18/05/2011

Vantagem Comparativa

"A ideia da vantagem comparativa funciona quando, por trás do artigo especializado produzido por cada parceiro comercial, subsiste intacta uma economia local complexa, com diversos papéis sociais e nichos profissionais, capazes de apoiar o projecto a longo prazo da comunidade. Porém, uma localidade organizada para produzir apenas um artigo para exportação acaba por ser um sistema esclavagista baseado na lógica económica da exploração. Na versão extrema da vantagem comparativa, sob o regime do industrialismo hiper/turbo de finais da era do petróleo, com os seus transportes ultrabaratos e as suas comunicações instantâneas que anulavam quaisquer vantagens da geografia, as únicas vantagens comparativas que restavam eram a mão-de-obra barata e o capital livre. Um grupo possuía toda a mão-de-obra barata e o outro todo o capital, e, durante algum tempo, um grupo produzia todas as coisas que o outro grupo 'consumia'. Por conseguinte, a vantagem comparativa transformou-se numa vigarice para benefício exclusivo das grandes empresas, que acabaram por usufruir de todas as vantagens enquanto as localidades arcavam com todos os custos."
(James Howard Kunstler)


13/05/2011

Julius Evola

por Alain de Benoist

O que se vai ler diz respeito somente ao homem que, apesar de integrado no mundo actual, no ponto mais paradoxal e problemático da vida moderna, não lhe quer, no entanto ceder e que se sente, na sua essência, de uma raça diferente da maioria dos homens de hoje («Chevaucher le Tigre»). De barba curta e aristocrática, feições regulares, alto, o filósofo Julius Evola escrevia para um pequeno número de leitores, para os homens que ficaram “de pé entre as ruínas”. Morreu em 11 de Junho de 1974, com 76 anos de idade, na sua casa de Corso Vittorio Emanuele, em Roma.

Cerca das 15 horas e 15 minutos, como lhe tinha sido predito e ele tão ansiosamente desejava, declara Pierre Pascal, amigo de Evola, escritor e tradutor em francês de vários dos seus livros.

Julius Evola era o mais iminente representante de um pensamento tradicional em Itália, o que o fez referir-se a Joseph de Maistre, Taparelli d’Azeglio e Solaro della Margherita. Foi muitas vezes comparado ao alemão Ernst Jünger ou, ainda mais correctamente, ao esoterista francês René Guénon.

No velho conflito entre os guelfos, partidários exclusivos do papado e os gibelinos, para quem o Império Romano-Germânico era ao mesmo tempo que a Igreja, uma instituição de carácter sobrenatural, Evola era partidário dos segundos.

Contra o Mundo Moderno

Nascido em Roma a 19 de Maio de 1898, J. Evola declara-se primeiramente contra a obra de Nietzsche, Michelstädter e Otto Weininger («Sexe et Caractère»). Durante a Primeira Grande Guerra é oficial de artilharia na frente. Participa em seguida nos movimentos culturais de vanguarda que se desenvolvem em Itália: dadaísmo com Tristan Tzara, futurismo com Marinetti. Poemas, quadros. Em 1920 publica uma brochura sobre «L’Art Abstrait», na colecção Dada de Zurique, que é a sua consagração.

A sua formação científica, no entanto, leva-o mais longe. Uma primeira série de ensaios que publica, traduzem o seu interesse pela filosofia («Théorie de l’Individu Absolu», 1920), pelo esoterismo («La Tradition Hermétique», 1931) e pelo movimento das ideias («Masques et Visages du Spiritualisme Contemporain», 1932).

Dirige a revista «Ur» desde 1927 até 1929. Um ano mais tarde anima «La Torre».
“A palavra ur, explicará, é uma velha denominação do «fogo», mas refere-se também a tudo o que é «primordial», «original» (sentido que ainda conserva na língua alemã).”

Em 1934 publica uma obra capital, «Révolte Contre le Monde Moderne», que é uma espécie de manifesto. Aí, Evola vai descrever, como opostos, “dois tipos universais, duas categorias a priori da civilização”: o mundo moderno e o mundo da tradição – uma tradição que associa o esoterismo ocidental (aventura templária e mistério do Graal) a um retorno às fontes da antiguidade pré-cristã e de um passado “hiperbóreo”.


Logo de início, a ideia de progresso é rejeitada: “Não há nada mais absurdo que essa ideia de progresso que, com o seu corolário da superioridade da civilização moderna, criou álibis «positivos» falsificando a história e insinuando nos espíritos mitos deletérios, e proclamando a sua superioridade nas encruzilhadas da ideologia plebeia que, afinal, lhe deu origem”.

Para Evola, o mundo moderno é “uma floresta petrificada tendo no centro o caos”. Daí, que a história dos últimos dois milénios seja, não de progresso, mas sim de involução.

Evola compara o Ocidente a um corpo: “Depois de ter tido os organismos vivos e móveis, estes foram tomados pela rigidez que transforma o corpo em cadáver. Depois, vem a última fase de decomposição”. “Nós entrámos”, acrescenta, “no último grau de um ciclo: o reino da máquina, da expansão do materialismo e do igualitarismo são as provas evidentes disso. Em volta da cultura europeia aperta-se o torno do bolchevismo e do americanismo, ambos fundados numa concepção economista da vida. Nós vivemos na idade sombria dos velhos hindus (o kali-yuga), na idade de ferro da tradição clássica, na idade do lobo da tradição nórdica. Esqueceu-se a tradição.”

Dando-nos, assim, uma visão diferente da perspectiva histórica, Evola não dissimula o seu parti pris metodológico: “As questões que mais nos absorvem são aquelas em que os elementos com valor «histórico» e «científico» menos contam; em que tudo o que, quanto é mito, lenda ou saga está desprovido de verdade histórica e de força demonstrativa e adquire, pelo contrário, por essa mesma razão, uma validade superior, tornando-se fonte de um conhecimento mais real e seguro. É por isso que a Roma da lenda nos falará numa linguagem mais clara que a Roma temporal e que as lendas de Carlos Magno nos farão compreender melhor o que significava o rei para os francos, do que as crónicas e os documentos positivos da época. Não nos preocuparemos, pois, em discutir e «demonstrar». As verdades que nos podem fazer compreender o mundo tradicional, não são das que se «aprendem» e se «discutem». Elas apenas são ou não são: apenas se podem relembrar.”

E conclui: “Só um regresso tradicional a uma nova consciência unitária europeia poderá salvar o Ocidente.”

O livro produz grande celeuma desde a sua publicação. O poeta Gottfried Benn, depois de o ler, declara-se “transformado”. Em Itália as reacções são menos retumbantes. Apesar de ligado a Mussolini, J. Evola conta com grande número de adversários nas fileiras do partido fascista. O filósofo Giovanni Gentile é-lhe hostil. O pessimismo aristocrático que se desprende da sua obra não é coisa que convenha a uma época que é triunfalista por encomenda. A sua obra intitulada «Imperialisme Païen», publicada em 1928, ainda hoje faz os meios concordatários rangerem os dentes.

Evola continua a interessar-se pelo esoterismo e depois da publicação de «La Tradition Hermétique», publica «La Doctrine de l’Éveil» (1943), sobre a ascese do budismo, e ainda «Le Yoga de la Puissance». Em «Le Mystère du Graal» (1937), estuda os fundamentos da “tradição gibelina no Império”, lançando as bases, também, de uma “antropologia espiritual”. A exemplo de Ludwig Ferdinand Clauss («Rasse und Seele», 1933), define a raça segundo critérios estritamente biológicos («Le Mythe du Sang», 1937; «Synthèse des Doctrines de la Race», 1941).


Em 1945, Evola encontra-se em Viena por altura de um violento bombardeamento. Ferido na coluna vertebral, Evola é hospitalizado durante vários meses. Ficará com os membros inferiores paralisados.

Regressa a Itália em 1948, e dois anos depois apresenta novas ideias que desenvolverá mais tarde na obra «Les Hommes au Milieu des Ruines» (1953), num pequeno ensaio intitulado «Orientations». A este seguem-se: «Metaphysique du Sexe» (1958), «Chevaucher le Tigre» (1961), «Le Chemin du Cinabre» (1963), «L’Arc et la Flèche» (1968), etc.

O Estado orgânico

No livro «Les Hommes au Milieu des Ruines», Evola aborda directamente a questão política, dirigindo-se à jovem direita italiana e propondo-lhe “uma visão geral da vida e uma doutrina rigorosa do Estado”. Ao Estado moderno ele opõe o ideal do Estado orgânico cantado já por Vico e Fustel de Coulanges: o Estado em que cada um tem o seu lugar – como, no organismo cada órgão tem o seu. O Estado, diz ele, é um conjunto tanto espiritual como “físico”. Não é “o reflexo” da sociedade, é o agente que transforma e estrutura essa sociedade e que, apontando-lhe um destino, faz de um agregado sem coesão um verdadeiro conjunto elevado à dignidade de político.

“O fundamento de qualquer Estado verdadeiro”, escreve Evola, “é a transcendência do seu princípio, quer dizer, do princípio da soberania, da autoridade e da legitimidade. Por exemplo, a antiga noção romana de imperium pertence essencialmente ao domínio do sagrado: antes de significar um sistema de hegemonia territorial supranacional, designa sobretudo o puro poder do comando, a força quase mística e a auctoritas próprias daquele que exerce as funções e a qualidade de chefe, tanto na ordem religiosa e guerreira, como na família patrícia (a gens) e no Estado (a república).”

O Estado aparece, assim, como uma noção essencialmente masculina. As suas relações com o povo (a pátria, a nação) são análogas às do homem para com a mulher, do pater famílias com a família, e no domínio das crenças indo-europeias, do céu com a terra. “É assim que, na Roma antiga, a noção de Estado e de imperium, de poder sagrado, se ligava fortemente ao culto simbólico das divindades viris do céu, da luz e do mundo superior, por oposição à re[li]gião obscura das Mães e das divindades infernais gregas.”


Só quando os recursos do imperium se esgotaram e a população não estava em estado de perceber o que isto significava, é que os chefes de Estado, não conseguindo tirar a sua legitimidade “do alto”, se viram obrigados a ir buscá-la “em baixo”: foi a democracia, o cesarismo, a ditadura e a tirania – sistemas diferentes, mas cuja força provém do demos e que levam ao comunismo, cujo objectivo confesso é a supressão do Estado.

De passagem, J. Evola denuncia a ilusão igualitária como um simples absurdo lógico: “Vários seres iguais não seriam «vários», mas um. Querer a «igualdade de vários» implica uma contradição nos termos”. Pelo contrário, numa sociedade hierarquizada, podem conceber-se facilmente diferentes “níveis de igualdade”: quando a ideia hierárquica, no passado, era reconhecida a noção de par e de igual significaram muitas vezes uma ideia aristocrática. Em Esparta, o título de omoioi, de iguais, aplicava-se exclusivamente à elite que detinha o poder, título este revogável em caso de indignidade por parte do detentor. Da mesma forma, na antiga Inglaterra, o título de pair (peer) foi, como se sabe, reservado aos lordes.”

Já Jean-Baptiste Vico, inspirador de Montesquieu, dizia: “Os homens querem primeiro a liberdade dos corpos e depois a das almas, ou seja, a liberdade do pensamento e a igualdade com os outros; em seguida querem ultrapassar os iguais; e, finalmente, colocar os seus superiores por baixo deles” («Scienza Nuova», II, 23).

Ao mesmo tempo, Evola preocupa-se em distinguir o elitismo do bonapartismo e do maquiavelismo. Considera Bonaparte o sucessor dos condottieri da Renascença, dos tribunos da plebe romana e dos «tiranos populares» surgidos na Grécia antiga depois do declínio das aristocracias. Há bonapartismo todas as vezes que o chefe retira a sua autoridade de outro que não ele, cada vez que se apresenta como “filho do povo” e não como “o representante de uma humanidade mais perfeita, que afirma um princípio superior”. “Enquanto que o conceito tradicional de soberania e autoridade implica distância”, escreve Evola, “porque é o sentimento da distância que provoca nos inferiores a veneração, o respeito natural, uma disposição instintiva para a obediência e lealdade para com o chefe, neste caso tudo se passa inversamente: de um lado o poder, a abolição da distância e do outro a aversão por ela. O chefe bonapartista… ignora o princípio segundo o qual quanto maior for a base mais alto se deve manter o cume. Sucumbo do complexo de «popularidade», o bonapartista faz questão de todas as manifestações que lhe possam dar a certeza, ainda que ilusória, de que o povo o segue e o aprova. Neste caso, é o superior que precisa do inferior para experimentar o sentimento do seu próprio valor e não o contrário, como seria normal.”

Evola toma, assim, partido por uma ascese do poder: “É bom que a superioridade e o poder se associem, mas com a condição de que o poder se funda na superioridade e não a superioridade no poder.” E cita Platão: “Os verdadeiros chefes são aqueles que apenas assumem o poder por necessidade, porque não conhecem nem melhores nem iguais a quem essa tarefa possa ser confiada” («Republique», 347 c).


Direito às armas e dever militar

O “estilo militar”, que não é senão uma das facetas dos valores heróicos, não deve, da mesma forma, confundir-se com o militarismo ou com a guerra: “A ideia guerreira não se reduz a um materialismo, nem é sinónimo de exaltação do uso brutal da força e da violência destrutiva. A formação calma, consciente e dominada do ser interior e do comportamento, o amor pela distância, pela hierarquia, pela ordem, a faculdade de subordinar o elemento passional e individualista de si mesmo a princípios e fins superiores, sobretudo aos da honra e do dever, são elementos essenciais a esta ideia e o fundamento de um estilo preciso, que viria a perder-se quando estes Estados em que tudo isto pertencia a uma severa e longa tradição quase de casta, foram substituídos por democracias nacionalistas, em que o dever do serviço militar substituiu o direito às armas”.

Hoje, lembra Julius Evola, as guerras estão longe de ter desaparecido, antes pelo contrário: tornaram-se totais. Elas atingem o conjunto da população, que, em virtude do princípio igualitário, é obrigada a vestir o uniforme – toca a totalidade dos civis.

O homem de elite, para Evola, não é portanto nem o homem de excepção, nem o brilhante orador e nem sequer o génio. É “aquele em que se revela uma tradição e uma «raça de espírito», aquele que deve a sua grandeza não ao homem mas sim ao princípio, à ideia, numa certa impessoalidade soberana.” Os critérios decisivos são aqui, antes da inteligência, o carácter e a forma do espírito, porque “a visão do mundo (Weltanschauung) pode ser mais clara num homem sem instrução do que num escritor, mais firme num soldado, num membro de família aristocrática ou num camponês fiel à terra do que num intelectual burguês, num professor ou num jornalista.”

A “visão do mundo” também não é qualquer coisa de individual. Também ela procede de uma tradição, “resultante orgânica das forças às quais um tipo de civilização deve a forma que lhe é própria.”

“A cultura”, acrescenta Evola, “não cessa de ser um perigo para quem já tem uma visão do mundo, porque essa pessoa dispõe de uma configuração interior que lhe serve de guia seguro para discernir (como em todos os processos orgânicos), o que pode ser assimilável e o que deve ser rejeitado (…). Uma das consequências mais graves da «livre cultura» ao alcance de todos, é que os espíritos incapazes de discriminar segundo um julgamento acertado, os espíritos que ainda não possuem forma própria, são os que se encontram mais desarmados no plano espiritual, para fazer face a todos os tipos de influências.”


Julius Evola volta a afirmar que não se dirige às massas, mas sim aos égrégoroi: àqueles que trazem consigo a ideia de uma regeneração; àqueles que, depois de terem “cristalizado” na história, ainda se mantêm de pé. (“Resta saber quantos homens ainda se mantêm de pé por entre as ruínas para compreenderem.”) Evola diz a esses homens bem nascidos que é inútil resistir directamente ao caos reinante: a corrente é demasiado forte para ser reprimida. Mais vale que se esforcem por tomar o comando de um processus que se considera inevitável. “É preciso determinar até que ponto se pode tirar partido das perturbações destruidoras; até que ponto, graças a uma firmeza interior e a uma orientação no sentido da transcendência, o não-humano do mundo moderno, em vez de levar ao sub-humano (como na maioria das suas formas actuais), pode favorecer as experiências, de uma vida superior e de uma liberdade também superior.”

Um ditado do Extremo Oriente resume este conselho: “Cavalgar o tigre”, para o impedir de morder, e, talvez, para o poder dirigir na sua correria.

Conseguir uma ultrapassagem por cima

O que, portanto, Evola propõe, é uma contestação radical da sociedade burguesa, mas uma contestação inversa à que hoje vemos, e que não passa da sua antítese relativa. Não é, aliás, a burguesia como classe que Evola ataca, mas sim a burguesia como forma de espírito, como “tudo o que sai da mentalidade burguesa com o seu conformismo, os seus prolongamentos psicológicos e românticos, o seu moralismo e a sua preocupação por uma vidinha segura, em que um materialismo fundamental encontra a sua compensação no sentimentalismo e na grandiloquência humanitária e democrática.”

E tal como, precisa ele, “a burguesia nas civilizações tradicionais ocupava um lugar intermédio entre a aristocracia guerreira e política e o povo, também existem duas maneiras – uma positiva e outra negativa – de a ultrapassar como categoria e de tomar posição contra o tipo, a civilização, os valores e o espírito burgueses. A primeira possibilidade consiste em seguir uma direcção que leva ainda mais abaixo, quer dizer, aos valores sociais marxistas opostos àquilo que se chama o «decadentismo burguês» (…). O resultado não poderá ser senão uma nova regressão: vai-se em direcção a algo que se situa abaixo da pessoa e não acima dela…”

“Mas existe outra possibilidade: uma exigência e uma luta contra o espírito burguês, contra o individualismo e o falso idealismo, mais decididos ainda que os dos movimentos da esquerda, mas, desta vez, orientados para o alto. Esta segunda possibilidade obriga-nos a retomar e assumir, de uma forma natural e clara, sem retórica nem grandiloquência, os valores heróicos e aristocráticos. Porque podemos deste modo manter a distância em relação a tudo o que não passa de humano e principalmente subjectivo; podemos desprezar o conformismo burguês, o seu egoismozinho e o seu moralismozinho; podemos assumir um estilo activo de impersonalidade, amar o que é essencial e real (no sentido de superior), pondo de parte as brumas do sentimentalismo e as estruturas intelectualistas; podemos consagrar-nos a uma desmistificação radical – tudo isto mantendo-nos de pé, sentindo a evidência daquilo que na vida vai para além da vida e extraindo daí regras precisas para a acção e para o comportamento.”

Era do partido da estrela polar

Julius Evola vivia retirado há trinta anos, com as duas pernas paralisadas, entre os seus quadros, os seus livros e os amigos que ainda o visitavam, quando chegou o momento da sua morte. Tendo-se tornado o mestre da maneira de pensar duma parte da direita italiana e sobretudo de um número crescente de jovens, não cessou de ser atacado por uma esquerda que fingia ver nele o ideólogo de uma nova Ordem da Sainte Vehme. Ficou sempre impassível, visto ter optado, de uma vez para sempre, por não se deixar arrastar para o campo da polémica.

“O homem que tem virtude não discute”, dizia ele citando o Lao-Tseu.

Um livro de homenagem, publicado em 1973, orientado par Gianfranco de Turris («Testimonianzie su Evola»), mostra bem a influência que ele exercia.

Pierre Pascal compara a expressão grave e altaneira de Evola com a de Montherlant: dois gigantes solitários.

“Eram os dois”, diz ele, “do partido da estrela polar.”

Sucessão de Gerações

"Devemos contar a soma total dos sacrifícios feitos antes de nós, não para que uma geração capitule diante do Destino e se extingam as dos tempos futuros, mas sim na esperança de que cada geração cumpra, por sua parte, com seu dever nessa eterna sucessão de gerações."
(Richard Wagner, Rienzi)


12/05/2011

Vida e Tradição

"Viver de acordo com a tradição é abraçar os ideais que ela encarna, é cultivar a excelência em relação à sua natureza, reencontrar as suas raízes, transmitir uma herança, ser solidário com os seus. Isto também significa expulsar de nós próprios o niilismo, mesmo que nos sacrifiquemos em aparência às normas práticas de uma sociedade que está escravizada pelo desejo. Isto implica uma certa sobriedade com vista a uma libertação das cadeias da consumação. Isso significa encontrar a poética percepção do sagrado na natureza, no amor, na família, no divertimento e na acção. Viver de acordo com a tradição significa também dar uma forma à sua vida, tornando-se um juíz exigente em cada momento, assim como olhar para a beleza redescoberta do seu coração, do que para a fealdade de um mundo em decadência."
(Dominique Venner)



11/05/2011

A Direita "Anticomunista"


"As necessidades da luta obscurecem frequentemente as suas razões. O movimento tornou-se suficiente em si mesmo: não nos interrogamos mais sobre as causas do nosso envolvimento. Passa-se isso com o anticomunismo, que alimenta agora os pontos de vista mais diferentes numa zona de consenso equívoca. A direita é anti-soviética, os liberais também, os sociais-democratas igualmente, sem esquecer os marxistas críticos que acham que Marx foi “traído” por Estaline e os comunistas dissidentes que souberam “distanciar-se”.Nota-se bem a confusão.

A nossa oposição ao comunismo é completa e não temos desejo algum de viver num regime como o soviético. Isto seria provavelmente escusado dizer, mas ainda melhor se o dizemos. Mas pensamos também que o anticomunismo deve encontrar o seu fundamento fora de si mesmo; que a hostilidade em relação ao Kremlin não deve servir de pretexto para aceitar outras lealdades, que a política tem as suas leis próprias, que não se reduzem integralmente nem à moral nem à ideologia.

O nosso anticomunismo não tem portanto nada de primário. Ele deriva de uma oposição ao universalismo igualitário, onde o comunismo não é mais que um representante entre outros. Ele não poderia pois, aos nosso olhos, servir de catalizador para aceitar, nomeadamente, um liberalismo que se situa na mesma filiação genealógica, crendo também na igualdade ”natural” de todos os seres humanos, e vendo também ele na economia o paradigma por excelência de todos os factos sociais (recordemo-nos oportunamente que a sociedade existente que mais se aproxima da sociedade ideal, como Marx a imaginou, é a dos Estados Unidos da América).

Os liberais, motores do anticomunismo contemporâneo, raciocinam de forma muito diferente. Os objectivos de Marx parecem-lhes, frequentemente, bastante estimáveis. São os meios para lá chegar que eles rejeitam. Quando eles criticam o regime comunista é para denunciar os atentados à “liberdade”, a “ferocidade da repressão” e a violação do sacrossanto princípio dos “direitos do homem”.E se atacam a doutrina é com a intenção de mostrar que ela desemboca fatalmente no “despotismo”.Este ponto de vista é um pouco limitado. O despotismo é sem dúvida criticável mas o comunismo não se resume ao facto de que contraria a “liberdade”( não é de resto o único a fazê-lo; subversão, infiltração, espionagem, assassinatos, golpes de Estado: estes são os métodos da CIA, tanto como os do KGB). Portanto, todos os anticomunismos não se equivalem. Que uma direita, outrora mais segura sobre os seus princípios, a sua matéria, se tenha fixado na crítica liberal, diz muito sobre a sua cegueira e explica porque alguns defensores da “preferência nacional” preferem acima de tudo… o regime de Reagan.

Quanto à liberdade, digamos claramente que é algo que para nós prima tudo o resto: é a liberdade colectiva, a liberdade do povo e da nação. Neste fim de milénio é acima de tudo a liberdade da Europa que nos preocupa. A noção de “Ocidente” é uma noção doravante desprovida de sentido, que permite aos E.U.A. estabelecer a lei sem o dizer, instituindo-se como o “líder natural” deste ectoplasma. A URSS procede do mesmo modo, pretendo agir como a capital do socialismo instituído. Americanização de um lado, russificação do outro. Os Estados Unidos: um futuro sem passado; a URSS: um passado sem futuro. A Oeste: o imobilismo sob a efervescência; a Este: a dinâmica sob a estabilidade. Os Estados Unidos funcionam segundo a lógica do espaço, a URSS joga com o factor tempo. A isto juntam-se os constrangimentos da geopolítica: o “bloco continental” é uma realidade. O comunismo é um bonito termo - a doutrina do bem comum – mas resultou mal. Há aqueles que dizem “antes vermelhos que mortos”. Há aqueles que aceitam ser “americanos em vez de soberanos”. Face às duas superpotências “cosmopoliciais” rejeitemos de uma vez só o que sucessivamente tem produzido o comunismo e o liberalismo. Não evitaremos jamais sobre nós uma ditadura aceitando uma hegemonia."
(Robert de Herte)

10/05/2011

Destino e Morte

"Perdidos na vastidão da paisagem, e separados de mim por uma grande distância, os acontecimentos que lá embaixo se desenrolavam tinham um aspecto inofensivo e diminuto; me estranhou que aquele bosque me tivesse impressionado tanto no dia anterior. Se existisse um grande ser ao qual não lhe custasse nenhum esforço abarcar com um só olhar o espaço que desde os Alpes se estende até o mar, veria toda aquela andança como uma engraçada batalha de formiga, como uma suave martelada em uma mesma obra. Porém nós vemos unicamente uma percela minúscula, e por isso nosso pequeno Detino nos esmaga e a Morte nos aparece com uma figura terrível. Tão somente podemos conjecturar que essas coisas que aqui ocorrem formam parte de uma grande ordem, e que em algum lugar se atam, para formar um sentido cuja unidade nos escapa, esses fios dos quais pendemos e em cujo extremo realizamos contorções aparentemente absurdas e incoerentes."
(Ernst Jünger, Tempestade de Aço)

06/05/2011

Violência Burguesa

"Ora as democracias, desenvolvendo por um lado o arrivismo e por outro o amor do lucro, colocam o Estado ao alcance dos ambiciosos que o souberem conquistar e segurar. Cria-se assim a ordem burguesa, bem caracterizada pela maneira sangrenta como se liquidam em democracia as convulsões populares. Luís XVI morreu no cadafalso porque recuou em frente do alvitre de mandar metralhar a canalha de Paris. Por outro tanto caiu nas jornadas de Julho a Realeza legítima. Já não acontece o mesmo na França republicana, com Clemenceau ordenando os massacres de Narbonne e de Davreuil, e na «livre América», com o milionário Carnegie, e autor do tal livro famoso, – A Democracia triunfante, fuzilando por conta própria os seus operários em greve. A ordem burguesa é, pois, a ordem que se defende no Estado unicamente por meio da força e que, não tendo consigo nem um passado nem um futuro, pratica, enquanto lhe é possível, a máxima de Guizot: - 'Governar é aguentar-se no poder'"
(Antonio Sardinha)


04/05/2011

Democracia Clássica - Orgânica e Racialista

"As noções de cidadania, liberdade, e igualdade de direitos políticos, bem como de soberania popular, estavam intimamente interligados. A característica mais essencial da cidadania era a própria origem e herança: Péricles era o 'filho de Xanthippus da deme de Cholargus'. Desde 451 a.C., era necessário nascer de uma mãe e pai atenienses para que se pudesse ser cidadão. Definido por sua pertença, o cidadão (polites) se opunha ao 'idiotes', ou não-cidadão - uma designação que rapidamente assumiu sentido pejorativo (da noção do indivíduo isolado sem pertença veio a idéia do 'idiota'). A cidadania como uma função, portanto, derivou da noção da cidadania como status que era a prerrogativa exclusiva do nascimento. Ser cidadão significava, no sentido mais completo da palavra, pertencer a uma pátria - isto é, a uma pátria e um passado."
(Trecho de: "O Problema da Democracia", de Alain de Benoist)


03/05/2011

Guerra - Higiene do Mundo

"A Guerra tem a mais elevada significação, já que mediante sua ação a saúde ética dos povos fica preservada em sua indiferença pela estabilização de instituições finitas; assim como o movimento do oceano impede a corrupção que seria o resultado de uma calma perpétua, também assim, mediante a guerra, o povo escapa da corrupção que resultaria de uma paz perpétua."
(G.W.F. Hegel)