quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Nikolai Smirnov - Eurasianismo de Esquerda e Teoria Pós-Colonial

por Nikolai Smirnov

(2019)



Neste artigo, argumento que devemos considerar o eurasianismo como uma experiência inicial no pós-colonialismo. A principal preocupação de ambas as ideologias é a relação entre o relativismo cultural e o universalismo. Eu examino o projeto eurasianista de esquerda como uma ideologia que enfatiza o papel crucial da Rússia na construção do socialismo internacional e como um exemplo do radicalismo filosófico russo que tentou casar o universal com o particular através do messiânico.

O eurasianismo foi uma corrente filosófica e política que emergiu na década de 1920 entre a diáspora russa na Europa. Criticando radicalmente a hegemonia cultural européia, o eurasianismo posteriormente tentou elaborar uma teoria da identidade russo-eurasiana e uma missão universal, alcançando seu auge nas décadas de 1920 e 1930.


O príncipe Nikolai Trubetskoi, linguista, inaugurou o eurasianismo com seu livro "Europa e Humanidade", publicado em Sofia em 1920. No livro, Trubetskoi denunciava o universalismo, descrevendo as culturas humanas como comunidades herméticas opacas umas às outras. Deus fez o mundo diverso e essa diversidade tinha que ser mantida.

De acordo com Trubetskoi, no entanto, a Europa estava tentando impor sua cultura romano-germânica como universal, o que foi feito através do chauvinismo e do cosmopolitismo. Este último fingia universalidade, mas emergiu na Europa e foi, portanto, um veículo de transmissão dos valores europeus. A universalização resultante embaralhou a diversidade de culturas, produzindo uma multidão sem rosto. Isso poderia causar um desastre cultural semelhante ao que aconteceu, de acordo com o Antigo Testamento, na Torre de Babel. Portanto, Trubetskoi contrastava o resto da humanidade com a Europa e seu projeto universalista. Assim, ele tentou "provincializar" e "singularizar" a Europa muito antes dos teóricos pós-coloniais Dipesh Chakrabarty e Gayatri Spivak.

Em 1921, foi lançada a coletânea em estilo de manifesto "Êxodo ao Oriente", com quatro autores: Trubetskoi, o geógrafo Pyotr Savitsky, o crítico de música Pierre Souvtchinsky e o filósofo religioso Georges Florovsky.

A coleção lidava com a autodescoberta da Rússia como uma geocultura específica. Segundo os autores do livro, a Rússia ocupava uma posição intermediária entre a Europa e a Ásia. Consequentemente, ela deve transformar sua identidade civilizacional por meio do reconhecimento e reforço de suas características orientais. Isso não envolveria a fusão com a Ásia; em vez disso, a Rússia se tornaria consciente de si mesma como Rússia-Eurásia, uma cultura geográfica distinta que havia desempenhado um papel crucial na história mundial. No prefácio do livro, os autores escreveram que sentiam que a história agora estava empurrando na direção da Rússia, assim como o revolucionário e escritor russo exilado do século XIX, Alexander Herzen, havia sugerido.

O eurasianismo propunha uma ideologia geográfica de identidade. Podemos, portanto, considerá-lo uma fonte oriental e “orgânica” de estruturalismo. O elemento mais importante do eurasianismo era a geosofia, a descrição e a identificação do significado dos espaços geográficos. Identificar o significado do espaço russo-eurasiano levou os eurasianistas a tirar uma série de conclusões. Em particular, eles alegaram que a Rússia-Eurásia possuía um "desenvolvimento localista" único (mestorazvitie) ou topogênese. Ocupava o chamado continente médio, uma área de vastas massas de terra sem acesso ao oceano. Consequentemente, todos os processos ocorridos ali foram continentais e autárquicos.

O conceito de confessionalismo cotidiano significava que a vida religiosa permeava o mundano na forma de rituais; isto é, não necessitava de institucionalização e se opunha ao clericalismo hierárquico. O resultado era a fusão da fé (o ideal) e da vida. Sob essas circunstâncias, a vida passou a ter uma coerência particular. Os vários domínios da vida - por exemplo, a ideologia estatal, a arte e a ciência do - tenderam a ser tornar indistinguíveis da "vida" e do ideal. Essa leitura da Ortodoxia Russa como uma "ortodoxia do povo" religiosamente tolerante e semi-politeísta (a concepção é de Dostoiévski) alienou os teólogos convencionais em relação ao eurasianismo.

Trubetskoi explicou o desejo de ser guiado por um sistema coerente de vida em termos do chamado tipo psicológico turaniano, que se originou nas profundezas da Eurásia e entrou na cultura russa junto com o tipo psicológico eslavo. O tipo turaniano era marcado por um desdém pela abstração, pela predominância de padrões claros e simétricos na mente e pelo desejo de implementá-los na vida e na cultura cotidianas. Em termos de governança, isso levou à ideocracia - literalmente, o governo da idéia - um sistema político no qual todas as áreas da vida estavam subordinadas à ideia dominante. Mstislav Shakhmatov chamou-o de Estado da Verdade, em oposição a um Estado baseado no Direito.

O eurasianismo foi politizado em 1924. Seu objetivo era infiltrar-se na União Soviética clandestinamente e substituir o comunismo por sua própria ideologia, que, imaginava, incorporava uma "terceira via" que diferia tanto do liberalismo europeu quanto do comunismo soviético. Mergulhados na teoria da conspiração, os eurasianistas empregaram um conjunto sofisticado de palavras de código, referindo-se à Rússia, por exemplo, como "Argentina", e chamando o eurasianismo de "nosso negócio do petróleo".


Trubetskoi, Savitsky e Souvtchinsky continuaram sendo os líderes do movimento, mas o círculo de seus confederados expandiu consideravelmente para incluir, entre outros, o medievalista Peter Bitsilli, os filósofos Lev Karsavin e Vladimir Ilyin, o jurista Nikolai Alexeyev, o acadêmico literário D.S. Mirsky, o historiador George Vernadsky, o orientalista Vasily Nikitin e os ex-oficiais da Guarda Imperial czarista Peter Arapov e Peter Malevsky-Malevich.

Uma rede de células regionais foi organizada em Berlim, Londres, Praga, Belgrado e Paris. Souvtchinsky liderou a célula de Paris que daria origem ao eurasianismo de esquerda entre 1925 e 1930. Seus ideólogos tentaram construir um sistema coerente que cobrisse todos os aspectos da vida, mas estava particularmente focado em teoria, arte e ativismo político.

Souvtchinsky foi profundamente influenciado por D.S. Mirsky, o que é confirmado pela correspondência entre os dois homens. "Se você não criar um governo soviético eurasiano para mim em breve, eu me tornarei um comunista. Eu realmente não posso tolerar o vil Ocidente imperialista”, escreveu Mirsky a Souvtchinksy em 1925.

Mirsky empurrou Souvtchinsky para uma radicalização ética com sabor marxista. Em 1927, Mirsky publicou um ensaio, "O Movimento Eurasiano", no qual ele argumentou que os eurasianistas haviam chegado a um materialismo metafísico que inesperadamente coincidia com o materialismo dos bolcheviques. O que eles tinham em comum era o foco na transfiguração da matéria. A conquista da natureza foi para os bolcheviques o que a transubstanciação da matéria era para os eurasianistas.

O filósofo Lev Karsavin também aderiu ao movimento em 1925. Em seu primeiro artigo eurasianista, “Lições da Fé Renovada”, publicado na quarta edição de Evraziiskii vremennik, Karsavin afirmou que um “novo povo russo” tomou forma na União Soviética, juntamente com uma nova cultura poderosa que se baseava numa profunda religiosidade que não fazia sentido para os líderes soviéticos. Foram os bolcheviques que incorporaram essa cultura, uma cultura compatível com o eurasianismo.

A atitude dos eurasianistas de esquerda em relação ao comunismo soviético era sutil e ambivalente. Eles criticavam o comunismo por seu materialismo e ateísmo, ao mesmo tempo que reconheciam o bolchevismo como a ideologia mais próxima do eurasianismo. Essa ambivalência ideológica foi feita explicitamente opondo comunistas a bolcheviques. No manifesto de 1926 “Eurasianismo: Uma Tentativa de uma Declaração Coletiva”, os eurasianistas proclamaram o slogan “Acima com os bolcheviques, abaixo com os comunistas!” Os eurasianistas argumentaram que o bolchevismo era a forma de recepção “orgânica” do comunismo na Rússia-Eurásia. Foi um comunismo que levou em conta os traços e valores da geocultura específica. A coisa realmente notável sobre os bolcheviques, supostamente, era que eles estavam imbuídos da profunda religiosidade típica dos povos russo-eurasianos, enquanto os líderes do Partido Comunista Soviético pensavam de maneira abstrata demais e imperdoavelmente negavam a profunda religiosidade das bases. Os bolcheviques, afinal, eram maximalistas russos, enquanto os comunistas eram ocidentalizantes e ateus.



Em 1926, Souvtchinsky e Karsavin mudaram-se para o subúrbio parisiense de Clamart. Foi durante esse período que Karsavin elaborou várias idéias que seriam cruciais para o movimento, em particular a historiosofia do eurasianismo. Karsavin baseou-se na doutrina da pessoa sinfônica, que defendia que parte e todo estavam ligados em uma unidade orgânica. Exemplos de entidades sinfônicas incluem homem, família, nação, estado e mundo. O conceito da pessoa sinfônica se opunha ao do indivíduo burguês atomizado. Entre seus óbvios protótipos estavam a noção de Dostoiévski sobre a universalidade da alma russa (vsemirnost) e o conceito de unidade total do filósofo Vladimir Solovyov (vseedinstvo).

Pessoas sinfônicas mais elevadas, como culturas, eram autogovernadas pela seleção de uma classe dominante dentre suas próprias fileiras. Idealmente, a classe dominante “naturalmente emerge do povo e em si mesma, como em um microcosmo, vocaliza o cosmos popular”. Mais cedo ou mais tarde, no entanto, a classe dominante se afastaria do povo, provocando a revolução. Essa circunstância levou Karsavin a elaborar uma fenomenologia da revolução.

Karsavin destacou cinco estágios de revolução, começando com a degeneração e a morte da classe dominante, seguida pela anarquia, e então a ascensão ao poder de uma classe dominante “revolucionária”, que restauraria tiranicamente o aparato estatal, tornando assim sem sentido sua ideologia pré-revolucionária de luta. Isso daria origem ao quarto estágio: a assunção de poder por pessoas guiadas por nenhuma ideologia. O quarto estágio deveria ser seguido por um quinto estágio no qual o povo conceberia uma nova ideologia nacional “orgânica”. Assim, Karsavin preparou o terreno para o inevitável surgimento de uma nova ideologia na Rússia, imaginando que o eurasianismo seria essa ideologia.

Karsavin promoveu suas idéias em um seminário eurasianista realizado em Paris, de 1926 a 1928, intitulado "Rússia e Europa". Seus debates atraíram públicos de até cento e cinquenta pessoas - o eurasianismo estava na moda. O fato era que os intelectuais europeus de vanguarda, digamos, os surrealistas e os etnólogos, estavam à época engajados em atividades semelhantes. Eles questionavam as normas de sua cultura nativa européia enquanto tentavam imaginar alternativas. Além disso, a Rússia era bastante popular na França. Estava associada ao pré-moderno, ao arcaico e ao autêntico, fazendo-a parecer relevante em meio à crítica generalizada do individualismo burguês.

O eurasianismo havia virado para a esquerda por volta de 1927. Parecia que na época poderia se tornar uma segunda ideologia soviética, uma ideologia para o povo que fundiria a ortodoxia russa, o estatismo e a retórica comunista. No final de 1927, Souvtchinsky sugeriu fazer uma “transcrição temporária da doutrina eurasiana em termos teóricos típicos do meio soviético”, isto é, envolver-se em mimetismo lingüístico e entrismo, infiltrando-se no sistema soviético e transformando-o a partir de dentro. Seus argumentos foram rejeitados pelo movimento mais amplo, levando a facção de Clamart a se distanciar dele.

Os ideólogos do eurasianismo de esquerda começaram a reconciliar as filosofias de Nikolay Fedorov e Karl Marx. Eles imaginavam a Rússia-Eurásia como a "crisálida" de um futuro socialismo universal nos moldes russos, um "reino universal da verdade", e acreditavam que a construção disso era a "causa comum" da Rússia-Eurásia. Essas idéias foram completamente rejeitadas pelos outros eurasianistas.



O apogeu do jornalismo eurasianista de esquerda foi o semanário Evraziia, publicado em Clamart em 1928 e 1929. O conselho editorial era formado por Arapov, Karsavin, Nikitin, Mirsky, Souvtchinsky, o compositor Arthur Lourié e Sergei Efron, ex-oficial do Exército Branco, escritor e marido da mundialmente famosa poetisa russa Marina Tsvetaeva.

Evraziia se concentrava em analisar a Revolução Russa, que tornara a Rússia única, separando-a do Ocidente. Concebida como um projeto ocidentalizante, a revolução se tornou a causa nacional da Rússia. Ela havia se tornado uma revolução bolchevique. O caminho eurasiano, que os eurasianistas de esquerda identificaram como a principal lição da Revolução Russa, era a revolução mundial, que consistiria em uma série de revoluções autênticas que uniriam os vários mundos geográficos e culturais em um mundo vital comum e universal. A Revolução Russa era o protótipo desse levante. Segundo a facção de Clamart, a Rússia pós-revolucionária havia se tornado o "novo Ocidente", significando um novo exemplar para toda a humanidade progressista.

Ao perseguir o ideal eurasiano, seus defensores procuraram “animar a humanidade com a idéia de 'construção do mundo'” (mirodelanie). A ideocracia, o sistema de governança eurasiano, serviria para implantar o ideal. Devido à impossibilidade de realizar seu ideal na prática, a metafísica era contaminada pelo pessimismo, enquanto a história e a sociologia, que tratavam tangivelmente da “construção da vida”(zhiznestroitelstvo), eram marcadas pelo otimismo devido ao desejo autodirigido de realizar plenamente o ideal. A ideocracia combinava assim o dualismo metafísico com o monismo histórico, dando rédea livre à construção de mundos.

A obra de Marx era informado pelo monismo histórico, enquanto Fedorov era guiado pelo dualismo metafísico. Como os eurasianos escreveram, Fedorov tinha retomado de onde Marx havia parado. Eles queriam dizer que Marx havia criticado o capitalismo, enquanto Fedorov imaginara um ideal cuja realização poderia ser o único foco das energias criativas da humanidade.

Outro assunto importante no Evraziia foi a defesa da contemporaneidade. No artigo “Modernismo versus Contemporaneidade”, o compositor Vladimir Dukelsky (também conhecido como o futuro compositor e compositor norte-americano Vernon Duke) contrastou o modernismo racionalista com a contemporaneidade “germinadora” e “orgânica”. Nessa perspectiva, a contemporaneidade representava uma ruptura com a modernidade (a era moderna) e sua fase final, o modernismo.

Os eurasianistas, no entanto, tinham duas perspectivas sobre a contemporaneidade. Por um lado, eles a imaginavam em uma veia futurista, como a própria essência do aqui-e-agora. Por outro lado, a viam como auto-organização “orgânica”, que se opunha ao modernismo. Os eurasianistas de esquerda misturaram ambas as noções, assim como entenderam a causa comum da Rússia e da Eurásia como sua tarefa global. Este era o arqueofuturismo, o impulso de vanguarda em direção à relevância dos arranjos anti-individualistas "primários".

Evraziia também publicou vários outros artigos interessantes, por exemplo, uma série de cartas de seguidores de Fedorov na União Soviética. Um deles escreveu que a conexão entre Fedorov e Marx parecia evidente. Além disso, seria errado separá-los: “Rejeitar um deles levaria a um colapso, enquanto a tentativa de excluí-los totalmente o levaria a defender o fascismo mais vulgar ou até mesmo a cair nele”.

O historiador de arte Vladislav Ivanov argumentou que a estética deve ser entendida como um princípio gerador, significando que ela tinha um efeito ativo no mundo. Como disciplinas lidando com vontade e representação, a ética e a estética englobavam uma ampla gama de materiais. A construção da vida, a organização social e política da matéria, era, portanto, um fenômeno estético.

O primeiro esforço da esquerda eurasianista nas artes foi o almanaque literário Vyorsty (Marcos Históricos). O título foi emprestado de uma coleção de poemas de 1921 de Marina Tsvetaeva, que era uma mascote do eurasianismo de esquerda. Os títulos de seus poemas se assemelham a expressões poéticas de sentimentos eurasianistas: “A migração universal começou na obscuridade”, “De baixo dos cascos”, “Eu exorto você a  evitar o ouro”.

A mais eurasianista de todas as artes, no entanto, era a música. Souvtchinsky era um fervoroso admirador do trabalho de Igor Stravinsky. Nos anos 1910, Stravinsky tentou demolir o sistema tonal de música no qual a música clássica européia se baseava. O amplo uso por Stravinsky de politonalidade, dissonância, passagens não-rítmicas e motivos folclóricos russos poderiam ser interpretados como uma manifestação da espontaneidade russo-eurasiana na textura da própria música, como algo arcaico e radicalmente inovador ao mesmo tempo.

Souvtchinsky gostava de colaborar com Sergei Prokofiev, escrevendo o libreto para a última "Cantata para o 20º aniversário da Revolução de Outubro (Op. 74)", consistindo de textos de Marx, Lênin e Stálin.

No final da década de 1930, Souvtchinsky elaborou sua teoria do tempo na música, dividindo a música em música cronométrica e cronoamétrica. Esta última estava focada em transmitir as peculiaridades psicológicas individuais do compositor; não era, portanto, tão valiosa quanto a primeira, que era a morada do Chronos musical, o intermediário entre os ritmos humanos e o Ser. Souvtchinsky via Stravinsky como o compositor contemporâneo mais capaz de incorporar Chronos.

Souvtchinsky também concebeu seu próprio conceito de ato (fakt). O ato era uma interrupção da história, uma stasis que emergia ex nihilo. A história era um contínuo lógico, processo e progresso, mas também consistia em vários eventos, de descontinuidades. Um evento era, na verdade, um ato. Stravinsky e seu Rito da Primavera eram atos, assim como a Revolução Russa. O ato resolvia o enigma de conectar o particular e o universal, e essa conexão era efetuada por meio da figura do messiânico.

O envolvimento na política era a terceira parte do projeto eurasianista. Ele assumiu um significado particular nos anos 1930, depois que a facção Clamart se dividiu durante o período em que publicou Evraziia e o eurasianismo de esquerda entrou em colapso.

Em 1931, Mirsky ingressou no Partido Comunista da Grã-Bretanha e partiu para a União Soviética, como Peter Arapov já havia feito. Outros eurasianistas de esquerda estavam diretamente envolvidos na política. Efron colaborou com a polícia secreta soviética. Ele foi implicado em vários casos importantes, incluindo assassinatos. Após um desses incidentes, Efron e seus colegas e eurasianistas Nikolai Klepinin, sua esposa Antonina Klepinina e Emilia Litauer partiram para a União Soviética.

Os eurasianistas de esquerda Vera Guchkova-Traill, Alexander Adler e Nikolai Afanasov também colaboraram com a OGPU e com a NKVD. Outro eurasianista, Konstantin Rodzevich, que havia trabalhado como secretário de Souvtchinsky, iria se juntar ao Partido Comunista Francês, lutar na Espanha com as Brigadas Internacionais e trabalhar na Resistência Francesa. Mais tarde na vida, ele se tornou um artista. Mirsky, Souvtchinsky, Tsvetaeva, Efron, Rodzevich e Guchkova-Traill estavam envolvidos em um polígono de amor bastante confuso. Quase todo mundo que partisse para a União Soviética seria executado pelo regime de Stalin, exceto Guchkova-Traill, que pôde retornar à Europa.

É curioso que foram Mirsky e Souvtchinsky, pessoas mergulhadas no reino estético, que viraram o eurasianismo na direção de um percepto, uma obra de arte total na qual a teoria era complementada pela estética e pela política. O eurasianismo de esquerda procurou deixar sua marca mais enfaticamente na arte do que apenas na teoria e na política. Mirsky apreciou o heroísmo aristocrático do eurasianismo, o maximalismo estético e o auto-sacrifício trágico. Na medida em que era programaticamente radical, o eurasianismo de esquerda estava em pé de igualdade com tais manifestações do maximalismo espiritual russo como ícones religiosos, o vanguardismo e a Revolução Bolchevique.

Recentemente, o interesse pelo eurasianismo tem aumentando, mas as avaliações de seu significado variam. Primeiro, eu diria que devemos considerar os eurasianistas como ideólogos de certos grupos de poder, o que explicaria a característica primária de seu pensamento: a tensão entre o relativismo cultural e o universalismo. Todos eles eram membros da aristocracia, da antiga elite russa. Eles viram a revolução e o exílio como um sintoma da lacuna entre as elites e as pessoas comuns. Eles foram encorajados a examinar suas identidades duais de perto, a "descobrir" (construir) a nação, tornando-se uma parte orgânica dela.

Em segundo lugar, devemos considerar o Eurasianismo, juntamente com a Negritude, como um dos primeiros experimentos no pós-colonialismo, como um precursor da teoria pós-colonial. O Eurasianismo era essencialismo estratégico avant la lettre. Sua ruptura abrupta com a cultura romano-germânica que havia enfeitiçado as elites russas contemporâneas operou como a descolonização, empregando o complexo de Édipo em termos de geografia.

Isso explicaria a heterogeneidade do eurasianismo, pois a teoria pós-colonial alegou não apenas ser uma teoria, mas também uma prática política. É uma pós-teoria, que não é tão atraente quanto as teorias modernistas, mas, por outro lado, pode abrir espaço para intervenções. Notáveis neste sentido, são os títulos de três livros escritos pelo renomado escritor queniano Ngũgĩ wa Thiong’o: "Canhão de uma Caneta", "Descolonizando a Mente" e "Movendo o Centro: A Luta pela Liberdade Cultural".

A teoria pós-colonial se consolidou como um discurso acadêmico apenas no final dos anos 1970 e 1980. Seu surgimento geralmente tem sido associado ao pós-modernismo, e Edward Said, Gayatri Spivak e o Grupo de Estudos Subalternos têm sido considerados responsáveis pela sua institucionalização. Inicialmente, a teoria pós-colonial foi considerada como um substituto para o marxismo, como gerado pela virada cultural nas ciências humanas e sociais. A cultura era vista nos termos do político e do social. Os teóricos pós-coloniais apropriaram as ideias de hegemonia e contra-hegemonia de Gramsci e examinaram a possibilidade de emancipação através das lentes da culturocentricidade.

A clássica teoria pós-colonial dos anos 1980 pregava que uma modernidade colonial especial dominava os países que haviam adotado o capitalismo recentemente. As teorias ocidentais, em particular o marxismo, eram aplicáveis apenas na Europa e nos EUA. Em outras regiões do mundo, elas deveriam ser substituídas por vários estudos de subordinação e opressão que explicassem as características específicas das modernidades locais. O reconhecimento dessas diferenças culturais permitiria aos teóricos "provincializar" a Europa.

A busca por sistemas descritivos locais tem se mostrado muito menos bem-sucedida do que a desconstrução da hegemonia. Apesar de todo o seu significado, a teoria pós-colonial clássica viu-se presa entre incursões desesperadas no essencialismo estratégico e a incapacidade de se libertar dos modernos métodos analíticos centrados na nação. Enquanto isso, um renascimento do orientalismo ocorreu.

A mentalidade binária provocou um impasse pela negação do universalismo e apelando ao multipolarismo no idioma discursivo ocidental em meio ao meio anglófono “negociável”. Elites em países que adotaram o capitalismo recentemente se encontraram em circunstâncias similares. Elas precisam modernizar suas sociedades, mas a retórica populista de libertação do Ocidente tornou a modernização problemática. Tentar fundamentar a modernização invocando as diferenças culturais locais tem se mostrado ineficaz, produzindo duplicidade por parte das elites ou confronto com o mundo em geral.

Esta é uma nova abordagem da visão histórica Whig, uma ideologia atualizada na década de 1980 que floresceu desde então, uma ideologia das elites oligárquicas nacionais que habitam um mundo onde as identidades culturais estão à venda. A teoria pós-colonial clássica tem sido sua companheira acadêmica. O pós-colonialismo permeia a política nos países em desenvolvimento. Isso, por exemplo, aconteceu com o eurasianismo na Rússia de hoje. Juntamente com as conquistas inegáveis do pós-colonialismo, que facilitou a emancipação e aumentou a diversidade discursiva, essas ideologias podem ter efeitos perigosos. A este respeito, uma crítica do pós-colonialismo é necessária, e a compreensão do eurasianismo pode nos ajudar a realizar essa crítica.

Existem três soluções para os teóricos pós-pós-coloniais que estão cientes da crise da teoria pós-colonial clássica.

A primeira solução envolve criticar as idéias essencialistas do pós-colonialismo da esquerda, reconhecendo o universalismo existente no mundo e sua fissura em universalismos "bons" e "ruins". Reconhecendo o universalismo do mercado, poderíamos combatê-lo com outro universalismo, lutando por nossos próprios direitos e recorrendo a valores e normas internacionais de justiça.

A segunda estratégia envolve criticar a teoria pós-colonial a partir da direita e buscar um projeto mais decisivo para elaborar e construir outro mundo cultural. Essa estrada implica contenção, isolamento e indiferença a todos os outros valores, mesmo quando isso significa romper com o Ocidente ou confrontá-lo. Este é o caminho defendido pela doutrina neo-eurasianista, que se infiltrou no currículo das academias governamentais na Rússia hoje. Aleksander Dugin, o principal ideólogo do Neo-Eurasianismo, sempre esteve mais preocupado em moldar um outro mundo cultural do que desconstruir e analisar. Assim, a principal característica do neo-eurasianismo tem sido um essencialismo estratégico em que a afirmação da identidade tem sido um meio de construir essa mesma identidade para fins emancipatórios.

O perigo em tais casos é que o essencialismo pode se tornar “sagrado”. A emancipação discursiva pode então deslizar para um confronto real entre as geoculturas, que se torna um fim em si mesmo. O próprio Dugin já deixou claro que sua luta é puramente ideológica e que ele é basicamente um construtivista discursivo. Em mentes menos capazes de pensamento abstrato, no entanto, as ideologias pós-coloniais funcionam como apelos ao confronto geopolítico frontal.

Ademais, o neo-eurasianismo foi diretamente apropriado pelas elites políticas putinistas. Tais sentimentos, parece, apenas começaram a ganhar momentum, tanto por parte do regime como por parte dos seus críticos liberais. O regime considera a natureza específica da Rússia-Eurásia como uma vantagem absoluta que permite sua emancipação em relação a um Ocidente imaginário, enquanto os críticos liberais a veem como uma maldição. O regime emprega a retórica de um “mundo multipolar”, enquanto varre o universalismo do mercado para baixo do tapete quando conveniente. Porém, muitas das complexidades que emergiram do eurasianismo original foram naturalmente descartadas. Particularmente, a corrente de esquerda do eurasianismo original, com seu compromisso com o socialismo e o marxismo, foi quase completamente esquecido. O neo-eurasianismo também dispensa a crítica marxista do pós-colonialismo encontrada em correntes mais recentes do eurasianismo de esquerda.

Ademais, o nascimento do sujeito é um procedimento essencialmente ocidental, não? Se ele o for, então aqueles que buscam confrontar o Ocidente para encontrar seus “eus” autênticos estariam se provando os mais diligentes discípulos do Ocidente. Mais importante, aonde esse caminho leva? Um entusiasmo excessivo pelo essencialismo ameaça levar a um confronto internacional “perene” e “orgânico”. Ideologias pós-coloniais às vezes permitem que fenômenos e regimes um tanto quanto horrendos saiam de controle.



Vamos supor, porém, que haja uma terceira via. Os eurasianistas tentaram conceber o mundo como uma “unidade na diversidade”. Isso ressoa com a definição dada por Peter Osborne da contemporaneidade como a unidade disjuntiva de diferentes espacialidades e temporalidades. Ele diz: “Essa unidade disjuntiva, antagônica do contemporâneo não é apenas temporal, mas igualmente – de fato, em certos sentidos primariamente – espacial”. Talvez essa ideia seja extremamente especulativa, mais fácil de imaginar do que de tornar realidade.

Os eurasianistas tentaram resolver o problema teoricamente e dialeticamente. Com o imperativo emancipatório como seu ponto de partida, eles buscaram um relativismo que ressaltava a diversidade do mundo, mas eles imediatamente dissolveram o relativismo na proposição do evento messiânico que combinaria o particular com o universal, e o material com o ideal, tornando-os indistinguíveis um do outro. Esse sistema dialético pode ser considerado como a ótica eurasianista.

Eu gostaria de encerrar com uma declaração programática do Eurasianismo: o mundo está destinado a ser unificado e diverso. Esse é o núcleo do pensamento eurasianista e da contemporaneidade, cujos profetas os eurasianistas se consideravam. 

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