domingo, 5 de fevereiro de 2017

Esteban Montenegro - Superar a Terceira Posição

por Esteban Montenegro



Os Desafios da Quarta Teoria Política na Argentina

A propósito das conferências que brindara o professor Aleksandr Dugin recentemente no CGT e na Casa da Rússia podemos dizer, sem ânimos de exagerar, que marcaram um antes e um depois para as forças da Terceira Posição na Argentina. Em efeito, puseram em evidência que em seu seio se debatem duas tendências entre os que estão abertos a se desprender dos preconceitos do século passado, e os que não. Explicaremos alguns pontos básicos da proposta de Dugin, antes de passar a verificar sua validade no terreno da política e da história local.

Em que consistem os preconceitos que acabamos de mencionar? Se nos vissemos obrigados prematuramente a ficar com um aspecto das proposições de Dugin assinalaríamos a condição de que para pensar uma nova posição política há de se abandonar tanto o anticomunismo como o antifascismo, que o liberalismo defendeu para por a se enfrentar seus oponentes e sair vitorioso. De sua parte, a Terceira Posição sustentou a teoria conspiratória que imaginou por trás do capitalismo ianque e do comunismo soviético uma mesma condução sinárquica globalista. Mas já como uma forma superior da intoxicação liberal certos setores desse campo, em especial os religiosos (mas não exclusivamente), vieram no "comunismo ateu" o inimigo principal a combater, e para isso se aliaram ao liberalismo. Do outro lado da rua, o comunismo, quando não chegou diretamente a igualá-los, imputou à Terceira Posição ser o braço armado, ou o instrumento preferido do grande capital para frear as revoluções proletárias. Também o comunismo foi aliado das forças liberais para combater às Terceiras Posições em "frentes antifascistas" como a União Democrática que enfrentou Perón em 1946, para dar um exemplo. Essas duas tendências redundaram no triunfo da unipolaridade global neoliberal até os anos 90, enquanto que as duas posições antiliberais desapareceram, ou mesmo se fundiram em alguma das opções partidocráticas liberais, mais à esquerda ou mais à direita, mas dentro de suas regras de jogo pró-mercado.

Hoje em dia qualquer liberal reconhece que o comunismo e as terceiras posições tiveram muito mais em comum entre si do que em relação à "sociedade aberta" cujo máximo exemplar seria a democracia estadounidense, e tem razão. Obviamente não faltaram honradas exceções em nenhum daqueles dois campos antiliberais que se aperceberam disso e resistiram a tomar as diferenças havidas entre um e outro como a contradição principal. O nacional-bolchevismo alemão foi um claro exemplo da Terceira Posição saindo de seus limites. Em nosso país o foram as amplas e variadas vertentes de esquerda nacional, que desde uma formação marxista e socialista abraçaram um nacionalismo identitário ibero-americanista; mas também, os nacionalistas que fizeram o caminho inverso (e que foram muitos). Aqueles podem, sem lugar para dúvida, ser tomados como sinais no caminho rumo à Quarta Teoria Política vindoura, que não há de ficar associada já nem à segunda (o comunismo), nem à terceira posição (nacionalismo), mas atuará sobre a base das verdadeiras contradições. Em termos políticos, sobre a do liberalismo atlantista unipolar anglossaxão e o resto do mundo com seus múltiplos pólos antiliberais; e em termos filosófico-existenciais, entre a metafísica do sujeito moderno com suas distintas encarnações (indivíduo, classe, nação, raça ) e o Dasein, que está na base da Quarta Teoria Política.

Vamos à história de nosso país. Em relação à Terceira Posição na Argentina, já em seus melhores momentos, entre 1945 e 1955, cavou sua própria tumba ao selar um pacto social com os grandes capitais oligárquicos em função de uma "unidade nacional" que um enfrentamento entre classes poria em cheque. Não o fez, claramente, como uma trégua necessária no caminho rumo à socialização, mas fazendo das migalhas do 50/50 para o capital e para o trabalho o próprio destino histórico. Os trabalhadores seguiram nesse marco indo "do trabalho à casa", certamente reivindicados pelos direitos trabalhistas que conquistaram junto a Perón, acreditando que essa "unidade nacional" duraria enquanto Perón a protegesse. Mas, enquanto tanto, os capitalistas, que nunca acreditaram nessa "unidade nacional" senão como um meio para voltar a impôr sua ditadura, preparavam meticulosamente um golpe de Estado, pois conservavam graças ao pacto social os recursos de seu poder intactos. Nem o capital oligárquico, nem o burguês tem pátria alguma distinta do dinheiro. Perón nunca deu o passo decisivo para derrotá-los, e deixou o povo só, enquanto ele se exilava. Disse preferir o tempo ao sangue, mas o inimigo cobrou o sangue dos trabalhadores assim mesmo. Que Perón se refugiasse na Espanha franquista no lugar de armar à classe trabalhadora e enfrentar o inimigo em 1955 representa cabalmente quem era Perón, e nisso a Terceira Posição tem razão: Perón nunca quis a "Pátria Socialista", que teria sido a consequência imediata de ter derrotado concretamente seus inimigos: os que não trabalham. Perón tão só usou fraseologia revolucionária quando, desde o exílio, necessitou alentar suas "formações especiais", quer dizer, as guerrilhas da esquerda peronista. Um exemplo claro é o excelente documento de "Atualização Política e Doutrinária para a Tomada do Poder", onde cita Mao quase como uma autoridade e reconhece o justicialismo como uma forma de socialismo nacional. Se trataria de um importantíssimo documento como antecedente da proposta de uma Quarta Teoria Política se não fosse por contradizê-lo grosseiramente anos depois após retornar ao poder. O pragmatismo e a autorreferencialidade de Perón permitiram forçar, a partir do exílio, uma negociação que conduza a novas eleições. Já uma vez alcançado o poder pela terceira vez, dentro da legalidade do sistema, procedeu a cometer os mesmos erros que em seus dois primeiros mandatos, e, ademais, procedeu a relegar, e desarticular a partir do aparato repressivo do Estado burguês as organizações armadas que tornaram seu retorno possível. Que tipo de socialismo e que tipo de planejamento estratégico de guerra integral é possível deixando o inimigo se reorganizar, conservar seu poder de fogo, seu poder econômico e finalmente deixando o povo sem condução, nem um organismo político-militar que o proteja?

Com isso não se pretende aqui menosprezar as conquistas que Perón instrumentou em favor dos trabalhadores. Nem sua visão de futuro e sua indubitável capacidade política e intelectual. Neste sentido, seguimos aprendendo dele e seus acertos, como se aprende de todos os grandes estadistas da história. Mas pela responsabilidade que assumiu perante o povo, seus erros são os que mais nos custaram coletivamente falando, e é ingênuo acreditar que a Terceira Posição só fracassou pela violência de seus inimigos, e de volta, por uma conspiração nas sombras entre marxistas e liberais. Se a Terceira Posição tivesse estado à altura do combate que propôs ao inimigo liberal, teria deixado de ser tal. E isso teria sido o lógico na Argentina, onde o comunismo nunca foi uma ameaça, seriamente falando, para ela e sim o foi o liberalismo. A armadilha do liberal sempre foi fazer com que a Terceira Posição acreditasse que erradicar as formas capitalistas de raiz equivalia a "tornar-se comunista". Tanto teve efeito essa armadilha que na Argentina os ressabios da claudicante Terceira Posição estão empesteados de eminentes representantes do que, na Europa, foi chamado de "estratégia da tensão". A AAA (Aliança Anticomunista Argentina) foi o equivalente local à Rede Gladio. Servindo ao aparato de Estado, e a serviços de inteligência, homens da Terceira Posição operaram assassinando e torturando militantes de esquerda durante os anos 70. Sob o sangue desses crimes, a Terceira Posição realmente existente, já livre de "infiltrados" e de verdadeiros inimigos à esquerda, ficou desde então atada simbolicamente àquele pacto espúrio com as forças do liberalismo. Como é de se esperar, os que hoje se afirmam orgulhosos na Terceira Posição nostálgica levantam e fazem seu o relato histórico dos vencedores da "guerra antissubversiva", quer dizer, dos liberais pró-ianques. Este imaginário anticomunista é o vigente, com matizes, em quase a maior parte do sindicalismo, no peronismo ortodoxo, no nacionalismo católico, e entre os nacionalista de aberto ou velado corte fascista.

Mas nem o deixar de ser anticomunista implica tornar-se comunista, nem o deixar de ser "antifascista" tornar-se um peronista ou nacionalista de Terceira Posição. Se afirma-se essa tese cai-se na chantagem liberal, pois a ninguém mais beneficia hoje que não se possa pensar mais além dessas categorias. Seja como for, para qualquer antiliberal consequente sempre é objetivamente pior ser um covarde e ceder diante das forças repressivas de ocupação liberal que ser tachado de subversivo, totalitário ou o que seja. Por que nos é possível afirmar isto? Porque nos parece um absurdo sustentar que o decisivo política e éticamente falando ocorra ao nível da representação. Isso quer dizer, considerar, que aquilo que sustenta o valor de uma pessoa é se ele está adscrito à ideologia correta ou não. E aqui entramos no terreno da contradição filosófico-existencial que divide águas entre a Quarta Teoria Política e a modernidade. Vale repetí-lo: aquilo que opera como representação teórica de um sujeito político dado, comumento designado "ideologia", ou "doutrina", está subordinado para nós ao domínio existencial, que é aquele onde se joga o realmente decisivo no campo político. Sustentar o contrário implicaria abraçar um racionalismo improcedente que nos situa no terreno caduco das três teorias políticas modernas que se busca deixar para trás.

A experiência fática é o primeiro momento no desenvolvimento de toda autoconsciência. Por isso, para nós, aqueles que decidiram lutar e morrer contra o inimigo do povo e da pátria estão existencial, ética e politicamente, por cima do resto seja qual fosse sua ideologia. Nós sim coincidimos com a Quarta Teoria Política (diferentemente da Terceira Posição local que é humanista-cristã) no fato de que seu portador seja o Dasein. Nem um sujeito individual, nem um coletivo podem ser portavozes de algo radical. O Dasein ,propriamente dito, é aquele existente autêntico em cujos atos e gestos se pode ressignificar a trama existencial do mundo circundante onde nossa terra, os outros homens, e nós mesmos habitamos. A Verdade é uma experiência que transcende por ser anterior e fundante a toda racionalização discursiva. Por isso não terá sentido que nossa crítica à Terceira Posição seja tachada de "comunista". Neste sentido, vale recordar como bem marca Jünger, homem de ação que nunca teve os medos de nossos nacionalistas, que superar o economicismo de certo marxismo não implica "que o espírito se aparte de todas as lutas econômicas: o importante é, ao contrário, que se outorgue a essas lutas a máxima virulência" (O Trabalhador, Tusquets, 1990, p.35) Dirão nossos esperados detratores que Jünger também era um "infiltrado" dentro da Terceira Posição? Nós lhes responderemos de antemão. Não, era alguém que via mais além, sendo por isso um precursor da Quarta.

O que fazer então? Outra vez o anticomunismo conspiranoico abortará as possibilidades mais ousadas, as únicas viáveis, da revolução nacional e social? Ainda que os que se dizem de Terceira Posição geralmente ocultem ou ignorem, na Argentina houve nacionalistas e peronistas de formação nas vertentes mais duras da Terceira Posição que se animaram e enfileiraram junto às tradições nacionais nas quais se formaram a revolução social sem contemplações pela oligarquia e pelos patrões. Sem nada de "pacto social", nem "luta pelo Ocidente cristão", nem pondo-se à disposição da OTAN. Seguirá negando-se o valor existencial daqueles precursores? Jose Luis Nell, Joe Baxter, Rodolfo Walsh, Dardo Cabo, eles marcaram o caminho para a Terceira Posição dando a vida por um nacionalismo revolucionário cuja Ideia esteve por cima do Estado e da conciliação com o capital. Nenhum deles lutou a partir da cômoda poltrona de uma representação sindical, negociando com autoridades ilegítimas de um Estado burguês e ditatorial. O caminho rumo a uma Quarta Teoria Política será possível tão somente revalorizando o que ali pulsava na prática. Ali havia algo mais que mero nacionalismo, algo mais que mero marxismo; ainda que defeituosamente formulado, e por isso instável em termos teóricos. Eles foram socialistas, nacionalistas, guerreiros do continente americano, abandeirados da solidariedade internacional na luta contra o atlantismo e deram sua vida. Que importa que não houvessem tido uma concepção ideológica acabada se fizeram mais pela Pátria que todos os nacionalistas vivos juntos? O importante é isso, que na Argentina houve guerreiros que lutaram por uma Pátria Socialista respeitando profundamente as raízes históricas e as tradições do povo. Perón poderá ser o máximo dentro da Terceira Posição. Não temos dúvida, mas também é seu limite. De fato, o maior filósofo que teve o peronismo, um eminente heideggeriano, me refiro a Carlos Astrada, é geralmente ignorado pela Terceira Posição de nossos dias, quiçá como castigo por não ser católico, ou por ter logo girado à esquerda (como os homens que acabamos de reivindicar) realizando, então, mordazes críticas a Perón. São estes homens heterodoxos os anúncios das possibilidades mais autênticas de nosso destino: o caminho rumo a outro horizonte político que pouco tem a ver com este fantasma do "comunismo assassino" que veem os nacionalistas argentinos quando se tenta retirá-los de sua estreiteza menal. Os únicos genocídios na Argentina foram sempre cometidos por nacional-conservadores e liberais.

No dizer de Heidegger, o Dasein elege seus próprios herois em função da projeção de sua existência no horizonte da finitude. É hora de superar a Terceira Posição, e dar-se conta de que a efetiva libertação nacional e social só é possível com um anticapitalismo enraizado e furioso que não tenha como destino o Estado, nem a convivência com o inimigo, nem a adoração de tempos remotos e arcanos, mas parir uma nova civilização em chave continental e a um novo homem desde uma práxis e uma teoria ajustadas aos tempos correntes. Sem socialismo, sem trabalhadores em armas, não há liberação nacional; e sem continentalismo e multipolaridade, tampouco. Para nos encontrarmos de novo com nosso destino, temos que dar mais ouvidos a Heidegger, a Jünger, a Schmitt, como alguns fazemos há anos e como bem nos sugere Dugin. No lugar dos intelectuais conservadores-católicos que a direita peronista esgrime como autoridade (Nimio de Anquín, Disandro, etc.), nós propomos nos aproximarmos mediante um diálogo interpretativo, de igual para igual, dogmas e ideologia à parte, a Carlos Astrada, Martínez Estrada e Leopoldo Lugones; a Scalabrini Ortíz, Jauretche e Hernández Arregui; aos mestres alemães antes nomeados e aos sempre vigentes filósofos gregos. Em suma, nossa cultura é a que merece leitura atenta, não para se estancar em algumas de suas maiores figuras, mas para nos reencontrarmos nós mesmos com nosso destino histórico.

Que o Dasein e não o humanismo cristão opere na Quarta Teoria Política não é um condimento que o diferencia da Terceira Posição peronista. É algo essencial, tal como o anticapitalismo socializante que o sustenta (e aqui tentamos tematizar sucintamente que sua necessidade não parte de uma análise economicista, mas de uma existencial). Estas diferenças abrem um abismo que nos interpela. Estamos dispostos a mudar a trama de significações na qual nos estabelecemos alguma vez? Somos todavia suficientemente humildes e, ao mesmo tempo, valentes, como para deixar um espaço livre de certezas para que possa surgir algo novo? Hegel, e depois Nietzsche, sacudiram o mundo ocidental ao anunciar a morte de Deus. Assim alertaram e sacudiram suas consciências sobre o que estava por vir. Na Argentina faz tempo que certos homens buscam um Perón para que os redima...mas Perón morreu e era o único que o peronismo por definição tinha como garantia de mesmidade. Não buscam nenhuma mudança aqueles que amontoados ao redor de seu cadáver repetem como mantra frases feitas para exorcizar qualquer "desvio", posto que a rigidez própria do morto não poderá nunca dar luz a uma nova civilização. Todo ressabio institucional, partidário ou sindical, do peronismo, está ultrapassado e vinculado indissoluvelmente ao liberalismo com o qual ele sempre se dispôs a negociar os termos de reprodução do aparato estatal e da economia de mercado. Tudo de valioso e heroico que guardou dentro de si a Terceira Posição não vive nessas estruturas, mas fora delas, e se conserva superado na luta pelo futuro de nossa terra e não na adoração nostálgica de algo que não voltará a ser e que justamente por isso demanda nossa intervenção na história. 

Rússia e Argentina, tal como afirmou felizmente Dugin, ainda são depositárias no mais profundo de si, das instituições romanas, das artes e da filosofia grega, dos mestres do pensamento alemão, dessa Europa que em seu solo natal já deixou de ser tal. A cultura vive agora em nós, não como algo externo, mas como possibilidade, pois todavia estamos próximos à terra e habitamos um grande espaço continental que espera sua configuração e uma unidade mais férrea para dar tudo de si. Nosso caráter de possibilidade atuante nos permite ser portadores de algo novo. Somos o futuro do melhor dos passados. Estamos aqui para, a partir de uma ruptura com o imediato ressignificar a trama de nosso mundo e não para maquiar mortos. A Tradição, para nós mais que ninguém, é uma possibilidade viva de nosso destino. E nada que se levante por cima e por fora nosso poderá nos convencer do contrário. Até aí vamos, pois "o mundo é algo em que o existente enquanto ente já sempre esteve, e no qual todo explícito ir até ele não faz mais que voltar" (Heidegger, Sein und Zeit, 1927, p. 76), ...neste caminho de retorno ao Heimat nos encontramos felizmente com a Quarta Teoria Política. A Argentina tem aportes muito importantes que fazer a respeito. Somos vários os que podemos exibir as credenciais de abertura, compromisso e consistência intelectual que demandam a hora, ainda que por isso tenhamos ganho o desprezo dos que ainda defendem posições perdidas. Saudamos a visita de Dugin e a criação do movimento eurasiático na Argentina por velhos amigos nossos como se sauda o perigoso e tudo o que dá sentido à vida.

Os negócios são coisa de outros, o futuro é nosso. 

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