quarta-feira, 29 de abril de 2015

Daniel James Spaulding - Individualismo vs. Personalidade

por Daniel James Spaulding



Traduzido por Carolina Santos

Em um Ocidente que declina tão certamente como o curso do sol, opositores do embrião de Estado Global frequentemente definem a situação moderna como uma luta dialética entre o coletivismo de um lado e o individualismo de outro. Não raramente, ''coletivismo'' é usado para definir qualquer manifestação de poder do estado, seja esse fascista, comunista, liberal ou globalista tecnocrático, ainda que muitos expandiriam a classificação para incluir instituições de religiões tradicionais e até mesmo a família.

O que é menos claramente definido é o ''individualismo'', um termo escorregadio que significa muitas coisas diferentes para pessoas diferentes. O senso comum crê que ''individualismo'' é a habilidade de escolher e seguir seus próprios desejos de expressão, seja gastando o dinheiro da forma que bem entender, ou algo mais trivial, como tingir os cabelos de azul. 

Quando visto pela perspectiva de um embate dialético com o coletivismo, especialmente o estado, a noção de individualidade ganha um peso bem maior do que em suas manifestações triviais, por exemplo, o estudante universitário que faz uma tatuagem para rebelar-se contra seu pai. De certa forma, o indivíduo como tal é muitas vezes deliberadamente desvalorizado pelas forças dominantes. Não apenas através de várias formas de reducionismo econômico, mas também na ideologia dominante que enxerga a humanidade como uma coleção de unidades intercambiáveis, atomísticas, de consumo, ou nas mais sinistras formas de trans-humanismo de homens como como Ray  Kurzweil, que vê os humanos como nada além de androides biológicos, ou mesmo ''formigas''.

Muito frequentemente, os autoproclamados campeões do individualismo propõem um modelo não tão diferente de seus opositores ''coletivistas'': o indivíduo permanece uma entidade desconectada, atomística, indefinida por qualquer referência externa. Para o individualista absoluto, coisas como religião, etnia, linhagem familiar e nação são no máximo afiliações secundárias, e não componentes essenciais da identidade de cada um. A suposta alternativa ao absolutismo coletivista é uma concepção puramente dessacralizada e empobrecida do homem, uma derivação do humanismo renascentista e do Iluminismo.

Encontrando essa origem problemática, nós chegamos perto do beco-sem-saída metafísico da modernidade. Como o filósofo alemão e crítico do globalismo Rüdiger Safranski observou:

 ''... individualismo é um produto da secularização, pois pressupõe que declarações religiosas perderam sua validade no que se refere o significado e o propósito do todo. O individualismo investe significados em indivíduos, e não mais em totalidades como Deus, humanidade, nação ou estado."

O metafísico francês René Guénon, que viu no reinado de quantidade a dissolução do homem e do mundo, articulou um posicionamento semelhante. Ele identificou o individualismo como '' a negação de qualquer princípio superior'' e ''a consequente redução da civilização, em todos os seus ramos, a elementos puramente humanos.'' Em uma era de tirania mecanizada, Guénon soube que a suposta alternativa para o totalitarismo era também uma de suas fontes. O homem moderno e individualista, ''ao invés de tentar de elevar-se à verdade, pretende arrastar a verdade para o seu próprio nível .''

O individualismo, não pode ser negado, contém um reconhecimento positivo da dignidade do homem e seus dotes criativos. Ainda assim, tal ideia sistematizada e aplicada à sociedade é inteiramente inadequada e por vezes, destrutiva para a cultura e sua base sacra. Em seu trabalho ''Solidão e Sociedade'', o filósofo russo Nicolas Berdyaev apresentou algumas respostas na busca pelo equilíbrio entre individual e coletivo. Ao invés de um individualismo meramente horizontal e atomístico, ele enxergou a personalidade como a verdadeira identidade de um homem. Enquanto a individualidade denota mera quantidade, a personalidade floresce da esfera da qualidade. Assim, como Berdyaev enxergou e como a ideologia consumista comprova, '' o individualismo extremo leva à negação da personalidade.'' Personalidade, ao invés, é a unidade ''feita de corpo, mente e alma." Ela está fundada não apenas em fundamentos biológicos, naturalistas ou sociais, mas na própria natureza e origens supra-naturais do homem.

Berdyaev viu o ataque à personalidade presente igualmente tanto no individualismo quanto nas variadas formas de sistemas coletivistas, os quais ele interpretou como ''anti-personalistas''. Ele reconheceu:

''A exploração do homem pelo homem, assim como a exploração do homem pelo Estado, é uma forma de converter o homem em um objeto.''

Mas nenhum mero individualismo seria suficiente para conter a objetificação do homem; Berdyaev desconsidera o individualismo burguês como apenas outra forma de ''impersonalismo''. Por outro lado, a realização da personalidade é um empreendimento espiritual e aristocrático. "A luta para reconhecer a personalidade é heróica'', ele comenta. ''Heroísmo é, acima de tudo, um ato pessoal.'' Se a personalidade é formada de forma heróica, não há maior heroísmo que amor sacrificante - sua essência- :

"O personalismo se situa pelo amor de um indivíduo para com seus próximos, de personalidade única, da Divina humanidade..."

E, assim, personalidade nunca poderá ser equiparada com o indivíduo à deriva na sociedade, o ''free thinker'' que não faz nada além de tentar evitar o bote do coletivismo. O verdadeiro homem é vertical em sua orientação, e não busca riquezas materiais ou prestígio social, mas sim, ascender às alturas, uma liberdade genuína no reino do espírito.

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