13/07/2012

O "Projeto do Novo Século Americano", ou o Núcleo do Neoconservadorismo Americano

por Ernesto Milá



O "Projeto para o Novo Século Americano" fundou-se em 1997 por um grupo de estrategistas neoconservadores, a maioria deles residentes na capital federal. O objetivo é "concentrar esforços para preparar a nova liderança mundial dos EUA". Essa vontade não se oculta desde a primeira frase do manifesto fundacional: "a política externa e de defesa americanas está à deriva", assim pois, se trata de reivindicar "uma política reaganiana de fortalecimento militar e clareza moral". O objetivo fundamental de tal projeto é "liquidar a questão iraquiana"...porém está claro que o projeto vai muito mais longe desse objetivo conjuntural.

O nome original do grupo é The Project for the New American Century, mais conhecido nos EUA por suas siglas PNAC e cujo nome corresponde em português a "Projeto para o Novo Século Americano". A declaração fundacional está firmada por influentes figuras como Dick Cheney, Jeb Bush, Lewis Scooter Libby, Dan Quayle, Donald Rumsfeld, e Paul Wolfowitz. A maioria dos assinantes, haviam pertencido às administrações republicanas de George Bush e Ronald Reagan. Ao PNAC não agrada falar sobre si mesmo, mas quando está obrigado a fazê-lo (era impossível que passasse despercebido para os analistas minuciosos), lhe agrada se apresentar como "uma equipe de homens experientes no exercício do poder" que formam "uma organização educativa sem fins lucrativos" e cujo leitmotiv fundacional ninguém nos EUA condenaria, pois sustentam "que a liderança dos EUA é boa tanto para os EUA como para o mundo; que essa liderança requer poderio militar, energia diplomática e compromisso moral". Sua atividade pública se realiza mediante a organização de seminários e conferências e pela publicação de documentos para explicar "o que a liderança americana entranha". Assim mesmo dispõem de um sítio.

William Kristol, Presidente do PNAC

Oficialmente tendem a agrupar "vontades de cidadãos norteamericanos que apoiem uma política vigorosa de implicação internacional dos EUA". Quando alguém lhes pergunta sobre suas próximas atividades, costumam responder que estão realizando "debates úteis em torno da política externa e de defesa e sobre o papel dos EUA no mundo". Algo que, em princípio, não parece excessivamente inquietante.

Não obstante, quando sabemos que seu presidente é William Kristol, as coisas deixam de estar tão claras. Kristol era, entre outras atividades, assessor da companhia Enron que protagonizou a quebra fraudulenta mais multimilionária na história dos EUA. De Kristol é necessário recordar que era o "cérebro de Dan Quayle", vicepresidente dos EUA com Bush. Kristol destacou-se desde então como politólogo (licenciado em Harvard) ultra-conservador, professor de Ciências Políticas, atual conselheiro principal da ala neo-conservadora do Partido Republicano dos EUA, jornalista e diretor do semanário "Weekly Standard". Nesse semanário de circulação restrita e discreta, porém não por isso menos influente, Kristol dá vez a Robert Kagan, outro dos estrategistas também influentes, da administração Bush, aos quais nos referimos. Seu pai, Irving Kristol, havia sido outro proeminente conservador, editor de "Public Interest" que apoiou a campanha anticomunista do senador McCarthy. Junto com Norman Podhoretz fundaram o University Center for Rational Alternatives, organização de caráter ultraconservador. Inicialmente colaborou com os democratas, porém em 1976 se fez republicano. Após uma breve estadia do jovem Kristol no Partido Democrata, passou ao Republicano e teve um cargo de segunda linha na Administração Reagan, para ser logo o "cérebro de Dan", vicepresidente com George Bush. Quando se desmontou a administração conservadora e subiu Bill Clinton à presidência, Kristol passou à iniciativa privada. Ali, no mundo das comunicações, conheceu ao magnata Rupert Murdoch o qual financiou seu "Weekly Standard", apesar da tiragem pequena e das perdas elevadas que se mantém até hoje ainda que as perdas continuem ocorrendo. Valia a pena porque foi ganhando influência no Partido Republicano, especialmente a partir de 1994 quando publicou seu documento "Project for the Republican Future". Este trabalho e o apoio da fundação Bradley lhe conduziu à Casa Branca. Em sua qualidade de presidente do PNAC, uma das primeiras atividades de Kristol foi solicitar à Comissão de Defesa da Câmara de Representantes um aumento de 100 bilhões de dólares para reforçar a defesa dos EUA e manter sua presença no exterior, para isso é preciso - sempre segundo Kristol - aumentar o orçamento de defesa a uns 3,5% (15 a 20 bilhões de dólares) manter a capacidade nuclear dissuasiva dos EUA, aumentar em 200.000 homens as suas Forças Armadas, modernizar o arsenal norteamericano, especialmente das Forças Armadas, renunciar a alguns planos defensivos propostos pela administração Clinton (e que coincidem com as propostas da Doutrina Rumsfeld), desenvolver o programa da "Guerra das Estrelas" (escudo antimísseis), controlar os espaços aéreos e o ciberespaço.

Até o 11 de Setembro, todas essas idéias não eram levadas excessivamente a sério, nem mesmo nas altas esferas do Partido Republicano que seguia decantado pelo velho conservadorismo isolacionista moderado. A derrubada do World Trade Center fez com que os moderados ficassem desprovidos de argumentos e tivessem que ceder à nova estratégia imposta pelos cérebros neoconservadores; as "águias", a partir desse momento, dominaram na cena republicana e na administração. Os Rumsfeld, Wolfowitz, Perle, Cheney, e o próprio Kristol, passaram a constituir o núcleo duro da administração Bush. O semanário de Kristol, a rede Fox, o Instituto de Empresas Americanas presidido por Cheney e o PNAC, passaram a difundir a campanha patriótica que prosseguiu desde os atentados de 11 de Setembro, deformando a autoria do crime, lançando constantemente ameaças de falsos alarmes de novos ataques e instigando a guerra contra o Iraque e a passividade perante Israel.

É importante recordar que sem os fatos do 11 de Setembro o programa do PNAC jamais teria podido passar do estado de projeto irrealizável. São os atentados do 11 de Setembro e somente eles que permitem "adiantar as linhas" norte-americanas, primeiro ao Afeganistão e logo ao mais importante Iraque. Por que são as pessoas do PNAC as que elaboram e impõem sua linha política e seus objetivos à administração Bush, a qual, sem eles, seria na atualidade, uma administração órfã de tutelas políticas e sem outra tutela ideológica que o conservadorismo furibundo e míope dos cristãs renascidos e dos "reverendos" furibundos. Em efeito, estes últimos garante os eleitores, porém é o PNAC quem maneja o leme da administração.

Por certo, Kristol, é membro do Conselho de Relações Exteriores, CFR, assim como todos os membros proeminentes do PNAC.

Objetivo Prioritário: "Resolver" a Questão Iraquiana

O fato que motivou aos neoconservadores que fundaram o PNAC foi o fim da Segunda Guerra do Golfo no Iraque. Com o poder de Saddam Hussein debilitado, os neoconservadores acreditaram que ele seria eliminado permanentemente. Ao contrário, o anterior presidente Bush animou à oposição iraquiana a alçar-se contra o governo do Baas. Como sua rebelião foi esmagada pelo exército iraquiano, Bush ordenou ao exército dos EUA que não interviesse, erigindo, ao contrário, uma estratégia de "contenção" em relação a Saddam.

Em 1992, Paul Wolfowitz, então Vice-Secretário de Defesa, redigiu um escrito sobre o futuro da hegemonia norte-americana no mundo e como se poderia preparar para confrontar o fim da Guerra Fria. O documento, de caráter interno, tardou em se filtrar, porém, finalmente se soube que o centro das reflexões de Wolfowitz giravam em torno à possibilidade de que surgisse um rival que substituísse à URSS. Sendo assim, era preciso que os EUA estivessem em condições de identificá-lo, isolá-lo, e minimizar seu poder. Este documento, na prática, está na origem do manifesto PNAC e será recordado nos anos vindouros como o embirão da doutrina que logo Bush aplicou desde a presidência.

Em setembro de 2000 aparecia o docuento do PNAC "Reconstruindo as Defesas dos EUA: Estratégia, Forças e Recursos para um Novo Século" (a partir de agora RAD, como é conhecido nos EUA). Este documento se apoia no de Wolfowitz e desde suas primeiras linhas reconhece essa paternidade: "um anteprojeto para manter a proeminência dos EUA, excluir a emergência de uma grande potência rival e redesenhar a ordem de segurança internacional de acordo com os princípios e interesses americanos". Em síntese, o documento rechaça os cortes nos gastos de Defesa e define a missão dos EUA como uma luta contra "grandes ameaças de guerras múltiplas e simultâneas". Não há que esquecer que, nesses mesmos momentos, Rumsfeld havia elaborado o essencial do que na época se conhecia como "Doutrina Rumsfeld" e que ia em direção parecida.



A Doutrina Rumsfeld

No fundo, a chamada "Doutrina Rumsfeld" apenas é outro nome para um programa de modernização das Forças Armadas norte-americanas. Não obstante, é evidente que uma modernização em profundidade, deve se fazer em função dos objetivos estratégicos a alcançar. E nesse sentido, dita doutrina não é senão, em última instância, um programa que desenha a orientação em política externa da administração Bush. Há em dita doutrina elementos que concernem exclusivamente às Forças Armadas, porém, na medida em que dito exército é a ponta de lança de uma política expansionista de caráter mundial, estamos diante de uma obra excepcionalmente clara e que no fundo não é senão um desenvolvimento complementar e uma atualização da Doutrina Brzezinsky, aplicada à reorganização das Forças Armadas.

Desde a Segunda Guerra Mundial até praticamente nossos dias, o Atlântico tem sido considerado praticamente como um oceano anglo-saxão e o centro do comércio mundial, como antes foi o Mediterrâneo. Não em vão, inicialmente, a OTAN orientava sua atividade ao Atlântico Norte. Não obstante, Rumsfeld adverte que boa parte do crescimento econômico internacional se deslocou em direção ao Oceano Pacífico.

Nessa zona se está concentrando uma acumulação de forças produtivas sem precedentes na história. Pensemos no colosso chinês e em seu crescimento econômico sustentado já há dez anos, especialmente concentrado na Manchúria e nas zonas costeiras de seu Leste, pensemos nos chamados "tigres asiáticos" ou no desenvolvimento discreto porém constante da Austrália, na costa Oeste dos EUA, especialmente na Califórnia e no Chile, pensemos no Japão, inclusive pensemos em que o Pacífico é o oceano com maiores riquezas naturais submersas e com o menor índice de exploração, e o que teremos como resultado é que o eixo da economia mundial se está deslocando para o Pacífico e que, em qualquer caso, o crescimento demográfico daquela zona gera a possibilidade de abrir mercados promissores que, ademais, estão próximos às fontes de matérias-primas.

Porém a geografia do Pacífico, caracterizado pela dispersão dos territórios em ilhas mais ou menos pequenas, salvo Austrália e Nova Zelândia, faz com que se modifiquem os critérios militares. Em efeito, nessas zonas as grandes formações blindadas que seriam efetivas nas planícies centro-européias, resultam completamente inúteis nas ilhas do Pacífico. Ali se trata de responder ao desafio gerado por grandes distâncias e pequenas ilhas. No mais, o mais importante dessa estratégia consiste em reconhecer que após a queda da URSS, a OTAN já não pode ser a ponta de lança das Forças Armadas dos EUA e a frente da Europa Central carece de interesse militar. A um novo teatro de operações corresponde a escolha de um novo inimigo; este inimigo é a China.

Durante os primeiros meses de governo de Bush, essa doutrina foi posta em prática sistematicamente. Aumentaram-se os voos de espionagem sobre a China, até o ponto de que um dos aviões Awac acabou danificado e derrubado. Os dissidentes chineses do Falung Gong e o Dalai Lama receberam novos impulsos para predicarem por todo o mundo sobre as carências dos direitos humanos na China. Os EUA tentaram melhorar suas relações com a Rússia em face de uma aliança anti-China. A China respondeu facilitando tecnologia anti-aérea para o Iraque que evidenciou sua eficácia um mês depois que Bush prestasse seu juramento. Foi então, em um dos rotineiros bombardeios sobre a "Zona de Exclusão", quando os aviões perceberam uma maior capacidade de resposta das baterias anti-aéreas iraquianas.

O 11 de Setembro fez com que essa orientação anti-China se atenuasse, porém não completamente. A prioridade passou a ser o controle mundial dos recursos energéticos, em particular do petróleo. Porém a Doutrina Rumsfeld seguiu inspirando a política americana de defesa. A prova é que Bush, em várias ocasiões, desmentiu que a China fosse "sócio estratégico" dos EUA, mas sim que, com muito mais vigor que a União Européia, a China tenderá a ser cada vez mais um "competidor estratégico".

A estratégia de "luta antiterrorista" gerada pela administração Bush não deve nos fazer esquecer que tal luta é uma mera desculpa para adiantar as forças de intervenção norte-americanas lai onde existe um interesse estratégico.

Nesse contexto, a "luta antiterrorista" é um mero espantalho para operações táticas menores (a invasão do Afeganistão, o ataque contra o Iraque, as escaramuças com a Coréia do Norte, etc.) que cobrem o objetivo maior: a isolação, e portanto a neutralização, da China.

De fato, pode se entender a coexistência desses dois níveis de objetivos. Rumsfeld, quando iniciou sua teorização e Bush quando a aceitou, se encontraram com a oposição do complexo militar-industrial que veria minguados, em um primeiro momento, seus benefícios. Rumsfeld, em efeito, estava propondo era uma redução dos gastos de defesa, propondo armamentos muito mais simples que os utilizados até então. Enquanto que o Pentágono sustentava em fins de 2000 que seu orçamento tinha praticamente que duplicar, se pretendia prolongar a hegemonia americana, Rumsfeld propunha justamente o contrário: estabilizar o orçamento de defesa, otimizando investimentos, precisamente para alcançar o mesmo objetivo.

Em efeito, Rumsfeld desaconselhava a construção de novos porta-aviões tipo Nimitz, jóia da coroa da US Navy, com um valor de 4.000 milhões de dólares cada um e 2.000 milhões anuais em gastos de manutenção. Para o Secretário de Defesa se tratava de impulsionar a construção de pequenos barcos lança-mísseis, extremamente manobráveis e incomparavelmente mais baratos. A USAF, por sua parte, devia auto-limitar seus pedidos de caça-bombardeiros F-22 e cancelar projetos excessivamente custosos (como o Joint Strike fighter que em 2001 deveria absorver 850 milhões de dólares), manter-se com o material atual e confiar nos novos UAV (aviões não-tripulados) muito mais baratos, polivalentes e rentáveis.

Essas propostas, e as limitações orçamentárias conseguintes, eram suficientemente audazes para que o Pentágono e o complexo militar-industrial, gritassem aos céus. Foi então que se produziu o "providencial" ataque às Torres Gêmeas e se reestabeleceu a normalidade. As "necessidades da luta contra o terrorismo" abriram novas frentes bélicas: a modernização proposta por Rumsfeld se realizaria sem que o complexo militar-industrial visse minguados seus benefícios: estes procederiam do esforço bélico, não de uma maior produção das armas até agora clássicas.

Em sua formulação pública a Doutrina Rumsfeld é extremamente pessimista. Prevê que os EUA perderão progressivamente aliados, paralelamente ao aumento de seu poder. As bases que até agora puderam utilizar sem problemas excessivos, pode ser que não estejam a sua disposição em tempos vindouros. Isso implica que as Forças Armadas norte-americanas devem dispor de meios de longo alcance, tanto para trasladar tropas aos focos de conflito, como para lançar ataques com novas armas capazes de alcançar teatros de operações distantes.

A estratégia norte-americana se baseia em atrasar o máximo possível seu isolamento militar internacional impulsionando o fantasma da "luta antiterrorista" e adiantando suas linhas aos principais focos de interesse estratégico. A escusa escolhida tem a virtude de ser aproveitada por outros atores para conquistarem seus propósitos: a China aproveita para aumentar a repressão contra os muçulmanos do sudoeste do país; Aznar aproveita para lançar uma ofensiva final contra o ETA e seu desdobramento político; a Rússia utiliza a mesma mensagem para combater o independentismo checheno sem que ninguém se preocupe com a vulneração dos direitos humanos e das leis da guerra.

A desculpa do antiterrorismo será, afinal, utilizada para justificar qualquer ataque contra qualquer país do mundo; porém não durará eternamente. Alguns serviços de inteligência ocidentais e muitos observadores políticos albergam as maiores dúvidas sobre os verdadeiros inspiradores dos ataques terroristas do 11 de Setembro. Se há que buscar o criminoso entre aqueles aos quais o crime beneficia, é evidente que os atentados do 11 de Setembro somente serviram aos interesses do expansionismo americano. Enquanto a Bin Laden, mais que de um terrorista islâmico teria que se falar de um "cooperador necessário" nessa estratégia infernal que os EUA já utilizaram em Pearl Harbour, no Maine, em Tonkin, etc.

A Doutrina Rumsfeld tem a virtude de reconhecer que o atual sistema de alinças dos EUA é produto da Guerra Fria e essa já acabou, em consequência, as velhas amizades tem menos sentido no novo tempo. Daí que a administração Bush tenha situado a redefinição do papel da OTAN entre suas prioridades.

O Documento RAD

O documento RAD insistia na necessidade de que os EUA interviessem no Golfo Pérsico assegurando uma posição indiscutível e preferencial. Para isso era preciso finalizar o trabalho realizado em 1989-90 no Iraque e derrubar Saddam Hussein: "Os EUA buscaram durante décadas desempenhar um papel mais permanente na segurança regional do Golfo. Enquanto que o conflito não resolvido com o Iraque proporciona a justificativa imediata, a necessidade de uma presença importante de forças americanas no Golfo transcende a questão do regime de Saddam Hussein". Voltava-se a insistir no escrito por Wolfowitz há oito anos: "Na atualidade os EUA não possuem rival em escala global. A grande estratégia dos EUA deve perseguir a preservação e a extensão dessa vantajosa posição durante tanto tempo quanto seja possível". Porém também se reuniam algumas considerações sobre armamentos novos já realizadas por Rumsfeld em seus documentos; em efeito, se pediam "Novos métodos de ataque - eletrônicos, não-letais, biológicos - serão mais extensamente possíveis; os combates igualmente terão lugar em novas dimensões: pelo espaço, pelo ciberespaço e quiçá através do mundo dos micróbios; formas avançadas de guerra biológica que possam atacar genótipos concretos podem fazer do terror da guerra biológica uma ferramenta politicamente útil".

O mais curioso desse documento é o "digo-te que não me digas" que ele inclui inopinadamente. Em efeito, o documento RAD, bruscamente alude a que a transformação estratégica dos EUA será difícil e "estará carente de algum fato catastrófico e catalizado, como um novo Pearl Harbour". Porque para a administração Bush os atentados de 11 de Setembro foram providenciais...tão providenciais que se diria que foram buscados por alguém próximo à administração. De fato, a Comissão de Investigação estabeleceu que a Administração Bush não fez tudo o possível para evitá-los. O advogado de uma das vítimas, de sua parte, apresentou em setembro de 2004 uma denúncia na qual considerava George W. Bush e Condoleeza Rice como mandatários do crime. Seja como for, não se pode dizer que a investigação sobre o 11 de Setembro tenha chegado muito mais longe do que foi a investigação sobre o assassinato de Kennedy. E, pleo demais, os aspectos escrutos todavia não esclarecidos do crime e da investigação posterior, assim como a irracional insistência de que Bin Laden estava refugiado no Afeganistão (o que justificava uma ação de rangers ou marines contra o refúgio de Bin Laden, porém não o bombardeio de todo um povo) ou que mantinha contatos com Saddam Hussein (algo absolutamente falso), geram sombras extremamente densas sobre o crime. Após os atentados, em efeito, o PNAC urgiu em outro documento ao Presidente Bush para que derrubasse Saddam Hussein.



As Linhas de Trabalho do PNAC

No ano 2000, Kristol e 27 ex-funcionários dos Presidentes Reagan e Bush (pai) elaboraram o informe "Reconstruir as Defesas dos EUA" onde se propõem medidas para estabilizar a hegemonia norte-americana no planeta. O documento inspirou o plano de Estratégia de Segurança Internacional que George W. Bush apresentou poucas semanas depois. Dos 27 redatores do informe, seis eram também altos funcionários da administração (Wolfowitz, Eliot Cohen, conselheiro político de Donald Rumsfeld; Scooter Libby, chefe de assessores de Dick Cheney; Dov Zekheim, sub-secretário de Defesa; Stephen Cambone, alto funcionário de Defesa).

O projeto para a criação de uma "Pax Global Americana", revelado pelo Sunday Herald, mostra que o gabinete de Bush pretendia tomar o controle militar da região do Golfo, e isso independentemente de que Saddam Hussein estivesse no poder. Diz: "Os Estados Unidos tem estado durante décadas representar um papel mais permanente na segurança regional do Golfo. Apesar de que o conflito todavia não resolvido com o Iraque oferece uma justificativa imediata, a necessidade de uma presença substancial de Forças Armadas americanas no Golfo transcende o tema do regime de Saddam Hussein". Essa "grande estratégia americana" deve ser posta em marcha "tão logo seja possível no futuro", diz o informe. Acrescenta também que a "missão fundamental" dos EUA consiste em "declarar e ganhar de forma decisiva múltiplas guerras simultâneas". Isso último é irrelevante...o importante é a insistência em que o PNAC deverá se colocar em prática "tão logo seja possível". Até o 11 de Setembro isso não era possível. A partir de então, foi imparável. É impensável que os que desenharam os atentados de 11 de Setembro não calibraram os conteúdos do PNAC e ignoraram que, precisamente, sua ação serviria como a justificativa esperada para aplicar o projeto "tão logo seja possível".

O informe descreve as Forças Armadas americanas no estrangeiro como "a cavalaria da nova fronteira americana". Wolfowitz e Libby, especialmente, não podiam ignorar que a União Européia e a Rússia em vias de reconstrução, supunham desvantagens para a dominação norte-americana, daí que propuseram que os EUA deveriam "impedir que as nações industriais desenvolvidas ponham em dúvida nossa liderança ou inclusive aspirem a um papel regional ou global mais importante". Para isso era preciso reforçar a aliança com países europeus (especialmente com Grã-Bretanha e em segundo lugar com Aznar na Espanha); eliminar à ONU de qualquer iniciativa de paz no mundo que, a partir de agora, deveria ser proposta e liderada pelos EUA; manter a presença no Golfo Pérsico ainda apesar de que Saddam Hussein fosse derrotado ou desaparecesse; logo definem o Irã como novo inimigo de substituição na região. E, finalmente terminar mencionando a China como rival geopolítico, o que os leva a propor o aumento da presença no sudeste asiático para conduzir a que o "poder americano e de seus aliados estimule o processo de democratização na China"; é nesse documento em que se cria a ficção de que o Iraque possui armas de destruição em massa e no qual se alerta sobre a necessidade de criar "forças espaciais americanas", para o domínio do espaço e o controle total do ciberespaço, com vistas a impedir que os "inimigos" utilizem a Internet contra os EUA. Assim mesmo, o documento define o âmbito do que logo popularizará Bush com o nome de "Eixo do Mal" (Coréia do Norte, Líbia, Síria e Irã).

A Nomenclatura da Elite Neoconservadora

O documento fundacional do PNAC, foi assinado por uma equipe de neoconservadores do entorno petrolífero dos Bush e do CFR (cujo presidente é precisamente George H. W. Bush sênior): Jeb Bush (irmão de George W., governador da Flórida onde se decidiu a vitória eleitoral de seu irmão), Dick Cheney (vice-presidente), Gary Bauer, William J. Bennett, Eliot A. Cohen (CFR), Midge Decter, Paula Dobriansky (CFR e Comissão Trilateral), Steve Forbes (dono da revista Forbes e ex-empregador de Domingo Cavallo), Aaron Louis Friedberg (CFR), Francis Fukuyama (CFR), Frank Gaffney, Fred C. Ikle (CFR), Donald Kagan (CFR), Zalmay Khalilzad (CFR), I. Lewis Libby (CFR), Norman Podhoretz (CFR), Dan Quayle (ex-vicepresidente de George Bush pai), Donald Rumsfeld (CFR; atual secretário de Defesa), Paul Wolfowitz (CFR, atual sub-secretário de Defesa), Peter W. Rodman (CFR), Stephen P. Rosen (CFR), Henry S. Rowen (CFR), Vin Weber (CFR), George Weigel (CFR) e Douglas Feith (CFR). Observe-se que a maior parte desses nomes está vinculado ao núcleo straussiano. De outra parte, 25% do total é composto de antigos trotskistas, a maioria, straussianos.

Dentro do marxismo, o trotskismo é um gênero cujos militantes sempre tiveram traços particularmente definidos e completamente distintos em relação a outras seitas igualmente marxistas (maoístas, marxistas revolucionários, marxistas-leninistas, castro-guevaristas, marxistas cristãos, revisionistas, eurocomunistas, etc.). Em efeito, os trotskistas sempre se caracterizaram por seus estudos milimétricos sobre situações políticas concretas. Sempre tiveram uma tendência particular a se cindirem em capelas até quase o infinito, e tem insistido especialmente no exame das conjunturas internacionais e...em sua maior parte, seus dirigentes tem sido de origem judia, ainda que completamente secularizados. No mais, o trotskismo, é hoje um movimento político muito minoritário, composto por crianças extremamente jovens e uns quantos gurus já na senilidade ou prestes a alcançá-la. E o resto? O percurso desses militantes tem sido sempre muito similar: enquanto trotskistas, sua atitude era irreconciliável com os partidos comunistas ortodoxos, tidos como stalinistas ou neo-stalinistas. Isso os levou, ou bem a se infiltrarem nos partidos socialistas (Lionel Jospin, por exemplo, era um antigo trotskista que chegou a chefe de governo, após entrar no PS como infiltrado) ou bem a adotar posturas, primeiro anti-comunistas e logo...liberais. Há entre os antigos trotskistas uma espécie de inércia que os leva sempre a aceitar o destino a que os conduzem suas reflexões ideológicas...sempre e quando se adaptem a seus gostos ou interesses pessoais. De fato, frequentemente, os trotskistas tendem a ideologizar qualquer tipo de comportamento que adotem.

Na Espanha existirem uns 4.000 militantes trotskistas nos anos 70 que se foram cindindo progressivamente em distintas facções rivais até desaparecerem quase por completo. Onde estão hoje os antigos trotskistas? Em todas as partes, há avido deles no CDS, no PSOE, no PP, e no IU, nas candidaturas de extrema-esquerda, e inclusivem chegaram a aparecer nas filas de extrema-direita. Nos EUA ocorreu outro tanto: o trotskismo norte-americano formado ao redor de Hansens e o Secretariado da IV Internacional, tem nutrido de militantes todas as correntes políticas norte-americanas: desde os sectários de extrema-direita agrupados ao redor de Lyndon Larouche, até as convenções do Partido Democrata, passando, obviamente, pelos grupos neoconservadores e, em concreto, pelo PNAC. Tudo isso fez dizer Michael Lind que "os intelectuais que mais defendem o neoconservadorismo tem suas raízes na esquerda, não na direita".

Uns 30% dos membros iniciais do PNAC, corresponde a antigos trotskistas. Porém há outra característica que já citamos do trotskismo: boa parte de seus quadros políticos são de origem judia. Isso se cumpre também no PNAC e entre os círculos straussianos. Evidentemente há cristãos...porém se trata de pessoas que não questionam as atrocidades cometidas por Israel nos territórios ocupados da Palestina e que, em qualquer caso, apoiam o sionismo e em especial os partidos da direita israelita, com Ariel Sharon à cabeça. Tendo isso em conta se pode compreender por que pessoas significativas do PNAC estiveram sempre a favor de que Israel e em concreto o governo de Benjamin Netanyahu, rompessem os acordos de paz de Campo David. Tal era a orientação que Richard Perle aconselhou ao primeiro-ministro judeu em 1996: "ruptura limpa". Perle na mesma comunicação a Netanyahu reconhecia que tal ruptura era tanto mais obrigada desde o momento em que a administração norte-americana reafirmara sua vontade de esmagar Saddam Hussein e, assim, garantir a segurança de Israel. Para o PNAC a lealdade frente aos EUA se complementa por uma lealdade em relação ao Estado de Israel...lealdade não isenta de interesses muito materiais posto que alguns como Perle e Wolfowitz representam interesses de companhias estatais judias (frequentemente de armamento) dentro dos EUA. Porém, ademais, isso enlaça com o eixo central de nosso trabalho: se trata de um setor convicto de que Israel era o "povo eleito" do Antigo Testamento e os EUA são o "povo eleito da modernidade". A um corresponde velar pela segurança do outro. Para ambos o Antigo Testamento é um texto que explica como será o mundo futuro. Daí que valha a pena seguir suas indicações, especialmente quando alude aos sinais do Apocalipse e à Segunda Vinda de Cristo que reconciliará judeus e cristãos e operará a conversão de Israel. É importante destacar, como já o fizemos em outros lugares, que a solidariedade da Administração Bush por Israel vai mais além de qualquer racionalidade e se trata de uma conclusão à qual levam distintos enfoques: de um lado os interesses estratégicos (Israel é o grande aliado dos EUA no Oriente Médio), porém também e acima de tudo os laços ideológicos e místicos que unem à extrema-direita israelense com a direita neoconservadora norte-americana.



A Rede Neoconservadora

Dinheiro não falta. A Fundação Bradley constitui o suporte do PNAC através do New Citizenship Project, Inc. O PNAC tem sua sede em Washington, no edifício do Instituto de Empresa Americano (American Enterprise Institute), outro think-tank conservador. De fato entre ambas organizações há uma multitude de vínculos e personagens como Perle, que pertencem a ambos.

Assim mesmo, os membros do PNAC costumam estar também aderidos a outros grupos de pressão neoconservadores: o Hudson Institude, o Center for Security Policy, o Washington Institute for Near East Policy, o Middle East Forum, e o Jewish Institute for National Security Affairs. Porém, não nos enganoemos, apesar de que todos estes núcleos de poder estejam entrelaçados entre si e aportem a totalidade dos quadros da administração Bush, não se trata de grupos particularmente numerosos. São uma elite completamente desvinculada do americano médio que ignora seus postulados na medida em que os grandes meios de comunicação jamais aludem à existência desses núcleos intelectuais. Agora bem, estes núcleos estão também vinculados a uma parte do poder econômico e financeiro dos EUA. É, ademais, lógico que petroleiros, dirigentes do complexo militar-industrial, pensem em termos estratégicos e se vinculem a estes núcleos neoconservadores, como antes, os membros de organizações como o CFR ou a Comissão Trilateral, o faziam com núcleos fabianos e democratas.

É previsível que no futuro se produzam viradas importantes na política norte-americana. Já dissemos que nem todos os republicanos compartilham dos pontos de vista do clã straussiano, neoconservador e belicista. De fato, um setor do Partido Republicano, se caráter moderado, tem denunciado, ainda que timidamente, os riscos de prescindir dos aliados nas iniciativas de política exterior, e especialmente, sobre a periculosidade do déficit interior. Recordam que a OTAN todavia existe e que os EUA são altamente tributários das importações de manufaturas européias. Advertem sobre o rechaço que provocam as aventuras militares entre os europeus e advogam pelo "uso racional" da força. Henry Kissinger, membro dessa tendência, segue propondo um equilíbrio nuclear, enquanto que outros representantes dentro da administração Bush, são James Baker, Richard Armitage, Anthony Zinni, e Colin Powell.

Não há que esquecer que os EUA estão ligados ao antigo "mundo livre" por distintos tratados: ademais da OTAN, existe ainda que em vida larvar, o Tratado de Defesa Asiático ou o Tratado Interamericano do Rio, sem esquecer que o aventureirismo da administração Bush está deixando inoperantes as Nações Unidas.

Quando Donald Rumsfeld analizava no verão de 2002 o desenvolvimento da campanha afegã - não sem certos tons épicos - aproveitava para redefinir as prioridades da política norte-americana coincidindo em tudo com os mentros do PNAC, se bem se acrescentavam dois pontos, os finais, que insistiam desusadamente na proteção das redes de informação e na utilização das tecnologias de ponta para alcançar maior efetividade nos ataques das Forças Armadas. Esse ano aumentou o orçamento militar em todas as suas partes: defesa interior, armamento, investigação, presença no exterior, etc. Porém a principal novidade que se desprendeu da análise de Rumsfeld foi a coordenação de todos os serviços de informação e inteligência em uma só estrutura. Tal era a conclusão que Rumsfeld dava a seu artigo sobre o Afeganistão: as guerras precisam de um grande esforço de inteligência e portanto há que centralizar essas tarefas, as novas tecnologias da comunicação devem ser integradas nas Forças Armadas de maneira prioritária, a defesa do território metropolitano norte-americano é fundamental, o transporte de tropas é decisivo e, finalmente, como concessão ao sistema democrático, insista em que "O povo dos EUA deverá ser sempre plenamente informado dessas novas políticas e estratégias".

Porém Rumsfeld silencia muitas coisas, sem dúvida, as mais importantes: silencia que o terrorismo islâmico não é um risco para a segurança nem para a estabilidade mundial, tão somente um obstáculo anti-democrático em determinados países do mundo islâmico, concretamente na Arábia Saudita e no Paquistão, e em muita menor medida na Argélia, enquanto que na Chechênia vive seus últimos suspiros e em Bósnia-Kosovo está, senão desmantelado, ao menos apaziguado, assim como ocorre no Irã. Na Ásia Central se vive o fracasso do Islã radicalizado. Para concluir: quando se produz o ataque de 11 de Setembro, o Islã fundamentalista vive uma etapa de regressão. O pouco que se examine cada atentado atribuído ao "terrorismo internacional" se percebe com clareza que não existe uma direção terrorista universal, senão que cada atentado responde a circunstâncias locais muito concretas... ou muito misteriosas para que seja possível buscar um responsável universal. Rumsfeld silencia também que aos EUA será muito difícil reconstruir sua rede de alianças, especialmente com a Europa, território no qual se tem comprovado que os custos eleitorais das opções pró-americanas são de tal magnitude que tornam impensável pensar em que algum governo europeu voltará a repetir viradas pró-americanas como o de Aznar. Sem esquecer que já não é a Europa que precisa dos EUA para se proteger da URSS - a União Européia vive um idílio com o espaço russo - senão são os EUA que precisam da União Europeia porque é daí que procede o essencial de manufaturas que alimentam seu mercado consumidor interno. Falta dizer, finalmente, que a partir do ataque contra o Afeganistão resultou absolutamente evidente que os EUA não admitiam de seus aliados outra atitude que não fosse o submetimento a seu mando único, e que a campanha do Afeganistão demonstrou até que ponto os "impérios" não tem "aliados" senão "súditos".


11/07/2012

A Batalha do Ourique



Origem mística de Portugal e aclamação de Afonso Henriques como rei; adopção dos cinco escudos como armas nacionais:

Mas já o príncipe Afonso aparelhava
o Lusitano exército ditoso,
contra o Mouro que as terras habitava
de além do claro Tejo deleitoso;
já no campo de Ourique se assentava
o arraial soberbo e belicoso,
defronte do inimigo Sarraceno,
posto que em força e gente tão pequeno.

Em nenhua outra cousa confiado,
senão no sumo Deus que o Céu regia,
que tão pouco era o povo baptizado,
que, para um só, cem mouros haveria.
Julga qualquer juízo sossegado
por mais temeridade que ousadia
cometer um tamanho ajuntamento,
que para um cavaleiro houvesse cento.

Cinco reis mouros são os inimigos,
dos quais o principal Ismar se chama;
todos exprimentados nos perigos
da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
Seguem guerreiras damas seus amigos,
imitando a formosa e forte Dama
de quem tanto os Troianos se ajudaram,
e as que o Termodonte já gostaram.

A matutina luz, serena e fria,
as estrelas do polo já apartava,
quando na Cruz o Filho de Maria,
amostrando-se a Afonso, o animava.
Ele, adorando Quem lhe aparecia,
na Fé todo inflamado assim gritava:
"Aos Infiéis, Senhor, aos Infiéis,
e não a mim, que creio o que podeis!"

Com tal milagre os ânimos da Gente
Portuguesa inflamados, levantavam
por seu Rei natural este excelente
Príncipe, que do peito tanto amavam;
e diante do exército potente
dos imigos, gritando, o céu tocavam,
dizendo em alta voz: "Real, real,
por Afonso, alto Rei de Portugal!"

Destarte o Mouro, atónito e torvado,
toma sem tento as armas mui depressa;
não foge, mas espera confiado,
e o ginete belígero arremessa.
O Português o encontra denodado,
pelos peitos as lanças lhe atravessa;
uns caem meios mortos e outros vão
a ajuda convocando do Alcorão.

Cabeças pelo campo vão saltando,
braços, pernas, sem dono e sem sentido,
e doutros as entranhas palpitando,
Pálida a cor, o gesto amortecido.
Já perde o campo o exército nefando;
correm rios do sangue desparzido,
com que também do campo a cor se perde,
tornado carmesim, de branco e verde.

Já fica vencedor o Lusitano,
recolhendo os troféus e presa rica;
desbaratado e roto o Mauro Hispano,
três dias o grão Rei no campo fica.
Aqui pinta no branco escudo ufano,
que agora esta vitória certifica,
cinco escudos azuis esclarecidos,
em sinal destes cinco Reis vencidos.

In Os Lusíadas, de Luís de Camões, Canto III, estâncias 42-53

10/07/2012

Niilismo e Sentido da Vida em Nietzsche

por Julius Evola



Entre os muitos livros escritos sobre Nietzsche, aquele de Robert Reininger, traduzido aqui, merece ser indicado, por duas razões.

A primeira razão é que no âmago de seu livro estão as soluções para os problemas do sentido de existência que Nietzsche tentou dar no sofrimento de seu pensamento, de sua própria existência. O autor afirma corretamente que este problema, e o problema bastante ligado da linha de orientação a ser escolhida para a própria existência, isto é, da ética, são centrais para Nietzsche, já que várias posições teóricas que ele adota, que diferem bastante umas das outras, possuem apenas um caráter subordinado. Elas servem, por assim dizer, experimentalmente; uma vez adotadas, experimentadas, e testadas em relação a esse problema, elas foram progressivamente deixadas para trás - como demonstrado por Reininger - em contínuas "superações", de uma maneira reminiscente a de "uma chama que se move para frente sem deixar nada para trás".

O segundo ponto de interessa, no exame do pensamento nietzscheano a partir do ângulo particular escolhido por Reininger, é a importância dada ao "valor situacional" possuído por uma problemática que não deixou de ser tópica. Reininger diz corretamente que a figura de Nietzsche também possui o valor de um símbolo; sua pessoa encarna também uma causa; "É pela causa do homem moderno que se luta aqui: o homem não mais possui raízes no mundo sagrado da tradição, oscilando entre os picos de civilização e os abismos de barbarismo, buscando por si mesmo; tentando, isto é, criar um senso satisfatóri ode propósito para uma existência completamente abandonada a si mesma". O problema assume forma como o do homem na época do niilismo, do "grau zero de todos os valores", da era na qual "Deus está morto", todos os suportes externos desaparecem, e o "deserto cresce".

Nietzsche havia previsto o "niilismo europeu", e o considerou como a conclusão fatal do pensamento moderno, tendo contribuído para sua finalização, por meio de sua crítica de todos os valores, ideais e ídolos. O ponto fundamental porém é que, para Nietzsche, este não é o ponto final, mas sim algo a ser deixado para trás, uma vez que haja servido a uma função especial e positiva. De fato, Nietzsche considerou a si mesmo como o "primeiro perfeito niilista da Europa, que, porém, mesmo agora já viveu a totalidade do niilismo, até seu fim, deixando-o para trás, fora de si mesmo". A problemática de Nietzsche é portanto aquela da era pós-niilista. Ela aborda o homem que, tendo passado sem medo sobre um abismo, sente que não deve voltar atrás. (Portanto, observamos de passagem, aqueles que, com base em algumas oscilações nas posições de Nietzsche, sempre tão saturadas de um poder emocional intenso e incansável, tem fantasiado sobre uma possível conversão religiosa, ou falando diretamente, cristã, tem estado no caminho completamente equivocado). A função positiva do niilismo reside no teste perigoso da liberação completa do indivíduo; se ele não quiser cair, ele tem que encontrar, em si mesmo apenas, um ponto firme, e se fazer capaz de uma afirmação absoluta. Portanto, o niilismo é "instrumentalizado", à serviço da ascensão de um tipo superior e de uma nova moralidade. Por meio de sua destrutividade espiritual, ele cria uma situação de desafio. E é precisamente aqui que, por meio do duro conflito, um sentido absoluto de existência é buscado e encontrado, e, para além do homem, o "super-homem" é trazido à existência.

Valerá a pena olhar de modo mais aproximado para esta posição, porque a situação suposta, com a lucidez de um visionário, por Nietzsche, não é efetivamente diferente daquela da era atual, dado que a profunda crise existencial, que a caracteriza, ainda não foi superada.

Como Reininger demonstra, o ponto de máximo perigo é ultrapassado com sucesso apenas se a lei que o homem superior intacto estabelece para si mesmo assume o mesmo caráter de incondicionalidade que era derivado previamente de algo externo e transcendente - ainda que se possua liberdade e o "além do bem e do mal" como sua base, e seja expressada não mais como um "tu deves", mas como um "eu quero". Nessa conexão, Reininger não está errado em notar a analogia aparentemente paradoxal entre a ética de Nietzsche aquela de Kant: ambas são "moralidades absolutas". Ademais, o próprio Nietzsche afirmou claramente que ele havia simplesmente desmascarado as realidades decadentes, falsas, enganosas, "demasiado humanas" que se ocultavam por trás de toda moralidade comum de modo a abrir caminho para uma moralidade superior, e opor essa "grande moralidade" à "pequena moralidade" do rebanho, das mentes ansiosas, dependentes de bengalas e fantasmas. Portanto, o "imoralismo" exibido e proclamado por Nietzsche tão frequentemente e com tanto gosto é meramente dirigido a "escandalizar o burguês".

Portanto, se quisermos apreender os aspectos positivos e essenciais da solução de Nietzsche, nós não devemos nos deixar desviar por todas aquelas descrições dela, quase sempre ditadas por um "animus" controverso, no qual apenas o individualismo e uma glorificação da "Vida" como pura imanência parecem proeminentes. Em verdade, o individualismo de Nietzsche é associado com uma estrita disciplina interior, quase com um ascetismo viril, ao invés de religiosamente auto-mortificante. Reininger não é o único autor a ter percebido que, nesse sentido, a afirmação da vida de Nietzsche possui mais características em comum com a "negação" dela de Schopenhauer, do que com uma identificação passiva e gananciosa dela. Não apenas a "vontade-de-vida" é transformada em "vontade-de-poder", mas também, um princípio soberano é sempre postulado que se distancia dos instintos, e que despreza, não apenas o hedonismo, mas também o eudemonismo (a doutrina que busca a felicidade ao invés do mero prazer). E mesmo quando o "dionisianismo" é exaltado, quando é revindicado um direito "para além do bem e do mal", quando a abertura para toda experiência "pagã" interessante é defendida, rejeitando como covardia toda inibição das paixões e impulsos das profundezas, essa dimensão superior é sempre pressuposta. É o pré-requisito essencial para aquele que é capaz de permanecer de pé e criar valores em meio ao "deserto que cresce", já que ele garante que esse deserto não assume controle sobre ele.

Por essa mesma razão, não se deve cometer o erro de ver a glorificação nietzscheana da "Vida" como mero naturalismo. Se, como foi dito, a posição de Nietzsche envolve uma afirmação absoluta, para além do puro ser instintivo, é óbvio que, no conceito de "Vida", mesmo que se queira mantê-lo como central, algo que a transcende é implicitamente introduzido, ou, se você preferir, que, na "Vida", exaltada contra cada incompreendidade "Pós-Vida", deve-se admitir não apenas a própria coisa, mas também um poder que transccende e o domina. Infelizmente, Nietzsche não encontrou seu próprio caminho para a percepção da "transcendência" que se operava nele, para seu reconhecimento e incorporação dela em seu ideal, e essa talvez seja uma causa de sua tragédia e colapso final.



Uma vez que este equívoco duplo frequente, envolvendo o individualismo por um lado, e o conceito de "Vida" por outro, é removido, nós pensamos que pode ser interessante ressaltar, brevemente, a distância que separa a orientação nietzscheana essencial da atmosfera de anarquismo que se prolifera nesses dias em muitas das correntes que fluem entre as estruturas rachadas de um mundo profanado e de uma absurda sociedade "contestada". Na verdade, esse anarquismo, seja individualista ou coletivista, se reduz a uma revolta confusa, irracional e desprovida de centro. A intolerância indiscriminada por todas as disciplinas e laços, ditada somente pelos impulsos da parte instintiva e natural do indivíduo, que não quer reconhecer qualquer coisa para além de si mesmo, é muito claramente a característica predominante nesses movimentos, para além das várias razões ou pretextos dados pelo "sistema" ou pelas estruturas do mundo de tempos recentes. Assim, é tão significativo quanto natural que, nesses movimentos hodiernos, Nietzsche seja absolutamente ignorado, ainda que ele tenha sido o primeiro e maior dos rebeldes. O fato é que, no material humano, não há nada que corresponda ao pensamento de Nietzsche; as verdadeiras afinidades eletivas - plebéias - dessas movimentos são reveladas em suas frequentes colusões com o marxismo e seus subprodutos, em sua fórmula de pacifismo histérico e "integracionismo" absurdo, e em sua consequente colusão com o "terceiro mundo" e as mais baixas profundezas da sociedade e da raça, enquanto que o limite constituído por intelectuais semi-letrados aparece em uma ampliação confusa no valor atribuído a pensadores medíocres tais como Marcuse, que se contenta com suas posições mais ou menos legítimas de rejeição (que não são de importância central para uma verdadeira revolta), não percebendo a vacuidade e a extrema trivialidade utópico-idílica da alternativa que ele propõe, presseguindo como ele faz a partir de uma sociologia aberrante massivamente dependente de Freud. Nietzsche não pertence de modo algum a esse mundo, como é instintivamente aparente. Por causa de seu caráter aristocrático e exclusivista, seu alto nível de engajamento, e sua estatura interior que ele implica, o caminho nietzscheano seria objeto de rejeição específica por todos esses movimentos de "protesto", que bem pode ser definidos em termos de uma "revolução do vácuo", se sua relação exata com a mais séria problemática de uma era niilista de dissolução foi até mesmo percebida.

Para tornar isso mais claro, é necessário explorar ainda mais os termos nos quais a ética de Nietzsche tem tentado se definir.

Se nos confinássemos rigorosamente ao princípio da afirmação pura de uma "Vida livre", é claro que qualquer posição avaliativa seria absurda. Não haveria fundação a partir da qual avaliar, e defender, por exemplo, as formas de uma vida plena e ascendente, desdobrando uma "vontade-de-poder", como contra aquelas da direção oposta, "decadente", e em particular aqueles que, segundo Nietzsche, solaparam civilizações "sadias" e "superiores" por meio de sua moralidade. Elas, afinal, também são "vida", e "para além do bem e do mal", parte de seu fluir, sua criação e destruição, e seria absurdo assumir uma posição, que porém Nietzsche continuamente e veementemente faz, evidentemente com referência a um fator superior.

Se esse fator, ao qual a ética de Nietzsche deve sua marca específica, é buscado, ele aparece condicionado por sua individualidade. O princípio, em primeira instância, é  a afirmação da própria natureza. Essa se torna a única norma, o "imperativo categórico" autônomo: ser si próprio, se tornar si próprio. A concepção "realista" peculiar à última fase do pensamento de Nietzsche pode então agir como fundamento teórico, e, não tivesse ocorrido o trágico obscurecimento de sua mente, ela muito provavelmente teria se desenvolvido em uma eliminação dos aspectos biológicos e "naturalísticos" crus que continuam a arranhá-lo (um defeito de Reininger é o de se apegar em excesso a esses aspectos). Em essência, essa é uma visão de um mundo despido de tudo meramente humano, "idealístico", irreal, e finalístico que foi banhado nele - mas, entender os sentimentos de Nietzsche em relação a isso, o que ele escreveu entre os picos das montanhas, sobre a purea das "forças livres ainda não manchadas pelo espírito", é sugestivo. Como após uma catarse, apenas o "real" ("natureza") permanece, na forma única do "ser" e do "poder".

Considerado esse background, que, de certa forma, confirma os temas niilistas, o indivíduo pode apenas encontrar apoio e raiz naquilo que ele é em sua própria natureza profunda, em seu "ser", sua identidade imutável. Fidelidade a esse ser, afirmação dele, é portanto o que dá conteúdo à moralidade nietzscheana, como sua orientação geral, por assim dizer. É a primeira terra seca, na qual, porém, Nietzsche não se detém, já que, aqui, basicamente, a mesma indeterminação que encontramos em relação a "Vida" aparece novamente. Sob o signo do puro "ser si próprio", deve-se ser capaz de assumir, de querer, de afirmar absolutamente o que se é, mesmo quando, em sua própria natureza, não há nada que corresponde ao ideal positivo do "super-homem" anunciado por nosso filósofo, quando a própria vida e o próprio destino expressam corrupção, perversidade, declínio, ignomínia. É por isso que, ao apegar-se ao princípio supracitado, o único valor ético restante seria o da "autenticidade". Finalmente, teria que ser dito que aquele que, sendo "inferior" por natureza, é ele próprio, possui a coragem de ser absolutamente si próprio, seria superior àquele que gostaria de desenvolver uma "superioridade" que não é enraizada em seu ser autêntico.

Se, mais recentemente, alguns existencialistas tem estado contentes em pôr fim a essas posições, eles foram fatalmente deixados para trás por Nietzsche. Quando ele faz de si mesmo o propagador imperioso de uma nova moralidade, ele indica o que procede de uma natureza particular, uma "natureza nobre", projetando o que ele mesmo sentiu que ele era, ou aspirava ser. Nos deparamos, portanto, com uma moralidade de "orgulho" (oposta, como indicado por Reininger, a uma de amor ou medo) e de "distinção"; com uma reafirmação da característica fundamental da qual nós já façamos, aquela de uma personalidade soberana tão distante do "rebanho" quanto da parte meramente natural de si mesmo. O que Nietzsche nos apresenta, de novo e de novo, é o tipo para o qual é natural ser resoluto, auto-confiante, disposto a assumir cada responsabilidade, direto, resistente a tudo que é grosseiro e "demasiado humano", duro, inflexível certamente (e em relação a si mesmo em primeiro lugar), mas também capaz de um jeito espontâneo da "virtude que dá a si mesma", que brota da atitude interior e da superabundância da mente, e não de um sentimentalismo fraco; alguém que não busca se esquivar de nada que possa nos colocar à prova, que permanece intocado pelos aspectos trágicos, escuros e absurdos de sua existência, graças à lei positiva e independente que lhe dita seu ser.

Como é superabundantemente claro, a ética nietzcheana pós-niilista de auto-afirmação pura e fidelidade a si próprio leva diretamente ou indiretamente a um ideal desse tipo. A partir da lei genética de "ser si próprio", é essa lei precisa que portanto se diferencia em Nietzsche, e dá a marca específica a sua moralidade. É nesses termos - como notado por Reininger - que o tipo do "super-homem positivo" deve ser compreendido, não levando seriamente as referências polêmicas sobre certas figuras históricas, ou a famosa "besta loira", deixando de lado a exaltação da força pura e da vontade de poder amorfa (um poder sobre o qual se deve perguntar: o que fazer com ele? - como Zaratustra pergunta a alguém que aspira se libertar de todos os laços: livre, para que?), deixando de lado também o super-homem barroco do estilo d'Annunziano, os resultados fomentados da pomposidade de um suposto Herrenvolk, factualmente distante de qualquer virtude aristocrática, e as fraquezas de um incompreendido racismo biologicista.

Se nós deixarmos de lado as sobras e restos do "Nietzsche menos que óptimo" - o que muitas vezes, infelizmente, despertou a maior ressonância - é nos termos acima descritos que aparece o "super-homem positivo", o homem que permanece de pe´, mesmo, e acima de tudo, em um mundo niilista, devastado, absurdo, sem deuses. O "super-homem" aparece portanto como um ideal individual de elite, não como um estado humano "evolucionário" hipotético, geral, futuro, a ser tornado quase objeto de uma cultura programada, como foi sugerido por outro dos delírios de nosso filósofo, em uma certa fase de seu pensamento.

Como o leitor de seu livro verá, Reininger traz esses conteúdos à luz ao separar o essencial do acessório, través dos contorcionismos do pensamento de Nietzsche, mostrando assim a efetiva contribuição positiva que o "imoralista" Nietzsche deu para a ética. De nossa parte, nós estamos convencidos de que o que Nietzsche tem para oferecer hoje nessa conexão não foi de modo algum desacreditado na luta por um sentido de existência, desde que se evite aquele colapso, aquela "revolução do vácuo", e aquele anarquismo plebeu, inferior, o qual, como foi mencionado, a profunda crise do mundo moderno gerou em tal quantidade. Em realidade, hoje, dada uma discriminação e adaptação adequadas, poucas éticas oferecem tantas idéiasi mportantes para os estudantes da problemática pós-niilista, que rejeitou qualquer caminho à retaguarda, e encara o teste de uma nova e perigosa liberdade. Pode-se até mesmo considerá-la como pedra de toque para a própria natureza, para a própria vocação autêntica.

Será evidente quanto respeito, compreensão, e sentido de medida o autor deste livro trouxe À consideração da pessoa e ao pensamento de Nietzsche. Possuindo uma posição como professor de filosofia na Universidade de Viena, sua exposição é mais próxima a um estudo filosófico do que ao estilo atual de ensaio tópico. Nós reduzimos em nossa edição a dificuldade que o uso de certos termos filosóficos podem constituir para uma certa categoria de leitores, explicando tais termos ou pelo uso de equivalentes.

07/07/2012

O Império Do Fim - Uma Breve Introdução a Jean Parvulesco



Jean Parvulesco não é um nome exatamente familiar no Ocidente. Todos os seus livros continuam sem tradução do francês, em grande parte, devido ao complexo e idiossincrático estilo de prosa que eles contêm. Parvulesco é um mistério vivo da literatura europeia. Místico, poeta, romancista, crítico literário, conhecedor de intrigas políticas, revolucionário, amigo e confidente de muitas celebridades europeias da última metade do Século XX (de Ezra Pound e Julius Evola, à Raymond Abellio e Arno Breker), sua verdadeira personalidade continua um mistério. Um romeno que escapou para o Ocidente nos anos de 1940, ele se tornou um dos mais brilhantes estilistas franceses da prosa e poesia contemporânea. Mas não importa o quão diferentes fossem seus trabalhos, de estrofes tântricas e complexos romances ocultos, à biografias de amigos eminentes (em paticular “Sol Vermelho de Raymond Abellio”), o seu verdadeiro chamado era – “visionário”, contemplador direto e inspirado das esferas espirituais, aberto ao escolhido por trás da aparência sombria e trivial do mundo profano contemporâneio.

Ao mesmo tempo, Parvulesco nada tem em comum com os representantes vulgares do “neo-misticismo” contemporâneo e todas as suas falsas ramificações. A visão de Parvulesco é sombria e trágica: ele não tem absolutamente nenhuma ilusão à respeito da natureza diabólica e infernal do mundo contemporâneo (neste sentido, ele é mais provavelmente um tradicionalista). Ele é completamente alheio ao otimismo infantil dos teosóficos e ocultistas, e da “visão” pseudo-mística da Nova Era. Mas diferentemente de muitos tradicionalistas de temperamento “acadêmico”, ele não se limita à proclamação cética sobre a “crise do mundo moderno” e à condenação vazia e marginal da civilização materialista do final do Kali Yuga.

Os textos de Jean Parvulesco estão cheios do Sagrado, que fala diretamente através de uma estranha revelação, quase profética e parecida com sonhos, “uma visitação”, vazando pelas esferas superiores através das energias escuras que são a norma na psiquê coletiva atual. Parvulesco é um verdadeiro visionário, ideologicamente preparado e suficientemente profundo para não aceitar os primeiros fantasmas da realidade sutíl ao se deparar com “mensageiros da luz”, mas ao mesmo tempo, forçando ao limite sua intuição, de forma perigosa e arriscada para uma “viagem interior”, ao “centro do Lado Negro” da alma moderna, sem medo de ir além das normais fixadas pelos dogmas racionais (daqui se originam os paradoxos de vários níveis que enchem os livros de Parvulesco).

A mensagem de Parvulesco pode ser definida dessa maneira: “O Sagrado desapareceu da realidade cotidiana do mundo moderno, e é completamente óbvio que nós vivemos no “Fim dos Tempos”, mas o Sagrado não desapareceu (já que não pode desaparecer teoricamente, pois é eterno), foi transferido para uma projeção noturna, invisível que agora está pronta para descer ao cosmos físico humano, num terrível e apocalíptico momento do apogeu da história, num ponto em que o mundo que esqueceu de sua natureza espiritual e a renegou, será  forçado a econtrá-la em um lampejo brutal da Revelação.” Enquanto isso não acontecer, e a humanidade pacificamente dormir em suas ilusões sombrias e materialistas, apenas s escolhidos, visionários membros de uma irmandade secreta, a Ordem Apocalíptica, se mantêm acordados, secretamente preparando caminhos para a vinda da Última Hora, o “Reino Celestial”, o Grande Império do Fim.

Jean Parvulesco vê em si mesmo não uma figura literária, mas o arauto do Império Invisível (seu último livro é chamado “Estrela de um Império Invisível), locutor do Parlamento oculto, consistindo na elite planetária dos “despertos”. Sua personalidade se duplica, triplica, quadriplica nos personagens de seus romances, entre os quais o próprio autor possui um lugar, junto de seus sósias, dublês ocultos, personalidades históricas reais, sombras de outros-mundos, cascas do “crepúsculo externo”, “demônios nominais”, agentes secretos de serviçoes especiais ocultos. Parvulesco abre um mundo paralelo inteiro, não apenas decorações de palco de fantasias individuais ou reminiscências. Seus textos estão repletos de realidade assustadora: seu estranho humor (frequentemente bastante negro), por vezes toca reíquias sagradas das religiões, dogmas e cânones, despertando a misteriosa essência interna, cheia de espiritualidade que devasta a reverência fetichista. Seguindo prescrições tântricas, Parvulesco vivifica a linguagem, a faz operativa. Por isso seus textos são um pouco mais do que literatura. São encantos mágicos e escandalosas denûncias, são provocadores de eventos e prenúncios de seus significados; são a imersão no Oceano do Interiorr, túneis subterrâneos do Escondido, rumo ao amedrontador império daquilo que existe em cada um de nós. Por isso Parvulesco pode ser tão aterrorizante quanto qualquer verdadeiro gênio: ele atenta e ciêntificamente nos estuda desde dentro, por vezes indo além do limite conhecido. O anatomista visionário.

No começo era conspiração

Parvulesco afirma clara e paradoxalmente ao mesmo tempo, que a realidade possui uma natureza fundamentalmente dualista. Todos os trabalhos de Parvulesco podem ser resumidos como uma tentativa de entender a Dualidade e os processos necessários para resolver todas as polaridades e resultar na “Europa do Fim”:

“Esta única pergunta libertadora: quando o tempo chegar (e ele já está aqui), as nações européias irão encontrar, nos seus mais profundos seres, a realidade flamejante da “nação anterior à todas as nações”, e o legado transcendente da “nação Indo-Européia” das nossas origens anteriores? (Le Spirale Prophetique).

Agentes secretos do Ser e da Não-Existência aparecem em todas as principais esferas de controle do mundo moderno, ditando o rumo de todos os processos da civilização. A história resulta da supra-imposição de um polo da Dualidade, enquanto os vetores energéticos de duas redes ocultas, formam a malha da atual história concreta. Generais e terroristas, espiões e poetas, presidentes e ocultistas, Padres da Igreja e hereges, mafiosos e ascetas, maçons e naturalistas, prostitutas e santos divinos, artistas de bordel e ativistas de movimentos operários, arqueólogos e falsificadores – todos eles são apenas atores obedientes de um drama conspirológico saturado – e quem sabe qual identificação social abiga um alto Iniciado? Frequentemente um mafioso ou um mendigo acontecem de ser os curadores de um presidente ou do Papa, e um líder militar ou um banqueiro acabam agindo como fantoches de uma poeta de bordel, que por trás de sua grotesca e fantástica personalidade, esconde-se um frio guru e arquiteto da história política bruta.

Contra os Demônios e a Democracia

 “Estrela de um Império Invisível” é o último grande romance de Parvulesco. Nele, os tópicos de livros anteriores  se entrelaçam. O trabalho retrara a metahistória transcendente, da qual o nosso autor é um cronista, se aproximando de sua resolução final. Aqui um resumo: Por todo o planeta, especialmente na França e em Portugal (e também no Peru e no México) – todos pontos da “acupuntura mágica oculta” do Ocidente -, agentes da não-existência constroem pirâmides negras, objetos físicos e supra-físicos, designados para suportar a penetração de energias demoníacas, hordas de Gogues e Magogues. Este projeto apocalíptico possui um nome seceto, o “Projeto Aquarius”, já que, de acordo com o simbolismo astrológico, a Era de Aquarius, que traz consigo não felicidade e harmonia (como os “agentes da Não-Existência” estão tentando convencer as pessoas), mas a desintegração, a podridão, o caos e a morte, “dissolução nas águas inferiores”, está prestes a ocorrer.

O herói de “A Estrela de um Império Invisível”, Tony d’Antremont, retrata o começo da “Era de Aquario” da seguinte maneira: “Eu vejo, juntamente com Lovecraft, a modelação de enormes massas lamacentas, se movendo em intermináveis ondas, pisando sobre as últimas estruturas cristalinas das elites espirituais; eu estou olhando, na impotência extática do meu despertar alucinante, para a cintilante espuma negra, a espuma de desintegração negra, o terror do fedor democrático e dos assustadores orgãos destes cadáveres convulsivos, em que – na maquiagem das vadias sujas com um sorriso enganador, na sorriso de praias californianas dos anti-fascistas europeus, nos sorrisos de putas manequim em vitrines oscilantes (como eu definiria) – estão preparando a nossa derrota final, nos levando para um destino que eles mesmos não conhecem, ou, mais precisamente, conhecem muito bem, e, no caminho até lá, sugam prazerosamente a nossa medula óssea;  este é o manto alucinante de chumbo dos Direitos Humanos, esta descarga fecal vomitante do Inferno, embora falando assim, eu insulte o Inferno.”

Os servos de “Aquarius”, abrindo caminho no mundo humano para “couraças” negras do crepúsculo contemporâneo, estão tentando apresentar o seu advento antinatural como uma benção, uma salvação, como o limite da evolução, escondendo a sua verdadeira natureza, Vomitto Negro (Vômito Negro), por debaixo de palavrinha pegajosas, políticas e espirituais, New Age e da Nova Ordem Mundial.

Mas contra Aquarius, no qual a totalidade terrível do potencial “metagalático” de redes de Não-Existência, encontrando sua encarnação final na “Nova Ordem Mundial” se concentra, lutam os representantes de uma ordem ocidental secreta, Atlantis Magna. Um papel especial nos rituais dessa ordem é cumprido pela Mulher, conhecida sob o nome místico Licorne Mordore, ou “o unicórnio marrom-avermelhado”. Na realidade física ela leva o nome de  Jane Darlington. Mas a verdadeira persona dessa mulher, vai principalmente além dos limites da individualidade. Mais corretamente, ela representa em si mesmo alguma função sacra, devidida entre todas as mulheres da ordem, em quem as relações pessoais e diárias entre si, refletem uma hierarquia ontológica d ser em si (uma corresponde ao espírito, outra à alma e uma terceira à carne). Os Homens da Ordem, incluindo o personagem principal, Tony d’Antremont, também dificilmente são indivíduos num sentido estrito: mortes e adultério, a descrição que enche o romance, ilustra a essência especialmente funcional dos personagens principais; a morte ritual de um deles apenas intensifica as atividades conspiratórias de outro, e suas esposas, no processo de cometer o adultério, descobrem que, em essência, ela continuam leais a um único e mesmo ser. Então, Atlantis Magna tece suas teias continentais para lutar contra a conspiração de Aquarius: esta teia é finalizada um um nível transcendente superior, uma realização ritual tântrica de Ocorrência escatológica, conectada com a aparência do arquétipo do Consolador e da Esposa. Apenas neste nível é possível derrotar os construtores das “pirâmides negras”. A preparação e a organização do misterioso ritual do “círculo vermelho”, compõe a parte principal da trama. Os membros da Atlantis Magna, no caminho para este procedimento, fazem viajens simbólicas, analisam textos místicos, trabalham para achar as verdadeiras causas de transformações políticas,  pesquisam estranhos aspectos da história de algumas antigas famílias europeias, decifram idéias esotéricas (que vazam nos tablóides), toleram relações românticas e eróticas, experienciam tentativas de assassinato, caem vítimas de sequestros e torturas, mas a totalidade do corpo concreto desse cativamente, quase policial romance, é, em realidade,  uma leitura ininterrupta e uma calrificação da realidade visionária interconectada dos Eventos Finais da História, o aparecimento do Grande Império Eurasiano do Fim, Regnum Sacrum ou Imperium Sacrum, reflexos que podem ser vistos em todos em todos os aspectos do mundo moderno.

Ao nível politico da conspiração, os heróis do romance também agem aggressiva e decididamente. Resistência espiritual ao “New Age”, neo-espiritualismo,  para os representantes dos quais (de Alice Bailey até Chardin e Sai Baba), Tony d’Antremont oferece o estabelecimento do projeto de uma “super-prisão oculta”  para a resistência política da “Nova Ordem Mundial”, americanismo e liberalismo, o que força os agentes do Ser a tecer redes de conspiração planetária com a participação de todas as forças políticas opostas ao mundialismo. Grupos subterrâneos, social-revolucionários e membros de outros grupos que já não mais existem, descendentes de famílias aristocráticas que sentem ascos pela “democracia”, desejando secretamente por um fim da época liberal, membros da máfia italiana, Gaullistas e admiradores de Franco, revolucionários do Terceiro Mundo, shamãs da América e da Ásia, líderes comunistas, banqueios alemãos – todos se tornam participantes no projeto geopolítico direcionado para recriar o Império Eurasiano final. Intrigas diplomáticas, viajens ao exterior, conversas confidenciais e a coleta de dados compõe o aspecto político da conspiração dos “agentes do Ser”, e como um enlace especial do sujeito do romance, supra-imposto por conversações ocultas e longos monólogos esotéricos dos personagens.

O romance de Parvulesco não segue a lógica tradicional de um conto terminado.

É significativo que ele termina com uma meia palavra na página 533. Toda a trama precedente vê o leitor se fechar no desenrrolar escatológico da guerra oculta, mas... É aqui que o mundo literário acaba e a verdadeira realidade toma seu lugar. A maioria dos personagens no romance são figuras históricas, algumas que já morreram, outras ainda vivas. Ivros e textos citados neste conto realmente existem. Muitos episódios e lendas recontadas também não foram inventadas (apesar de várias serem ficção). Detalhe significativo: a maioria dos nomes citados são colocados com datas de nascimento e morte. Depois de ler “A Estrela de u Império Invisível”, uma questão surge naturalmente: O que nós acabamos de ler? Um romance? Uma ficção? Uma fantasia? Literatura surreal? Ou talvez um tratado esotérico?

Ou a revelação real do sentido escondido  da história contemporânea, visto da posição da plenitude metafísica no volume todo, para o outro lado das alucinações, no qual, em efeito, consiste de assunções corriqueiras e banais, que não explicam nada e estão tão longe da verdade como se imagina?

O próprio jean Parvulescu descreve seu romance: “um romance de iniciação muito secreto e perigoso, onde o Amor Absoluto oferece sua arma final ao Poder Absoluto, e estabelece a base oculta para o futuro Grande Império Eurasiano do Fim, que significará o Reino Celestial, Regnum Sanctum”. Nada mais e nem menos.

Os agentes do Continente interno estão despertos. Já aparece no céu da noite da nossa repugnante civilização, uma Estrela mágica, anunciando a transformação do Interno em Externo, que se aproxima. Esta é a Estrela de um Império Invisível, o Império de Jean Parvulesco...


 “Soldados já perderam em uma guerra que se torna mais total que nunca, mais oculta que nunca, nós carregamos nos limites desse mundo as armas espirituais e os mais enigmáticos destinos da honrarias militares do além. Nas fileiras, tanto visíveis quanto invisíveis, da Ordem Negra  da qual pertencemos, aqueles que foram atingidos pela morte, marcham lado a lado com aqueles que ainda estão de pé” (La Conspiracion de Noces Polaires).

Autor desconhecido. Fonte

05/07/2012

A Emancipação da Domesticidade

por G.K. Chesterton


E deve ser observado, de passagem, que esta exigência para que o homem desenvolva apenas uma habilidade não tem nada a ver com o que é comumente chamado nosso sistema competitivo, mas existiria igualmente sob qualquer tipo racionalmente concebido de coletivismo. A menos que os socialistas estejam totalmente preparados para uma queda no padrão de seus violinos, telescópios e lâmpadas elétricas, eles devem de alguma forma criar uma demanda moral sobre os indivíduos de maneira que eles mantenham a atual concentração em tais coisas. Foi apenas porque os homens se tornaram, em algum grau, especialistas é que surgiram os telescópios; eles devem ser, em algum grau, especialistas para continuarem a construí-los. Não é fazendo um homem ser um assalariado estatal que se possa impedi-lo de pensar principalmente sobre como é difícil ganhar seu salário. Há apenas uma maneira de preservar no mundo aquela superior leveza e aquela serena perspectiva contidas na antiga visão de universalismo. E esta é permitir a existência de uma metade da humanidade parcialmente protegida; uma metade a que o assédio da demanda industrial inquieta, mas inquieta apenas indiretamente. Em outras palavras, há de haver em cada centro da humanidade um ser humano preocupado com um plano mais amplo; um ser humano que não “dê o seu melhor”, mas que se dê integralmente.

Nossa antiga analogia do fogo continua sendo a mais viável. O fogo não precisa resplandecer como a eletricidade nem se agitar como a água fervente; a questão é que ele resplandece mais que a água e aquece mais que a luz. A esposa é como o fogo, ou para colocar as coisas na perspectiva adequada, o fogo é como a esposa. Como o fogo, espera-se que a mulher cozinhe; não de forma excelente, mas cozinhe; que cozinhe melhor que seu marido, que está conseguindo a lenha lecionando botânica ou quebrando pedras. Como o fogo, espera-se que a mulher conte histórias para seus filhos, não histórias originais e artísticas, mas histórias – histórias melhores do que as possivelmente contadas pelos cozinheiros de primeira classe. Como o fogo, espera-se que a mulher ilumine e esclareça, não pelas mais espantosas revelações ou as mais selvagens agitações do pensamento, mas melhor que um homem pode fazer depois de quebrar pedras ou lecionar. Mas não se pode esperar que ela suporte tal responsabilidade universal se for suportar também a crueldade do trabalho competitivo e burocrático. A mulher deve ser uma cozinheira, mas não uma cozinheira competitiva; uma decoradora, mas não uma decoradora competitiva, uma costureira, mas não uma costureira competitiva. Ela não deve ter nenhum negócio, mas vinte hobbies; ela, ao contrário do homem, deve desenvolver tudo que faz sem se preocupar em atingir a perfeição. Isto é o que foi sempre buscado a princípio no que é chamado reclusão, ou mesmo opressão, da mulher. As mulheres não foram mantidas em casa para que fossem limitadas, foram mantidas em casa para que fossem amplas. O mundo do lado de fora é uma massa de limitações, um labirinto de caminhos estreitos, um hospício de monomaníacos. Foi por esta parcial limitação e proteção da mulher que ela era capaz de desempenhar-se em cinco ou seis profissões e assim se aproximar tanto de Deus quanto a criança que brinca de ter cem profissões. Mas as profissões da mulher, ao contrário das da criança, eram todas verdadeira e, quase, terrivelmente frutíferas; tão tragicamente reais que nada exceto sua universalidade e equilíbrio impediam que elas se tornassem meramente mórbidas. Esta é a substância da alegação que ofereço sobre o papel histórico da mulher. Não nego que as mulheres foram ofendidas ou mesmo torturadas; mas duvido que elas tenham sido torturadas tanto quanto o são agora pela moderna tentativa absurda de fazê-las ao mesmo tempo rainhas do lar e funcionárias competitivas. Não nego que mesmo sob a antiga tradição, as mulheres tivessem vidas mais difíceis que a dos homens; esta é a razão porque tiramos nossos chapéus. Não nego que todas essas várias funções femininas fossem exasperantes; mas digo que havia algum objetivo e significado em mantê-las variadas. Não tento nem mesmo negar que a mulher fosse uma criada; mas pelo menos era a criada principal.

A forma mais breve de resumir a questão é dizer que a mulher é a responsável pela idéia da Sanidade; aquele lar intelectual para o qual a mente retorna depois de cada excursão pela extravagância. A mente que se dirige a lugares extravagantes é a do poeta; mas a mente que não retorna é a do lunático. Deve haver em cada máquina uma parte que move e uma parte imóvel; deve haver em tudo que muda uma parte imutável. E muitos dos fenômenos que os modernos apressadamente condenam são realmente partes dessa posição da mulher como centro e pilar da saúde. Muito do que é chamada sua subserviência, e mesmo sua docilidade, é meramente a subserviência e docilidade de um remédio universal; ela varia como um remédio varia, conforme a doença. Ela tem de ser uma otimista para um marido mórbido, uma pessimista salutar para um marido excessivamente otimista. Ele tem de impedir que o Quixote seja abusado pelos outros, e que o valentão abuse dos outros. O Rei da França escreveu

“Toujours femme varie Bien fol qui s'y fie”

mas a verdade é que a mulher sempre varia, e esta é a razão de sempre confiarmos nela. Corrigir cada aventura e extravagância com seu antídoto, usando o senso comum, não é (como os modernos parecem pensar) estar na posição de um espião ou de um escravo. É estar na posição de Aristóteles ou (no nível mais baixo) de Herbert Spencer, ser uma moral universal, um completo sistema de pensamento. O escravo lisonjeia; o moralista repreende. É ser, em resumo, um trimmer[1] no verdadeiro sentido deste honroso termo, que por alguma razão, é sempre usado no sentido oposto. Parece realmente que consideram um trimmer uma pessoa covarde que sempre escolhe o lado mais forte. Mas este termo significa realmente uma pessoa altamente cavalheiresca que sempre escolhe o lado mais fraco; como aquele que equilibra a carga de um barco sentando-se onde há poucas pessoas sentadas. A mulher é um trimmer, e isso é uma função generosa, perigosa e romântica.

Um fato final que determina isso é de natureza muito simples. Supondo que a humanidade agiu de forma não artificial dividindo-se em duas metades, respectivamente tipificando os ideais de talento especial e sanidade geral (uma vez que eles são genuinamente difíceis de combinar completamente em uma única mente), não é difícil ver porque a linha de clivagem seguiu a linha do sexo, ou porque a fêmea tornou-se o emblema do universal e o macho do especial e superior. Dois fatos gigantes da natureza demonstraram isso: primeiro, que a mulher que freqüentemente cumprisse literalmente suas funções não poderia ser especialmente proeminente no experimento e na aventura; e segundo, que a mesma operação natural a rodeava de crianças muito jovens, que exigiam não o ensino de alguma coisa, mas o ensino de todas as coisas. Bebês não precisam aprender uma profissão, mas precisam que se lhe apresentem um mundo. Para resumir, a mulher é geralmente encerrada numa casa com um ser humano numa época em que ele pergunta todas as questões que existem e algumas que não existem. Seria estranho que ela retivesse qualquer traço da estreiteza de um especialista. Ora, se alguém diz que essa tarefa de esclarecimento geral (mesmo quando livre dos horários e das regras modernas, e exercido espontaneamente por uma pessoa mais protegida) é em si excessivamente exigente e opressiva, consigo entender esse ponto de vista. Posso apenas responder que nossa raça considerou que vale a pena colocar este peso sobre a mulher a fim de manter o senso comum no mundo. Mas quando as pessoas começam a falar sobre esse trabalho doméstico como não simplesmente difícil, mas trivial e monótono, eu simplesmente desisto da discussão. Pois, eu não consigo, com o máximo poder de imaginação, entender a respeito do que estão falando. Quando a domesticidade, por exemplo, é chamada de lida penosa, toda a dificuldade surge do duplo sentido da expressão. Se penosa significar trabalho duro, admito que a mulher labute em casa, como o homem pode labutar na Catedral de Amiens ou atrás de um canhão em Trafalgar. Mas se penosa significar que o trabalho duro é mais pesado porque é insignificante, sem graça e sem importância para a alma, então, como disse, eu desisto; não sei o que as palavras significam. Ser a Rainha Elizabete dentro de uma área definida, decidindo salários, banquetes, tarefas e feriados; ser Whiteley[2] dentro de certa área, suprindo brinquedos, sapatos, bolos e livros; ser um Aristóteles dentro de certa área, ensinando moral, boas maneiras, teologia e higiene; posso entender como isso pode exaurir uma mente, mas não posso imaginar como pode estreitá-la. Como pode ser uma larga carreira ensinar a Regra de Três a crianças dos outros, e uma estreita carreira ensinar à sua própria criança sobre o universo? Como pode ser amplo ensinar a mesma coisa a todo mundo, e estreito ensinar tudo a alguém? Não; a função de uma mulher é trabalhosa, mas porque é gigantesca, não porque é minúscula. Tenho pena da Sra. Jones pela enormidade da sua tarefa, não pela sua pequenez.

Mas embora a tarefa essencial da mulher seja a universalidade, isso não a impede, claro, de ter um ou dois fortes, mas grandemente saudáveis, preconceitos. Ela tem sido, em geral, mais consciente do que o homem de que ela é apenas uma das metades da humanidade; mas ela tem expressado isso (se alguém pode dizer isso de uma senhora) agarrando com unhas e dentes duas ou três coisas que considera ser suas responsabilidades. Eu observaria aqui, entre parêntesis, que muito do recente problema oficial sobre a mulher surgiu do fato de que elas transferem para as coisas da razão e da dúvida aquela sagrada obstinação apenas apropriada às coisas primárias que foram confiadas à guarda da mulher. O próprio filho, o próprio altar, deve ser uma questão de princípio – ou se se preferir, uma questão de preconceito. Por outro lado, a dúvida sobre quem escreveu as Cartas de Junius[3] não deve ser uma questão de princípio ou preconceito, deve ser uma questão de investigação livre e quase indiferença. Mas tome uma garota moderna e cheia de vida, secretária de uma associação e dê-lha a função de mostrar que George III escreveu tais cartas, e em três meses ela acreditará nisso também, por mera lealdade a seus empregadores. As mulheres modernas defendem seu escritório com toda a ferocidade da domesticidade. Elas lutam pela mesa e pela máquina de escrever como pelo lar, e desenvolvem um tipo de selvagem atitude doméstica para com o chefe invisível da empresa. Esta é a razão de elas fazerem o trabalho de escritório tão bem feito; e esta é a razão porque elas não devem fazê-lo.

[1] Trimmer tem dois significados principais: estivador (aquele que equilibra a carga das embarcações) e oportunista. Chesterton brinca com estes dois significados. (N. do T.)

[2][2] Grande loja de departamentos da Londres de Chesterton. (N. do T.)

[3] Junius era o pseudônimo de um indivíduo, cuja a identidade é desconhecido, que escreveu uma série de cartas para um jornal londrino, Public Advertiser, entre 21 de janeiro de 1769 e 21 de janeiro de 1772. De eminentemente político, tiveram grande repercussão no reinado de George III. (N. do T.)