sábado, 8 de outubro de 2011

Teoria do Dissenso

por Alberto Buela

"O dissidente não aspira a cargos oficiais, nem busca votos. Não trata de agradar ao público, não oferece nada nem promete nada. Pode oferecer, em todo caso, somente sua pele." (Vaclav Havel)

Esse trabalho fecha um périplo de vinte anos sobre a meditação e prática do dissenso que começou por volta de 1984 com uma conferência no Palácio dos Congressos de Versaillles (França) junto a pensadores como Julien Freund, Alain de Benoist, Guillaume Faye e Pierre Vial, entitulada L'Amérique hispanique contre l'Occident, e seguiu logo através da experiência, durante um quinquênio (1994-1999), com a revista de metapolítica Disenso, para concluir agora, neste ensaio.

Nossa tese é que o dissenso, acima de tudo desde as sociedades dependentes como a nossa, é o que permite criar teoria crítica, tanto em ciências sociais como em filosofia. E hoje, a mediocridade de ambas disciplinas radica nesta incapacidade de pensar criticamente. Ou o que é o mesmo, explica a vigência de um pensamento único que tem sua projeção política no politicamente correto, seja através do progressismo social-democrata, seja no neoliberalismo conservador. São estes, os dois braços da pinça político-ideológica que aprisiona o mundo que começa no século XXI.

Natureza do Dissenso

O acesso etimológico que permite-nos o termo dissenso é o seguinte: provém do verbo latino dissero: examinar, discutir uma matéria, que transforma-se no substantivo dissensus que significa outro sentido.

O prefixo dis (...) significa oposição, enfrentamento, contrário, outra coisa. Assim temos por exemplo os vocábulos "disputar" que originalmente significa pensar diferente, ou "desprazer" que equivale a desagrado, ou "disjuntivo" que é não estar junto, estar separado.

Dissenso significa, antes que nada, outro sentido, divergência, contrário parecer, desacordo.

Existe muito pouca literatura acerca do dissenso (1) e a pouca que existe, vem desde o pensamento institucionalmente aceito, com o qual o dissenso está caracterizado negativamente: "O dissenso é negativo porque sempre está referido a um consenso prévio" e vinculado às minorias: "uma das características de toda minoria é uma atitude de dissenso".

É óbvio que não compartilhamos em nada desta classificação interessada e parcial do dissenso. Pois, dissentir, não é somente negar um acordo senão que é, acima de tudo, pretender outro sentido ao que atualmente possuem as coisas e as ações dos homens e o mundo que rodeia-nos.

Dissentir é uma atitude livre, pessoal ou coletiva, de afirmar outra coisa à proposta. Psicologicamente é a primeira atitude do homem, ao reconhecer-se como outro distinto do pai, para converter-se em adulto. O dissenso enriquece o obrar humano e consolida uma sociedade plural, ao mesmo tempo que invalida qualquer tentativa homogeneizadora ou totalitária.

Muitos vinculam o dissenso com a discrepância entendida como negar o consentimento a algo ou alguém. Ao contrário, para nós o dissenso não esgota-se no afirmar o que não quer-se (na negação) senão que logra sua plenitude no pensamento (teoria alternativa) e a atitude (prática) não conformista à dada. É a origem do pensamento e da conduta alternativa à ordem ou à normalidade constituída.

É que o consenso, sabemo-lo até a saciedade, apesar da opinião dos progressistas ilustrados, não pode servir como fundamento da legitimidade política da democracia porque sempre é o resultado de um acordo de partes com poder na sociedade (racionalidade estratégica, que vem a responder à pergunta de Lênin: Quê fazer?) que pode conduzir, e de fato ocorreu uma infinidade de vezes na história do mundo, a resultados aberrantes.

A contrariu sensu, surge então o dissenso em sua função ético-política por antonomasia, como origem da legitimidade política da democracia pluralista e participativa, e não já democracia acordista, de pactos ou lojas, que caracterizam-se por tomar as decisões antes da deliberação. Isto é, transformam à deliberação das partes em um simulacro pour la galerie.

"Em todo dissenso, afirma o filósofo Wagner de Reyna, há um enfrentamento, uma contradição insalvável, e assim resulta o contrário da dialética, que antecipa a síntese que vislumbra - complácida e saudosa - no horizonta... Detrás do conteúdo lógico do dissenso sempre há uma necessidade - axiologicamente fundada no insubornável - de fazer vencer a verdade. Nada mais longe disso que a tagarelice - falar por falar e discutir por discutir - e que a jovial disposição a um compromisso que não compromete a nada. Assim é o tão celebrado consenso."

A dialética tanto em Hegel como em Marx é um produto da modernidade, em sua base está a velha idéia de progresso do Abade de Saint Pierre. Falando filosoficamente a estrutura da aufhebung sein, é um suprimir que conserva para superar e não a simplicidade intelectual a que tem-nos acostumado os manuais de filosofia de explicá-la pela sucessão da tese, antítese e síntese, conceitos por outra parte, que Hegel jamais utilizou.

No que concerne sua qualidade ética, o dissenso não depende somente do negado, vgr., os cidadãos norteamericanos dissentem com o envio de tropas ao Iraque, senão que depende também, e fundamentalmente, do conteúdo da proposta realizada pelo dissidente ou não conformista, porém como os cidadãos do exemplo não tem uma proposta alternativa, ficam na negação, sua atitude enquadra-se melhor no que seria uma oposição ou uma rebelião e não uma dissidência.

Isto é importantíssimo para compreender o porquê da crítica desde a esquerda à teoria do dissenso no sentido que este não leva em conta a dialética, ou pior ainda, afirmam que é contrário à dialética porque fica na negação e não passa à negação da negação, núcleo e sentido do método dialético.

O dissenso para eles é reduzido a uma infinidade de sucessões dicotômicas de negação onde não está pensada a superação das próprias sequências. Porém repetimos, que o dissenso não esgota-se na negação senão que exige, tal como nós apresentamos e entendemos, a criação de outro sentido ao dado, ao do stato quo reinante ou vigente.

No dissenso a superação da negação não dá-se como no livro de receitas marxista, porque as leis mesmas do movimento do mundo real expressam-se na dialética, senão porque o dissidente quando dissente oferece sua pele, segundo a citação de Havel. A superação da negação é existencial.

Quando dissente-se é porque de facto já está-se fixado em outra realidade distinta que a vigente. O dissenso não esgota-se como batalha ideológica-cultural senão que ao nascer de um pensamento situado exige tanto uma prática política como uma prática pessoal.

Em definitiva, a qualidade moral do consenso como do dissenso não deriva do ato de consentir ou dissentir, erro do progressismo ilustrado para quem o consenso é bom e o dissenso é mau, senão do assunto a que aplicam-se estes atos.

Dissenso, transgressão e rebelião

Costuma-se confundir estas três noções, seja por serem próximas, seja por interesse.

A transgressão produz-se, em geral, sobre normas, pautas ou leis já estabelecidas e de uso regular que o transgressor não respeita ou viola. Isto ele faz explícitamente, como um ato de sua vontade, e não por desídia ou abandono, vgr., o hábito juvenil de conduzir na contramão em ruas e avenidas.

A transgressão costuma ser de natureza leve e não grave. Em grupos marginais e adolescentes é onde recrutam-se a maior quantidade de transgressores. Inclusive não perdura muito no tempo; é epocal e supõe um quantum de imaturidade psicológica. Outro de seus traços é seu caráter urbano ou suburbano.

Ao contrário, o rebelde é, em geral, "o encoberto", como sagazmante fez notar Ernst Jünger em Tratado do Rebelde (1951): "Duas qualidades dão-se no encoberto (Waldgänger). Não consente que nenhuma superioridade prescreva-lhe a lei, nem pela propaganda nem pela força". A figura emblemática do rebelde é Robin Hood. O recurso à floresta é uma nova resposta da liberdade, ante a liberdade que a tirania domesticou. O rebelde questiona o sistema porém fica limitado a sua ação pessoal. Carece de um projeto de nação. A rebelião é sempre de poucos, porque poucos são os autênticos rebeldes, porque poucos podem recorrer ao bosque como assento da liberdade e viver nele.

Ao classificar o dissenso como negativo, tal como faz o pensamento politicamente correto, equipara-o à transgressão e à rebelião pelo que tem de negativo estas duas atitudes ante a ordem constituída. Porém o dissenso, como vimos, vai mais além da negação de uma realidade com a qual não comunga-se.

O dissenso é propôr, como seu nome indica, outro sentido, um sentido diferente do que, atualmente, portam as coisas e as ações dos homens sobre elas. O dissenso exige um projeto distinto ao vigente para não ficar na transgressão ou rebelião; somente na negação. E esse, é seu sentido mais profundo e aquilo que torna perigoso para os satisfeitos do sistema: permite criar teoria crítica sobre o homem, o mundo e os problemas que rodeiam-o. Qualidade que nem a transgressão nem a rebelião possuem.

Dissenso como método

Devemos lograr uma interpretação genuína do que acontece e sucede a nós, não filtrada por uma ideologia determinada. Apenas isto permite-nos o dissenso como método, acima de tudo dado nosso caráter de ecúmene dependente - a iberoamericana - na produção de sentido do que ocorre no mundo.

O ilustre filósofo escocês Alasdair MacIntayre propõe acertadamente que: "Um dos traços mais chamativos das ordens políticas modernas é sua carência de foros institucionalizados dentro dos quais os conflitos e desacordos sociais possam investigar-se sistematicamente, assim como a ausência de qualquer tentativa para resolvê-los. Com frequência, os próprios fatos do desacordo passam inadvertidos, disfarçados por uma retórica do consenso".
  
A primeira coisa que deduz-se deste suculento parágrafo é a denúncia das "mesas de consenso ou diálogo", o mecanismo tão peculiar dos regimes social-democratas que, em lugar de partir do dissenso e aceitar a existência do conflito na sociedade, partem por princípio do consenso, com o qual não somente põem a carroça diante do cavvalo senão que lugram "disfarçar o conflito com a retórica do consenso", segundo a citação. Por outra parte e isso mostra o outro traço típico do progressismo: os problemas sociais ordenam-se porém não resolvem-se. Ao existir "a ausência de qualquer tentativa para resolvê-los" espera-se que uma espécie de força das coisas vá resolvendo-os.

Afirmando este mesmo sentido o filósofo italiano Massimo Cacciari é ainda mais contundente quando diz: "ao que sente-se obrigado o político pós-moderno apoiado na idéia de pax apparens é a organizar o conflito, a receber as demandas, porém não a soluciona-las".

E em segundo lugar, deduz-se a recuperação da idéia de dissenso como instrumento metodológico na criação de teoria crítica nas sociedades de hoje. O pensamento não conformista, que pretenda ser crítico está obrigado, não a negar a existência, o que seria estultícia, senão a negar a vigência das megacategorias de dominação - pensamento politicamente correto, único, homogeneização cultural, globalização, igualitarismo, dessacralização, etc - para propôr outras diferentes, distintas, diversas.
Todo método é um caminho para chegar a alguma parte. O dissenso como método parte, não há da descrição do fenômeno como a fenomenologia, senão da "preferência de nós mesmos". Parte-se de um ato valorativo como uma rejeição rotunda à neutralidade metodológica, que é a primeira grande falsidade do objetivismo científico, seja o proposto pelo materialismo dialético seja o do cientificismo tecnocrático. Rompe com o progressismo do marxismo apra quem toda negação leva em si uma superação progressiva e constante. Pelo contrário o dissenso não é onisciente, pode dizer "não sei", e assim, ao ser o método do pensamento popular, pode negar a vigência de algo sem ter necessidade de negar sua existência.

A preferência realiza-se a partir de uma situação dada, um locus, histórico, político, econômico, cultural. Em nosso caso a América do Sul ou a Pátria Grande. Isto reclama ou exige o dissenso, um pensamento situado, como acertadamente falou a filosofia popular da liberação com Kusch, Casalla et alli, e não a filosofia marxista da liberação (Dussel, Cerutti, e outros) que é um ramo europeu transplantado na América.

Tem como petição de princípio o hic Rhodus, hic saltus (aqui está Rodes, aqui há que dançar) de Hegel ao começo de sua Filosofia do Direito. Somente desde um lugar determinado pode-se apresentar genuinamente o dissenso, porque ao apresentá-lo desde uma "universalidade abstrata": por exemplo, a humanidade, os direitos humanos, a igualdade, etc, etc. faz-se merecedor da crítica desconfiada da esquerda em geral, que vê no dissenso um perigoso desvio reacionário-populista.

Uma vez que dissemos quem somos, desde onde apresentamos as questões e qual é nosso contexto, quer dizer, uma vez que apresentamos as difereças, podemos passar à segunda etapa ou etapa resolutiva. Em primeiro lugar apresenta-se a questão de qual seja o sentido dos entes e dos existentes. A relação homem-mundo. Isso leva-nos a um segundo momento, o da dissensão propriamente dita com os relatos e sentidos que como pensamento único vem-nos dados por outros, homens e interesses, que não são nem nossos interesses nem nós, para concluir em um terceiro momento na construção de um relato genuíno, seja filosófico, político, econômico, religioso, cultural, científico ou tecnológico.

Os passos do dissenso como método, didaticamente expostos são:

Primeira etapa: O método como propedêutica

1 - Preferência de nós mesmos (parte-se de um ato valorativo);
2 - Genius loci (o desde onde);
3 - As tradições nacionais de nossos povos (as tradições vivas, não as mortas).

Segunda etapa: A projeção do método na direção do homem, do mundo e seus problemas, segundo ensinou dom Miguel Angel Virasoro (1900-1967), o metafísico argentino por antonomasia.

1 - a pergunta pelo outro e pelos outros (homem-mundo);
2 - a dissensão (os problemas);
3 - a superação do dissenso: em busca da construção de nosso própri relato.

O dissenso como pensamento popular

Observe-se que um pensamento não conformista não nega a existência do que realmente existe, e nisso é um realismo crítico, senão que para afirmar-se deve negar a vigência, a pretensão de universalidade de ditas categorias. E aqui é quando o não conformismos aproxima-se ao pensamento popular, que sabe, antes de tudo, o que não quer, dado que a negação nele funciona negando a vigência das coisas que afetam-o negativamente. Coloquemos um exemplo, ainda que sempre problemático, a globalização existe e não há dúvidas disso; o pensamento popular não nega sua existência, porém como não entra dentro de seus interesses, o que nega é sua vigência, e segue vivendo a seu modo ou como pode ou permitem. É sabido que somente a vigência das coisas e das idéias , mais além de sua existência, afeta a vida dos homens e dos povos. A idéia de vigência está vinculada à de vigor e aqui quer significar aquilo que tem vigor e observância sobre o homem. Vigente é aquilo que implica-o.

Hoje situar-se à esquerda ou à direita é não situar-se, é colocar-se em um não-lugar, acima de tudo para o pensador (rechaçamos de imediato o termo "intelectual") que pretende elaborar um pensamento crítico. E o único método que hoje pode criar pensamento crítico é o dissenso. Dissenso não somente com o pensamento único e politicamente correto senão também e acima de tudo, com a ordem constituída, com o statu quo vigente e isto exige a prática existencial do dissenso. Neste aspecto o dissenso vincula-se politicamente à resistência ao regime vigente e no âmbito pessoal à virtude da fortaleza, que segundo os velhos filósofos, define-se mais pelo sustinere (suportar, resistir) que pelo agredere (agredir, golpear).

O dissenso é estruturalmente uma categoria do pensamento popular, na medida em que o consenso, como vimos, é uma apropriação da esquerda progressista, historicamente distanciada do popular, que pretende conquistar a democracia deliberativa que tem muito de ilustrada, e também, ainda que em outro sentido, propriedade do liberalismo, como acordo dos que decidem, dos poderosos (G8, Davos, FMI, Comissão Trilateral, Bilderbergers, etc.).

O dissenso que manifesta-se como negação tem distinto sentido no pensamento popular que no culto. Neste último, regido pela lógica da afirmação, a negação nega a existência de algo ou alguém, na medida em que no pensamento popular o que nega-se não é a existência de algo ou alguém, senão sua vigência, entendida como validade, como sentido. O dissenso nega o monopólio da produtividade de sentido aos grupos ou lobbies de poder, para reserva-la ao povo em seu conjunto, mais além da partidocracia política.

A alternativa hoje é situar-se mais além da esquerda e da direita. Consiste em pensar a paritr de uma radicação, de nosso genius loci diria Virgílio. E não uma radicação qualquer senão desde as identidades e tradições nacionais, que conformam as ecúmenes culturais ou regiões que constituem hoje o mundo. Com isto vamos mais além inclusive da idéia de Estado-Nação, em vias de esgotamento, para submergir-nos na idéia política de grande espaço, de Pátria Grande, e cultural de Ecúmene.

Desde estas grandes regiões é que é lícito e eficaz propor-se o enfrentamento à globalização ou, mais especificamente à norteamericanização do mundo. Fazê-lo como pretende o progressismo desde o humanismo internacional dos direitos humanos, ou desde o ecumenismo religioso como ingenuamente pretendem alguns cristãos, é fazê-lo desde um universalismo mais. Com o agravante de que seu conteúdo encerra um aspecto louvável, a fraternidade universal, porém vácuo, inverossímil e não eficaz à hora do enfrentamento político.
Porém este enfrentamento está dando-se também, apesar da falência dos pensadores em não poder elaborá-lo ainda, através do surgimento dos diferentes populismos, que mais além dos reparos que apresentam a qualquer espírito crítico, estão cambiando as categorias de leitura. Assim a oposição entre burgueses e proletários da esquerda classista vai sendo substituída pela de povo vs. oligarquias, porque o pensamento popular não pensa a sociedade desde lógica de classes, senão que sua principal contradição é povo vs. antipovo ou oligarquias acima de tudo financeiras e as categorias de esquerda e direita vão sendo substituídas pelas de justiça e segurança. Assim os governos de esquerda exaltam a justiça e os de direita privilegiam a de segurança.

E, enquanto que desde a esquerda progressista a crítica à globalização limita-se a reclamar que seus benefícios econômicos não fiquem reduzidos somente a uns poucos senão que expandam-se a toda a humanidade, desde os movimentos populares vem-se gastando centenas de resposta alternativas ao "mundo uno", vgr., o banco dos pobres, a multiplicação de cooperativas, a administração de fábricas abandonadas por seus donos, os miniempreendimentos, etc, etc.

A esquerda, por seu caráter internacionalista não pode denunciar o efeito de desenraizamento sobre as culturas tradicionais, porque não crê nelas, nem sobre as identidades dos povos, pois por seus princípios ideológicos, os proletários e os burgueses são iguais em todas as latitudes. Sua denúncia transforma-se assim, em um reclamo formal para que a globalização vá unida aos direitos humanos e à distribuição de riqueza.

É desde os movimentos populares que realiza-se a oposição real às oligarquias transnacionais. É desde as tradições nacionais dos povos onde melhor mostra-se a oposição à sociedade global sem raízes, a esse imperialismo desterritorializado do que falam ideólogos progressistas como Hardt e Negri.

É desde o elogio do dissenso, da atitude não conformista que rechaça a imposição de um pensamento único e de uma sociedade uniforme, e denuncia a globalização como um mal em si mesmo.

É que o pensamento popular, se é tal, pensa desde suas próprias raízes, não tem um saber livresco ou ilustrado. Pensa desde uma tradição que é a única forma de pensar genuinamente segundo Alasdair MacIntayre, dado que, em definitiva, "uma tradição viva é uma discussão historicamente desenvolvida e socialmente encarnada".

Deste modo resulta impossível aos povos e aos homens que encarna-os situar-se fora de sua tradição. Quando fazem-o desnaturalizam-se, deixam de ser o que são. São já outra coisa.
Consenso vs. Dissenso

Desde o ponto de vista lógico ambos são termos relativos um a outro, assim, como pai é do filho, ou alto de baixo, o dissenso é sempre de um consenso, e o consenso é sobre um dissenso, porém na prática quotidiana, seja política ou pessoal, o consenso apresenta-se como acordo de partes para o logro de uma finalidade comum e o dissenso, não tanto como a negação ao acordo, senão mais bem como a pretensão de outorgar outro sentido, um sentido diferente, distinto, alternativo, não conformista ao dado, ao que está presente.

Outra diferença é que a idéia de dissenso esteve, ao menos até uns anos atrás, desacreditada teoricamente, pois a idéia de consenso esteve e está avalizada e reforçada pelos professores de nossas universidades, academias e pela massa dos jornalistas semicultos, estes novos intelectuais que conformam a pátria locutora, e que adotaram-a como ideologia indiscutível e inquestionável.

O texto que mais influenciou todos eles estes últimos anos é Teoria da Comunicação, de Jürgen Habermas e os complementares Direito e Democracia, e Facticidade e Validade.

Para este autor, última voz da escola neomarxista de Frankfurt (Apel, Adorno, Cohen, Marcuse), tornado agora socialdemocrata, a complexidade social e as crescentes desigualdades apresentam hoje os maiores desafios para a democracia e estes desafios somente podem ser superados criando novos foros e assembléias onde os cidadãos deliberem e discutam juntos, assim com esta "democracia discursiva" chegaremos ao consenso democrático que permitirá a resolução dos problemas. Deste modo, "o consenso é norma adequada para criar teoria crítica hoje", segundo a expressão de seu discípulo James Bohman.

Esta concepção mostra-se assim herdeira direta das sociedades de idéias da Revolução Francesa, e estas sociedades - coração do jacobinismo - por definição não pensavam senão que falavam. A ideologia, observa François Furet, historiador dissidente da história oficial francesa, não pensa-se porque pode correr o risco de ser criticada senão que ela é toda conversada mediante seus intérpretes como verdade socializada através do assembleísmo e expressa-se na religião do consenso (8).

Claro está, nem uma só palavra acerca de quem detenha o poder. Como o filme de Marcelo Mastroiani, Disso não se fala.

Isto de não ocupar-se do poder, limitando os temas à engenharia política ou a assuntos culturais, vem a explicar porque nos centros acadêmicos de maior excelência percatam-se de que "isto não serve mais" e vem-se produzindo a substituição da sociologia, enquanto hermenêutica social, pela politologia como hermenêutica do poder.
Assim o pensamento consensual por boca dos gurus da vez diz-nos que a crise de representatividade política radica na corrupção dos políticos e propõe múltiplos mecanismos para purificá-los: não repetição dos mandatos, declarações juradas de bens, etc, etc., mecanismos que não são por si só ruins, porém que não chegam ao âmago do problema, pois são pensados desde um pensamento acrítico, desde o pensamento conformista.

Pelo contrário, pensar desde o dissenso implica caracterizar a crise de representatividade política não como uma falha dos meios em sua construção, o qual não é falso porém não é suficiente para especificá-la, senão porque o que está em jogo é a anulação da política dado que cessou o princípio de soberania das nações.

A mutilação da idéia de soberania nacional, arquivando o princípio que nada há sobre a nação mais que a nação mesma, anulou toda política nacional autônoma. De quê serve-nos eleger, melhorando os mecanismos de representação, hipoteticamente aos melhores, se as decisões políticas tomam-se desde os centros mundiais de produção de sentido que nos são alheios?

É interessante notar que o pensamento consensual ao não ser crítico, ainda que apresente-se como tal, adota a vanguarda como método, resumida esta atitude na frase: "se não somos profundos, ao menos não sejamos antigos", que traduz-se na bajulação dos seus e o silêncio para os que não pensam do mesmo jeito.

O pensamento dissidente deve fazer um duplo esforço, primeiro poder ser aceito como pensamento stricto sensu, pela opinião publicada, que como dissemos forma parte do pensamento consensual e, em segundo lugar, elaborar teoria crítica e não simplesmente teoria de demonização: por um lado os bons e por outro os maus. A realidade político-social é cada vez mais complexa e o dissenso tem que refletir em suas respostas e propostas a complexidade desta realidade.

Ante nossa atualidade é possível resgatar a função ético-política do dissenso que consiste aqui em expressar a opinião dos menos, dos diferentes, ante o discurso homogeneizador da ética discursiva ou comunicativa que somente outorga valor moral ao consenso.

Pois este pensamento consensual - discursivo e ilustrado - vem enquanto discursivo como um novo nominalismo a traçar as diferenças com palavras e não através da preferência ou postergação de valores, como faz o dissenso.

E enquanto ilustrado, somente permite a crítica daqueles pensamentos, os chamados politicamente incorretos, ou situações sociais que não encarnem os ideais ilustrados de igualdade e democracia. Assim, a crítica nunca vai dirigida aos modelos socialdemocratas senão aos que decididamente não são, como é na Iberoamérica hoje, o caso de Castro ou Chávez, mais além da acepção de pessoas.

O Dissenso como Prática

O papel dos dissidentes na prática do dissenso foi o motor no desenvolvimento da emancipação social a partir do século XVIII e na formulação dos direitos do trabalhador no século XX.

O importante na prática do dissenso não é a negação senão o que nega-se, dado que esta negação implica um compromisso existencial do dissidente.

Não existe nenhuma razão, salvo a conveniência pessoal, para que o homem em sociedade renuncie a suas idéias para fazê-las mais pareidas às do resto. Nada nem ninguém pode obrigar-nos a renunciar a nossas idéias somente para que assemelhem-se às do resto de nossos concidadãos.

A teoria do consenso, levada à prática desde uns trinta anos através do acordo dos grandes partidos políticos como o melhor que pode seceder a nossas sociedades, concluiu em um estrondoso fracasso, vgr., o consenso em Venezuela entre a democracia cristã e os socialdemocratas ou na Espanha entre o PP e os socialistas.

Os diferentes consensos terminaram fazendo o que impõe o neoliberalismo conservador, sendo suas consequências: maiores injustiças, insegurança, desemprego, pobreza, marginalidade, menor educação, menos saúde, pior qualidade de vida.

Até um pensador liberal do nível de Norberto Bobbio em um de seus últimos trabalhos dá-se conta das limitações do consenso quando afirma: "O dissenso é uma necessidade da democracia pois é o que pode fazer possíveis as promessas não cumpridas desta" (10). Assim ao caracterizar o dissenso não somente como possível senão como necessário para a democracia, Bobbio percata-se que o dissenso não limita-se a ser uma regra de jogo a mais da ordem democrática senão que cumpre a função positiva de abrir espaços onde possa-se manifestar o verdadeiro pluralismo social.

Hoje permite-se às massas de desocupados o dissenso pelo dissenso, expresso na violência pela violência mesma, ainda que sempre podada, localizada. O poder político pretende transformar o dissenso em mera transgressão.

Claro está, que o consenso, aquele status questionis ao qual deveria chegar o dissenso, já foi estabelecido de antemão, pelos poderes indiretos ou pelos lobbies alheios aos interesses dos povos e verdadeiros manipuladores de nossos minguados Estados nacionais carentes de soberania.

Isto é o que denominamos "falso diálogo", quer dizer, um diálogo que começa com o consenso como petição de princípio, escondendo de entrada somente as diferenças das partes e dos intérpretes. Este dissímulo, esta paródia malogrou as melhores iniciativas, porque partiu sempre, por razões ideológicas da "paródia do outro, ou do outro como um igual", ignorando que a única igualdade possível em um diálogo aberto e franco é a diferença. E esta manifesta-se sempre e de entrada no dissenso.

O consenso está estreitamente vinculado à idéia de tolerância liberal, aquela que introduz a idéia de dissímulo, de simulacro na política, pois a tolerância hoje, não é outra coisa que a dissimulada demora na negação do outro. Fazemos "como se" respeitássemos o outro, quando em realidade estamos dissimulando sua negação. E esta idéia de dissímulo, de simulacro encerra a quintessência da noção de ideologia entendida como conjunto de idéias que mascara a vontade de poder de um grupo, classe ou setor. Vemos como a idéia de consenso não é neutra, mas sim ideológica.

Desde a América Indoibérica a prática do dissenso realizamo-a soliteriamente, observamo-nos sozinhos, estamos de fato fora da ordem mundial "toda una", o que transforma nossa ação e pensamento em uma quebra da ordem estabelecida e a nós todos os dissidentes em marginais que devem ser ordenados segundo o modelo de one world, ou ser postos fora da humanidade.

Pensar e atuar desde o hispano criollo é pensar a partir do dissenso em relação ao pensamento único e politicamente correto que sustenta essa nova ordem mundial, da qual formam parte também as ideologias do indigenismo tão em voga em Nossa América.

E pensar a partir do dissenso é contravir e contradizer aos sustentadores conformistas da teoria do consenso que quere, como novos nominalistas, consertar a realidade com nomines, com palavras, com conversação. (Cfr. A idéia da democracia deliberativa de Habermas, Cohen e Bohman segundo a qual "os desafios modernos podem ser superados inventando novos foros nos quais os cidadãos deliberem juntos e façam uso público de sua razão").

E a título pessoal, a dissidência prática passa necessariamente pelo exercício quotidiano da virtude, não realizado de forma burocrática senão de maneira generosa e sacrificada. Romper diariamente com as solicitações do sistema e do meio ambiente é uma forma de ascese. Heidegger diz por aí, falando de como liberar-se da técnica "podemos usar os objetos técnicos, porém podemos deixá-los aí descansar, desembaraçar-nos (loslassen) e ter serenidade (Gelassenheit) para com as coisas" (11).

A dissidência como virtude resulta de um hábito criado pela repetição de atos de resistência ao sistema corruptor e totalitário que anula o homem mediante a televisão e a massificação, e reduz o mesmo à bestialidade.

Ademais, o homem hispano em suas múltiplas e variadas formas e encarnações sempre foi pessoa, nunca massa. É o absolutamente contrário a essa.

A ecúmene hispanoamericana é, substancialmente, disjuntiva à nova ordem mundial. Observe-se hoje, o cúmulo de teorias arbitrárias que querem explicar o avanço geográfico do castelhano. Sem ir mais longe em seu último trabalho (12) o publicitado ideólogo do homem white, anglosaxon and protestant, Samuel Huntington, expressamente sustenta que o mundo hispano é o inimigo da unidade e identidade estadounidense e não somente porque penetra-o com milhares de imigrantes senão porque seus valores são dissímiles, distintos, diferentes.

O consenso e seus cultores, a esquerda progressista e o neoliberalismo, sempre ficaram atados à idéia de contrato social, por isso hoje os mais atrevidos e "revolucionários" propõem um novo contrato social, como solução aos problemas atuais.

O dissenso prático-político hoje apresenta-se desde a comunidade, (Cfr. os novos comunitarismos) ou melhor dito, desde as comunidades, quer dizer, aqueles conjuntos de homens que não somente compartilham leis, línguas e crenças senão também valores e vivências históricas - lutas por ser no mundo - que são as respostas que tem que dar, e de fato estão fazendo, ponto a ponto ao modelo de one world. Porque ante um modelo totalizador não servem as respostas parciais senão correspondem respostas totalizadoras, holísticas diz-se hoje, em relação ao homem, o mundo e seus problemas.

São as instituições que a comunidade foi criando espontaneamente as que hoje respondem, inclusive apesar delas, às necessidades que o Estado privatizado deixou sem resolver. São as que, de alguma maneira, conservam e estancam o tecido social desgarrado em mil pedaços pela privatização do governo e da política.

Privatização que explica-se, porque os governos e os partidos políticos travestiram sua finalidade e trabalham para os interesses dos lobbies, seja executando políticas, seja sancionando leis contrárias ao bem comum geral do povo que levou-os ao poder.

Reinstalar a solidariedade no seio da comunidade é o primeiro e mais eficaz dos remédios à cretinização da vida pública e isso somente é possível com a reiteração habitual de atos solidários até criar uma segunda natureza no homem que cortou os laços da sociedade pós-moderna.

E se não podemos chegar, em uma sociedade secularizada como a nossa, até o outro como prójimo (semelhante), conformemo-nos com chegar ao outro como próximo, que não é pouco.

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1. - Cfr. Los trabajos de Javier Muguerza: Etica, disenso y derechos humanos, Bs.As. 2002 y Ernesto Garzón Valdés: El consenso democrático en Cuadernos electrónicos de filosofía N°0.-


2. – Wagner de Reyna, A. :Prólogo a Ensayos de disenso, Barcelona, Ed. Nueva República, 1999, p.5.-


3.-Jünger, Ernst: Tratado del rebelde, Buenos Aires, Sur, 1963, p.51.-


4. -MacIntyre, Alasdair: Justicia y racionalidad práctica, Barcelona, Eiunsa, 1994, P.20.-


5. - Cacciari, Massimo: Drama y duelo, Madrid, Tecnos, p. 63. -


6. -Kusch, Rodolfo: La negación en el pensamiento popular, Buenos Aires, Cimarrón, 1975. Especialmente el capítulo 6: El juego y la negación.-


7. -MacIntyre, Aladair: Tras la virtud, Barcelona. Crítica, 1987, p.274.-


8. - Furet, Francois: Pensar la Revolución Francesa, Barcelona, Petrel, 1980, p.226.- Especialmente el capítulo Agustín Cochin: La teoría del jacobinismo.

9.-La historia argentina presenta un claro ejemplo sobre la teoría del consenso cuando en 1891 hubo un acuerdo entre Mitre y Roca con motivo de las elecciones para la sucesión presidencial y proponían que el partido oficial, Autonomista Nacional(PAN), y la oposición, Unión Cívica, concurrieran a las elecciones con una lista única de candidatos que evitara la competencia. La política del acuerdo consistió en actos tendientes a suprimir la lucha electoral y en la distribución de los cargos antes del comicio.
La oposición al acuerdo por parte de Leandro Alem, provocó la división de la Unión Cívica y la creación de la Unión Cívica Radial(UCR), “que se quiebre pero que no se doble”  fue el legado de Alem antes de suicidarse en 1896.-

10.-Bobbio, Norberto: Futuro de la democracia, México-Bs.As, FCE. p. 49. -

11.-Heidegger, Martín: Serenidad, Barcelona, Ed.Serbal, p.27.-

12. -Huntington, Samuel: ¿Quién somos?, Barcelona, Paidós, 2004
(Cfr. el capítulo 9 sobre el reto hispano).

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