação, por outro, é a que por analogia existe entre os princípios de “matéria” e “forma”, entendidos em seu significado metafísico antigo.

Da confluência e síntese destes dois princípios, resulta a transfiguração e a elevação do elemento inferior, nascendo a organização verdadeiramente política a que Evola chama “Estado Tradicional”. Estado que, por sua vez, para manter tal caráter deve possuir uma nota ou perfeição que nosso autor denomina “orgânica”.

Sem embargo, esta organicidade que indica Evola como essencial a todo Estado verdadeiro, não deve entender-se como uma simples alusão ao mundo da biologia, ou a uma comparação com qualquer tipo de organismo vivo, senão como uma articulação unitária e hierárquica que tem por referência a um ente específico e superior: a persona. O Estado então ,assim como a Persona, é um todo, mas uma totalidade diferenciada, determinada por uma estrutura que se delineia em base às ideias de funcionalidade, gradualidade e hierarquia, donde a hierarquia significa, literalmente, a primazia ou soberania do sagrado, do Espírito.

O mencionado caráter sacral, com presença constante na inteira doutrina evoliana do Estado, manifesta-se também no problema relativo à origens e à finalidade do mesmo. Pois, historicamente, o nascimento do Estado vem a ser a adaptação a um novo ciclo dos caracteres essenciais da espiritualidade das origens e não, em consequência, o progresso-evolução desde uma instância simiesca, bárbara e selvagem, ou o produto violento que segue ao abandono de um pretendido e aprazível “estado de natureza”.

Tampouco podemos comprovar uma opinião distinta no referente à finalidade do Estado, pois, para Evola, o Estado, por sua presença e por sua própria estrutura orgânica e hierárquica, cumpre um rol “pontifical”, quer dizer, de via ou ponte sobrenatural, para que o mero indivíduo, ou seja, o indiferenciado e quantitativo, possa alcançar a esfera da personalidade, quer dizer, a participação na qualidade e na espiritualidade.

Por outro lado, e finalmente no que se refere ao obscurecimento e declive do Estado, resulta mister insistir que a decadência é, principalmente, o processo gradual e paulatino em virtude do qual o Estado vai perdendo seu caráter sacral. Quer dizer, estamos em presença de um fenômeno de dessacralização e secularização. Fenômeno que, nas origens, tem estreita relação com a liberdade: é o homem quem decide apartar-se ou desvincular-se do Espírito e suas possibilidades inerentes, não se trata, em consequência, de um feito fatal, inelutável e necessário. Sem embargo, ao dizer do próprio Evola, uma vez iniciado o processo, este tem uma precisa concatenação de efeitos.

Assim mesmo, se a decadência em geral, e a do Estado em particular, apresenta distintas facetas e manifestações, neste trabalho, e já para concluir estas breves notas, intentamos sistematizá-las com base ao estudo ideal – não histórico-cronológico – de certas tendências ou movimentos que, de uma forma ou de outra, opõem-se à essência do Estado tal como o perfila Evola, concretando o citado processo de secularização.

Assim, podemos distinguir e precisar, em primeiro lugar, a origem ideal do fenômeno na separação, ruptura e posterior oposição dos poderes temporal e espiritual, verdadeira e última causa de sua queda. Em segundo lugar, encontramos o fenômeno comumente conhecido como “Absolutismo”, donde, a grandes traços, podemos apreciar uma acentuação da degradação que já afetava a função primordial. Aqui o príncipe, totalmente desconsagrado, pretende nivelar e centralizar, através de um poder materializado os vestígios de um período precedente, corrompendo e atacando a estrutura do Estado e, portanto, sua própria finalidade.

Em terceiro lugar, podemos agregar a alguns movimentos onde prima a ideal “social”, tais como o nacionalismo [1], a democracia e o socialismo[2]. Esta primazia nos remete e conduzirá sempre, na opinião de Evola, ao quantitativo, naturalista e “material”, frente a tudo que é “forma”, ordem e virilidade, invertendo a justa relação entre ambas as ordens e propiciando a destruição e desaparecimento daquilo que precisamente define uma verdadeira organização política.

Por último, podemos mencionar a certas formas que desconhecem o verdadeiro caráter do Estado e atacam a origem e fundamento deste como no caso da ideologia jus-naturalista, ou que distorcem, entre outras coisas, sua estrutura e fim como o liberalismo; fundamentalmente este último pelo desconhecimento da diferença entre as ideias de indivíduo e Persona, e também por seu ataque à verdadeira natureza do poder e da soberania, ponto que permite vinculá-lo à chamada doutrina do “Estado de Direito”, tão estimada nos círculos jurídicos.

Em suma, e à maneira de síntese final, podemos sinalar e destacar, à luz dos temas expostos, a indissolúvel conexão entre o Estado e o transcendente, constatando, ademais, que a decadência desta magna instituição obedece a uma tendência unitária de dessacralização, da qual participam, em menos ou maior medida, os distintos movimentos examinados.

Notas do Tradutor

[1] – Apesar de que seja possível acoplar-se ao pensamento nacionalista uma determinada potencialidade transcendente, exatamente quando tal pensamento reconhece os aspectos orgânicos de uma totalidade espiritual, ou seja, quando obedece a uma espiritualidade, acima do meramente social. [2] – As críticas mais contundentes de Evola recaem sobre o socialismo de viés marxista, este sim, encarnação perfeita do ideal da coletividade.

Crédito Social: Reforma Distributista do Sistema Financeiro

por Oliver Heydor



O actual método de criação e distribuição de dinheiro na maior parte dos países pode ser considerado “capitalista”, porque separa a posse do trabalho de tal modo que uma pequena elite pode fazer lucros obscenos e injustificados às custas da maioria. Em vez de considerar o dinheiro como um meio de troca (que era o seu objectivo inicial e mais importante), o sistema financeiro capitalista trata o dinheiro como propriedade produtiva de uns poucos, como um bem que pode ser comprado e vendido. No coração da finança capitalista encontra-se o sistema bancário de reservas fraccionadas. Através deste engenhoso meio de gestão do dinheiro, os banqueiros conseguem extorquir enormes quantidades de dinheiro em pagamentos de juros aos seus clientes. Digo “extorquir” porque os lucros gerados por este processo são imerecidos.

O sistema de reservas fraccionadas funciona do seguinte modo: o Sr. Silva vai ao banco A e deposita 1000€ em dinheiro. O banco A só é obrigado a manter uma pequena parcela desse dinheiro nas suas reservas, digamos entre 3-10%, enquanto que o resto pode ser emprestado. Digamos que o Sr. João quer pedir 900€ emprestados ao banco A para poder comprar um carro usado. Partamos do princípio que o Sr. João não quer pagar o carro em dinheiro, e que prefere pagar com um cheque. Quando o Sr. João vai ao banco A com o seu pedido, e o banco concorda em conceder-lhe o empréstimo de 900€, o banco não lhe vai dar os 900€ depositados pelo Sr. Silva; ao invés, irá duplicar estes 900€ ao passar um cheque ao Sr. João. Isto ocorre porque o dinheiro a crédito, i. e., dinheiro que tem de ser pago com juros, é tão válido como o papel moeda como meio de troca. Assim, quando no início do processo só havia 1000€ em dinheiro, o banco acrescentou 900€ adicionais à oferta de dinheiro através do sistema de reservas fraccionadas. Quando o Sr. João entregar o seu cheque ao vendedor a quem comprou o carro, e este por sua vez o depositar no banco B, todo este processo de gerar novo crédito, e assim dinheiro novo, repete-se.

De facto, estima-se que cerca de 95% da oferta de dinheiro numa economia moderna é criada ex nihilo pelas instituições financeiras deste modo. O problema do sistema de reservas fraccionadas é que apesar de não custar quase nada aos financeiros criar este novo dinheiro, eles ainda assim insistem no pagamento de juros. O resultado é a usura, entendida tradicionalmente não como a cobrança de uma quantidade exorbitante de juro, mas como a cobrança de qualquer juro num empréstimo não-produtivo. Um empréstimo pode ser não-produtivo de duas maneiras. Um empréstimo pode ser não-produtivo no sentido em que não vai ser usado para financiar produção lucrativa, ou não-produtivo no sentido em que o empréstimo não é o produto de um processo gerador de custos. Empréstimos que são o resultado do sistema de reservas fraccionadas não implicam, por si só, um custo significativo para o seu produtor, portanto a cobrança de juros nestes empréstimos é usurária.



Além da injustiça intrínseca deste sistema, este modo de criar e fornecer dinheiro acarreta algumas consequências muito prejudiciais. De cada vez que um banqueiro cria um empréstimo e exige ser pago com juros, ele introduz apenas o dinheiro emprestado na oferta de dinheiro; não introduz nenhum dinheiro para cobrir o pagamento dos juros que podem, a longo prazo, ser maiores que o próprio dinheiro emprestado. O resultado gerado pelo actual sistema financeiro é uma falta crónica de dinheiro que limita artificialmente a produção e o consumo. Isto, por seu turno, leva ao aumento exponencial dos débitos pessoais, empresariais e governamentais, crescimento económico desperdiçador, degradação ambiental, incapacidade dos sistemas de saúde e ensino, quebra social, tensões financeiras desnecessárias, e por aí adiante. Devido à sua natureza essencial, bem como às suas consequências infames, já é altura do sistema de reservas fraccionadas ser rejeitado como imoral.

Proponho por isso que, antes de ser possível a introdução de uma economia distributista tal como defendida pelo Mr. Storck, devemos primeiro considerar a reformulação do actual sistema financeiro de acordo com princípios distributistas. Pois o mais importante tipo de propriedade que precisa de ser mais justamente distribuída é o dinheiro, pois o dinheiro como meio universal de troca, proporciona aos seus detentores os meios necessários para obter qualquer bem ou serviço.

A doutrina do Crédito Social, desenvolvida pela primeira vez no início do século passado pelo engenheiro escocês C.H. Douglas, pode ser considerada como uma alternativa distributista ao sistema de reservas fraccionadas. Esta proposta consiste em várias políticas concebidas para funcionar em conjunto. Em primeiro lugar, as reservas fraccionadas seriam substituídas pelas reservas totais, para que os bancos já não pudessem criar a maior parte da oferta de dinheiro de um país para lucro pessoal. Ao invés, um Gabinete Nacional de Crédito (GNC) seria incumbido da responsabilidade de assegurar que a oferta de dinheiro é sempre igual à capacidade produtiva da economia, de tal modo que o poder de compra seja suficiente para liquidar a oferta. O novo dinheiro criado pelo GNC seria considerado um serviço social, daí o termo “Crédito Social”. Isto significa, por seu turno, que seria introduzido na economia livre de débitos e juros. Algum deste novo dinheiro seria utilizado para financiar as despesas governamentais na saúde, na educação, em infra-estruturas, na defesa e por aí adiante (eliminando a necessidade de impostos); algum deste dinheiro seria distribuído a cada cidadão na forma de um dividendo social que garantiria a todos um rendimento mínimo (eliminando a carência e as formas mais graves de pobreza); e algum seria utilizado para financiar o sector retalhista ao mesmo tempo baixando os preços dos bens e serviços para os consumidores (permitindo recalibrar todo o sistema e impedindo a inflação).

Infelizmente, está para além do âmbito deste artigo dar à doutrina do Crédito Social a exposição mais clara e a defesa que merece. Apresento-a aqui brevemente na esperança de que mais pessoas reconheçam a existência de uma alternativa viável ao sistema monetário capitalista, alternativas que, se adoptadas a tempo, significam a diferença entre – como disse Douglas – o regresso às trevas, ou a emergência dum dia de tal esplendor como nunca foi imaginado.

03/06/2012

O admirável mundo novo


Por Aldous Huxley

Não há, por certo, nenhuma razão para que os novos totalitarismos se assemelhem aos antigos. O governo pelos cassetetes e pelotões de fuzilamento, pela carestia artificial, pelas prisões e deportações em massa, não é simplesmente desumano (ninguém se importa muito com isso hoje em dia); é, de maneira demonstrável, ineficiente — e numa época de tecnologia avançada a ineficiência é o pecado contra o Espírito Santo. Um estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que o executivo todo-poderoso de chefes políticos e seu exército de administradores controlassem uma população de escravos que não tivessem de ser coagidos porque amariam sua servidão. Fazer com que eles a amem é a tarefa confiada, nos estados totalitários de hoje, aos ministérios de propaganda, diretores de jornais e professores. Seus métodos, porém, são ainda primitivos e pouco científicos. A afirmação jactanciosa dos antigos jesuítas, de que, se lhes fosse dado educara criança, se responsabilizariam pelas opiniões religiosas do homem, não era mais do que o produto da racionalização de um desejo. E o pedagogo moderno é, com toda probabilidade, bem menos eficiente no condicionamento dos reflexos de seus alunos do que o eram os reverendos padres que educaram Voltaire. Os maiores triunfos da propaganda têm sido obtidos, não por atos positivos, mas pela abstenção. Grande é a verdade, mas ainda maior, do ponto de vista prático, é o silêncio em torno da verdade. Pela simples abstenção de mencionar certos assuntos, pela interposição do que o Sr. Churchill denomina uma "cortina de ferro" entre as massas e os atos ou argumentos que os chefes políticos locais consideram indesejáveis, os propagandistas totalitários têm influenciado a opinião com muito mais eficácia do que poderiam tê-lo feito pelas mais eloqüentes invectivas, pelas mais convincentes refutações lógicas. Mas o silêncio não basta. Se se quiser evitar a perseguição, a liquidação e outros sintomas de atrito social, os aspectos positivos da propaganda deverão ser tornados tão eficazes como os aspectos negativos. Os mais importantes Projetos Manhattan do futuro serão vastas pesquisas, sob patrocínio governamental, em torno do que os políticos e os cientistas participantes chamarão "o problema da felicidade" — em outras palavras, o problema de fazer com que as pessoas amem sua servidão. Sem segurança econômica, o amor à servidão simplesmente não pode existir; para maior brevidade, dou por suposto que o todo-poderoso executivo e seus administradores conseguirão resolver o problema da segurança permanente. Mas a segurança tende a tornar-se em muito pouco tempo uma coisa aceita como normal. Sua realização constitui uma revolução meramente superficial, externa. O amor à servidão não pode ser instituído senão como fruto de uma profunda revolução pessoal nas mentes e nos corpos humanos. Para efetuar essa revolução precisamos, entre outras coisas, das descobertas e invenções enumeradas a seguir. Primeiro, uma técnica de sugestão consideravelmente aperfeiçoada — pelo condicionamento infantil e,mais tarde, com o auxílio de drogas, como a escopolamina. Segundo, uma ciência completamente desenvolvida das diferenças humanas, que permita aos administradores encaminhar qualquer indivíduo ao seu devido lugar na hierarquia social e econômica. (As pessoas mal adaptadas à sua posição tendem a alimentar pensamentos perigosos sobre o sistema social e a contagiar os outros com seus descontentamentos.) Terceiro (uma vez que a realidade, por mais utópica que seja, é algo de que as pessoas precisam tirar férias com bastante freqüência), um substituto para o álcool e os outros narcóticos, que seja ao mesmo tempo menos nocivo e mais produtor de prazer que o gim ou a heroína. E quarto (mas este seria um projeto a longo prazo, que demandaria gerações de controle totalitário para ser levado a bom termo), um sistema infalível de eugenia, destinado a padronizar o produto humano, facilitando assim a tarefa dos administradores.

Em Admirável Mundo Novo essa padronização do produto humano foi levada a extremos fantásticos, embora não, talvez, impossíveis. Técnica e ideologicamente, ainda estamos muito longe dos bebês enfrascados e dos grupos Bokanovsky de semi-aleijões. Mas, pelo ano 600 D. F., quem sabe o que não estará acontecendo? Entrementes, as outras características desse mundo mais feliz e mais estável — os equivalentes do soma e da hipnopedia, e o sistema científico de castas — não estão, provavelmente, a mais de três ou quatro gerações de nós. E a promiscuidade sexual de Admirável Mundo Novo também não parece tão distante. Já existem cidades norte-americanas em que o número de divórcios é igual ao de casamentos. Dentro de poucos anos, sem dúvida, licenças para casamento serão vendidas como as licenças para a posse de cães, válidas por um período de doze meses, sem nenhuma lei que proíba a troca de cães ou a posse de mais de um cão de cada vez. À medida que diminui a liberdade política e econômica, a liberdade sexual tende a aumentar em compensação. E o ditador (a não ser que precise de carne para canhão e de famílias para colonizar territórios despovoados ou conquistados) agirá prudentemente estimulando essa liberdade. Em conjunção com a liberdade de sonhar sob a influência das drogas, do cinema e do rádio, ela ajudará a reconciliar os súditos com a servidão que é o seu destino.

Tudo considerado, a Utopia parece estar muito mais perto de nós do que qualquer pessoa, apenas quinze anos atrás, poderia imaginar. Nessa época, eu a projetei para daqui a seiscentos anos. Hoje parece perfeitamente possível que o horror esteja entre nós dentro de um único século. Isto é, se nos abstivermos de nos fazer saltar pelos ares em pedaços antes disso. Na verdade, a menos que prefiramos a descentralização e o emprego da ciência aplicada, não como o fim a que os seres humanos deverão servir de meios, mas como o meio de produzir uma raça de indivíduos livres, teremos apenas duas alternativas: ou diversos totalitarismos nacionais militarizados, tendo como raiz o terror da bomba atômica e como conseqüência a destruição da civilização (ou, no caso de guerras limitadas, a perpetuação do militarismo); ou então um totalitarismo supranacional suscitado pelo caos social resultante do progresso tecnológico, e em particular da energia atômica, totalitarismo esse que se transformará, ante a necessidade de eficiência e estabilidade, na tirania assistencial da Utopia. É escolher.