quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Ramiro Ledesma Ramos - O Indivíduo Está Morto

por Ramiro Ledesma Ramos

(1931)



Distingue cada época uma concepção de mundo peculiar, que é a chave de todas as valorações que nela se façam. O homem exalta hoje o que ontem desprezaram seus avós, e vice-versa. Isso, que se poderia atribuir à frívola caducidade dos valores, a relativismo ético e político, é, não obstante, a própria raiz da história, onde se denuncia e aparece a objetividade e continuidade da história. 

Com grande frequência se ouvem hoje longos lamentos em honra do indivíduo, categoria política que se escapa sem remédio. Uma rápida análise da nova política surgida no pós-guerra assinala o fato notório de que o indivíduo foi despojado da significação e importância política de que antes dispunha. O fenômeno é de tal nível, que guarda o segredo das novas rotas políticas, e quem não consiga compreendê-lo com integridade, está condenado a ser um espectador cego das façanhas dessa época. Acontece que um dia o mundo descobriu que todas as suas instituições políticas padeciam de um vício radical de ineficácia. Provocavam um divórcio entre a suprema entidade pública – o Estado – e os imperativos sociais e econômicos do povo. O Estado havia ficado para trás, fiel a vigências anacrônicas, recebendo seus poderes de fontes desvitalizadas e alheias aos tempos. O Estado liberal era um sortilégio concebido para realizar fins particulares, do indivíduo. Sua aspiração mais elevada era não servir de estorvo, deixar que o indivíduo, o burguês, capturasse a felicidade egoísta de sua pessoa. 


O Estado demoliberal garantiu para o burguês as garantias de que precisasse para que ninguém obstaculizasse seus fins. Como resposta, apareceram turvas concepções socializantes, marxistas, nas quais hoje começamos a ver com clareza como permanecem fieis aos valores burgueses que aparentemente combatiam. As bases que informam o fundo cultural e humano do socialismo são burguesas. O socialismo não é mais que o afã de que se convertam em burgueses todos os cidadãos. Depende, pois, da civilização burguesa, e reconhece sua superioridade, sem que aporte a ela nem um único valor original e novo. 

Mas a economia burguesa criou ela mesma a degeneração e a ruína da burguesia. As exigências da produção situaram diante dos povos um novo valor: a solidariedade criadora. Os homens descobriram que junto aos “fins individuais”, que a civilização burguesa exalta, estão os “fins do povo”, os fins coletivos, supraindividuais, antiburgueses, cuja justificação não é reconhecida pelo Estado de tipo liberal burguês. O socialismo teórico – e o prático, de ação, até a Revolução Russa – não conseguiu sair da órbita dos “fins individuais”, e seu anticapitalismo está baseado no desejo de que o Estado socialista garanta a “cada um” a realização de seus fins. 

Assim, o socialismo – contra toda a terminologia que utiliza – é individualista, burguês, e permanece ancorado no velho mundo. 

Hoje triunfa nos povos a crença de que a verdadeira grandeza humana consiste na realização de “fins coletivos, supraindividuais”. O problema que deve ocupar os primeiros planos não é o de se questionar: “O que posso fazer?”, mas “O que posso fazer com os outros?”. Eis aqui a verdadeira etapa pós-liberal, antiburguesa, que hoje deve ser propagada pelo radicalismo político. 

No homem cabe distinguir com toda clareza a coexistência de dois focos ou fontes de ação. Um é o seu eu irredutível, sua consciência individualíssima, seu sentir-se como “algo” diante do mundo, que está se afirmando diante do que não é ele. Ao que no homem há disso, a sua órbita anticivil, se dirigia o Estado liberal, a civilização burguesa, os direitos políticos. O homem possuía, pois, direitos políticos pelo que tinha de antissocial e negador da política. Os direitos políticos eram capacidade de dissidência, equivaliam a reconhecer ao homem direito de negar o Estado. 

Mas o homem não é apenas um “eu individual, uma consciência irredutível”, mas algo que possui capacidade de convivência, um animal político, diriam os gregos. Isso que o homem é, além da “consciência irredutível”, ele é graças ao fato de existir em um Estado. Se não se formasse em um Estado, se não convivesse com os outros, se não reconhecesse um Estado e “fins de Estado” a realizar em comum, em união com os outros, a ninguém ocorreria de atribuir ao homem direitos políticos. É, portanto, o Estado que torna possível a existência desses direitos. Sem ele não existiriam, e não poderia, portanto, ser algum reclamá-los. 

O liberalismo se baseava, como vemos, no erro crasso de reconhecer direitos políticos ao que no homem há de antipolítico. Os novos Estados que hoje nascem e triunfam – Rússia, Itália, o Estado alemão que Hitler defende – são antiliberais. Neles se reconhece ao homem direitos políticos pelo que nele há de capacidade de convivência, de cooperar com os fins do Estado. Por isso não há direito ao dissenso, ou seja, liberdade frente ao Estado. Que é entidade coletiva, fim último. (Mas prescindo aqui de seguir agora este gênero de reflexões que constituem objeto de um livro que lançarei em breve, onde buscarei apurar todas as ideias que utilizo). 

Há, desde já, uma necessidade hodierna, que é a de romper as limitações burguesas individualistas; destruir suas finalidades e instaurar novas. Para isso colaboram com magnífica eficácia os caminhos econômicos e os apetites de grandeza que despertam em alguns povos. É um fato real, incontornável, a produção em série. E ao mesmo tempo o afã europeu de se uniformizar, de formar fileiras e afundar nelas anonimamente. Estes dois fatos esclarecem grande parte das inquietudes políticas de agora. 

Distingue o burguês o afã por se distinguir. Seu ódio ou indiferença pelos uniformes foi até agora mal interpretado. Acreditava ser isso surgido de uma tendência a não se destacar, a viver em ignorada obscuridade. Nada disso está certo. O traje burguês é precisamente o que deixa mais caminho para o capricho individual. Sua aparente simplicidade dá, não obstante, lugar a que exiba uma série numerosíssima de peculiaridades. Agora bem: o burguês se conforma com distinções medíocres: o anal, a gravata, as peles, as meias de seda. Não por acaso, as destaca frente a outro burgueses para se diferenciar deles e provocar sua inveja, ou frente ao proletário, a quem despreza com ódio de classe. O uniforme é vestimenta anti-individualista, antiburguesa, e devemos celebrar seu novo triunfo. A produção em série favorece essa tendência que aparece na nova Europa. Quiçá mais que o burguês, seja a burguesa quem concentra mais puramente esse gênero de fidelidade à era individualista. A produção em série é, para a mulher do burguês, uma coisa absurda, que a condena a vestir o mesmo que a vizinha de frente. Ela gostaria de miçangas especiais, produzidas exclusivamente para seu uso, mas a economia de nosso tempo não tolera esse gênero de satisfações... 

A rota da burguesia também se entrelaça com a descoberta de que não lhe importam as autênticas grandezas nacionais. Prescinde facilmente delas e se dedica a cuidar de seu destino individuai. Carece de virtudes heroicas, de otimismo vital, e isso o impede de dedicações grandiosas. 

Valores e produtos burgueses são, por exemplo, os seguintes: 

Pacifismo, Humanitarismo, Individualismo, Segurança, Liberalismo, Indisciplina, Arbitrariedade, Despotismo, Tirania, Exploração. 

Teoricamente, não foi ainda superada a civilização burguesa. Mas, de fato, sim. Lênin, contra a opinião socializante do mundo inteirou, imprimiu ao triunfo bolchevique um magnífico sentido antiburguês e antiliberal. Disciplinado e heroico. De luta e de guerra. Mussolini, na Itália, fez algo análogo, alcançando que um povo que na Grande Guerra deu mostras de covardia e de vileza, adore hoje a baioneta e os “fins de império”. Há que dizer com alegria e esperança, como passo para vitórias que se aproximam: O indivíduo está morto.

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