segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Aleksandr Dugin - Metafísica do Caos

por Aleksandr Dugin


A filosofia europeia moderna começou com o conceito de Logos e da ordem lógica do ser. Durante dois mil e algumas centenas de anos esse conceito foi completamente exaurido. Todas as potencialidades e os princípios dispostos nesse modo logocêntrico de pensar já foram agora exaustivamente explorados, expostos e abandonados.

O problema do Caos e a figura do Caos foram negligenciadas, colocadas de lado desde o início da filosofia. A única filosofia que conhecemos no presente é a filosofia do Logos. Mas o Logos é algo oposto ao Caos, sua alternativa absoluta.

Desde o século XIX com os filósofos europeus mais importantes e brilhantes como Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger, até os pós-modernistas contemporâneos o homem europeu começou a suspeitar que o Logos estava aproximando-se do seu fim. Alguns deles ousaram afirmar que de agora em diante estamos vivendo na época do fim da filosofia logocêntrica, aproximando-nos de algo mais.

A filosofia europeu estava baseada no princípio logocêntrico correspondendo ao princípio da exclusão, o diferenciador, a diairesis grega. Tudo isso corresponde estritamente à atitude masculina, reflete a ordem hierárquica, autoritária, vertical do ser e do conhecimento.

Essa abordagem masculina da realidade impõe ordem e o princípio da exclusividade em todo lugar. Isso é perfeitamente manifesto na lógica aristotélica em que os princípios de identidade e exclusão são colocados na posição central no modo normativo de pensamento. A é igual a A, e não igual a não-A. A identidade exclui a não-identidade (alteridade) e vice-versa. Aí nós vemos o macho que fala, pensa, age, luta, divide, ordena.

Atualmente toda essa filosofia logocêntrica chegou ao fim e nós devemos pensar sobre a outra possibilidade de pensamento distinta do modo logocêntrico, falocêntrico, hierárquico, e exclusivista.

Se não mais o Logos nos satisfaz, nos fascina, nos mobiliza, então nós estamos inclinados a tentar algo mais e abordar o Caos.

Para começar: há dois conceitos diferentes de Caos. A física e a filosofia modernas fazem referência a sistemas complexos, bifurcações ou equações não-lineares usando o conceito de "caos" para designar tais fenômenos. Eles entendem por isso não a ausência de ordem, mas um tipo de ordem que é difícil de perceber enquanto tal. Assim esse "caos" seria a ordem, porém muito complexa, que parece não ser ordem de modo algum, mas em essência é. Tal "caos" ou "turbulência" é calculável na natureza mas com métodos e procedimentos teóricos e matemáticos mais sofisticados do que os instrumentos com os quais a ciência natural clássica lida.

O termo "caos" é usado aqui de maneira metafórica. Na ciência moderna nós continuamos a lidar com uma maneira essencialmente logocêntrica de explorar a realidade. Então o "caos" aqui não é mais que uma estrutura dissipativa do Logos, o último resultado de sua decadência, queda, decomposição. A ciência moderna não está lidando com algo que não seja o Logos, mas sim com um tipo de pós-Logos, o ex-Logos, o Logos no estado último de dissolução e regressão. O processo de destruição e dissipação final do Logos é tomado aqui como "caos".

Na realidade ele não tem qualquer relação com o Caos enquanto tal, com o Caos no sentido grego original do termo. É ao invés um tipo máximo de confusão. René guénon chamou a era na qual vivemos agora de uma era de Confusão. A Confusão significa o estado de ser que sucede a ordem e a precede. Assim nós devemos fazer uma distinção clara entre dois conceitos diferentes. Por um lado nós temos o conceito moderno de caos que representa pós-ordem ou uma mistrua de fragmentos contraditórios de ser sem qualquer unidade e ordem, ligados entre si por correspondências e conflitos pós-lógicos altamente sofistsicados. Gilles Deleuze chamou esse fenômeno de um sistema não co-possível composto pela multiplicidade das mônadas (usando o conceito de mônadas e co-possibilidade introduzido por Leibiniz) tornando-se para Deleuze "as nômadas". Deleuze descreve a pós-modernidade como uma soma de fragmentos não co-possíveis que podem coexistir. Isso não era possível na visão leibniziana da realidade baseada no princípio da co-possibilidade. Mas dentro da pós-modernidade nós podemos ver elementos excludentes coexistindo. As mônadas não-co-possíveis ("nômadas") não-ordenadas enxameando ao redor poderia parecer o caótico, e nesse sentido nós normalmente usamos a palavra caos no linguajar quotidiano. Mas estritamente falando nós deveriamos diferenciar.

Assim nós precisamos distinguir dois tipos de caos, o "caos" pós-modernista como equivalente à confusão, um tipo de pós-ordem, e o Caos grego como pré-ordem, como algo que existe antes da realidade ordenada vir à existência. Apenas esta última pode ser considerada Caos no sentido adequado do termo. Este (que é, porém, a original) sentido do conceito de Caos deve ser examinado cuidadosamente de modo metafísico.

A visão épica da ascensão e queda do Logos no curso do desenvolvimento da filosofia ocidental e da história ocidental foi exposta por Martin Heidegger que afirmou que no contexto da cultura europeia ou ocidental o Logos não é apenas um princípio filosófico primordial, mas também a base da atitude religiosa que forma o núcleo da Cristandade. Nós podemos também notar que o conceito de kalam ou intelecto está no centro da filosofia e teologia islâmicas. O mesmo é válido para o judaísmo (ao menos na visão do judeu Filo, e principalmente no judaísmo medieval e na Cabala). Assim, na alta modernidade em que nós estamos vivendo nós testemunhamos à queda do Logos acompanhada pela correspondente queda da cultura greco-romana clássica e da religião monoteísta. Esses processos de decadência são completamente paralelos ao que Martin Heidegger considera a condição presente da cultura ocidental como um todo. Ele identifica a oridem dessa situação em algum erro oculto e dificilmente reconhecível cometido nas primeiras fases do pensamento grego. Algo de errado ocorreu no próprio início da história ocidental e Martin Heidegger vê esse erro precisamente na afirmação da posição exclusivista do Logos no pensamento enquanto tal. A transição foi feita por Heráclito, por Parmênidas, mas acima de tudo por Platão a partir do pensamento à filosofia, o que foi equivalente à instauração de uma visão de mundo de dois níveis na qual o existente era percebido como manifestação do oculto. Posteriormente, o oculto foi reconhecido como o Logos, a Idéia, o paradigma, por exemplo. Desse ponto a teoria referencial da verdade procede. O verdadeiro é o fato da correspondência do imediatamente dado à essência invisível presumível ("a natureza que gosta de esconder-se" segundo Heráclito). Os pré-socráticos estavam no início da filosofia. A explosão descontrolada da técnica moderna é seu resultado lógico. Heidegger chama a isso "Gestell" e considera ser esta a razão da catástrofe e da aniquilação da humanidade que inevitavelmente aproxima-se. Segundo ele, o próprio conceito de Logos estava errado de modo que ele propôs a revisar radicalmente nossa atitude até a própria essência da filosofia e do processo de pensamento, e encontrar um outro modo que ele chamou de "o Outro Começo".

Então o Logos apareceu primeiro com o nascimento da filosofia ocidental. A filosofia grega mais primitiva surgiu já como algo que excluía o Caos. Precisamente ao mesom tempo o Logos começou a florescer revelando um tipo esmagador de vontade de poder e a absolutização da atitude masculina frente a realidade. O devir da cultura logocêntrica aniquilou ontologicamente o pólo oposto do Logos - ou seja, o feminino Caos. Assim o Caos como algo que precedeu o Logos e foi abolido por ele e sua exclusividade foi manifestado e descartado pelo mesmo movimento. O Logos masculino expulsou o Caos feminino, a exclusividade e exclusão subjugaram a inclusividade e a inclusão. Assim o mundo clássico nasceu esticando seus limites por dois mil e quinhentos anos - até a Modernidade e a era científica racionalista. Esse mundo chegou a seu fim. Mas não obstante nós ainda vivemos em seus limites. Ao mesmo tempo no mundo da dissipação pós-moderna todas as estruturas da ordem estão se degradando, estão dispersando. É o entardecer do Logos, o fim da ordem, o último acordo da dominação exclusivista masculina. Mas ainda nós estamos dentro da estrutura lógica, mas não fora dela.

Afirmando isso, nós temos algumas soluções básicas relativas ao futuro. A primeira - o retorno ao reino do Logos, a Revolução Conservadora, a restauração da dominação masculina total em todos os âmbitos da vida - a filosofia, a religião, o quotidiano. Isso poderia ser feito espiritualmente e socialmente ou tecnicamente. Esse modo no qual a técnica encontra-se com a ordem espiritual foi fundamentalmente estudada e explorada por Ernst Jünger, amigo de Martin Heidegger. O retorno ao classicismo acompanhando pelo apelo ao progresso técnico. O esfirço para salvar o Logos decadente, a restauração da sociedade tradicional. A Ordem eternamente nova.

O segundo modo é aceitar as tendências atuals e seguir a direção da Confusão envolvendo mais e mais a dissipação das estruturas, no pós-estruturalismo e tentar alcançar o prazer do voo confortável no nada. Essa é a opção escolhida pela esquerda ou pelos representantes liberais da Pós-Modernidade. É o niilismo moderno em seu ápice - originalmente identificado por Nietzsche e explorado por Heidegger. O conceito do nada sendo o potencialmente presente no princípio da identidade próprio ao Logos não é aqui o limite do processo da decadência da ordem, mas sim o âmbito construído racionalmente da expansão ilimitada da decadência horizontal, multitudes incalculáves das flores de putrefação.

Porém, nós poderíamos escolher o terceiro caminho e tentar transcender as fronteiras do Logos e nos situarmos para além da crise do mundo pós-moderno, literalmente pós-moderno, estando fora da modernidade, onde a dissipação do Logos alcança seu limite. Assim a questão desse próprio limite é crucial. Vendo do ponto-de-vista do Logos em geral, incluindo do Logos mais decaído, para além do domínio da ordem não há nada. Então cruzar a fronteira do ser é ontologicamente impossível. O nada não é: assim diz após Parmênides toda a ontologia ocidental logocêntrica. Essa impossibilidade afirma o infinitude da fronteira do Logos e garante à decadência interna ao reino da ordem continuidade eterna. Para além da fronteira do ser não há nada e o movimento até esse limite é analiticamente infinito (aqui é totalmente válida a aporia de Zenão de Elea). Então ninguém pode cruzar a fronteira até o não-ser que simplesmente não existe.

Se nós insistirmos não obstante em fazer isso nós devemos apelar ao Caos em seu sentido original grego, como algo que precede o ser e a ordem, algo pré-ontológico.

Nós estamos diante de um problema realmente importante e crucial. Um grande número de pessoas hoje não está satisfeita com o que ocorre ao nosso redor, com a absoluta crise de valores, religiões, da filosofia, da ordem política e social, com as condições pós-modernas, com a confusão e perversão, com a era da máxima decadência.

Mas considerando o sentido essencial do devir de nossa civilização até o estado presente nós não podemos olhar para as fases precedentes da ordem logocêntrica e suas estruturas implícitas porque foi precisamente o próprio Logos que trouxe as coisas ao estado nas quais se encontram agora, portando consigo os germes da degeneração atual. Heidegger identificou com extrema credibilidade as raízes da técnica na solução pré-socrática para o problema do ser por meio do Logos. Em verdade, o Logos não pode nos salvar das condições instauradas por ele mesmo. O Logos não possui qualquer uso aqui.

Então apenas o Caos pré-ontológico pode dar uma dica sobre como ultrapassar a armadilha da pós-modernidade. Ele foi colocado de lado na alvorada da criação da estrutura lógica do ser como fundamento. Agora é sua vez de entrar em jogo. De outro modo nós estaremos fadados a aceitar a pós-modernidade dissipada pós-lógica que pretende ser eterna de algum modo porque aniquila o tempo. A modernidade matou a eternidade e a pós-modernidade está matando o tempo. A arquitetura do mundo pós-moderno é completamente fragmentada, perversa, e confusa. É um tipo de Labirinto sem saída, dobrado e torcido como a fita de Möbius. O Logos que era a garantia da retitude da ordem serve aqui para fornecer a curvatura, sendo usado para preservar a impassibilidade da fronteira ontológica com o nada contra eventuais transgressores.

Então a única maneira de nos salvarmos, de salvar a humanidade e a cultura dessa armadilha é dar um passo além da cultura logocêntrica, dirigido ao Caos.

Nós não poderíamos restaurar o Logos e a ordem que deriva dele porque eles portam consigo a razão de sua eterna destruição. Em outras palavras, para salvar o Logos exclusivista nós deveríamos fazer um apelo à instância inclusiva alternativa, que é o Caos.

Mas como nós poderíamos usar o conceito de Caos e basear nele nossa filosofia se a filosofia sempre foi para nós algo lógico por definição?

De modo a resolver essa dificuldade nós deveríamos abordar o Caos não da posição do Logos, mas do próprio Caos. Isso pode ser comparado à visão feminina, o entendimento feminino da figura do outro que não é excluído mas, ao contrário, incluído na identidade.
O Logos considera a si próprio como o que é, e como o que é igual a si próprio. Ele pode aceitar as diferenças dentro de si porque ele exclui o que é diferente de si fora de si. Assim a vontade de poder está atuando. A lei da soberania. Para além do Logos, afirma o Logos, não há nada. Então o Logos excluindo tudo além de si próprio exclui o Caos. O Caos usa diferentes estratégias - ele inclui em si próprio tudo que é, mas ao mesmo tempo tudo que não é. Assim o inclusivo Caos inclui também o que não é inclusivo como ele e mais do que aquilo que exclui o Caos. Então o Caos não percebe o Logos como outro em relaçao a si próprio, ou como algo não-existente. O Logos como o primeiro princípio da exclusão está incluído no Caos, presente nele, envolvido por ele e possui lugar garantido nele. Assim a mãe que carrega o bebê carrega consigo o que é uma parte dela e não é uma parte dela ao mesmo tempo. O homem concebe a mulher como ser externo e busca penetrá-la. A mulher considra o homem como algo interno e busca pari-lo.

O Caos é eterno nascimento do outro, ou seja, do Logos.

Para resumir, a filosofia caótica é possível porque o próprio caos inclui o Logos como possibilidade interior. Ele pode livremente identificá-lo, estimá-lo e reconhecer sua exclusividade incluída em sua vida perpétua. Assim chegamos à figura do muito especial Logos caótico, que é o Logos completa e absolutamente fresco sendo eternamente revivido pelas águas do Caos. Esse Logos caótico é ao mesmo tempo exclusivo (e é por isso que é propriamente Logos) e inclusivo (sendo caótico). Ele lida com identidade e alteridade diferentemente.

O Caos pode pensar. Ele pensa. Nós deveríamos perguntar como ele o faz? Nós questionamos o Logos. Agora é a vez do Caos. Nós deveríamos aprender a pensar com o Caos e dentro do Caos.

Eu poderia sugerir, como um exemplo, a filosofia do pensador japonês Kitaro Nishida, que construiu a "lógica do basho" ou a "lógica dos locais" em contrariedade à lógica aristotélica.

Nós deveríamos explorar outras culturas diferentes da ocidental para tentar encontrar exemplos diferentes de filosofia inclusiva, religiões inclusivas, e daí em diante. O Logos caótico não é apenas uma construção abstrata. Se procurarmos bem nós encontramos as formas reais dessa tradição intelectual. Em sociedades arcaicas bem como na teologia e correntes místicas orientais.

Apelar ao Caos é o único jeito de salvar o Logos. O Logos precisa de um salvador para si. Ele não conseguiu salvar a si mesmo. Ele precisa de algo oposto a si para ser poder ser restaurado na situação crítica da pós-modernidade. Nós não conseguimos transcender a pós-modernidade. Esta não pode ser superada sem apelar a algo que havia antes da razão de sua decadência. Então nós deveríamos recorrer a outras filosofias distintas da ocidental.

Em conclusão, eu gostaria de dizer que não é correto conceber o Caos como algo pertencente ao passado. O Caos é eterno, mas eternamente coexistindo com o tempo. Então o caos é sempre absolutamente novo, e espontâneo. Ele poderia ser considerado como uma fonte de qualquer tipo de invenção e novidade porque sua eternidade possui consigo sempre algo maias do que era, é, ou será no tempo. O Logos por si mesmo não pode existir sem o Caos como o peixe não pode viver fora da água. Quando nós colocamos um peixe fora da água, ele morre. Quando o peixe começa a insistir excessivamente de que é algo distinto da água ao seu redor (mesmo que seja verdade), ele vem à praia e morre nela. É um tipo de peixe louco. Quando nós colocamos ele de volta na água, ele salta novamente. Então deixemos este morrer se ele quiser. Há otros peixes no fundo da água. Vamos segui-los.

A era astronômica que está chegando a seu fim é a era da constelação de peixe. O peixe na praia. O peixe agonizante. Então precisamos muito de água.

Apenas uma atitude completamente novo frente ao pensamento, uma nova ontologia e uma nova gnoseologia pode salvar o Logos saído da água, na praia, no deserto que cresce e cresce (como Nietzsche previu).

Apenas o Caos e a filosofia alternativa baseada na inclusividade pode salvar a humanidade moderna e o mundo das consequências da degradação do princípio exclusivista chamado Logos. O Logos expirou e todos nós podemos ser enterrados sob suas ruínas a não ser que façamos o apelo ao Caos e seus princípios metafísicos e os usemos como base para algo novo. Talvez este seja "o Novo Começo" do qual Heidegger falou.

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