sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O Belicismo Democrático

Por Thierry Maulnier


A propaganda da democracia e do socialismo europeu nos últimos anos teve o prazer de utilizar, não raramente, um tema fácil: o pacifismo. Todo mundo sabe que o trabalho fundamental da propaganda é criar ideias, forças, associar de uma vez por todas no fundo da alma popular noções que não resistem ao menor exame crítico, imagens ingênuas e elementares. Sendo assim, grande parte do público nos países ocidentais está resignadamente convencido de que a democracia, o socialismo e o comunismo querem a paz, enquanto o 'fascismo', as ditaduras e monarquias estão dispostos e preparados para a guerra. Assim, pôde ocorrer que durante os anos seguintes à guerra de 1914 à 1918, o internacionalismo, o pacifismo, e as campanhas de desarmamento tornaram-se o monopólio dos partidos de esquerda e de organizações que levavam o nome simbólico da II e III Internacionais, enquanto os partidos de direita eram os únicos que apontavam a precariedade das garantias legais internacionais, a utilidade da defesa nacional e o perigo de um desarmamento injustificado.

Durante os breves anos que o internacionalismo foi favorecido, apenas os espíritos despertos ainda se lembravam que a aliança entre o socialismo, a democracia e o pacifismo era algo novo e precário; que a democracia não é pacífica por essência; que a primeira atitude da França revolucionária em 1792, e da Rússia revolucionária de 1919, foi cair sobre os seus vizinhos; que durante todo o curso das democracias do século XIX, nomeadamente a França e a Alemanha, foram nacionalistas e belicosas, enquanto a prudência diplomática e a preocupação de defender a paz se resgistravam nos programas da direita conservadora. No entanto, a tradição do nacionalismo democrático, cujo último representante ilustre na França foi Clemenceau, tinha recebido um golpe mortal no país com a agitação promovida em torno de Dreyfus, período que viu o nascimento e desenvolvimento do antimilitarismo; desde o Partido Radical francês até os extremistas do comunismo, todos os franceses democratas começaram a considerar suspeita qualquer medida favorável à defesa, e lançaram um feroz ataque à honra e prestígio do exército ; de 1918 à 1933 todos os partidos de esquerda — exceto na Inglaterra, onde Partido Trabalhista manteve a tradição de lealdade nacional — votaram contra os créditos militares, desguarneceram as fronteiras e enfraqueceram os exércitos. 

Isso significa que incontestavelmente os partidos democráticos, e especialmente os partidos democráticos franceses, estavam ocupados preparando a possibilidade de uma nova guerra; porque começaram a oferecer como presa fácil aos povos que mantinham as tradições militares e ambições políticas, uns povos desmoralizados e impotentes, enganados pela falsa sinceridade dos pactos contra a guerra e acordos jurídicos internacionais. Esse trabalho obstinado de desorganização preparava a reação nacionalista violenta que temos assistido nos últimos anos. Você poderia acreditar, pelo menos, na sinceridade do ideal que os inspirou? O mito da paz entre as nações — paz garantida pela boa vontade recíproca  e resolução judicial de todos os conflitos — poderia, não sem razão, parecer imprudente ou prematuro; corria-se o risco de provocar e precipitar as guerras que queria evitar por sua própria generosidade. Isso era justamente o que pregava alguns apóstolos convencidos, ou pelo menos o que eles acreditavam que eram. O pacifismo democrático do pós-guerra nos conduzia inevitavelmente à situações assustadoras; mas pelo menos, poderíamos pensar que os democratas queriam a paz e que se preparavam a guerra, faziam apenas por cegueira.

Mas a situação mudou. A explosão de ódio e medo que provocou em todos os democratas europeus o advento de regimes autoritários em algumas grandes nações, mudou completamente a atitude dos partidos radicais, socialistas e comunistas na Europa, no que diz respeito à política externa. Essa rápida transformação, nascida de causas externas, de princípios que pareciam imutáveis ​​e definitivos, tem mostrado de modo evidente, em parte, que nos partidos demagógicos de esquerda os princípios só têm uma importância secundária; não se trata de afirmar e trazer a vitória de uma verdade política, mas de atrair as massas através de meios adequados, cujas ideias se transformam para o fim, são abandonadas ou renovadas de acordo com as exigências da propaganda; por outro lado, nenhum elo essencial, de doutrina, liga as ideias pacifistas às ideias radicais ou socialistas; e os grandes movimentos democráticos de massa, voltam às tendências de suas origens: a raiva xenófoba e a vontade de impor seus ideais aos vizinhos, com sangue e fogo. 

A atitude da democracia francesa é, neste ponto, muito característica, pois essa nação é uma democracia de longa data, onde os partidos populares exercem sobre o progresso dos assuntos externos uma influência dominante, e porque, mais do que isso, essa nação, onde os partidos radicais, socialistas e comunistas são poderosos, faz fronteira com as duas principais nações do mundo sob um regime “fascista” autoritário: Alemanha e Itália.

Nos anos seguintes ao advento do fascismo italiano, os sindicatos, os partidos populares e estadistas democratas, multiplicaram as provocações e insultos ao regime de Mussolini. Chegaram a criar um movimento francófobo na Itália, e durante alguns anos, por volta de 1925, houve o medo de uma guerra franco-italiana. A tensão diplomática entre os dois países — tensão cujos únicos responsáveis são os partidos de esquerda franceses — não desapareceu até as intrigas alemãs na Áustria e o assassinato do Chanceler Dolffuss, mostrarem à França e à Itália a necessidade de se unirem para enfrentar os perigos da Europa Central. Mas o Nacional-Socialismo chegou ao poder na Alemanha, e o furor dos democratas franceses, esquecendo-se do fascismo italiano, virava-se para esse outro lado.

À atualidade italiana sucedia a atualidade alemã. Exclusivamente sentimental, incapaz de se mover além das reações improvisadas, ignorante de toda reflexão política e de todos os efeitos a longo prazo, a política dos partidos de esquerda franceses marchava novamente impulsionada pelos acontecimentos. Como antes havíamos visto a Paul-Boncour insultar grosseiramente Mussolini em plena Câmara dos Deputados, em seguida vemos Leon Blum e os condutores dos partidos socialistas e comunistas franceses interferirem estupidamente nos assuntos internos da Alemanha de Hitler, protestando furiosamente contra o tratamento dado aos judeus e aos marxistas alemães, fazendo tratos e colaborando com grupos de emigrantes que, esquecendo-se de toda cortesia internacional e também de toda a decência, seguiam seu ativismo político no território francês. Essa tendência não se limitou à França; o Partido Trabalhista Inglês, inspirado nos partidos democratas franceses, em grande parte liderados por israelenses, reivindicou o boicote de produtos alemães, e se empenhou o quanto pôde para colocar o mundo contra a Alemanha, e para inflamar ainda mais naquele país as paixões nacionalistas, tornando-se mais fácil a explosão de um novo conflito mundial. Homens que meses antes se proclamavam na França pacifistas acirrados, dedicaram-se a pregar abertamente a guerra, e começaram a chamar aos povos do Ocidente para a “cruzada pela democracia” contra os países ditatoriais. Assim como em 1792, o povo francês foi chamado para lutar contra os “tiranos”. Em tais circunstâncias, os partidos comunistas e socialistas agiam como se não tivessem pretendido nada além de exasperar sentimentos xenófobos na Alemanha — particularmente Francófobos — e enfrentando-se com a Alemanha exclusivamente por razões de política interna, fizeram de tudo em seu poder para desencadear uma guerra sangrenta na qual ninguém tinha nada a ganhar.

Mas, novamente, a primeira ocorrência indicaria outro objetivo à raiva desses homens, para os quais a política externa não é uma questão de longo prazo, prudência e previsão, mas uma questão de cólera sentimental, de demagogia eleitoral e humor. A Itália voltou à tona outra vez ao primeiro plano; os esforços têm se concentrado de novo sobre ela. O praticante da política democrática em nenhum país da Europa se preocupa em saber  se rompe uma aliança útil para o seu povo, se modifica o equilíbrio europeu, se cria uma tensão internacional, se causa um risco de guerra; essas considerações, que deveriam marcar a orientação de uma verdadeira política externa, escapam por completo e só obedecem às preocupações da política interna. As recentes complicações europeias provocadas pelas diferenças entre a Itália e a Etiópia têm se mostrado bem claras.

A violência com que os condutores da frente popular francesa  e o Congresso dos Sindicatos britânicos reivindicaram sanções contra a Itália — mesmo quando essas sanções provocaram uma guerra na Europa, dando lugar a massacres comparáveis ao da guerra de 1914 — demonstraram claramente que para a democracia europeia a defesa da paz é uma questão secundária. Fazer guerra para defender a paz é um gesto absurdo, que não pode sequer ser atribuído aos líderes socialistas. A verdade é que o que importa a eles não é a defesa da Liga das Nações por sua qualidade de instituição pacífica, mas como um instrumento de política interna e propaganda democrática; e o que pretendem não é proteger aos povo da França , Inglaterra —da Europa — contra os horrores da guerra, como humilhar o fascismo italiano com um fracasso, fazê-lo retroceder e destruí-lo, mesmo que para isso tenham de recorrer aos meios mais sangrentos. No conflito em setembro de 1935, em Genebra, a hipocrisia com que a Inglaterra defendeu seus interesses imperiais em nome da paz — o caminho do Mar Vermelho e as fontes do Nilo —contra as ambições italianas não teve par, assim como a hipocrisia com que os líderes socialistas e democratas cubriram com a bandeira da paz suas campanhas tortuosas contra a Itália autoritária e fascista. Aos olhos desses líderes, a amizade franco-italiana, o prestígio das nações brancas comprometidas na luta ítalo-etíope, a mesma paz do mundo não teria importância nenhuma ao lado da finalidade essencial, que não era outra senão buscar uma revanche contra o fascismo italiano. 

Isso mostrou que o pacifismo democrático era simplesmente uma farsa, e que o respeito pela vida humana não contava. Fazia muito tempo que não faltavam motivos de dúvida, uma vez que a maioria dos campeões das ideias pacifistas na Europa Ocidental eram, ao mesmo tempo, os defensores de uma revolução áspera e sangrenta. Agora sabemos que para a defesa das ideias democráticas e revolucionárias, para satisfazer seu ressentimento contra um homem que abateu a democracia, os políticos radicais e socialistas não hesitam ante a guerra estrangeira mais terrível e sangrenta. Veja como o “amor à paz”, elogiado pelos democratas, aparece claramente tal como é: um meio de enfraquecer e desarmar as nações “capitalistas”, de atrair as massas com uma demagogia apropriada, elogiando sua repugnância pelo esforço militar; não é um meio sincero de salvar sangue humano. Se ainda há espíritos indulgentes que puderam até agora reconhecer na ideologia dos líderes democratas alguma nobreza e generosidade, a atitude desses líderes no conflito ítalo-etíope lhes tiraria toda ilusão; o que se tomava por uma ideal nobre não era nada além de fraudes demagógicas baixas e interesseiras.

Os líderes da democracia europeia não só desprezam a verdade e o bom senso político; desprezam igualmente os seus próprios seguidores, e até mesmo a vida dos trabalhadores que dizem defender. Já que os desprezam, têm em reserva as “verdades de reposição”, e não hesitam em contradizer-se quando suas falácias parecem rentáveis; não hesitam em expôr seus seguidores a conflitos sangrentos gratuitamente, que eles têm se preocupado em buscar e envenenar logo. O desprezo ao povo pelos demagogos profissionais que exploram é o mesmo desprezo que Engels, colaborador de Karl Marx na redação do Manifesto Comunista, escreveu em uma carta dirigida a este último, em 1851: “Por que servir a esse canalha se ele nem ao menos sabe lutar?”. Na verdade, se os líderes democratas e socialistas durante tanto tempo defenderam a tese do pacifismo, internacionalismo e desarmamento, não era por causa de cegueira e incapacidade política; era porque as consequências distantes de suas atitudes e a guerra que sua propaganda poderia desencadear um dia importava-lhes muito pouco; o que pretendiam era atrair a opinião pública. Tampouco hoje impota a eles desencadear a guerra: o que os preocupa é inflamar suas tropas para a batalha e fazer do “anti-fascismo” um lema de combate. A atitude dos demagogos europeus é a mesma quando preparam indiretamente a guerra através da desmoralização pacifista, através da sua propaganda agressiva contra outras nações. Não se preocupam que desse modo podem muito bem desencadear conflitos e desastres internacionais. O que importa a eles é o objetivo imediato: engrossar suas hostes, e ganhar votos.

Para atingir seus objetivos, os líderes democratas e socialistas aceitam, portanto, sem repugnância, a contradição com eles mesmos. Reivindicam de seus respectivos países medidas belicosas contra o fascismo, sem refletirem por um momento que se os governos tivessem escutado suas vozes há uns dez anos atrás, a França e a Inglaterra estariam agora completamente desarmadas e, portanto, absolutamente incapazes de sustentar uma guerra, mesmo que seja para defender a Liga das Nações. Eles pretendem, sem escrúpulos, utilizar as forças armadas a seu favor hoje em dia, enquanto antigamente exigiam sua dissolução e desaparecimento e se empenhavam tanto em pregar contra elas. A democracia quer pôr a serviço de seus rancores, de seus projetos de vingança e de seu medo do “fascismo”, os exércitos contra o quais até agora excitou o ódio e o desprezo das massas; furiosamente internacionalista nos últimos anos, transforma-se em nacionalista no momento em que pode considerar a nação como um abrigo. E para a nação, apesar das aparências, as ideias não têm a menor importância: somente reage diante de sentimentos e interesses.




Está repleto de ensinamentos esse desprezo total da lógica e da realidade com que a democracia global tem associado à propaganda do desarmamento e da guerra, e com o que quer lançar em batalha os povos que começaram removendo os meios de combate na medida do possível. Porque podemos julgar mais exatamente a natureza e a qualidade dos ideais democráticos, e muito particularmente o “nacionalismo” da democracia atual.

Já vimos que se a democracia torna-se nacionalista, como aconteceu em 1792 e no decorrer do século XIX, é principalmente para impulsionar as circunstâncias e pelas necessidades da propaganda. Quando um líder socialista francês como Leon Blum escreve hoje “Viva a nação!” nas colunas do mesmo jornal que não cessou os ataques ao nacionalismo até agora, obviamente não o faz de boa fé. E se os comunistas franceses renunciaram à sua posição internacionalista, foi de acordo com as ordens provenientes de Moscou e com intruções do própio Stalin. Portanto, não se trata de ideias, e sim de tática. Contudo, a mesma tática foi adotada só para satisfazer grande parte da opinião popular; os condutores dos partidos de esquerda não se converteram de repente ao nacionalismo, mas o nacionalismo estava vivo na maior parte de sua tropas. A impostura evidente desses líderes responde, então, a sentimentos e tendências perfeitamente sinceros na massa. A mentira tática dos líderes da democracia nos mostra que nela há um sentimento nacionalista real.

Deduziríamos aqui que o Ocidente podería contar com a democracia, já desembaraçada do internacionalismo, para salvar as realidades nacionais? A análise dos fatos demonstra o contrário, que seria pouco prudente contar com um nacionalismo que não é mais do que o ódio profundo aos povos estrangeiros “fascistas”. Assim como seria imprudente contar com o pacifismo democrático para a saúde da paz, seria imprudente contar com o nacionalismo democrático para a saúde da nação.

O exemplo da França mostra isso claramente. Ao mesmo tempo que o nacionalismo democrático tomava uma forma agressiva e furiosa aqui, expunha o país a uma guerra europeia, sem se preocupar com o seu despreparo para levá-la a cabo, ou que não ganharia absolutamente nada com ela: não empurrava essa guerra pela saúde da França, nem para defender os interesses capitais, ou para o prestígio e honra nacional, mas exclusivamente para a vitória dos princípios democráticos. Por outro lado, pouco se importava em dar à França uma missão conforme seu papel na Europa e destino histórico; pelo contrário, tentou voltá-la contra a Itália, ou seja, contra a única grande nação europeia com a qual a França tinha verdadeiros interesses em comum; a única nação, em caso de complicações na Europa Central, que a França poderia contar. Esse nacionalismo estranho não só empurrava um conflito terrível para uma nação já esgotada pelo esforço de 1914, mas assumia na África a defesa da raça negra contra a raça branca. Trabalhava para destruir uma das principais garantias de paz verdadeira que poderia ser oferecida para a Europa: a parceria entre os povos latinos. Tentando, em suma, lançar a França contra o seu aliado natural. 

Tal “nacionalismo” atenta, ainda mais do que o internacionalismo anterior, contra a segurança da nação, contra sua existência e seus interesses essenciais. Certamente, não é menos perigoso. Os sentimentos a que apela, os ecos que busca na massa, não têm nada a ver com o senso comum, com a experiência histórica, nem com o juízo político. A propaganda nacionalista das II e III Internacionais baseia-se claramente sobre o que subsiste do patriotismo na alma popular. Mas esse mesmo patriotismo, posto cinicamente a serviço dos medos e ressentimentos democráticos, é a reação instintiva não fundamentada, tão frenética quanto adormecida, das massas. Sobre tal nacionalismo não é possível estabelecer uma política contínua e frutífera. É capaz de reações corajosas e brutais quando desperto — como na França em 1914 — mas é incapaz de ansiar realizações distantes, de previsões e prudência; e quando se desencadeia, pode levar a conflitos mais graves. Igual à demagogia socialista que o explora, o sentimento popular é suscetível, em uma crise súbita de xenofobia, de exigir imediatamente uma guerra que durante dez anos foi evitada. O nacionalismo da massa não é, de fato, um meio de ação política; só aparece em tempos de crise; é simplesmente uma reação a uma ameaça ou insulto proveniente do exterior; não se desencadearia se não fosse por uma impulsão exterior, seja a ofensiva de um povo vizinho, seja uma propaganda hábil. Como tudo o que vem da massa, o nacionalismo popular é passivo; depende da circunstância, emoção, humor passageiro; incapaz de ver a qualquer distância, é inseparável da emoção e da febre; não é político, porque, longe de preparação, acompanha os acontecimentos.

O patriotismo das massas pode, portanto, ser explorado pelos políticos, mas não pode levar a uma política verdadeiramente nacional, porque é incapaz de produzir uma expansão sólida e duradoura, nem uma política prudente de alianças e de paz: não é político. O sentimento das massas, as vontades e os humores das democracias são, no vocabulário de Oswald Spengler, sujeitos e não objetos da história; apenas os indivíduos, os chefes, podem ser objetos da história, e capazes de uma motivação política. O patriotismo dos povos democráticos não contradiz os próprios princípios da democracia, que foram, desde o início, agressivos e nacionalistas; após alguns anos de internacionalismo, começou a reviver, e pode se desenvolver ainda mais facilmente, já que encontra ecos muito profundos na alma popular, e as místicas militares, as bandeiras, as músicas, o aparato teatral da guerra, seduzem facilmente. Mas não se trata de uma tendência primitiva, autônoma, que se justifica por si mesma como o desejo de viver e a vontade de expansão das nações fortes. Trata-se de um movimento de opinião; por isso é artificial, provocado; por isso é incapaz de previsão e criação; por isso é facilmente desviado para fins extrínsecos e usado por líderes democratas para promover suas ambições e suas vinganças . O nacionalismo democrático não é um fator político, é um instrumento político nas mãos dos condutores da democracia: instrumento utilizado para o recrutamento e exaltação das massas na luta contra o fascismo. Enquanto o nacionalismo verdadeiramente nacional orienta, coordena e governa os sentimentos patrióticos com o desejo de garantir a existência política da nação, o nacionalismo dos atuais líderes da democracia explora os mesmos sentimentos nacionalistas visando a campanha anti-fascista mundial, que é um negócio de política interna. O verdadeiro nacionalismo coordena as forças internas do país buscando sua salvaguarda e eficácia externa; já o nacionalismo democrático explora a situação externa, multiplica as provocações  e prepara as guerras de agressão para o único propósito de assegurar o triunfo de um partido. Nas democracias tudo se reduz a um problema interior.

Isso quer dizer que a democracia carece de continuidade de propósito e perseverança na sua política interna —nivelamento, destruição das elites—e que sua política externa, que para ela nunca é um fim, mas sim uma tática concebida para fornecer armas contra seus inimigos internos, é inconsistente, fragmentada e contraditória; passando de uma linha de ação para outra, de uma aliança para outra, de acordo com as necessidades da demagogia e da eleição. Se você observar, por exemplo, a política externa da democracia estrangeira após a guerra, suas vacilações entre a manutenção e revisão dos tratados entre a aliança inglesa, a aliança russa, a aliança italiana e a aproximação germano-francesa, irá procurar em vão por um fio condutor dessa política externa; buscará em vão a execução de um grande propósito político. Esse fio condutor da política externa francesa, essa explicação das suas variações, encontraremos, no entanto, olhando para a política interna; e as versatilidades, as vacilações, as inconsistências serão explicadas pelo estado de todos os partidos, a composição dos parlamentos, a eventualidade das próximas eleições: pela política interna, da qual a política externa é apenas um reflexo passivo. No regime democrático, a política externa, onde o destino da nação deveria transparecer, é apenas um campo de experiências demagógicas e caça de eleitores. 

Uma vez que a política externa das democracias afeta de uma forma grave todos os defeitos próprios das democracias, não é de se admirar que traga em si todos os defeitos da democracia, suas incoerências, sua passividade e seus impulsos furiosos. O nacionalismo dos verdadeiros políticos é caracterizado por ser ativo, já que é precisamente a forma de ação nacional sobre o mundo: é um nacionalismo concreto, pois se preocupa, sobretudo, com a adaptação às circunstâncias e os resultados positivos; também é realista, pois tende à eficiência construtiva. No entanto, o nacionalismo democrático é passivo em sua essência, porque, assim como a massa, recebe o impulso dos acontecimentos; é abstrato, pois não se baseia na realidade nacional viva, mas em sua fé, nos princípios de um ideal político a priori; é místico, porque envolve a preexcelencia absoluta de seus princípios, e implicitamente admite a guerra santa para propagá-los ou defendê-los. Daí provém sua extraordinária fraqueza doutrinária e seus perigos graves, do ponto de vista nacional e internacional.

Fraqueza doutrinária, digamos. Na verdade, quando se trata de ideologia democrática dificilmente convém usar a palavra doutrina. Todas as posições intelectuais da democracia estão mais para posições de propaganda do que posições doutrinárias. A eficácia demagógica, o êxito, as chances de propagação nas massas, são infinitamente maiores para o pensamento democrático e marxista do que para a precisão da análise e a verdade objetiva da experiência. E desde o século XVIII francês, os pensadores da democracia não se preocupavam em descobrir as leis justas da vida social e plantar no povo ideias e forças de agitação. O próprio Karl Marx confessa que se houvesse contado com os lavradores para desencadear a revolução e não com o proletariado industrial, teria substituído sua teoria da revolução urbana, concentração capitalista e coletivização por outra. Analogamente, para um líder do socialismo francês como Leon Blum, nem o nacionalismo ou o internacionalismo carregam alguma verdade intrínseca: ambos são bandeiras que se agitam alternadamente de uma opinião para a outra; e o socialismo francês tornou-se nacionalista no dia em que percebeu a impossibilidade de destruir nas massas o sentimento do nacionalismo. Não é exagero dizer que para a democracia e o marxismo não há verdades intelectuais: somente há verdades pragmáticas ou táticas; e as verdades são alteradas conforme exigem as necessidades da propaganda. A única ideia invariável é a da revolução popular, coletivista, igualitária; as demais são apenas meios infinitamente flexíveis e adaptáveis às circunstâncias, para desencadear a revolução. Portanto, não é de se surpreender ao ver que as novas atitudes nacionalistas, e por vezes belicosas, do comunismo francês, coincidem com as novas instruções táticas do Comintern soviético e da Terceira Internacional, tementes ao nacional-socialismo alemão. Comunistas e socialistas não são nacionalistas por amor às suas pátrias, mas para perseguir um eco nas novas fases da opinião.

No fim das contas, devemos, portanto, considerar o nacionalismo democrático que sucedeu bruscamente o internacionalismo nos últimos anos simplesmente como um novo aspecto da propaganda revolucionária. Mas essa forma de propaganda não é menos perigosa, em primeiro lugar porque aborda uma das tendências mais antigas da democracia: a tendência ao belicismo místico e à cruzada; baseia-se sobre a xenofobia instintiva das multidões; e explode o ódio das massas em direção aos regimes “fascistas”. Por outro lado, já que não é baseada  em uma doutrina nacional e em sentimentos nacionalistas firmes, essa propaganda participa da impulsividade e passividade das massas, às quais orienta resoluções repentinas, imprudentes e sangrentas. Vimos isso claramente em setembro na Inglaterra, onde as Trade Unions queriam lançar seu país em uma guerra difícil contra a Itália, enquanto nos últimos dez anos estavam preocupados em desarmá-lo.

Por sua completa incapacidade de apreciar saudavelmente os elementos de uma situação diplomática, por seu desprezo pelas amizades verdadeiras e interesses naturais, o nacionalismo democrático conduz à guerras sangrentas inúteis e mal preparadas, realizadas nas condições mais desfavoráveis. O nacionalismo democrático, portanto, não é menos perigoso para a ordem internacional europeia do que para as mesmas nações que sofrem, que foram tornadas agressivas sem serem fortes. Porque, afinal de contas, o nacionalismo democrático não trabalha para o benefício da nação, mas para o benefício da revolução.

Ano 1935

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