quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Julius Evola - O Caráter Romano Como Princípio Tradicional

por Julius Evola


O que importa para nós é notar que o “legado popular latino” não pode ser identificado de qualquer modo ou caracterizado como “romano”; no estético e nos traços humanísticos supracitados e ainda em alguns modelos jurídicos, o que é “latino” deriva de um mundo que é “romano” somente no nome – um mundo em que a patrícia, antiga e heroica Roma de Cato seria desprezada.

Nesse ponto, nós devemos fazer algumas considerações gerais sobre os valores, desde que precisamos especificar o significado do “clássico” mundo greco-romano que foi objeto de adoração dos humanistas da Renaissance. Sem me estender muito, limitar-me-ei em dizer que o “mito” clássico é muito similar ao mito “Iluminista”, de acordo com que civilizações verdadeiras começaram somente com os “triunfos” e criações artísticas da Renaissance, seguinte à obscura Idade Média. Ainda no mito clássico, como foi formulado pelas pessoas que eu mencionei antes, nós temos essa mentalidade estética e anti-tradicional. O que é retratado como “clássico”, em relação à Grécia e à Roma, é um período de civilização que, apesar do seu esplendor e requinte, representou a decadência; em muitas lembranças essa foi a civilização que surgiu e prevaleceu quando o ciclo da civilização anterior, um tipo sacro-heróico das origens tanto helênicas como romanas, estava na sua fase de declínio.

Se nos referirmos às origens, o mito latino é relativizado e o “espírito latino” aparece desconexo com as forças criativas fundamentais dos povos que abrange. De uma perspectiva filológica, devemos observar que se as linguagens românticas são essencialmente inspiradas pela antiga língua romana, nomeadamente latim, a língua latina, por sua vez, notoriamente pertence à família em geral das línguas Indo-Européias, às quais a língua alemã legitimamente pertence; é um fato que a antiga língua latina (assim como as palavras, articulação, sintaxe, e declínio, são concebidas) é mais semelhante à alemã que à outras línguas românticas latinas.

As coisas são parecidas no domínio étnico, uma vez que há muito tem sido demonstrado que tanto o mundo da Roma primitiva quanto o primitivo de Hellas foram criações de forças pertencentes à mesma haste Indo-Européia, da qual mais tarde os povos germânicos apropriadamente a separaram. Tem mais. É importante notar que quando nos referimos ao mundo das origens, a expressão “latina” assume um significado que eventualmente debilita a tese dos fervorosos apoiadores do anti-nórdico, espírito latino. Um dos resultados dos estudos recentes relativos à pré-Roma e à Roma pré-histórica é de que os antepassados dos latinos foram um povo cuja consanguinidade étnica e espiritual com as famílias dos povos nórdico-ários é inquestionável. Esses antepassados foram um grupo dissidente dos “povos de machado”, que praticavam o ritual da cremação; esse povo, depois de se deslocarem para o centro da Itália, se opuseram à civilização local osco-sabeliana, caracterizada pelo ritual do enterro. A relação da última civilização com o Mediterrâneo pré e não-Indo-Europeu e as civilizações asiático-mediterrâneas é também perceptível.

Entre os vestígios mais antigos deixados para trás por essa haste nórdica, deveríamos mencionar aqueles descobertos em Val Camonica. Esses vestígios possuem uma correspondência interessante com os vestígios pré-históricos das raças primordiais, tanto nórdico-atlânticas (civilização franco-cantábrica dos Cro-Magnons) quanto nórdico-escandinavas (cultura ‘fossum’). Ali, encontramos os mesmos símbolos de uma espiritualidade “solar”, o mesmo estilo, a mesma ausência de vestígios de cultos femininos (telúrico-maternais) que por sua vez são abundantes em civilizações não-Indo-Européias ou em civilizações mediterrâneas degeneradas paleo-Indo-Européias (pelasgos, cretenses; na Itália, a civilização de Maiella, os estruscos, etc). Além disso, há uma afinidade entre os vestígios de Val Camonica e a civilização dos dórios, povo que chegou à Grécia vindo do norte e que criou Esparta, e que venerou Apollo como o Deus da Luz Hiperbóreo. Assim é dito que a migração dos povos dos quais os latinos descendem (o destino final da migração para a Itália sendo Roma) é análoga à migração aquéia-dórica que na Grécia terminou com a criação de Esparta; Roma e Esparta são ambas manifestações correspondentes com os nórdicos.

Com o espírito romano antigo e com Esparta encontramos um mundo sacro-heróico que foi caracterizado por um ethos severo, por um amor à disciplina, e por uma atitude espiritual viril e dominadora. Este mundo não foi perpetuado na seguinte civilização “clássica”, da qual, por sua vez, o “espírito latino” e a “união dos povos da civilização latina” derivaram. Em vez disso, se usando o termo “latino” nos referimos à suas origens, vemos uma completa derrubada da tese “latina”. Os latinos foram, entre os povos, quem ergueu as influências para o qual o mundo romano antigo deve sua grandiosidade e traços específicos. Os latinos tiveram modelos de culto, de civilização, e de vida, que não eram opostos, mas similares àqueles exibidos pelos povos germânicos antes do mundo ficar decadente em que muito mais do que ser “latino” era somente “romântico” e bastante Bizantinizado. O tardio “mundo latino”, por trás da fachada externa e dos meros indícios, incluiu forças heterogêneas que foram suscetíveis à convergência somente quando nada mais sério que o “mundo das cartas e da arte” era para ser encontrado (com exceção do Catolicismo e algumas maneiras de sentimentos ao qual o termo ‘Mediterrâneo’ mais do que o ‘Latino’ deveria ser aplicado).

Eu gostaria de sublinhar a importância do que eu brevemente estabeleci, não somente de um ponto de vista histórico e retrospectivo, mas também de um normativo; as similaridades entre o estilo de vida das antigas Roma e Esparta são óbvias e reconhecidas, como são as similaridades entre ambas e alguns vestígios característicos exibidos pelos povos germânicos; esses vestígios, devido a um número de circunstâncias, foram retidos pelos povos germânicos por mais tempo do que por outros povos da mesma raiz Indo-Européia. Se aqueles que são meros “italianos” e que também desejam sentir-se “latinos” e “mediterrâneos” poderiam encontrar-se frente a frente à disciplina romana do período heróico, sua intolerância à disciplina, à honra, à hierarquia, à presteza, e à virilidade anônima e anti-exibicionista, desta última, não seria nada menos do que a intolerância provocada neles pelo seu anti-germanismo e especialmente pelo animus anti-prussiano (é significativo que L. Aldington chamou os romanos de “os prussianos do seu tempo”).

Em tal animus há certamente influências raciais suspeitas no trabalho. Isso é um exemplo do que está errado com tantos italianos, que empregam a tese do “espírito latino católico” ou da “civilização mediterrânea” com um álibi especial.

Esse álibi tem muitas vezes sido associado com a adequada polêmica ao guelfismo militante, que convenientemente identificou o espírito romano e latino com a Igreja Católica, em uma função anti-germânica e anti-gibelina. Assim, havia pessoas que se aventuraram em falar sobre a antítese entre “templo” e “bosque”; o “templo” representando o modelo de vida latino-católico, com seus princípios de autoridade, ordem, e transcendência, enquanto os “bosques” representam o caótico, “estilo nibelungo”, individualista, e o mundo protestante alemão. Isso é puro amadorismo típico de partidário pseudo-intelectual, familiarizado somente com Wagner e com alguns outros filósofos românticos alemães, e que são ignorantes, ou então pretendem ser, de tudo que permanece em muitos estratos sociais dos Estados Centrais Europeus como uma atitude oculta até tempos recentes, antes da catástrofe das duas guerras mundiais. Em relação ao âmbito externo, Pareto devidamente observou que na Alemanha, apesar de ser predominantemente protestante, os sentimentos de ordem, hierarquia, e disciplina, são muito fortes, enquanto que na Itália, apesar de ser um país católico, tudo isso é presente em uma quantidade insignificante, enquanto o individualismo, a desordem, a instintividade, a falta de disciplina, tendem a prevalecer.

Aqui permanece a verdadeira raiz da intolerância que certo tipo italiano abriga contra o elemento germânico. Não tem que ver somente com outro modelo de vida, mas também com outra concepção étnica. Por exemplo, em uma saga heroica germânica há um episódio característico: um príncipe, sendo convidado para a corte do Rei Etzel, é informado de que é uma armadilha que está provavelmente sendo feita para ele. O príncipe responde: “vou de qualquer jeito, e se é verdade o que me diz, isso é muito ruim para o Rei Etzel”. Ele quis dizer que podia perder sua vida, mas Etzel teria perdido sua honra. Do contrário, de acordo com a mentalidade “mediterrânea”, alguém que é capaz de enganar outros desfruta de uma posição mais alta, ainda que em fazer ele não tinha preocupação nenhuma ou respeito por si mesmo.

Aqui outro exemplo vem em mente, relativo a um dos mais fervorosos apoiadores do mito latino, católico, e anti-germânico, nomeadamente Guido Manacorda. Em uma de suas palestras, ele pensou que estava de bom gosto ao atiçar gracejo para a “carregada” noção de lealdade germânica. Ele informou sobre uma das lendas relacionadas à Faust, de acordo com as quais o último selava seu famoso pacto com o mal com sua palavra de honra. Faust aprendeu de um eremita que ele tem sido levado ao abismo e que ele precisa revogar seu pacto. Logo que Faust ficou ciente disto e que estava a agir de acordo, ele lembrou que tinha dado sua palavra. Neste ponto, ele sentiu que não podia quebrar sua promessa. Manacorda, com um espírito sinistro, comentou: “um de nós latinos encontraria um caminho para trapacear o demônio também!” Eu não tenho dúvidas quanto a isso.

Por ora eu quero informar que o mito do “eixo” Itáliano-Alemão poderia ter um significado peculiar, não somente de uma perspectiva política, mas também de uma perspectiva moral e espiritual, em vista da recíproca integração entre os dois povos e culturas. Esta é uma das razões de que o “eixo” foi sabotado e considerado como “impopular”; o contraste entre do confuso mito nacionalista e patriótico conectado às idéias restantes do Risorgimento, por um lado, e a saudade de um forte Estado “romano”, pelo outro, desempenhou seu próprio papel em uma antipatia, que foi abrigado mesmo por muitas pessoas que se diziam “fascistas”. Todas essas pessoas podem ser felizes de novo, agora que a Itália voltou a ser o que mesmo é – a pequena Itália dos mandolins e dos museus, “0 Sole Mio”, e a indústria de turismo (para não mencionar o lamaceiro democrático e a infecção marxista), tem sido “libertada” da difícil missão de formar a si mesma em inspiração às mais altas tradições, que devem ser descritas não como “latinas”, mas “romanas”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário