domingo, 10 de dezembro de 2017

Ernst Niekisch - Violência e Espírito

por Ernst Niekisch



A princípio, a violência e o espírito são antíteses. O espírito é o primeiro antagonista da violência. O espírito cresceu a tal extremo que, no fim das contas, ele se situa sempre contra a violência. A violência é sentida como ampla e maciça no espaço; o espírito tem ao seu lado o tempo, e em todo caso mostra ir mais longe com ele. Onde a violência se sobrepõe, o espírito mina o terreno em que ela descansa. Quando a pressão da violência cresce de forma desmesurada, o espírito organiza uma contrapressão que não pode ser controlada; onde a sua compulsão não deixa alternativa de escape, ele descobre portas traseiras. Ele destroi a reputação da violência, rouba sua boa consciência e a leva a um estado máximo de ridículo que é fatal para ela. Esta oposição primordial emerge historicamente nas mais variadas formas. Aparece como a polaridade do espírito e da espada, do santo e do heroi, do papa e do imperador, do sacerdote e do guerreiro, do letrado e do soldado. A violência é segura de si, se mantém autossuficiente para a certeza de sua irresistibilidade, ameaça intolerantemente todas as resistências com a destruição existencial; por sua vez, o espírito dá reconhecimento aos valores contra os quais pode resistir por um longo tempo, mas aos quais um dia inevitavelmente acaba se submetendo: ele cede perante ela, mas com um tom ressentido de desprezo como "crua", "desajeitada", "estúpida", "estreita", "intransigente", "bárbara", "imoral", para colocá-la em descrédito.  Este foi o mais decisivo êxito do espírito contra a violência: que ele se impôs como a instância legitimada para julgar. Assim ficou a reputação da violência à sua mercê. É parte de um de seus outros empreendimentos de guerra não lidar suavemente com essa reputação. Mas ao dar prioridade a se tornar seu próprio juiz, ele tomou o cuidado de não ocultar sua luz com modéstia. Ele era tão "superior" quanto a violência era "inferior", tão refinado quanto ela era crua, tão habilidoso quanto ela era desajeitada, tão amplo quanto ela era estreita, tão claro quanto ela era escura, tão perspicaz quanto ela era cega, tão livre quanto ela era escravizada, tão universal quanto ela era confinada.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Roy Starrs - Dialética Nietzscheana nos Romances de Yukio Mishima

por Roy Starrs



Apesar das ideias de Nietzsche terem tido o mesmo tipo apelo amplo e às vezes superficial para os escritores criativos japoneses que a suas contrapartes ocidentais, entre os principais escritores Yukio Mishima (1925-1970) deve ser considerado como singular tanto pela medida como pela maneira de seu uso daquelas ideias. De fato, qualquer interpretação dos argumentos dialéticos que estruturam seus principais romances filosóficos e mesmo seus ensaios e manifestos morais/políticos pareceria inadequada se ignorasse seu contexto nietzscheano. Não obstante, apesar de Mishima ter sido neste sentido o mais profundo e bem-sucedido nietzscheano japonês - o mais bem-sucedido em dar uma expressão estética original e interessante para algumas das ideias centrais de Nietzsche - ele de modo algum foi o primeiro. E seria difícil compreender a sua recepção de Nietzsche sem alguma consideração, primeiro, de precedentes históricos - do progresso do nietzscheanismo japonês antes dele - já que isso obviamente ajudou a moldar sua compreensão de Nietzsche, ainda que nem sempre, como veremos, de maneira benéfica.

Na história das relações intelectuais entre Japão e Ocidente, Nietzsche ocupa uma posição singular e importante: ele foi o primeiro grande filósofo europeu ucjas ideias alcançaram um impacto profundo quase simultaneamente nas duas culturas. Talvez em parte por essa razão, a sua influência no Japão, especialmente nos escritores criativos japoneses, tem sido mais profunda, mais amplamente sentida e mais duradoura do que a de qualquer outro pensador ocidental excetuando Marx (1). De fato, na literatura a sua influência tem sido bem maior do que a de Marx - se não no sentido de ter afetado mais escritores, pelo menos no sentido de ter gerado frutos mais férteis. Enquanto o movimento da "literatura proletária" marxista das décadas de 20 e 30 do século XX, por exemplo, produziu pouco que possa ser lido hoje - talvez apenas algumas obras de Kobayashi Takiji - entre os escritores criativos significativamente influenciados por Nietzsche devemos nomear algumas das maiores figuras da literatura japonesa moderna, incluindo Mori Ôgai, Hagiwara Sakutarô, Akutagawa Ryûnosuke, Satô Haruo, Nishiwaki Junzaburô e, é claro, o próprio Mishima. Isso não quer dizer que os escritores japoneses tenham tido uma predileção ou afinidade incomuns por Nietzsche. Poderíamos facilmente fazer toda uma convocatória semelhante de grandes escritores ocidentais do século XX que foram similarmente influenciados - inclusive o romancista favorito de Mishima entre os ocidentais, Thomas Mann. De um jeito ou de outro, as ideias de Nietzsche tem tido um apelo irresistível à imaginação literária. Sem dúvida isso é parcialmente por causa da elevada qualidade literária de sua prosa - uma raridade entre filósofos modernos - mas também isso deve ter alguma relação com a natureza de suas próprias ideias: suas tensões dialéticas parecem aptamente transferíveis para o tipo de tensões dramáticas que estruturam uma obra literária.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Aleksandr Dugin - É necessário que nos livremos da globalização das mentes

por Aleksandr Dugin

Tradução por Helena Kardash



A multipolaridade é um olhar para o futuro (como nunca antes feito). Um projeto de organização da ordem mundial sobre princípios completamente novos. Uma revisão profunda dos axiomas sobre os quais a modernidade está assente – em termos ideológicos, filosóficos e sociológicos.

A série de livros Noomaquia é fruto do desejo de estabelecer uma base sistêmica para a Teoria do Mundo Multipolar, que se fundamenta no fato de não haver apenas uma, mas muitas civilizações – cada qual sendo capaz de forjar o seu próprio destino. Não há uma humanidade única e nem tampouco progresso e direitos humanos: tudo isso não passa de uma forma de dominação ocidental. O Ocidente, que busca impor um sistema de valores (derivados da modernidade) e transformar a diversidade das civilizações em uma única civilização pós-humana tecnocrática.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Esteban Montenegro - Superar o Populismo

por Esteban Montenegro



Considerações críticas a partir da visita de Alain de Benoist

Na Argentina há visitas intelectuais que, como a de Ortega y Gasset em 1916, despertam não só um grande interesse mas também uma participação ativa na marcha do pensamento. É necessário dizer em primeiro lugar que aos argentinos nos invade um especial entusiasmo quando aterrisa em nossa terra o intelectual estrangeiro ou quando fazemos nós a viagem que nos permitirá conhecê-lo. E isso vai mais além da importância e estatura do personagem em questão, pois temos em realidade a sensação de que a duras penas nos tornamos pensadores sem a aprovação do estrangeiro. Por exemplo, segundo esta perspectiva a filosofia de Carlos Astrada ostenta um plus de valor por sua relação discipular com Martin Heidegger e Max Scheler. Nenhum mérito do próprio Astrada poderia, segundo esta visão, suprir o que lhe foi dado pelo contato pessoal com os mestres alemães. Esta visão fetichista que em boa medida atravessa quase todos os argentinos é um efeito de nossa situação periférica, para superar a qual não basta cantar loas à liberação dos oprimidos. Como diria Nietzsche, ser livre não é um valor em si mesmo. O importante é para quê se quer liberdade e se temos realmente a força para fazê-lo.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Aleksandr Dugin - Cesarismo Político, Hegemonia e Contra-Hegemonia

por Aleksandr Dugin



Em todo o mundo, inclusive na Rússia, está surgindo uma crescente demanda por uma verdadeira alternativa ao globalismo. Neste sentido, os conceitos de cesarismo e contra-hegemonia (retirados da filosofia do comunista Gramsci) possuem um enorme valor teórico e ajudam a explicar muitas coisas.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Esteban Montenegro - Pampa e Estepe

por Esteban Montenegro



Comemorando o centenário da revolução russa fazemos esta contribuição ao diálogo dos povos, em face da visita de Aleksandr Dugin à Argentina.

I


Introdução



O Ano Novo do Espírito



Universalização e Filosofia da História


A tendência à unificação do globo terrestre acontece com a força de um destino. Todos sentimos, em um primeiro momento, que se trata do impulso com que a globalização liberal-capitalista atravessa a tudo. Mas o sentimento de todos, o sentido comum, nem sempre acerta. Apear desse processo ter hoje um signo negativo, isso não quer dizer que não se possa orientar seu rumo em outro sentido. Podemos ver então, neste momento crítico, uma oportunidade. Assim o fez Perón quando antecipou que o mundo caminhava rumo à universalização. Introduziu, assim, um conceito, que tentava compreender e oferecer uma orientação para o que estava no porvir. Não se resignava o General, pois não é indefectível que o mercado feche suas mãos sobre o planeta, se tivermos a inteligência e a força para disputar o rumo das grandes integrações entre povos e nações. Aqui tentaremos seguir a linha aberta por este conceito, o processo de universalização, abrindo perspectivas para o exercício de uma geopolítica consciente que responda aos desafios da hora, para que essa hora seja a hora dos povos. A existência de cada um deles depende em grande medida do que aconteça a nível global, de grandes linhas de ação que transcendem os centros de poder local. O maior grau de autonomia passará então por participar na tomada de decisões global da forma mais ativa possível. Só assim alcançará um povo a sua própria conservação.

Esta situação nos empurra ao reconhecimento mútuo. Mas longe disso pressupor outro chamado vazio à paz mundial, necessita tomar como base o conflito e a tensão. Não é esperável que este trânsito ao continentalismo e ao universalismo seja um longo período paulatino e harmonioso, sem tropeços, como pretendeu o mito do progresso no apogeu da modernidade. Ao contrário, a universalização se mostra para nós como profundamente conflituosa porque a própria história o é; ainda que isso não signifique que não alcance em algum momento um novo equilíbrio, e a isso deve apontar. Mas para alcançá-lo, deverá lutar e perseguir sua vocação - e assim a sua própria preservação e a do resto - antes que a paz. Porque o que está em jogo aqui é a própria sobrevivência de todos e cada um dos povos, ameaçada pelo atual rumo globalista. E não obstante, esta luta pela sobrevivência tampouco é uma luta agônica de todos contra todos, como imagina a modernidade liberal. Esta luta é, também, e fundamentalmente, uma luta pelo poder mundial, pelo sentido da história universal.

sábado, 25 de novembro de 2017

Kerry Bolton - Foi o Bolchevismo um Produto do Messianismo Tradicional Russo?

por Kerry Bolton



Com o centésimo aniversário da Revolução Bolchevique em Outubro de 1917, a Rússia ainda é em grande parte produto daquele legado. Mas e quanto ao bolchevismo em si? O bolchevismo despertou forças contraditórias. Este artigo defende que a facção vitoriosa não foi a do marxismo doutrinário, mas sim que ela foi moldada pela "Rússia eterna", e metamorfoseada em algo distante do marxismo, como Trotsky e muitos outros marxistas lamentaram. Neste artigo, o bolchevismo é reexaminado como produto de uma longa tradição, focando nas opiniões do dissidente russo Mikhail Agursky.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Horacio Cagni - A Influência da História Clássica e da Guerra Antiga no Realismo Político Estadunidense

por Horacio Cagni[1]



Se bem o realismo político - tal como todo ismo - é uma expressão ambígua, no léxico político ele é um conceito central, que apela "ao modo de ser das relações de poder, consideradas independentemente dos desejos e preferências dos atores ou das teorias, mais ou menos explicitamente normativas, dos espectadores". É a realidade, então, a que opõe resistência aos desejos e pulsões subjetivas, uma realidade "que vale, apesar de sua finitude, mais que o desejado ou idealmente imaginado e, portanto, o real também é limite, dor e sofrimento" (Portinaro, 2007:18). Enquanto o realismo político, como o gnoseológico, se retrotrai à realidade - entendida de qualquer modo - , ele atribui a ela um valor positivo. Desnecessário dizer que esta escola de pensamento e de ação se nutre dos grandes ensinamentos da história.

Na atualidade existe a tendência a considerar a política externa da grande potência estadunidense, sobrevivente do mundo bipolar fenecido, como o produto de poderes indiretos que, através dos distintos componentes da constelação de poder, atuam no empíreo internacional com o embasamento puro e exclusivo da força. Não obstante, é fundamental considerar que o realismo político estadunidense, uma escola que, com altos e baixos, há duas décadas marca sua política internacional, tem bases teóricas complexas e firmes. Intelectuais relevantes como Hans Morgenthau e George Kennan antes, e Zbigniew Brzezinski e Henry Kissinger depois - muitos deles europeus emigrados aos EUA -, foram as mentes ocultas por trás do agir político de Washington no mundo. Resulta interessante relembrar outros pensadores, alguns de influência demonstrada na direita norte-americana, e outros, representantes do neoconservadorismo estadunidense atual.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Paul Antonopoulos - Venezuela: Experimento Bolivariano Falido ou Acusação Legítima de Imperialismo Americano?

por Paul Antonopoulos



Introdução

A ascensão de Hugo Chávez, um oficial militar de carreira, à presidência em 1999 viu o início do que se tornou conhecido como a revolução bolivariana após a adoção de uma nova constituição para a Venezuela. A revolução viu a redistribuição da riqueza do petróleo depois que a indústria viu uma nacionalização limitada e um pouco independente dos cartéis internacionais do petróleo. O processo foi bem sucedido, em grande parte devido às receitas recordes do petróleo na década de 2000, e viu quatro milhões de pessoas saírem da pobreza, o acesso gratuito e universal a cuidados médicos e educação para todos e a erradicação do analfabetismo.

O sucesso da revolução bolivariana viu a Venezuela sob Chávez tornar-se cada vez mais anti-americana, anti-imperialista e firmemente contra o neoliberalismo e suas instituições como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, ambos localizados em Washington DC. O seu mandato foi visto no contexto mais amplo da "maré rosa" socialista que varreu a América Latina e viu a Venezuela alinhar-se com os governos marxistas-leninistas de Fidel e depois Raúl Castro em Cuba e com os governos socialistas de Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador) , e Daniel Ortega (Nicarágua).

Chávez pressionou pela integração econômica e social da América Latina para tornar a região totalmente independente do capitalismo dos Estados Unidos (EUA). Tais projetos para integração latino-americana incluem: o estabelecimento da TeleSUR, uma rede de televisão latino-americana patrocinada pela Venezuela, Cuba, Equador, Nicarágua, Uruguai e Bolívia; O Banco do Sul, um fundo monetário e uma organização de empréstimos estabelecida pela Venezuela, Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Equador e Bolívia; A Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe (CELAC), que foi criada para aprofundar os laços e a integração desses estados e reduzir a influência significativa dos EUA sobre a política e a economia da América Latina; e talvez o mais importante, a Aliança Bolivariana para os Povos da América (ALBA), composta por Antígua e Barbuda, Bolívia, Cuba, Dominica, Equador, Granada, Nicarágua, São Cristóvão e Neves, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, e a Venezuela, e tem como objetivo que a moeda virtual SUCRE substitua o dólar americano pelas Américas, desafiando diretamente a influência e dominação dos EUA na região.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Paul Antonopoulos - Resistência, Imperialismo e Contradições na Guerra na Síria

por Paul Antonopoulos



Introdução:

O imperialismo é o mecanismo que busca controlar militarmente e economicamente o mundo. É por meio de um sistema capitalista, e da exportação de grandes corporações, que se pode impor a própria dominação sobre Estados mais fracos. O imperialismo é o que ocorre quando corporações multinacionais ou um Estado, particularmente da Anglosfera, pode extrair matéria-prima como petróleo e metais preciosos ou impor dominação econômica e militar sobre outro Estado sem ser responsável perante ninguém ou sem dividir os lucros com o povo. No entanto, isso não se reduz apenas à matéria-prima ou à dominação militar: é também é o meio pelo qual o dólar americano, em particular, seja a moeda hegemônica no planeta. Aqueles que não se encaixam nos paradigmas do comércio em dólar americano, ou em ter seus recursos naturais sob controle corporativo ocidental, se tornam alvos.