quinta-feira, 26 de maio de 2011

Cai a Noite sobre o Cabo Horn


por Jean Mabire

Durante toda a nossa juventude procurámos os caminhos difíceis. Vagabundeáramos pelos pólos onde as últimas manchas brancas do mapa do mundo flutuam como icebergs sobre o azul pálido dos atlas e dos mares frios. Seguíramos os cães de trenó, no Alasca, com os heróis de Jack London e perdêramo-nos, corpos e bens, ao largo da Islândia no «Pourquoi pas?» do comandante Charcot. Vivêramos com Byrd, Nobile, Scott e Amundsen. E choráramos de raiva sobre as velhas gravuras dos nossos livros de eleição porque os grandes veleiros apodreciam nos portos e nós não dobraríamos jamais o Cabo Horn à vela.

Ao dobrarem o Cabo Horn, os marinheiros d’outrora haviam conhecido a coragem e o que está para além da coragem, a alegria e o medo ao mesmo tempo. As ondas eram tão altas e a bruma tão espessa que deixávamos mesmo de ver as falésias cobertas de neve e esses rochedos que arrombavam os navios de Hamburgo, de Liverpool e de Bordéus…Existiram, dantes, homens nestas ilhas. Eram-nos mais estranhos que os da pré-história. Tripulantes nos navios dos nossos sonhos, não prestávamos atenção senão aos nossos capitães e aos nossos marinheiros. Eram os nossos irmãos maiores, homens dos nossos litorais. Falavam flamengo, bretão ou basco, como os pescadores dos pequenos portos onde passávamos as férias.

Em 1953 senti brutalmente, folheando as páginas de «La Nuit Commence au Cap Horn», o ardor do sal, o sibilo do vento, e essa vertigem da solidão no grande silêncio branco, quando nada parece sobreviver ao interminável crepúsculo polar. É um desses livros inolvidáveis que nos introduzem, como nunca, num outro universo. E esse universo é o nosso, a milhares e milhares de quilómetros das nossas costas temperadas. Banidos das nossas ruas e das nossas praias pelos pequenos intelectuais frágeis, pelo seu vício pobre, pelo seu amor imoderado aos proletários e ao Whisky, pelo seu snobismo social, não sabíamos mais em que exílio se encontravam os verdadeiros escritores. André Malraux não fazia já falar senão o silêncio e Montherlant desaparecia. Restava-nos o escutismo literário de Brasillach e Saint-Exupéry. Por vezes seguíamos os Hussardos nas suas cavalgadas, mas não tinham o fascínio dos cavaleiros de Hedjaz e do Arizona. Para nos perdermos no desconhecido refugiávamo-nos no cinema. 



E depois houve Saint-Loup. Que Furacão! Foi primeiramente o que vi neste livro: um sopro que vinha de um outro mundo, no outro lado da Terra. E este mundo era o nosso mundo, aquele da vontade de poder e do espírito de sacrifício, aquele dos homens que escolhem a sua aventura e se dão até à morte a um herói que trazem no fundo do seu coração e que não tem outro nome que o deles mesmo. O livro de Saint-loup cortava a árvore morta da literatura como um machado. Não se tratava já de julgar este homem segundo as regras habituais da crítica. Por fim estávamos para lá da escrita, numa alvorada incerta que anunciaria o despontar de um dia assombroso. Ao ler «La Nuit Commence au Cap Hord» tínhamos a impressão de regressar à superfície, rumo à luz e ao sol, como esses mergulhadores que lentamente emergem de águas tenebrosas. Não devia ser o único a deixar-me levar por este livro. Mesmo os especialistas sentiam a respiração cortada. E é a corrida aos prémios…Francis Carco lança o livro na lista dos «Goncourt». Muito rapidamente conquista metade dos votos. Colette telefona mesmo ao director literário das Edições Plon para lhe dizer que estava ganho e que «La Nuit Commence au Cap Horn» seria o prémio Goncourt de 1953.

Mas o «Fígaro Littéraire» (e imobiliário) publica uma nota revelando que Saint-Loup não é outro senão Marc Augier, antigo animador dos albergues de juventude, chefe de redacção de «La Gerbe» de Châteaubriant, combatente voluntário na Frente Leste e condenado à morte, à revelia. Um polícia copiará o dossier do Tribunal Militar e apresentá-lo-á a Roland Dorgelès: E o prémio Goncourt é atribuído a Pierre Gascar por «Le temps des morts». Doze anos mais tarde ninguém pensa mais neste laureado de circunstância. A «Les Presses de la Cite», pelo contrário, acaba de fazer reaparecer «La Nuit Commence au Cap Horn». O livro de Saint-Loup não será certamente repescado para o Goncourt de 1965. Mas terá dezenas de milhares de leitores.

Fumando o seu cachimbo, Saint-Loup evoca esse ano de 1948 em que beneficiará do seu posto de conselheiro técnico de questões de montanhismo no exército argentino para partir à descoberta do Chile Austral: - Entre os padres salesianos de Magalhães compreendi por que as populações indígenas haviam desaparecido: Quiséramos fazê-las viver num quadro que não era o seu. Foi um verdadeiro genocídio. Os missionários que evangelizaram essas tribos quiseram transgredir a lei que faz os homens diferentes. Ele levanta-se, mostra-me as fotografias de montanhas atingidas pelo vento: - Não brincamos com a lei do paralelo 55 Sul. A verdadeira liberdade é respeitar a natureza. Querer deformar os países e os homens é o pior dos crimes. – E o teu livro? – Escrevi-o durante o Inverno de 1950-51 em Itália, em Courmayeur. Nevava quase todos os dias. Eu não havia deixado o Cabo Horn…este romance, escrito depois de tantas aventuras, é do melhor Saint-Loup. Descobrimos em cada página o homem de acção. Aviador que sobrevoou florestas e motociclista que devorou quilómetros, esquiador na Lapónia e combatente na Ucrânia, alpinista, explorador, cavaleiro. Um homem digno de uma peça, escritor, montanhista, historiador, viajante. E, com ele, nós seguimos, passo a passo e dia a dia, o pastor Duncan Mac Isaac. Há cem anos este missionário metodista tentava o impossível, pretendendo converter ao cristianismo os índios da Terra do Fogo. Ele quer negar o real, esquecendo que os homens são determinados pela sua raça antes de o serem pela sua religião. E ao querer salvar as almas ele vai destruir várias tribos. Este romance é o maior requisitório contra o colonialismo… «La Nuit Commence au Cap Horn», que descreve a agonia de uma raça, encontra-se na linha do realismo biológico mas não corresponde de todo à ideia que os «anti-racistas» fazem do racismo. Estarão em dificuldades para descobrir ali a menor «apologia do crime». Bem pelo contrário, Saint-Loup demonstra – e com que aura épica – que é o universalismo que é um crime, a religião uma miragem e que a verdadeira liberdade, para cada homem e para cada povo é, antes de tudo, o direito de ser o que são.


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