sábado, 10 de janeiro de 2015

Nicolas Gauthier - Entrevista com Alain de Benoist sobre o atentado ao Charlie Hebdo

por Nicolas Gauthier



Mais além da indigmação legítima sobre o massacre perpetrado na sede do Charlie, que lições se pode extrair desse acontecimento? É preciso ver, como fizeram alguns meios, a prova de que uma "guerra total" foi declarada entre o Islã e a Cristandade, entre Oriente e Ocidente?

A forma abominável como foram massacrados os colaboradores do Charlie Hebdo nos comoveu, naturalmente. E o que resulta mais difícil quando a emoção invade tudo, é conservar a razão. E isso hoje é o mais necessário. Impor uma distância interior que permita analisar o acontecimento e extrair lições. Frente a quê nos encontramos? Frente a uma nova forma de terrorismo, inaugurada na França com os casos de Haled Kelkal e Mohammed Merah. Se distinguem ondas de terrorismo precedentes (os atentados do 11 de Setembro ou o atentado de Madri), que eram concebidas e postas em marcha a partir do estrangeiro por grandes redes internacionais organizadas.

Aqui, estamos diante de atentados concebidos na França por indivíduos que foram se radicalizando de maneira mais ou menos autônoma. Passaram progressivamente da delinquência ao jihadismo, mas não raro se ancoraram no jihadismo. São de um grande sangue frio, sabem utilizar armas e são perfeitamente indiferentes à vida dos outros. Ao mesmo tempo, são aficionados, como os irmãos Kouachi que decidem dizimar uma redação "para vingar o profeta", mas começam por se equivocar de direção, deixam pistas por todas as partes, não preveem nenhuma estratégia de retirada e esquecem carteiras de identidade no carro que acabam de abandonar. Aficionados imprevisíveis, o que os torna ainda mais perigosos. 

É preciso estar atento ao contágio mimético. A mesma lógica mimética que suscitou a comunhão emocional das concentrações espontâneas em favor do Charlie Hebdo não faltarão emuladores de Merah, dos irmãos Kouachi ou de Amedy Coulibaly. Imaginem a histeria social que poderia provocar a repetição a breves intervalos de atentados tais como o que acabamos de presenciar. Se viram coisas similares no passado. A isso se chama "estratégia de tensão".

É preciso evidentemente fazer a guerra aos que nos fazem guerra, e fazê-la com todos os meios necessários. Mas falar em "guerra total" não quer dizer grande coisa. Os jihadistas (ou os lançadores de fatwas) são tão representativos do Islã quando o Ku Klux Klan é representativo da Cristandade. Não são os jihadistas, senão os ocidentais que agitaram o espectro do "choque de civilizações" que empregaram para desestabilizar todo o Oriente Médio e eliminar todos os Chefes de Estado árabe-muçulmanos que, de Saddam Hussein a Gaddafi, haviam erguido barreiras contra o islamismo radical. A necessidade de lutar contra as consequências imediatas não deve fazer esquecer a reflexão sobre as causas primeiras.

Não é a primeira vez que uma revista é atacada de forma violenta. Recordamos especialmente os atentados contra o Minute ou o Le Choc du Mois, felizmente sem vítimas a lamentar. Não obstante, nessas ocasiões existiu menos empatia com essas ações que poderiam ser mortais. Dois pesos, duas medidas?

Digamos que se, ao invés de empreender contra a redação do Charlie Hebdo, os terroristas tivessem investido contra a revista Valeurs Actuelles, é muito provável que as reações não teriam sido as mesmas. Não teríamos visto florescer os "Eu sou Valeurs" como vimos florescer o "Eu sou Charlie". A classe política governante não teria falado certamente em "união nacional" (tema mistificador por excelência, por outra parte, pois uma tal "união" beneficia sempre aos que detém o poder e querem se beneficiar de um consenso). Contrariamente a seu predecessor Hara-Kiri, a Charlie Hebdo, revista liberal-libertária, se havia convertido em um dos órgãos da ideologia dominante. Essa sabe reconhecer os seus.

Nos é dito de maneira unânime que a Charlie Hebdo havia feito da liberdade de expressão seu cavalo de batalha. Mas e quanto a suas campanhas de delação que teriam levado à demissão de Richard Millet do comitê de leitura da Editora Gallimard, à demissão de Fabrice Le Quintrec da France Inter, ou de Robert Ménard e Éric Zemmour da Télé? A liberdade de expressão pode ter limites?

Basta de hipocrisia. Em 26 de abril de 1999, os dirigentes do Charlie Hebdo levaram ao Ministério do Interior 173.700 assinaturas pedindo a proibição do Front National. Em matéria de defesa da liberdade de expressão, se poderia fazer melhor! Há apenas umas semanas, Manuel Valls declarava que "o livro de Zemmour não merece ser lido", enquanto que outro ministro pedia sem a menor vergonha que "os estúdios de TV e as colunas de jornais deixem de albergar tais posições". E não falemos da própria questão do Dieudonné. Dito isso, sejamos justos: entre os que celebram a liberdade de expressão quando se trata de Zemmour, há desgraçadamente muitos poucos que estariam disposto a reclamá-la para seus adversários. Porém, "a liberdade é sempre a liberdade daquele que pensa de outra maneira" (Rosa de Luxemburgo), o que quer dizer que não tem mérito defendê-la mais que quando se esteja disposto a que ela também beneficie àqueles que se execra. Mas isso é precisamente o que rechaça a ideologia dominante, compreendida nos EUA, onde o primeiro mandamento permite a cada um dizer ou escrever o que queira, mas onde as opiniões inconformistas são ainda mais marginalizadas do que na França. Assim como o direito ao trabalho nunca cria um posto de trabalho, o direito a falar não garante a possibilidade de ser ouvido. 

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