19/03/2013

Ernesto Milá - A Formação da Mentalidade Americana

por Ernesto Milá



Foi assim como, pouco a pouco, cobrou forma o que hoje se conhece como "american way of life", o estilo de vida americano. A "Terra Prometida" só se podia alcançar através do sofrimento e do trabalho. Persistir nessa linha levaria gradualmente a um progresso indefinido cuja meta lógica era a reconstrução do Paraíso original.

Quando os impulsos religiosos iniciais se atenuaram, persistiu a idéia laica de progresso indefinido e de trabalho. O enraizamento do calvinismo nos EUA foi imediato; para essa doutrina a fortuna e o êxito constituíam o signo inequívoco com o que a divindade marcava aos escolhidos. O justo era o multimilionário, o homem de êxito, e o pária, em sua miséria aparecia como culpável contra a lei de Deus.

Tais conceitos não podiam senão terminar por fazer dos colonos algo radicalmente diferente à Metrópole. O problema teológico consistiu em explicar como o mal havia aparecido no Novo Mundo, considerado reedição do Paraíso, e inclusive como o próprio Paraíso. A explicação, de um maniqueísmo exasperante, relacionava a entrada do mal na América com a presença de colonos católicos, franceses e espanhóis, fundamentalmente. Eram eles que haviam armado os indígenas e lhes haviam incrustado seus maus hábitos. Eram eles que haviam trazido o Anticristo para a América. Os "pais peregrinos" deviam alçar um muro contra a maldade: deviam terminar a história e começar algo novo.

É desde esse ponto de vista que se pode entender a inclusão do adjetivo "Novo" em boa parte de suas fundações: "Nova Iorque", "Nova Inglaterra", "Novo Porto", "Nova Escócia", etc. Isso não era senão a traslação de um impulso interior bem arraigado na mentalidade dos colonos: se tratava de renovar o mundo.

Logo, quando cedeu o impulso religioso originário, ao se secularizar o ideal escatológico, tomaram forma as concepções de progresso indefinido e o culto à juventude. O slogan psicológico associado à sociedade americana desse século é "o país onde qualquer um pode chegar a Presidente". Por acaso Harry S. Truman não era um vendedor de camisas? E Clinton? Não é um filho de honestos burgueses médios?

Como vemos, um dos motores organizativos do americanismo foi a maçonaria, instituições que se viu também influenciada por este espírito. Ali cobraram forma lendas maçônicas especificamente americanas que destilavam idêntico espírito messiânico e regenerador do mundo. Uma delas - todavia em uso nas lojas americanas - afirma que um grupo de cavaleiros templários conseguiu alcançar as costas americanas depois da perseguição de Felipe o Belo. Levaram ali tesouros, relíquias e ritos que passariam à maçonaria local. Se chega a afirmar que os templários levaram o Graal ao Novo Mundo. Os índios não compartilhavam dessa versão...

Do Bom Selvagem e o Homem Natural

O choque com os índios foi imediato: desde os primeiros momentos da colonização existiram enfrentamentos com os "pagãos". Os índios, bem enraizados em sua concepção do mundo, não estavam dispostos a abraçar o puritanismo; seus princípios religiosos estavam fortemente enraizados em sua vida social, a conversão não teria representado só abraçar uma nova fé, mas renunciar à totalidade de seu estilo de vida.

Em 1624, Thomas Morton, advogado inglês, um dos fundadores de Massachusetts, vendia já armas para os nativos em nome do velho paganismo. Em 1629 os puritanos o prenderam depois de ter organizado uma festa do "mastro de maio", equivalente aos ritos pagãos de consagração da Árvore da Vida. Os frequentadores da festa levavam chifres de cervo e praticaram ritos orgiásticos. Queimada sua casa e preso, foi deportado para a Inglaterra; regressou em 1643 à América e preso de novo, morreu em 1647.

Thomas Morton nos põe na senda de um novo elemento que aparece em alguns coletivos da sociedade americana das origens: restos deformados de paganismo europeu, provavelmente cultos telúricos e gineocráticos que, sobreviventes durante a Idade Média, foram assimilados a ritos satânicos no velho continente. Clandestinos e ocultos na Europa, puderam se expressar com uma maior liberdade e confiança no Novo Mundo.

Os pontos de vista de Morton não variam em relação aos que deram vida aos EUA: para Morton se tratava também de recuperar em terra americana a pureza das origens. A América era a pátria do "bom selvagem" ou se se quer do "homem natural".

Apesar das atividades de Morton em favor dos índios, os quais considerava "bons selvagens", estes tiveram nos puritanos, tendência dominante da sociedade americana, a seus inimigos mais impiedosos. Os puritanos não podiam admitir que os "bons selvagens", não só desconheciam a mensagem de Cristo, senão que ademais eram impermeáveis a sua pregação.

Desde princípios do século XVII, paralela à colonização, os índios resultaram dizimados; porém não foi assim em todo o território. Só no Norte e Noroeste. É curioso constatar que durante a guerra civil, as tribos indígenas mais combativas constituíram unidades regulares de cavalaria que lutaram junto aos Confederados do sul entre os quais o puritanismo estava quase completamente ausente. Índios cherokees, seminoles, choctaws, creeks, não só aportaram seu sangue e seu valor à Confederação, senão que foram as últimas tropas confederadas a se renderem. Se sabe que as duas brigadas de cavalaria ligeira, comandadas pelo chefe cherokee Stan Watie, depuseram as armas dois meses depois que se rendeu o General Lee.

Os puritanos quiseram se adaptar ao esquema que havia criado seu fanatismo religioso: eles e não outros eram os "homens naturais", os "bons selvagens". Se rendia culto à simplicidade e se tinha à inteligência como um traço diabólico: "Quanto mais se cultiva a inteligência, mais se trabalha para Satã" expressou John Cotton. Ali onde existia um granjeiro puritano vivendo nas planícies, ali havia um homem justo. As cidades eram anatemizadas como focos de corrupção das quais os portos do velho continente eram sua visão mais extrema e decadente.

Essa concepção constitui uma das origens do antagonismo entre os Estados do Norte e do Sul que desembocaram, primeiro na guerra de independência e logo na guerra de secessão. Os colonos puritanos pensaram primeiro que a condição sine qua non para o advento do "milênio" era o retorno à pureza do cristianismo primitivo, que chocava com as forças demoníacas procedentes da Europa, com seus "cavalheiros" ociosos e viciosos, urbanos, em definitiva; se tinha à prática religiosa inglesa como o culto do anticristo.

Mircea Eliade reconhece que na marcha rumo à independência "a Inglaterra ocupa o lugar de Roma", como logo o Sul será considerado o inimigo por seu refinamento, perante o Norte que não duvidava em proclamar sua superioridade moral reconhecendo jubilosos sua inferioridade cultural. Chama a atenção como durante a guerra civil americana, as tropas de Grant, Sherman e Sheridan saquearam com singular sanha as grandes cidades do Sul. E não obstante, é rigorosamente certo que o espírito missionário, puritano e messiânico estava presente em certa medida nos estados e nas gentes do Sul. O maior dos generais sulistas, Jonathan Jackson fazia eco do mesmo espírito quando escrevia a sua esposa: "Deus quis conceder a minha brigada o papel mais importante. O digo somente para lhe informar de onde procede minha glória". E é que um dos motivos da vitória do Norte sobre o Sul foi sua homogeneidade: em efeito, o Sul era um agregado de tendências, em ocasiões, contrapostas que tinham como único elemento cimentador o ter nascido sobre um mesmo território.

A vida urbana não foi considerada com respeitabilidade senão até os últimos anos do século XIX. E ainda então a vida urbana estava sob suspeita. Quando triunfou a revolução industrial nos EUA e se criaram grandes cidades, os magnatas da indústria realizaram atividades e doações filantrópicas em uma tentativa de demonstrar que a ciência e a técnica também podiam contribuir para fazer triunfar os valores espirituais.

Enquanto isso a Europa languidescia nas convulsões prévias à derrubada do antigo regime absolutista. Os americanos eram considerados desde a Europa, especialmente pela Ilustração, como homens simples, parecidos em sua essência ao estado de infância e ingenuidade primitivas. Sua situação e hábitos contrastava com a sofisticada decadência da nobreza dos pós, peruca e rapé que detinha o poder na Europa. Essa era precisamente a virtude mais apreciada pelos puritanos: a rústica simplicidade de gentes que rechaçavam a cultura por considerá-la como demonstração de um titânico satanismo. Pode-se entender assim o ódio puritano pelos jesuítas, grandes cultivadores da inteligência posta ao serviço do Papado. Os "bons selvagens" gozavam no velho continente de uma reputação exótica alheia à mentalidade norteamericana.

Era precisamente essa opinião a que punha a salvo a Europa da influência da mentalidade americana. Ao longo do século XVIII e após uma longa guerra de emancipação, as colônias do Novo Mundo se foram libertando da metrópole. A nova sociedade ali criada, despertava certa admiração nos ambientes intelectuais europeus, não obstante, precisamente essa simplicidade primitiva constituía uma barreira incontornável para que essas concepções influíssem sobre a Europa. Eram vistos como gentes simples e piedosas, tolerantes, e os tinha como granjeiros-filósofos, homens justos que haviam erradicado o luxo, o privilégio e a corrupção; porém, contudo, não deixavam de ser algo impossível de traduzir na Europa.

Teve que chegar um homem providencial para estabelecer uma ponte entre o Novo Mundo e a Velha Europa. Esse homem foi Benjamin Franklin.

Franklin chegou à Europa com fama de homem justo, simples e sábio. A maioria de quados o retratam no último quarto do século XVIII, moderadamente calvo, ralo o pouco cabelo restante; um bom dia enquanto viajava a bordo do "Reprisal", lançou sua peruca pela borda e não a voltou a utilizar. Este fato, aparentemente banal, causou grande sensação na sociedade francesa, na qual inclusive seus representantes mais progressistas, eram incapazes de prescindir desse inútil enfeite. Viram nesse gesto uma mostra de simplicidade e pragmatismo. A anedota repetida mil vezes nos cenáculos intelectuais franceses suscitou uma corrente de simpatia pelo personagem; Franklin soube canalizar essa enxurrada de adesões em benefício dos interesses da nova nação americana e de seus ideais que difundiu na Europa com zelo missionário.

Condorcet escreveu sobre Franklin: "Era o único homem da América que tinha na Europa grande reputação... A sua chegada se converteu em objeto de veneração. Se considerava uma honra tê-lo visto: se repetia tudo o que se ouvia dizer por ele. Cada festa a que tinha por bem aceitar, cada casa onde consentia ir, esparzia na sociedade novos admiradores que resultavam outros tantos partidários da revolução americana". Voltaire disse dos quakers - uma derivação puritana - americanos que "estes primitivos são os homens mais respeitáveis de toda a humanidade". Immanuel Kant, o filósofo alemão escreveu a propósito de Franklin que "é o novo Prometeu que roubou o fogo do céu". Em 1767 conheceu Mirabeau, no curso de sua primeira viagem à Europa, um dos grandes animadores da futura Revolução Francesa. Mirabeau o elogiou calorosamente: "Franklin é o homem que mais contribuiu a estender a conquista dos direitos do homem sobre a terra". O historiador Bernard Fay reconhece a importância que teve na gestação da Revolução Francesa: "Todo o grupo de futuros revolucionários se encontra em torno a ele: Brissot, Robespierre, Danton, La Fayette, Marat, Bailly, Target, Petion, o Duque de Orleans, Rochefoucauld". Van Doren, igualmente, lhe reconhece este papel: "Para os franceses é o líder de sua rebelião: a do Estado de Natureza contra a corrupção da ordem antiga".

Benjamin Franklin foi, sem dúvida, o difusor da Revolução Americana na Europa. Certamente alguns de seus valores coincidiam com os do Enciclopedismo, porém este não deixava de ser uma idéia filosófica, pelo demais muito bem considerada pela monarquia (D'Holbach, um dos grandes enciclopedistas franceses chamava Luis XVI - posteriormente guilhotinado - "Monarca justo, humano, benéfico; pai de seu povo e protetor do pobre"). Ao enciclopedismo faltava um modelo de sociedade alternativo ao "antigo regime", algum lugar onde se tivesse ensaiado e mostrasse sua capacidade para vertebrar um novo modelo de organização social. A partir da chegada de Franklin a Europa, o fermento revolucionário adquiriu um modelo e um exemplo a seguir.

Porém a prontidão com a que foi conhecido Franklin nas Gálias é inconcebível se fazemos abstração de um elemento capital: a pertença do missionário americano à franco-maçonaria e a excepcional importância que tiveram as lojas maçônicas no fermento de idéias intelectuais e nos primeiros momentos da Revolução Francesa.

O partido maçônico é tanto o partido da revolução americana como o da revolução francesa.


14/03/2013

Síntese do Projeto Mundialista

por Mohamed Alí Seineldín



"Essa globalização" não é mais que o novo disfarce dos impérios de sempre para submeter nossas capacidades a seus interesses.

Na Argentina já vivemos uma situação parecida a partir do fim do século passado. Tivemos experiências dolorosas, como a "semana trágica" e a "década infame". Então a submissão chegou a extremos da escravidão.

A partir de 1943, e mais precisamente, desde 1945, nossa Nação pôde reverter essa injustiça. Se estabeleceu um verdadeiro "Estado Nacional", que logrou o desenvolvimento pleno, tanto no plano político, como no econômico e no social; fomos realmente soberanos, pudemos desenvolver as estruturas industriais e as agropecuárias, desde a produção até a comercialização. Tudo isso assegurado desde um sólido poder financeiro, promotor de todas as sãs iniciativas, soubemos qual era o verdadeiro sentido da palavra justiça social.

Hoje nos impõem, outra vez, a lei da submissão ao mais forte, a década perversa, que devemos suportar, na mais cruel das modalidades liberais. Estamos novamente na opção de seguir escravos ou recuperar nossa esperança.

Para mim é muito claro o caminho; devemos nos desglobalizar... "É hora de voltar para casa..."

Dedicatória

Este modesto trabalho está dedicado à memória da Licenciada Maria Susana Ricci (escritora, conferencista e assessora em temas de Defesa em organismos oficiais e Escolas Superiores das Forças Armadas), que foi representante da República Argentina na Conferência Interamericana reunida no Panamá, em 1988, sob o lema "Futuro das Forças Armadas Latinoamericanas". Este encontro foi patrocinado pela Universidade Americana de Washington, financiado pela Agência Internacional de Desenvolvimento (AID), e com o assessoramento do Departamento de Estado dos Estados Unidos da América do Norte. Durante o desenvolvimento de uma das sessões, ao tomar conhecimento das verdadeiras intenções e objetivos que ocultava a mencionada conferência, a senhora Ricci sofreu um aneurisma cerebral, que causou sua morte.

Pelas funções que desempenhava no Panamá, a visitei no hospital onde se encontrava internada; em uma dessas circunstâncias ela pôde me transmitir o conceito geral desse modelo de dominação; o que é tratado nesse trabalho e apresentado a todos os espíritos nobres da América.

Vai meu reconhecimento e homenagem à Licenciada Maria Susana Ricci, uma das tantas heroínas que entregam humildemente sua vida pela Pátria.

A Advertência

"...As nações industrializadas e seus sistemas militares (...) estão transcorrendo por uma nova fase, já que existe uma nova ordem internacional não definida claramente. Essas mudanças não são econômicas ou políticas em sua natureza, senão que tem importantes manifestações na segurança internacional. Nessas circunstâncias, pressupôr que o profissionalismo militar e a relação cívico-militar existente nos países industrializados se mantém baseada no controle civil absoluto e na supremacia civil é, simplesmente, ignorar a história e a realidade". (Maria Susana Ricci, Ensaios de Estratégia, Círculo Militar, Buenos Aires, 1986).

Síntese do Projeto Mundialista "Nova Ordem" para ser imposto sobre as nações iberoamericanas

Ensaio realizado em colaboração com um grupo de oficiais que se encontram processados pelo Pronunciamento Militar de 3 de dezembro de 1990.

Mohamed Alí Seineldín
Coronel

Produzido no campo de prisioneiros de Santa Maria Magdalena e editado em 12 de novembro de 1992.
República Argentina
Quarta Edição

Índice

I - Introdução
II - Situação Atual da América Ibérica
III - Objetivos e planos para cada uma das forças e componentes que integram o potencial nacional
IV - Considerações
V - Reflexão final
Apêndice: "A única verdade é a realidade"

"América Latina: Desde tua fidelidade a Cristo resiste aos que querem afogar tua vocação de Esperança!" (João Paulo II, Santo Domingo, 12/10/1984)

I - Introdução

I.I - Finalidade

Se tenta nesse trabalho, desenvolver sinteticamente as causas e efeitos de uma nova concepção política global que afeta, fundamentalmente, às nações "subdesenvolvidas" ou "em vias de desenvolvimento", com a finalidade de facilitar sua compreensão e alertar sobre as perigosas consequências da denominada Nova Ordem Mundial; que foi "profetizada", de alguma maneira, por obras consideradas em seu tempo como de "ficção científica", como "O Amo do Mundo" de Robert Benson e "Um Mundo Feliz" de Aldous Huxley.

I.II - Conceitos Gerais

Se bem o mundo vai experimentando durante sua evolução mudanças constantes, pareceria que as mais notórias se produzem nos fins ou começos dos séculos. Com exemplo citamos as três Grandes Revoluções que alteraram seriamente a Ordem Mundial Existente, precipitando fatos históricos de transcendência, que foram modificando o desenvolvimento das nações rumo a uma nova concepção mundialista; na qual, a interação e a interdependência constituem sua característica principal. Elas foram:

1 - A Revolução Religiosa (1517), que alterou a Ordem Cristã.
2 - A Revolução Francesa (1789), que modificou a Ordem Política.
3 - A Revolução Russa (1917), que afetou a Ordem Econômica e Social.

É necessário observar algumas características destacadas em relação a esses acontecimentos:

a - Cada uma delas nutriu e impulsionou a imediatamente posterior.

b - O tempo transcorrido entre a Revolução Religiosa (1517) e a Revolução Francesa (1789), foi de 272 anos. Entre esta última e a Comunista (1917), é de 128 anos, quer dizer, a metade entre aquelas duas. Se como simples entretenimento tomamos a metade de 128 e a somamos à data da Revolução Russa, obteremos o número-data: 1981. Um claro e verdadeiro "efeito dominó".

c - O desenvolvimento vertiginoso da Ciência e da Tecnologia produziu um aceleramento no devir de novas circunstâncias, pelo que os acontecimentos se precipitam, desde o ponto de vista cronológico. Se tomamos em particular o Século XX, observaremos que jamais na História da Humanidade se suscitaram processos políticos, militares, sociais e econômicos tão contínuos e abarcadores, diríamos quase planetários (guerras mundiais, descobertas, progressos científicos, etc). Jamais se havia avançado tanto (porém não sabemos se para o bem ou para o mal dos seres humanos). Este desenvolvimento constante, onde prevalece o tecnológico e material, facilita, sem dúvidas, o advento de um Poder Mundial Centralizador que polarizará as decisões, otimizado internacionalmente na equação C3-I3 (Comando, Condução e Controle; Informação, Inteligência e Informática).

d - Sustentando essas "especulações históricas", podemos inferir que estamos transitando "tempos de grandes mudanças", que falam claramente de uma nova Etapa da Revolução Mundial "Anticristã", cujo signo é o endeusamento do homem e a negação de sua dimensão transcendente, negando sua Filiação Divina com seu Criador. Não obstante as falsas declarações e manchetes, (mais especulativas que reais) não se tem informado responsavelmente sobre essa iminente modalidade de convivência, que seus promotores denominam "Nova Ordem Mundial" (ou Internacional).

e - Tentaremos, em consequência, aportar dados e apreciações que sirvam de base para o estudo "profundo e necessário" sobre essa tentativa estrangeira "arbitrária" (porque não fomos consultados) e "interessada" (porque responde a interesses particulares e minoritários).

II - Situação Atual da América Ibérica

A América Ibérica, nos umbrais do século XXI, vive em um estado de crise generalizada; seus aspectos mais salientes são:

* O monstruoso endividamento externo, impossível de pagar sem gravíssimas consequências sócio-econômicas.
* A crescente pauperização de grandes contingentes populacionais.
* O fenômeno cada vez mais ampliado da marginalidade, expressão de uma sociedade degradada que perdeu consciência da dignidade das pessoas.
* Uma elevada taxa de mortalidade infantil, e o reaparecimento de epidemias e de enfermidades exóticas ou erradicadas de nosso solo, que dizimaram populações de zonas onde imperam a falta de salubridade e a miséria.
* O aumento do analfabetismo, que distancia nossos povos da possibilidade de preparar seus filhos para enfrentar o desafio do futuro (da tecnologia, do desenvolvimento, etc.).
* A extinção das economias nacionais, sendo destruídas as fontes de trabalho, e a exploração de suas reservas naturais cujo domínio pretendem os poderosos do mundo.
* O uso de nossa população como fonte de experimentos científicos e medicinais, e de nossos territórios como reservatório de dejetos nucleares e químicos altamente tóxicos. Estes depósitos de lixo industrial seriam uma das muitas causas indignas de ter que pagar tamanha dívida externa injusta.
* A fratura do sentido de solidariedade, expressão social da virtude da caridade, característica de nossa herança cristã.
* O enfraquecimento do conceito de Soberania Nacional, em favor da incorporação a uma suposta Nova Ordem Mundial que implica a subordinação ao poder hegemônico.
* O desmonte das Forças Armadas Nacionais, desviando-as de sua razão de ser (braço armado a serviço dos interesses da Pátria), para novas missões em apoio dessa suposta Nova Ordem ou para missões próprias das Forças de Segurança.

Essa realidade se verifica, com distinta intensidade, em cada uma das nações iberoamericanas, e com certas peculiaridades que em alguns casos a agudizam. Também, é diferente a percepção que cada país tem do momento atual, como também o é a reação que se tem suscitado frente ao quadro descrito.

Existe, então, uma importante razão para que o interesse dos poderosos se haja centrado em desarticular os mecanismos do corpo social de cada Estado, representado pela solidez de suas instituições fundamentais: Igreja, Forças Armadas, Empresariado Nacional. Elas constituem a essência do sentido vocacional e existencial das nações, sua destruição possibilita a dependência e a corrupção.

A ação do "imperialismo inglês", desenvolvida durante o século passado para fragmentar a América Ibérica em repúblicas estanques, fomentando as divisões e os enfrentamentos que coartam os vínculos de origem, sangue, língua, história, cultura e religião, impediu concretizar o sonho de unir a Grande Pátria Americana que alentaram nossos melhores homens. Hoje, perante dramas comuns, perante este presente de miséria e incerteza também comuns, essa ação contínua, oferecendo falsas alternativas, criando miragens, para evitar um entendimento genuíno que nos permita encontrar o caminho para nossa real independência, rumo a grandeza e a prosperidade de nossos Povos.

Hoje, não se recorre tão somente a agitar o enfrentamento entre as nações, levando a sua máxima expressão o clássico dividir para reinar, senão que, ademais, introduziram a dialética no próprio seio de cada uma de nossas Pátrias, apelando a todos os recursos que nossas realidades oferecem:

Se tem incentivado a luta ideológica, fomentando tanto a violência de direita (que submete os povos ao liberalismo mais exacerbado, a um capitalismo selvagem e seus ajustes desumanizados), como a violência de esquerda (com sua carga de morte e terror); ambas com o denominador comum de sua relação com o narcotráfico, a partir do narcoconflito ou, simplesmente, da corrupção generalizada em todos os estamentos do poder.

Essas falsas opções nos são apresentadas como posições enfrentadas em guerra permanente, porém de fato operam como verdadeiros sócios em um complemento perfeito, onde uma leva à outra, e essa justifica a outra; já que, na verdade, são expressões distintas de uma mesma realidade: o materialismo sem Deus, que não reconhece o homem em sua plena dignidade, senão tão somente como um objeto a serviço do Estado ou do dinheiro.

Perante a realidade da unidade espiritual e cultural que nos caracteriza e que nos conforma como a grande nação iberoamericana, não se poupam esforços para nos dividir em mais frações, se isso fosse possível. Assim, se nega a obra evangelizadora, exacerbando legítimas reclamações indígenas e fazendo um reducionismo em relação da chegada da Fé que nos irmana, a que permitiu lograr essa síntese providencial, do europeu e do índio em uma entidade: o crioulo.

Simultaneamente, se atacou à religião católica mediante sua ideologização, misturando sua doutrina com um marxismo ateu, ou mediante a semeadura de centenas de seitas pseudo-cristãs que submete à pessoa em um individualismo carente de todo compromisso social.

A gesta histórica de recuperação das ilhas Malvinas pôs em descoberto toda a peçonha do verdadeiro adversário, mas também, mostrou o coração fraterno e solidário da América Ibérica, a que vibrou plena, pois vislumbrou sua senda, seu destino. Daí em diante, os que quiseram dar solução particular para seu problema foram afogados pelo abraço mortífero do capitalismo internacional da usura e pela ameaça do intervencionismo armado; se lhe acrescenta, hoje, o estímulo das atividades do narcoterrorismo e seu veneno.

A realidade dos anos 90 descobre a intenção de uma política imperialista que pretende impôr uma hegemonia mundial, a qual implica, para nossas nações, um claro destino de colônia. É a partir desse cruel propósito que se tem ido desenvolvendo uma vontade de resistência, entre os que não aceitam para seus povos um futuro tão indigno.

As ações que, desde a Semana Santa de 1987, se tem desenvolvido em toda a região, resultaram insuficientes; não se tem conseguido atacar as verdadeiras causas, ou seja, a fonte da crise; em alguns casos só se logrou retardar seus efeitos, porém não foram detidos nem superados.

III - Objetivos e planos para cada uma das forças e componentes que integram o potencial nacional

III.I) Para facilitar sua compreensão agruparemos os componentes estratégicos, que ordenam o decurso dos povos, em quatro forças (fatores) que interessam a este trabalho; a saber:

1 - Força Espiritual (incluída no Psicossocial)
2 - Força Política
3 - Força Econômica
4 - Força Defensiva (ou Militar)

III.II) As "forças" mencionadas serão analisadas considerando alguns dos componentes próprios de cada uma delas, devendo-se ter em conta, que mais além da característica e estática dos distintos componentes, estes são dinâmicos, como resultado da interação existente entre eles (política exterior e interior, geografia, ciência e tecnologia, transporte e comunicações, defesa, etc.).

III.III) Todo este conjunto constitui as forças e recursos morais, intelectuais e materiais de uma nação (Potencial Nacional); otimizados, através de uma política soberana e independente, permitem a um governo lograr a grandeza de seu País e o bem-estar material e espiritual de seus habitantes.

Passamos então a descrever de que maneira essa "mudança" chamada "Nova Ordem" modificará as forças e os componentes do potencial das repúblicas históricas e tradicionais da América Ibérica.

1 - Força Espiritual

1.1 - Objetivo geral

A ação que se executa sobre este "fator", tentará consolidar uma "mudança cultural", com o propósito de destruir a "concepção cristã" (de que o homem é feito à imagem e semelhança de Deus, assim capaz de uma realização integral), para substituí-lo pelas crenças pagãs da "Nova Era" que contemplam o homem em oposição a sua essência humana, quer dizer, como "homem-Deus", "super-homem", etc., ou à altura dos animais. Essa ação se coroa ao eliminar a moral cristão e sua substituição por uma "enganosa ética civil e democrática" (facilmente dirigida desde os meios de comunicação), distanciada totalmente do Bem Supremo, com regras constantemente alteradas que favorecem, obviamente, o projeto dos consórcios do poder internacional.

1.2 - Componentes

1.2.1) Religião

Ataques sistemáticos à Igreja Católica Apostólica Romana, com a finalidade de lograr seu enfraquecimento entre os cidadãos; utilizando, para consegui-lo, os seguintes procedimentos:

a - Introdução de outras religiões ou seitas (promovidas e subvencionadas).
b - Excessiva difusão de costumes de religiões de outros países (por exemplo a difusão do sacerdócio feminino na Igreja Anglicana).
c - "Nova Era" ou "Era de Aquário" (chamativamente coincidente com a proposta da "Nova Ordem Internacional". Sem dúvida será a nova "religião" a adotar). Inclui:
* Seitas de distintos tipos, incluindo as satânicas (roubo de bebês para sacrifício, etc).
* Difusão da magia, sincretismo religioso, adivinhação, esoterismo, ocultismo, bruxaria, espiritismo, etc.
* Visita de personalidades de outros cultos e recepção dos mesmos com uma difusão pouco usual.
d - Correntes internas da própria Igreja Católica opostas ao magistério do Papa.

1.2.2) Cultura

a - Alteração do sentido da história, das tradições e costumes, por pautas mundialistas (hábil manipulação dos meios de comunicação social), contribuindo para modificar o sentimento pátrio e a consequente derrubada do espírito nacional.
b - Impulso do "indigenismo", deslocando o crioulo (verdadeiro crisol da raça iberoamericana), com a finalidade de promover os movimentos guerrilheiros (exemplo: Sendero Luminoso). A finalidade última dessa ação é a de possibilitar a ocupação de zonas ricas e conservá-las até que os consórcios do poder internacional as ocupem.

2 - Força Política

2.1 - Objetivo geral

Subordinar as nações iberoamericanas à "Nova Ordem Internacional". Devendo funcionar, essas, como Estados dependentes de um Poder ou Corporação Político-Econômico Mundial; ao melhor estilo dos Impérios que existiram durante as distintas épocas da História da Humanidade.

2.2 - Componentes

2.2.1) Governo

A - Poder executivo: Integrado por homens comprometidos, subordinados e juramentados com os consórcios que conceberam "A Nova Ordem Internacional"; e escolhidos por serem facilmente corruptíveis. É característica desses a busca do poder hasteando as bandeiras dos Princípios Nacionais e o desejo de satisfazer as aspirações legítimas dos povos (exatamente igual que os marxistas-leninistas, quando tinham vigência), questões que, certamente, não cumprem posteriormente.

(a) Política Interior

Se circunscreverá ao seguinte:

* Controle e repressão de manifestações sociais de protesto, pela usurpação dos direitos individuais e pelos padecimentos econômicos, utilizando Forças de Segurança, com efetivos superiores ao das Forças Armadas, dependentes de uma "superestrutura de controle" (Gendarmería, Prefeitura Naval, Guardas Nacionais e Polícias).
* Compartilhar o poder com elementos subversivos, integrantes da máfia, econômica e política; com narcotraficantes, etc., estruturando um poder omnímodo.
* Mesclar a política com os ambientes artísticos, com a finalidade de aumentar a popularidade do governo perante a população, e criar uma confusão moral e ética. 
* Inclusão de renomados artistas e esportistas como funcionários, com a finalidade de aproveitar sua popularidade, gerando uma ilusão hedonista, mais própria da ficção que da realidade.
* Impedir que surjam projetos de alternativa ou alguma liderança, que possam opacar a imagem do Presidente como único representante da "Nova Ordem Internacional".
* Debilitamento e eliminação dos Corpos, Organizações e Sociedades Intermediárias (Grêmios e Sindicatos, Industriais e Rurais e Culturais; Pequena e Média Empresa; Universidade, Igreja e Família, etc.)
* A oposição de partidos existentes (quer seja de direita, centro ou esquerda), terão vigência, enquanto não se apartem do sistema da "Nova Ordem Internacional". Portanto, a oposição não será autêntica, séria, ou real.
* Os meios de comunicação social deverão permanecer em mãos do estado ou de grupos econômicos de poder enrolados no sistema.
* Visitas de políticos, conselheiros, representantes de distintos tipos de organizações mundiais; serão permanentes e com a finalidade de manter "as expectativas e esperanças" dos "súditos" da "Nova Ordem Internacional".

Como conclusão parcial podemos inferir que a democracia será o "disfarce" por trás do qual se ocultará a pior Ditadura Totalitária (com atitudes demagógicas circenses), que neutralizará as sãs e justas aspirações pela Grandeza da Pátria.

(b) Política Exterior

* Estruturação de um serviço diplomático da Organização de Estados Americanos (OEA), com a finalidade de representar a "Nova Ordem Internacional", nos países iberoamericanos (similar ao Serviço Diplomático do Vaticano). Esse sistema será desenvolvido primeiramente pela OEA, porém finalmente a ONU o absorverá.
* Subordinar a Política Externa Nacional à do governo dos Estados Unidos (sede política atual da "Nova Ordem Internacional").
* Transformar às Forças Armadas em um instrumento da Chancelaria, a qual disporá de seu emprego no exterior, segundo as diretivas do Poder Hegemônico, ao qual estará subordinada a política externa de nossos países.

B - Poder Legislativo: Os Parlamentos funcionarão como "braço submisso" das decisões do Poder Executivo, circunscrevendo seu labor em resolver problemas formais, exceto os econômicos, pois afetariam os interesses estrangeiros. As reformas às Constituições Nacionais incluirão essas cláusulas, para assegurar o investimento de capitais estrangeiros, proteger os existentes e facilitar a espoliação dos recursos próprios.

C - Poder Judiciário: Demarcará seu labor nos seguintes aspectos:
* Pôr sob a jurisdição da Corte Suprema da Potência Hegemônica os países membros da "Nova Ordem Internacional" e com capacidade executiva para sequestrar e julgar a toda pessoa que atente contra os interesses do sistema (Doutrina Thornburgh, em vigência).
* A corrupção dos governos impedirá a aplicação correta da justiça que merecem os cidadãos de uma República Independente. Os membros desse poder, assim como o Legislativo, atuarão em conivência com o regime que dê sua adesão ao Projeto "Nova Ordem" (por adesão político-ideológica, ou bem por ambições imorais, consequências com a corrupção generalizada, "aceita" de fato).

2.2.2) População

Se procederá a diminuir a densidade demográfica, empregando os métodos que permitam:

a - O controle da natalidade (mediante programas de contracepção, esterilização de homens e mulheres, abortos). A atual campanha contra a AIDS, pretende a contracepção mais que a prevenção.

b - Redução do orçamento das classes baixas (para acelerar seu desaparecimento e empregar posteriormente ditos fundos em obras de infraestrutura e pagamento da dívida externa).

c - Execução de ações racistas (a fim de diminuir a população de pessoas da raça negra, mestiços ou das etnias indígenas).

d - Submeter os habitantes às consequências da falta de produção, provocando:
* Falta de trabalho
* Fome
* Prostituição
* Delinquência
* Vício em drogas (e suas sequelas: narcotráfico, narcofinanças, narcoeconomia, narcosubversão e narcocultura).
* Subnutrição
* Mortandade generalizada, especialmente na população infantil.
* Incitação ao suicídio, etc.

e - Propagação de enfermidades endêmicas para a eliminação das comunidades de "excluídos" da "Nova Ordem" (AIDS, cólera, etc).

f - Em caso de descumprimento dos mencionados programas do FMI e do Banco Mundial se aplicarão severas medidas de ajuste, como ação corretiva. Essas medidas tendem a uma finalidade econômica e estão orientadas a liberar de habitantes as zonas mais importantes de produção de matéria-prima. 

3 - Força Econômica

3.1 - Objetivo Geral

Eliminar a independência econômica das Nações e torná-las dependentes dos núcleos do Poder hegemônico, estabelecendo uma nova Divisão Internacional do Trabalho e de Recursos.

3.2 - Componentes

3.2.1) Finanças

a - Dolarização da Economia.
b - Integração dos Mercados de Valores aos do Circuito Internacional.
c - Eliminação dos bancos estatais, privatizando todo o sistema financeiro, (as estruturas empresariais consolidarão monopólios, que inseridas no setor financeiro, alcançarão um único Poder Econômico-Financeiro).
d - Reforma da Carta Orgânica dos Bancos Centrais e modificação de suas estruturas, permitindo o domínio dos setores privados. Isso facilitará a afluência de capitais de origem duvidosa: narcotráfico, etc., ao carecer de elementos oficiais e "legítimos" de controle.

3.3.2) Empresas (Produtos e Serviços)

a - Eliminação ou privatização das empresas estatais de produção militar e das grandes indústrias (repercutindo, por sua vez, na pequena e média empresa), com a finalidade de provocar a dependência comercial e industrial, beneficiando os interesses do sistema.
b - Consolidação de monopólios locais, intimamente relacionados com os internacionais (bancos e empresas), para completar os circuitos de produção, comercialização e financiação.
c - Privatização das grandes empresas de Serviços (energia, gás, ferroviárias, aéreas, navais, etc.), em benefício dos monopólios locais ou estrangeiros.

4 - Defesa

4.1 - Objetivo Geral

Substituir as missões das Forças Armadas, desnaturalizando seu papel histórico como instituições fundantes da Pátria:

De: "Salvaguarda dos mais altos interesses da Nação" (missão constitucional), e de "Braço armado da Pátria" (missão institucional), pelas impostas pela "Nova Ordem Internacional".

Segundo alguns documentos oficiais dos Estados Unidos, as novas missões são as de intervir quando se produzam algumas das seguintes situações:

a) Proliferação tecnológica e acumulação de armas.
b) Instabilidade Regional.
c) Estados "renegados e/ou possuidores" de ideologia hostil.
d) Diferenças étnicas, religiosas e culturais.
e) Golpes de Estado em países sócios.
f) Tráfico de drogas.
g) Degradação ambiental.
h) Ameaça os interesses da "Nova Ordem Internacional".
i) Etc.

4.2 - Componentes

4.2.1) Disponibilidade de forças

a - Pessoal

Será afetado com as seguintes medidas:

(1) Redução do orçamento militar.
(2) Baixas ou aposentação de quadros.
(3) Eliminação do Serviço Militar Obrigatório.
(4) Eliminação das reservas de homens, equipamentos e meios.
(5) Substituição do atual sistema previsional das Forças Armadas por um de jubilação privada afetando a capacidade de reservas e mobilização.
(6) Eliminação de grande parte dos Institutos de Formação.
(7) Baixas de pessoal que não se subordinem à "Nova Ordem Internacional".
(8) Participação dos Organismos Internacionais, como instância de recomendação, para a promoção de oficiais chefes.
(9) Incorporação e promoção de diferentes cultos religiosos, incluídas as seitas, nos quarteis e bases.
(10) Fixação de baixos soldos, o que reduzirá a incorporação de pessoal idôneo.

b - Inteligência

Subordinar a escassa Inteligência Militar à correspondente do Comando Regional Internacional, sob o pretexto da coordenação da luta contra o narcotráfico ou situações políticas e militares, que constituam uma ameaça à "Nova Ordem Internacional", exercendo, dessa forma, um controle operacional sobre homens e organizações próprias.

c - Operações

(1) Operações

Ao desaparecer, praticamente, as soberanias nacionais; eliminar as hipóteses de conflito e anular as missões tradicionais das Forças Armadas, as operações a cumprir serão as seguintes:

a - Força Expedicionária Internacional.
b - Força de luta contra o narcotráfico.
c - Força de repressão interna (como segunda fase, pois a primeira será executada pela gendarmeria, prefeitura naval, guardas nacionais e/ou polícias).

(2) Organização

Satisfarão as seguintes missões:

a - Forças de Paz (Defesa da democracia, cobrança de dívidas internacionais, proteção de comunidades étnicas, etc).
b - Força de intervenção militar (restabelecer a ordem, sufocar um Golpe de Estado em um país sócio, etc).
c - Força de controle ecológico.
d - Força Expedicionária Humanitária.

(3) Planos

Serão coordenados a nível regional, pelo Comando Internacional correspondente.

(4) Educação

* Modificação da Educação Militar Tradicional, focando nas novas missões impostas.
* Nos currículos acadêmicos se eliminarão as matérias humanísticas essenciais (Filosofia, História, etc., que proporcionam ao militar o conhecimento antropológico fundamental e necessário, baseado nos valores religiosos, tradicionais de sua Nação e filosóficos clássicos; para formar um virtual "mercenário", que desconhece as causas justas da guerra).
* Possibilidade de dispor na América Ibérica (Argentina ou Brasil) de uma escola de "Capacetes Azuis" (missões militares exteriores) e "Capacetes Verdes" (missões ecológicas), similar à escola das Américas (Panamá), em épocas da luta contra a subversão.

(5) Logística

Eliminação da capacidade de autoabastecimento de insumos para a Defesa Nacional (Fabricações militares, navais e aéreas), dependendo totalmente do apoio circunstancial e regulado do Comando Militar Internacional para as missões assignadas.

4.2.2) Disponibilidade de Planos e Coordenação dos mesmos será executada pela Junta Interamericana de Defesa.

4.2.3) Posição Geopolítica e Geoestratégica

*Perda do valor geopolítico nacional (ao não estar em condições de defendê-lo, e deixá-lo em poder das Forças Internacionais).
* A afetação das soberanias nacionais, e de fato o desaparecimento das políticas independentes, não permitirão o desenvolvimento de geoestratégias próprias, em prejuízo da exploração geopolítica de cada país, ficando de fato subordinada à potência hegemônica.

4.2.4) Natureza do Risco

Os Estados Nacionais ficarão em um total estado indefeso. Isso significa que, perante situações de perigo, tanto internas quanto externas, seus conflitos deverão ser solucionados pela OEA.

Certamente se constituirá um Estado Maior Continental, que operará através da Junta Interamericana de Defesa. Dessa maneira, nenhum país será capaz de montar eficazmente operação alguma para se defender do saque "pseudo-colonialista" da "Nova Ordem Internacional", ainda quando se substitua um governo títere por outro autêntico.

IV - Considerações

Somente a partir de uma concepção integral do problema, em sua real e plena magnitude, onde se possa dimensionar a própria capacidade de defesa e seus mecanismos, se poderá encarar de modo eficaz o problema, pois, por ser comum a todos, se requer de uma ESTRATÉGIA COMUM que lhe dê resposta.

Não é obviando nossas realidades de Pátrias Soberanas que edificaremos a Integração Iberoamericana; é, ao contrário, afirmando nossas respectivas identidades e, a partir dos muitos pontos em comum que essa realidade nos apresenta (história, cultura e religião), que poderemos recriar o sonho de nossos pais.

Não é com a demencial violência da esquerda que se combate a opressão do imperialismo internacional da usura; nem é virando-se para a direita, com seu individualismo desumanizado, que se alcançará o Bem Comum de nossos povos.

É reafirmando o que somos, consolidando o que nos une, que encontraremos os caminhos que permitam resistir à agressão e construir uma comunidade de homens livres: a grande Nação Iberoamericana. Não é exagerado arriscar que, talvez, essa seja a oportunidade mais propícia para tentar esse grande sonho, já que é hoje quando nossas Nações estão mentalmente mais aptas para lográ-lo. Desde as lutas pela Independência não existiu outro fator aglutinante como o que se nos oferece no presente; sem dúvidas, o que nos exige a união e nos obriga a ocupar as mesmas trincheiras, é a AGRESSÃO COMUM.

V - Reflexão Final

As vozes da História e a memória dos Povos Iberoamericanos, surgidos das sacrificadas e longas lutas de seus antepassados, hoje se enfrentam a uma difícil encruzilhada. Poderes Estrangeiros, confabulados com as ambições mesquinhas de governantes locais, (que cederam sua alma e venderam seus povos), pretendem lhes impôr um Sistema Prepotente e Imoral: "A Nova Ordem Internacional"

Hoje, a agressão da Nova Ordem sobre a América Ibérica nos une em uma luta pela Nova Independência. Não há nem haverá soluções isoladas; nenhum País por si só poderá triunfar; a Resistência deverá ser global e definitiva para que, a partir dela, logremos a tão ansiada RECONSTRUÇÃO DE NOSSOS POVOS.

Resistir a essa moderna e falaz invasão, por nossas Culturas e Valores, é um mandato de nossos próceres e ao mesmo tempo, um dever de todo patriota iberoamericano que se considere ser pessoa dotada de dignidade. Sem dúvida que, em Deus, sua Santíssima Mãe e nossos Irmãos da Grande Pátria, encontraremos a fonte de inspiração e toda a vontade para a Luta.

A AMÉRICA É POSSÍVEL!

Apêndice 2000

"A única verdade é a realidade"

1 - Em 6 de dezembro de 1992 o presidente Carlos Saúl Menem, Domingo Cavallo e William Rhodes (presidente do comitê de bancos credores), assinaram o ingresso da Argentina ao Plano Brady, apesar da plena vigência do art.67 da Constituição Nacional (hoje 75, incisos 4 e 7), que estabelecia competência exclusiva do Congresso Nacional na matéria. Dessa forma o Governo transacionou com a usura internacional e seus aliados vernáculos e hipotecou o futuro de várias gerações. Não se ouviu nenhuma reação da parte dos legisladores.

2 - A dívida pública cresceu na Argentina desde 1991 - ano da convertibilidade e de 1 peso = 1 dólar - a maior de 1999, uns 51%, chegando a um total de 112.357 milhões, segundo dados oficiais. Para muitos economistas especializados a dívida é na realidade de praticamente 170.000 milhões de dólares.

3 - O mercado comum sulamericano (MERCOSUL) está em plena crise e seus principais sócios, Brasil e Argentina, não encontram soluções concretas para os verdadeiros problemas que afetam seus povos. Está à vista que as dificuldades provém da política de ajuste implementada no continente pelo FMI e por uma dívida externa impagável. Mas ademais se aponta a centralizar o poder industrial da América Ibérica no Brasil e converter à Argentina em provedora de matéria-prima sem valor agregado.

4 - Leva mais de cinco anos sem obter sanção um projeto de lei sobre lavagem de dinheiro, pois é questionado pelos banqueiros. O próprio Banco Central, em mãos de um funcionário processado, admite que no país se lavam mais de 5 mil milhões de dólares provenientes do narcotráfico. Se detectaram recentemente investimentos por parte da viúva de Escobar Gaviria, que foi líder do Cartel de Medellín além de pessoas relacionadas ao Cartel de Juárez.

5 - Em dezembro de 1999 se levou a cabo na Argentina uma estranha reunião com a presença do ex-presidente dos EUA, George Bush, a qual assistiram o presidente Fernando de la Rúa, Carlos Rohm, dono do Banco Geral de Negócios, o presidente eleito do Uruguai, Jorge Batile e David Mulford (ex-titular do Tesouro dos EUA). Também concorreu o já ex-presidente Menem, que deixou deslizar que alguém dos presentes havia proposto legalizar o uso de drogas.

6 - A Chancelaria Argentina propôs à Comissão de Direitos Humanos da ONU criar uma "convenção para prevenir e sancionar o desaparecimento forçado de pessoas". Se pretende que as pessoas possam ser julgadas por esse delito em qualquer dos países que se integrem à convenção, quer dizer por "outros magistrados internacionais que o considerem pertinente". O objetivo real é invadir a soberania e a autodeterminação nacional das nações, e ao mesmo tempo evitar a pacificação definitiva dos argentinos.

7 - A sociedade argentina é refém do medo e Buenos Aires está qualificada como a cidade mais insegura do país.

8 - O 10% mais pobre dos argentinos recebe apenas o 1.5% da renda e o 10% mais rico se apodera de 36.1%. Com extrema desfaçatez o Banco Mundial diz que os delitos crescem por efeito da crise econômica, pretendendo se esquecer que junto com o FMI, são responsáveis por impulsionar e exigir a aplicação do modelo econômico baseado na convertibilidade, com sua sequela de fome, desemprego, analfabetismo e abandono das crianças e idosos.

9 - Na Argentina estão ficando a descoberto os interesses econômicos de George Bush e sua família, em petróleo, cassinos, represas e gás. A própria imprensa norteamericana tem se ocupado de develar a ação lobista sobre os governos "democráticos" do homem que em 1990 queria fuzilar os militares que se opuseram aos planos genocidas para a América Ibérica.

10 - A recessão produz cada vez mais efeitos negativos sobre o consumo de alimentos. O povo nos dois primeiros meses desse ano comprou 3% a menos que no mesmo período do ano passado, chegando a retração a produtos básicos como o azeite, arroz, o leite, a manteiga e polenta.

Com essa breve enumeração só se pretende gerar a reflexão dos argentinos. São alguns resultados concretos do modelo da Nova Ordem Mundial, sobre os quais advertimos no presente folheto há mais de dez anos.

É necessário observar detidamente que o povo vai perdendo as esperanças, está de mau humor, descrente e com perigosos sintomas de esgotar sua paciência frente à falta de trabalho e à recessão que não deixa de crescer. Há uma só opção cristã frente à realidade atual da Argentina e de toda América Ibérica. "Ou salvamos os seres humanos ou salvamos os banqueiros". Sobra as palavras, a escolha é óbvia. Cumprimos em advertir. Amanhã será tarde.





11/03/2013

Boris Nad - O Retorno do Mito

por Boris Nad


Os processos contraditórios de desmitologização e remitologização não são desconhecidos para as civilizações antigas, nas quais os velhos mitos são às vezes destruídos (desmitologização) e substituídos com novos mitos (remitologização). Em outras palavras, aqui os processos de desmitologização e remitologização são processos mutuamente causados e interdependentes. Eles não colocam em questão a própria base da comunidade mítica tradicional; ademais, eles a mantém atual e viva.

O mito, nomeadamente - exceto em casos especiais de degradação extrema e secularização da tradição e cultura - para nós, não é uma ficção de povos primitivos, uma superstição ou uma incompreensão, mas uma expressão assaz concisa das verdades e princípios sagrados mais elevados, que são "traduzidos" a uma linguagem específica da realidade terrena, na medida em que seja praticamente possível. O mito é verdade sacral descrita por linguagem popular. Onde as presunções para sua compreensão estão desaparecendo, o conteúdo mítico deve ser descartado para que se coloque em seu lugar um novo.

As Intuições Perigosas

O mito é, nas culturas tradicionais, também uma grande antítese, onde, como demonstrado na obra capital de J.J. Bachofen Direito Materno: Uma Investigação sobre o Caráter Religioso e Jurídico do Matriarcado no Mundo Antigo, os dois princípios maiores e irreconciliáveis são confrontados: o urânico e o ctônico, patriarcal e matriarcal, e isso é projetado para todas as modalidades secundárias do estado e da ordem social através das artes e da cultura.

Com o advento do indo-europeu, invasores patriarcais no solo da velha Europa matriarcal começou o conflito dos dois princípios opostos que é trabalhado no estudo de Bachofen. No caso em questão, os velhos cultos e mitos matriarcais se tornam patriarcais, através dos processos paralelos e alternados de desmitologização e remitologização, e traços desse conflito também são encontrados em alguns temas míticos, que podem ser compreendidos como uma história político-religiosa bastante breve, como Robert Graves os interpretou, em seu livro Os Mitos Gregos.

Em contraste, na Grécia, um processo de desmitologização que alcança seu ápice após Xenófanes (565-470) é completo e radical. Isso não é seguido por qualquer processo de remitologização, é uma consequência de um processo total de dessacralização e profanação da cultura, que resulta na extinção do mítico e no despertar de uma consciência história, quando o homem deixa de ser ver como mítico e começa a se compreender como um ser histórico. Este é um fenômeno que possui analogias com dois momentos na história: primeiro, com um processo de desmitologização causado pelo Cristianismo primitivo. Para os primeiros teólogos cristãos, o mito era o oposto do Evangelho, e Jesus era uma figura histórica, cuja historicidade os Pais da Igreja provavam e defendiam para os descrentes. Como contraste há o processo de remitologização da Idade Média, com toda uma série de exemplos de revitalização do antigo conteúdo mítico, muitas vezes conflituoso e irreconciliável, dos mitos do Graal e de Frederico II aos mitos escatológicos na época das Cruzadas e vários mitos milenaristas. É, sem dúvida, uma reatualização bastante antiga de conteúdo mítico e sua "intuição perigosa", que ultrapassa suas causas e serve como uma evidência da presença de forças míticas do mundo histórico, que processo algum de desmitologização é capaz de destruir ou extinguir.

A Mitologia do Consumidor - O Pesadelo da História

Outro exemplo de processo radical de desmitologização é a desmitologização que começa com a época do Iluminismo até seu ápice experimentado no "universo tecnológico". Ela é (como acima) expressão direta de degradação e declínio do homem moderno, que não mais é um ser mítico ou histórico, mas um mero "consumidor" dentro da "civilização consumista e tecnocrática" ou simplesmente um plugue para o universo tecnológico. O impulso heróico do homem como ser mítico e histórico foi esgotado. Forças destrutivas de desmitologização constantemente limpam e removem os ingredientes míticos da área da civilização consumista e da memória humana em geral, exterminando as "intuições perigosas" que estão contidas aí. Dentro do universo tecnológico, que é apenas uma fase final da queda do homem (moderno), o horizonte humano está finalmente se fechando, porque aqui o homem possui apenas um poder e apenas uma liberdade: o poder de gastar e a liberdade de comprar e vender. Essa liberdade e esse poder, testemunham sobre a morte do homem (conhecida pelo mito e pela história), porque dentro do universo da tecnologia e da civilização consumerista, qualquer coisa que transcende esse "animal de consumo" simplesmente não pode existir. "A Morte da Arte" sobre a qual fala a vanguarda histórica é uma simples consequência da morte do homem, primeiro como ser mítico, e finalmente como ser histórico.

É claro, o processo de desmitologização jamais pode se completar, pela simples razão de que a destruição não toca as próprias forças míticas. Elas continuam a aparecer e retornar através da história, seja sob roupagem "histórica", ou como algo que se opõe à história. Isso também é verdadeiro para o universo unidimensional de uma utopia tecnocrática. Como resultado, os verdadeiros conteúdos míticos da civilização de consumo são substituídos pelo simulacro mítico: ideologias e mitos subculturais, ou mitologia consumerista, crescendo sem controle, cujos heróis são figuras como o Super-Homem.

Mas a exaustão de longos e destrutivos processos de desmitologização não significa um retorno ao tempo mítico.

"Nós estamos na meia-noite da história, o ponteiro marcou as doze e nós olhamos adiante para as trevas onde vemos os contornos de coisas futuras. A essa visão se seguem medo e pesada premonição. Coisas que vemos ou pensamos que podemos ver ainda não tem nome, elas são inomináveis. Se as abordamos, não as afetamos com precisão e elas escapam do laço de nosso domínio. Quando falamos paz pode ser guerra. Planos de felicidade se tornam homicidas, não raro ao longo da noite".

Em resumo: "Incursões ríspidas, que em muitos lugares convertem paisagens históricas em elementais, ocultam mudanças sutis porém do tipo mais agressivo" (Ernst Jünger: No Muro do Tempo).

Na Aurora da História

O escrito No Muro do Tempo pelo autor alemão Ernst Jünger retrata a transição do mito em história, o momento em que a consciência mítica foi substituída pela histórica. A história, é claro, não existe há tanto tempo quanto o homem: a consciência histórica rejeita como ahistóricos os vastos espaços e épocas ("pré-história"), e povos, civilizações e nações, porque "uma pessoa, um evento deve ter características muito específicas que as tornem históricas". A chave para essa transição, segundo esse autor, fornece a obra de Heródoto, através da qual o homem "passa por um país iluminado pelos raios da aurora".

"Antes dele (Heródoto) havia algo mais, a noite mítica. Aquela noite, porém, não era trevas. Era como um sonho, e ela conhecia um meio diferente de conectar pessoas e eventos de consciência histórica e suas forças seletivas. Isso lança os raios da aurora sobre a obra de Heródoto. Ele se situa no topo da montanha que separa o dia da noite: não apenas as duas épocas, mas também dois tipos de épocas, os dois tipos de luz".

Em outras palavras, é o momento da transição de um modo de existência para algo bastante diferente, que chamamos história. Este é o tempo da transição de dois ciclos, que não podemos identificar com a mudança de épocas históricas - o problema em questão é a mudança profunda na existência do homem. O sagrado na maneira das épocas anteriores recua, cultos antigos desaparecem e em seu lugar vem religiões, que logo após, por si mesmas se tornam históricas ou anti-históricas, mesmo quando iniciam eventos e enredos históricos. As guerras cruzadas, convocadas pela Igreja do Ocidente, aprofundaram divisões e cismas e eventualmente deram origem à Reforma, que começou com entusiasmo religioso e um desejo de retorno "aos primórdios bíblicos", e então findou com o movimento histórico que abre o caminho para o desenvolvimento desimpedido da indústria e da tecnologia - incontida pelas normas da tradição (cristã), e livre de esperanças e desejos humanos.

A Careta de Horror

O Mundo da História, cujos contornos já encontramos em Homero, os quais foram moldados por Tucídides, e que experimentou seu zênite em algum momento ao fim do século XIX e início do século XX, com fronteiras incertas no tempo e no espaço, mas com uma consciência clara de suas leis e regulamentos, começou a entrar em colapso; e o vasto edifício da história se torna instável, como um sinal de penetração de forças estranhas até então desconhecidas. Essas forças possuem caráter titânico, elemental, visto pela primeira vez em desastres técnicos, que afetaram centenas de milhares de vítimas e então, nos eventos cataclísmicos do século XX, nas guerras e revoluções mundiais, com milhões de mortos e aleijados. A liberação da energia nuclear, da radiação e da destruição ambiental às quais áreas enormes foram expostas, a taxa diária paga em sangue, seja sacrificado ao "progresso" em tempos de paz, seja como consequência direta de intervenções e conflitos militares, são algo que emerge da moldura estabelecida pelo mundo histórico. É claro, a história não acaba aí, como esperado, por Marx ou Fukuyama. O que é mais notável é a aceleração do tempo histórico, que concentra eventos e reduz a distância entre os pontos de virada da história. Aquilo de que estamos falando é, porém, que aqui não estão apenas operando forças que chamamos históricas, e que o papel do homem nesses eventos fundamentalmente se modificou: ele não é mais capaz de operar igualmente com os deuses, ou segui-los, resistir contra eles ou mesmo subjugá-los, como era representado pelo mito. Ele (o homem) não é mais um participante ativo na história, guiado pelas paixões ou sua própria vontade, como ocorre na época histórica madura. Ele se torna o joguete de algo desconhecido, envolvido em eventos que o ultrapassam, contra sua vontade e fora de suas idéias.

A expressão de confiança alegre está sendo gradativamente substituída por uma careta de horror. O homem, que até ontem se considerava um soberano e mestre, reconhece sua fraqueza. Os meios que eram confiados são demonstrados como fracos ou na hora de decisão se voltam contra seu criador. Sistemas tecnológicos e ordens sociais possuem seus outros lados, seus esquemas automáticos, que não restringem mas encorajam a destruição, que situam o homem na posição de aprendiz de feiticeiro, que liberou forças incontroláveis. Corrupção, crime, violência e terror são mais resultados do que causas. Respostas políticas, independentemente de cor e signo, não oferecem soluções senão ampliam a desintegração. Se ele não se encontrasse em tempo de pânico, o homem poderia adquirir pelo menos uma consciência de seu próprio declínio.

Tudo isso era impensável na era madura da história porque então, o homem ainda era governado por si mesmo, e assim era a história, e portanto a história não podia ter senso de direção além daquela dada pelo próprio homem, seus próprios feitos e pensamentos.

Cada conceito de "sentido da história" é o conceito dos primórdios do homem, enquanto no tempo histórico clássico o homem não é criado, mas ele existe. A questão do "sentido da história" era uma questão sem sentido, e ela de fato não é encontrada nos escritores clássicos, de Heródoto em diante. A questão do "sentido da história", que é sempre encontrado fora do homem, se torna possível apenas quando a história e o foco saem do homem, seja na esfera social, seja na esfera das relações tecnológicas.

O homem moderno está atrasado demais para revelar sua própria fraqueza, mas sua desintegração não acusa o mito ou a história, senão precisamente a fraqueza e covardia do homem moderno. O mundo dos "valores civilizados", o mundo histórico em geral, que ele próprio havia criado, está se mostrando mais fraco do que costumávamos crer - estruturalmente fraco, espiritualmente e eticamente também. Ao primeiro sinal de alarme, ele começa a desintegrar, expondo, na verdade, a prontidão interna do homem moderno de capitular.

Essa é uma "meia-noite da história", que logo será substituída por algo diferente, e este momento é marcado pela difusão de forças titânicas, demandando o sacrifício de sangue.

Rumo à Pós-História: O Despertar do Mito

A história, nós devemos repetir novamente, não dura tanto quanto o homem na Terra. Mas a consciência sobre isso ocorre tardiamente na história, talvez apenas em seu fim, quando as fronteiras do tempo e do espaço estão mudando: por um lado, pela descoberta do passado distante do homem, com civilizações perdidas, então o passado do planeta e do universo, e por outro lado, com a exploração de espaços cósmicos, profundezas de oceanos, ou o interior da própria Terra, através das camadas arqueológicas e geológicas, quase ao modo de Verne. Novas perspectivas causam vertigem. A pré-história e a pós-história ganham em importância apenas quando a história se torna um edifício em ruínas. Mas passar o homem da história para algo que ele ainda não foi capaz de determinar ainda ou perceber claramente rememora agora o voo. 

De uma maneira ou de outra, o universo tecnológico e a civilização do consumo chegarão ao fim, da mesma maneira que a época histórica clássica acaba com a tecnocracia e com uma ordem totalitária em sua forma completa, que não emerge nem da coragem ou da força, mas da covardia, fraqueza e medo. É impossível dizer quanto tempo isso vai durar. É irrelevante se isso vai acontecer devido a atrito interno, uma sobretensão ou um desastre, ou tudo isso junto. Mas em cada um desses casos, o colapso é apenas uma consequência da inabilidade do homem de continuar habitando no mundo histórico e governá-lo como ser supremo e soberano.

O retorno do mito, porém, não é possível em termos de um retorno à "pré-história". Forças mitológicas permanecem presentes, como eram durante todo o período histórico, mas elas não podem estabelecer um estado prévio porque carecem das pré-condições, em primeiro lugar, um "substrato" ausente, um terreno fértil. O homem moderno é fraco demais para isso, no sentido espiritual, psicológico e mesmo "fisiológico".

Junto com a história, a cultura gradativamente desaparece também, em seu sentido atual, que é basicamente apenas um instrumento de engenharia social. Em uma utopia tecnocrática (em oposição à cultura no período histórico) a cultura de massa é apenas uma das maneiras de canalizar a energia e impulsionar fantasias utópicas e desejos das massas; a cultura de elite, que constantemente vaga entre conformismo e negação, entre ceticismo e negação, entre ceticismo e ironia, e de volta ao conformismo, essencialmente permanece uma ferramente de desmitologia (ou desconstrução de mitologia) e destruição de instituições perigosas contidas no mito, que permite mais ou menos uma integração fluida no universo tecnológico, com a ilusão do livre arbítrio. O aparecimento e o despertar de intuições perigosas e arquétipos adormecidos, nas margens do mecanismo social tecnocrático, cria uma situação de conflito e leva a atrasos em seu funcionamento.

Na região fora da utopia tecnocrática, a cultura precisará assumir um papel mais tradicional do que aquele que possui na civilização do consumo. A desintegração do mundo histórico em seu estágio tardio, que nós estamos testemunhando, nos permite ver algo disso.

Por boa parte do período histórico, a cultura é uma área privilegiada de poderes sagrados e míticos. Essa é uma das maneiras nas quais forças míticas penetram de novo no mundo historicamente, se realizando na história, diferentemente do universo tecnológico, onde elas usualmente se manifestam através de elementos não-controlados de subculturas folclóricas, e muitas vezes distorcidos ao ponto de serem irreconhecíveis como simulacro do mítico, e não como sua expressão crível.

Eles mais testemunham sobre a necessidade eterna e insaciável do homem por conteúdo mítico, do que representam um signo de sua presença real.

A cultura na era pós-tecnocrática estará relacionada bem de perto ao restabelecimento da mitologia, em termos de reconhecimento e despertar do conteúdo mítico autêntico, marcado por inovação e revitalização da forma antiga e tradicional, mais do que, como até então, seu exorcismo. O sentido e propósito do processo de desmitologia, por contraste, deve ser limitado ao que possuía nas sociedades tradicionais: a limpeza de formas míticas "folclóricas" degeneradas, de modo a abrir espaço para aquelas que representa com credibilidade a tradição.

09/03/2013

Viva Chávez!

por Kerry Bolton



"Eventualmente, liderança responsável para uma massa inquieta de uns 180.000.000 latinoamericanos surgirá. Já as sementes da revolta contra a dominação judaico-americana foram semeadas. Vejam Cuba." - Francis Parker Yockey, 1961

Os abutres tem circulado a Venezuela por mais de uma década, esperando por uma oportunidade de tomar uma nação que tem preservado obstinadamente sua soberania sob a liderança inspiradora de um Perón tardio, Hugo Chávez. Para falsos "conservadores" Chávez era apenas outro tirano marxista, uma designação que é aplicada a qualquer um remotamente crítico da hegemonia global americana, seja politicamente, economicamente, moralmente ou culturalmente. Porém, ele era algo mais além de apenas outro ditador de "Terceiro Mundo"; como Perón ele estava comprometido com uma Idéia, e ainda que essa possa ser descrita como sendo de "Esquerda", ela estava longe de ser Marxista. Realistas políticos direitistas como Yockey, seu colega H. Keith Thompson, e o belga Jean Thiriart, teriam prontamente visto grandeza em Chávez, ao redor de quem um eixo anti-globalista estava sendo forjado na América Latina e mais além.

Yockey, em colaboração com H. Keith Thompson, redigiu seu último ensaio que reconhecia a importância da "formação de regimes nacionalistas, neutralistas" no Terceiro Mundo, e não tinha reticência em descrever certos não-brancos de seu tempo como "brilhantes estadistas", entre os quais ele incluía por exemplo Nkrumah de Gana. "Essas personalidades", ele escreveu, "incorporam uma Idéia, nenhum estão nisso por dinheiro ou publicidade. Eles vivem simplesmente, trabalham e vivem por suas idéias. Um homem tal, em uma posição de liderança, é uma força histórico-mundial". Poderia alguém realmente objetar que se Yockey estivesse vivo hoje ele teria visto em Chávez algo além de um "brilhante estadista", e uma "força histórico-mundial", e poderia bem ter se unido a Ceresole indo à Venezuela Bolivariana, do mesmo jeito que ele foi ao Egito de Nasser?

Chávez, que havia alcançado a patente de Tenente-Coronel, havia participado em um golpe mal sucedido em 1992, foi preso e então perdoado em 1994. Ele havia passado seu tempo formulando suas idéias políticas, e era um estudante de história. O Movimento Bolivariano Revolucionário-200 (MBR-200) havia sido formado por oficiais do exército radicais. Como o nome indicava, eles honravam Simon Bolívar, não Karl Marx, e possuíam uma visão mais ampla para a América Latina. Apesar dos partidos de oposição se unirem contra ele, Chávez conquistou a presidência em 1998 com 56% dos votos.

O nome do estado foi mudado para República Bolivariana da Venezuela.

Resistindo à Distorção Cultural

Enquanto é um grande mito considerar os EUA como instintivamente opostos a qualquer regime que seja "esquerdista", Po regime Chávez era certamente um incômodo significativo para o regime americano. Como Perón, Chávez não era um marxista qualquer. A direção alarmante da Venezuela Bolivariana logo se tornou aparente para o "regime da distorção cultural" quando Chávez declarou uma Kulturkampf exatamente contra eles: os "deturpadores culturais". A "sífilis espiritual de Hollywood", para usar um termo yockeyano é um meio primário de subverter uma nação e arrastá-la para o lamaçal globalista chefiado pelos EUA. Perguntado por quê ele estava lançando uma indústria cinematográfica na América Latina para rivalizar com Hollywood, Chávez explicou: "É uma ditadura Hollywoodiano. Eles nos inoculam com mensagens que não pertencem a nossas tradições".

Um estúdio de cinema foi aberto por Chávez em 2006 com financiamento de 11 milhões de dólares. Ele produziu filmes sobre a história latinoamericana. O primeiro foi uma "série sobre Francisco de Miranda, que lutou pela independência da Venezuela contra a Espanha no século XIX e um dos heróis do sr. Chávez".

Chávez reconhecia plenamente as forças em funcionamento por trás do regime americano e da globalização, e seu braço hollywoodiano. Daí a oposição que ele encontrou de fontes judaicas e sua condenação aberta de sua influência. Em 2006 ninguém menos que o Centro Simon Wiesenthal acusou Chávez de fazer afirmações antissemitas e - riam agora - "exigiu um pedido de desculpas". Em seu discurso do Natal de 2005 Chávez disse que "minorias, descendentes daqueles que crucificaram Cristo...abocanharam toda a riqueza do mundo para si mesmos... 'Nosso centro condena fortemente suas declarações anti-semitas. Esse insulto a valores humanitários universais demanda uma retração imediata e um pedido de desculpas público'".

"O Diretor de Relações Internacionais do centro Shimon Samuels e seu representante latinoamericano Sergio Widder também enviaram uma carta a Chávez exigindo um pedido de desculpas, segundo a declaração do centro.

Eles disseram que eles convocariam os governos da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai para suspenderem a entrada da Venezuela no bloco comercial Mercosul até que Chávez peça desculpas.

O centro disse que 'a retórica reacionária e medieval' ecoava aquela do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, que mês passado expressou dúvidas sobre o extermínio dos judeus pelos nazistas conhecido como Holocausto e sugeriu que o estado judaico seja transferido para a Europa.

Chávez, um crítico vocal de Washington, recentemente tem forjado laços com o Irã conforme ele constrói alianças políticas e comerciais como alternativa à influência americana".

Em novembro de 2012 o Centro Wiesenthal atacou a Venezuela Bolivariana novamente por causa da violência dirigida contra uma sinagoga em Caracas, onde "uma multidão enfurecida cantava 'judeus são assassinos, malditos judeus, parem de matar inocentes', slogans antissionistas e soltavam fogos". O Diretor de Relações Internacionais do centro, Dr. Shimon Samuels, seguindo com a tendência filo-semítica do exagero, comparou o incidente à Alemanha Nazista e acusou o Governo Chávez de tolerar os atos, um incidente prévio tendo ocorrido em 2009.

Incidentes antissemitas na Venezuela chavista já foram classificados como abusos dos direitos humanos pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. A Sinagoga Maripérez insta a OEA a intervir em garantir a investigação e perseguição daqueles responsáveis.

Uma Alternativa à "Nova Ordem Mundial"

Claramente Chávez foi considerado com um inimigo do Sionismo Internacional e da Judiaria Mundial, junto a seu aliado, o presidente iraniano, Ahmadinejad. Em particular, Chávez possui uma grande visão que abraçava não só toda a América Latina como o mundo. Ao se opor aos EUA e à globalização Chávez revidou com uma alternativa que contava com um crescente corpo de opinião política e acadêmica na Rússia, baseada no "Eurasianismo" e na "Quarta Teoria Política", cujo expoente mais conhecido na Rússia é o professor Alexander Dugin do Centro de Estudos Conservadores da Universidade Estatal de Moscou. Essa teoria é fortemente advogada pelo presidente Putin, e Chávez buscava um relacionamento próximo com a Rússia como o eixo para uma reorganização global baseada em blocos e alianças ou o que Dugin chama de "vetores".

De parte de Chávez ele defendia um bloco ou "vetor" latinoamericana, que era a iniciativa em política externa de sua "Revolução Bolivariana". Isso de fato trouxe o alinhamento de outros estados latinoamericanos na "Alternativa Bolivariana para o Povo de Nossa América". Eu já descrevi isso brevemente em outro lugar:

"Um bloco latinoamericano está emergindo ao redor da Venezuela. Combinado, um bloco latinoamericano terá imensos recursos. Uma revolução 'bolivariana' está ocorrendo por toda a América Latina sob a inspiração de Hugo Chávez da Venezuela. Esse bloco latinoamericano está se formando em desafio às ambições hegemônicas norteamericanas, e foi lançado como 'A Alternativa Bolivariana para o Povo de Nossa América" (ALBA) em 2004 por Venezuela e Cuba como alternativa à 'Área de Livre Comércio das Américas' (ALCA) apoiada pelos EUA. Até junho de 2009, a ALBA já havia crescido até ter nove estados membros, e o nome foi modificado para "Aliança Bolivariana para o Povo de Nossa América". Um bloco latinoamericano buscará alinhamento com a Rússia para se opôr à pressão americana, e a Venezuela já está fazendo isso".

Chávez parecia estar informado pela corrente emergente no pensamento geopolítico russo e endossava um mundo "multipolar" no qual o bloco bolivariano desempenharia sua parte em aliança com a Rússia. Ele afirmou cedo em sua presidência que esse não seria "o novo século americano" mas um de vários blocos de poder. Isso reflete o grande pensamento geopolítico de Haushofer, e as idéias do pós-guerra de Thiriart e Mosley, este também incluindo o que ele havia visto durante a década de 50 como a emergência do "sindicalismo" na América Latina (particularmente sob Perón) como a fundação de um bloco latino que poderia se alinhar com a Europa.

Chávez era bem versado em ideologia política e na história das idéias políticas, e citava uma variedade de fontes intelectuais em seus artigos e diálogos televisivos. Ele não era um "latino burro" como alguns "direitistas" tentam fazer crer tão só pela cor de sua pele. Ele escreveu sobre sua visão geopolítica:

"Eu quero resumir o que eu disse na Universidade da Amizade dos Povos da Rússia: Hoje nós podemos dizer que o mundo deixou de ser unipolar. Mas não há um mundo bipolar, nem há sinais claros da criação de quatro ou cinco grandes pólos de potências mundiais. Está claro, por exemplo, que a organização de Nossa América em um único bloco político não está no horizonte imediato: Isso não se tornará realidade a curto prazo. Mas o mesmo ocorre na África, Ásia e Europa.

O que nós podemos ver atualmente é um número crescente de núcleos geopolíticos no mapa de um mundo que nós podemos chamar de um Novo Mundo. É um mundo multipolar como a transição para a multipolaridade.

A aceleração rumo à transição para a multipolaridade dependerá da clareza, vontade e decisão políticas tomadas pelos países em cada núcleo...

Será difícil para eles silenciar os múltiplos cantos entoados por múltiplas nações, que, em face da globalização hegemônica imposta pelo capitalismo, começaram a construir globalizações contra-hegemônicas. Aqui eu uso os termos do professor e intelectual português Boaventura de Sousa Santos quando, em seu livro, Epistemologias do Sul, ele nos propõe pensar sobre um novo movimento democrático multinacional. Nesse sentido, eu senti, com o mesmo espírito entre os povos fraternais da Líbia, Argélia, Síria, Irã, Turcomenistão, Bielorrússia, Rússia e Espanha, que esforços isolados não são suficientes para lutar contra a crise mundial".

No mesmo artigo, Chávez falou do drama dos palestinos, e da "guerra contra o terrorismo" que estava sendo usada para impor a globalização, "que permitiu ao império atropelar povos e soberanias com impunidade".

Em 2010 Chávez visitou o Irã onde a lealdade entre as duas nações foi jurada, e acordos conjuntos de petróleo e outros foram ratificados. Foi um pacto que trouxe grandes preocupações para Israel e os EUA. A visita ao Irã foi parte de uma viagem por diversos estados, onde ele promoveu a idéia de um "mundo multipolar", referida no artigo acima.

Naquele ano também Putin visitou a Venezuela para assinar um acordo de energia. Chávez, que visitou a Rússia muitas vezes, afirmou sobre a visita de Putin: "Nós estamos forjando um novo mundo multipolar e a Rússia desempenha um papel importante nesse processo".

Chávez: "Eu sou realmente um peronista"

Chávez, eu sinto, é o primeiro líder latinoamericano a preencher os calçados do grande Juan Perón. Mais do que similaridade em origens e estilo, tanto Perón como Chávez tiveram um conselheiro comum em Norberto Ceresole. Em um encontro em 2008 com a presidente argentina Christina Fernandez de Kirchner, Chávez citou um discurso de Juan Perón, e disse: "Eu sou realmente um peronista. Eu identifico esse homem e esse pensamento que pediu que nossos países não mais fossem fábricas de imperialismo".

O Norberto Ceresole tem sido descrito como tanto um comunista, por causa de sua associação com o Chile de Allende, e com Cuba, e como um neofascista (porque ele era um "neofascista"). O rótulo de comunista chega através de um retardo cerebral que aflige a "Direita", particularmente nos EUA. (Eu me lembro anos atrás de ouvir um GI afirmam solenemente que estava indo ao Iraque para "combater o comunismo"). Muito tem sido escrito sobre Ceresole como o "Rasputin" de Chávez, como alguém cuja influência dava às forças variadas mas alinhadas do mal um grave nervosismo.

Ceresole (1943-2003), um cientista político e sociólogo, nasceu na Argentina, estudou na Alemanha, França e Itália, e começou sua carreira como conselheiro político com o regime esquerdista de Juan Velasco Alvarado, após o golpe no Peru em 1968. Durante a década de 70 ele foi um líder dos Montoneros, que haviam combatido pelo retorno do exilado Juan Perón, e foi ao exílio na Espanha em 1976, após a derrubada de Isabel Perón. Ceresole se tornou o principal portavoz para o Peronismo e foi particularmente influente entre oficiais militares por toda a América Latina. Ele também promovia uma aliança latinoamericana com a URSS.

Enquanto isso poderia ser visto por elementos retardados da "Direita" como evidência de comunismo, desde o tempo de Yockey, e mesmo durante o tempo de Spengler, pensadores direitistas avançados estavam vendo a URSS como se desenvolvendo em uma direção totalmente diferente, e durante o próprio tempo de Ceresole tal aliança estava certamente sendo defendida também por Jean Thiriart e mesmo por velhos veteranos como o Major General Otto Remer, que jamais cessou de defender uma aliança com a Rússia.

Ceresole se tornou um membro do Instituto de Estudos Latinoamericanos da Academia Soviética de Ciências, e manteve contato com oficiais cubanos e árabes; novamente algo que Yockey também fez. Após uma revolta em 1987 ele voltou para a Argentina para aconselhar Aldo Rico e outros oficiais, cujo movimento depois se fundiu com os peronistas. Em 1994, através de contatos militares, Ceresole conheceu Chávez.

Em 1995 Ceresole foi deportado da Venezuela por causa de suas ligações com o grupo de Chávez. Com a eleição de Chávez em 1998 Ceresole retornou, após ter publicado um livro em elogio a Chávez, Chefe, Exército, Povo: A Venezuela do Comandante Chávez em 1999.

Chávez já havia mencionado sua dívida ideológica a Ceresole em relação a geopolítica, escrevendo em 1998 em Fala o Comandante que ele "estava reconsiderando as idéias de Norberto Ceresole, em suas obras e estudos, onde ele planejava um projeto de integração física na América Latina...este será um projeto que integrará o Continente além da Venezuela, Brasil e Argentina e suas ramificações". Apesar de pressões de dentro do regime que instaram Ceresole a abandonar a Venezuela em 1999, sua influência sobre o regime foi duradoura e ele afirmou: "Eu sou profundamente orgulhoso, por exemplo, de que o sistema venezuelano de inteligência militar foi reestruturado seguindo as diretrizes estratégicas que eu propus à época".

Ainda que haja sugestões de que Ceresole foi repudiado por Chávez, isso não se passou, e o Comandante afirmou em uma de suas transmissões em 2006 que Ceresole era um "grande amigo", e "um intelectual merecedor de grande respeito". Ele relembrou seu encontro em 1995 em que estratégia geopolítica foi discutida.

Ceresole retornou à Argentina e continuou aconselhando peronistas até sua morte em 2003. Aqui ele estabeleceu o Instituto Peronista de Educação e Treinamento.

Ceresole tem sido "acusado" de ser um "negador do Holocausto" e um "antissemita" e de fato ele escreveu livros sobre ambos temas, incluindo: Terrorismo Fundamentalista Judaico, Novos Cenários de conflitos (Madrid: Libertarias, 1996); O Nacional-Judaísmo: Um Messianismo Pós-Sionista, com prólogo de Roger Garaudy (Madrid: Libertarias, 1997); Espanha e os Judeus, Expulsão, Inquisição, Holocausto, 1492-1997 (Madrid: Amanecer, 1997); e A Questão Judaica na América do Sul (2003), enquanto também escrevia sobre nacionalismo político e geopolítica. Um de seus livros se chama Peronismo: Teoria e História do Nacional-Socialismo, este termo sendo o que o próprio Perón usava para descrever sua doutrina do Justicialismo.

Aquele velho cavalo-de-guerra do judaico-marxismo, o The Jewish Daily Forward, lamentou de Chávez:

"O antissemitismo está em ascensão no mundo hispânico. Em seu âmago está o antissionismo de Chávez, que, é claro, não é novo. Nem é a ira do presidente venezuelano dirigida somente ao estado israelense. Seu antissionismo é apenas uma manifestação de seu antissemitismo. Famosamente, em uma declaração de Natal de 2005, Chávez anunciou que 'O mundo tem o bastante para todos, mas algumas minorias, os descendentes do mesmo povo que crucificou Cristo, e daqueles que expulsaram Bolívar daqui e a sua própria maneira o crucificaram...assumiram o controle das riquezas do mundo'. Como seu aliado Mahmoud Ahmadinejad do Irã, Chávez retrata Israel como um estado genocida que sobrevive somente porque uma cabala de ricos judeus nos EUA, através da mídia, controle a opinião pública mundial".

Após comentar sobre a cada vez menor comunidade judaica venezuelana e ações antissionistas, o Forward descreve o conselheiro de Chávez:

"Para compreender as raízes da animosidade de Chávez em relação a Israel e ao povo judeu, é essencial seguir o caminho de um de seus aliados e confidentes, Norberto Rafael Ceresole. A potente mistura de Ceresole de nacionalismo, populismo e antissemitismo forneceu ao presidente venezuelano uma maneira conveniente de unir os pobres excluídos sob um inimigo comum...

...Ao invés de um ideólogo da Guerra Fria apoiando, dependendo da ocasião, a extrema esquerda e a ultra-direita, Ceresole pode ser melhor definido como um populista inspirado por Juan Domingo Perón, o herói de Ceresole (ele passou tempo com o deposto Perón em Madri). Uma de suas teses centrais, se uma pode ser destilada de suas quase três dúzias de livros, é que a única instituição redentora na América Latina capaz de retirar a região de seu 'estado de sonambulismo' é o exército".

Ceresole, afirma o The Forward, era totalmente anti-marxista, apesar de seu apoio para causas "esquerdistas" bem como para àquelas da Direita, vendo o marxismo como alienígena à América Latina, e foi capaz - como Yockey, se pode acrescentar - de cultivar contatos tanto na URSS e em Cuba, apesar de seu anticomunismo. The Forward cita Ceresole como rememorando calorosamente seu primeiro encontro com Chávez em 1994 assim como Chávez lembrava mais recentemente e tão calorosamente quanto, seu encontro com Ceresole:

"Quando eu encontrei Chávez eu senti uma revelação, isto é, eu vi um caráter que de alguma forma eu havia imaginado... Eu o havia imaginado como uma possibilidade. Eu tinha uma experiência negativa com alguns militares argentinos e quando eu vi Chávez foi, fracamente, como um golpe de ar fresco. Eu imediatamente compreendi sua linha esquerdista, o que não me agrada, e aí emergiu a disputa fraterna entre Chávez e Ceresole".

The Forward comenta que apesar de Ceresole ter sido forçado a deixar a Venezuela pelo Vice-Presidente em 1999, "Ainda que Ceresole deixasse a Venezuela, ele permaneceu próximo a Chávez até sua morte". A influência certamente perdurou através das idéias de Ceresole sobre geopolítica, sua oposição ao sionismo e as influências do judaísmo, e sua concepção de um estado civil-militar. Em uma entrevista de 2000, afirma The Forward, Ceresole:

"(...) disse que Chávez estava ávido para compreender o papel de um exército tecnologicamente avançado na implementação de uma sociedade justa e ele e Ceresole discutiram essas idéias frequentemente. Ele explicou como ele contou a Chávez que toda dissidência precisava ser abolida na Venezuela para impedir uma guerra civil. E ele afirmou que os judeus eram agentes estrangeiros pretendendo perpetuar um falso mito do passado...

...Em 1999, Ceresole publicou um livro, Chefe, Exército, Povo: A Venezuela do Comandante Chávez, enfatizando a promessa de Chávez como uma panaceia para os males do país. Com esse livro, ele conquistou o coração do Chavismo. O tríptico do título rapidamente se tornou o mote oficial da revolução chavista".

Abutres Circundantes

Tais grandes homens que ocasionalmente são produzidos pela história e então por sua vez moldam a história, deixam um vácuo catastrófico quando morrem. Muitas vezes seus longos labores e grandes sacrifícios são desfeitos se eles forem incapazes de transmitir o que eles criam para alguém de grandeza similar. Chávez sempre insistiu que esse não seria o caso com a Venezuela. Ele não acreditava que ela estivesse centrada em sua personalidade. Certamente nós podemos esperar ver os globalistas, sionistas, e seus colaboradores venezuelanos buscando por uma abertura para atacar e trazer a Venezuela de volta para os braços da "Nova Ordem Mundial".

A Venezuela, desde a ascensão de Chávez, tem sido marcada como um daqueles estados necessitando de uma daquelas "revoluções coloridas espontâneas" do tipo que trouxe tantos estados de volta para os braços do capital internacional. Um dos lugares mais óbvios para consultar se se deseja saber que estados são marcados para a destruição pelo capital internacional é seu braço revolucionário, a pós-trotskista Dotação Nacional para a Democracia (National Endowment for Democracy: NED), que é assídua em manter uma lista de alvos atualizada, e em se gabar de seu trabalho para a revolução democrática global. Daí sob a Venezuela, a NED lista suas contribuições para projetos subversivos diversos:

"Centro para a Iniciativa Privada Internacional, $376.765 para promover a economia de livre-mercado entre empresários e trabalhadores venezuelanos. $180.000 em 'responsabilidade', para o propósito de interferir com a política interna venezuelana; $777.609 em 'educação cívica', isto é, programas especificamente tendo como alvos jovens para subversão e manipulação. $117.920 em "liberdade de informação' dirigidos a manipular jornalistas. $65.000 em 'direitos humanos' para financiar um programa para usar 'afrodescendentes em instituições públicas', e para doutrinar policiais. $39.300 para 'fortalecer instituições políticas', isto é, interferindo com o processo eleitoral, e manipulando a juventude como bloco eleitoral".

Dado que o NED tem seguido precisamente os mesmos procedimentos e estratégias de financiamento para todos os outros estados nos quais eles tem fomentado ou tentado fomentar "revoluções coloridas", o objetivo de derrubar o regime bolivariano é óbvio o suficiente, e interferência direta já fez com que o NED fosse banido da Rússia e do Irã.

Em 2010, Chávez identificou jornalistas venezuelanos sendo pagos pelo NED para agitar contra o estado. É um exemplo daquilo a que o NED eufemisticamente se refere em seu financiamento como "liberdade de informação". Em 2010, um jornalista americano descobriu que o Departamento de Estado americano estava canalizando fundos para jornalistas latinoamericanos na Bolívia, Nicarágua e Venezuela, através de frentes como o Bureau of Democracy, o Human Rights, e o Pan American Development Foundation. Ele escreveu de documentos obtidos sob o Freedom of Information Act que:

"Até agora, apenas documentos relativos à Venezuela foram liberados. Eles revelam que o PADF, colaborando com ONGs venezuelanas associadas com a oposição política do país, receberam pelo menos $700.000 para dar bolsas de jornalismo e financiar programas educacionais de jornalismo. Até agora, o Departamento de Estado tem disfarçado seu papel em financiar a mídia venezuelana, uma das armas mais poderosas da oposição contra o presidente Hugo Chávez e seu movimento bolivariano...

...Antes de 2007, o principal financiador das atividades de "promoção da democracia" americanas na Venezuela não era o Departamento de Estado mais a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID), junto com a Dotação Nacional para Democracia (NED). Mas em 2005, o financiamento ardiloso dessas organizações foi exposto pela advogada venezuelano-americana Eva Golinger em uma série de artigos, livros e palestras... Após os disfarces da USAID e da NED terem sido revelados - forçando o principal intermediário da USAID, a Development Alternatives Inc. (DAI), uma empreiteira baseada em Maryland, a fechar seu escritório em Caracas - o governo americano aparentemente buscou novos canais de financiamento, um dos quais a PADF parece ter fornecido.

...A PADF propõe usar como alvos não só as universidades na capital Caracas, mas também regionais nos 'Andes, no Centro-Leste, em Zulia e na região ocidental do país'. Em cada região, 'os parceiros locais assinarão acordos com instituições acadêmicas que ensinam comunicação social'. As revelações do financiamento americano do jornalismo venezuelano vem pouco após um relatório divulgado em maio pelo think-tank europeu de centro-direita FRIDE, que descobriu que desde 2002 os EUA gastaram por volta de 3 a 6 milhões de dólares anualmente 'em pequenos projetos com parceiros políticos e ONGs' na Venezuela, com fundos distribuídos por uma sopa alfabética de canais interligados e sempre cambiantes".

A Venezuela se situa em uma encruzilhada. O regime bolivariano fornece o nexo para o bloco latinoamericano que está se formando em aliança com a Rússia e o Irã contra a "Nova Ordem Mundial". Sua destruição é crucial para a recaptura da América Latina para os plutocratas e globalistas e agradará o Sionismo Mundial. Chávez foi a figura principal nesse novo bloco. Conseguirá a Venezuela produzir outro grande líder, ou emergirá outro de algum lugar na América Latina? Ou a região reverterá ao status colonial por trás de uma fachada de "democracia", "direitos humanos", e a economia de mercado que é considerada como seu pilar necessário?