terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Juan Pablo Vitali - Mishima ou o Heroísmo Trágico da Antimodernidade

por Juan Pablo Vitali



Enquanto ouço a música de Philip Glass, do velho filme "Mishima, Uma Vida em Quatro Capítulos" produzido por Francis Ford Coppola e George Lucas, e dirigido por Paul Schrader, recentemente remasterizado, não posso fazer menos do que refletir sobre certo sentido trágico da vida. Este mesmo sentido trágico da existência que tiveram os gregos, aos quais Mishima conhecia muito bem, e os demais grandes povos antes de se tornarem progressistas, e começar a crer que a cada dia nos aproximamos mais à autosatisfação e menos ao sofrimento e à morte. Mas o sofrimento e a morte de todos os modos nos perseguem e finalmente nos alcançam, às vezes se ter logrado ser na vida mais que uma bolsa de orgasmos mecânicos, de imagens vazias que não poderíamos recordar e uma infinidade de contradições angustiantes.

É notável ver como a morte por suicídio, em determinados casos, neste caso mediante o rito do seppuku, gera ao seu redor um espaço que alguns homens reconhecem ainda como sagrado. Um ponto onde se convocam os irredutíveis, os que ainda reconhecem o significado simbólico das coisas.

O fazer a si mesmo de Mishima, em um sentido que poderíamos denominar alquímico, me remete à antiga prática das artes marciais, que silenciosamente ainda desenvolvem milhões de pessoas mesmo no Ocidente, algumas sem compreender seu profundo significado.

A autodisciplina como um prazer superior, como um crescimento contínuo, tem muito a ver com a arte, chame-se esta Bushido, escultura, poesia, teatro, pintura ou dança. Todas essas artes foram praticadas por Mishima de algum modo.

Sua vida torturada é uma parábola poética. Desde seu narcisismo que muitos dos preocupados por estes temas não duvidaram em qualificar de homossexual, até a árdua disciplina da Sociedade do Escudo, nos mostra sempre uma busca desesperada por moldar as formas da beleza em um sentido externo e em um sentido interno, desconexamente primeiro e em uma fusão profunda depois.

Os que fazem gala de um antiamericanismo e um antijudaísmo baratos deveriam ouvir atentamente a música de Philip Glass, músico que reúne ambas origens, ademais de ser budista e um defensor da causa tibetana. Lamentavelmente, não é o bom gosto o que geralmente se globaliza.

Possivelmente a apreciação que o Ocidente considerva pela cultura japonesa não é mais que a admiração silenciosa e furtiva por tudo que perdemos. Reconhecemos em um japonês imperial como Mishima coisas que excepcionalmente reconhecemos em um ocidental. Ou quiçá nos resulte menos perigoso o reconhecimento desse tipo de estética e ideias nas paragens longínquas do Oriente, do que sacando à luz os muitos exemplos de grandes suicidas com ideias afins no Ocidente. E deixamos bem clara nossa convicção sobre que em ambos os casos merecem nosso reconhecimento e admiração.

Não cabe dúvida de que nessas ocasiões o suicídio é uma mensagem. Primeiro, porque deixa estabelecido que para alguns homens há coisas mais importantes que a própria vida, e que sem essas coisas a vida não se justifica. Mas também porque a épica desse tipo de suicídio está atada a uma causa, e para além da derrota dessa causa, tampouco vale a pena viver.

Exatamente o contrário da mentalidade progressista, que crê encaminhar-se sempre rumo à ausência de sofrimento, em uma irracional negação da morte.

Por isso os progressistas conseguem converter todas as derrotas em vitórias, porque por irracionais e falsas que resultem suas teses, para eles o atual sentido do mundo representa um pensamento totalitário que justifica a tudo, e de nenhum modo poderiam reconhecer que esse sentido do mundo é negativo e também racionalmente falso.


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