quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Inteligência e Geopolítica

por Norberto Ceresole



Carta aberta a meus amigos constituintes

Nesse momento não existem na Venezuela nem as ideias nem as instituições com capacidade para medir os impactos estratégicos que produzirá o desenvolvimento progressivo do processo venezuelano no mundo. Não existe a capacidade para relacionar as mudanças internas com os conflitos externos. Do que se trata, portanto, é de elaborar uma Inteligência Estratégica que possa ser utilizada pelo Presidente da República para a avaliação dos impactos externos que originará uma determinada resolução desses problemas internos da Venezuela, nessas circunstâncias revolucionárias. É desejável que esse trabalho se desenvolva sob a condução das Forças Armadas porém com participação crescente de instituições civis de nível universitário.

Contra o que muitos analistas acadêmicos sustentam, a natureza atual do sistema internacional possibilita manobras e contramanobras, alianças e contra-alianças muito mais intensas e profundas do que as que se podia fazer em outras épocas. Será necessário encontrar seus pontos de fratura, para incindir sobre eles e assim lograr que essa Venezuela em processo revolucionário se "filtre" pelas fendas do sistema internacional e logre níveis adequados de segurança ou de sobrevivência.

Na base do processo orientado a lograr um alto grau de proteção para as mudanças que se realizarão na Venezuela está o trabalho para "internacionalizar" - em todo o espaço hispano-americano - a figura carismática de Hugo Chávez. Isso obedece a um princípio essencial da Estratégia: a resposta mais eficaz às agressões externas será o incremento do próprio poder (a única resposta ao poder é o poder). A partir da sucessiva ampliação dessa liderança originalmente venezuelana, as agressões provenientes de outras áreas do mundo poderão ser amortecidas com maior eficácia e, paralelamente, as necessidades da Venezuela - na Europa e nos EUA, acima de tudo - poderão ser resolvidas com muito mais "liquidez". Se trata, em definitivo, de incrementar o poder da Venezuela no mundo, que hoje é, em um sentido estrito, insignificante.

Para tudo isso será necessário dispor de Inteligência Estratégica.

Cada país faz Inteligência segundo como percebe a si mesmo em relação aos outros. A atividade de Inteligência é um instrumento preciso e complexo que mede o conceito que cada país tem de si mesmo. É sua miséria ou é sua grandeza.

A dependência e subsidiariedade de um país podem ser medidos por sua incapacidade de produzir Inteligência, em especial, Inteligência Estratégica. Os enredos a que é submetido um Estado periférico se originam em que, em uma conjuntura específica, alguém (agente externo) selecionou para esse Estado um tipo específico de informação. Essa informação assim selecionada - para um Estado subalterno - não somente não reflete a verdade dos fatos (em sua dimensão "objetiva") senão que ademais prejudica substancialmente (ainda mais) a posição no mundo desse Estado subalterno. É assim como a subsidiariedade de um Estado (sua dependência em relação a outros) pode se definir a partir da incapacidade desse Estado de produzir sua própria Inteligência Estratégica.

A Inteligência é o reflexo da capacidade cultural de que dispõe uma comunidade. É, ou deveria ser, a expressão mais refinada de sua "filosofia nacional". A Inteligência é causa e efeito de um pensamento nacional. A Inteligência é o prólogo do conhecimento, e a qualidade de ambos definirá com toda precisão o que é cada país e quem é quem dentro de cada país. A Inteligência tem por função máxima gerar poder através da preparação adequada do conhecimento exato que se necessita no aqui e agora nacional e internacional.

A Inteligência deve ser o sistema superior de conhecimento que se estruture a nível de Estado. A Inteligência é o grau máximo de complexidade que pode alcançar a institucionalização de um pensamento científico interdisciplinar com vocação nacional, quer dizer, orientado a sua diferenciação, orientado a fundamentar sua identidade. Deve ser um pensamento complexo não somente para entender um mundo complexo. Deve ser acima de tudo um pensamento concebido para diferenciar e complexificar (toda diferenciação é uma complexificação) o espaço nacional.

A forma de produzir inteligência na Venezuela deverá ser distinta e até contraditória em relação a países que ocupam outras posições hierárquicas na (des)ordem internacional. A forma de produzir Inteligência deverá refletir com extrema exatidão a natureza da Ideia que hoje anima este país. A produção de Inteligência Estratégica deverá expressar uma vontade nacional com um conteúdo muito diferente. Estará orientada a produzir conhecimento destinado a modificar a posição insignificante que ocupa a Venezuela no mundo, logo de décadas de manipulações "democráticas" e de "penetrações" institucionais.

Porém como na Venezuela não se elabora Inteligência Estratégica, o governo atual não percebe a verdadeira natureza da agressão. Nessa Europa governada por essa estranha confluência entre a "esquerda do centro" e o "centro da esquerda" (ou "terceira via") se está desenvolvendo uma hostilidade crescente frente a nova singradura histórica empreendida pela Nação Venezuelana. Essa hostilidade é como uma tempestade que assoma no horizonte, pelo momento estética e cultural: ainda não transcendeu ao plano do estritamente político.

Essa percepção europeia sobre a Venezuela de hoje não é em absoluto acidental. Todo o contrário, ela está no núcleo da "nova cultura" que informa esse cosmopolitismo desordenado e anárquico chamado "Nova Ordem Mundial". Quer dizer que não está baseada somente na ignorância do que em realidade está passado nesses momentos na Venezuela. É uma "concepção do mundo" - a atual - e reflete o resultado de uma extraordinária acumulação de preconceitos negativos, que se traficam no mercado sob a forma de "conhecimento acadêmico": uma das novas ciências despóticas que é já a razão de ser dessa nova ordem.



Dentro dessa "nova cultura" deve ser analisado.

O "caso" Vargas Llosa

O Presidente se equivoca totalmente ao pretender singularizar essa situação. Não estamos diante de um ataque pessoal senão institucional. Dentro da ridícula dicotomia atualmente vigente, é uma reação natural do "mundo pós-histórico" perante perturbações em princípio incompreensíveis que ocorrem no "outro mundo", no dos Estados que ainda vivem no nível da proto-história". E essas perturbações são especialmente desagradáveis porque parecem indicar a presença de situações que haviam sido definidas pela dogmática neoliberal como "politicamente incorretas": a história parece que não discorre sempre pelo mesmo caminho, nem mesmo podemos estar seguros de que haja um encerramento ou final da mesma, o que deixaria ao "mundo central" literalmente desprotegido: nem pós-história salvacionista nem proto-história condenatória (segundo nos asseguravam até há pouco os teólogos da nova ordem, os que punham o "céu" no primeiro mundo e o "inferno" no terceiro).

No início do ano 1992, poucas horas depois de se produzir o golpe de Estado militar, se inicia na Argélia uma carnificina que dura até os dias de hoje. Os detalhes desse processo, terroríficos e de dar calafrios, deixaremos de lado neste informe. O exército argelino, "laico e democrático", educado "à francesa", havia desalojado do poder, e pela força, o partido popular que havia triunfado ampla e democraticamente nas eleições anteriores de 1991, a Frente Islâmica de Salvação.

Todos os intelectuais europeus "progressistas" apoiaram, desde um primeiro momento, esse golpe militar. Sem mencionar nem o gás nem o petróleo, se assinalou em câmbio os enormes perigos que significaria um país do Mediterrâneo ocidental em mãos dos "fundamentalismo islâmico". Os militares eram, por sua vez, o braço armado do pequeno setor secularizado da sociedade argelina. E, portanto, uma projeção da cultura europeia. Carecia portanto de toda importância a opinião política da imensa maioria da população argelina não secularizada: em um sentido estrito essa maioria pertencia à proto-história (eram os habitantes de um inferno muito particular). Foi assim como um dos principais países do Magreb, principal provedor de gás e petróleo de França e Espanha, a pouco mais de 1 hora de voo desde Paris, começava sua Via Crucis militarista, abençoada pelo progressismo secular europeu.

Em 9 de fevereiro de 1992 o senhor Mario Vargas Llosa publicou no "El País" de Madri um artigo de opinião chamado "Deus ou a Espada?" (era a época em que o escritor peruano estava gestionando sua nacionalidade espanhola, que finalmente veio da mão do próprio Felipe González). Ali não só se solidarizava com os militares argelinos laico-golpistas, como ensaiava uma justificativa completa dessa operação:

"A democracia é impossível sem um avançado processo de secularização que dissocie o poder político do religioso. Nos países majoritária ou totalmente muçulmanos, a secularização não existe. E ao amparo de uma religião dogmática e onipresente em todas as manifestações da vida, é inevitável que prosperem as ditaduras, expressão natural daquela maneira de pensar e crer".

Ante a opção de uma eventual "ditadura anti-secular", que ainda, certamente, não se havia realizado, os intelectuais pós-históricos não vacilam: propõem uma ditadura secular "prê-à-porter", apoiada no racionalismo europeu, contra uma população que havia sido espaço colonial exprimido por esse racionalismo "humanista".

Porém os embates do espanholizado Vargas, membro proeminente da seita Moon, principal porta-bandeira do capitalismo selvagem, não terminam na estigmatização do Islã. O catolicismo é também um dos grandes responsáveis de que haja ditadoras no mundo não islâmico. Se não fosse pela Reforma Protestante o cristianismo seria tão ou mais opressivo que o Islã:

"O cristianismo não foi menos dogmático e onipresente que o Islã e, sem reforma protestante e o que ela trouxe consigo - justamente um irreversível processo de secularização no Ocidente - todavia estaria talvez queimando hereges, censurando livros impróprios e provendo uma cobertura moral e filosófica para o absolutismo dos príncipes". (Vargas Llosa, op.cit, "El País", 9.2.92).

Como vemos sua visão do mundo é em um todo coerente com a fundamentação história das origens do capitalismo, enquanto sistema, "fim da história". Não só resgata o "progresso" da "Reforma", quer dizer, da legalização da usura; assim mesmo assinala, dentro da mais pura tradição historiográfica do judaísmo (os sócios majoritários dos "reformistas" ou evangélicos), a perversão intrínseca do catolicismo romano.



Sem perceber que o governo de Chávez parece ser mais evangélico que católico, arremete contra o processo venezuelano, o qual hoje não dispõe de

Uma resposta geopolítica às agressões exteriores

Até o fim do Congresso do Panamá o Libertador Simón Bolívar se encontrava no ápice de seu poder. Era Presidente da Grã Colombia, Ditador do Peru e Presidente da Bolívia, o que significava que exercia o poder direto em seis das hoje inviáveis repúblicas da atual "América Meridional". Porém ademais, o general Guerrero, no México, lhe havia oferecido o cargo de "Generalíssimo dos Exércitos Americanos" e a então República da América Central, logo fraturada em cinco mini-estados, ordenava colocar seu retrato em todas as repartições públicas. Depois da batalha de Carabobo a República Dominicana se incorpora à Grã Colombia, enquanto a ilha de Cuba lhe envia representantes para buscar ajuda. No longínquo sul, a Legislatura da Província de Córdoba, hoje território da moribunda Argentina (segundo Estado da República Federativa do Brasil graças ao Mercosul), resolvia "levantar tropas para proteger os povos oprimidos, pondo-se de acordo com o Libertador Bolívar, por meio de um enviado encarregado de promover uma negociação nesse sentido". Em meio às sangrentas guerras civis argentinas, a ideia de uma Confederação Americana abria caminho com a energia liberadora de uma força magnética.

Nesse momento mágico de nossa história, onde tudo fosse possível, os alarmes se acenderam em Londres. O plano original, o que elaborara Pitt junto a Miranda anos antes, não era esse. As grandes lojas maçônicas inglesas, esses lobbies positivistas para-religiosos do capitalismo britânico, aspiravam à destruição dessa vasta, complexa e extraordinária arquitetura geopolítica que representavam as províncias americanas espanholas. Seu objetivo era produzir republiquetas - mais ou menos como as atuais - cada uma delas centripetamente ligadas ao mercado inglês e sem nenhuma relação entre si. Isso era básico e fundamental. A ideia da Confederação da América Meridional, o grande desenho geopolítico do Libertador nessa etapa - necessariamente final - de sua vida, produzia uma profunda inquietude em Londres, em especial na elite da burguesa, a Maçonaria de Rito Escocês, que foi a que havia impulsionado e seguiria impulsionando, o ritmo exato dos acontecimentos europeus, e buscando sempre seu "equilíbrio", a "independência latinoamericana".

É assim que se produz a queda e a morte do Libertador, apenas alcançado o momento de seu máximo esplendor e poder. Para realizar essa operação Londres recorre de imediato à segunda linha de seus quadros, os grandes traidores da Pátria Americana, os "próceres" de sua fratura e minimização: em definitiva, os representantes ilustrados dos grandes portos centrífugos do continente: Valparaíso, El Callao, Guayaquil, Cartagena, La Guaira, Puerto Cabello, Montevideo e Buenos Aires. É essa oligarquia exportadora a que termina por definir a seu favor - que é o da "civilização" - as guerras civis; é ela, aqui e lá, a que traça fronteiras irracionais, fronteiras contra natura (as mesmas que ainda hoje nos agoniam), e são eles, nossos "pais" oficiais da pátria pequena e miserável, os que lumpemproletarianizam até à selvageria a cada um de seus povos. Cada uma dessas oligarquias se fortalece, independentemente das outras, porém a cada dia, todas e cada uma delas, privilegiando sua dependência com Londres.

Assim estamos hoje. As velhas lojas de Londres com poder decrescente perante os vigorosos lobbies norteamericanos, em especial os da Costa Leste... Republiquetas inteiras agonizam porque sua inviabilidade é manifesta. Como é o caso da Argentina, que foi o banco de provas do experimento mais extremo de neoliberalismo em toda a América Meridional. Todas as falsas "integrações" também estão em crise. Talvez haja chegado o momento de ensaiar a única integração possível: a bolivariana. Ela implica por em marcha povos e exércitos (e não meras questões "econômicas"), e pensar, em definitiva, em um governo para toda a América Meridional. É necessário revalorizar velhos conceitos, como o da "Grã Colombia" e o da Argentina Andino-Pacífica. Será da confluência de ambos de onde sairá nosso espaço geopolítico liberado: nossa única possibilidade de sobrevivência.

As questões geopolíticas são projeções essenciais da política interior venezuelana, já que elas são elementos básicos e determinantes da viabilidade da Nova Venezuela. A oportunidade é única: os povos estão pauperizados e enganados, e portanto politicamente vacantes; e os exércitos castrados, destruídos e humilhados, ergo, angustiosamente necessitados de lideranças. É o aspecto estratégico da revolução o que nunca se deve perder de vista. Se o processo venezuelano não alcança uma projeção continental em um "tempo" histórico razoável, morrerá por asfixia, por causa das pressões, realizadas por um mundo hostil falsamente globalizado, que em algum momento se converterão em insuportáveis.


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