quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Dominique Venner - A Tríade Homérica

Por Dominique Venner


Para os antigos, Homero era “o começo, o meio e o fim.” Uma visão do mundo e até mesmo uma filosofia estão implicitamente contidas em seus poemas. Heráclito resumiu seu alicerce cósmico com uma frase bem colocada: O universo, o mesmo para todos os seres, não foi criado por nenhum deus ou homem qualquer; mas sempre foi, é, e será eternamente fogo vivo...”


1. Natureza como Base


Em Homero, a percepção de um cosmos ordenado e incriado é acompanhada por uma visão mágica transmitida por mitos antigos. Os mitos não são crenças, mas sim a manifestação do divino no mundo. As florestas, as rochas, os animais selvagens têm uma alma que Ártemis (Diana para os romanos) protege. Toda natureza funde-se com o sagrado, e os homens não são excluídos disso. Mas a natureza não está destinada a satisfazer os nossos caprichos.

Por outro lado, na natureza em sua imanência, aqui e agora, encontramos respostas para nossa angústia: “As gerações dos mortais assemelham-se às folhas das árvores, que, umas, os ventos atiram no solo, sem vida; outras, brotam na primavera, de novo, por toda floresta viçosa. Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira.”(Ilíada, VI, 146-149). A roda das estações e da vida, cada uma transmitindo algo de si para aqueles que seguirão, garantindo assim uma certa eternidade.

A certeza fortalecida pela consciência de deixar uma lembrança na mentalidade futura, como Helena diz na Ilíada: “Triste destino Zeus grande nos deu, para que nos celebrem nas gerações porvindoiras, os cantos excelsos dos vates” (VI, 357-358). Talvez, mas a glória de um nome nobre é esquecida como o resto.

O que não morre é interior, dentro de si mesmo, na verdade da própria consciência: ter vivido nobremente, sem abjeções, ter-se mantido de acordo com o modelo estabelecido.


2. Excelência como Objetivo


Na imagem dos heróis, os homens verdadeiros, nobres e talentosos (kalos kai agathos) buscam na coragem da ação a medida de sua excelência (arete), assim como as mulheres procuram no amor ou na doação de si a luz que as torna reais . A única coisa que importa é o que é bonito e forte. 

“Seja sempre o melhor,” Peleu diz ao seu filho Aquiles, “melhor do que todos os outros” (Ilíada, VI, 215).

Quando Penelope é atormentada pelo pensamento de que seu filho Telêmaco poderia ser morto pelos “pretendentes” (usurpadores), o que ela teme é que ele poderia morrer “sem glória”, antes de fazer o que é preciso para se tornar um herói igual a seu pai (Odisséia, IV, 539).

Ela sabe que os homens não devem esperar pelos deuses e ter esperanças de qualquer ajuda além deles próprios, como Heitor disse ao rejeitar um mau presságio: “Há um presságio melhor: a luta por sua pátria” (Ilíada, XII, 250).

Na batalha final da Ilíada, compreendendo que é condenado pelos deuses ou pelo destino, Heitor dilacera-se longe do desespero por uma onda de heroísmo trágico: “Ah, bem! Não, eu não pretendo morrer sem luta nem glória, nem sem algum grande feito que será recontado pelos homens que estão por vir”(XXII, 330-333).


3. Beleza como Horizonte


A Ilíada começa com a ira de Aquiles e termina com ele acalmando a dor de Príamo. Os heróis de Homero não são modelos de perfeição. Eles são propensos a erros e excessos na proporção de sua vitalidade. Por essa razão, eles caem sob os golpes de uma lei imanente que constitui a fonte do mito e da tragédia Grega. Cada falha traz punição, tanto a de Agamenon quanto a de Aquiles. Mas para Homero, inocentes também podem ser subitamente atingidos pelo destino, como Heitor e tantos outros, porque ninguém está a salvo do trágico destino.

Essa visão de vida é estranha à ideia de uma justiça transcendente punir mal ou pecado. Em Homero, nem o prazer, nem o gosto pela batalha, nem a sexualidade são comparados ao mal. Helena não é culpada por uma guerra desejada pelos deuses (Ilíada, III, 170-175). Somente os deuses são culpados pelos destinos que se abatem sobre os homens.

As virtudes consagradas por Homero não são morais, mas estéticas. Ele acredita na unidade do ser humano definida por seu estilo e seus atos. Então, os homens definem-se com referência ao belo e o feio, o nobre e o vil, não bem ou mal. Ou, dito de outra forma, o esforço pelo belo é a condição de bem.

Mas a beleza não é nada sem lealdade ou bravura. Sendo assim, Paris não pode ser realmente belo, porque é um covarde. Ele é apenas um vaidoso que engana o seu irmão Heitor e até mesmo Helena, a quem ele seduziu por magia. Por outro lado, Nestor, apesar da idade, mantém a beleza de sua coragem.

Uma vida bela, o objetivo final de excelência na filosofia Grega, da qual Homero foi a expressão suprema, supõe a adoração da natureza, o respeito da modéstia (Nausicaa ou Penélope), a benevolência do forte para os fracos (exceto em combate), o desprezo pela baixeza e a feiúra, a admiração pelo herói condenado.

Se a observação da natureza ensinou os gregos a moderar suas paixões, para limitar seus desejos, então não há nada de idiota na ideia de que eles eram sábios antes de Platão. Eles sabiam que a sabedoria era associada com as harmonias fundamentais surgidas a partir de oposições: masculino e feminino, violência e gentileza, instinto e razão. Heráclito tinha ido à escola de Homero quando ele disse: “A natureza gosta de opostos: através deles, produz harmonia.”

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