terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Sindicalismo Revolucionário: Uma Especialidade Francesa



"O sindicalismo francês nasceu da reação do proletariado contra a democracia" (H. Lagardelle)

Na história do movimento operário europeu, o sindicalismo revolucionário francês tem um lugar especial graças à originalidade de sua organização e seu estilo de ação.

Suas Origens

O confisco da Revolução de 1789 pela burguesia tão só para seu benefício, leva ao estabelecimento de sua dominação. Uma de suas prioridades era impedir os trabalhadores de se organizarem de modo a se defender contra sua exploração. Sob o pretexto falacioso de eliminar as guildas do Antigo Regime, a lei "Le Chapelier" de julho de 1791 proibiu qualquer acordo entre trabalhadores para garantir seus interesses. Qualquer tentativa de sua parte era julgada como "um atentado contra a liberdade e a Declaração dos Direitos do Homem".

Consequentemente, o movimento operário nasceu em segredo. O crescente desenvolvimento deas organizações de auxílio mútuo dos trabalhadores foi reconhecido sob o Segundo Império que terminou a criminalização da sindicalização em 1864. Mas a repressão sanguinária da Comuna levou ao desaparecimento dos melhores quadros revolucionários; fuzilados, exilados ou deportados para colônias penais ultramarinas após a Semana Sangrenta.

O proletariado estaria, então, sob a vigilância draconiana de sucessivos governos. A burguesia, temendo um levante geral a qualquer momento contra seu poder, encorajava máxima dureza. Não podemos compreender o egoísmo burguês sem levar em consideração o medo permanente de ver negada a propriedade adquirida. Para os trabalhadores, o Estado se tornou a ferramente repressiva do Capital. Em 1831, 1848 e 1871, as classes dominantes responderam com violência às reivindicações legítimas da classe trabalhadora. Essa experiência de repressão forjou a convicção da vanguarda proletária de que diante das autoridades não era possível negociar, apenas lutar. O antiparlamentarismo do sindicalismo revolucionário é explicado pela convicção de que nenhuma reforma é possível em um sistema derivado do e dominado pelo capitalismo. O antimilitarismo também vem daí. O exército não era mais o defensor da nação, mas o rompedor de greves. O envio de tropas era a resposta do poder público às expectativas do povo. A intensa propaganda antimilitarista dos sindicalistas revolucionários encontrava resposta favorável nas classes populares forçadas a ver seus filhos recrutados para o serviço do regime repressor.

Os Conselhos de Trabalhadores


A proclamação da Terceira República não pôs um fim à repressão. A desorganização das estruturas sindicalistas levou ao aparecimento de grupos reformistas, pregando o acordo com o Estado e com a burguesia, o que só confirmou a inutilidade do diálogo com a opressão. O que se transcreveu em um ressurgimento de sindicatos revolucionariamente inclinados.


Durante este período, com o objetivo de controlar a circulação de sua força de trabalho, os empregadores encorajaram os municípios a criar conselhos de trabalhadores ("bourses du travail") com o objetivo de regular o mercado de trabalho a nível local. Eles se multiplicaram com velocidade prodigiosa (o primeiro em Paris em 1887 e a partir de 1890 em Toulouse).

Muito rapidamente, sua reapropriação por militantes revolucionários transformou os conselhos em centros de luta social. Organizando a solidariedade dos trabalhadores, eles foram um laboratório para futuras formas de ação pelos sindicalistas franceses. Este movimento era liderado por um homem excepcional, Fernand Pelloutier, que foi uma das inspirações de Georges Sorel, que o qualificou como "o maior nome na história dos sindicatos". Ele guiou a criação da Federação Francesa de Conselhos de Trabalhadores (Fédération des Bourses du Travail de France). O movimento operário francês deve a ideia da greve geral e da independência dos sindicatos em relação a partidos políticos e ao Estado a ele. Ele estava, então, em oposição total a Jules Guesde, fundador do Partido Operário Francês, de inspiração marxista, que afirmava a prioridade da ação política partidária sobre as lutas sindicalistas.

Os conselhos seguiam dois eixos paralelos de ação. Em primeiro lugar, ação social, que consistia em colocação em empregos, ajudar a qualificar profissionalmente os trabalhadores. Os conselhos de trabalhadores eram aplicações concretas do programa revolucionário socialista por meio de cursos profissionais e de educação geral, clínicas médicas encarregadas de combater as companhias de seguros complacentes demais com os empregadores durante acidentes de trabalho, bibliotecas para a formação ideológica e lazer dos trabalhadores, ou serviços jurídicos para informar os trabalhadores sobre novas leis sociais da Terceira República. A dimensão da educação popular era uma das prioridades de Pelloutier, segundo sua famosa citação "educar para revoltar". A emancipação dos trabalhadores ocorre primeiro pela percepção da realidade de sua exploração. Como Emile Pouget declarou, "a tarefa dos revolucionários não consiste em tentar movimentações violentas sem levar em consideração as contingências. Mas preparar os espíritos, para que estes movimentos entrem em erupção quando circunstâncias favoráveis se apresentarem".

Em segundo lugar, a ação de conectar e unificar com sindicatos de trabalhadores. O estabelecimento de conselhos leva ao desenvolvimento de sindicatos que podem depender de suas redes. Eles eram locais de reunião para trabalhadores grevistas, fndos para greve eram coletados nas fábricas de modo a ajudar os trabalhadores na luta. A CGT (Confédération Générale du Travail) e a Fédération de Bourses se fundiram em 1902 durante o Congresso de Montpellier, constituindo assim uma única organização central composta de duas seções, a das federações de trabalhadores, e a dos conselhos. Mas antes disso um evento fundacional para o movimento sindicalista francês ocorreu: o nascimento da CGT.

1895: A CGT

Em 1884, quando a lei autorizou a criação de sindicatos, a República tentou seduzir o proletariado para fazê-los esquecer de sua aliança objetiva com o grande capital. A maioria dos trabalhadores permaneceu desconfiada, considerando que essa lei havia sido concebida para controlar a existência de estruturas que até então eram clandestinas.

Após negociações preliminares, em Limoges em setembro de 1895 a Confédération Générale du Travail surgiu, a qual fixou seu objetivo principal como "unir os trabalhadores em luta no campo econômico e em laços de estreita solidariedade, para sua completa emancipação".

Após os primeiros anos caóticos, sob a lidernaça de Victor Griffuelhes a organização experimentaria um período de intensa atividade. Nomeado secretário-geral da CGT, este velho operário era um fanático militante blanquista, devotado a fazer da organização uma máquina de guerra classista.

Com Émile Pouget, seu fiel camarada, nós o encontramos onde quer que haja uma greve. Não acostumado a discussões intermináveis, ele impôs sua autoridade com uma mão de ferro. Pelo que ele seria muitas vezes repreendido e ganharia muitos inimigos, mas jamais podemos questionar seu interesse. Graças a seu caráter incansável, disputas entre diferentes correntes eram emudecidas e o sindicato podia preservar independência total em relação ao Estado que tentava corromper os líderes sindicalistas.

Durante a adoção da Carta de Amiens, durante o congresso confederativo de 1905, nós lembramos que: "A CGT, para além de qualquer escola política, congrega todos os trabalhadores conscientes da luta para fazer desaparecer o trabalho assalariado e os empregadores... O congresso considera que esta declaração é um reconhecimento da luta de classes no domínio econômico que opõe os trabalhadores em revolta contra qualquer forma de exploração e opressão, tanto material quanto moral, estabelecida pela classe capitalista contra o proletariado".

Ação Direta


No movimento socialista em janeiro de 1905, Victor Griffuelhes deu a seguinte definição de ação direta: "Ação direta significa a ação dos próprios trabalhadores. Isto é, ação que seja diretamente exercida pelas partes interessadas. É o próprio trabalhador que dirige seus esforços; ele pessoalmente os exerce contra os poderes que o dominam, de modo a obter os benefícios que ele demanda deles. Através da ação direta, o trabalhador cria sua própria luta, ele a lidera, resolvido a não concedere a outrem a responsabilidade por sua própria emancipação".


Os sindicalistas revolucionários lideram a luta pela melhora das condições de trabalho para que "a luta diária prepare, organize e realize a Revolução" como Griffuelhes escreveu.

Ação direta, realizada por minorias ativas e conscientes, objetivando atingir os espíritos (como durante a greve geral de 1907 onde Paris se encontrou afundada na escuridão após uma ação de sabotagem por parte de eletricistas sindicalistas revolucionários). Ela deve impor a vontade dos trabalhadores sobre o empregador, o uso possível da justa violência proletária pode entrar nessa estratégia. "Atualmente, só há emancipação completa se os exploradores e patrões desaparecerem e se o cenário tiver todas as suas instituições capitalistas varridas. Tal tarefa não pode ser conduzida pacificamente, e muito menos legalmente! A história nos ensina que os privilegiados jamais sacrificaram seus privilégios sem serem compelidos e forçados a fazê-lo pelas suas vítimas revoltosas. É improvável que a burguesia possua excepcional magnanimidade e queira abdicar voluntariamente... Será necessário recorrer à força, a qual, como dito por Karl Marx, é parideira de sociedades". (Émile Pouget - A CGT)

O Mito da Greve Geral em Ação

Uma dura batalha entre a CGT e o Estado pela jornada diária de 8 horas de trabalho foi travada em 1904. A campanha culminou em uma demonstração de força no 1º de maio de 1906, que foi ativamente organizada por 1 ano. Todas as forças da organização foram lançadas na batalha pelas 8 horas. O contexto era, então, insurrecionista, o mundo do trabalho efeverscia após o drama da mina Courrières onde 1.200 mineiros foram encontrados mortos. 40 mil mineiros em Pas-de-Calais entraram em greve espontaneamente. A repressão não resolveu nada e a raiva se espalhou. Quase 200 mil grevistas se mobilizaram na construção (um bastião dos sindicalistas revolucionários), metalurgia, gráficas...o movimento culminou com 438.500 grevistas por toda a França! O governo tinha medo da guerra social iminente e da aliança entre as duas forças anti-sistema da época: o movimento sindicalista revolucionário e o movimento nacionalista (convergências observadas pelo professor Zeev Sternhell).

Antes dessa aliança, a República reagiu rapidamente, Clemenceau, nomeado Ministro do Interior, dirigiu a repressão. Griffuelhes e os principais diretores da CGT foram presos sem motivo (inclusive o tesoureiro Lévy que seria devolvido pela polícia). O 1º de maio foi acompanhado por uma importante mobilização dos cães de guarda da República que multiplicaram as prisões e dispararam contra a multidão de grevistas. Em acordo comum, autoridades e empregadores organizaram a demissão dos funcionários e trabalhadores mais ativos na ação direta, listas negras de militantes foram criadas para tornar sua contratação impossível.

Mas onde Clemenceau e seu sucessor A. Briand foram mais eficazes foi em corromper os líderes sindicalistas por meio de corrupção e na infiltração de provocadores (os arquivos da prefeitura policial estão cheios de seus relatórios sobre as atividades da CGT) que espalhavam descontentamento e desacreditavam a ação de sindicalistas revolucionários. Ademais, o agravamento do dissenso interno e as guerras de tendências criaram uma situação explosiva entre a liderança.

A Ruptura: O Proletariado contra a República

Foi o caso Draveil-Vigneux, organizado do zero por Aristide Briand, então Ministro do Interior que ateou fogo à pólvora. Uma demonstração de escavadores e ferroviários na região parisiense em 30 de julho de 1908 se transformou em uma revolta. Registra-se duas mortes entre os trabalhadores. A CGT clamou pela transformação da mobilização de trabalhadores em uma greve geral. Após uma marcha em Villeneuve-Saint-Georges eles lamentaram mais sete mortes. Com a ajuda de um agente provocador, o Ministro do Interior encontrou o pretexto para prender a maior parte da liderança da confederação, entre eles o secretário-geral Victor Griffuelhes, que permitiu que os traidores se beneficiassem de sua prisão para poder orquestrar um verdadeiro putsch.

A libertação dos líderes aprisionados não demorou, mas nas sombras os capangas de Briand, e notavelmente o tesoureiro Lévy (provavelmente corrupto) e Latapie, organizaram uma autêntica conspiração contra Griffuelhes, acusando-o abertamente de mau uso dos fundos. O congresso seguinte livrou Griffuelhes de qualquer suspeita, mas a crise foi aberta, e o amargurado secretário-geral se demitiu. Niel o sucedeu, eleito em 25 de fevereiro de 1909, como secretário-geral da CGT com os votos reformistas. Mas os sindicalistas revolucionários não lhe deram paz: seis meses depois Niel foi forçado a se demitir.

Ele foi substituído por Léon Jouhaux. Não é surpreendente que a tensão com o Estado começasse a emergir novamente em 1910. Em outubro, a greve dos ferroviários, situada no esquema de uma grande campanha contra a alta no custo de vida, fez Briand projetar a dissolução da CGT. Briand decidiu fazer um exemplo: o caso Durand. O secretário do sindicato dos carvoeiros de Havre foi condenado à morte por ações grevistas nas quais ele não teve qualquer envolvimento. Um vasto movimento de protesto foi iniciado.

Neste momento crucial de sua história, o mundo proletário estava majoritariamente oposto à República liberal. Ele ficava enojado com a atitude dos velhos dreyfusardianos (Clemenceau e Briand), que haviam convocado o proletariado a se mobilizar por justiça e, uma vez no poder, se revelaram assassinos do povo. Essa rejeição da democracia foi demonstrada até a guerra. A erupção da Grande Guerra foi uma derrota para os sindicalistas revolucionários. Após terem feito tudo para impedir a marcha rumo à guerra, o élan patriótico pela Sagrada União os tomou. Léon Jouhaux, na tumba de Jaurès, convocou os trabalhadores a se mobilizarem pelo regime. Essa mobilização em prol da Sagrada União marcou o fim do período heroico do sindicalismo de ação direta dentro da CGT, o qual, após a guerra foi tomado pelos burocratas que a transformaram na ferramenta reformista que conhecemos hoje. 

Fonte: Revista Rébellion, setembro de 2014.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Carlos Alberto Sanches - O Simbolismo do Sigma

por Carlos Alberto Sanches



Um símbolo, nos planos da alma e do corpo, é aquilo que reproduz os arquétipos espirituais. Em conexão com esta reflexão de realidades superiores em planos inferiores, a imaginação possui certa vantagem sobre o pensamento abstrato. Em primeiro lugar, é capaz de múltiplas interpretações; ademais, não é tão esquemática como o pensamento abstrato e então, na medida em que se 'condensa' em uma imagem pura, baseia-se na correspondência inversa que existe entre o terreno corporal e espiritual, de acordo com a lei segundo a qual 'o que está embaixo é reflexo do que está acima', como está colocado na Tábua de Esmeralda.

- Titus Burckhardt

O homem só é homem na medida em que está entre os outros e revestido dos símbolos de sua razão de ser.

- André Leroi-Gourhan


A natureza do Símbolo


Um símbolo já é, em essência, uma síntese e, dentre os símbolos da síntese, um dos que melhor abrem acesso a tal essência é o Sigma. Um símbolo não pode ser reduzido ao seu aspecto meramente funcional, à sua função utilitária, técnica, comunicativa; tampouco encontra-se o símbolo à livre disposição da consciência instrumental humana; considerar que são os símbolos que sobrevivem aos homens e não os homens que sobrevivem aos seus símbolos basta para notar que os símbolos transcendem as existências individuais, dispondo destas como suporte a fim de se transmitirem às sucessivas gerações como o complemento espiritual do qual depende sua humanidade. Hinos, uniformes, emblemas, bandeiras e cores não são “detalhes” em um movimento político. Munido deste conjunto simbólico, uma doutrina filosófico-política enraizada estende sua ambição de modo a abarcar todas as dimensões do ser humano - e informa, às suas legiões e às adversárias, que não aspira senão à totalidade. 
O Sigma representa a manifestação do pensamento político mais elevado que já se ergueu deste chão de “Terra Brasilis”. Nele brilha a Grande Política, a política que surge armada da cabeça do gênio simultaneamente filosófico, científico e estético. Que para os matemáticos seja o símbolo grego da "soma", que corresponda ao nosso “S”, o Σ já inspiraria frutíferas especulações, mas logo se percebe que ele excede em grandeza o que se pode compreender de imediato a partir destes significados. Tentaremos percorrer um conjunto de significações inerentes e adjacentes ao Σ, o que nos levará a contemplar o sentido tradicional e transcendente da “soma” a que ele se refere, tanto quanto ao simbolismo tradicional do polo, dentro outros. Não se surpreenda o leitor se encontrar no presente texto citações e referências a autores que não compõem a bibliografia nomeadamente Integralista, nem se parecermos às vezes desviar do tema central, pois nosso esforço, percorrendo as várias dimensões de significado do Sigma, é também ensaiar uma compreensão do Integralismo que o situa no interior de um processo maior, metapolítico, o que não o diminui, mas, pelo contrário, realça sua original grandeza.


O Sigma – Considerações Preliminares

O Σ foi sugerido como símbolo do movimento Integralista por Arthur Motta, sociólogo e matemático, que “matematicamente bem compreendeu que somente seria num sigma político, formado por todos os valores diferenciais da Nação, que o Brasil acharia salvamento”. Vindo da civilização que fundou Cartago, são contudo os gregos que lhe lapidam e lhe dão tal nome, proveniente de σῐ́ζω (sízō), verbo usado na arte da forja para se referir ao ruído gerado no encontrar-se do metal incandescente com a água fria, como também para descrever o “assovio” expelido pelo olho do Ciclope quando penetrado pela ponta da estaca em brasa. A etimologia do termo informa-nos ligação estrutural com uma vasta cepa de termos indo-europeus que retroagem justamente à nossa ideia de “soma”, tanto quanto a esta mesma palavra da nossa língua.

Sigma está ligado ao tronco de que provém o latim summa, que significava, acima de tudo, o “topo”, o “pico”, o “sumo” (de onde provém o inglês summit), o ponto mais alto em uma pilha de objetos ou em uma hierarquia (daí a significação primária de termos como “sumo sacerdote” ou “Summa Theologica”, por exemplo). O princípio hierárquico assim designado deve ser compreendido em sua função de agregação do todo hierarquizado. (Sentido de que provém “sumário”.) A “cabeça” da hierarquia fundamenta e assegura a integridade do todo do “corpo”. Aliás, lembremos que a palavra grega soma significa justamente “corpo”, no sentido de substância material subordinada a um princípio imaterial unificador de suas partes. Temos assim um sentido não diferente do designado pelo prefixo grego syn (“juntar, encaixar”), que denota justamente a ideia de síntese, não por acaso iniciado com a letra Σ. (Todas as variações vernaculares deste prefixos, obviamente, informam este conceito, como o russo so- e o russo antigo su(n), para citar alguma.) 

A ideia de agregação subordinada a um princípio hierárquico capaz de atribuir forma e harmonia ao todo constituído aparece nas mais repetitivas ocorrências do Sigma. É por isto que, se para a disposição harmônica de partes de uma obra de arte os gregos utilizavam o termo “Cosmos”, sendo tal palavra usada para se referir ao Todo ou o Universo, o Σ e seu significado também aí são centrais (ΚΟΣΜΟΣ). E esta nota não é gratuita, pois é à significação cosmológica do Sigma que devemos partir. Se os visionários fundadores da Doutrina Integralista vislumbraram tal dimensão e, se sim, até que ponto, é questão secundária, visto nos situarmos aqui numa perspectiva segundo a qual, em resumo, não são os homens que escolhem seus símbolos, os símbolos é que escolhem seus homens. Grande parte do conteúdo de significado de um símbolo permanece normalmente à revelia dos homens que o símbolo utiliza para se transmitir.

A Idade de Ferro

As doutrinas tradicionais dispunham de uma concepção cosmológica cíclica segundo a qual o Universo se cria e se destrói alternadamente. Nas doutrinas védicas esta concepção se encontra representada pela trimurti, na qual Brahma representa o princípio criador; Vishnu o mantenedor; e Shiva o destruidor, sendo este último, importantíssimo dizê-lo, algo como uma destruição preparatória do novo ciclo. Estes grandes ciclos, manvantaras, dividem-se por sua vez em quatro eras: satya yuga, tetra yuga, dwapara yuga e kali yuga, que equivalem às eras de ouro, prata, bronze e ferro das tradições greco-latinas. A primeira era se caracteriza por uma relação (quase) direta dos homens com os deuses (em certos casos um estado de pertencimento essencial ou quase indiferenciação), seguida por um gradativo distanciamento entre ambos, ocasionado pela crescente corrupção daquele estado de perfeição primordial, até que, à última fase, a Idade Obscura ou Idade de Ferro, todas as formas tradicionais (incluindo o corpo de ritos e costumes que dispõe a sociedade verticalmente) se encontram desfiguradas, irreconhecíveis, fragmentadas, esquecidas, invertidas, destruídas, tendo então o homem, despido da metade divina que nas eras anteriores o humanizava, atingido seu máximo de degradação física, moral e intelectual, reduzido enfim à identidade com o animal. Já no primeiro século da Era Cristã eram evidentes que a pedra da corrupção já havia sido lançada, sendo já então notado que ao homem se tornava estranho o conteúdo dos ensinamentos tradicionais. Como diz Paulo “Temos a este respeito muito a dizer, coisas difíceis de explicar, porquanto vos tornastes lerdos para a compreensão” [1].

A maioria das tradições marcam o início desta última fase em cerca de 5.000 anos atrás, mas a mencionada corrupção evolui em proporções, diria, aritméticas. Assim, se mesmo Hesíodo (c.800 a.C.) se coloca na Idade do Ferro, é entre a Reforma, as Revoluções Burguesas e nossa contemporaneidade que as sociedades europeias (e por extensão “Ocidentais”) experimentam a mais acelerada desintegração de suas tradições e a mais acentuada degradação. O que se coloca depois do fim da “Idade Média” sob o nome de “Modernidade” seria apenas o estágio avançado desta involução, cuja pedra foi lançada muito antes. No extremo deste processo se assiste à vitória do individualismo, do igualitarismo, do materialismo, do ateísmo, do niilismo. A Modernidade é a época da desarticulação e desintegração das unidades componentes do Mundo da Tradição.

Escreve René Guénon: “Essas são as conseqüências naturais e inevitáveis de uma materialização cada vez mais acentuada, porque a matéria é essencialmente multiplicidade e divisão, e é por isso, digamos de passagem, que tudo o que dela procede só pode engendrar lutas e conflitos de todas as espécies, tanto entre os povos como entre os indivíduos. Quanto mais nos afundamos na matéria, mais os elementos de divisão e de oposição se acentuam e se ampliam; inversamente, quanto mais nos elevamos em direção à espiritualidade pura, tanto mais nos aproximamos da unidade, que só pode ser plenamente realizada pela consciência dos princípios universais.”[2]  Escreve Plínio Salgado: “Só o Espírito une, a Matéria divide. Por isso o Individualismo e o Liberalismo, filhos do Materialismo, lançaram as mais tremendas lutas sobre a terra”[3].

Plínio teve a perspicácia de visualizar que a fase atual do que tratamos aqui como “ciclo cosmológico”, a Idade de Ferro, também chamada de Idade da Confusão, só poderia ser superada através da potência de agregação do elemento do Espírito, mostrando-se assim em sintonia com mentes seletas espalhadas ao redor do globo que, tal como ele, colocavam este diagnóstico no centro da formulação de uma doutrina não apenas filosófica, mas política. Como símbolo da soma, da união, da reintegração, o Σ desponta no horizonte dos visionários que perceberam que a época da desintegração havia chegado ao seu limite. O século XIX foi a época do pensamento analítico; o século XX deveria ser o do pensamento de síntese. 


Contra o Reino da Quantidade

É por arrogar-se no Espírito que a “matemática” do  Σ é completamente diferente da álgebra moderna, pois o reino da Matéria, contra o qual ele se levanta, é igualmente o reino da Quantidade e da redução do mundo a valores algébricos; não se pode erguer-se contra a Matéria sem erguer-se contra a Quantidade. À coisificação de tudo corresponde a quantificação de tudo. Historicamente, enquanto a Matéria se ergue contra o Espírito, contra a Qualidade se ergue a Quantidade. Escreve Guénon: “A civilização moderna é realmente o que se pode chamar de civilização quantitativa, o que não é senão uma outra maneira de dizer que é uma civilização material.”[4]  No século XX, sobretudo, a dinâmica da Natureza passa a ser “explicada” a partir de cálculos algébricos completamente desenraizados e tornados independentes da experiência humana. E isto se opera inclusive na política moderna que, baseada no princípio da Democracia, princípio quantitativo por excelência (pois a Democracia é “o reino da maioria”, da “média”, o que, dito qualitativamente, é o reino do “medíocre”, do “homem médio”), é incapaz de considerar em seu círculo decisório qualquer valor que não seja quantificável. É por isto que as bases da Democracia são tão frágeis: “os poderes que outorga [ao Estado Liberal] o mandato emanado do sufrágio universal são vagos e indefinidos”, escreve Plínio[5]. 

A preeminência da Quantidade se reflete inclusive na edificação do conceito moderno de “população”. “O perigo”, escreve Evola, não é uma redução populacional como alguns defendiam à época, mas sim “o de uma multiplicação incessante e desenfreada das populações em termos puramente quantitativos”[6].  Lembremos que a própria ideia de “soma” antiga expressa pelo latim summa era inseparável do princípio hierárquico que unificava os elementos, e é somente no século XIV que as línguas vernáculas começam a atribuir ao latim summa um sentido cada vez mais simplesmente quantitativo. Guénon: “Chegou-se a crer que não existe ciência propriamente dita onde não for possível introduzir a medida, e que não há leis científicas senão as que exprimem relações quantitativas.”[7] 

Compreendido dentro da coerência da Doutrina Integralista, o Sigma não significaria uma mera “soma” de valores ou elementos qualitativamente indiferenciados, mas estaria mais próximo de representar o levante aristocrático da Qualidade contra o reino burguês da Quantidade. 

O simbolismo polar

Como escreve Gustavo Barroso, o Σ “designa a Estrela Polar no Hemisfério Sul, onde fica situado o nosso País”. Esta simples frase é repleta de significado, e contém a chave para uma compreensão ampla do Sigma.

A Estrela Polar do Hemisfério Sul, assinalada pelo Σ minúsculo (σ), é chamada Sigma Octantis por se situar na constelação de Octans, ou Polaris Australis, literalmente “do Polo Sul”. Tal como a Estrela Polar do Hemisfério Norte, esta se mantém (praticamente) imóvel, de modo que é ao redor delas que as demais percorrem seus trajetos aparentes. Não por acaso, é esta a estrela que aparece na bandeira brasileira representando o Distrito Federal. Sua visibilidade se encontra no limite da capacidade ocular humana, sendo portanto de pouca utilidade prática para localização. Este sentido “polar” também se encontra em outras aplicações científicas do Σ. Na físico-química, por exemplo, o Σ se refere ou denota “um elétron ou orbital com momento angular zero sobre um eixo internuclear”[8].

Como designação da Estrela Polar do Hemisfério Sul, o Σ nos força a adentrar a questão do simbolismo do polo. Por sua vez, este se encontra inseparável do simbolismo da roda e da função de soberania nas sociedades de tipo tradicional.

Tanto nas tradições orientais quanto nas europeias antigas, utiliza-se a roda (como a de uma carruagem) para representar a dinâmica do cosmos em sua totalidade: ela gira, mas seu centro encontra-se imóvel. “O referido centro é o ponto fixo que todas as tradições estão concordes em denominar, simbolicamente como o 'Polo'; é em seu redor que se efetua a rotação do mundo, representado geralmente pela roda entre os celtas, os caldeus e os hindus”[9].  Este centro representa o núcleo primordial, eterno, imutável, o ponto de ancoragem, lócus do Ser, o centro de onde emana a periferia, cercado pela correnteza do Devir. O centro da roda seria como o “motor imóvel” de Aristóteles. A função de soberania nas sociedades tradicionais está amparada por esta noção de ocorrência e validade universais. Em sânscrito, esta função corresponde ao Chakravartin, literalmente: “aquele que faz girar a roda” (mantendo-se independente e incondicionado, isto é,  aquele que faz girar a roda sem ser arrastado pelo movimento de rotação). Além disto, o polo serve simbolicamente como referência ao estado primordial encoberto pela sucessão das eras. Por isto a morada dos deuses primordiais ou dos antepassados míticos pode ser representada também por uma ilha, isto é, um local fixo (estabilidade) cercado de águas (instabilidade). Nas culturas do Hemisfério Norte, a Estrela Polar aparece como a correspondente física ou, digamos, astronômica desta meta-astronomia. Diz o livro chinês Lun-yü: “Quem dominar mediante a Virtude [celeste] parece-se com a estrela polar. Esta fica parada no seu lugar, mas todas as estrelas giram à sua volta.”. 

Percebe-se que a rotação das estrelas ao redor da Estrela Polar descreve um movimento que está na base de outro símbolo verificável em toda a parte do globo, mas sobretudo no hemisfério Norte: a Swastika. Esta é “essencialmente o 'signo do Polo'”, simboliza o movimento, porém “não um movimento qualquer, mas de rotação realizada em torno de um centro ou eixo imóvel”.

Indispensável frisar que tais designações do polo e correspondentes não se referem necessariamente a “lugares” no sentido geográfico moderno do termo, mas sim no sentido metafísico, embora pudesse corresponder também a locais físicos determinados. Para além da dimensão esotérica destas designações espaciais (que não iremos discutir aqui, bastando-nos as rápidas menções), o próprio “espaço” do homem tradicional era experimentado diferentemente da nossa experiência de “espacialidade”; seu espaço era sempre e necessariamente o espaço existencial, simbólico. Assim, “polo” diz respeito sobretudo às noções de altura, altivez, típica da realeza da rocha que desponta acima das brumas entreolhando abaixo de si o fluxo de sucessivos nascimentos e desvanecimentos dos mortais. É por isto que o simbolismo do polo se encontra ligado estruturalmente ao simbolismo da montanha, dividindo com este a função de representar o princípio divino da soberania que se estende ao mundo dos homens: dos sumérios aos gregos, a montanha ou, mais especificamente, o topo gelado das montanhas é a morada dos deuses. As comunidades humanas desde sempre se distribuíam espacialmente como que em círculos, em que as residências eram dispostas ao redor de um ponto central, o omphalos, isto é, o “umbigo” (do mundo); e todos os assentamentos de uma mesma unidade étnica tinham como referência, por sua vez, o centro dos centros, o verdadeiro e primordial, a morada suprema, de que todos os assentamentos espalhados da respectiva unidade étnica formavam como que a periferia ligada a ele como que por aros espirituais. 

O governante ou legislador encarnava este princípio polar de soberania, assegurando que o transcorrer da vida coletiva não se desarticularia de sua raiz transcendente. Por isto ele acumulava simultaneamente as funções que hoje reconheceríamos como as de rei e de sacerdote - apenas posteriormente, com o avançar das eras, tais funções foram separadas, dando origem às duas castas superiores (a sacerdotal e a guerreira) nas hierarquias das sociedades do tipo tradicional. Nas eras sucessivas, o governante, que através do rito da passagem e da coroação munia-se dos dois poderes, o sacro e o mundano, servia de ponte entre a dimensão transcendente obscurecida e o plano da existência material. É este o significado do termo “pontífice”, pontifex, isto é, “construtor de ponte”, título ou epígrafe dos soberanos tradicionais. O rito bem executado neste plano desencadeia ações no plano superior. Como se diz no Zohar: “O fumo [dos sacrifícios] que sobe cá de baixo acende as lâmpadas de lá de cima, de maneira que todas as luzes brilhem no céu: e é assim que todos os mundos são abençoados.”[10] 

A noção de polaridade que Guénon identifica na Swastika e que vimos constar também no Sigma incita-nos a considerações acerca do fenômeno da multiplicação de polos que encarnaram simultaneamente o referido princípio de soberania no interior de suas respectivas sociedades geográfica e etnicamente separadas. Todos sabemos a importância que exerceu o arquétipo do Chefe nos movimentos nacionalistas da primeira metade do século XX. Reduzir este fenômeno à utilidade prática do “magnetismo” do líder, ao encantamento das massas, é reduzir a análise à estatura limitada da política contingente e da psicologia fácil. No extremo oposto de tal reducionismo, temos exemplos como o esoterismo hitlerista de Miguel Serrano, que soube penetrar na dimensão metapolítica desta proliferação de “Chefes”, tendo identificado Adolf Hitler como o epicentro de um fenômeno correspondente ao “Führerprinzip”: “E assim vão aparecendo Leon Degrelle, na Bélgica; José Antonio Primo de Rivera, na Espanha; Plínio Salgado, no Brasil; Doriot, na França; Jorge González von Marées, no Chile, e até Subhash Chandra Bose, na Índia.”[11]  Estes nomes todos dizem respeito a personalidades que encarnaram o “princípio polar”. Tal “magnetismo” não pode ser compreendido satisfatoriamente por uma historiografia materialista, mesmo que esta faça uso de esquemas da “psicologia de massa”, pois a psicologia coletiva é composta por um conjunto de formações arquetípicas que, compreendidas principalmente num sentido junguiano, reside num plano mais fundamental e amplo. É aqui que mais uma vez transparece o simbolismo do Σ, denotando o extraordinário poder de congregação e acumulação de forças criativas, poder que, não explicável materialisticamente, é capaz de continuar ativado e produzindo seus efeitos mesmo na ausência física da personalidade que o encarna (pois cristalizado no símbolo).

Que a Swastika seja o símbolo do movimento ao redor do centro imóvel, símbolo do princípio metafísico da soberania, que o homem tradicional do Hemisfério Norte a observava no céu em movimento, que o homem tradicional do Hemisfério Sul, por sua vez, tenha sua Estrela Polar representada pelo Sigma, e que ambos os emblemas estiveram nas bandeiras de movimentos nacionais coexistentes no tempo que, embora separados pelo Atlântico, pelas polêmicas e pelas diferenças contingenciais, dividiam um inimigo metapolítico comum, isto é, o espírito da Modernidade, é algo que não poderia passar despercebido. Contudo, deixamos esta nota por desenvolver.


“A mais terrível das ausências”

O Movimento Integralista não poderia ter assumido símbolo mais condizente com seu nome e com seu lema, “Deus, Pátria, Família”, do que o Σ. Condizente com seu nome: porque, se a Modernidade, como vimos, apresenta-se sob o signo da Desintegração de todas as coisas, incluindo o próprio Homem, coisificador coisificado, a superação desta época se apresenta como uma tarefa coletiva, nacional tanto quanto planetária, de (Re)Integração. E condizente com seu lema: porque a reintegração das partes desmembradas que compunham o Homem e seu Mundo não significa simplesmente coletar os fragmentos dispersos no chão e juntá-los para compor uma forma humana, mas uni-los submetendo-os todos a um princípio superior e transcendente que anima e dá sentido a esta forma. O Σ, e isto deve ser grifado, pode e deve ser compreendido como símbolo de um movimento para reaquisição da unidade perdida, do laço rompido entre homem e Deus. E este impulso no sentido vertical não é apenas externo, isto é, coletivo e político, mas também, e antes mesmo disto, um esforço individual e interno dos escolhidos para tal tarefa.

Talvez possa ser dito que ninguém soube enxergar tão bem a fragmentação do Homem, em toda a arqueadura filosófica e escatológica deste fenômeno, e de modo a expressá-lo tão brilhantemente na nossa língua, do que Plínio Salgado.

O Homem desapareceu. As multidões que vemos são de indivíduos, ou apenas partes do Homem, sombras, espectros do Homem. Acima desses fantasmas delirantes, domina a Economia sem finalidade ética, a Ciência sem alma, a Arte sem beleza, a Política sem deveres, a Liberdade sem limites, o Prazer sem freios, o Dinheiro sem contraste, a Sociedade sem ordem. O rei da Criação foi destronado, perdeu cetro e coroa jogados na aventura materialista pelo seu próprio orgulho. E a solução única para o problema humano, que se apresenta hoje com uma gravidade sem precedentes na História, cifra-se nesta operação da qual depende a sorte das Nações: reconstruir o Homem. [12]

A sociedade está enferma, desorganiza-se e agoniza, porque os homens, que são os seus elementos constitutivos básicos, desaparecem da superfície da terra... No lugar dos homens, aparecem os profissionais. [13]

A adaptação dos homens ao sistema produtivo industrial produz apenas partes de homem. Não há mais homens. Há homens-braços, isto é, compostos de músculos e nervos aferrados às linhas de produção, homens reduzidos a um leque estreitíssimo de capacidades operacionais e cognitivas (o tipo “operário”, classe que em si já se desmembra em muitíssimos outros subtipos); homens-estômago, que desconhecem qualquer deleite superior ao consumo (o tipo “burguês”), ou aqueles reduzidos a tal estado de miséria material que, sendo contra a fome seu único combate, encontram-se privados da capacidade de transcendência; e poderíamos falar também, talvez, em homens-genitália, aqueles do tipo hedonista ou que determinam sua identidade a partir de critérios centrados na função sexual. Eis o mundo construído pelo burguês. A proletarização (a redução de todos os seres humanos a proletários) apaga quaisquer diferenças de personalidade; os variados arquétipos constitutivos da coletividade (incluindo estruturas arquetípicas como “feminino” e o “masculino”) se veem indiferenciados ou remodelados em subtipos padronizados de um maquinário industrial. Eis porque o mundo idealizado pelos Comunistas se mostra, na perspectiva Integralista, como continuação ou mesmo agravamento da visão burguesa de mundo, sendo por isto que a luta pela reconstrução do Homem deve combater não exclusivamente um ou outro, mas a essência subjacente a ambos e que sustenta o processo de desintegração.

Como combater o comunismo, ou outros erros do nosso tempo, se não lhes vamos às causas? De que valem planos econômicos, ou pactos internacionais, medidas legais internas ou vigilância contra a ação imediata da desordem, se o mal do mundo não está no comunismo, nem na anarquia social, mas na mais terrível das ausências, que é a ausência do Homem sobre a terra? [14]

O Σ simboliza o Homem Integral, o ser humano compreendido naquela integridade de que na ingenuidade de suas existências autênticas os antigos usufruíam – e que na sociedade industrial o homem tende a esquecer. (Não por acaso, a ruralidade das tradições brasileiras são de grande estima para os Integralistas. O homem do campo estava muito mais próximo de sua integridade do que os “profissionais” do mundo urbano.)

O Homem não está mais entre nós. Mas o que era o “Homem”? Entre as análises produzidas no século XX, em especial na “França desorientada pelos excessos de intelectualismo”, encontra-se aquelas capazes de demarcar claramente a historicidade do conceito positivo de “Homem” na formação epistêmica moderna, prenunciando, ao mesmo tempo, seu desaparecimento – o Homem, como objeto de saber, teria sido “um rosto na areia”. Mas este diagnóstico, que prenuncia nos anos 1960/70 o desaparecimento do Homem - é importantíssimo que se diga - sucede e é quase consequência direta da experiência de um desaparecimento bem mais fundamental, a experiência moderna que coube a Nietzsche ratificar na Filosofia, ou seja, a experiência da “Morte de Deus”.

Deus está morto! Nós o matamos! Vós e eu! Somos nós, nós todos, os assassinos! Mas como fizemos isso? Como esvaziamos o mar? Como apagamos o horizonte? Como tiramos a terra de sua órbita? Para onde vamos agora? Não estamos sempre caindo? Para frente, para trás, para os lados? Mas haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos vagando através de um infinito Nada? Não sentiremos na face o sopro do vazio? O imenso frio? Não virá sempre noite após noite? Não acenderemos lâmpadas em pleno dia? [15]

Não foi a primeira vez que um homem declarou a morte ou desaparecimento de seus deuses, o que equivale a experimentar-se desconectado do polo (estar à deriva). Em documentos de sociedades antigas como as Lamentações sumérias, papiros egípcios e muitos outros, lê-se coisas do tipo. Ocorre que estas ocorrências são contextualizadas em momentos críticos destas sociedades, momentos em que a força de desintegração atingia picos alarmantes. Em certos casos, a comunidade encenava ritualisticamente estes momentos, porquanto eram previstos em seus calendários, aos quais sucedia, via de regra, seus rituais de Regeneração do Mundo, como os de que fala Mircea Eliade. Desta perspectiva, a deflagração da “Morte de Deus” equivale portanto ao sinal de que a civilização europeia se encontrava então em estado terminal com a perda de seu fundamento transcendente – com a perda de seu polo.

Ocorre que, parafraseando o Zaratustra de Nietzsche, o homem é corda estendida entre dois extremos sobre a qual é impossível se deter: ou se caminha em direção aos deuses ou se retroage ao animal. Outra analogia oportuna é imaginar um elástico tensionado entre estes dois extremos: se ele se soltar de uma extremidade irá automaticamente de encontro à outra. E é este um dos sentidos “teológicos” que muitos souberam identificar no discurso de Nietzsche. Se este fala em Supra-humano (tradução mais exata de Übermensch) e não em “Deuses”, é porque fala a partir da experiência da “Morte de Deus”, isto é, a partir da experiência do vazio, da ausência de fundamento ontológico escancarada na última fase do processo de Esquecimento do Ser – é esta, aliás, a razão pela qual sua saída metafísica é nomear o fundamento do ente em sua totalidade a partir da única “coisa” que resta, ou seja, a Vontade de Poder. O pensador indiano Sri Aurobindo soube enxergar este aspecto da obra de Nietzsche, como soube, no Ocidente, ao seu modo, Heidegger. 

O Homem não está mais entre nós. E somente a presença divina pode trazer consigo a humanidade do Homem de volta. É esta a “soma” de maior e mais amplo valor metapolítico do simbolismo do Σ. Sabemos o significado do termo “soma” e sua proveniência do latim summa. Mas devemos ter em mente também que, na tradição védica, soma, palavra sânscrita de onde deriva a ramificação de que faz parte o português “soma”, designava uma bebida usada ritualisticamente na invocação dos deuses e que era administrada por Agni, o deus-sacerdote representado pelo fogo que tinha função de mensageiro ou de ponte entre os mundos. Nesta mesma cultura, denomina-se yoga às técnicas que visam restabelecer a unidade com o Divino, produzindo estados supramentais como o chamado Samadhi, em que, na completa fusão com a Divindade, o praticante experimenta a dissolução da personalidade egológica. Yoga, cuja tradução literal é justamente “soma”, “união”. É desta a união que depende a salvação humana na terra. E é por isto que os primeiros cristãos utilizavam o Σ para designar Cristo, cujo epíteto Soteros, “Salvador”, iniciava e terminava com um  Σ, expressando formalmente a ideia de duas extremidades que se perseguem e se pertencem.

No Integralismo, a dignidade do Homem depende desse complemento que vem de cima. Por isto, quando o Integralista fala na “dignidade” do “Homem”, ele não fala desta nem deste no sentido humanista. A dignidade do Homem não reside em algum atributo localizável naturalisticamente, mas na potência humana de ser receptáculo e transmissor de substância espiritual; é esta substância que dignifica o homem. É este, não a “razão”, o “ego”, a “consciência” ou qualquer outro atributo “humano” o que determina a humanidade do homem e que serve como o princípio agregador das suas partes. O homem se despregou da extremidade divina que o sustinha e que assegurava sua integridade psicossomática. Sem este centro que assegurava sua integridade, o homem se desmembra, cai; passa da posição vertical à horizontal: torna-se animal. O símbolo produz entusiasmo (enthousiasmos: “estar com deus dentro de si”). O Σ restabelece a unidade da qual depende a integridade humana. O Σ faz despontar no horizonte a imagem do Homem recolocado de pé.

Ideal de Civilização

É por isto que o Σ simboliza igualmente um ideal de Civilização; uma verdadeira arquitetura de Mundo. “O governo forte deve supervisionar, orientar e estimular as forças nacionais. Deve ser criador de civilização”, escreve Plínio Salgado. Recordemos que tal civilização é o contrário de uma civilização meramente técnica, pois sustentada a partir de cima por laços espirituais. E o que desencadeia esta força transmutadora senão o rito e os símbolos nele necessariamente implicados? No Mundo da Tradição, qualquer empreendimento coletivo era enraizado no transcendente e extraía dessa fonte atemporal a força para edificar construções sólidas e resistentes. Tal era o poder do rito que as forças liberadas por sua inadequada execução voltavam-se contra os executores, exerciam ação destrutiva; o rito mal executado “remetia para o estado livre forças temíveis tanto na ordem moral como na material, quer para os indivíduos em si, quer para a colectividade”.[16]   É o símbolo parte indispensável dos meios necessários para despertar as “forças ocultas” de que fala Barroso: “No fundo da alma de qualquer povo dormem, ignoradas, forças infinitas. Quem as souber despertar moverá montanhas”. Nenhuma Civilização pode ser construída sem a força emanada do símbolo. É por isto, aliás, que o Liberalismo, sendo anticivilização, não possui nem rito nem símbolo (nos sentidos exatos destes termos), tampouco uma civilização pode ser digna deste nome se se sustenta por alicerces meramente financeiros. É anticivilização todo Materialismo. Como escreve Heidegger: “Somente um mundo espiritual garante ao povo sua grandeza. Pois ele força a constante decisão, entre a vontade de grandeza e o deixar livre curso à decadência, a se tornar a lei a ditar o passo à marcha que o nosso povo iniciou adentro à sua história futura.”

O caráter desta Civilização não passa ao largo do significado do Σ. O que seria a Destinação do povo brasileiro senão a encarnação deste princípio superior de agregação? Plínio Salgado foi enfático acerca disto: nossa Civilização deve ser forjada através do somatório de contribuições das grandes almas que deixaram sua marca em diversos lugares e épocas. 

(…) podeis dizer: 'Aristóteles pensou para nós; Cristo deu-nos a alma; César e Napoleão foram nossos precursores; Simão Bolívar, o nosso anunciador; a América é o nosso Império; e nós somos aquele povo longamente esperado e que inicia, quase imperceptivelmente, a sua entrada nas Eras Humanas, porque o astro de nosso destino já resplandece no céu.' [17]

Esta capacidade de absorção e aprendizado com os vizinhos e estrangeiros caracteriza as grandes Civilizações do passado. Escreve Nietzsche: 

Nada é mais tolo do que sugerir uma formação autóctone para os gregos. Muito pelo contrário: eles absorveram toda a formação que vivia em outros povos, sendo justamente por isso que chegaram tão longe – porque souberam arremessar para ainda mais longe a lança a partir do ponto onde outro povo a havia deixado cair. São admiráveis na arte do aprendizado frutífero; e, assim como eles, nós devemos aprender com nossos vizinhos – para a vida, e não para o conhecimento erudito, utilizando todo o aprendizado como suporte do qual podemos impulsionar-nos para o alto, mais alto do que o próprio vizinho. [18]

Faz sentido que o símbolo da Estrela Polar do Sul, ao mesmo tempo símbolo da soma, preste-se a tal empreendimento como o único que poderia estar à altura. Somente o Espírito pode destinar um povo; e, sendo as forças do Espírito despertadas pelo símbolo, isto equivale a dizer que na força do símbolo se entrevê sua Destinação.

 Considerações Finais

O Integralismo não poderia escolher como símbolo algo desenraizado como a foice e o martelo (que, apesar de sua dignidade simbólica, oblitera a fisionomia autêntica dos povos por onde passa). Saído das entranhas insondáveis do passado glorioso da Europa, o Σ germina neste solo e cresce sob o céu do Hemisfério Sul, como símbolo da Destinação de um povo que, através da mente de um Chefe, percebeu que representava um estágio meta-histórico ímpar da Humanidade. A genialidade das melhores mentes políticas do século XX foi justamente deitar um projeto para dar harmonia à multitude, uma fisionomia a um rosto desfigurado por séculos de política pequena. Como estabelecer um norte que seja também um novo começo, e que, como novo começo, esteja atrelado a uma elevada concepção cosmológica? Tal questão define a Grande Política. Percebe-se o que Plínio quer dizer ao afirmar que o Σ “indica uma nova philosophia de vida”. 

Por isto o Σ deve permanecer aceso como um farol ou, no mínimo, como uma referência de altivez para uma geração como a presente que, moldada por um condicionamento pavloviano que a impede de transcender “esquerda” e “direita”, dispersa como átomos em choque, anula sua própria potência e afoga sua vontade em passatempos anestésicos, impedida de seguir adiante, horizonte adentro, pelos blocos soltos do que um dia foi o Mundo. “Despertar em si próprios as forças do sentimento nacional porque a fusão de todas as centelhas de patriotismo de cada coração formará a fogueira que incendiará o grande coração da Pátria Total.” - eis a exortação do Σ. Só houve um símbolo capaz de mobilizar as forças ocultas que dormem na alma do nosso povo, só houve um símbolo que neste hemisfério ousou aspirar à totalidade, e que mereceria, pela sua nobre origem, a chance de fazer um continente tremer.

Notas Bibliográficas

[1]     Epístola aos Hebreus, V, II.
[2]     GUÉNON, R. A Crise do Mundo Moderno. Lisboa: Editorial Vega, 1977, p. 32
[3]     SALGADO, P. Madrugada do Espírito, Obras Completas, Vol 7, p. 399
[4]     GUÉNON, R. A Crise do Mundo Moderno. Lisboa: Editorial Vega, 1977, p. 81
[5]     SALGADO, P. O Sofrimento Universal, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1934, p. 93
[6]     EVOLA, J. Revolta Contra o Mundo Moderno. Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 229
[7]     GUÉNON, R. A Crise do Mundo Moderno. Lisboa: Editorial Vega, 1977, p. 79
[8]     Disponível em: https://en.oxforddictionaries.com/definition/sigma. Tradução minha.
[9]     GUÉNON, R. O Rei do Mundo. S/dados. p. 43.
[10]                   Zohar, I, 208a
[11]                  SERRANO, Miguel. Adolf Hitler, El Último Avatara, p. 34
[12]     SALGADO, P. Reconstrução do homem. Rio de Janeiro: Clássica Brasileira, 1960, p. 16.
[13]     SALGADO, P. Reconstrução do homem. Rio de Janeiro: Clássica Brasileira, 1960, p. 11.
[14]     SALGADO, P. Reconstrução do homem. Rio de Janeiro: Clássica Brasileira, 1960, p. 13.
[15]     NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência, #125.
[16]     EVOLA, J. Revolta Contra o Mundo Moderno. Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 59
[17]     SALGADO, P. Palavra Nova dos Tempos Novos, Obras Completas, ed. cit., vol. 7, pág. 279.
[18]          NIETZSCHE, F. A Filosofia na Época Trágica dos Gregos. São Paulo: L&PM Pocket, 2011, p. 29.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Eduardo Velasco - Tragédia no Mare Nostrum: o que diabos está acontecendo com a Líbia

(Tradução por Marcos Melinas)

por Eduardo Velasco

A Primavera Árabe em geral e a Guerra da Líbia em particular, são os eventos estelares de 2011, juntamente com os movimentos de protesto supostamente espontâneos que estão ocorrendo em todo o Ocidente. Ao contrário do Iraque, com a Líbia as massas não foram vistas gritando "Não à guerra". Existem várias razões. Uma das mais importantes é que a Guerra da Líbia não ataca os interesses da oligarquia capitalista da França, mas a defende. A outra é a desinformação: de acordo com a nossa mídia, o mundo árabe decidiu, por contra própria, que queria ser democrata como seu probi homine "admirado" do Ocidente, e Gaddafi era simplesmente uma "sátrapa" que tinha de cair. Mas por acaso não era Saddam Hussein? E não continua sendo Maomé VI (a família real acumula 75% do PIB marroquino) e o rei saudita Abdullah? E as ditaduras no Qatar, no Kuwait, nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein? Por que a OTAN atacou a Líbia e por que um movimento "rebelde" revolucionário foi criado em tempo recorde, sendo que grande parte nem é líbio?

Para ver a origem dos problemas atuais, é necessário voltar no tempo. Toda a costa sul do Mediterrâneo foi, durante a Antiguidade, de forte influência europeia. Desde os berberes do Rife aos faraós egípcios, os norte-africanos eram de origem mais europeia do que africanos. Os fenícios (fundadores de Trípoli), cartagineses, gregos (fundadores de Cirene), macedônios e romanos, lutaram e conquistaram a costa sul do Mare Nostrum. Durante o Império Romano, toda a costa norte da África era de uma cultura genuinamente européia-clássica, e floresceram cidades que ainda hoje revelam seu esplendor passado. Foi com a queda do Império Romano que o norte da África — a metade do Mediterrâneo — foi perdido para a Europa. E embora os bizantinos, espanhóis, venezianos e genoveses tivessem muitos lugares, o Islã, a entrada da cultura árabe e finalmente o Império Otomano, fariam com que o Magrebe se afastasse definitivamente da Europa até a época colonial. No século XIX, com a revolução industrial e o recuo progressivo do Império Otomano, a Europa voltou a ganhar destaque no norte de África.

PROJETOS COLONIAIS NA ÁFRICA: ITÁLIA E RÚSSIA

Durante a Conferência de Berlim de 1884, as potências europeias fatiaram o mapa da África como um bolo imenso. Os países mais influentes ― Grã-Bretanha e França ― são deixados com as partes mais suculentas do bolo, e os países menos influentes se contentam com migalhas. Assim, enquanto os espanhóis foram premiados com a pequena Guiné Equatorial, os franceses e britânicos permaneceram com vastos territórios, cheios de matérias-primas e de enorme valor estratégico. Os EUA, que permaneceram um poder continental até a guerra contra a Espanha em 1898, foi o grande ausente do elenco. A Itália, um país recém-formado há 23 anos, teria que esperar anos para reivindicar sua participação.

A conferência de Berlim, que supostamente buscava uma distribuição sensata, não representava a paz ou a ordem no continente negro: pelo contrário, os problemas haviam só começado. Por um lado, embora as esferas de influência tenham sido designadas, essas esferas não entraram em vigor até a aquisição formal e, por outro lado, ainda havia territórios independentes (Libéria e Abissínia) e territórios que ainda pertenciam ao Império Otomano (entre eles, a Líbia).

A Itália, que tinha ficado sem colônias, olhou para um espaço que não estava no centro das atenções de qualquer poder europeu: a Abissínia (agora Etiópia). O imperador local, Menelik II, havia concordado em 1890 que os italianos controlariam a Eritrea, isto é, a costa. Em 1893, ele alegou que a versão etíope do pacto diferia da versão italiana e repudiou-a, supostamente para obter uma saída confiável para o Mar Vermelho. Os italianos atravessaram militarmente a fronteira entre a Etiópia e Eritréia, acendendo o pavio da Primeira Guerra Ítalo-Abissínia.

Embora a Itália possuísse superioridade tecnológica e armamentística, a vitória não parecia tão fácil. Por um lado, os italianos eram poucos e careciam de uma sólida tradição militar, e por outro lado, os etíopes não estavam sozinhos: o Império Russo os apoiava. Alexandre III concebera em 1888-89 um projeto para estabelecer um "Novo Moscovo" nas margens do Mar Vermelho, no que é agora Djibuti. Ao fazê-lo, ele estava automaticamente entrando em conflito com os franceses, italianos e britânicos. O czar conseguiu incluso estabelecer contato com as forças do Mahdi (um líder rebelde lutando no Sudão contra os ingleses), enviando um coronel cossaco, Nikolai Ivanovich Ashinov. Ashinov procurou colaborar com a França para usar a Etiópia como um Estado-tampão diante dos avanços britânicos e italianos no Chifre da África. Para isso, liderou uma expedição religioso-militar de 150 pessoas, incluindo um bispo, dez sacerdotes, vinte oficiais militares, e mulheres e crianças. Estabeleceu um acordo com uma tribo local, se recusou a entregar as armas às autoridades francesas e estabeleceu uma colônia em Sagallo, Somalilândia francesa (atual Djibouti). A Rússia pretendia que esta colônia, no meio de Bab-el-Mandeb (dobradiça entre o Mar Vermelho e Índico), se tornasse a "Somália Russa" e servisse de contrapeso ao controle britânico de Suez, ao controle francês de Mandeb e ao controle turco do Bósforo, bem como a base para estender a sua influência em todo o Chifre da África, perto das cobiçadas Índias. No entanto, os franceses despacharam dois navios para a área, deram um ultimato e bombardearam o assentamento, matando vários colonos (duas crianças, quatro mulheres e um homem) e assim sufocando o sonho russo quando ainda estava em seu berço. As colônias ultramarinas nunca se deram bem com a ultracontinental telurocracia russa... mas Moscou não parou em sua tentativa de penetrar a África através do Mar Vermelho.

Localização de Sagallo (colônia russa) e Adwa (batalha entre a Itália e a Etiópia). 

O Negus (Imperador) etíope, atacado pelos italianos, enviou uma delegação diplomática (seus príncipes e bispo) a São Petersburgo em 1895. A Rússia respondeu com conselheiros, armamentos e alguns voluntários, incluindo uma equipe de cinquenta soldados sob um oficial cossaco do Kuban, capitão Nikolai S. Leontiev. Ele também enviaria Alexander K. Bulatovich, uma combinação curiosa de oficial de cavalaria militar, monge ortodoxo, geógrafo, escritor e explorador. Este homem eventualmente se tornaria um conselheiro e confidente do imperador etíope. O Czar considerava a Etiópia de alto valor estratégico porque possuía as fontes do Nilo Azul, vitais para o Egito ― que já começava a cair na órbita britânica. Além disso, o cristianismo herético praticado na Abissínia estrategicamente interessava aos patriarcas ortodoxos russos (assim como as religiões cristãs da Grécia, do Oriente Próximo e da Índia ainda lhes interessam hoje).

Os italianos acabaram confiando demais e sofreram uma humilhante derrota na Batalha de Adwa (1896): 7.000 mortos, 1.500 feridos e 3.000 prisioneiros. 800 combatentes askari (a etnicidade eritreia considerava "traidora" e colaboracionista com a Itália) foram mutilados, amputando a mão direita e o pé esquerdo. A taxa de mortalidade sofrida pelo exército italiano em Adwa foi maior que a de qualquer batalha européia do século XIX, se todos os impérios tiveram seus desastres (Roma em Teutoburgo, Grã-Bretanha em Khyber, Espanha em Annual, França em Dien Bien Phu etc.), o de Adwa foi, sem dúvida, o desastre italiano por excelência. Houve graves distúrbios nas cidades italianas e o governo do primeiro-ministro Crispi entrou em colapso. O Tratado de Adis Abeba estabeleceu claramente a fronteira entre a Etiópia e a Eritreia e forçou a Itália a reconhecer a Etiópia como um Estado soberano e independente. Este desastre, ao contrário do espanhol de 1898, foi um desastre mediano: Eritrea se transformaria uma colônia italiana próspera, onde a agricultura, a indústria, a arquitetura e as estradas de ferro se desenvolveriam, enquanto a Etiópia foi privada de sua saída ao Mar Vermelho.


Em 1911, no mesmo ano em que a guerra espanhola no Rife começaria, a imprensa italiana, representando os interesses das oligarquias nacionais, começou a exigir uma invasão à Líbia, pintando-a como uma terra rica em minerais e assegurando que se trataria de um passeio militar, com uma população nativa hostil aos otomanos e apenas 4.000 soldados turcos defendendo o recinto. Além disso, a Turquia já estava lidando com uma revolta no Iêmen, e o pavio estava prestes a acender nos Bálcãs também. O Partido Socialista, que teve muita influência sobre a opinião pública italiana, tomou uma posição ambígua; Benito Mussolini, que naquela época militava em suas fileiras, opôs-se à guerra.

Trípoli, Tobruk, Derna e Al-Khums rapidamente caíram nas mãos italianas, mas um recinto turco estratégico foi mais complicado de tomar: Bengasi. Nas fileiras do Império Otomano lutava um jovem oficial chamado Mustafa Kemal Ataturk, mais tarde líder nacionalista turco. Os italianos também aniquilaram de forma preventiva as forças turcas em Beirute (Líbano).

Esta guerra foi precursora da Primeira Guerra Mundial e do desmembramento do Império Otomano. Pela primeira vez, veria o uso militar da aviação: a primeira missão de reconhecimento aéreo e a primeira bomba lançada de um avião. A Itália foi pioneira na militarização do ar, em parte graças às teorias do General Giulio Douhet, que revolucionou a geopolítica afirmando que o espaço aéreo acrescentava uma terceira dimensão às tradicionais duas dimensões da guerra, que a supremacia aérea seria crucial nas guerras do mundo do futuro e que os atentados a infraestruturas civis poderiam decidir um conflito bélico. Douhet era o guru dos ataques aeroquímicos: considerava que a aviação precisava primeiro usar bombas explosivas para destruir os alvos, depois incendiárias para incendiar estruturas danificadas e depois gás venenoso para impedir a ação de bombeiros e equipes de resgate. Essas táticas brutais foram enquadradas no novo conceito de "guerra total". Ironicamente, seriam os anglo-americanos que, três décadas mais tarde, levariam esses princípios a suas últimas consequências em seus bombardeios maciços da Alemanha e do Japão.

Ataturk (à esquerda) com um oficial otomano e as tropas de beduínos locais.

Como resultado da Guerra Ítalo-Turca, Roma obteve as províncias otomanas de Tripolitânia, Fezã, Cirenaica (que compõem a atual Líbia) e as ilhas do Dodecaneso (atual Grécia).

A Segunda Guerra Ítalo-Abissínia eclodiu em 1935, durante o regime fascista. Os problemas de fronteira entre a Somália Italiana e Abissínia, foram a desculpa da Itália de voltar a invadir o que é hoje a Etiópia e derrubar o absolutista imperador Haile Selassie. Mussolini autorizou o uso de lança-chamas, armas químicas, execução de prisioneiros, represálias e horror para a população em geral.

Este projeto italiano, muito mais ambicioso do que os anteriores, tinha a intenção de estabelecer uma ponte entre o Mediterrâneo e o Índico — sem passar pelo canal de Suez — e ao mesmo tempo acertar o canal. Na Espanha, Franco pensava entrar na guerra em favor do Eixo, mas apenas se tomassem o Suez, caso em que a Espanha tomaria Gibraltar e o Mediterrâneo ficaria garantido como Mare Nostrum de novo; esse foi o objetivo da campanha do Norte da África inteira e das lutas de Rommel e Montgomery em Tobruk e em outros lugares.

Assim como os portugueses tentaram unir a Angola (Atlântico) e Moçambique (Índico), e os alemães a Namíbia (Atlântico) e Tanzânia (Índico), para não depender do Cabo da Boa Esperança nem do Suez ou Gibraltar, os italianos pretendiam conseguir uma continuidade territorial entre a Líbia e Somália Italiana. O Sudão, nas mãos do Império Britânico, frustrava essa possibilidade.

Projeto geopolítico da Itália (1940-41). Vermelho: Império italiano. Rosa: territórios ocupados. A ideia da Itália era unir sua colônia líbia com suas possessões no Chifre da África, ou pelo menos estabelecer uma ponte de transporte. Isto permitiria Roma obter uma continuidade territorial da costa mediterrânica até à costa indiana, emancipando-se da sua dependência de Gibraltar, Suez, Mar Vermelho e Djibuti, e aproximando-se perigosamente do Iraque e do Irão (onde eles poderiam ter ligação com as tropas alemãs do Cáucaso). Para o III Reich, que compartilhava a fronteira com a Itália, esta saída para o Índico também foi interessante. Como de costume, o Império Britânico já havia cortado antecipadamente qualquer tentativa de contornar seu controle de Suez: os britânicos haviam ocupado uma faixa contínua de terra do Egito à África do Sul, e o Sudão dividia o projeto italiano. Da mesma forma, a colônia britânica da Zâmbia frustrava as ambições dos alemães (Namíbia e Tanzânia) e/ou dos portugueses (Angola e Moçambique) para obter a continuidade territorial do Atlântico até o Índico. A maior parte das dobradiças oceânicas estava sempre nas mãos do Império Britânico. A versão moderna do sonho italiano, gestionada desta vez por Gaddafi, tinha uma tradução simples e inaceitável para o atlantismo: a China iria obter uma ponte do Índico até o Mediterrâneo, podendo negociar com a Europa sem ter que passar por Bab-el-Mandeb (Djibuti, Iêmen, Golfo de Áden, Mar Vermelho) e o Canal de Suez. 

O sonho africano da Itália no Chifre da África terminou em 1941 com a queda da Eritréia em mãos britânicas, no final da campanha da África Oriental. O imperador etíope Haile Selassie, exilado no Reino Unido, voltou ao poder e, em 1952, a ONU reconheceria a união da Etiópia e da Eritréia. Em 1974, um golpe socialista derrubou Selassie e transformou a Etiópia num aliado do bloco comunista, de alguma forma coroando as antigas ambições czaristas. Após a queda da Cortina de Ferro, a Etiópia e a Eritréia ficariam emaranhadas em guerras, o que resultaria na sua separação e um caos tremendo no Chifre da África e no Iêmen.

Em tempos mais recentes, Gaddafi herdou o projeto geopolítico italiano, lançando um gasoduto na Itália (o Green Stream), envolvendo-se no Sudão, entrando no Chifre da África e aproximando-se perigosamente do Índico, do Atlântico, do Mar Vermelho, e também do Congo. A resposta do eixo atlantista foi, entre outras coisas, tornar o Sudão do Sul independente (bandeiras israelenses empreitadas na festa da independência), apoiar o governo de facto somalilândes... E aniquilar a Líbia.

Os países de charneira, entre dois ou mais mares (como Espanha, Egito, Israel, Arábia Saudita, África do Sul, Singapura, Iêmen, Turquia, Panamá etc.) são de grande importância estratégica. Na África, a única dobradiça direta entre o Atlântico e o Índico é a África do Sul, e está longe dos principais mercados (Europa Ocidental, América do Norte e Ásia Oriental) e fontes de matérias-primas (Golfo Pérsico e Cáspio), tendo mais interesse no Brasil e na Índia, a opção marítima mais comum para a Europa e a China é tomar a rota Gibraltar-Suez-Djibouti. No entanto, Gaddafi estava tentando reforçar duas outras opções. A primeira era estabilizar, por meio de acordos com as tribos locais, a faixa (Sahel) que vai desde o Saara Ocidental até a costa do Sudão e da Somália. A segunda é tentar consolidar o Sudão (em vez do Atlântico) como a saída das matérias-primas do Congo (a independência do Sudão do Sul bloqueou o contato do Sudão com as fronteiras do Congo). A China teria sido a grande beneficiária desta política, uma vez que teria obtido uma saída para o Mediterrâneo e outra para o Atlântico, sem ter de passar por Bab-el-Mandeb Suez ou Gibraltar.

O REI IDRIS E A REVOLUÇÃO VERDE

Idris era um chefe local que em 1920 foi reconhecido pelo Império Britânico como emir de Cirenaica, estabelecendo-se na cidade de Bengasi. Dois anos mais tarde, ele também foi reconhecido como o emir da Tripolitânia. Nesse mesmo ano, que coincidiu com campanhas militares italianas, Idris foi ao exílio para o Egito, onde liderou a guerra de guerrilha contra a Itália. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele lutou ao lado do Império Britânico contra o Eixo. A Líbia emergiria da Segunda Guerra Mundial como um dos países mais pobres do mundo, Idris seria mais uma vez estabelecido como emir da Cirenaica e Tripolitânia, e em 1951, com o apoio britânico, erigiu-se como rei da Líbia. Durante a era do pan-arabismo e dos nacionalismos árabes, Idris manteve laços fortes com o Reino Unido e os EUA, abrigando uma base aérea dos EUA perto de Trípoli e, assim, claramente virando as costas aos movimentos árabes socialistas. Sua política fortemente pró-ocidental acarretou em inimizade da maioria de seu povo, especialmente depois da Guerra dos Seis Dias (1967), em que as principais potências pan-árabes entraram em conflito com Israel.

Em 1969, por razões de saúde, o rei Idris abdicou, e em seu lugar assumiu seu sobrinho. Em setembro do mesmo ano, sob o regime militar no exterior, seu governo foi derrubado por um golpe liderado por Muammar al-Gaddafi, advogado e militar de 27 anos que imediatamente fortaleceu os laços com o líder egípcio Nasser, propôs uma frente comum para lutar contra Israel e começou a liquidar os seus adversários políticos dentro da Líbia. Além disso, nacionalizou o petróleo, expulsou as bases militares estrangeiras, e se colocou, embora não incondicionalmente, sob a égide da URSS.

Gaddafi em sua época de ascensão política.

Em 1977, Gaddafi proclamou o Jamahiriya (Estado das massas, ou autoridade das massas), pelo qual deixou de ser um ditador, delegando seu poder às assembleias locais e tribais, embora continuasse a controlar o exército e a política externa. O pensamento político de Gaddafi é essencialmente social-tribal. Considerava que a democracia parlamentar representativa era uma instituição corrupta projetada para dividir o povo e permitir a infiltração de entidades comerciais e financeiras nos aparatos estatais. Defendia um partido único e uma democracia direta e participativa, recheada por referendos, não muito diferente do que muitos movimentos do tipo 15-M pediram ao longo de 2011.

A ideologia de Gaddafi é resumida no Livro Verde, dividido em três livretos: "A solução do problema da democracia" (Yamahiriya), "A solução do problema econômico" (Socialismo) e "A base social da terceira teoria universal", títulos essenciais para entender o regime líbio entre 1969 e 2011.




PODEROSO CAVALEIRO É DON PETRÓLEO ― POLÍTICA PETROLEIRA DE GADDAFI

A Líbia tem em comum com outros países árabes a pobreza e a desertificação... no entanto, com petróleo em abundância. É o país africano com mais petróleo e gás natural, um petróleo bruto de alta qualidade e baixo custo de extração. 95% das receitas de exportação do país vieram do ouro negro; sem ele, a Líbia teria sido uma espécie de Iêmen do Mediterrâneo. Obviamente, essa enorme riqueza requer um modelo político, econômico e social estável para gerenciá-lo. O modelo da maioria dos petro-regimes árabes (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Bahrein etc.) é simples: uma minúscula e irrepresentável oligarquia de famílias reais, emires e xeiques que dão mãos livres às multinacionais petroleiras ocidentais (destacando British Petroleum, Exxon Mobil ― isso na Europa ―, Chevron-Texaco, Royal Dutch Shell etc.) e, por sua vez, abastecem as oligarquias (fortemente relacionadas com os serviços de inteligência do Reino Unido, EUA e Israel) com um fluxo ininterrupto de dólares recém-impressos e sem qualquer tipo de endosso. Em Washington, a Reserva Federal imprime dólares e é como se imprimisse petróleo ― é o simples e imoral negócio do petrodólar, que desencadeou a Guerra do Yom Kippur em 1973. Estes petrodólares têm, geralmente, duas saídas:

1. Financiar caprichos dos xeiques, por exemplo: coleções inteiras de Rolls-Royce (uma de cada cor do arco-íris), rifles de caça com dois fechamentos, centros mundiais de luxo como Burj-Dubai, palácios decorados com peles de felinos, praias privadas, festas orgiásticas, propinas milionárias, caminhões de tamanho mastodônticos, mansões no exterior, contas em paraísos fiscais, pagar pelos destroços de uma festa em um hotel cinco estrelas e qualquer vício imaginável. Os típicos luxos do novo rico, típicos de uma casta sem tradição, que acaba de emergir do terceiromundismo mais absoluto e não tem ideia do que fazer com tanto dinheiro, de modo que cai nas mãos do consumismo mais atroz.

2. Financiar o radicalismo islâmico sunita, especialmente do ramo salafista. Através de redes comerciais, financeiras e de inteligência, o dinheiro vai para as mesquitas, madrassas e células terroristas da Europa, Magrebe, Chechênia, Ásia Central, Índia, Nepal, Bangladesh e especialmente Paquistão (onde engendrou o movimento talibã). Com isso, muitos objetivos são perseguidos: conter a expansão da influência xiita (que é um problema muito sério para o atlantismo, especialmente no Golfo Pérsico), cristã-oriental (muito relacionado com a Rússia) ou no momento da expansão soviética, ter uma desculpa para intervir militarmente no continente eurasiático, desestabilizar e balcanizar áreas inteiras, tornar inviáveis ​​as rotas comerciais continentais, derrubar regimes hostis etc.

Portanto, pode-se dizer que o dinheiro da maioria do petróleo árabe não vai melhorar as condições de vida dos povos árabes. Tais povos vivem em ditaduras fundamentalistas onde é proibido cantar, dançar, beber álcool ou ouvir música, onde as mulheres devem ser cobertas e não podem dirigir ou sair sozinhas na rua, e onde a homossexualidade é paga com pena de morte ― enquanto as pétro-elites possuem praias privadas com prostitutas de biquínis e orgias gay com drogas, música ocidental, álcool e assim por diante. Este é o tipo de regime político árabe opressivo e despótico aliado ao atlantismo e nunca bombardeado pela OTAN.

A Líbia do rei Idris estava se movendo em direção a esse sistema até que, nos anos 70, Gaddafi começou a nacionalizar as companhias de petróleo no estilo socialista. A partir deste processo surgiria a empresa estatal conhecida internacionalmente como National Oil Corporation (NOC), que antes da guerra produzia cerca de 50% do petróleo líbio. Gaddafi sabia que seu país, pobre e com uma população de menos de 7 milhões de habitantes, tinha que jogar bem o jogo do petróleo se quisesse ter peso na cena internacional ou, pelo menos, não ser oprimido pelo imperialismo de outras potências e dedicar seus benefícios à construção de escolas, universidades, hospitais e diversas infra-estruturas (estradas, pontes, ferrovias, aquedutos, usina siderúrgica na cidade de Misrata etc.). Muitos benefícios petrolíferos foram incluídos diretamente na conta corrente de cada cidadão líbio. Não admira que a revista "African Executive" tenha dito em 2007 que os líbios "ao contrário de outras nações produtoras de petróleo, como a Nigéria, usam os benefícios do petróleo para desenvolver seu país".

Logo da National Oil Corporation (NOC) da Líbia.

Em 2003, Gaddafi condenou a Guerra do Iraque e provocou a ira da Arábia Saudita, dizendo que a Caaba em Meca estava "sob o jugo de uma ocupação americana", mas quando Bagdá caiu percebeu que tinha que mudar sua política exterior e parar de ser um Saddam Hussein do Mediterrâneo, sob pena de acabar como o referido e com seu país devastado e ocupado. Jogou a única carta que tinha: o petróleo, abrindo as portas da Líbia para empresas estrangeiras. Em seguida, o Ocidente aboliu as sanções contra Trípoli, e as empresas petrolíferas ocidentais vieram com grandes expectativas. É o tempo de amizade entre o Ocidente e a Líbia, é o tempo das relações diplomáticas, o levantamento das sanções, das desculpas, das fotos famosas de Gaddafi com os líderes internacionais que anos mais tarde iriam promover a sua queda ou derrubá-lo.

No entanto, as empresas ocidentais ficariam desapontadas com essa imagem aberta. Sob o sistema de contratos "Epsa-4", o governo líbio concedeu licenças de petróleo apenas a empresas que concederam à petrolífera estatal NOC a maior parte do petróleo (às vezes até 90%). O ex-presidente da ConocoPhillips na Líbia [1], Bob Fryklund, disse especificamente que "Em escala global, os contratos Epsa-4 eram os que continham as condições mais severas para as companhias de petróleo". A tradução disso é que Gaddafi queria garantir que a maioria dos benefícios da exploração de petróleo revertessem para seu país, e que se uma empresa estrangeira queria beneficiar-se do petróleo líbio, teria de pagar por ele. 

O destino das exportações de petróleo da Líbia. As porcentagens não são precisas e variadas ao longo do tempo, mas dão uma ideia. Observe o papel da Itália e da Alemanha. Antes da guerra irromper, cerca de 85% do petróleo líbio exportado era para a União Europeia.

Portanto, Gaddafi permitia que as empresas ocidentais obtivessem benefícios, mas não o suficiente: uma boa parte ia para o Estado líbio. Em 2009, começaram rumores de que uma nova rodada de nacionalização de petróleo e de preços era iminente, e Gaddafi estava prestes a selar contratos privilegiados com dois novos jogadores emergentes que começavam a ver timidamente seus tentáculos pelo Mediterrâneo: China e Rússia.

Os interesses petrolíferos da China na Líbia não eram particularmente fortes, a Líbia destinava 10% das suas exportações de petróleo para a China, que obtinha apenas 3% do seu petróleo importado. Os interesses chineses na Líbia estavam mais orientados para as infra-estruturas: nos últimos quatro anos antes da guerra, a China State Construction Engineering Corporation (CSCEC) tinha assinado contratos no valor de mais de 2,67 mil milhões de dólares. Somente em 2008, as empresas chinesas investiram mais de US $ 100 bilhões (para nos dar uma ideia do que esse valor significa, vamos pensar que o capital total dos EUA investido na China é de US $ 50 bilhões) em 180 projetos de construção ferroviária e outros), a maior parte na província de Cirenaica, epicentro da insurreição anti-gaddafista. Nesses projetos, havia cerca de 36.000 chineses de várias qualificações, que tiveram que ser evacuados com pressa. Pode-se especular que se a China estava tão envolvida em um país rico em petróleo como a Líbia, foi porque esperava obter uma extensão de suas concessões de petróleo.

A Rússia era outro país cujos interesses não eram tanto petróleo mas, neste caso, armamentísticos, navais (estava prestes a construir uma base naval em Bengasi e/ou Trípoli) e construção de infra-estruturas (terminais de gás natural liquefeito, ferrovias, usinas de energia). A gigante estatal de gás, Gazprom, participou ativamente, e também manteve conversações com o governo nigeriano para patrocinar um gasoduto transaariano que, através da Níger e da Argélia, forneceria gás à União Europeia. Em Outubro de 2008, navios de guerra russos fizeram escala em Trípoli em seu caminho para a Venezuela, e no mês seguinte, Gaddafi fez sua primeira visita oficial à Rússia desde a era soviética, debatendo com Putin e Medvedev a possibilidade de formar uma espécie de "OPEP de gás ", um cartel de gás que incluiria a Rússia (que possui as maiores reservas de gás do mundo), o Irã (as segundas), a Argélia, a Líbia e vários países da Ásia Central (especialmente o Turcomenistão). Qatar (o terceiro país em reservas de gás) foi excluído deste clube elitista, e em troca seria vagamente cortejada pelo Ocidente. Embora a mídia russa tenha sido muito mais sincera do que a mídia ocidental, e embora tenha havido evidências de apoio à Líbia da Rússia, Moscou se absteve de intervenção militar.

Em 14 de Março de 2011, quando havia sérios problemas com os rebeldes e a maioria das empresas ocidentais haviam saído apressadamente, Gaddafi tentou entrar no bolso da China, Rússia, Índia e Alemanha (Itália já tinha, embora Washington tenha colocado o rabo entre as pernas), mas era tarde demais. Tanto a China como a Rússia foram claramente prejudicadas pela guerra da Líbia, em parte devido ao cancelamento de seus contratos privilegiados (a empresa Agoco, nas mãos dos rebeldes, ameaçou ambos os países para retirar os contratos por não apoiar a insurreição anti-gaddafista) e, por outro lado, à irrupção das multinacionais estrangeiras. Por agora, a China National Petroleum Corporation cancelou seis projetos de exploração na Líbia e no Níger, e está atualmente tentando chegar a acordos com o novo governo rebelde.

Talvez o grande perdedor da Guerra da Líbia seja a Itália. A geografia manda: A Itália tem relações com o norte da África, para o bem e o mal, desde o tempo de Cartago e o mito de Eneias e Dido. A empresa petrolífera Eni, que pagou mil milhões de dólares em 2007 para garantir suas concessões de petróleo até 2042, controlava 30% das exportações líbias antes da guerra. Nos últimos tempos, a Itália tem feito uma política cada vez mais desconectada do eixo atlantista. Aproximou-se da Rússia (em parte graças ao futuro gasoduto da South Stream) e à Líbia (através de contratos petrolíferos, um tratado de não agressão e o gasoduto da Green Stream, que foi inaugurado em 2004 por Gaddafi e Berlusconi e que liga a Líbia à Itália). Quase parecia que, toda vez que Berlusconi escandalizava o mundo com seus excessos e seu bunga-bunga, era apenas para espalhar uma cortina de fumaça sobre suas manobras geopolíticas turvas. Esta abordagem italiana-russa preocupou os EUA (ver aqui). A Itália e Líbia tinham muitos interesses comuns, e durante os bombardeios subsequentes, Gaddafi chamaria Berlusconi todos os dias para tentar pressionar os anglo-americanos e franceses, em vão: Berlusconi foi o primeiro a ser pressionado por esses mesmos países, embora ele soubesse perfeitamente bem que a guerra da Líbia foi inaceitavelmente prejudicial aos interesses italianos, que, como vimos, são muito antigos.


Triângulo do gasoduto Nigéria-Espanha-Itália. O gasoduto transaariano, em vermelho, não está concluído, e o GALSI, em laranja, tampouco. O Medgaz (azul) foi inaugurado em Março de 2011, no meio da Primavera Árabe. Particularmente importantes são o gasoduto transmediterrânico (oleoduto Enrico Mattei) no contexto dos tumultos na Tunísia e o oleoduto Green Stream no contexto da Guerra da Líbia. A situação da Espanha com a Argélia é muito semelhante à da Itália com a Líbia: há um gasoduto direto (o Medgaz) e um que passa por um país intermediário (Magrebe-Europa), que neste caso é Marrocos. Quando o gasoduto transaariano for concluído (se concluído), toda esta infraestrutura irá se conectar, através do Saara, os campos de gás do delta da Nigéria, onde os interesses atlantistas colidem com os da China, do Irã, até recentemente, a Líbia e a União Africana. Os interesses de Gaddafi, da França e do atlantismo no país-dobradiça Níger (um país com depósitos de urânio significativos e onde os chineses estão à procura de petróleo...) são mais bem compreendidos.

A Alemanha foi outro estado notável por sua ambiguidade em torno da Guerra da Líbia, não em vão recebia cerca de 20% das exportações de petróleo desse país e entre 2005 e 2007 supostamente contribuiu para o treinamento das forças de segurança líbias. Berlim percebeu que tem muitos mais interesses em comum com Moscou do que com Washington: em 18 de Fevereiro de 2011, a Alemanha votou a favor de uma resolução da ONU condenando os assentamentos judaicos na Cisjordânia como ilegal, e uma semana depois Angela Merkel se permitiu culpar o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, por não ter tomado medidas para obter a paz com os palestinos; este gesto diplomático é muito forte para um país tão complexo e delicado sobre a questão israelense como a Alemanha. Em 8 de Novembro de 2011, foi inaugurado um gasoduto (Nord Stream) que fornece gás russo através do Mar Báltico para a Alemanha, e Berlim está começando a dissociar-se inquietantemente da política atlantista. 

Na cúpula do G8 em 15 de Março de 2011, o chanceler alemão se recusou a ser pressionado pelo Reino Unido e pela França, e bloqueou a proposta atlantista de estabelecer uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia ― mas no dia seguinte, um "problema" repentino e oportuno com o seu helicóptero fez ela mudar de ideia. Em 17 de Março, absteve-se (junto com o Brasil, a Rússia, a Índia e a China) de votar na resolução do Conselho de Segurança da ONU que decretou a zona de exclusão aérea e, enquanto declarou passivamente que tal resolução devia ser adotada, se recusou a enviar tropas para a Líbia. Isso mudou em Agosto, quando, reagindo a pressões externas, enviou unidades de operações especiais para combater na Líbia, contrariando a resolução 1973 da ONU. Por enquanto, os EUA conseguiram que Alemanha voltasse, relutantemente, para o eixo atlantista, mas é um sucesso efêmero que não faz nada mais do que adiar a inevitável: a ruptura entre a Europa Continental e  o atlantismo, exacerbada pela aproximação da Europa aos Rússia e dos EUA para a Ásia-Pacífico.

Como a Espanha foi afetada? A Líbia foi seu segundo fornecedor de petróleo bruto (o primeiro é o Irã), e ao longo de 2010, a Espanha aumentou sua oferta de petróleo da Líbia em 33%. Em 2008, a empresa petrolífera Repsol (que afirmou ser "a verdadeira embaixada da Espanha na Líbia") assinou uma extensão de seu contrato até 2032, e em 2009 fez importantes descobertas, consolidando-se como a primeira empresa petrolífera privada na Líbia e produzindo 360.000 barris por dia. Esta empresa, que sempre se gabou de ter melhores informações do que a própria CNI, ficou totalmente surpresa com os conflitos e teve de evacuar os seus empregados de forma desordenada quando o conflito começou. Em Outubro de 2011, a Repsol retomou a produção na Líbia... com apenas 30 mil barris por dia. Suas relações levarão muito tempo para ser tão boas como eram quando Manuel Fraga visitou a Líbia em 1998 e conseguiu vender atum galego para as escolas líbias.

Quando a zona de exclusão aérea e o "bombardeio humanitário" começaram, os primeiros objetivos da OTAN eram assegurar poços de petróleo, refinarias, oleodutos, portos e outras infra-estruturas petrolíferas ― não em vão se a rebelião tivesse começado em Cirenaica. Com a derrubada de Gaddafi e o reconhecimento precipitado do Conselho Nacional de Transição da Líbia, Washington, Londres e Paris criaram uma nova companhia petrolífera, a Libyan Oil Company, totalmente desregulamentada e com portas abertas para investidores ocidentais, com o qual uma boa parte dos seus lucros acabam em paraísos fiscais e, em qualquer caso, que o povo líbio não vê-los nem na pintura. A OTAN também planeja privatizar o NOC.

Enquanto isso, o mundo ficou intrigado com o espetáculo vergonhoso de como uma longa lista de empresas petrolíferas ocidentais (especialmente a British Petroleum e Total France), bem como as várias facções dos "rebeldes líbios", estão sendo combatidas como abutres. Contratos e direitos de exploração de petróleo bruto. Para esses senhores gananciosos, varrer um país próspero, mergulhar o seu povo na miséria e enviar dezenas para a morte, talvez centenas de soldados de operações especiais ― a flor e a nata da Civilização Ocidental ― terá valido a pena se eles conseguirem uma fatia de bolo.

NÍVEL DE VIDA NA LÍBIA E POLÍTICAS SOCIAIS DE GADDAFI

"De que opressão você está falando? Os líbios beneficiaram-se de 20 anos de empréstimos sem juros para construir suas casas, um litro de gasolina custava 14 centavos, os alimentos não custam absolutamente nada e um jipe sul-coreano KIA poderia ser comprado por apenas 7.500 dólares".
(Vladimir Chamov, ex-embaixador russo na Líbia, quando foi citado em uma entrevista a "opressão do povo" de Gaddafi).

Deve-se ter em mente que o que a maioria das pessoas em qualquer país quer é tranquilidade e prosperidade e, se possível, não ser bombardeado por aviões estrangeiros ou assassinado/estuprado/torturado por mercenários estrangeiros. Não há pessoas que não querem um governo paternalista e protetor, e foi isso que Gaddafi estava tentando oferecer. Antes de continuar, vamos deixar os dados falarem por si mesmos.

• PIB per capita: 14.884 $ (comparar com 4.900 em Marrocos). A Líbia era o primeiro país africano no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

• Consumo calórico diário per capita: 3144 (em Espanha 3270).

• Dívida/PIB: 3,3% (comparar com 60% dos EUA). A Líbia foi o país menos endividado do mundo em relação ao seu PIB, veja aqui e aqui.

• População urbana: 78%, principalmente em cidades costeiras. Veja aqui.

• Expectativa de vida: 74 anos (mais elevada na África). Em 1980, era 61 anos.

• Taxa de fertilidade: 2,6 (comparar com 5,4 em Marrocos ou 6,5 no Iêmen).

• Taxa de mortalidade infantil: 19 em cada mil. Em 1980, era de 70 por mil.

• Taxa de alfabetização: 83% (comparar com 52% de Marrocos ou 5% da Líbia antes de Gaddafi chegar ao poder).

• Empréstimos bancários: sem juros. Todos os empréstimos eram de 0% de juros por lei.

• Grandes mercados imobiliários e hipotecários: proibidos.

• Assistência à habitação e aquisição de automóveis: praticamente todas as famílias tinham uma casa e um carro. O Estado concedeu automaticamente empréstimos para compra de habitação e automóveis. 50% dos carros foi custeado pelo Estado. Gaddafi prometeu um lar a todos os líbios antes de concedê-lo ao seu próprio pai, e manteve sua promessa: seu pai morreu morando em uma loja. Em 1969, antes da revolução de Gaddafi, 40% dos líbios viviam em barracas ou cabanas. Em 1997, praticamente todos os líbios  adultos  possuíam sua própria habitação.

• Auxílio à habitação para recém-casados: 64.000 $ (na Líbia, o custo de vida é 1/3 em relação aos países do sul da Europa, de modo que, mudando para euros e ajustando o custo de vida, o auxílio equivaleria 140.000 €).

• Cheque-bebê: 7.000 $ (mudando de moeda e computando os custos de vida, seria 15.219 € no sul da Europa).

• Ajuda estatal anual para cada membro da família: 1.000 $ (equivalente a 2.170 € no sul da Europa).

• Ajuda às famílias numerosas: preços simbólicos em alimentos essenciais e das necessidades básicas. Quarenta pães custam 14 centavos.

• Saúde: alta qualidade e financiada pelo Estado. Acesso gratuito a médicos, clínicas, hospitais e produtos medicinais e farmacológicos. Se um líbio precisava de uma operação que não pudesse ser realizada na Líbia, o Estado pagaria pela viagem ao exterior e o custo da operação. Entre 1969 (revolução gaddafista) e 1978, o número de médicos multiplicou por cinco.

• Educação: primária, secundária e superior paga pelo Estado. Bolsas e estudos no exterior financiados pelo Estado. Muitos estudantes líbios estudando em universidades europeias, uma inteligentíssima bem forma líbia, lotes de líbios que falam inglês bem. 25% dos líbios tinham um diploma universitário. A relação professor-aluno era 1:17. Quando um licenciado não encontra trabalho, o Estado paga o salário médio de alguém com sua qualificação até que ele o encontre.

• Situação das mulheres: juntamente com a Síria, a melhor de qualquer país árabe. As mulheres entraram na universidade, tinham os mesmos direitos legais que os homens, podiam entrar no exército, votar, dirigir um carro, voar um avião, trabalhar, viajar, ocupar cargos públicos (houve ministras líbios), possuir um negócio, recitar o Corão em público, possuir sua própria conta bancária ou casa, e sair por conta própria para a rua. A licença de maternidade era muito extensa e não era permitido fazer trabalho físico pesado. Não governava a Charia (lei radical muçulmana), os casamentos de menores eram proibidos e as mulheres obtinham o mesmo direito ao divórcio que os homens. Em 2001, 16% das mulheres líbias tinham um diploma universitário. No ensino secundário e superior, as moças eram 10% mais do que os moços. Havia centros de "reabilitação moral" onde uma mulher poderia se refugiar se tivesse problemas com uma família fundamentalista. A pitoresca guarda pessoal de Gaddafi, composta exclusivamente de mulheres, tinha a intenção de chamar a atenção para o mundo sobre a situação das mulheres líbias. No Ocidente não houve manifestações de feministas que protestavam contra a queda do único estadista que poderia garantir os direitos das mulheres líbias. Veja mais aqui.

• Salário de uma enfermeira: 1.000 $ (equivalente a 2.170 € no sul da Europa).

• Compensação de desemprego: 730 $ por mês (equivalente a 1.580 € por mês no sul da Europa).

• Preço de um litro de gasolina: 14 centavos (comparado com 1,3 € na Espanha), menos de um litro de água. Isso dá uma ideia de como, no Ocidente, as multinacionais do petróleo estabelecem preços como um cartel mafioso ― chamam de "livre mercado".

• Preço da eletricidade: gratuita. Não havia contas de eletricidade.

• Impostos e taxas: a maior parte proibidos.

• Venda e consumo de álcool: proibido.

• Auxílios estatais para cada abertura de PME: 20.000 $ (equivalente a 43.485 € no sul da Europa).

• Ajuda para o desenvolvimento da agricultura: qualquer líbio que quisesse viver no campo e se dedicar à agricultura recebia gratuitamente do Estado terra, casa, gado, material agrícola e sementes.

Estas realizações estão há anos luz do que qualquer país do Terceiro Mundo conseguiu com a democracia ocidental e as orientações dos Programas de Ajustamento Estrutural (SAP) do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Elas também estão a anos luz de distância das petro-monarquias árabes do Golfo, embora sejam mais ricas em petróleo do que a Líbia. Tanto que, em 2005, a ONU elogiou a Líbia por seus avanços sociais, sem paralelo em toda a África. A Líbia era o exemplo perfeito de até onde um país pode ir quando usa os recursos providencialmente, sem intermediários estrangeiros, parasitas, mercadores, especuladores ou saqueadores. A Líbia era, em suma, o caso oposto ao Congo-Kinshasa ― um país tremendamente rico em recursos, mas desorganizado e saqueado.


Por suas políticas sociais, Gaddafi era muito popular entre a esmagadora maioria do povo líbio. Manifestação de 01 de Julho de 2011 na Praça Verde de Trípoli. 1,7 milhões de líbios se aglomeraram: 95% da população de Trípoli. Esta demonstração encontrou pouco eco na mídia ocidental.


O PROBLEMA DA ÁGUA: RESOLVIDO

O mundo árabe não se caracteriza por ser precisamente rico em água, o ouro azul é um recurso tão escasso que tem havido muitos conflitos em torno dele. O controle das fontes do Nilo Azul é a causa da desconfiança entre o Egito e a Etiópia e, em sua época, o desejo dos italianos de aproveitar a Abissínia (estrangular a Suez). Na Cisjordânia, os assentamentos de colonos judeus coincidem quase exatamente com a distribuição dos aquíferos. As fontes do rio Jordão têm semeado discórdia nas relações entre Israel e Jordânia, a água das Fazendas de Shebaa tem muito a ver com a inimizade Israel-Síria, e as montanhas do Líbano ("a Suíça do Oriente Médio") são mais uma de para Israel para dominar a área. O mesmo pode ser dito sobre as fontes do rio Tigre e do Eufrates e as instabilidades nas áreas armênias e curdas da Turquia: em todo o Oriente Médio, a água pode ser uma bênção ou uma maldição, dependendo o olhar. Mesmo quando o Oriente Médio se torna o Extremo Oriente, o fenômeno persiste: a luta pelos recursos hídricos do Glaciar de Siachen e várias áreas montanhosas transformou toda a região de Caxemira, respondida por três potências nucleares: a China, a Índia e o Paquistão.

Precisamente devido à escassez de água, os muçulmanos em geral e os árabes em particular herdaram uma longa tradição de exploração dos recursos hídricos. As civilizações mesopotâmicas, persas, romanas e bizantinas acumularam valiosas tradições de controle e gestão da água, e mesmo hoje, incluso nos vales mais afastados do Afeganistão, as valas são cuidadosamente construídas e as colheitas são mantidas verdes.


Ao contrário de Marrocos ou Líbano, que têm regiões montanhosas e verdes, a Líbia é um dos países árabes mais áridos: 95% do seu espaço é puro deserto. Teve a temperatura mais alta já registrada: 58 ° C, em Al 'Aziziyah, em 13 de Setembro de 1922. O clima é extremamente seco, e apenas 2% do território (áreas costeiras e oásis) recebe precipitação suficiente para ser capaz de dedicar-se à agricultura. Paradoxalmente, no Saara é também o maior aquífero de água fóssil do planeta: o Sistema Aquífero do Arenito Núbio, com 150.000 quilômetros cúbicos (!) de água. O aquífero, que foi acidentalmente descoberto em 1953 durante a busca de petróleo, abrange áreas da Líbia, Chade, Egito e Sudão.

O Sistema Aquífero do Arenito Núbio

A África está repleta de enormes aquíferos, mas com líderes corruptos, povos desordenados e dívidas odiosas contraídas com bancos internacionais, nunca foram devidamente explorados e usinas de tratamento de água caras estão sendo usadas para cobrir benefícios para empresas de dessalinização ocidentais. Gaddafi foi o primeiro estadista que procurou seriamente aproveitar o potencial hídrico do Saara para tornar seu país autárquico em água. Para isso, o "ditador" e "sátrapa"  líbio financiou (25.000 milhões de dólares) uma obra faraônica chamada Grande Rio Artificial, o maior projeto de irrigação do mundo e uma das maiores obras de engenharia já realizadas. O objetivo era trazer água dos aquíferos e oásis do Saara até as sedentas cidades costeiras, algumas das quais (como Bengasi) não poderiam beber água de seus próprios aquíferos devido à invasão da água do mar. 1.300 poços foram cavados (quase todos eles com mais de 500 metros de profundidade) e 2.820 km de tubulações subterrâneas e aquedutos foram construídos. Antes de ser bombardeado e destruído pela OTAN, o Grande Rio Artificial ― que Gaddafi orgulhosamente se referiu como "a oitava maravilha do mundo" ― bombeava 6,5 milhões de metros cúbicos de água para a costa todos os dias.

A infraestrutura hídrica de Gaddafi conseguiu fazer o deserto florescer. Estes vergéis, situados no meio do Saara, eram apenas o começo de um enorme plano para converter a Líbia num país agrário, tornando-o uma potência econômica regional e atraindo investimentos, contratos e trabalhadores. Cada uma destas parcelas tem um diâmetro de aproximadamente um quilômetro. Gaddafi planejava desenvolver 160 mil hectares de lavouras para fazer da Líbia um país autárquico em alimentos e também para torná-lo uma potência agrícola exportadora.
Os campos de Al Kufra, localizados perto de um oásis, podiam ser facilmente vistos pelos astronautas do espaço e eram uma aparição comum nos atlas como "O mundo visto do ar". Sua forma circular foi devido ao uso de uma técnica mecanizada, o sistema de irrigação de pivô central, que irriga em círculos e minimiza a perda de água por evaporação.

Evolução dos vergéis líbios de 1972 a 2001. Eram cultivados cereais, frutas, legumes e forragem para bovinos. Principais prejudicados: Marrocos, Egito e Israel. Principal beneficiado: o povo líbio. Tudo isso foi destruído pelos bombardeios da OTAN em 22 de Julho de 2011, em Brega e em outros lugares. No dia seguinte, a OTAN bombardeou a fábrica que construía as partes e seções do oleoduto.

De 1988 a 2006.

Rede hídrica da Líbia. As fases III e IV ainda estavam em construção quando foram bombardeadas. O Grande Rio Artificial foi descrito no "Livro Guinness dos Recordes" como uma "maravilha do mundo moderno".

Em Agosto, a UNICEF alertou que o bombardeio da OTAN de infra-estruturas hídricas poderia "tornar-se um problema de saúde sem precedentes". Pouco importa: o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e as empresas de construção ocidentais estão esfregando as mãos pensando no dinheiro que emprestarão ao novo governo líbio e nos benefícios que obterão ao reconstruir o país. E é que destruir países e depois reconstruí-los como melhor convir, independentemente do número de vítimas, é um dos maiores negócios da era da globalização.

Poucos precedentes existem dessa ação genocida da OTAN. Os mongóis do século XIII, que não eram precisamente conhecidos por seus objetivos humanitários, destruíram completamente os sistemas de irrigação persas (os qanats) quando eles invadiram, causando caos generalizado e mortalidade maciça. A Mesopotâmia tornou-se uma planície pantanosa invertebrada onde a malária era galopante. Na Segunda Guerra Mundial, os Aliados também bombardearam a infraestrutura hídrica da Líbia.

Mais informação: (1), (2), (3) e (4).

Arte por David Dees. 

O TEMA IDENTITÁRIO — GADDAFI E AS TRIBOS LÍBIAS

Se pretende sobreviver a longo prazo, todo Estado deve levar em conta as particularidades étnicas que compõem seu espaço. Regimes que dão as costas a problemas étnicos, os negam ou pretendem realizar remendas políticas de homogeneização, acabam submersos nelas. É por isso que a globalização em si, que busca impor esse processo em todo o planeta, vai falhar mais cedo ou mais tarde e terminará entre conflitos étnicos sangrentos.

Na Europa, a tradição dos Estados, da ordem e da hierarquia é muito antiga e, embora não seja um continente homogêneo, pode-se dizer que a maioria dos países europeus, e até mesmo o conceito da própria Europa, são etnicamente viáveis ​​enquanto as identidades são respeitadas e não se destinam a ser amalgamadas. A Líbia é outra questão. A existência da Líbia como um Estado independente, com as suas fronteiras atuais, é muito recente. Devido à dificuldade de cultivar o solo, a vida sedentária na Líbia é uma ocorrência muito tardia, e praticamente apenas circunscrita à costa da província de Cirenaica. Até bem no século XX, a maioria dos líbios eram nômades extremamente pobres, e as únicas estruturas de organização que existiam eram estrangeiras de caráter colonial (principalmente Itália e Reino Unido) e tribos nativas. Então vieram os estrangeiros de caráter empresarial, que infelizmente para eles, coincidiam com a organização da estrutura estatal pelo ditador líbio. Gaddafi, um beduíno de Sirte que nunca se envergonhou de suas origens humildes, queria basear um forte Estado líbio em contratos com as várias tribos, e considerou que a única maneira da Líbia de não ser dominada por estrangeiros era expulsar as formas de organizações alógenas (empresas e sátrapas relacionados com o antigo colonialismo imperialista) e atualizar a organização tribal líbia, concordando com os patriarcas locais e dando a cada tribo um lugar dentro do Estado. É dessa forma que Gaddafi chegou a se tornar popular em praticamente todas as tribos líbias, dos árabes da costa ao tuaregues do deserto.

Mas havia uma sombra na política étnica gaddafista: os berberes do Oeste do país (montanhas Nafusa e arredores). Os colonos italianos concederam autonomia religiosa e judicial a esta minoria, já que é de religião Ibadi (uma seita muçulmana que se estendeu durante a conquista árabe do Magrebe). Os Ibaditas, embora considerados basicamente sunitas (no Ocidente não são considerados sunitas ou xiitas), diferem ligeiramente dos malekitas, que compõem o resto da população líbia. Eles não têm suas próprias mesquitas e se unem com o resto dos fiéis, mas estabeleceram laços com Omã, o único Estado governado pelo ibadismo. Esse é o primeiro problema dos berberes da Líbia: suas relações com um regime essencialmente pró-ocidental.

Zonas berberes em laranja, zonas árabes em marrom, zonas desabitadas em cinza.

O outro problema dos berberes são os laços de alguns de seus líderes com a CMA (Congrès Mondial Amazigh), uma ONG francesa que, como todas as ONGs, é a frente legal para operações de engenharia social, diplomacia, agitação e inteligência. Este corpo foi percebido pelo regime líbio como hostil e interessado em promover a sedição na Líbia para desestabilizar o Estado e torná-lo vulnerável à penetração estrangeira.

Gaddafi queria um Estado forte e unido. Embora não interferisse na vida privada dos berberes, o idioma tamazight ou berbere estava ausente nas instituições públicas, e o sistema educativo não mencionava os berberes na história da Líbia. A Declaração Constitucional de 1969 descreveu a Líbia como um Estado Árabe e estabeleceu o árabe como a única língua oficial. Em 1977, a Declaração de Estabelecimento da Autoridade Popular colocou ainda mais ênfase na natureza árabe da Líbia, chamando seu Estado de "Yamahiriya Arabia Líba". Até 2007, uma lei proibia que dessem nomes berberes aos recém-nascidos. Embora os berberes nunca tenham sofrido limpeza étnica ou terrorismo de Estado como os armênios na Turquia ou os curdos no Iraque, Gaddafi não simpatizava com eles e continuou a considerá-los como um setor social que provavelmente seria usado como um vetor de penetração estrangeira. Em 1985, o líder líbio declarou: "Se a sua mãe lhe transmite esse idioma (tamazight), ela está lhe alimentando com o leite do colonialismo e transmite seu veneno para você". É compreensível que os berberes se levantassem contra Gaddafi quando o conflito líbio começou no início de 2011 ― embora os problemas com os berberes tenham sido menores e o maior conflito tenha sido o da Cirenaica, que é precisamente conhecido como uma região "multitribal".

Todos os etnólogos do século XX consideravam que os berberes líbios eram muito arabizados tanto cultural como racialmente. Um estudo italiano de 1932 concluiu que não havia berberes puros na Líbia. O censo colonial de 1936 não diferenciou entre árabes e berberes: ambos foram incluídos na denominação "líbios". Os censos mais recentes incluíram ambos os grupos étnicos da mesma categoria, pelo que não existem estatísticas fiáveis ​​sobre o número de berberes na Líbia; seu número pode ser entre 25.000 e 150.000. A população de língua tamazight, incluindo os tuaregues (que são leais ao gaddafismo) e os habitantes de Gadamés, pode ser cerca de 10% da população.

A política tribal de Gaddafi, que consistia basicamente em concordar com as tribos do interior e deixá-los em paz, era um problema para a globalização. Os espaços onde essas formas de organização social e familiar subsistem (assim como a fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão) continuam a ser um problema importante para o comércio internacional. Essas pessoas não estão integradas na economia de mercado, são autárquicas, realizam seus intercâmbios comerciais a nível regional sem estarem sujeitas a política fiscal alguma, e não dependem da oferta das multinacionais ou das flutuações na bolsa: eles se sustentam sem contar o resto do mundo. É um modo de vida que a globalização quer desmantelar e integrar nas cidades do litoral. Com a irrupção da OTAN na Líbia e a queda do regime de Gaddafi, o modus vivendi das tribos do deserto pode ser esperado para ser cada vez mais ameaçada.

O futuro dos tuaregues é incerto. Durante os anos 1970, muitos tuaregues se alistaram na Legião Islâmica, um exército mercenário que Gaddafi usou para apoiar ou desestabilizar os países vizinhos (Chade, Sudão, Líbano) ou movimentos de guerrilha. O bom comportamento desses homens conquistou o apoio de Gaddafi em suas próprias rebeliões regionais, especialmente no Níger e no Mali. Embora a Legião tenha sido dissolvida em 1987, muitos de seus membros permaneceram servindo nas Forças Armadas da Líbia. Os tuaregues são atualmente um fator importante na geopolítica do interior da África. Eles são inevitavelmente relacionados com Gaddafi, e quem queira dominar a faixa do Sahel deverá contar com eles para o bem ou mal. Acredita-se que a maioria dos quadros gaddafistas fugiram de Níger e são escoltados por tuaregues.

GADDAFI E A RELIGIÃO

No mundo muçulmano, a religião desempenha um papel muito importante, mesmo para aqueles que não são islâmicos radicais ou mesmo praticantes sérios. Para eles, ser judeu ou cristão é infinitamente melhor do que ser ateu. Geralmente, os muçulmanos são incapazes de conceber um homem que não tenha nenhuma fé religiosa de qualquer tipo, e consideram que se eles não tivessem o Islã, eles não seriam nada e o mundo os devoraria.

Embora no passado houvesse regimes islâmicos muito fundamentalistas (como os Almorávidas e Almóadas), o radicalismo islâmico, como o conhecemos hoje, é uma ocorrência muito recente. O mundo muçulmano estava a caminho de se modernizar gradualmente e emergir como uma potência internacional, até que um evento trancou esta ascensão: a criação do Estado de Israel em 1948. Desde então surgiram numerosos movimentos radicais, principalmente relacionados com redes de inteligência presas no Egito, Marrocos, Arábia Saudita e Paquistão. Talvez o Talibã seja o exemplo mais perfeito, com um fundamentalismo sem precedentes no mundo muçulmano: a imposição da burca, militantes que desde a infância dedicam suas vidas a aprender o Corão de cor, e quando já o conhecem, o memorizam novamente do zero, Mas desta vez de cabeça para baixo. Quando eles não conseguem recitá-lo, apanham com uma vara. A letra com sangue entra. Os talibãs foram apoiados diretamente de Washington para conter a expansão soviética (e quem duvidar, pode dar uma olhada no filme "Rambo III") e, em seguida, foram a desculpa perfeita para o Pentágono invadir a Ásia Central.

Embora os EUA se passar como paladino do antiradicalismo, ele está aliado com ditaduras religiosas como a Arábia Saudita e outros, enquanto ataca países árabes e avançados como o Iraque, a Líbia, o Líbano ou a Síria. Curiosamente, também os cristãos orientais (maronitas, caldeus, coptas, armênios) estão na lista negra do atlantismo. Para dar um exemplo, um cristão armênio goza no Irã de uma liberdade religiosa que seria impensável em países aliados dos EUA, como Marrocos ou Arábia Saudita. O mesmo rezava pelos cristãos caldeus no Iraque sob Saddam Hussein.

Gaddafi, como ex-pan-arabista e herdeiro do socialismo árabe, apesar de ser um crente, considerava que a política deveria ser independente da religião; Seu modelo não era Maomé, mas Nasser. Gaddafi também estava bem ciente de que os islamistas radicais eram hostis a ele e que eles eram uma quinta coluna do inimigo em seu país. Ao contrário do que acontece na Europa (onde há mesquitas onde o radicalismo é pregado sem qualquer impedimento), Gaddafi mandou "observadores" às mesquitas líbias para monitorar os discursos dos clérigos, e até mesmo viajava homens com longas barbas, característica associada ao fundamentalismo. Gaddafi também criou abrigos para que as mulheres que tinham problemas com uma família "demasiado" tradicional poderiam encontrar abrigo. Este não é o caso na maior parte do mundo muçulmano, onde tais disputas geralmente se estabelecem com o esfaqueamento da mulher envolvida, um rubor de ácido no rosto, uma nuvem de pedras, chicotadas ou decapitação.

No entanto, deve ser reiterado que Gaddafi não era ateu. Ele mencionou Alá em seus discursos com muita frequência e ele amava a cultura árabe e muçulmana. Durante a Guerra Fria, numa visita a Moscou, Gaddafi se recusou a descer do avião ou reunir-se com o secretário-geral Brezhnev até que fosse levado para ver um funeral muçulmano, como prova de que o Islã não era perseguido na URSS.

O Cristianismo não foi perseguido sob o regime de Gaddafi. Antes da guerra, havia 60.000 coptas ortodoxas na Líbia, a comunidade religiosa mais antiga do país. Havia também 40.000 católicos, uma prefeitura apostólica (em Misrata), três vicariatos (Trípoli, Bengasi e Derna) e dois bispos (Trípoli e Bengasi). Em Trípoli havia também uma congregação anglicana de imigrantes das antigas colônias britânicas na África subsaariana. Embora houvesse liberdade de culto, não era permitido fazer proselitismo com muçulmanos, a literatura religiosa estava sujeita a censura e se um homem não-muçulmano queria se casar com uma mulher muçulmana, ele deveria se converter ao islamismo.

Igreja de Santa Maria degli Angeli em Trípoli, fundada em 1645 pela comunidade maltesa.

TERRORISMO PATROCINADO POR LÍBIA

O terrorismo internacional é, em sua maioria, terrorismo de Estado ― isto é, perpetrado por serviços de inteligência de vários países para forçar eventos ou tendências geopolíticas. O mesmo se poderia dizer de grande parte do crime organizado. Quase todos os países têm patrocinado o terrorismo de Estado de uma forma ou de outra e a Líbia certamente apoiou muitos grupos armados no exterior (tuaregues, piratas somalis, grupos palestinos etc.). Os ataques que a mídia ocidental atribuiu à Líbia foram usados ​​para colocar várias agências de poder contra Gaddafi e para atacar o país, então não adianta tentar, mesmo que acima, duas das mais sólidas.

O primeiro deles ocorreu na discoteca "La Belle" em Berlim-Oeste, um local frequentado por marines dos EUA. Três pessoas morreram (uma mulher turca e dois sargentos americanos) e 230 outras ficaram feridas, muitas delas permanentemente. A opinião pública mais informada considerou que o bombardeio da discoteca de Berlim foi a resposta de Gaddafi ao colapso de dois navios da Líbia, que por sua vez teria sido devido aos ataques terroristas de 27 de Dezembro de 1985 em Roma e no aeroporto de Viena.

O juiz que tomou o caso, Peter Mahofer, disse que não era de todo claro que o ataque estava relacionado com o regime líbio. Outro magistrado, Detlev Mehlis (aquele que décadas mais tarde manipularia a investigação sobre o assassinato do primeiro-ministro libanês Rafik Hariri em 2004 [2]) aceitou declarações de um tal de Musbah Abdulghasem Eter para incriminar um diplomata líbio e seu suposto cúmplice Mohammed Amairi. Foi muito mais tarde, em 1998, que foi sabido, graças ao canal de TV alemão ZDF, que o primeiro nome não era apenas uma testemunha falsa, mas também um agente da CIA, enquanto este trabalhava diretamente para o Mossad.

O então presidente dos EUA, Ronald Reagan, respondeu ao ataque chamando Gaddafi de "cão raivoso", congelando os ativos líbios, suspendendo o comércio com o país e lançando a Operação El Dorado Canyon: um bombardeio em Trípoli e no porto de Bengasi, em que 60 líbios foram mortos (incluindo uma filha de quinze meses de Gaddafi) e mais de 2.000 ficaram feridos (incluindo outro filho de Gaddafi, Khamis, de três anos).

Depois de negociar com o governo alemão, em 2004 a Líbia concordou em compensar as vítimas do bombardeio com 35 milhões de dólares. Isso pôs fim ao vazio diplomático entre os dois países... Provocado por Washington.

O memorial emblemático em Bab al-Aziziya comemorava o bombardeio dos EUA em que Gaddafi perdeu uma filha adotiva. Os EUA perderam um caça-bombardeiro F-111 e os dois homens que compunham sua tripulação.

O outro famoso "ataque líbio" ocorreu na Escócia, em 21 de Dezembro de 1988, sobre a cidade escocesa de Lockerbie: um avião da companhia aérea Pan Am explodiu em pleno voo, matando 270 pessoas. Foi o atentado mais sangrento de civis estadunidenses (189 das vítimas eram estadunidense) até 11 de Setembro de 2011.

As investigações sobre o caso foram tratadas pela CIA, pelo FBI... e pela polícia local de Dumfries e Galloway. Em 1991, acusaram dois cidadãos líbios que supostamente trabalhavam para a inteligência do seu país: Abdelbaset Ali Mohmed Al Megrahi, chefe de segurança da Aerolíneas Árabes Líbias (LAA) e Al Amin Khalifa Fhimah, diretor de estação da LAA em um aeroporto de Malta. O departamento de Ação Psicológica do Mossad (inteligência israelita) emitiu imediatamente slogans a vários jornalistas de vários meios de comunicação (incluindo Gordon Thomas, autor de "The Secret History of the Mossad") para culpar a Líbia pelo atentado, e começou uma campanha midiática de assédio e demolição contra o regime gaddafista.

A Pan Am pertencia a Yuval Aviv, ex-oficial de Mossad. A empresa exigiu o aparecimento do FBI, da CIA e da DEA (muito hábil em basear casos com conteúdo turvo), mas essas agências não quiseram testemunhar por motivos de "segurança nacional". Após o julgamento, o Conselho de Segurança da ONU e a União Europeia aprovaram sanções duras contra a Líbia, já que Trípoli se recusou a extraditar o acusado. Estas sanções, e várias negociações diplomáticas com Gaddafi, resultou no estadista líbio entregando às autoridades britânicas em 1999 os dois cidadãos acusados ​​de serem julgados no Reino Unido. Como resultado, a UE retirou as suas sanções contra a Líbia. O segundo acusado, Fhimah, foi absolvido, e o primeiro, Megrahi, foi condenado em 2001 a 27 anos de prisão ― embora ele sempre alegasse ser inocente.

Em Outubro de 2002, Gaddafi pagou $ 2.700 bilhões para as famílias das vítimas ― 10 milhões por vítima. Em Agosto de 2003, ele formalmente aceitou a responsabilidade líbia em Lockerbie; no mês seguinte, a ONU levantou suas sanções. Era a época da Guerra do Iraque, Saddam Hussein havia caído e Gaddafi considerava que só poderia salvar seu país de ser bombardeado se ele abaixasse a cabeça e fizesse aberturas para acalmar o clima no Ocidente.

O atentado de Lockerbie, 21 de Dezembro de 1988.

O verdadeiro autor do bombardeio de Lockerbie era uma facção da CIA operando na Alemanha, que introduziu o explosivo no avião durante uma escala em Frankfurt. Em 2005, foi suposto que, segundo com o ex-chefe escocês de polícia que tinha investigado o caso, a evidência (essencialmente o temporizador da bomba) foi fixada pela CIA para incriminar os líbios. O mesmo "especialista" que examinou o cronômetro mais tarde admitiria que ele mesmo o fez, e a testemunha-estrela (um maltês) que forneceu uma ligação entre a bomba e a pasta admitiu que ele foi subornado pelo governo dos EUA com $ 2 milhões de dólares para se deitar no estrado e incriminar os líbios. Isso fez com que as autoridades escocesas se propusessem a rever o caso, mas a saúde do condenado não o permitia: sua sentença foi interrompida e foi enviada oportunamente para a Líbia. Não é o objetivo deste artigo ir mais longe neste assunto, quem está realmente interessado saberá como investigar e chegar a suas próprias conclusões.

A FALHA DO PAN-ARABISMO E O SUCESSO DO PAN-AFRICANISMO: OS ESTADOS UNIDOS DA ÁFRICA

"Quaisquer que fossem os defeitos de Gaddafi, ele era um verdadeiro nacionalista. Eu prefiro nacionalistas que fantoches nas mãos de interesses estrangeiros... Gaddafi fez grandes contribuições na Líbia, África e no Terceiro Mundo. Devemos lembrar que, como parte de sua visão de independência, ele censurou as bases britânicas e americanas da Líbia depois de tomar o poder".
(Yoweri Museveni, Presidente da Uganda).

Depois de ter tentado sem sucesso estabelecer um espaço comum com o Egito e a Síria, Gaddafi sabia que o pan-arabismo havia terminado. O Egito caiu nas mãos do atlantismo em 1982, o poder de Israel estava fora de toda dúvida, a Síria era pró-soviética demais e os petro-regimes árabes só se preocupavam com petrodólares. Em um discurso à Liga Árabe, Gaddafi censurou o resto do mundo árabe, entre outras coisas, que não movessem o dedo para o Iraque e que suas agências de inteligência conspirassem umas contra as outras. Em outra ocasião, ele colocou as cartas na mesa firmemente sobre Abdullah, o rei da Arábia Saudita: "detrás de ti está a mentira e diante de ti está a tumba, foste criado pela Grã-Bretanha, e está protegido pela América". Gaddafi estava se isolando lentamente do mundo árabe e decidiu colocar suas energias em um projeto talvez mais coerente com a geopolítica da Líbia: um império africano. Consciente de que a ONU não tinha impedido que dezenas de conflitos fossem controlados pelo Conselho de Segurança e que a Organização da Unidade Africana (que se originou nas lutas anticoloniais da década de 1960) era um circo inútil, em 2002 fundou a União Africana.

Gaddafi sabia que no mundo moderno, os estados modestos não podem ter peso na cena internacional e que apenas os blocos geopolíticos coesos e coerentes podem já manter um mínimo de soberania diante do boom da globalização. Sua ideia era formar um super-estado pan-africano de cerca de 200 milhões de habitantes, distribuído em diversos grupos étnicos árabes, berberes e subsaarianos. Uma união com um único exército, uma moeda única e um passaporte único, que poderia ter sido negociado de mano a mano com outros pesos pesados ​​no conselho em um mundo multipolar (EUA, Europa, China, Índia, Rússia, Brasil... África ). Gaddafi rapidamente adotou uma parafernália pan-africanista, relaxou sua hostilidade contra os berberes, declarou-se "rei dos reis" na África (algo que os ocidentais parece horrível, mas que para os africanos, especialmente subsaarianoss, funciona; também servia para tratar de mano a mano com os royalties de outros países, especialmente árabes) e, em Outubro de 2010, tornou-se o único líder mundial que formalmente pediu desculpas aos negros pelo papel dos árabes no negócio da escravidão. Ele também ofereceu mediar em numerosos conflitos e negociou o cessar-fogo no Congo, Uganda, Etiópia e Eritreia.

O Marrocos (que é uma anomalia geopolítica na África como a Grã-Bretanha na Europa) nunca aderiu à União Africana porque, entre outras coisas, reconhecia a República Árabe Saaraui Democrática. Mauritânia foi suspensa após o golpe de 2008 e Madagascar após a crise política de 2009. Como você pode ver, os centros financeiros da União formam um eixo da Líbia-Nigéria-Camarões, três importantes países petrolíferos que Gaddafi tentou unir através de Níger. Demasiadas vezes somos informados sobre a necessidade de "ajudar os africanos" e dar-lhes milhões de dólares e euros, inúteis "ajuda" que, como a escritora zambiana Dambisa Moyo afirma claramente em seu livro "Dead Aid", não fazem nada mais do que colocá-los em dívida e transformá-los em escravos dos bancos internacionais. Isso, por sua vez, faz com que eles emigrem para o Ocidente, onde causam problemas muito sérios. Raramente se ouve no Ocidente que aqueles que devem mudar sua situação devem ser os próprios africanos, sem ajuda externa, e é exatamente isso que Gaddafi estava tentando fazer.

Através da União Africana, Gaddafi ajudou a estruturar e estabilizar o continente, fornecendo empréstimos, ajuda humanitária, desenvolvimento de infra-estrutura e tropas de manutenção da paz. Na Libéria, tinha investido 65 milhões de dólares; Na província turbulenta de Darfur (Sudão) havia 20.000 militares da UA, na Somália 8.000 e tanto no Mali como no Níger e no Chade, Gaddafi apoiou economicamente e militarmente os governos, e em 2001 enviou tropas de paraquedistas para repelir um ataque contra a capital de Chade. Na Somália, Gaddafi queria um governo forte para controlar o espaço marítimo (do mais estratégico do mundo) e sujeitar o enorme tráfego comercial a uma política fiscal e tarifária. Obviamente isso não se adequava aos países atlantistas. Quando a Eritreia (apoiada pela Líbia, Sudão, Irã e China) bloqueou as exportações da Etiópia, eles buscaram saída para o mar através da Somalilândia (uma província da Somália que é de fato soberana e que se não se tornou independente é devido ao Egito que conspira contra a Etiópia). Somalilândia  é muito bem adaptada ao comércio internacional, porque tem as leis mais liberais no mundo, seus portos são como patos bebendo e serviram para enriquecer uma elite dos caciques locais. Quando se tornou claro que o governo somali controlava apenas algumas ruas em Mogadíscio e que o estado somali falhara, Gaddafi dirigiu sua ajuda para a região de Puntlândia e a pirataria, que ele concebeu algo como um imposto sobre o mar, que tinha que ser definido para compensar a queda do estado somali. Em qualquer caso, muitos desses países estavam renunciando à dependência das finanças internacionais, baseadas em Nova York e Londres, e dirigindo sua dependência do poder africano maior, a Líbia, que estava tentando fazer com que os países africanos defendessem seus próprios interesses.

Da mesma forma, Gaddafi financiou diretamente a RASCOM (Organização Regional Africana de Comunicação por Satélite). A RASCOM lançou, com assistência francesa e das instalações da Agência Espacial Europeia na Guiana Francesa, um satélite em 21 de Dezembro de 2007, embora tivesse uma vida útil de cerca de dois anos. Em 4 de Agosto de 2010, foi lançado o primeiro satélite genuinamente pan-africano de telecomunicações. Este satélite fornece a televisão (incluindo a rede estatal líbia Arrai, com sede em Damasco, Síria), a Internet e comunicações telefônicas (incluindo no mercado esquecido de telefonia móvel em áreas rurais) para toda a África, acabando com a "cortina de ferro digital" que separava o continente do resto do mundo e sem ter de confiar em empresas estrangeiras.

Mas o principal problema foi que a União Africana estava em vias de criar um sistema financeiro africano, baseado principalmente no Banco Africano de Investimento (Tripoli, Líbia), no Banco Central Africano (Abuja, Nigéria) e especialmente no Fundo Monetário Africano (Iaundé , Camarões), que tinha 40 bilhões de dólares e estava começando a suplantar o Fundo Monetário Internacional (que dirigiu grande parte da economia africana até agora, abrindo as portas às multinacionais e bancos ocidentais e canalizando toda a riqueza dos países africanos para as costas e mares). A isto deve somar-se o projeto do dinar-ouro líbio, que suplantaria o franco CFA e o dólar como moeda de reserva da União Africana. Vamos ver isso em mais detalhes.

A UA tentou desesperadamente evitar a Guerra da Líbia. Em 9 de Abril, apelou à cessação imediata das hostilidades e ao envio de ajuda humanitária, bem como à proteção dos trabalhadores migrantes na Líbia. A comissão da UA tentou voar para a Líbia para discutir esses planos, mas a ONU negou permissão.

O DINAR-OURO E O DOMÍNIO DA ÁFRICA

"A Líbia é uma ameaça à segurança financeira da humanidade".
(Nicolas Sarkozy).

A economia — especialmente a economia financeira, especulativa e comercial — está na raiz dos conflitos mais modernos, e quase ninguém pode escapar. Experiências financeiras não ortodoxas foram a causa da queda de estadistas como Napoleão, Lincoln, Hitler... e agora Gaddafi. A opinião pública é relativamente clara que, no caso da guerra da Líbia, o motivo econômico é o petróleo. No entanto, existem outros motivos econômicos igualmente importantes ou mais. Para entender porquê Gaddafi estava ameaçando seriamente a Internacional do Dinheiro, devemos primeiro examinar o papel do dólar.

O dólar é atualmente a causa de muitas das instabilidades financeiras do mundo. Para saber porquê isso é assim, temos que voltar no tempo e ver como a economia comercial funcionava antes de 1971. Naquela época, a riqueza era baseada no padrão-ouro, e o dólar, tinha desde a Conferência de Bretton Woods de 1944, uma taxa de câmbio fixa sobre o ouro: uma onça de ouro era de US $ 350. Como regra, os países procuram exportar mais do que importam, de modo que sua balança comercial (diferença entre exportações e importações) seja positiva. Para isso, eles devem ter uma economia produtiva, a fim de ser capaz de vender e obter divisas para comprar bens para outros países. No entanto, os EUA começaram a aproveitar o fato de que o dólar estava sendo trocado diretamente pelo ouro e que era a principal moeda de reserva, para imprimir mais contas do que o ouro existente, pagando suas importações com essas notas, o que na prática, cada vez que valia menos. Isso teve o efeito de que muitos países pediram aos EUA ouro em vez de dólares como pagamento por suas exportações. Um desses países era a França de De Gaulle. Quando os navios franceses apareceram no porto de Nova York pedindo ouro, Nixon decretou em 1971 a abolição do padrão-ouro e a convertibilidade fixa do dólar em ouro... Precisamente para evitar que o Departamento do Tesouro perdesse suas reservas.

Posteriormente, o dólar tornou-se a moeda de reserva do mundo e é considerado uma riqueza em si mesmo. A maioria das transações comerciais são feitas em dólares, mas a realidade é que o dólar não é mais apoiado por nada (isso fica claro pelo fato de que, como o dólar não tem mais uma mudança fixa sobre o ouro, a onça de ouro subiu de $ 350 em 1971 para $ 1700 em 2011). A Reserva Federal ou o FED, o banco central emissor de dólares, pode criar (sempre a crédito) a quantidade de papel-moeda que você quer sem limite, abusando da "confiança dos mercados" para comprar todos os tipos de bens (especialmente petróleo), e assim importando (consumindo) muito mais do que exporta (produz). Trata-se de um negócio redondo: dando a máquina de bilhetes, o FED automaticamente imprime petróleo, gás natural, alimentos, subornos, fundos para fundações políticas e financiamento de movimentos subversivos no exterior etc. Não importa que a balança comercial dos EUA seja a mais deficiente no mundo ou que sua dívida é a maior de todas: tudo pode ser resolvido pela impressão de dólares... a menos que um dia o dólar deixe de ser a moeda de reserva internacional e seus parceiros comerciais parem de aceitá-lo e exijam que eles sejam pagos com outras moedas.

Por outro lado, os outros países, que não têm o poder de criar dólares, para entrar no comércio mundial, devem obter dólares de acordo com as regras do mercado: ser honesto, trabalhar produtivamente, exportar para o exterior e pedir que paguem em dólares para poder, por sua vez, comprar outros bens. Em suma, eles produzem mais do que consomem.

Por esta razão, pode-se entender o nervosismo de Wall Street sempre que um país pede, em troca de suas exportações, qualquer outra coisa senão dólares (como o ouro no caso de De Gaulle e Gaddafi, euros no caso de Saddam Hussein, Irã e Noruega, rublos no caso da Síria etc.), já que isso aniquila automaticamente a hegemonia do dólar, Washington perderia seu ás na manga e os EUA seriam forçados a produzir e exportar para obter outras moedas e pagar sua dívida: teria de seguir as mesmas regras do resto do mundo e veria que a falta de um tecido econômico produtivo (transferido para o Leste Asiático) e a sua posição geográfica (ruim para a exportação, ao contrário da Alemanha ou do Japão) o condenaria ao isolamento internacional.

O dólar fiduciário é o maior negócio da história, e não está nas mãos do governo dos EUA, mas de um banco privado: o FED. Em 4 de Junho de 1963, através da Ordem Presidencial 11110, Kennedy (o único presidente católico da história americana) arrebatou o FED do poder para criar dinheiro, dando esse poder ao governo. O Departamento do Tesouro começou a emitir notas marcadas em vermelho e com a legenda "US Note" (em vez dos tradicionais marcados em verde e com a legenda "Federal Reserve Note"). Estas novas notas eram de propriedade do Governo e do povo americano, estavam totalmente livres de dívidas e juros, e eram apoiadas por reservas de prata [3]. 4 bilhões desses dólares "reais" foram distribuídos. Cinco meses depois, Kennedy foi assassinado e todas as notas do governo marcadas como "US Note" foram retiradas da circulação. Ninguém desrespeita o FED ― e se Kennedy pagou, Gaddafi também iria pagar.

Uma vez que o dólar não é apoiado por quaisquer ativos tangíveis, cada vez que o FED emite dólares e aumenta sua oferta de dinheiro (sem apoiá-la com a produção de riqueza real), está desvalorizando a moeda (e os preços dos principais estão em dólares) e essa desvalorização afeta especialmente os países estrangeiros, que veem como suas reservas em dólares estão cada vez com menos valor devido à inflação. Além disso, o excesso de massa de crédito criado, é flutuado ocioso na abundância dos mercados, especulando, causando bolhas, procurando mercados implausíveis e lançando as bases de crises futuras. Acredita-se que, por causa da moeda fiduciária (criada indiscriminadamente a partir do ar), a massa monetária no mundo, entre dinheiro físico e virtual, é dez vezes maior que o PIB mundial, ou seja, o conjunto de bens e serviços suscetíveis pode ser comprado. É por isso que muitas vezes ouvimos declarações muito fortes criticando as finanças americanas, como quando o primeiro-ministro russo Putin disse que os EUA eram o "parasita" da economia global — uma frase que não falta de verdade, uma vez que cada vez que o FED emite moeda, está literalmente roubando riqueza de países detentores de dólares e/ou dívida dos EUA (China, Japão, Rússia etc.), importando tudo o que quer e em troca, exportando apenas papel com tinta. Isso se transformou em uma guerra financeira entre as oligarquias capitalistas do mundo. Uma dessas oligarquias ainda parece ligada ao poder do dólar, e os outros consideram que, definitivamente, "o dinheiro não tem país", e que chegou o momento de efetuar uma globalização monetária total.

Já o economista John M. Keynes tinha pedido em seu tempo de estabelecimento uma moeda mundial (o "bancor"), mas foi especialmente depois da falência do banco Lehman Brothers em 2008 que muitas vozes vieram pedindo a adoção de uma nova moeda de reserva que não seja o dólar. O euro é a alternativa mais credível (a razão pela qual os ataques dos mercados dos EUA contra a Europa e os países que exportam em euros são muitos), mas também tem sido ouvido petições a favor de uma moeda global totalmente nova — o que encerra definitivamente o círculo da globalização e sujeita a economia internacional a um Banco Central, provavelmente o FMI. Embora este projeto não se materialize, muitos países (especialmente muçulmanos) têm flertado com yuan-ouro, dinares-ouro e dirhams-prata. O mais importante foi a Líbia.

Antes da invasão da OTAN, Gaddafi estava prestes a lançar sua invenção financeira: o dinar-ouro. Esta moeda deveria estar respaldada pelo ouro, do qual o Banco Central da Líbia tinha as mesmas reservas que o Reino Unido (144 toneladas valorizadas em 6500 milhões de dólares), mas com 10% da sua população, o que na prática, o povo líbio tinha dez vezes mais ouro do que o Reino Unido. Gaddafi queria que o dinar-ouro se tornasse a moeda de reserva da União Africana e a única moeda válida para vender suas exportações, forçando os países que queriam comprar petróleo líbio a ganhar dinares-ouro, já pagando com ouro, produtos comerciais ou outros bens e serviços ― mas em qualquer caso, não com dólares ou outras moedas abstratas.

Através desta política, Gaddafi estava a ponto de minar a dominação na África de duas moedas principais: o dólar e o franco CFA (colônias francesas da África). Esta última moeda, oportunamente, tem um câmbio fixo em relação ao euro, e sua emissão é decidida a partir de Paris para controlar economicamente seu quintal geopolítico na África Subsaariana: um arco que vai de Cabo Verde (Senegal), passa através do rio Níger e o centro da África, e termina na foz do rio Congo. Em todo este espaço, Paris mantém numerosas campanhas militares, geralmente desconhecidas do público ― trabalho sujo feito principalmente pela Legião Estrangeira francesa, muitas vezes contra os interesses de Washington, pelo menos até a França retornar à dobra da OTAN em 2009.

Países onde o franco CFA é estabelecido como moeda de reserva. Nesses países, a França mantém sua própria empresa privada, semelhante ao dólar dos EUA no resto do mundo: simplesmente criando francos a partir do nada, emprestando-lhes juros e países endividados, Paris obtém cacau, ouro, algodão, sal, Madeira, peixe, algum óleo e gás natural, fosfatos, urânio e outros minerais, etc. Em uma frase, força todo o aparato produtivo de suas antigas colônias a dirigir seus esforços para o comércio exterior, enquanto obriga todos os seus orçamentos públicos a dedicar Para o pagamento da dívida. Em contrapartida, os países africanos obtêm notas sem valor real, e os seus fundos são propriedade do Tesouro francês. Gaddafi deveria dar a esses países a oportunidade de obter riqueza real em troca de suas exportações, pagando sua dívida e se liberando das tiranias monetárias. O franco CFA é controlado a partir de Paris e dos bancos centrais africanos sob o controlo do Tesouro francês (à exceção da União Europeia): Banco Central dos Estados da África Ocidental (Dakar, Senegal), Banco dos Estados da África Central (Yaoundé, Camarões ) E, em menor grau, o Banco Central das Comores.

Por que o dólar e o franco CFA eram ferramentas extremamente úteis para controlar a África? Quando um país africano (ou quase qualquer país do mundo) precisa de dinheiro, pega emprestado de um banco central, que o cria do nada, imprimindo-o sem qualquer apoio (ouro, prata, mão-de-obra, riqueza real etc.). Este banco central estrangeiro não dá o dinheiro sem um plano de fundo: empresta por interesse. Ou seja, não se trata de dinheiro real, mas de crédito ou dívida. Isso significa que o país africano em serviço deve todo o dinheiro que tem, mais um montante adicional. Para retornar sua dívida (que é sempre impagável em dinheiro, já que é maior do que a massa monetária), o país africano é forçado a negociar com o emissor de energia de sua dívida para "perdoar" dólares ou francos e, finalmente, privatizar sua dívida Recursos e infra-estruturas, liberalizando a sua economia e abrindo as portas às empresas estrangeiras. O capitalismo neoliberal global em seu estado puro.

A repartição de Gaddafi consistiria no seguinte: África não teria mais que pedir emprestado euros, dólares ou francos de potências extra-africanas. Agora qualquer país africano (exceto Marrocos) poderia pedir à União Africana dinares-ouro sem qualquer interesse. Como esta moeda seria muito forte (apoiada pela riqueza real: ouro e petróleo), ela logo se tornaria um buraco no comércio internacional, pagando sua dívida e nunca mais contraindo dívidas, libertando-se da tirania das moedas parasitas do mundo, encarecendo suas exportações, barateando suas importações, melhorando o seu nível de vida e escolhendo quais os países que estabelecem relações comerciais nos seus próprios interesses. Descobrimos que Gaddafi seguia para deslocar o Fundo Monetário Internacional e outros bancos como um credor internacional, e estava rumando para derrubar o dólar e o franco CFA do pódio monetário Africano. Gaddafi, e não as ONGs ou bancos, era a solução para o problema da fome na África. Podemos agora entender por qual motivo era tão popular na África subsaariana e por que os EUA e a França tinham esse interesse em acabar com ele

Nota de 20 dinares com mapa do Grande Rio Artificial.

A conexão Strauss-Kahn e Líbia

Pode-se dizer sem medo de delirar que Dominique Strauss-Kahn é um porco capitalista típico. No entanto, é um porco capitalista sensato e consistente que, em vista dos danos que o dólar está fazendo ao seu amado capitalismo, queria propor uma solução. A DSK era o campeão das oligarquias capitalistas europeias e do BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China) no Fundo Monetário Internacional e começou a se opor às estratégias da oligarquia americana.

É necessário voltar ao 29 de Março de 2009, quando Zhu Xiaochuan, governador do Banco Central da China (ou seja, o banco que emite o yuan) criticou a supremacia do dólar e propôs criar uma nova moeda de reserva virtual, apoiando-o com DES (Direitos especiais de saque), ativos emitidos pelo FMI que são trocados por dólares, euros, ienes e libras esterlinas, e são particularmente proeminentes quando o dólar é fraco, já que muitos investidores se refugiam neles. Dias depois, na cúpula do G20 em Londres, Washington aceitou a emissão de DEG no valor de US $ 250 milhões de dólares. Na cimeira do G8 em Aquila, em 8 de Julho de 2009, Moscou propôs finalizar o projeto, para realmente emitir esta nova moeda de reserva, chegando a mostrar protótipos. Gaddafi, que tinha concebido o dinar-ouro em 2000, decidiu aderir a este projeto, com a ideia de apoiar a sua moeda com o SDR do FMI. O assunto foi para o exame da ONU, e estava prestes a ver a luz em 26 de Maio de 2011, durante a cúpula do G8 em Deauville. O dólar deixaria de ser a moeda de referência do mundo, e os EUA teriam que desistir de financiar seu crescimento e maquinário militar por meio de dívida indefinida.

Sem embargo, a prisão de DSK, presidente do FMI, 11 dias antes da cúpula, interrompeu todo este processo. O capitalista (que há alguns anos elogiou o progresso econômico da Líbia) foi acusado de assediar uma empregada do hotel, e foi detido e isolado por dias, quando (de acordo com sítios como voltaire.net) ele estava prestes a tomar um avião para Berlim, onde ele estava para se reunir com a chanceler alemã Angela Merkel, para se reunir mais tarde com emissários Gaddafi e tentar obter uma assinatura de Gaddafi para aprovar o projeto da nova moeda. O FMI parecia interessado em usar o sistema na Líbia como um campo de testes, em seguida, generalizando-o internacionalmente. Por que a Líbia? Por um lado, porque a Líbia tinha um imenso fundo soberano (que incluía suas reservas de ouro e 150 bilhões de dólares), e por outro lado, porque o Banco Central da Líbia já estava emitindo dinheiro livre de dívidas e juros.

O antigo Banco Central Líbio.

É perturbador notar que na América do Sul algo semelhante está acontecendo ao que Gaddafi estava propondo com sua União Africana e o dinar-ouro: um novo banco central comum (o Banco do Sul) e uma nova moeda de reserva (Sucre) para o continente sul-americano. Esta moeda poderia ser respaldada por ouro, cobre e petróleo, mas parece que, ao contrário da moeda gaddafista, continuará a usar o interesse.

"Desgaddafização" do sistema financeiro líbio e rentabilidade da guerra

Destruir o sistema financeiro gaddafista, que negava benefícios ao poder financeiro internacional, era uma das prioridades da OTAN. Para fazer isso, eles fizeram várias coisas.

• Congelar os fundos da família Gaddafi.

• Congelar os ativos do Estado líbio, do Libyan Foreign Bank e da Libyan Investment Authority no exterior, incluindo 150 bilhões de dólares, dos quais 100 bilhões estão nas mãos de países da OTAN. Supostamente, as reservas de ouro da Líbia foram transferidas pelas autoridades gaddafistas para o Níger e o Chade (onde há petróleo, que a CNPC chinesa já assegurou em 2007 assinando um tratado com o governo, embora as estadunidenses ExxonMobil e Chevron tenham interesses significativos lá, incluindo um oleoduto).

• Londres, Paris e Nova York enviaram mesas de bancos do HSBC (guardião de 25 bilhões de euros em investimentos líbios bloqueados) e Goldman Sachs para criar um novo banco central (o Central Bank of Libya). Este novo banco, que é uma mera subsidiária do mencionado, emite, com o governo rebelde, uma nova fonte monetária de dinheiro como a que temos no Ocidente: moeda fiduciária ou dívida fiduciária, com juros, que tem o mesmo valor que o papel mais a tinta que o compõe, e que condena o proprietário a pagar uma dívida com um ativo tangível (o suor de sua testa). Os ativos do antigo Banco Central da Líbia (um banco integralmente controlado pelo Estado, cuja sede em Trípoli estavam entre os primeiros edifícios governamentais a ser bombardeados pela OTAN) são confiscados, e quando os fundos liberados pela Líbia foram desbloqueados no exterior, este banco será o encarregado de gerenciá-los.


• Assegurar que o CNT (Conselho Nacional de Transição) líbio se compromete a pagar a "ajuda" da OTAN à Líbia.

• Ironicamente, países que congelaram e saquearam os fundos da Líbia, concordaram com Paris a emprestar-lhes (por interesse, supostamente) ao novo governo rebelde, para financiar a reconstrução do país. A Líbia é chamada a fazer parte das fileiras dos países africanos do Terceiro Mundo, irrevogavelmente endividados ao poder financeiro internacional e seus recursos valiosos saqueados por empresas privadas estrangeiras cujos lucros, para além de tudo, não vão para o seu país de origem, mas para uma pequena elite com contas correntes em paraísos fiscais e paraísos escravos.

• Neutralização do poder financeiro da União Africana, que emanou diretamente dos investimentos líbios e ameaçou emancipar a África da tirania monetária internacionalista. Isto inclui o Banco Africano de Investimento, o Banco Central Africano e o Fundo Monetário Africano.

• O Fundo Monetário Internacional (FMI), sob a liderança de Christine Lagarde (um especialista em interesses atlantistas, cuja nomeação provocou os protestos da Rússia e da China), rapidamente reconheceu o novo conselho do governo líbio como um poder legítimo, abrindo as portas a uma miríade de credores que agora podem "oferecer seu financiamento" (leia-se dívida) para o novo estado. Por sua vez, o Banco Mundial, em cooperação com o FMI, oferece ajuda para reconstruir infra-estruturas destruídas e apoiar "preparações orçamentárias" (ou seja, medidas de austeridade).

• A KBR (Kellog Brown Root), uma empresa subsidiária da Halliburton, recebeu contratos para a reconstrução de aquedutos e outras infraestruturas civis destruídas pelos bombardeios da OTAN.

• A guerra da Líbia tem sido uma vitrine para a indústria mundial de armas. A declaração da zona de exclusão aérea, e as milhares de missões de bombardeio subsequentes, permitiram que a UE e os EUA exibissem seus brinquedos de guerra para que potenciais compradores tomassem nota. A empresa francesa Dassault Aviation SA, estreitamente relacionada com Sarkozy, pôde exibir seus caças Rafale. A multinacional Lockheed Martin, com sede nos EUA, dedicou-se a voar com o F-16 Fighting Falcon e o poderoso Boeing F/A-18EF Super Hornet, enquanto o consórcio Eurofighter (Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha) conseguiu desdobrar o Typhoon. Atentos a este desfile macabro estavam os tubarões de países como a Índia, Japão, Arábia Saudita, Catar, Kuwait, Omã e Suíça, países que estão pensando em equipar-se com novas aeronaves para sua aviação militar.


Mais informações sobre o padrão ouro: (1), (2) e (3).

QUEM ESTÁ POR TRÁS DA GUERRA DA LÍBIA

O motor da Guerra da Líbia tem sido os interesses de uma oligarquia econômica francesa cristalizada em torno de Sarkozy, e o lobby sionista dos EUA e do Reino Unido.

O senador Joseph Lieberman foi quem transmitiu uma petição de Tel-Aviv à Casa Branca em Fevereiro de 2011, exigindo que Obama fornecesse armas, conselhos e dinheiro aos rebeldes para estabelecer uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia. Outro senador, Lindsey Graham, declararia na CNN que "Minha recomendação à OTAN e ao governo é cortar a cabeça da serpente: ir a Trípoli e começar a bombardear".

Em uma carta aberta à House of Republicans, vários políticos americanos pediram que Washington contornasse as resoluções "humanitárias" da ONU de Março de 2011 e começassem a armar os "rebeldes" para derrubar Gaddafi e propiciar uma mudança de regime. Os signatários: Elliot Abrams, John Podhoretz, Robert Kaplan, Robert Lieber, Michael Makovsky, Eric Eldelman, Kenneth Weinstein, Paul Wolfowitz (que desempenhou um papel essencial no apoio à Guerra do Iraque em 2003), Randy Schneunemann e Neocon William Kristol, que na Fox simplesmente declarou: "Não podemos deixar Gaddafi no poder, e não deixaremos Gaddafi no poder".

Na edição de 22 de Agosto de 2011 do Financial Times, um artigo intitulado "Líbia agora precisa de botas no chão", Richard Haass, presidente do poderoso CFR, finalmente reconheceu abertamente que as operações na Líbia visavam a derrubar Gaddafi (sem vestígios de "proteger a população civil" ou fornecer "ajuda humanitária").

A guerra da Líbia pode ser interpretada em grande medida como uma operação comercial por parte de empresas petrolíferas anglo-americanas e francesas para compensar as posições perdidas, respectivamente no Iraque (em favor do Irã e da China) e no Irã (quando a França concordou em retirar sua companhia petrolífera Total devido a sanções internacionais sobre Teerã).

QUEM SÃO OS "REBELDES LÍBIOS"?

Não houve mudança de regime na Líbia para "revoltas populares". Gaddafi foi extraordinariamente popular, não só na Líbia, mas em grande parte da África subsaariana. As famosas "revoltas da Líbia" não passaram de um golpe de Estado, de uma revolta de uma parte do exército e de outros quadros do regime líbio. Essas facções do governo romperam com a autoridade de Trípoli quando Gaddafi anunciou mais uma rodada de nacionalizações de petróleo. Esta ação foi para privar esses senhores de monopolizar os lucros e erigir-se na versão líbia dos sheiks árabes do Golfo. Assim, temos, por exemplo, o presidente da CNT (Conselho Nacional de Transição), Mustafa Abdul Jalil, ex-ministro da Justiça da Yamahiriya. Jalil foi convidado a Londres para discutir sua participação nos lucros do petróleo. Na prática, pode-se dizer que ele é simplesmente um dissidente gaddafista subornado pelo Ocidente. O mesmo pode ser dito de Mahmud Jibril, um alto funcionário econômico que havia tentado "neoliberalizar" o país com uma onda de privatizações, e não recebeu o projeto de redistribuição de riqueza que Gaddafi havia anunciado em 2008. Seis meses antes do conflito Líbia, Jibril, cujo modelo de estado econômico liberal era Singapura, se reuniu na Austrália com Bernard-Henri Lévy, um "intelectual" francês, para discutir a formação do Conselho Nacional de Transição e a derrubada de Gaddafi. Assim que a rebelião estourou em Bengasi, Jibril voou imediatamente para o Cairo para encontrar o igualmente rebelde Conselho Nacional Sírio e com Lévy novamente. Pode ser uma das razões pelas quais o novo governo da Líbia reconheceu o CNS como o governo legítimo da Síria.

Quanto aos "rebeldes da Líbia" propriamente ditos, a maioria não são líbios, mas soldados qatares (e ver aqui), e jordanianos, bem como mercenários e mujahideen sauditas (notadamente o príncipe Bandar), emiratenses, kuwaitianos, ex-talibãs, ex-prisioneiros de Guantánamo, al-qaederos paquistaneses e até mesmo contratistas colombianos e mexicanos (de fato, no vídeo da captura de Gaddafi era possível ouvir vários "rebeldes da Líbia" falando em espanhol ibero-americano). Esta tropa heterogênea tem sido ativamente aconselhada desde o início de Março de 2011, talvez mais cedo pela CIA, o MI6, a inteligência francesa e grupos de operações especiais dos EUA e Reino Unido. Uma boa parte destes combatentes são a resposta dos petro-regimes do Golfo à ajuda dos EUA durante as revoltas populares em lugares como Bahrein e Iêmen ― que foram sufocados com tremenda brutalidade, mas ao contrário da Líbia, não obtiveram uma resposta da Comunidade Internacional. A presença de combatentes do Golfo era tão óbvia para as forças leais de Gaddafi que era muitas vezes suficiente falar-lhes em árabe líbio para distinguir os "rebeldes". Se a resposta estava no árabe do Golfo, simplesmente atiravam.

Esses rebeldes que se são líbios são principalmente radicais muçulmanos e pessoas ligadas à Al-Qaeda, principalmente de Derna e Bengasi, no leste do país, e cujo objetivo é impor a Sharia na Líbia, o que certamente alcançarão. Toda esta merda se deve a termos ouvidos incontáveis gritos de "Allah akbar!" em vários vídeos sobre os "rebeldes" vazados para a opinião pública, como no caso dos "rebeldes sírios".

Esses "rebeldes" não são de forma alguma uma força homogênea, assim como a força multinacional que atacou a Líbia não era homogênea. As várias facções "rebeldes" lutaram entre si, especialmente em Trípoli, devido à sua diversidade de origens, aos seus interesses divergentes e especialmente às concessões petrolíferas de várias multinacionais estrangeiras. Finalmente, duas são as bandeiras que foram impostas na Líbia. Uma delas é a antiga bandeira monárquica do rei Idris ― um fantoche dos anglo-americanos. A outra é Al-Qaeda.

COMEÇA A GUERRA

A Guerra da Líbia faz parte da Primavera Árabe e dos "movimentos espontâneos" do Ocidente. É um conjunto de movimentos diversos, patrocinados por fundações e ONGs do tipo USAID, Albert Einstein Institution, NED, NDI, IRI, ACIL, ICNC, CIPE, Safe Democracy Foundation, CEIP etc. E ver aqui. Essas organizações são fachadas legais da CIA operando no exterior sob o pretexto de expandir a democracia liberal, com o objetivo real de privatizar recursos, fomentar mudanças de regime e abrir as portas à influência estrangeira.

A resolução da ONU 1973 (17 de Março de 2011), proposta pela França, Líbano e Reino Unido, foi adotada para "tomar todas as medidas necessárias" para "proteger civis e áreas povoadas sob ameaça de ataques". Isso incluiu a criação de uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia, ou seja, "desmilitarizar" seu espaço aéreo, impedindo que os aviões militares líbios voassem para o céu. Na prática, a zona de exclusão aérea teve uma nota muito diferente. A resolução de 1973, desde o início, baseou-se numa mentira: a mentira de que Gaddafi bombardeou seu povo em Fevereiro. O Ministério das Relações Exteriores russo, que havia monitorado a Líbia desde o início com satélites do Exército, afirmou categoricamente que Gaddafi não havia feito nenhum bombardeio.

"A primeira vítima da guerra é a verdade", diz a famosa frase de um senador americano. Neste caso, a mentira do bombardeio serviu três coisas:

1 - Para que a OTAN atacasse a Líbia, os EUA lançam a sua "Operação Amanhecer da Odisseia", com o único objetivo de servir como uma ala aérea para os rebeldes, para impedir as forças gaddafistas de defender-se, para garantir o petróleo e para destruir as infraestruturas civis e militares da Líbia.

2 - Para legitimar Jalil, que tinha pretexto para se demitir como ministro da justiça, destacando-se assim do regime de Gaddafi e lavando o rosto para passar, em tempo recorde, a ser presidente do Conselho Nacional de Transição.

3 - Proporcionar um envelope humanitário a um pacote em que não há nada mais do que uma intervenção militar violenta a favor de sórdidos benefícios monetários, petrolíferos e geoestratégicos.

Os únicos países que expressaram sérias e enérgicas críticas à guerra da Líbia foram a Rússia, Turquia e Irã. No Ocidente, a única política que tem sido minimamente honesta com a Líbia foi Marine Le Pen. A Líbia tornou-se parte de outras vítimas de mentiras como a Sérvia (bombardeios humanitários para proteger os "pobres e indefesos" albaneses do Kosovo), Afeganistão (11/9) e Iraque (armas de destruição em massa).

Enquanto isso, outros regimes árabes, como o Iêmen e o Bahrein, reprimiram as verdadeiras manifestações de massa com brutalidade incrível, sem que os meios de comunicação ocidentais os condenassem ou rasgassem suas roupas, pelo menos. Assim, as tropas sauditas foram capazes de entrar com tanques em Manama, entrar em hospitais (incluindo o Salmaniya Medical Center), enfermeiras de estupro, ambulâncias de incêndio, prisões ilegais, metralhar a maior parte de uma demonstração de carros blindados e helicópteros Cobra made in EUA, usar gases nervosos etc. Mesmo os corpos de muitos cadáveres (como aconteceu e continua a acontecer no Kosovo com os sérvios) eram "misteriosamente" desaparecidos, e um prisioneiro morreu torturado na prisão em circunstâncias pouco claras. Todos sob o olhar atento da Quinta Frota dos Estados Unidos, assentados no Bahrein. Não houve nenhuma resolução contra a Arábia Saudita ou contra a família real Khalifa (uma casta sunita que governa despoticamente um país xiita, com o único objetivo de conter a influência iraniana no Golfo Pérsico). Não só não havia apoio para os rebeldes do Bahrein, mas eles eram chamados ainda de extremistas pela mídia ocidental (por exemplo, em "El País"). Este duplo padrão repugnante e hipócrita está totalmente em desacordo com os elevados valores morais, solidários, humanitários e caritativos que, somos levados a crer, que movem cada intervenção da OTAN.

ORGANIZAÇÃO TERRORISTA DO ATLÂNTICO NORTE — CRIMES DE GUERRA DA OTAN NA LIBIA

O atlantismo não parece ter mudado sua natureza pirata, saqueadora e mercenária desde que Drake e Hawkins atacavam navios espanhóis no século XVI. O novo nome da operação de bombardeio na Líbia ("Protetor Unificado") é uma cruel zombaria. José Riera, novo embaixador da Espanha na Líbia, deixou claro que há muito a ser feito e reconstruído, uma vez que a Líbia foi totalmente destruída, mas não por bombas da OTAN ou atrocidades rebeldes, mas...  por "Quarenta anos de ditadura"! A imprudência e a hipocrisia dos políticos ocidentais clamam ao céu e devem ser denunciadas.

A realidade sobre a "intervenção humanitária" é que a OTAN, com a desculpa de proteger os civis dos supostos bombardeios... bombardeou a mesma população civil e levou quase toda a infraestrutura econômica da Líbia, condenando a população à miséria, à fome, à seca e às doenças. Mais de 14.000 missões de bombardeio retornaram o país à Idade Média. Em Setembro, o novo ministério de saúde do governo rebelde falou de 30 mil mortos e 50 mil feridos apenas nos primeiros seis meses de guerra. O verdadeiro número de mortos na guerra de nove meses poderia ser muito maior: o jornalista Thomas C. Mountain fala de 30.000 bombas lançadas (sem contar 100 mísseis submarinos britânicos e americanos) e 60.000 civis mortos, até o final de Agosto. Examinemos brevemente as acusações contra a OTAN:

1. A OTAN bombardeou a população civil. Ele destruiu aldeias, bairros residenciais, universidades, um mercado de vegetais e até mesmo uma escola de síndromes de Down em Trípoli. Ela também bombardeou edifícios governamentais muito valiosos: um dos primeiros edifícios bombardeados pela OTAN foi a Agência Líbia Anti-Corrupção de Trípoli, o objetivo desse bombardeio era destruir documentos sobre políticos líbios que ficaram com lucros petrolíferos e os depositaram em bancos suíços ― esses políticos eram coincidentemente os mesmos que foram imediatamente transferidos para o lado "rebelde". Um bispo católico, Giovanni Innocenzo Martinelli, denunciou os "sucessos" sanguinários das missões de bombardeio em Trípoli, incluindo 40 civis mortos quando um edifício desabou no distrito de Buslim.


Assim tem sido Sirte. 

2. A OTAN bombardeou infraestruturas vitais. Estes são os chamados "alvos de dupla finalidade", porque podem ser utilizados por civis e militares (pontes, estradas, edifícios, abrigos, aquedutos, linhas de energia, centrais eléctricas, fábricas etc.). Essa tática, já vista na Guerra do Líbano em 2006, viola totalmente a resolução da ONU de 1973, que deu origem a casos de pilotos e altos oficiais que se recusam a obedecer ordens, sabendo que no futuro poderá sujeitá-los a conselhos militares e processo por crimes de guerra.

3. A OTAN utilizou armas químicas e armas de destruição em massa. Urânio empobrecido, gás mostarda, bombas termobáricas, fósforo branco e bombas de fragmentação. Frequentemente acusava as forças gaddafistas de usarem esses métodos, impedindo que jornalistas e ONGs acessassem a cena para verificá-las.

4. Os "rebeldes" cometeram numerosas atrocidades e crimes de guerra contra a população civil desarmada. Isso inclui a morte de 267 partidários de Gaddafi em Sirte, 100 pessoas mortas no início de uma bomba após o funeral de Gaddafi, o assassinato a traição do ancião chefe da tribo Warfalla (a maior e mais importante na Líbia), o assassinato de 120 membros daquela tribo em Bengasi, o terrorismo contra o povo de Tawurgha leal a Gaddafi, o empalamento de crianças, a decapitação de soldados gaddafistas, o enforcamento sem julgamento dos oponentes e o cerco de Beni Walid, durante o qual os rebeldes e a OTAN impediram as ONGs de fornecer água, alimentos e medicamentos para os resistentes. Os rebeldes também têm saqueado, estuprado, linchado e vandalizado nas localidades que tomaram, e é provável que a maioria de suas atrocidades nunca chegarão à opinião pública ocidental.

5. Os "rebeldes" realizaram uma purificação étnica completa contra negros. Gaddafi era popular na África subsariana e deu boas vindas a muitos imigrantes desta região. Também tinha a lealdade de muitas tribos, como os tuaregues, e unidades mercenárias negras. O resultado é que todos os negros, mesmo negros líbios que simplesmente trabalham como trabalhadores da construção, estão sob suspeita de ser mercenários gaddafistas, e estão sendo sistematicamente liquidados.

6. Gaddafi foi assassinado sem julgamento e violando a tão alardeada "lei internacional". Os "rebeldes da Líbia" não tiveram envolvimento no sequestro de um homem de 70 anos, ferido e atordoado por um bombardeio, insultando-o, maltratando-o, humilhando-o, espancando-o, torturando-o e finalmente linchando-o, gritando "Allah akbar". Podemos também acrescentar a isto a profanação dos túmulos dos pais de Gaddafi por jihadistas, ou o assassinato de Mutassim Gaddafi nas mãos de indivíduos que não fazem nada além de gritar "Allah akbar".

Para piorar as coisas, tanto a OTAN quanto a maior parte da imprensa ocidental têm manipulado dados para tentar criminalizar o regime de Gaddafi. Assim, pudemos ver como Abu Salim desenterrou um túmulo de supostas represálias de Gaddafi, que mais tarde se revelaram ossos de camelo (não muito diferente dos ossos de cabra e cão de Órgiva, Granada, do que aqueles subsidiados pela "memória histórica" para passar por 2.000-4.000 represálias do regime de Franco), vimos os atlantistas usando gás mostarda em Beni Walid e, em seguida, acusando Gaddafi de fazê-lo, vimos os jornalistas da BBC entrar em um hospital em Trípoli cheio de cadáveres podres, sem dizer quem eram os verdadeiros assassinos, e assim por diante.

Uma breve recontagem de crimes da OTAN pode ser encontrada aqui.

Trípoli antes do bombardeio.
Arte por David Dees.
As vergonhosas manchetes da imprensa ocidental, em geral, e anglo-americanas em particular, mostraram o quanto a objetividade e a justiça saltaram da janela desde o momento em que a Líbia se tornou antagonista ao poder do dólar. "A primeira vítima de uma guerra é a verdade". A mensagem para o resto do mundo: é o que acontece com aqueles que não se dobram aos poderes hegemônicos da globalização capitalista e neoliberal, é o que acontece com os regimes que rejeitam a globalização. Que tomem nota da Síria, Líbano, Irã, Norte do Sudão, Bielorrússia, Coréia do Norte, Cuba, Mianmar, Turquemenistão e Venezuela.

LÍBIA NA GRANDE JUNTA: A ATLANTIZAÇÃO DO MEDITERRÂNEO

O Atlântico está a perder gradualmente a sua importância estratégica. Em 2008, a maior parte do fluxo de comércio marítimo foi movimentada pelo Pacífico com 20 milhões de TEUs (contêineres de 20 pés), seguidos pelo Mediterrâneo com 18,2 milhões de TEUs. O Atlântico só viu um fluxo de 6,2 milhões. Esta tendência parece persistir, por um lado, desde a adoção do euro e o ataque do 11 de Setembro, a Europa e a América do Norte têm cessado gradualmente de comerciar, voltando ambos os continentes para o Leste Asiático. E, por outro lado, há projetos, como o Corredor Mediterrâneo, que tendem a diminuir o Atlântico. Além disso, a nova doutrina geoestratégica da America's Pacific Century, enunciada pelo Departamento de Estado em Novembro de 2011, certamente não ajuda a fortalecer o atlantismo em si. Caminhamos para um, vale a pena a palavra por falta de um melhor, "pacifismo"? Para construir sua "rede de relações privilegiadas" com o Atlântico e a Europa, Washington teve que varrer o coração de nosso continente para remover o "macho alfa" regional: Alemanha. Não foi através da diplomacia, mas através da guerra, do bombardeio em massa e da repressão, que o atlantismo foi erguido ― e o mesmo se poderia dizer das relações de Washington com Tóquio. O "pacifismo", ou Chimérica, será erguido sobre a destruição do "macho alfa" da Ásia Oriental?

Seja como for, não são boas notícias para o eixo atlantista, que agora deve trabalhar ainda mais para garantir a sua influência no Mediterrâneo, à custa da Rússia, da China e, em menor medida, das potências da Europa continental. O estabelecimento do Estado de Israel em 1948 foi o primeiro grande passo neste processo. A desintegração da Jugoslávia em 1992 e a neutralização da Sérvia em 1999 foi outra, em a Primavera Árabe de 2011, a mais recente. Atlantizar o Mediterrâneo significa desestabilizá-lo e balcanizá-lo para que o comércio europeu se oriente para o Atlântico e os chineses para o Pacífico, pela inviabilidade das rotas navais China-Europa? Significa militarizar isso? A expansão do radicalismo islâmico por todo o Mediterrâneo convém ao atlantismo? Pelo menos isso parece ser o que está favorecendo a OTAN em nosso mar.

A Líbia é o país africano com mais costa no Mediterrâneo. Embora tivesse tentado se relacionar com todos no passado, sua tendência após a crise do crédito nos EUA era estabelecer rapidamente laços com a Rússia, a China e dois países que Gaddafi pensava que poderiam beneficiar a Líbia: a Itália e a França. Como vimos anteriormente, na província de Cirenaica, onde a rebelião se desencadeou, "casualmente" havia 75 empresas chinesas diferentes e 36.000 trabalhadores chineses (e não apenas trabalhadores, mas também engenheiros, empresários, funcionários do Partido e pessoal de Inteligência) trabalhando em cerca de 50 projetos de petróleo, ferrovias e imóveis, nos quais a China investiu bilhões de dólares. Que o Mediterrâneo abrigue um pedaço da China é inaceitável para o atlantismo, assim como abriga um pedaço da Rússia: a base naval e de inteligência de Tartus (Síria), de onde são monitorados todos os tipos de movimentos em Chipre, Israel, Suez e o Oriente Médio.

Para as potências atlantistas, o Mediterrâneo tem um rosto e uma cruz: o rosto é que o mar é um enorme estuário que lhes permite entrar profundamente na "Ilha Mundial" e interferir na Eurásia e na África. A cruz é que esses movimentos dependem do controle de pontos estratégicos e toda uma rede de portos e bases longe da metrópole ― este controle é extremamente caro e requer um fluxo contínuo de capital.

A perspectiva de "Oceania" (entendida como tal o conceito geopolítico de vocação marítima e baseada nos EUA e no Reino Unido). Na ideia anglo-israelense do Mare Suus, o Mediterrâneo é um imenso lago interior, um estuário, que permite que as potências marítimas penetrem profundamente na "Eurásia" (entendida como tal o conceito geopolítico baseado na Europa e na Federação Russa) e outros locais estratégicos (Marrocos, Albânia-Kosovo, Romênia, Espanha), passando para o Mar Vermelho, o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, intervindo nos assuntos internos de inúmeros países e acessando seus recursos. O Estreito de Gibraltar é fundamental para esta estratégia. Também são importantes os contra-ataques do Kremlin sob a forma de bases navais (como a de Sevastopol na Ucrânia ou Tartus na Síria) e de gasodutos — um para o Báltico (Nord Stream), um para o Mediterrâneo (South Stream) e outro pela África (Trans-Sahariana) — que não estão representados no mapa.

A importância do controle espanhol sobre a entrada do Mediterrâneo foi evidente em 1973, quando Franco e Carrero Blanco proibiram Washington de usar suas bases espanholas para apoiar Israel durante a guerra de Yom Kippur. A guerra veio no contexto de uma crise enorme (que não foi petroleira como dissemos, mas monetária, do dólar) e produziu um embargo de petróleo — o que afetou pouco nosso país [Espanha], graças ao petróleo que nos foi enviado por Saddam Hussein do Iraque. Atualmente, tanto a Síria como a Líbia, Gaza, Líbano e Argélia (e a Sérvia antes de sua saída marítima com o estado artificial de Montenegro ser bloqueada) são desafios à atlantização do Mediterrâneo. Ao norte, a situação é repetida com os estados do Báltico e dos Estados tampões (Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia). Tanto o Báltico quanto o Mediterrâneo são empregados por Washington para apoderar-se da Rússia, conter a sua expansão para a Europa e frustrar um entendimento entre Berlim e Moscou.

Teoria do "Mare Nostrum". Um poder continental eurasiano confronta-se com Gibraltar e Suez, protegendo o Mediterrâneo e tornando seus países costeiros inacessíveis ao poder marítimo como a Suíça ou a Bielorrússia. "Oceania" perderia o acesso a estados como Geórgia, Líbia, Kosovo, Romênia ou Síria, mas continuaria a ter acesso a Israel (através do Golfo de Aqaba), Arábia Saudita e Iraque. Israel (a menos que bloqueasse Aqaba) se tornaria um novo canal de Suez, uma "dobradiça de emergência" entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho. No entanto, o fornecimento de Israel através desta nova rota, muito mais larga, implicaria um custo muito maior, e o forno de dólar não está com vacas gordas. Se o custo econômico desse apoio fosse maior que o custo de uma guerra contra a Eurásia, haveria guerra.

O Império Romano foi a primeira e última potência que conseguiu assegurar plenamente o Mediterrâneo inteiro. Após a queda de Roma, o Mediterrâneo tornou-se um caos de potências opostas (bizantinos, vândalos, árabes, normandos, cruzados, aragoneses, venezianos, genoveses, turcos, espanhóis, franceses, britânicos, israelenses etc.). Durante a Segunda Guerra Mundial, Carrero Blanco aconselhou Franco a não entrar no conflito a favor do Eixo a menos que os alemães tomassem o canal de Suez, assim acordaram (fizeram acordo) Franco e Hitler em Hendaya. O plano seria frustrado pela derrota de Erwin Rommel em El Alamein. Durante o regime de Franco, houve entendimentos entre Franco e o líder egípcio Nasser que perturbou muito o eixo atlantista, que temia que pudesse estrangular o novo poder do Mediterrâneo: Israel. Hoje em dia, mesmo se Gibraltar e Suez estivessem próximos uns dos outros, Israel poderia continuar a manter-se graças à sua pequena faixa costeira no Mar Vermelho (a menos que o Egito e a Jordânia bloqueassem o Golfo de Aqaba).

Os poderes oceânicos têm que dançar em torno das massas de terra, escorregar pelos estreitos, instalar-se em ilhas e subir pelas bacias dos rios. Para um poder oceânico, controlar, fornecer e sustentar um ponto costeiro distante implica um custo enorme, um custo que hoje o atlantismo só pode cobrir graças ao seu controle das rotas comerciais e seu monopólio sobre a moeda de reserva mundial. Para uma potência continental, por outro lado, fechar um estreito é muito mais fácil, já que o teatro de operações está próximo e em muitas ocasiões nem sequer é necessário ir ao mar.

O pesadelo da Oceania e a única maneira de "eurasiatizar" o Mediterrâneo a 100%: que a Eurásia, como um "Estado comercial fechado", aproveite suas massas de terra, fechando canto a canto os estreitos. Oceania definitivamente perde seu acesso a países como Israel, Iraque ou Arábia Saudita, e torna-se o que ela nunca deve deixar de ser: a periferia do mundo. (Ainda teria acesso aos Emirados Árabes Unidos e, portanto, ao Golfo Pérsico, a menos que algo tenha sido feito para bloquear a saída de Al-Fujayrah no emirado de Abu Dhabi). Neste projeto, o Iêmen e o Chifre da África são de suma importância. Estas áreas tornaram-se extremamente instáveis porque o comércio entre Ásia Oriental e Europa aumentou. Tanto Gaddafi como o Irã e a China estavam/estão fortemente envolvidos no Mar Vermelho hoje.

Esta série de mapas torna mais fácil entender porquê a conquista do anglo-atlantismo, de Clemente Attlee a Hillary Clinton, tem sido assegurar o liberalismo e a "liberdade de navegação em todos os mares": este é o ideal da "Mare Liberum" formulado pelo holandês Hugo Grotius em 1630, ao contrário daqueles que queriam sujeitar o mar a leis, como o inglês John Selden com sua doutrina do "Mare Clausum" de 1635.

FUTURO DA LÍBIA E PRÓXIMOS PASSOS DO ATLANTISMO NA ÁFRICA

A Líbia de Gaddafi era um estado estável que manteve o radicalismo islâmico na baía, e que alocou a maioria de seu óleo à União Europeia. Com a queda de Gaddafi, vários são os scripts possíveis para a Líbia, mas cinco coisas são claras.

1. O novo governo vai alocar a maior parte de seu petróleo para países como EUA, Reino Unido e França, em detrimento de outros como Itália, Alemanha, Espanha, China e Rússia. Os benefícios da exploração de petróleo não continuarão mais na Líbia, mas aumentarão os bolsos das corporações multinacionais e uma nova oligarquia de petroleiros autóctones mafiosos, no estilo dos sheiks árabes do Golfo. O povo líbio vai afundar na miséria.

2. A Líbia pode tornar-se, após intervenção militar, numa base da OTAN, da mesma forma que o Afeganistão, o Iraque, a Albânia e o Kosovo. Bengasi pode agora hospedar um Camp Bondsteel novo (a mega-base estadunidense em Kosovo). Sua proximidade com a Europa deve ser uma fonte de preocupação: pode ser uma fonte de tráfico de drogas, tráfico de brancos, crime organizado, tráfico de órgãos e armas, imigrantes e terrorismo (veja como os arsenais de Gaddafi acabaram nas mãos da al-Qaeda).

3. A Líbia será um país instável. A ordem do tempo de Gaddafi e do Jamahiriya não retornará. Provavelmente a resistência gaddafista lealista levará muito tempo para sufocar e o cenário será comparável ao Iraque. Esta instabilidade se espalhará para o Sudão, o Sahel e o Chifre da África, bem como a África guineana e o Congo. O Mediterrâneo não será salvo.

4. O islamismo radical ganhará posições na Líbia. Por enquanto, já vimos a bandeira negra da Al-Qaeda hasteada no palácio da justiça de Bengasi, e vimos a CNT falando sobre a imposição da Sharia no país. Mais informações aqui sobre a presença da Al-Qaeda na Líbia. Os combatentes islâmicos na Líbia serão empregados mais tarde em outras etapas do mundo muçulmano para desestabilizar os inimigos do atlantismo.

5. A Líbia se tornará um país que emite refugiados e imigrantes. A Líbia gaddafista foi um país suficientemente avançado, não só para emitir apenas migrantes para a Europa (sem contar estudantes de bolsas de estudo e similares), mas também para atrair imigrantes do Egito, da Tunísia, da metade da África e até mesmo da China. Agora é previsível que as coisas vão mudar e que a Líbia se tornará um país terceiromundista de refugiados, vítimas, deserdados e famintos, que, desesperados, irão correr para a Itália em primeiro lugar e o resto da UE posteriormente. Além disso, os trabalhadores subsaarianos que anteriormente migraram para a Líbia, agora o irão para a UE. A avalanche de negros que Gaddafi previu correria para a Europa se ele caísse, pode desencadear muito em breve, especialmente se levarmos em conta que a queda de Gaddafi desestabilizará a Argélia, Chade, Níger, Sudão, República Centro-Africana, Chifre da África etc. Isto não seria um problema se a política de imigração da Europa não fosse controlada por multinacionais gananciosas e políticos vendidos, mas este não é o caso.

Como vimos acima, os interesses do atlantismo na África são muitos, e não param na Líbia. Washington enviou forças especiais à República Centro-Africana e a independência do Sudão do Sul é o primeiro passo para frustrar os interesses chineses na África Central. O novo país sudanês é um Estado-tampão que impede que o Atlântico e o Mar Vermelho se comuniquem através de dois grandes países (Congo e Sudão). A Argélia, um país extremamente rico em gás natural e que procura desesperadamente uma saída do Atlântico através do Saara Ocidental, deu as boas-vindas a Aisha Gaddafi e se recusa a extraditá-la. O presidente argelino Abdelaziz Bouteflika teve tanto medo de uma ação estrangeira que durante o bombardeio da OTAN à Líbia ele nem sequer pegou o telefone para Gaddafi. Quando, em 22 de Fevereiro de 2011, a Liga Árabe suspendeu a Líbia como membro, a Argélia foi um dos dois estados que se opôs. O outro foi a Síria.

No Níger, Said Gaddafi, que, protegido por mercenários sul-africanos, foi capaz de transportar reservas de ouro da Líbia (que ele pode usar para financiar a resistência armada) e numerosas obras de arte. O governo de Niamey se recusa a extraditá-lo. O mesmo vale para Saadi, outro filho de Gaddafi que escapou para o Níger em 11 de Setembro de 2011 com a ajuda de forças especiais veteranas da Rússia e do Iraque. O Níger também é importante para as suas reservas de urânio (controladas pela empresa francesa Areya, mas também no centro das atenções da China), a sua fronteira com a Nigéria (que tem grandes reservas de hidrocarbonetos) e a utilização do franco CFA como moeda de reserva.

O atlantismo parece estar usando os antigos laços da França com a África subsariana para penetrar profundamente no continente, com o propósito expresso de conter a expansão da influência chinesa. O atlantismo está especialmente interessado em frustrar o gasoduto transaariano ― que, em grande medida, é apenas mais uma pinça russa como Nord Stream e South Stream ― e desestabilizar a Argélia, o Níger e o norte da Nigéria, para que todo o gás e óleo nigerianos sejam orientados às rotas marítimas. É também de particular interesse fazer tudo o que for possível para desestabilizar as zonas interiores do Congo e dos países limítrofes, de modo que os abundantes recursos dos congoleses sejam dirigidos para o Oeste (costa atlântica) em vez do interior (Mar Vermelho, Porto Sudão). A desestabilização da metade norte da Nigéria (onde a Sharia foi implementada) visa também evitar que os seus hidrocarbonetos cheguem ao Norte (Argélia e União Europeia) através do Níger.

A área apropriada para balcanizar todo este espaço é perto da tripla fronteira de Argélia-Mali-Niger, onde tem sua base AQMI (Al Qaeda no Magrebe Islâmico) e onde os filhos de Gaddafi poderiam ser encontrados. AQMI é realmente um exército privado e uma rede de inteligência com contatos nas áreas saudita, marroquina e anglo-saxônica, e opera em grande parte do Sahel (ataques às tropas do governo, controle de regiões inteiras, sequestro de turistas e voluntários de ONGs etc.), desestabilizá-lo e fornecer cassus belli para a intervenção de potências estrangeiras (especialmente a França através de sua Legião Estrangeira e EUA com AFRICOM [4]). Precisamente Gaddafi apoiou os governos do Mali, Níger e Argélia para lutar contra esta milícia e estabilizar a área, porque sem estabilidade regional, o gasoduto transaariano não é viável.

O Níger é, portanto, uma espécie de encruzilhada estratégica. Não só parte das rotas norte-sul (Argélia-Nigéria), mas também parte de uma rota muito importante leste-oeste: o Sahel, uma faixa semi-árida que se estende do Atlântico para o Mar Vermelho. Em particular, a porção de Sahel que inclui a bacia do rio Níger foi uma chave historicamente para o florescimento de muitos impérios africanos (como os almorávidas, o próspero período de Tombuctu e uma variedade de reinos subsaharianos) ganhando seu poder e enorme riqueza deste núcleo, os recursos que abrigava (especialmente o ouro) e os caminhos que a atravessavam. A tendência dos almorávidas, canalizada pela geografia, foi dirigida para o Norte, invadindo o atual Marrocos e Argélia e penetrando finalmente na Espanha. Bases Finalmente, no Sahel organizou recentemente a Frente de Liberação Líbio (LLF por sua sigla inglesa, também conhecido como "Resistência Verde"), um exército de resistentes gaddafistas.

A geografia, sítios de hidrocarbonetos e infraestruturas energéticas apontam para os trajetos atlantistas na África. As rotas norte-sul (o gasoduto transaariano), que liga o Mediterrâneo ao Atlântico, e as rotas leste-oeste (o cinturão de Sahel), que ligam o Mar Vermelho ao Atlântico, se cruzam no Níger; o candidato perfeito para balcanizar todo esse espaço desmontando a "cruz", e isso é fundamental para dominar o coração da África. É também de salientar o papel da Espanha e da Itália como receptores de grandes quantidades de hidrocarbonetos africanos e transmissão de energia para a Europa (um papel que aumentaria enormemente se a Nigéria estivesse ligada à rede de gasodutos). O atlantismo quer evitar a todo o custo que as rotas terrestres estáveis se formam e que os países emancipem-se da dependência das rotas marítimas. Portanto, é uma má notícia para o eixo Washington-Londres-Tel-Aviv que o gás e o petróleo são direcionados para o interior em vez de para os portos.

Espanha e Argélia

A energia é provavelmente o principal motivo na estratégia das grandes potências modernas, razão pela qual os hidrocarbonetos desempenham um papel tão importante na geopolítica. Destes, o carvão foi o primeiro protagonista, então o petróleo tem sido o tesouro mais cobiçado, e nos últimos tempos, o gás natural tornou-se cada vez mais proeminente. Os "russodutos" da Europa de Leste causaram sérios problemas diplomáticos e são o eixo da abordagem germano-russa. A diplomacia do gás natural é tão importante para a Rússia que o ex-presidente russo, Dmitri Medvedev, foi anteriormente presidente da empresa estatal de gás Gazprom. O campo de gás da Pars del Sur é uma das razões para a escolha da Copa do Mundo de 2018 ser no Catar, a Green Stream foi o centro das relações entre a Itália e a Líbia, a South Stream ameaça provocar a ressurreição da Sérvia e do gasoduto projetado do Irã-Paquistão-Índia é um problema muito sério para os EUA, que se opuseram veementemente ao projeto e estão fazendo todo o possível para desestabilizar o Paquistão (que formalmente pediu em Janeiro de 2010 para cancelar o projeto sem sucesso), especialmente a região do Baluchistão e as províncias tribais. Hamid Karzai (presidente do Afeganistão) e Zalmay Khalilzdad (ex-embaixador dos EUA na ONU, no Afeganistão e no Iraque) trabalharam anteriormente na empresa petrolífera Unocal (que agora faz parte da Chevron), que tinha interesses de gás no Cáspio e na Ásia Central; o objetivo era construir um gasoduto (o TAP, que não deve ser confundido com o TAP adriático, que faz parte do South Stream russo) para canalizar o gás do Mar Cáspio ― evitando explicitamente a Rússia e o Irã ― diretamente para a costa paquistanesa, onde seria saqueada pelas empresas multinacionais. Isso foi frustrado pela decisão do Turcomenistão de exportar gás exclusivamente para o Irã, Rússia e China.

Tudo isso dá uma ideia sobre a importância que a estratégia de gás está adquirindo no conselho mundial. O gás natural é o hidrocarboneto mais limpo, mais barato, mais abundante e mais eficiente que existe, e as atuais reservas de gás vão durar sessenta anos ― duas décadas a mais do que as reservas de petróleo. O gás natural é amplamente usado no aquecimento, na cozinha, na geração de energia, nos fertilizantes, e os primeiros veículos movidos a gás começaram a aparecer (e o trabalho está sendo feito para produzir aviões). O atlantismo gostaria que não houvesse um único gasoduto em toda a Eurásia, ou que, de qualquer forma, os gasodutos fossem diretamente para os portos e espaços marítimos controlados por ele. [5]

No mapa acima vimos que a relação entre a Espanha e a Argélia tem algumas semelhanças inquietantes com a relação entre a Itália e a Líbia. Anteriormente, os interesses espanhóis na Argélia estavam representados pelo perigo da pirataria berbere, Orão, Argel e outros lugares. Agora, eles vêm de mãos dadas com gás natural. Desde 1996 existe um gasoduto, o Magrebe-Europa (também chamado de gasoduto Pedro Durán Farell), que liga o importante campo de gás de Hassi R'Mel (Argélia) com Córdoba e o restante da rede ibérica e europeia . Este gasoduto tem um problema, e é que ele passa por Marrocos, forçando a Europa para estar ciente dos caprichos da monarquia alauita, totalmente viciado em Washington. Na verdade, o governo marroquino está na lista de parceiros comerciais e operadores do gasoduto (Sonatrach, Reino de Marrocos, Enagás, Metragaz e Transgas).

Por este motivo, foi construído outro gasoduto, o Medgaz, que ligava diretamente a Argélia à Espanha, especificamente com o importante gasoduto Almeria-Albacete. A data de inauguração da Medgaz, que liberta a Espanha e a Europa de sua dependência do gás de Marrocos, é surpreendente: 1 de Março de 2011, no meio da Primavera Árabe e duas semanas antes das resoluções da ONU sobre a Líbia. Talvez o único problema posto por Medgaz é que está localizado em uma área geologicamente instável (veja o terremoto de Lorca em 11 de Maio de 2011).

É possível que a OTAN realize uma tentativa de desestabilizar o regime argelino. Para fazer isso, ela poderia combinar as ações da AQMI com alguma "rebelião popular" financiada pelo exterior. O atlantismo teme que a Rússia, a Argélia, o Irã e o Turquemenistão formem um cartel de gás, uma espécie de OPEP de gás. Argel está bem ligado a Moscovo desde os tempos soviéticos. Em Março de 2006, Putin tornou-se o primeiro presidente russo a visitar a Argélia desde o presidente soviético Nikolai Podgorny, em 1969. Os temores de uma política comum de gás entre a Argélia e a Rússia se manifestaram no "Financial Times" de Londres (23 de Maio) e no "Le Monde" da França (29 de Junho).

Grande parte do material da Marinha Argelina é de origem russa, incluindo duas corvetas "Tiger" compradas em Julho de 2011. As relações argelinas com a Itália também são interessantes, a cuja empresa Orizzonte Sistemi Navali encomendou um navio desconhecido (provavelmente um transporte anfíbio do tipo San Giorgio). A aproximação da Itália à Rússia, Argélia e Líbia é um fenômeno inevitável que o atlantismo não vê com bons olhos.

AFRICOM E O PROJETO ATLANTISTA PARA A ÁFRICA

Comandos regionais do Pentágono.

O Pentágono divide o planeta em várias porções geoestratégicas, que, reveladoramente, são muito mais coerentes do que a atual rede de alianças militares. Por muito tempo, a África fazia parte do EUCOM, o comando europeu, fundado em 1952 e com sede em Stuttgart, Alemanha. O fato de os assuntos africanos serem controlados pela Europa deve-se provavelmente ao fato de que a maior parte da África ainda estava nas mãos das potências europeias e que a Europa nunca perderia seus contatos com a África. Em contraste, a influência dos EUA no continente negro ainda era quase insignificante.

Entre 2006 e 2008, coincidiu com a descoberta diplomática e comercial da China na África (vários líderes chineses fizeram turnês por todo o continente para conseguir contratos, investir dinheiro e construir infraestruturas), um novo comando do AFRICOM foi criado para África. Inicialmente, foi também em Stuttgart, talvez porque nenhum país africano permitiu que tal centro de espionagem e desestabilização fosse estabelecido em seu território (somente a Libéria, cuja lei naval é risível, se ofereceu), ou talvez porque os EUA ainda não haviam ocupado militarmente nenhum país africano. A África do Sul, a Nigéria e a Líbia se opuseram abertamente ao estabelecimento de uma sede em seu continente.

No entanto, em 2008, descobriu-se que Marrocos (o Cavalo de Troia do atlantismo na África, tal como o Reino Unido está na Europa) concordou em acolher a sede do AFRICOM ou pelo menos um dos seus subcomandantes regionais. Se trata de Tan-Tan, perto de Wad el-Drâa (veja aqui). O local fica ao lado do que era uma vez a fronteira entre Marrocos e o Saara espanhol, a 300 quilômetros a Leste da ilha espanhola de Lanzarote. A desculpa para estabelecer a base tem sido apoiar as frotas americanas que entram e saem do Mediterrâneo, lidando com "catástrofes naturais"... e combatendo o oportuno problema do terrorismo, especificamente a "ameaça" da Al Qaeda no Magrebe Islâmico, ou AQIM. Isto está enquadrado na Iniciativa Anti-Terrorista Transaariano (TSCTI, em sua sigla inglês), aprovada pelo Congresso dos EUA para "estabilizar" grande parte de Sahel... E outros países de propina. A verdadeira desculpa é controlar-desestabilizar Sahel para impedir a formação de um bloco regional estável e ter uma razão para intervir em lugares tão ricos em recursos e posição estratégica como a Argélia, a Nigéria ou Níger. 

A nova base aeronaval estadunidense de Tan-Tan é a maior instalação militar no continente Africano, cobrindo uma área de 1.000 hectares. Também está a ser construído um reator nuclear.

Tanto o Djibouti como o Sul do Sudão e a Etiópia são outros dois candidatos perfeitos para acolher as instalações militares americanas do AFRICOM, cuja independência ainda é apenas nominal e continua a depender largamente do EUCOM. É fundamental que o AFRICOM obtenha uma grande base no Nilo ou próximo dele (Sul do Sudão, Etiópia, Uganda, Quênia...). A Líbia pode, obviamente, tornar-se uma base da OTAN a longo prazo, e não há dúvida de que a Guerra da Líbia, e as próximas operações, certamente ajudarão a fortalecer o AFRICOM.

Entretanto, há mais movimentos por parte de Marrocos: a monarquia alauita empreendeu a construção de outra base (ver aqui) em Ksar es-Seghir (Ksar Sghir, ou o antigo Alcácer-Ceguer), a 20 quilômetros de Ceuta e ao largo da costa de Tarifa. Esta base viola o acordo informal existente entre Espanha, Reino Unido e Marrocos: não construir mais bases militares na zona estratégica do Estreito. Embora nos meios de comunicação espanhóis esta notícia tenha passado na maior parte despercebida (o futebol e o coração chamam mais atenção, e não por casualidade), ambos os movimentos em Marrocos são particularmente inquietantes tanto são que se dirigem estrategicamente contra as únicas posses espanholas na África: Ilhas Canárias, Ceuta e Melilha. Estes dois últimos não são garantidos pela OTAN: se o Marrocos atacou a Espanha continental, teríamos o apoio da OTAN... mas se as vítimas fossem Ceuta e Melilha, estaríamos sozinhos contra um país apoiado pelos EUA, Reino Unido e provavelmente França .

Nova base militar marroquina no Estreito de Gibraltar. Ambas as bases são uma resposta do eixo atlantista à progressiva perda de protagonismo do Atlântico no grande tabuleiro mundial. A Líbia gaddafista, inimigo de Marrocos, como a Argélia, poderia ter sido um parceiro estratégico muito interessante para a Espanha, mas enquanto Madri estiver sujeito às diretrizes de Washington, nosso país nunca defenderá seus verdadeiros interesses.

CONCLUSÕES

A Líbia foi atacada porque:

• Ela estava prestes a pedir ouro em vez de dólares em troca de seu petróleo.

• Iria usar ouro para respaldar uma nova moeda de reserva, e tinha o apoio de Dominique Strauss-Kahn e do Banco Central da China.

• Iria estabelecer esta nova moeda comum em talvez 70% do continente africano.

• Com a União Africana, ameaçou criar um bloco geopolítico que poderia soletrar o continente africano e fechá-lo na banda para o saque de bancos estrangeiros e multinacionais.

• A sua política de concessão de empréstimos aos governos africanos suplantou a influência dos bancos internacionais.

• Criou seu próprio dinheiro livre de dívidas e juros, em vez de emprestá-lo como crédito de juros a um banco privado controlado por estrangeiros.

• Estava impondo condições muito duras às companhias de petróleo anglo-americanas e abrindo as portas à influência chinesa e russa no Mediterrâneo, assim como os EUA estão determinados a cortar a expansão chinesa na África.

• Sua decisão de empreender outra rodada de nacionalização do petróleo entrou em conflito com as oligarquias autóctones que procuravam se tornar sheiks no Mediterrâneo.

• Estava prestes a permitir a construção de uma ou duas bases navais russas em suas margens (Trípoli e/ou Bengasi).

• Participou ativamente no Sudão, no Chifra da África e no cinturão do Sahel e poderia ter proporcionado à China uma ponte estável entre o Oceano Índico e o Mediterrâneo sem ter de passar por Suez.

• Longe estão os tempos em que os EUA poderiam controlar um continente pelo bem. Após as incursões da China na África, o dólar sozinho não é suficiente. Sendo papel molhado, deve ser apoiado por tiros e mísseis.

• Gaddafi tomou mal a medida à OTAN. Ele pensou que ela estava endividada o suficiente para não atacá-lo, mas ele estava errado, especialmente quando se tratava da França.

• Líbia e Iraque são semelhantes em muitos aspectos. Ambos empreenderam um processo de modernização para serem autárquicos em tecnologia, indústria, alimentação e política monetária, e ambos foram devastados.

Por mais caricatural que pareça, esta imagem não difere muito da realidade da Guerra da Líbia.

NOTAS

[1] Empresa, junto com a ExxonMobil, a Occidental, a Marathon, a Hess, a ChevronTexaco, a Morgan Stanley, a Petro-Canada, a British Petroleum e outras empresas anglo-americanas, se retiraram oportunamente da Líbia antes dos problemas.

[2] Hariri foi morto por um míssil lançado de um drone israelense na Alemanha. Nos anos seguintes, tentativas foram feitas para usar esta morte para incriminar líderes seniores da organização libanesa Hezbollah, ligada ao Irã.

[3] Um plano que já tinha sido tentado abordar durante o Antigo Regime para os países católicos na Europa: a Ordem Teutônica, o Templo e o Real de a ocho (que em seu tempo foi adotado pelos EUA), trabalhou nesta direção.

[4] Mais informações: (1), (2), (3), (4) e (5).

[5] Veja aqui como as rotas do continentais asiáticas (em grande parte vertebradas em torno da antiga Rota da Seda), muito mais simples e mais rápidas, poderia diminuir um papel importante para a rota marítima tradicional para trazer petróleo do Golfo Pérsico para a Ásia Oriental. A única razão pela qual esses projetos não se consolidam é devido às instabilidades regionais artificiais que flagelam a região e frustram as relações diplomáticas. O primeiro interessado e promotor da maioria dessas instabilidades é o atlantismo.