26/04/2011

Commission

por Ezra Pound

Go, my songs, to the lonely and the unsatisfied,
Go also to the nerve wracked, go to the enslaved by convention,
Bear to them my contempt for their oppressors.
Go as a great wave of cool water,
Bear my contempt of oppressors.

Speak against unconscious oppression,
Speak against the tyranny of the unimaginative,
Speak against bonds.
Go to the bourgeoise who is dying of her ennuis,
Go to the women in suburbs.
Go to the hideously wedded,
Go to them whose failure is concealed,
Go to the unluckily mated,
Go to the bought wife,
Go to the woman entailed.

Go to those who have delicate lust,
Go to those whose delicate desires are thwarted,
Go like a blight upon the dullness of the world,
Go with your edge against this,
Strengthen the subtle cords,
Bring confidence upon the algae and the tentacles of the soul.

Go in a friendly manner,
Go with an open speech.
Be eager to find new evils and new good,
Be against all forms of oppression.
Go to those who are thickened with middle age,
To those who have lost their interest.
Go to the adolescent who are smothered in family -
Oh how hideous it is
To see three generations of one house gathered together!
It is like an old tree with shoots,
And with some branches rotted and falling.

Go out and defy opinion,
Go against this vegetable bondage of the blood.
Be against all sorts of mortmain.


25/04/2011

A Morte do Trabalho

por Ernesto Milà

Pode ser um drama constatá-lo, mas é uma realidade. O trabalho está a morrer. É certo que todos os dias se criam novos postos de trabalho, mas se observamos os números absolutos, em 20 anos a capacidade produtiva duplicou, mas a ocupação só aumentou 5%. O que é que isto quer dizer? Que cada vez menos pessoas fazem mais trabalho. Porquê? Por causa da automatização de processos. Constatar este facto é o elemento sociológico de maior interesse no nosso tempo. 

Chama a atenção que, precisamente no momento em que o trabalho agoniza, este se converteu num mito universal: tanto a direita, como o centro, como a esquerda veneram o trabalho, considerado como uma obrigação social. Todos os partidos lançam medidas para “estimular o trabalho”, “diminuir a fraude no desemprego”, “reciclar os trabalhadores”, etc. Nenhum explica – talvez porque na sua estupidez não o percebam – que o resultado da era tecnotrónica é a eliminação progressiva do trabalho físico.

Há 10 anos atrás eram precisos 12 trabalhadores para vindimar um campo de um hectare. Hoje, esse mesmo trabalho realiza-se mediante uma máquina provida de sensores que detectam os racimos e outra pessoa que, a pé, examina se há algum racimo não detectado. Na construção, há 20 anos atrás, construía-se uma casa ladrilho a ladrilho; hoje tende-se às estruturas pré-fabricadas. Inclusivamente nos autocarros, até há pouco tempo eram necessários um condutor e um revisor, e dentro em breve haverá só um programa computorizado que levará os passageiros ao destino. O trabalho agoniza. Mas nunca como agora se prestou tal culto ao trabalho. O culto do trabalho pertence à mitologia moderna. É universal: mas é um mito.


Diariamente legiões de desempregados vivem um drama que parecem não entender: estão dispostos a vender uma força de trabalho… que ninguém está interessado em comprar. Estas pessoas ou vão engrossar as filas de desemprego e da assistência social, ou então aceitam trabalhos mal remunerados, que não exigem qualificação profissional e para os quais têm de competir com outros milhares de trabalhadores. O resultado é uma queda no preço da força de trabalho e a proliferação de trabalhos-lixo remunerados com salários-lixo que apenas permitem uma subsistência mínima.

Nos últimos 20 anos assistimos a uma mutação imperceptível mas contínua. Paralelamente à morte do trabalho, está também em vias de extinção a economia de produção que se converte progressivamente em economia de especulação.

Nas bolsas, a loucura financeira não tem nada a ver com a economia produtiva. No passado, os investidores investiam numa empresa porque acreditavam nas suas possibilidades produtivas, o que se reflectiria na hora de repartir os dividendos. Agora tudo isto mudou: investe-se na bolsa apenas durante algumas horas, e ao registar alguma subida, retira-se imediatamente o dinheiro, e a diferença entre o valor investido e o registado duas horas depois já constitui um lucro apreciável. De seguida o dinheiro migra para outras empresas, noutras fronteiras, noutras bolsas… Não existe nenhuma relação entre a economia produtiva e a especulação financeira. Estas práticas especulativas não fazem mais do que acelerar a morte do trabalho.


Em primeiro lugar temos de considerar a morte do trabalho como algo irreversível: os processos de automatização irão avançado e diminuirão progressivamente o mercado de trabalho. Este processo não é bom, nem mau: é bom se se reconhece no seu verdadeiro rosto e se actua em consonância. É mau, na medida em que os partidos políticos mentem e se negam a dizer à população a realidade da morte do trabalho.

Imaginemos uma sociedade em que o trabalho não seja o grande valor universal. Há outras actividades humanas, que não produzem benefícios económicos, mas que são indispensáveis para o equilíbrio psicológico da vida humana: o ócio, o estudo, a investigação, o exercício da paternidade, todas estas actividades podem dispor de mais tempo numa sociedade em que o trabalho tenha morrido.

Torna-se claro que nestas circunstâncias há que reduzir as jornadas laborais (trabalhar menos para trabalharem todos) e aumentar as ajudas sociais do Estado. É possível um programa baseado nestes dois pontos? É cada vez mais possível. Basta reconhecer os factos, estimular os canais educativos da população e realizar uma melhor distribuição das receitas do Estado que deve aumentar as suas receitas castigando fiscalmente a economia especulativa.


Reconhecer que o trabalho está a morrer é reconhecer também que há que remover dos programas dos partidos políticos de estilo novo qualquer referência ao culto do trabalho, é preciso ser realista: o trabalho é uma actividade como outra qualquer. Certamente que desde o nazismo todos os partidos promovem um “culto ao trabalho”. E isto gerou uma distorção da realidade: porque o trabalho não é a única tarefa que pode realizar o ser humano.

Felizmente a vida humana é extremamente rica em matizes. Além do trabalho existem muitas outras formas de actividade: a criação artística, o ócio, a investigação, a aprendizagem, o estudo, cuja natureza é muito diferente da do trabalho e que, frequentemente, é gerada por interesses não económicos.

A morte do trabalho é uma das formas que adquire a norma aconselhada por Julius Evola de “cavalgar o tigre”: porque se a morte do trabalho é uma tragédia, é-o, sobretudo, para a sociedade burguesa das Luzes e da prática política-económica do século XIX, não para aqueles que queremos um mundo novo e original, no qual a possibilidade de não morrer de fome não se dê necessariamente por troca com a de morrer de aborrecimento.

Em 1965 Herbert Marcuse estabeleceu que a diferença entre a nossa época e as anteriores, consistia em que agora era possível a realização prática dos ideias utópicos dado o crescimento das forças produtivas. Marcuse adiantou-se quase 40 anos: para que a utopia fosse possível era preciso uma maior automatização dos processos produtivos… e uma vontade decidida de conter o crescimento da economia especulativa. Isso não ocorria em 1965, mas ocorre hoje.


A utopia é possível, desde que se adoptem medidas drásticas: em primeiro lugar é necessário cortar radicalmente o fluxo de imigrantes para a UE, de seguida inverter a tendência e proceder ao repatriamento progressivo dos imigrantes. Neste terreno a divisa é: “Os Espanhóis primeiro”. Assim se põe termo ao crescimento da população que pretende vender a sua força de trabalho e, em consequência, o seu valor aumenta.

A segunda medida é a redução drástica dos horários de trabalho. Hoje é possível manter os salários com menos de 35 horas semanais. Além do mais, as reduções de horários devem ser acompanhadas por medidas sociais: subvenção ao trabalho no lar, protecção à família, etc. As protecções no desemprego, longe de diminuir como até agora, devem aumentar. E tudo isto, que implica um forte aumento dos gastos públicos, obtém-se mediante uma maior distribuição das receitas do Estado.

Finalmente a utopia é possível desde que se ponha termo à economia especulativa. A taxa Tobin parece uma medida oportuna, mas não é a única, nem sequer a mais aplicável. É preciso impedir fiscalmente as grandes acumulações de capital. É impossível abolir o capital, mas é possível orientá-lo em direcção à produção em vez da especulação. Os rendimentos procedentes da especulação devem restringir-se ao máximo. Hoje, a utopia é possível, mas a utopia já não está na nova esquerda, mas sim em quem tenha a coragem de denunciar o principal facto do nosso tempo: a morte do trabalho.

Pensamento Único

"O pensamento único é cada vez mais único e cada vez menos um pensamento. A sua dupla sedimentação, ideológica e tecnocrática, leva-o a não tolerar quem se expressa fora das suas fronteiras. Não se dirige contra as ideias que considera falsas, as quais exigiriam ser refutadas mas contra as ideias que considera 'más'. Essencialmente declamatório e inquisitório, o pensamento único elimina as zonas de resistência mediante uma estratégia indirecta: marginalização, silenciamento, difamação (…). A fabricação da verdade, escreve Bernard Dumont, proíbe legalmente dizer certas coisas e inclusive ordena nem concebê-las, enquanto neutraliza as outras remetendo-as para o reino relativista das 'opiniões'. A percepção da realidade é alterada, a fronteira entre o mundo real e o mundo da representação esfuma-se, o clima de mentira generaliza a suspeita e desemboca na despolitização geral e num conformismo de massas, à vez necessidade vital e prémio de consolação dos indivíduos perdidos na 'massa'."
(Alain de Benoist) 



24/04/2011

A Verdade Sobre a Falsa Direita

por Alain de Benoist


Por ocasião do centenário do caso Dreyfus, Jacques Chirac enviou aos descendentes de Emile Zola e Alfred Dreyfus uma carta na qual, lembrando aquele “colossal erro judicial e vergonhoso comprometimento do Estado”, afirmou que Emile Zola “na senda de Voltaire”, encarnaria “ o melhor da tradição intelectual”.Obviamente poder-se-ia ironizar sobre a escolha dos autores de quem o presidente francês invocou os nomes. No fim de contas, ambos expressaram ao seu tempo opiniões que hoje se enquadrariam na lei Gayssot sobre o “incitamento ao ódio racial”.Em 1764 Voltaire escrevia no «Dicionário filosófico» que “os judeus são apenas um povo ignorante e bárbaro que há muito une a mais repugnante avareza e a mais abominável superstição a um ódio indistinto por todos os povos que os toleram e graças aos quais enriquecem”.Quanto a Zola, de «L’argent» à série de «RougonMacquart» , não existe um único estereótipo anti-semita que não tenha feito seu. Mas é claro que não é a estes aspectos que Chirac pretendia aludir. Longe de ser anedótica, a sua afirmação é no entanto reveladora. Qualquer homem de esquerda, de Lionel Jospin a Aiain Krivine, de Robert Hue a Jack Lang, subscreveria voluntariamente a ideia de que Voltaire e Zola encarnariam o “melhor da tradição intelectual” francesa. Poucos homens de direita, no entanto, seriam levados a comungar desta opinião, mesmo porque sabem bem que Voltaire e Zola passam hoje por grandes antecessores da intelligenza de esquerda e que os intelectuais de direita dispõem geralmente de outras referências. Na circunstância, Chirac falou, portanto, como homem de esquerda.

Como é isto possível? É-o simplesmente porque, no campo da cultura e das ideias, a direita da qual ele se declara diz regularmente as mesmas coisas que a esquerda. E di-las porque é historicamente saída da mesma matriz filosófica da esquerda, obra da filosofia das Luzes, que no período de dois séculos criou em sequência o liberalismo, o socialismo e o marxismo. É certo que partindo de uma herança comum uma “esquerda” e uma “direita” se foram progressivamente diferenciando. Mas é sobretudo no âmbito económico e social que as suas diferenças se afirmaram, porém muito mais pela escolha dos meios que pela determinação dos objectivos. No campo cultural e intelectual falam quase em uníssono. Demonstrou-o mais uma vez, a seu modo, a recente polémica sobre o «Livro negro do comunismo»: se tantos comentadores se empenham hoje em distinguir a “bondosa” inspiração do comunismo dos seus sanguinários êxitos é porque aquela inspiração não se diferencia fundamentalmente das suas. Declarando-a “boa” não nos demonstram a sua justeza. Limitam-se a confirmar poderem-se reconhecer nas ideias que o sustiveram.


“O problema permanente da direita e a fonte do seu mal-estar actual” escreveu Jacques Juiiard,” reside no facto de que os seus valores de referência continuam a pertencer originariamente ao outro campo”.Ernst Jünger já o havia observado em 1945:” tem sido a esquerda a submeter a si a direita há mais de cento e cinquenta anos, não o inverso.”É absolutamente exacto, e é na lógica das coisas, a partir do momento em que aquela direita nasceu à esquerda. Tendo nascido à esquerda, com a ideologia dos direitos do homem da qual essa se reclama, não pode alimentar-se, sem mal-estar, nem da sua identidade nem do seu passado. E tendo nascido à esquerda sofre de um défice permanente de legitimidade. Tendo nascido à esquerda não pode fazer mais que colocar-se ao centro, um centro no qual, por sua vez, a esquerda, recuperada das esperanças revolucionárias e agora convertida ao reformismo social-democrata, se insere cada vez mais, com a consequência dramática de que este grande bloco central rejeita os descontentes impedindo uma verdadeira alternância.

É verdade que os conceitos de direita e esquerda nas mentalidades estão hoje ofuscados. Mas, se se ofuscam, isto acontece precisamente porque os grandes partidos que lhes envergam as cores têm tomado progressivamente consciência da inconsistência daquilo que os separa. Actualmente não há nada de substancial que diferencie os seus valores. As suas escolhas aproximam-se, os seus programas movem-se em direcção ao centro e a opinião prevalecente é que dizem todos mais ou menos a mesma coisa. Ainda ontem pensavam pertencer a famílias diferentes. Hoje percebem que apenas foram inimigos irmãos, que podem ainda polemizar sobre este ou aquele ponto mas fazem espontaneamente_ com toda a naturalidade, sentir-se-ia dizer_ frente comum para demonizar e rejeitar para o tenebroso extremo qualquer direita que seja uma direita verdadeira, com referências próprias, os seus autores, a sua antropologia, a sua própria sociologia, a sua própria visão do mundo, do homem e da sociedade.

É claro: como sempre existiram várias esquerdas, assim existem várias direitas: uma direita contra-revolucionária e uma direita revolucionária, uma direita republicana e uma direita monárquica, uma direita nacionalista e uma direita federalista, e assim sucessivamente. Mas pelo menos essas têm um ponto em comum: são direitas verdadeiras. A declaração de Jacques Chirac vale como sintoma, já que permite perceber a que direita ele pertence. Chirac pertence àquela direita que reprova as orientações económicas da esquerda mas que se escusa a contestar as suas orientações intelectuais e ideológicas. É uma direita que, no fundo, partilha a visão do mundo da esquerda, contentando-se por substituir a solidariedade pela apologia do lucro. É uma direita de esquerda. Em suma, não é de facto uma direita.

23/04/2011

Deusa Nação

"A Nação é o mais vasto dos círculos de comunidade social, sólidos e completos no temporal. Não fazemos da Nação um absoluto metafísico, um Deus, mas sim, tudo o mais, de certo modo, o que os antigos teriam chamado uma Deusa. Nós observamos que a Nação ocupa o cume da hierarquia das marchas políticas. Dessas firmes realidades, é a mais segura."
(Charles Maurras)


22/04/2011

Nostalgia

"Quando conhecemos efetivamente toda a monstruosidade da morte pelo fim daqueles que amamos, torna-se fácil dar-lhe muito menos importância quando se trata de nós mesmos, e de a olhar então com indiferença, seja com mais ou menos atração. Para mim, esta atração nasce em parte das circunstâncias presentes. Muito convencido que assistimos a uma queda imensa do homem e que forças materiais de uma potência irresistível trabalham, sem cessar e por toda a parte, para reduzir à uniformidade, à insignificância, à vulgaridade, estes seres humanos que se distinguiam outrora pela ideia de tantas qualidades diversas, persuadido de que o homem deixa para trás o auge da arte, do heroísmo, da virtude, seguro de que a minha própria pátria está no passado, deve tornar-se-me muito mais fácil deixar um mundo que não tem mais nada para me reter e do qual não terei a lamentar senão a luz. Os velhos de ontem tinham a tristeza de deixar o seu mundo durar para além deles. Uma melancolia mais subtil está reservada a alguns de entre nós: é ter visto o seu mundo acabar antes de si. Não lhes resta mais que juntar-se a esse grande cortejo dourado que se afasta, e confesso que, por vezes, tenho um pouco de vergonha de tardar."

(Abel Bonnard) 

21/04/2011

A Arte de Auguste Rodin

Cada época tem os heróis que merece...

"Como é possível definir como homem de ação quem, no seu trabalho de gestor, faz cento e vinte telefonemas por dia para vencer a concorrência? É um homem de ação aquele que é louvado porque aumenta os ganhos da própria empresa, viajando para os países subdesenvolvidos e aproveitando-se dos seus habitantes? Na nossa época são geralmente estes vulgares dejetos sociais a serem julgados homens de ação. Atolados nesta sujidade estamos obrigados a assistir à decadência e à morte do modelo de Herói, que exala já um fétido odor."
- Yukio Mishima

19/04/2011

Resignação

"O homem é naturalmente resignado. O homem moderno mais do que os outros, em consequência da extrema solidão que o mergulha uma sociedade que praticamente já não conhece entre as pessoas outras relações que não sejam as do dinheiro. Mas mal andaríamos se acreditássemos que essa resignação faz dele um animal inofensivo. Ela concentra no homem venenos que, chegando o momento, o tornam disponível para toda a espécie de violência. O povo das democracias não passa de uma multidão, uma multidão mantida na expectativa pelo Orador Invisível, pelas vozes vindas de todos os cantos da terra, pelas vozes que a agarram pelas entranhas, que exercem tanto mais poder sobre os seus nervos quanto mais se dedicam a falar a própria língua dos seus desejos, dos seus ódios, dos seus terrores. É verdade que às democracias parlamentares, mais excitadas, falta temperamento. As ditatoriais, essas, têm fogo no ventre. As democracias imperiais são democracias com cio."
(George Bernanos)


18/04/2011

O Paradoxo da Globalização

por Marcello Veneziani

Se te concentras neles, os anti-G8 são a esquerda em movimento: anarquistas, marxistas, radicais, católicos rebeldes ou progressistas, pacifistas, verdes, revolucionários. Centros sociais, artistas de rua, bandeiras vermelhas.Com o complemento iconográfico de Marcos e Ché Guevara .Rapidamente te apercebes que nenhum deles põe em discussão o Dogma Global, a interdependência dos povos e das culturas, o “melting pot” e a sociedade multirracial, o fim das pátrias. São internacionalistas, humanitários, “ecuménicos”, globalistas. E acresce: quanto mais extremistas e violentos são, mais internacionalistas e anti-tradicionais se apresentam.

Ou seja, quanto mais se opõem à globalização mais partilham da sua meta final. Por mais, o Manifesto de Marx e Engels é um elogio total da globalização, a cargo da burguesia e do capital, que rompe os vínculos territoriais e religiosos, étnicos e familiares e liberta da tradição. E nas cimeiras anteriores os presidentes dos países mais industrializados eram quase todos de tendência progressista e proviam da geração de 68, desde Clinton aos nossos próprios lideres, que sonhavam em transformar o G8 numa coligação de esquerdas planetária. Todos optimistas do G8.



Onde estão então os verdadeiros inimigos da globalização? Estão na direita, caros amigos. Aí, e não só desde hoje, combate-se o “mundialismo” e o internacionalismo, a morte das identidades locais e nacionais. Se é verdade, como afirmam muitos pensadores, que a próxima alternativa será entre o universalismo e o particularismo, entre globalidade e diferenças, entre cosmopolitismo e comunidade, então os antagonistas da globalização estão na direita.Com os conservadores e os nacionalistas, com os tradicionalistas e os anti-modernos, mas também no âmbito da nova direita de Alain de Benoist e Guillaume Faye e dos movimentos localizados e populistas.

Existe uma rica literatura de direita que há tempo critica radicalmente a globalização e as suas consequências: o domínio da técnica e da economia financeira em detrimento da política e da religião. É na direita que se reúne a resposta populista às oligarquias transnacionais. É na direita que as tradições se opõem à sociedade global sem raízes. É na direita que se teme a imposição de um pensamento único e uma sociedade uniforme e se denuncia a globalização como um mal em si mesmo; enquanto à esquerda denuncia-se que a globalização não estende os benefícios económicos à humanidade mas apenas a uns poucos. Ou seja, não se denuncia o seu efeito de desenraizamento sobre as culturas tradicionais e as identidades, mas tão-somente que não seja uma globalização dos “direitos humanos”.


Em Génova consuma-se, pois, um paradoxo: uns poucos homens de direita, entre agricultores, artesãos e tradicionalistas opondo-se ao G8 de modo débil e marginal mas com propósitos fortes e radicais, e muita gente de esquerda opondo-se de modo vistoso e radical a uma globalização que, no fundo, compartilha. Em Génova a maldição de Colombo faz-se às inversas: Ele zarpou para as índias e descobriu a América, estes sonham com um mundo novo mas descobrem as velhas índias.