quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sobre o Perigo

por Ernst Jünger

Entre os sinais da época em que nós entramos agora pertence a crescente intrusão do perigo na vida diária. Não há acidente ocultando-se por trás desse fato mas uma mudança compreensiva no mundo interior e exterior.

Vemos isso claramente quando lembramo-nos que importante papel foi assignado ao conceito de segurança na época burguesa passada. A pessoa burguesa é talvez melhor caracterizada como alguém que coloca a segurança entre os mais altos valores e conduz sua vida de acordo. Seus arranjos e sistemas são dedicados a garantir seu espaço contra o perigo que às vezes, quando raramente uma nuvem aparece para escurecer o céu, manifesta-se à distância. Porém, ele está sempre ali: ele busca com constância elemental romper as represas com as quais a ordem cercou-se.


A peculiaridade da relação burguesa com o perigo encontra-se em sua percepção dele como uma contradição irresolúvel com a ordem, ou seja, como sem sentido. Nisso ele diferencia-se de outras figuras como, por exemplo, o guerreiro, o artista, e o criminoso, que possuem uma relação altiva ou vulgar com o elemental. Assim a batalha, aos olhos do guerreiro, é um processo que completa-se em uma ordem superior; o conflito trágico, para o escritor, é uma condição na qual o sentido mais profundo da vida deve ser compreendido muito claramente; e uma cidade em chamas ou assolada pela insurreição é um campo de atividade intensificada para o criminoso. Por sua vez, os valores burgueses possuem tão pouca validade para o crente, pois os deuses aparecem nos elementos, como a sarça flamenjante não consumida pelas chamas. Através do azar e do perigo impele-se o mortal na esfera superior de uma ordem mais alta.

O supremo poder através do qual o burguês vê a segurança garantida é a razão. O mais perto que ele encontra-se do centro da razão, mais as sombras escuras nas quais o perigo oculta-se disperam, e a condição ideal que é a tarefa que o progresso deve realizar consiste na dominação mundial da razão através da qual a fonte do perigo não apenas é minimizada mas ultimamente completamente secada. O perigoso revela-se à luz da razão como sem sentido e renuncia a sua reivindicação sobre a realidade. Nesse mundo, tudo depende da percepção do perigoso como o sem sentido, assim no mesmo momento em que ele é superado, aparece no espelho da razão como um erro.

Isso pode ser demonstrado em todo lugar e em detalhe dentro dos arranjos intelectuais atuais do mundo burguês. Revela-se claramente no projeto de ver o Estado, que sustenta-se na hierarquia, e a sociedade, com a igualdade como seu princípio fundamental e sendo fundada através de um ato de razão. Revela-se no estabelecimento generalizado de um sistema de seguros, através do qual não apenas os riscos da política externa e doméstica mas também da vida privada deve ser uniformemente distribuída e assim subordinada à razão. Revela-se ainda nos muitos e muito confusos esforços de compreender a vida da alma como uma série de causas e efeitos e assim remove-la da imprevisibilidade na direção de uma condição previsível, e assim inclui-la dentro da esfera na qual a consciência governa.

Nesse sentido a garantia da vida contra o destino, esta grande mãe do perigo, aparece como um problema verdadeiramente burguês, que é então sujeito às mais diversas soluções econômicas ou humanitárias. Todas as formulações de questões no presente, sejam estéticas, científicas, ou políticas em natureza, movem-se na direção da reivindicação de que o conflito é evitável. Caso o conflito não obstante emerja, como não pode, por exemplo, ser ignorado em relação ao fato permanente da guerra ou da criminalidade, então tudo depende de provar ser isso um erro cuja repetição deve ser evitada através da educação ou da iluminação. Esses erros aparece pela única razão de que os fatores daquela grande equação - o resultado da qual tem a população do globo tornando-se uma humanidade unificada e fundamentalmente boa, bem como fundamentalmente racional, e portanto também fundamentalmente segura - ainda não alcançaram reconhecimento geral. A fé na força persuasiva dessas opiniões é uma das razãos pelas quais o iluminismo tende a superestimar os poderes dados a ele.

Uma das melhores objeções que já foi levantada contra essa valoração é que sob tais circunstâncias a vida seria intoleravelmente tediosa. Essa objeção jamais foi de uma natureza puramente teórica mas sim foi aplicada praticamente por aquelas pessoas jovens que, na escuridão enevoada da noite, deixaram seus lares para buscar o perigo na América, no mar, ou na Legião Estrangeira. É um sinal da dominação dos valores burgueses que o perigo espreite na distância, "lá longe na Turquia", em cujas terras cresce pimenta, ou onde seja que o burguês gosta de deplorar por não conformar-se a seus padrões. Pois o desaparecimento completo desses valores, porém, jamais será possível, não apenas porque eles estão semprep resentes mas acima de tudo porque o coração humano necessita não apenas de segurança mas de perigo também. Porém esse desejo é capaz de revelar-se na sociedade burguesa apenas como um protesto, e de fato aparece, na forma de protesto romântico. O burguês quase foi bem sucedido em persuadir o coração aventureiro de que o perigoso não encontra-se de modo algum presente. Assim tornam-se possíveis figuras que dificilmente ousam falar sua própria linguagem superior, quer seja do poeta, que compara-se ao albatroz, cujas poderosas assas não são mais que o objeto de uma curiosidade entendiada em um ambiente estranho e sem vento, ou a do guerreiro, que aparece como um vagabundo porque a vida de um lojista enche-lhe de nojo. Incontáveis exemplos poderiam mostrar como em uma era de grande segurança qualquer vida lucrativa separar-se-á das distâncias simbolizadas por terras estranhas, intoxicação, ou morte.

Nesse sentido a guerra mundial aparece como a grande linha vermelha de equilíbrio sob a era burguesa, cujo espírito explicava - isto é, acreditavva-se capaz de invalidar - o júbilo dos voluntários que saudaram a guerra atribuindo-o ou ao erro patriótico ou a uma suspeita luxúria pela aventura. Fundamentalmente, porém, esse júbilo foi um protesto revolucionário contra os valores do mundo burguês; foi um reconhecimento do destino como a expressão do poder supremo. Nesse júbilo uma transvaloração de todos os valores, a qual foi profetizada por espíritos exaltados, foi completada: após uma era que buscou subordinar o destino à razão, outra seguiu-se que viu a razão como serva do destino. Desse momento em diante, o perigo não mais era o objetivo de uma oposição romântica; era ao invés uma realidade, e a tarefa do burguês era novamente recolher-se dessa realidade e escapar para a utopia da segurança. Desse momento em diante, as palavras paz e ordem tornaram-se um slogan ao qual uma moral mais fraca recorreu.

Essa foi uma guerra que não apenas nações, mas duas épocas conduziram uma contra a outra. Como consequência, ambos vencedores e vencidos haviam aqui na Alemanha. Vencedores são aqueles que, como salamandras, atravessaram a escola do perigo. Apenas esses resistirão em uma época quando o perigo, não a segurança, determinarão a ordem da vida.


Precisamente por essa razão, porém, as tarefas que a ordem deve realizar tornaram-se muito mais amplas do que antes; essas tarefas devem ser realizadas onde o perigo não é a exceção, mas sim constantemente presente. Como um exemplo, a força policial pode ser mencionada. Ela transformou-se de um grupo de funcionários públicos em uma formação que já parece-se bastante com uma unidade militar. Do mesmo modo os vários partidos grandes reconhecem a necessidade de adotar meios de poder que expressam o fato de que a batalha de opiniões não será decidida somente através de votos e programas mas também pelos adeptos comprometidos a marchar em apoio a esses programas. Tais fatos não devem de modo algum ser isolados e considerados como uma mudança temporária ou transitória na paisagem política. Nem pode a inclinação pelo perigo ser ignorada nas iniciativas intelectuais, e é inconfundível que novas formas do espírito vulcânico estão em operação. Fenômenos como a moderna teoria atômica, a cosmogonia glacial, a introdução do conceito de mutação na zoologia, todas apontam claramente, de modo completamente separado de seu conteúdo real, o quão forte o espírito está começando a participar em eventos explosivos. A história das invenções também levanta cada vez mais claramente a questão de se um espaço de conforto absoluto ou um espaço de perigo absoluto é o objetivo final oculto na tecnologia. Completamente à parte da circunstância de que dificilmente uma máquina, dificilmente uma ciência já existiu que não preencheu, diretamente ou indiretamente, funções perigosas na guerra, invenções como o motor de automóvel já resultaram em perdas maiores do que qualquer guerra, não importa quão sangrenta.

O que caracteriza especialmente a era na qual encontramo-nos, na qual entramos cada vez mais fundo a cada dia, é o relacionamento íntimo que existe entre perigo e ordem. Pode ser expresso desse modo: o perigo aparece meramente como o outro lado de nossa ordem. O todo é mais ou menos equivalente a nossa imagem do átomo, que é completamente móvel e completamente constante. O segredo oculto aí é um novo e diferente retorno à natureza; é o fato de que nós somos simultaneamente civilizados e bárbaros, de que nós aproximamo-nos do elemental sem termos sacrificado a acuidade de nossas consciências. Assim apresenta-se como duplo o caminho através do qual o perigo penetrou nossa vida. Ele interferiu sobre nós primeiro de tudo como uma arena na qual a natureza é ainda mais vital. Coisas, "as quais só eram possíveis na América do Sul", agora são familiares a nós. A diferença é que o perigo, a partir de uma dimensão romântica, tornou-se desse modo real. Em segundo lugar, porém, nós estamos envuando o perigo de volta por todo o globo em uma nova forma.

Essa nova forma de perigo aparece na conexão mais próxima realizada entre os eventos elementais e a consciência. O elemental é eterno: como as pessoas sempre encontraram-se em conflito apaixonado com coisas, animais, ou outras pessoas, como é o caso hoje. A característica particular de nossa era, porém, é precisamente que tudo isso transpira na presença da mais aguda consciência. Isso encontra expressão acima de tudo na circunstância de que em todos esses conflitos o mais poderoso servo da consciência, a máquina, está sempre presente. Assim o eterno conflito da humanidade com a natureza elemental do mar apresenta-se na forma temporal de um dispositivo mecânico supremamente complicado. Assim a batalha aparece como um processo durante o qual o motor blindado move-se enfrentando homens através do mar, da terra, ou no ar. Assim o próprio acidente diário, com os quais nossos jornais estão repletos, aparecem quase exclusivamente como uma catástrofe de tipo tecnológico.

Para além de tudo isso a maravilha de nosso mundo, ao mesmo tempo sóbrio e perigoso, é o registro do momento no qual o perigo transpira - um registro que é ademais realizado onde quer que ele não capture a consciência humana imediatamente, por meio de máquinas. Não necessita-se de qualquer talento profético para prever que logo qualquer dado evento estará lá para ser visto ou ouvido em qualquer lugar. Já hoje dificilmente há um evento de importância humana em direção ao qual o olho artificial da civilização, a lente fotográfica, não está dirigido. O resulto geralmente são fotos de precisão demoníaca através da qual a nova relação da humanidade com o perigo torna-se visível de modo excepcional. Deve-se reconhecer que é uma questão aqui muito menos da peculiaridade das novas ferramentas do que de um novo estilo que faz uso das ferramentes tecnológicas. A mudança torna-se iluminadora na investigação da mudança nas ferramentas que há muito tem estado a nossa disposição, como a linguagem. Ainda que nosso tempo produza pouco em termos de literatura no sentido antigo, muito de significância é realizado através de relatórios objetivos de experiência. Nosso tempo é instigado pela necessidade humana - o que explica, entre outras coisas, o sucesso da literatura de guerra. Nós já possuimos um novo estilo de linguagem, um que gradualmente torna-se visível sob a linguagem da época burguesa. O mesmo, porém, é verdadeiro de nosso estilo como um todo; ele é reminiscente do fato de que o automóvel foi por um longo tempo construído na forma de uma carruagem puxada por cavalos, ou de que uma sociedade completamente diferente já há muito estabeleceu-se sob a superfício da sociedade burguesa. Como durante a inflação, nós continuamos por um tempo a gastar as moedas usuais, sem sentir que a taxa de câmbio não é mais a mesma.

Nesse sentido, pode ser dito que nós já mergulhamos fundo em novos e mais perigosos reinos, sem estamos conscientes deles.

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