quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Alessio Mulas - Política, Liberalismo e Violência: Walter Benjamin e Carl Schmitt

por Alessio Mulas



Tornou-se célebre a carta que, em 1930, Walter Benjamin escreveu a Carl Schmitt. Omitida por Adorno na primeira edição dos Gesammelte Schriften, mas publicada mais tarde por Jacob Taubes, a carta tinha como objetivo informar ao advogado de que seus estudos, em particular Die Diktatur, lhe haviam sido de grande ajuda. [1] Mais além das relações pessoais, é interessante ver como dois pensadores nas antípodas haviam encontrado involuntariamente pontos de convergência de valor notável, e sobre estes pontos se centrará nossa breve análise. Ainda que a teoria política que se conhece com o nome de comunitarismo seja uma via pouco comentada, o certo é que as diversas formas que ela encarna tem como alvo polêmico comum o liberalismo. Para formular uma crítica comunitária é necessário, portanto, examinar a relação do direito e da política com a violência, tema dissimulado pelo liberalismo, mas que afeta à política em sua essência. É o terreno sobre o qual les extrême se touchent.

sábado, 30 de setembro de 2017

Luca Siniscalco - Pensamentos para um Novo Humanismo: A Metanoia Antropológica (Comunitarista) de Mircea Eliade

por Luca Siniscalco



Minha intervenção se desenvolve a partir de dois pressupostos teóricos essenciais, que vale a pena assinalar de imediato para evitar equívocos ou sobreposição de planos de análise heterogêneos.

Em primeiro lugar, é fundamentla, enquanto elemento crítico constitutivo, assumir que não pode haver uma filosofia política sem uma prévia e coerente antropologia (seja esta descritiva ou normativa). Sem dispôr de uma ideia precisa do homem, entendido como sujeito operante em uma rede de relações interpessoais com outros atores - assunção inevitável para escapar de qualquer perspectiva niilisticamente solipsista - não pode haver uma especulação razoável sobre modelos teóricos através dos quais examinar e organizar dita ação. Estudar o homem, e fazê-lo, empregando o vocabulário husserliano, considerando não só a quantidade, mas acima de tudo sua qualidade, e portanto a via régia com o fim de elaborar uma perspectiva comunitária advertida, que não se limita a brincadeira ingênua e sentimental.

Em segundo lugar, é importante em minha opinião estender a reflexão comunitarista a autores normalmente descuidados pelos principais teóricos dessa corrente filosófica; não por cometer estéreis parricídios ou realizar forçações ideológicas, aplicando facciosamente esquemas teóricos a autores estranhos a esta corrente com o simples objetivo de exibi-los como estampas de uma nova religião secular, mas para aceitar o desafio proposto por Aleksandr Dugin quando, em seu ensaio fundador A Quarta Teoria Política [1], convida o leitor a considerar o próprio modelo não sic et simpliciter a hipóstase de uma doutrina completa, mas uma "obra aberta" com o fim de estimular, especialmente nas pars construens, as melhores mentes da cultura antimodernista, o esforço de identificar uma postura capaz de alcançar aquela superação da linha do niilismo com a qual se enfrentaram Jünger e Heidegger na famosa Sobre a Linha [2].

É precisamente sobre a base desses dois pressupostos que tenho ai ntenção de apresentar um exame sintético sobre o "novo humanismo" teorizado pelo historiador das religiões Mircea Eliade, para mostrar como tal perspectiva pode ganhar legitimamente um lugar no debate comunitarista e sugerir núcleos conceituais particularmente eficazes na resolução de algumas problemáticas antigas, em primeiro lugar, a relação entre os pólos do universal e do particular, vínculo sempre filosoficamente polêmico - no sentido etimológico, e especificamente heraclítico, do grego polemos, "guerra".

O "novo humanismo" não é certamente um dos temas principais da obra de Eliade, que centrou sua investigação no estudo principal das religiões segundo a metodologia discutida em diferentes lugares de sua própria obra - em primeiro lugar, no Tratado de História das Religiões [3]. Não obstante, se trata de uma das expressões mais fecundas para dar forma àquela inspiração teórica que anima toda a investigação eliadiana e que às vezes emerge em algumas passagens, em ocasiões icônicas e figurativas, outras vezes dialéticas, através da qual se manifesta em toda sua dinâmica energeia aquele eros filosófico e, assim, espiritual, que anima a investigação histórico-religiosa do autor e que contribui para construir a hermenêutica [4].

A imagem do "novo humanismo" é amplamente debatida por Eliade em seu ensaio Pensamentos para um Novo Humanismo [5]. O ensaio de Eliade oferece uma exegese fenomenológica do mundo globalizado moderno, identificando alguns dos processos que estão impulsionando a transformação da cultura mundial. Os fenômenos fundamentais encontrados são dois: em primeiro termo, o confronto do Ocidente com o universo dos povos extraeuropeus, em particular os asiáticos, que começam a reclamar um papel político de peso em escala global, fazendo sua primeira entrada na temporalidade histórica; em segundo lugar, o desenvolvimento da "psicologia profunda", que abriu à razão ocidental os horizontes infinitos do inconsciente, com seus abismos perturbadores e suas revelações iniciáticas. Ambos os fenômenos puseram o homem ocidental no confronto com a alteridade radical. Eliade afirma que "o encontro com o 'totalmente diferente' [...] traz consigo a experiência de uma estrutura religiosa" [6]: trata-se da mesma estrutura, ainda que em uma escala ontológica diferente, que se manifesta no encontro com a alteridade do sagrado. Dos encontros, assim como dos enfrentamentos, de tipo espiritual surge sempre uma nova criação. Nessa situação histórica, assinala Eliade, pode-se, então, hipotetizar o advento de um novo humanismo, baseado na investigação dos orientalistas, etnólogos, psicólogos e historiadores das religiões comprometidos com o logro de um conhecimento total e orgânico do homem. Seu interesse pela dimensão mítico-simbólica, deixada de lado pelas ciências "duras" e pelas tendências culturais ocidentais, em sua maioria inspiradas pelo progressismo e pelas distintas formas de cientificismo e positivismo, permite identificar novas ideias para uma fundação cultural renovada. É nessa inspiração cultural, espiritual e ecumênica, que se reúne uma superação ulterior, por parte de Eliade, do campo específico da história das religiões. O estudioso reconhece em efeito que as estruturas e os descobrimentos de sua própria disciplina, se integram em uma Weltanschauung mais ampla, podendo oferecer sugestões não de conceitos ou puramente acadêmicas, mas filosóficas e existenciais. Para aproveitar este potencial é oportuno considerar inclusive o processo pelo qual nos aproximamos aos fatos estudados: "A atitude apropriada para compreender o significado de uma situação humana prototípica não é a 'objetividade' do naturalista, mas a simpatia inteligente do exegeta, do intérprete. [...] Aproximar-se a um símbolo, um ritual ou um comportamento arcaico como expressões de situações existenciais, significa já reconhecer neles uma dignidade humana e um significado filosófico" [7]. O conhecimento do outro, seja uma alteridade enraizada nos espaços distantes do mundo ou nos da psique, acrescenta Eliade, pode ajudar o homem ocidental a se conhecer melhor e, inclusive, a desenvolver com vigor renovado a própria busca teórica milenar. Eliade tem bem claro este último ponto, que a filosofia contemporânea não nos deixa de confirmar, demonstrando a previsão do erudito romano. Ele o explica claramente indicando:

"A vontade de compreender adequadamente os 'outros' dará lugar a um enriquecimento da consciência ocidental. O encontro poderia, inclusive, conduzir a uma renovação da problemática filosófica, da mesma maneira que o descobrimento das artes exóticas e primitivas abriu há meio século, novas perspectivas na arte europeia. Nos parece, por exemplo, que um estudo profundo da natureza e da função dos símbolos poderia estimular o pensamento filosófico ocidental e ampliar seu horizonte. É surpreendente que os historiadores das religiões tenham sido levados a ressaltar as audaciosas concepções dos 'primitivos' e dos orientais sobre a estrutura da existência humana, sobre a queda na temporalidade, sobre a necessidade de conhecer a 'morte' antes de poder acessar o mundo do espírito, reconhecendo ideias muito próximas às que hoje estão no centro mesmo da busca filosófica ocidental". [8]

A necessidade de encontro com a alteridade pressiona. Ela insta tanto porque o homem ocidental necessita um repensar e uma nova compreensão de uma parte importante de sua própria herança - aqui a referência está bastante clara: trata-se da dimensão mítico-simbólica suprimida da modernidade - enquanto que "mais cedo ou mais tarde o diálogo com os 'outros', quer dizer, com os representantes das culturas tradicionais asiáticas e primitivas, deverá ser mantido não já na linguagem empírica e utilitária de hoje [...], mas em uma linguagem cultural capaz de expressar as realidades humanas e os valores espirituais" [9]. Trata-se de uma linguagem metafórica e não coisificadora, de tipo mítico-simbólico. O mito, como representação plástica do sagrado, volta a brilhar dentro da prosa eliadiana em sua principal função mediadora: não só entre o imanente e o transcendente, sobre um plano ontológico, mas também entre diferentes culturais, no plano antropológico, que é um singular, mas fascinante reflexo do metafísico.

Sem entrar em mais considerações metodológicas utilizadas por Eliade neste artigo - mas também em um ensaio relacionado, Um Novo Humanismo [10] - destinado a conjugar o "novo humanismo", a hermenêutica e a história das religiões, é oportuno considerar as repercussões teóricas que tais considerações podem ter em um debate comunitarista. O resumo em cinco pontos fundamentais:

* O confronto com a alteridade não é um fenômeno acessório e contingente, mas um dado elementar da natureza humana, que demanda um "outro de si" para reconhecer a própria autoconsciência. Uma perspectiva comunitarista capta e interpreta este processo de um modo mais eficaz que a orientação individualista própria do modelo liberal capitalista.

* O universalismo pode ser compreendido, mais além de qualquer deriva niveladora, igualitária e sincretista, à luz das constantes da natureza humana, que Eliade reconhece como pertencentes à esfera do sagrado, já que, de acordo com qualquer metafísica tradicional, unicamente o sagrado (das Heilige) é propriamente real (das Seiende), ao menos no sentido ontológico forte. Uma perspectiva esta que, ainda que em diferentes facetas, é geralmente compartilhada pela escola da philosophia perennis e pelo pensamento Tradicional [11].

* O humanismo não é o humanismo. Sim, de fato, o conceito de "humanismo" implica principalmente no debate cultural novecentista um antropocentrismo inspirado em princípios racionalistas e imanentistas, a noção de "humanismo", em sua exemplariedade histórica valorizada pela ótica histórico-religiosa adotada por Eliade, representa um panorama dentro do qual a centralidade humana está intimamente ligada, pelo menos segundo a interpretação proporcionada pelo intelectual romeno, à transcendência e ao misticismo, de acordo com um ideal orgânico e holístico do portato cósmico. O humanismo eliadiano é, então, "anti-humanista", de acordo com as categorias descritas por Martin Heidegger em sua famosa Carta sobre o Humanismo [12], e reivindica uma filiação direta da tradição renascentista do homem integral, ao mesmo tempo cientista, alquimista e filósofo.

* As estruturas mítico-simbólicas das quais se constituem tanto a ontologia do real como as formas cognitivas humanas, são coessenciais à antropologia e não podem ser eliminadas do imaginário arquetípico do homem, inclusive do moderno, ou do pós-moderno. O homem é aristotelicamente "animal político", mas inclusive antes homo religiosus, ou melhor homem "total", cujas manifestações são concretamente irredutíveis à parcialidade das disciplinas que se ocupem disso e sempre excedem os planos das ciências particulares, sendo o excesso um caráter constitutivo de sua natureza. Repensar o homem, mais além do dualismo de molde cartesiano e remontando a suas raízes espirituais - meio fundamental entre a dimensão da imanência e a da transcendência, entre a comunidade dos vivos e dos mortos, poderíamos dizer - é uma tarefa mais urgente do que nunca.

* Uma nova resolução da relação entre o particular e o universal é, assim, emblematicamente oferecida pela antropologia elidiana. O resultado dessa última é paradoxal: o homo religiosus é realmente um homem precisamente na medida em que não é homem, isto é, em sua atitude perante a impessoalidade que converge na união mística com o divino. Uma existência aberta para o mundo - em sentido vertical e axial, não horizontal - permite ao sujeito reconhecer a si mesmo e proporcionar um sentido à própria ação, que se mostra já não desligada em relação à estrutura universal, mas complementar a ela. Microcosmo e macrocosmo aparecem em um novo equilíbrio dinâmico, segundo uma resolução da relação entre o individual e o universal que Eliade persegue em toda sua obra: a nível individual, como uma harmonia entre os ritmos do homem e os ciclos cósmicos; a nível comunitário, como conexões vitais entre os membros de uma comunidade e o centro da mesma nas relações entre o indivíduo e as formas de coletividade ulteriores ou ampliadas, a nível metafísico, mediante a ontologia da coincidentia oppositorum (coincidência dos opostos).

Estas breves notas, que demandariam maior aprofundamento, esclarecimento e, principalmente, uma contextualização dentro da obra elidiana e dentro dos temas que nessas notas sobre o comunitarismo são propedêuticas ou consequentes - cito como exemplo os problemas do Centro, a dialética hierofânica, da origem - tem um valor eminentemente evocador. Mas quiçá seja justamente de poderosas evocações e apelações correspondidas de que mais tem necessidade a mísera idade contemporânea a nós. O caminho mais além da consciência infeliz, rumo a uma metanoia que seja uma transformação real - metafísica, portanto - do coração.

1 Arktos, London 2012.

2 A cargo de F. Volpi, tr. it. di A. La Rocca e F. Volpi, Adelphi, Milano 2010.

3 A cargo de P. Angelini, tr. it. di V. Vacca, Boringhieri, Torino 2008.

4 Aquela hermenêutica que Eliade define como "criativa" e "total" e crê ser metodologia irrefutável de uma ciência histórico-religiosa realmente consciente. Aquela hermenêutica que é fundação de uma teoria fenomenológica e descritiva, e que se baseia paralelamente na consciência da impossibilidade de se aproximar ao dado puro – o fato – religioso, sob pena de recair em um naturalismo neopositivista olvidado de toda a problemática gnoseológica. Neste âmbito de estudos metodológicos a obra de Eliade tem muito a oferecer, até invadir problemáticas especificamente teóricas. Uma contribuição a ser redescoberta que, em minha opinião, apresenta concordâncias significativas com as agudas e bem conhecidas considerações desenvolvidas por Husserl em La filosofia come scienza rigorosa, prefacio de G. Semerari, tr. it. de C. Sinigaglia, Laterza, Roma-Bari, 2005) y La crisi delle scienze europee e la fenomenologia trascendentale, prefacio de G. Semerari, tr. it. de C. Sinigaglia, Laterza, Roma-Bari, 2005). Sobre la fenomenología de Eliade, cfr. S. Alexandrescu, “Per una discussione filosofica dell’opera di Mircea Eliade”, en AA.VV., Confronto con Mircea Eliade. Archetipi mitici e identità storica, a cargo de L. Arcella, P. Pisi, R. Scagno, Jaca Book, Milán 1998, pp. 401-409.

5 En «Antaios», IV, (1963), pp. 113-119; tr. it. como prefacio a M. Eliade, Mefistofele e l’androgine, tr. it. di E. Pinto, Mediterranee, Roma 2011, pp. 7-13.

6 M. Eliade, Gedanken zu einem neuen Humanismus (Pensieri per un nuovo umanesimo), cit., p. 115.

7 Ibíd., p. 116.

8 Ibíd., pp. 117-118.

9 Ibíd., pp. 118-119.

10 En M. Eliade, La nostalgia delle origini. Storia e significato nella religione, tr. it. di A. Crespi Bortolini, Morcelliana, Brescia 2000, pp. 13-23. Trata-se de uma versão revisada e ampliada de um artigo originalmente chamado História das Religiões e um Novo Humanismo, que foi publicado pela primeira vez em História das Religiões I (1961).

11 Dentro do qual, em certo sentido, é justamente a Tradição que serve como universal e que se encontra em um continuum com suas manifestações históricas específicas. A literatura sobre a relação entre Eliade e os tradicionalistas é interminável, e com frequência conduz a considerações divergentes. Me limite a remeter aqui a: “Diorama letterario”, Storia, mito e sacro, n. 109 (1987); M. De Martino, Mircea Eliade esoterico. Ioan Petru Culianu e i “non detti”, Settimo Sigillo, Roma 2008, pp. 367-412; L. Sanjakar, Mircea Eliade e la tradizione. Tempo, mito, cicli cosmici, Il Cerchio, Rimini 2014; P. Pisi, “I “tradizionalisti” e la formazione del pensiero di Eliade”, in AA.VV., Confronto con Mircea Eliade. Archetipi mitici e identità storica, cit., pp. 43-133.

12 A cargo de F. Volpi, Adelphi, Milano 1995.



quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Eduard Popov - Primavera Russa: A Dinâmica Sociopolítica do Movimento de Independência do Donbass

por Eduard Popov



A ascensão do movimento de protestos no Donbass (e outras regiões da Nova Rússia histórica) que resultou na proclamação das Repúblicas Populares, foi uma reação ao golpe de Estado em Kiev e às políticas russofóbicas agressivas. Não é acidente que o primeiro passo legislativo das novas autoridades ucranianas foi abolir a lei dos idiomas, ratificada em 2003 pela Verkhovna Rada em linha com a Carta Europeia para Idiomas Regionais ou Minoritários, o que efetivamente empurrou o idioma russo para fora do espaço educacional e cultural-informacional da Ucrânia. Porém, o movimento popular no Donbass no fim do inverno e na primavera de 2014 também tinha motivos mais profundos. A proclamação das repúblicas populares do Donbass foi uma reação lógica ao desmonte do Estado ucraniano como ele havia sido constituído no esquema da República Socialista Soviética Ucraniana. As novas autoridades ucranianas violaram o contrato social tácito de lealdade ao Estado existente em troca por um mínimo de direitos linguístico-culturais garantidos para as regiões "Sudeste" (Nova Rússia histórica).

Imediatamente após o golpe de Estado em Kiev em fevereiro de 2014, associações de cidadãos começaram a emergir, mas foram reprimidas pelas ações das forças armadas do Euromaidan. Porém, no Donbass pós-soviético, diferentemente da Crimeia, não havia tradições fortes de movimentos russos ou autonomistas. Uma das razões para isso eram as operações centralizadas do Partido das Regiões, que objetivava subordinar todos os partidos e movimentos orientados para a representação dos interesses da metade russa da Ucrânia e restaurar os laços econômicos e humanitários com a Rússia. No Donbass, o Partido das Regiões se consolidou mais plenamente como força monopolizadora dos interesses das regiões russas da Ucrânia (o "Sudeste").

Isso desempenhou um papel decisivo na futura construção estatal das repúblicas do Donbass. O Partido das Regiões "atropelou" os movimentos sociais independentes. O movimento social República de Donetsk e as filiais regionais do Partido Bloco Russo não tinham papel significativo na vida política do Donbass, e não havia projetos políticos relevantes sob slogans russos. Apenas o Partido Comunista da Ucrânia representava algum tipo de competição para o Partido das Regiões no Donbass.

O movimento em apoio à independência do Donbass surgiu como algo repentino, uma reação visceral ao golpe oligárquico/neonazi em Kiev e em grande medida com base em células locais do Partido das Regiões e de forças da oposição de esquerda, como do Partido Comunista da Ucrânia e do Partido Socialista Progressivo da Ucrânia.

Foi predominantemente por essas forças que o referendo de independência foi organizado e preparado. Além deles, associações sociais também tiveram papel ativo no surgimento do movimento de independência. em particular, um papel enorme foi desempenhado, principalmente no primeiro momento, pelas organizações de "afegãos" (veteranos da guerra no Afeganistão), que vieram a compor o núcleo das unidades de milícia. Na região de Lugansk, um papel importante e até decisivo foi desempenhado pelas comunidades cossacas que possuíam rica experiência de auto-organização e laços desenvolvidos com os cossacos do Don na região russa vizinha de Rostov.

Por volta do fim de fevereiro e início de março de 2014, as organizações sociais do Donbass estavam disputando o controle dos municípios, seus opositores sendo as autoridades regionais. Após o fracassado Congresso de Kharkov em 22 de fevereiro de 2014, no qual os líderes do Partido das Regiões de Kharkov e da região de Kharkov, G. Kernes e M. Dobkin, essencialmente se recusaram a se opôr aos golpistas de Kiev, as burocracias das regiões de Donetsk e Lugansk se depararam com a difícil escolha de ou se submeterem ao novo e ilegítimo governo de Kiev, ou se exporem ao risco de repressão junto à população das regiões. Eles decidiram de forma razoavelmente rápida e declararam lealdade aos golpistas de Kiev. Uma fórmula conveniente justificando isso foi encontrada na noção de preservar a unidade da Ucrânia sob a condição de que Kiev expandisse a autoridade das regiões. em um fórum sobre o desenvolvimento da autoadministração local realizado em Lvov em 27 de março de 2014, o Presidente do Conselho Regional de Donetsk, A. Shishatsky, delineou sua ideia de governo descentralizado, segundo a qual redistribuir autoridade em favor das regiões envolveria excluir o ditado econômico e político de Kiev. Em 31 de março de 2014, o Conselho Regional de Donetsk apelou à Verkhovna Rada da Ucrânia com o pedido de tomar medidas para estabilizar a situação no país emendando a Constituição para empoderar o autogoverno local. [1]

Em 17 de abril de 2014, o Partido das Regiões realizou um congresso extraordinário no qual participaram os deputados dos conselhos locais da região de Donetsk bem como 29 deputados da Verkhovna Rada, que após o golpe de 21 de fevereiro haviam perdido sua legitimidade. (Não obstante, a Verkhovna Rada continuou a operar até que eleições parlamentares foram realizadas em 26 de outubro de 2014 literalmente sob mira de armas). Os líderes do Partido das Regiões, B. Kolesnikov e N. Levchenko, anunciaram que somente eles representavam o "Sudeste" na capital. Uma resolução proposta no congresso continha demandas de que Kiev garantisse autonomia fiscal às regiões orientais, desse status oficial ao idioma russo, e anistia plena a todos os manifestantes. Ao mesmo tempo, a resolução pedia que todos os manifestantes ocupando prédios nas regiões orientais baixassem as armas. Esta última demanda era, de fato, a principal, e ainda assim os líderes do Partido das Regiões admitiram que eles não podiam garantir que Kiev cumprisse os pontos sobre autonomia e status do idioma russo.

Manifestantes viram nessas ações do Partido das Regiões uma tentativa de enganar os movimentos contrários ao golpe. [2] Caracteristicamente, propostas similares buscando um compromisso com o movimento social do Donbass foram vocalizadas por representantes das novas autoridades de Kiev. O governador da região de Donetsk apontado por Kiev, Sergey Taruta, também declarou a necessidade de realizar um referendo nacional sobre o status do idioma russo e para descentralizar a autoridade. Como eventos subsequentes provaram, as afirmações e ações do Partido das Regiões eram apenas para despistar, já que emendas expandindo os direitos das regiões não foram incluídas na Constituição Ucraniana ou na prática jurídica. E o idioma russo foi gradativamente empurrado para fora da vida sóciopolítica e cultural-educacional da Ucrânia.

As declarações e ações das autoridades regionais dos Conselhos Regionais de Donetsk e Lugansk essencialmente legitimavam o governo golpista de Kiev. O Partido das Regiões, tendo emergido como instrumento político da elite financeira-industrial da região de Donetsk, se transformou em um partido clamando representar os interesses de todo o Sudeste. A participação do Partido das Regiões na Verkhovna Rada após o golpe de Estado, seus representantes (M. Dobkin e O. Tsarev) participando nas eleições presidenciais ilegítimas na primavera de 2014, e as atividades dos conselhos regionais das regiões de Donetsk e Lugansk que legitimavam as novas autoridades, demonstraram que o Partido das Regiões havia se transmutado em um dos partidos do Euromaidan ucraniano. Sua função principal se tornou, assim, fornecer um verniz de legitimidade para o governo ilegal dos golpistas de Kiev para o Sudeste.

O Donbass entrou assim na primeira fase de seu desenvolvimento político-estatal privado de sua própria classe política. Na primeira fase, o aparato estatal das regiões de Donetsk e Lugansk (as administrações regionais e a burocracia central das organizações regionais do Partido das Regiões) declarou lealdade às forças que haviam lançado o golpe de Estado em Kiev. A vasta maioria das velhas elites políticas, econômicas e administrativas da região do Donbass (as regiões de Donetsk e Lugansk), assim, apoiavam o novo regime em Kiev e abandonaram o território. A "Primavera Russa" no Donbass pode, assim, ser sociologicamente caracterizada pela frase "povo sem elite". Alternativamente, na expressão figurativa de um veterano dos eventos em Lugansk, essa foi uma revolta dos escravos. A ruptura entre apoiadores do novo governo em Kiev e o movimento russo logo recaiu em linhas socioproprietárias.

A Formação dos Sistemas Político-Partidários da RPD e da RPL: Entre a Primavera Russa e a Experiência Estatal Ucraniana

O nascimento das repúblicas populares do Donbass ocorreu sob o estandarte de um construto ideológico que foi batizado de "Primavera Russa" (imitando a "Primavera Árabe") nas obras de escritores de Moscou. Ignorando o fato de que este termo não se encaixa na situação do Donbass (a população jovem e crescente do Oriente Médio árabe vs. a população velha e em declínio do Donbass), é impossível não reconhecer a imensa importância mobilizadora desse termo no momento inicial do movimento.

O movimento popular no Donbass começou sob slogans proclamando a construção de um Estado russo e/ou de um Estado socialmente justo. Um amplo espectro de forças sociopolíticas apoiando o Donbass - de nacionalistas radicais russos e monarquistas a comunistas e anarquistas - foi unificado por uma rejeição comum do neonazismo ucraniano e de aspectos do Estado ucraniano como a burocratização, o ultracentralismo, a corrupção e a ditadura oligárquica. Na porção de protesto de seu programa, os ativistas do movimento popular do Donbass declaravam solidariedade com os slogans do Euromaidan que sonhavam com enterrar o "velho" Estado ucraniano. A "Revolução da Dignidade" (nome oficial utilizado na Ucrânia para o Euromaidan) acabou no colapso completo de todas as esperanças, o que até os mais ardentes apoiadores do Euromaidan são agora forçados a admitir. Mas o que trouxe vitória à Primavera Russa e às repúblicas do Donbass?

Em 7 de abril de 2014 o Conselho Popular da República Popular de Donetsk foi estabelecido, o qual se declarou a máxima autoridade na república. O corpo consistia de aproximadamente 70 pessoas eleitas pela cooptação de um representante ou de um coletivo de trabalhadores locais ou de uma organização social municipal (dependendo do tamanho da população) que assim se tornava o representante de sua cidade ou distrito no mais alto órgão de poder da RPD. Todas as organizações municipais da antiga região de Donetsk (com exceção dos órgãos repressoras ativamente leais ao novo regime de Kiev, ou seja, o Ministério de Assuntos Interiores e a SBU) estavam representadas no Conselho Popular da RPD. Uma parte importante do Conselho Popular consistia de representantes existentes de conselhos municipais e distritais, ou seja, pessoas eleitas a órgãos locais de poder e possuindo experiência municipal. Além desse grupo, o Conselho Popular da RPD cooptou representantes de coletivos de trabalhadores e de organizações sociais operando nos municípios.

Assim, na fase de surgimento de sua natureza estatal, a RPD e a RPL realizaram o princípio básico de soberania popular refletido nos nomes das repúblicas.

Os deputados do Conselho Popular realizaram a parte principal do trabalho de rascunhar a Constituição da RPD e preparar o referendo sobre independência. Em 7 de abril de 2014, o conselho emitiu a Declaração de Soberania da República Popular de Donetsk e o Ato sobre Independência Estatal da República Popular de Donetsk.

Apesar da pressão política, informacional e militar cada vez maiores e das provocações, um referendo foi realizado nas regiões de Donetsk e Lugansk que perguntava: "Você apoia o Ato de Independência da RPD/RPL?". Na região de Donetsk, 89.7% dos eleitores disseram "sim", enquanto 10.19% dos residentes d região votaram contra a autodeterminação e 0.74% dos bilhetes foram reconhecidos como inválidos. O comparecimento foi de 74.87%.

Na região de Lugansk, a independência foi apoiada por 96.2% dos eleitores e oposta por 3.8%, com um comparecimento total de 81%. Os referendos essencialmente legitimaram o que se tornaria a segunda parte do conflito interucraniano, as Repúblicas Populares, que se opunham ao governo ilegal em Kiev por motivos ideológicos, políticos e militares. Em 14 de maio, o Conselho Popular da RPD se transformou no Supremo Conselho da RPD composto por 150 deputados (apesar do número efetivo ser menor). Após o referendo, ministérios e departamentos começaram a ser formados, e em 14 de maio de 2014, a Constituição da RPD foi adotada. [3]

Eleições para a composição constituinte do Conselho Popular da RPD foram realizadas com observância de todos os procedimentos democráticos, enquanto o mesmo não poderia ser dito sobre as eleições presidenciais extraordinárias ucranianas realizadas em 25 de maio de 2014, que foram marcadas por grosseiras violações procedimentais. A falta de termos competitivos iguals na mídia e nas comissões eleitorais, e intimidação e violência contra candidatos e eleitores do "Sudeste" fizeram da campanha eleitoral ucraniana uma farsa.

Organizações sociais se tornaram uma fonte importante para formar o aparato administrativo e a classe política da RPD e da RPL. Em certas áreas da RPL e em menor medida da RPD, um papel decisivo foi desempenhado pelos cossacos, primariamente por aqueles ligados aos não-registrados cossacos do Don. O líder desse grupo político-militar era o famoso comandante Pavel Dremov. Planos para uma República Cossaca de Stakhanov são atribuídos a ele. (O QG do 6ª Regimento Cossaco de Infantaria Motorizada "Ataman Platov" da Milícia Popular da RPL, contando com mais de 2.000 homens, estava localizado em Stakhanov).

Na fase inicial da existência das repúblicas, líderes carismáticos locais (P. Dremov em Stakhanov, I. Bezler em Gorlovka, I. Strelkov em Slavyansk, A. Mozgovoy em Alchevsk, etc.) eram essencialmente incontroláveis pela liderança republicana em Donetsk e Lugansk. Os líderes políticos da RPD e da RPL (à época, D. Pushilin e V. Bolotov respectivamente) não desfrutavam de prestígio em círculos militares.

No primeiro momento, sob o estandarte da Primavera Russa, a formação e desenvolvimento das repúblicas do Donbass se desdobraram segundo o princípio do governo popular com grande importância atribuída ao autogoverno locao ou literalmente "autoridade no chão". Em alguns casos, autoridades locais operavam segundo as leis da "democracia militar" (por exemplo, na "República Cossaca" de P. Dremov). Este processo tinha um lado negativo que se tornou aparente após a eclosão da guerra. A "democracia militar" não raro se transformava em anarquia e uma forma de controle por grupos armados sobre certos territórios e sua população local. Ao mesmo tempo, a introdução de ordem e segurança básicas, bem como o melhoramento da eficiência das forças armadas demandavam que inúmeras brigadas milicianas fossem transformadas em um corpo militar regular subordinado a um comando centralizado.

O processo de centralização dos grupos armados, assim, afetava tanto as esferas militar como a civil. Segundo representantes de média hierarquia do comando militar da RPD questionados por nós, bem como especialistas civis em ambas as repúblias, este processo pode ser considerado de modo geral como tendo tido sucesso. Mesmo as Forças Armadas Ucranianas, os "batalhões voluntários" e especialistas militares ocidentais notaram a melhoria no gerenciamento das forças armadas da RPD e da RPL. Como qualquer processo social complexo, transformar a milícia em um exército regular não ocorre sem certos custos. Por exemplo, especialistas notaram um declínio na motivação ideológica dos soldados das repúblicas e um percentual maior de oportunistas que serviam apenas por salários e privilégios.

As forças armadas da RPD e da RPL são, atualmente, a instituição social mais importante cujo papel político não corresponde a seu status real. Se o desejo por um representante militar pode ser visto no líder da RPD, Aleksandr Zakharchenko, veterano da brigada Oplot, então na RPL, desde a morte do Ataman Pavel Dremov, o exército tem estado essencialmente privado de representação e influência política nos órgãos supremos de poder.

As repúblias há muito desenvolveram seus próprios órgãos de poder e sistemas político-partidários portando especificidades pronunciadas. Em primeiro lugar, todos os partidos ucranianos foram banidos de operar nos territórios das repúblicas, uma decisão motivada pela concordância dos partidos ucranianos de trabalhar na Verkhovna Rada após o golpe de fevereiro de 2014, uma ação que legitimava o novo governo de Kiev e a "Operação Antiterrorismo".

Na RPD, duas forças políticas reais se formaram que estão representadas no parlamento. Primeiro, há o movimento social República de Donetsk, fundado por Andrei Purgin e então transformado em partido sob o mesmo nome, atualmente chefiado pelo líder da RPD, Aleksandr Zakharchenko e pelo Presidente do Conselho Popular Denis Pushilin. O segundo partido, ou melhor conglomerado de partidos e movimentos, é o Donbass Livre. As diferenças programáticas entre os dois partidos representados no Conelho Popular da RPD são mínimas.

Dois partidos também se formaram na RPL, nomadamente, o movimento Paz para Lugansk, chefiado pelo presidente da República, Igor Plotnitsky, e o União Econômica de Lugansk. Estas forças políticas são ativas foram dos parlamentos também. Ideólogos do Paz para Lugansk orgulhosamente proclamaram um crescimento nas fileiras do movimento, que agora já conta com 87.500 membros. [4]

Tal sistema bipartidário permite que seus líderes controlem de maneira razoavelmente estável o processo político nas repúblicas. Enquanto ideias comunistas tem alguma popularidade na população do Donbass e partidos comunistas na RPD e RPL pudessem contar com apoio eleitoral, nas condições de uma situação semibeligerante, a liderança atual das repúblicas não está interessada em criar um ambiente político-partidário muito competitivo. Porém, os "partidos do poder" eles mesmos cada vez mais se assemelham ao banido Partido das Regiões, dos quais alguns deles são clones.

Alto percentual de representação dos novos "partidos do poder" na equipe administrativa de ambas as repúblicas inclui ex-funcionários do Partido das Regiões. Ao longo de nossas entrevistas com especialistas, quase todos os entrevistados notaram uma tendência perturbadora: o retorno de facto do Partido das Regiões e da burocracia ucraniana às estruturas políticas e administrativas da RPD e da RPL junto a uma separação cada vez maior entre a classe burocrática e a população. Os ex-regionalistas ocupam cada vez mais espaço não só nos órgãos administrativos, mas também nas estruturas partidárias da RPD e da RPL. Este é o mesmo processo descrito por Trótski como "burocratização de um Estado de trabalhadores isolado e a transformação da burocracia em uma casta privilegiada".

Consciência desse processo pode ser vislumbrado até mesmo a partir das publicações oficiais da RPD e da RPL. Em 14 de janeiro de 2017, o presidente da RPD Aleksandr Zakharchenko "deu um duro ultimato aos líderes inescrupulosos", prometendo supervisionar pessoalmente o trabalho das recepções públicas do movimento República de Donetsk. Sua declaração apresentou uma avaliação certeira das atividades do "partido do poder" que se transformou de "intermediário entre o governo e o povo" em um obstáculo burocrático. Zakharchenko também ressaltou um aumento no número de reclamações da população em relação ao trabalho do movimento República de Donetsk. [5]

Após o golpe em Kiev, funcionários alfandegários ucranianos (um dos setores mais corruptos do funcionalismo público ucraniano) apoiaram o novo governo de Kiev e subsequentemente fugiram para a Ucrânia após o início dos conflitos no Donbass. Por volta do verão de 2015, porém, eles retornaram em massa a seus postos, e as alfândegas na RPD e RPL passaram a estar manejadas majoritariamente por funcionários públicos leais ao governo de Kiev. O mesmo se aplica à liderança dos departamentos alfandegários na RPL. O alto percentual de funcionários públicos ucranianos que retornaram ao Donbass após os Acordos de Minsk se acomodaram nas estruturas do Ministério de Assuntos Interiores e do Ministério de Segurança Estatal. Casos absurdos são conhecidos nos quais graduandos da academia da SBU ucraniana nascidos em Donetsk e Lugansk retornaram para seus locais de origem no Donbass para trabalhar para os ministérios de segurança da RPD e da RPL. Funcionários ucranianos similarmente penetraram agências civis na RPD e na RPL, a única exceção nisso sendo as Milícias Populares na RPD e na RPL que cumprem as funções de ministérios de defesa.

Em algumas das agências governamentais da RPD e da RPL, funcionários ucranianos que retornaram já são predominantes, especiamente nos ministérios de impostos e taxas, que são particularmente "férteis" para a corrupção. Funções fiscais estão sendo, assim, realizadas por especialistas cuja lealdade às repúblicas do Donbass é, no mínimo, questionável. É apenas natural que na opinião de representantes entrevistados de círculos empresariais da RPD, toda informação sobre atividades empresariais no Donbass sejam de conhecimento instantâneo em Kiev.

Simultaneamente com o retorno do funcionalato ucraniano às estruturas políticas e administrativas da RPD e da RPL, veteranos do movimento para o estabelecimento das Repúblicas Populares tem sido cada vez mais politicamente marginalizados. Dos primeiros membros do Conselho Popular e do Supremo Conselho da RPD, apenas um punhado retém postos significativos nas esferas política e administrativa. O Partido das Regiões, que perdeu a batalha para os apoiadores do estabelecimento da RPD e da RPL na primavera de 2014 está agora consistentemente recuperando suas posições perdidas em uma "contrarrevolução burocrática".

Instituições influentes, porém informais, também estão presentes junto às elites políticas e administrativas formais da RPD e da RPL. Um papel especialmente significativo e até decisivo na região do Donbass ainda é desempenhado por oligarcas. Este papel ainda não desapareceu da vida econômica da região. É bem conhecido que o Partido das Regiões era a instituição política da oligarquia industrial-financeira de Donetsk na Ucrânia pós-soviética. Na região de Donetsk e na RPD, o "rei do Donbass", o oligarca Rinat Akhmetov, preserva relevância particular. Segundo alguns relatos, "exércitos privados" de Akhmetov até deram apoio a ativistas da Primavera Russa em Donetsk. No que concerne a situação na região de Lugansk, pode-se falar de um papel reservado ao oligarca Aleksandr Efremov (líder da facção do Partido das Regiões na Verkhovna Rada ucraniana de 2010 a 2014, e o líder da organização regional do partido em Lugansk).

A desoligarquização está acontecendo neste momento nas repúblicas do Donbass, mas essa campanha, até agora, tem adquirido apenas contornos vagos. Ela afeta não só a esfera econômica, mas as relações políticas e sociais, às quais agora nos voltaremos na próxima parte de nosso artigo.

Processos Econômicos e Sociais nas Repúblicas Populares do Donbass

A tendência para a oligarquização, ou para a formação de grandes posses de oligarcas através de privatizações injustas e de sua influência ativa ou decisiva nas políticas públicas, foi mais radical na Ucrânia pós-soviética do que em qualquer outra antiga república da URSS no continente europeu. Os oligarcas receberam amplas propriedades não por mérito, mas graças a sua proximidade com o governo ou mesmo participação no governo. Por exemplo, em certa época o homem mais rico na Ucrânia era Viktor Punchuk, genro do segundo presidente ucraniano, Leonid Kuchma. De modo geral, dois grandes clãs territoriais de oligarcas se desenvolveram na Ucrânia: os clãs de Dnepropetrovsk e de Donetsk. A região do Donbass (as regiões de Donetsk e Lugansk da antiga Ucrânia) é a região com a maior concentração de propriedade oligárquica. O oligarca número 1 não só do Donbass mas de toda a Ucrânia durante o Euromaidan era Rinat Akhmetov, que vem de círculos semicriminosos.

A preservação da propriedade oligárquica estava na contramão dos slogans sociais tanto da Primavera Russa como do Euromaidan. A questão da nacionalização da propriedade oligárquica ucraniana emergiu na primeira fase da formação das autoridades estatais independentes do Donbass. Mas nessa fase inicial do estabelecimento das repúblicas populares surgiu um sistema absurdo no qual a propriedade dos oligarcas ucranianos na RPD e RPL, ou seja, empresas que pagavam impostos que iam parar no orçamento militar ucraniano, foi preservada. Segundo o Ministério das Finanças da Ucrânia, entre o início de maio de 2014 e o fim de maio de 2016, empresas registradas nas partes de Donetsk e Lugansk não controladas por Kiev pagaram impostos, taxas e contribuições sociais no total de 36.8 milhões de hryvnias, ou aproximadamente 1.5 bilhão de dólares.

Inicialmente, os pagamentos de impostos para Kiev eram uma medida necessária, como pode ser visto no excerto de uma entrevista com um dos líderes da cidade de Konstantinovka (à época, território da RPD, mas atualmente controlada pela Ucrânia), Vladimir Bugai. A entrevista foi conduzida em meados de junho de 2014:

Eduard Popov: "Como o sistema tributário da cidade de Konstantinovka e da RPD como um todo funciona?"

Vladimir Bugai: "A República de Donetsk coleta impostos que eram previamente pagos para o orçamento local, enquanto os imposts de renda e outras taxas ainda são pagos a Kiev, de modo que eles ainda pagam nossas pensões e benefícios, porque não há sistema previdenciário pronto aqui ainda".

Popov: "Isso quer dizer que as pessoas recebem seus benefícios da Ucrânia?"

Bugai: "Até o mês passado todo mundo recebia tudo. Para maio de 2014 todo mundo recebeu 100%... Eu conversei com a liderança da República de Donetsk e eles disseram que precisamos avançar [rumo a um sistema previdenciário independente] gradualmente. Se cortarmos tudo, a economia entrará em colapso. A maioria dos impostos, ao que parece, tomamos para nós mesmos, mas parte dos impostos entregamos a Kiev para que eles paguem nossos benefícios sociais. Funciona assim: Damos a eles dois rublos e eles nos devolvem um. Assim isso agrada a eles por enquanto, e eles obviamente nos pagam, mas se eles subitamente deixarem de nos pagar, então tentaremos impedir que os impostos cheguem neles".

O "prefeito do povo" de Konstantinovka, Vladimir Bugai, acrescentou: "Temos muitas empresas trabalhando em Donetsk que estão registradas em outras regiões e pagam todos os seus impostos a Kiev, mas agora surgiu a questão sobre re-registrar essas empresas nas repúblicas do Donbass já que elas estão aqui". O proprietário da maioria dessas empresas é Rinat Akhmetov e, novamente nas palavras de Bugai, "ele não tem interesse em pagar impostos à República de Donetsk. Propusemos isso a ele e ele recusou. Agora declaramos que se suas empresas não forem re-registradas nas repúblicas até o fim do mês, então elas serão nacionalizadas. Pushilin anunciou isso em um de seus últimos discursos". [6]

Na prática, porém, a liderança da república foi cada vez mais compelida a respeitar os interesses empresariais dos oligarcas ucranianos. Segundo os especialistas que entrevistamos, criaturas dos grupos oligárquicos estão presentes nas lideranças das duas repúblicas. A nacionalização prometida em maio de 2014 pelos então líderes da RPD não aconteceu. Similarmente às promessas anti-oligárquicas do Euromaidan, os slogans da Primavera Russa sobre combater os oligarcas e construir uma sociedade socialmente justa não se concretizaram. Mas a razão para isso é mais profunda e complexa do que a mera presença de criaturas influentes dos oligarcas ucranianos no alto escalão das lideranças da RPD e da RPL, ainda que este aspecto não deva ser descontado. Ao longo de pesquisas com especialistas na RPD e na RPL conduzidas com representantes de círculos políticos e empresariais, era frequentemente dito que um desmonte radical do modelo econômico existente levaria à paralisação das grandes empresas do Donbass e, assim, privaria pelo menos dezenas de milhares de pessoas de trabalho, o que significaria que, junto com suas famílias, centenas de milhares perderiam os meios de sustento. Porém, todos os entrevistados notaram que a preservação da propriedade oligárquica ucraniana e a continuação dos pagamentos para o orçamento bélico ucraniano eram um beco sem saída.

Mas o problema não é apenas que as repúblicas do Donbass estão financiando a guerra contra elas mesmas através das deduções de impostos para o orçamento ucraniano de empresas pertencentes a oligarcas ucranianos. Ademais, o capitalismo oligárquico desenvolvido na Ucrânia é economicamente inviável, não é competitivo, e contradiz princípios de justiça social. Amplos segmentos da população da RPD e da RPL sonham com a construção de um Estado mais justo que poderia ser considerado uma nova forma de "socialismo russo" livre dos erros doutrinários da URSS e da Ucrânia neonazi/oligárquica.

A situação começou a mudar em fevereiro de 2017. O presidente e o gabinete de ministros da Ucrânia apoiaram o bloqueio do Donbass organizado no fim de 2016 por grupos neonazistas ucranianos na chamada zona da "operação antiterrorismo". O presidente ucraniano Petro Poroshenko ordenou a suspensão temporária de transporte de todos os bens, com exceção dos de natureza humanitária, através da linha de contato entre o território controlado pela Ucrânia e os distritos "ocupados pelos pró-russos" do Donbass. Essa foi uma violação direta dos Acordos de Minsk, especificamente do Ponto 8 que garante a restauração plena dos laços socioeconômicos entre as repúblicas do Donbass e a Ucrânia. [7] Essa decisão do presidente Poroshenko em 15 de março de 2017 foi formalizada em um decreto do Conselho de Segurança Nacional e Defesa da Ucrânia no mesmo dia.

O bloqueio do Donbass, primeiro de facto e depois de jure, forneceu às autoridades das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk fundamentação para introduzir gerenciamento externo nas empresas ucranianas localizadas em território das repúblicas a partir de 1 de março. Em 27 de fevereiro, durante uma reunião extraordinária do Conselho Popular da RPD, os deputados adotaram um projeto de lei emendando o sistema tributário da república. [8] Uma decisão correspondente foi adotada pelo parlamento da RPL. A essência dessas emendas se resumia a um ultimato: Empresas de cidadãos ucranianos localizadas na RPD e na RPL tinham que ser registradas novamente para pagar impostos para os orçamentos das repúblicas até 1 de março de 2017. Os decretos subsequentes introduzindo gerenciamento externo nas empresas ucranianas na RPD e na RPL estão sendo implementados, e as empresas pertencentes aos oligarcas ucranianos estão continuando a funcionar apesar da resistência de seus proprietários. Um trabalho difícil e nem sempre de sucesso para reorientar os mercados está ocorrendo neste momento.

Aqui intencionalmente colocamos um ponto e descontinuaremos temporariamente nossa análise da situação socioeconômica das repúblicas, sobre a quai esperamos desenvolver um artigo separado. Como os sistemas de seguridade social na RPD e RPL estão estruturados é uma questão totalmente distinta que discutiremos em nosso próximo artigo.

Conclusão

Em termos econômicos, sociais e políticos, as repúblicas do Donbass representam um fragmento da Ucrânia pós-soviética portando todas as características de seu sistema econômica e de sua casta gerencial, tal como uma base tecnológica e produção obsoletas, currupção, uma burocracia incompetente, uma classe política incompetente, desigualdade entre diferentes grupos sociais, etc. A preservação da propriedade oligárquica ucraniana no território da RPD e da RPL, de fato, nos impede de falar em uma soberania real das repúblicas. Até pouco tempo atrás, as empresas oligárquicas ucranianas pagavam ao orçamento ucraniano e, com osegue, financiavam a guerra contra o povo do Donbass. Desde fevereiro de 2017, processos contraditórios de desoligarquização e construção de um modelo econômico mais justo desde as perspectivas nacional e social estão ocorrendo. No momento atual, ainda não há material suficiente para tirar conclusões.

Rumo a que sistema socioeconômico as repúblicas populares do Donbass grvitarão? Será criada ali uma variante "nacional-capitalista" (enfatizando as empresas previamente pertencentes aos oligarcas ucranianos) ou um novo tipo de "socialismo russo"? Ou será preservado o capitalismo oligárquico, sob alguma forma? A nacionalização da propriedade dos oligarcas, por si só, não garante o desenvolvimento socioeconômico, já que um resultado possível poderia ser a substituiçã oda velha classe de grandes proprietários por uma nova casta de oligarcas, que já estava em formação nas repúblicas do Donbass.

A RPD e a RPL, nas mais duras condições, conseguiram defender sua independência do atual governo de Kiev e tiveram sucesso em formar uma Força Armada do Donbass (as milícias populares da RPD e da RPL). Desde a primavera de 2015, os serviços sociais começaram a funcionar, a ameaça de fome foi eliminada, e a população idosa tem recebido suas aposentadorias. Graças ao auxílio russo, as repúblicas do Donbass, no mínimo, não estão em situação socioeconômica pior que as regiões vizinhas da Ucrânia. Ademais, graças ao auxílio russo o Estado tem cumprido seus compromissos mínimos, incluindo na questão da fixação de preços (os bens custam significativamente menos que na Ucrânia), etc.

É óbvio que sem a ajuda continuada da Rússia, as repúblicas do Donbass, mesmo assumindo reformas sociais e econômicas, seriam entidades inviáveis. A única garantia de seu desenvolvimento futuro é a integração econômica, social e humanitária da RPD e da RPL no espaço russo seguindo o modelo osseta e abcázio. O futuro das repúblicas do Donbass pode ser determinado pelos processos políticos e pelas tendências desintegrativas continuamente avançando na Ucrânia. 

[1] http://www.sovet.donbass.com/?lang=ru&sec=04.01&iface=Public&cmd=shownews&args=id:3559

[2] http://www.regnum.ru/news/polit/1792792.html#ixzz4UyyrNkH0

[3] Украина: война с собственным народом. Доклад Московского бюро по правам человека. 19/05/2014  // URL: http://www.perspektivy.info/rus/gos/ukraina_vojna_s_sobstvennym_narodom_2014-05-19.htm

[4] http://lug-info.com/news/one/obschestvennoe-dvizhenie-mir-luganschine-naschityvaet-875-tys-uchastnikov-4658

[5] https://av-zakharchenko.su/inner-article/Stati/Aleksandr-Zaharchenko-budet-lichno-kontrolirovat-rabotu/

[6] http://old.newstracker.ru/news/interview/donbass-ne-dozhdalsia-pomoshchi-rossii-deputat-dnr/

[7] https://ria.ru/world/20150212/1047311428.html

[8] http://dnr-online.ru/parlamentom-respubliki-zakonodatelnogo-uregulirovan-poryadok-vvedeniya-vneshnego-upravleniya-na-predpriyatiyax-ukrainskoj-yurisdikcii/


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Robert Steuckers - A Perfeição da Técnica: Friedrich-Georg Jünger

por Robert Steuckers



Nascido em 1 de setembro de 1989 em Hannover, irmão do famoso escritor alemão Ernst Jünger, Friedrich-Georg Jünger se interessou pela poesia desde uma idade muito jovem, despertando nele um forte interesse pelo classicismo alemão em um itinerário que atravessa Klopstock , Goethe e Hölderin. Graças a esta imersão precoce no trabalho de Hölderin, Friedrich-Georg Jünger é fascinado pela antiguidade clássica e percebe a essência da helenidade e da romanidade antigas como uma aproximação à natureza, como uma glorificação da elementalidade, ao mesmo tempo que é dotada de uma visão do homem que permanecerá imutável, sobrevivendo ao longo dos séculos na psique européia, às vezes visível à luz do dia, às vezes escondida. A era da técnica separou os homens dessa proximidade vivificante, elevando-o perigosamente acima do elemental. Toda a obra poética de Friedrich-Georg Jünger é um protesto veemente contra a pretensão mortífera que constitui esse distanciamento. Nosso autor permanecerá profundamente marcado pelas paisagens idílicas de sua infância, uma marca que se refletirá em seu amor incondicional pela Terra, pela flora e pela fauna (especialmente insetos: foi Friedrich-Georg quem apresentou seu irmão Ernst ao mundo da entomologia), pelos seres mais elementares da vida no planeta, pelas raízes culturais.

A Primeira Guerra Mundial acabará com essa imersão jovem na natureza. Friedrich-Georg se alistará em 1916 como aspirante a oficial. Severamente ferido no pulmão, na frente do Somme, em 1917, passa o resto do conflito em um hospital de campo. Depois de sua convalescença, se matricula em Direito, obtendo o título de doutor em 1924. Mas ele nunca seguirá a carreira de jurista, logo descobriu sua vocação como escritor político dentro do movimento nacionalista de esquerda, entre os nacional-revolucionários e o nacional-bolcheviques, unindo-se mais tarde à figura de Ernst Niekisch, editor da revista "Widerstand" (Resistência). A partir desta publicação, bem como de "Arminios" ou "Die Kommenden", os irmãos Jünger inauguraram um novo estilo que poderíamos definir como do "soldado nacionalista", expressado pelos jovens oficiais que chegaram recentemente do front e incapazes de se adaptar à vida civil . A experiência das trincheiras e o fragor dos ataques mostraram-lhes, através do suor e do sangue, que a vida não é um jogo inventado pelo cerebralismo, mas um rebuliço orgânico elemental onde, de fato, os instintos reinam. A política, em sua própria esfera, deve compreender a temperatura dessa agitação, ouvir essas pulsões, navegar em seus meandros para forjar uma força sempre jovem, nova e vivificante. Para Friedrich-Georg Jünger, a política deve ser apreendida de um ângulo cósmico, fora de todos os miasmas "burgueses, cerebrais e intelectualizantes". Paralelamente a esta tarefa de escritor político e profeta desse nacionalismo radicalmente anti-burguês, Friedrich-Georg Jünger mergulha na obra de Dostoiévski, Kant e dos grandes romancistas americanos. Junto com seu irmão Ernst, ele realiza uma série de viagens pelos países mediterrâneos: Dalmácia, Nápoles, Baleares, Sicília e as ilhas do Mar Egeu.

Quando Hitler sobe ao poder, o triunfante é um nacionalismo das massas, não aquele nacionalismo absoluto e cósmico que evocava a pequena falange (sic) "fortemente exaltada" que editou seus textos nas revistas nacional-revolucionárias. Em um poema, Der Mohn (A Papoula), Friedrich-Georg Jünger ironiza e descreve o nacional-socialismo como "a música infantil de uma embriaguez sem glória". Como resultado desses versículos sarcásticos, ele se vê envolto em uma série de problemas com a polícia, pelo que ele sai de Berlim e se instala, com Ernst, em Kirchhorst, na Baixa Saxônia.

Aposentado da política depois de ter publicado mais de uma centena de poemas na revista de Niekisch - que vê pouco a pouco o aumento das pressões da autoridade até que finalmente é preso em 1937 -, Friedrich-Georg Jünger consagra por inteiro à criação literária, publicando em 1936 um ensaio intitulado Über das Komische e terminando em 1939 a primeira versão de seu maior trabalho filosófico: Die Perfektion der Technik (A Perfeição da Técnica). Os primeiros rascunhos deste trabalho foram destruídos em 1942, durante um bombardeio aliado. Em 1944, uma primeira edição, feita a partir de uma série de novos ensaios, é novamente reduzida às cinzas devido a um ataque aéreo. Finalmente, o livro aparece em 1946, provocando um debate em torno da problemática da técnica e da natureza, prefigurando, apesar de sua orientação "conservadora", todas as reivindicações ambientais alemãs dos anos 60, 70 e 80. Durante a guerra, Friedrich-Georg Jünger publicou poemas e textos sobre a Grécia antiga e seus deuses. Com o surgimento de Die Perfektion der Technik, que verá várias edições sucessivas, os interesses de Friedrich-Georg se voltam aos temas da técnica, da natureza, do cálculo, da mecanização, da massificação e da propriedade. Recusando, em Die Perfektion der Technik, enunciar suas teses sob um esquema clássico, linear e sistemático; seus argumentos aparecem "em espiral", de maneira desordenada, esclarecendo volta após volta, capítulo aqui, capítulo lá, tal ou qual aspecto da tecnificação global. Como filigrana, percebe-se uma crítica às teses que seu irmão Ernst mantinha então em Der Arbeiter (O Trabalhador), que aceitou como inevitável a evolução da técnica moderna. Sua posição antitécnica aborda a tese de Ortega y Gasset em Meditações sobre a Técnica (1939) de Henry Miller e de Lewis Munford (que usa o termo "megamaquinismo"). Em 1949, Friedrich-Georg Jünger publicou uma obra de exegese sobre Nietzsche, onde es interrogava sobre o sentido da teoria cíclica do tempo enunciado pelo anacoreta de Sils-Maria. Friedrich-Georg Jünger contesta a utilidade de usar e problematizar uma concepção cíclica dos tempos, porque este uso e esta problematização acabarão por conferir ao tempo uma forma única e intangível que, para Nietzsche, é concebida como cíclica. O tempo cíclico, próprio da Grécia das origens e do pensamento pré-cristão, deve ser percebido a partir dos ângulos do imaginário e não da teoria, que obriga a conjugar a naturalidade a partir de um modelo único de eternidade e, assim, o instante e o fato desaparecem sob os cortes arbitrários estabelecidos pelo tempo mecânico, segmentarizados em visões lineares. A temporalidade cíclica de Nietzsche, por seus cortes em ciclos idênticos e repetitivos, preserva, pensou Friedrich-Georg Jünger, algo de mecânico, de newtoniano, pelo que, finalmente, não é uma temporalidade "grega". O tempo, para Nietzsche, é um tempo policial, sequestrado; carece de apoio, de suporte (Tragend und Haltend). Friedrich-Georg Jünger canta uma a-temporalidade que é identificada com a natureza mais elementar, o "Wildnis", a natureza de Pã, o fundo natural intacto do mundo, não manchado pela mão humana, que é, em última instância, um acesso ao divino, ao último segredo do mundo. O "Wildnis" - um conceito fundamental no poeta "pagão" que é Friedrich-Georg Jünger - é a matriz de toda a vida, o receptáculo aonde deve retornar toda vida.

Em 1970, Friedrich-Georg Jünger fundou, juntamente com Max Llimmelheber, a revista trimestral "Scheidwege", onde figuraram na lista de colaboradores os principais representantes de um pensamento ao mesmo tempo naturalista e conservador, céticos em relação a todas as formas de planificação técnico. Entre os pensadores desta inclinação conservadora-ecológica que apresentaram suas teses na publicação podemos lembrar os nomes de Jürgen Dahl, Hans Seldmayr, Friederich Wagner, Adolf Portmann, Erwin Chargaff, Walter Heiteler, Wolfgang Häedecke, etc.

Friedrich-Georg Jünger morreu em Überlingen, perto das margens do lago de Constança, em 20 de julho de 1977.

O germanista norte-americano Anton H. Richter, em seu trabalho sobre o pensamento de Friedrich-Georg Jünger, ressalta quatro temas essenciais em nosso autor: a antiguidade clássica, a essência cíclica da existência, a técnica e o poder de o irracional. Em seus escritos sobre antiguidade grega, Friedrich-Georg Jünger reflete sobre a dicotomia dionisíaca/titânica. Como dionisismo, abrange o apolíneo e o pânico, numa frente unida de forças organizacionais intactas contra as distorções, a fragmentação e a unidimensionalidade do titanismo e do mecanicismo de nossos tempos. A atenção de Friedrich-Georg Jünger centra-se essencialmente nos elementos ctônicos e orgânicos da antiguidade clássica. Desta perspectiva, os motivos recorrentes de seus poemas são a luz, o fogo e a água, forças elementares às quais ele homenageia profundamente. Friedrich-Georg Jünger zomba da razão calculadora, da sua ineficiência fundamental exaltando, em contraste, o poder do vinho, da exuberância do festivo, do sublime que se aninha na dança e nas forças carnavalescas. A verdadeira compreensão da realidade é alcançada pela intuição das forças, dos poderes da natureza, do ctônico, do biológico, do somático e do sangue, que são armas muito mais efetivas do que a razão, que o verbo plano e unidimensional, desmembrado, purgado, decapitado, despojado: de tudo o que torna o homem moderno um ser de esquemas incompletos. Apolo traz a ordem clara e a serenidade imutável; Dionísio traz as forças lúdicas do vinho e das frutas, entendidos como uma dádiva, um êxtase, uma embriaguez reveladora, mas nunca uma inconsciência; Pan, guardião da natureza, traz a fertilidade. Diante desses doadores generosos e desinteressados, os titãs são usurpadores, acumuladores de riqueza, guerreiros cruéis e antiéticos que enfrentam os deuses da profusão e da abundância que às vezes conseguem matá-los, lacerando seus corpos, devorando-os.

Pan é a figura central do panteão pessoal de Friedrich-Georg Jünger; Pan é o governante da "Wildnis", da natureza primordial que os titãs desejam arrasar. Friedrich-Georg Jünger se remete a Empédocles, que ensinava que ele forma um "contiuum epistemológico" com a natureza: toda a natureza está no homem e pode ser descoberta através do amor.

Simbolizado por rios e cobras, o princípio da recorrência, do retorno incessante, pelo qual todas as coisas alcançam a "Wildnis" original, é também o caminho para retornar a esse mesmo Wildnis. Friedrich-Georg Jünger canta o tempo cíclico, diferente do tempo linear-unidirecional judaico-cristão, segmentado em momentos únicos, irrepetíveeis, sobre um caminho também único que leva à Redenção. O homem moderno ocidental, alérgico aos esconderijos imponderáveis ​​onde a "Wildnis" se manifesta, optou pelo tempo contínuo e vetorial, tornando assim a sua existência um segmento entre duas eternidades atemporais (o antes do nascer e o depois da morte). Aqui se enfrentam dois tipos humanos: o homem moderno, impregnado com a visão judaico-cristã e linear do tempo, e o homem orgânico, que se reconhece inextricavelmente ligado ao cosmos e aos ritmos cósmicos.

A Perfeição da Técnica

Denúncia do titanismo mecanicista ocidental, este trabalho é a pedreira onde todos os pensadores ecológicos contemporâneos se nutriram para afinar suas críticas. Dividida em duas grandes partes e uma digressão, composta por uma multiplicidade de pequenos capítulos concisos, a obra começa com uma observação fundamental: a literatura utópica, responsável pela introdução do idealismo técnico no campo político, só provocou um desencanto da própria veia utópica. A técnica não resolve nenhum problema existencial do homem, não aumenta o gozo do tempo, não reduz o trabalho: ela tão somente desloca o manual em proveito do "organizativo". A técnica não cria novas riquezas; pelo contrário: condena a classe trabalhadora ao pauperismo físico e moral permanente. O desdobramento desenfreado da técnica é causado por uma falta geral da condição humana que a razão se esforça para sanar. Mas essa falta não desaparece com a invasão da técnica, que não é senão uma camuflagem grosseira, um remendo triste. A máquina é devoradora, aniquiladora da "substância": sua racionalidade é pura ilusão. O economista acredita, a partir de sua apreensão particular da realidade, que a técnica é uma fonte de riquezas, mas não parece observar que sua racionalidade quantitativista não é senão aparência pura e simples, que a técnica, em sua vontade de ser aperfeiçoada até o infinito, não segue senão sua própria lógica, uma lógica que não é econômica.

Uma das características do mundo moderno é o conflito tático entre o economista e o técnico: o último aspira a determinar processos de produção a favor da lucratividade, um fator que é puramente subjetivo. A técnica, quando atinge seu grau mais alto, leva a uma economia disfuncional. Essa oposição entre técnica e economia pode produzir estupor em mais de um crítico da unidimensionalidade contemporânea, acostumada a colocar hipertrofias técnicas e econômicas na mesma caixa de alfaiate. Mas Friedrich-Georg Jünger concebe a economia a partir de sua definição etimológica: como medida e norma dos "oikos", da habitação humana, bem circunscrita no tempo e no espaço. A forma atual adotada pelos "oikos" vem de uma mobilização exagerada dos recursos, assimilável ​​à economia da pilhagem e da rapina (Raubbau), de uma concepção mesquinha do lugar que se ocupa sobre a Terra, sem consideração pelas gerações passadas e futuras.

A idéia central de Friedrich-Georg Jünger sobre a técnica é a de um automatismo dominado por sua própria lógica. A partir do momento em que essa lógica se põe em marcha, ela escapa aos seus criadores. O automatismo da técnica, então, se multiplica em função exponencial: as máquinas, por si só, impõem a criação de outras máquinas, até atingir o automatismo completo, mecanizado e dinâmico, em um tempo segmentado, um tempo que não é senão um tempo morto. Este tempo morto penetra no tecido orgânico do ser humano e sujeita o homem à sua lógica letal particular. O homem é, portanto, despojado do "seu" tempo interno e biológico, mergulhado em uma adaptação ao tempo inorgânico e morto da máquina. A vida é então imersa em um grande automatismo governado pela soberania absoluta da técnica, convertida senhora e dona de seus ciclos e ritmos, de sua percepção de si e do mundo exterior. O automatismo generalizado é "a perfeição da técnica", à qual Friedrich-Georg, um pensador organicista, opõe a "maturação" (die Reife) que só pode ser alcançada por seres naturais, sem coerção ou violência. A principal característica da gigantesca organização titânica da técnica, dominante na era contemporânea, é a dominação exclusiva exercida por determinações e deduções causais, características da mentalidade e da lógica técnica. O Estado, como entidade política, pode adquirir, pelo caminho da técnica, um poder ilimitado. Mas isso não é, para o Estado, senão uma espécie de pacto com o diabo, porque os princípios inerentes à técnica acabarão por remover sua substância orgânica, substituindo-a por puro e rígido automatismo técnico.

Quem diz automatização total diz organização total, no sentido de gestão. O trabalho, na era da multiplicação exponencial de autômatos, é organizado para a perfeição, isto é, para a rentabilidade total e imediata, deixando de lado ou sem considerar a mão-de-obra ou o útil. A técnica só é capaz de avaliar a si mesma, o que implica uma automação a todo custo, o que, por sua vez, implica troca a todo custo, o que leva à normalização a todo custo, cuja conseqüência é a padronização a todo custo. Friedrich-Georg Jünger acrescenta o conceito de "partição" (Stückelung), onde "partes" não são mais "partes", mas "peças" (Stücke), reduzidas a uma função de mero aparato, uma função inorgânica.

Friedrich-Georg Jünger cita Marx para denunciar a alienação desse processo, mas se distancia dele ao ver que este considera o processo técnico como um "fatum" necessário no processo de emancipação da classe proletária. O trabalhador (Arbeiter) é precisamente "trabalhador" porque está conectado, "volens nolens", ao aparato de produção técnica. A condição proletária não depende da modéstia econômica ou do rendimento, mas dessa conexão, independentemente do salário recebido. Esta conexão despersonaliza e faz desaparecer a condição de pessoa. O trabalhador é aquele que perdeu o benefício interno que o ligava à sua atividade, um benefício que evitava sua intercambiabilidade. A alienação não é um problema induzido pela economia, como Marx pensou, mas pela técnica. A progressão geral do automatismo desvaloriza todo o trabalho que possa ser interno e espontâneo no trabalhador, ao mesmo tempo que favorece inevitavelmente o processo de destruição da natureza, o processo de "devoração" (Verzehr) dos substratos (dos recursos oferecidos pela Mãe-Natureza, generosa e esbanjadora "donatrix"). Por causa dessa alienação técnica, o trabalhador é precipitado em um mundo de exploração onde ele não possui proteção. Para beneficiar-se de uma aparência de proteção, ela deve criar organizações - sindicatos - mas com o erro de que essas organizações também estejam conectadas ao aparato técnico. A organização protetora não emancipa, enjaula. O trabalhador se defende contra a alienação e a sua transformação em peça, mas, paradoxalmente, aceita o sistema de automação total. Marx, Engels e os primeiros socialistas perceberam a alienação econômica e política, mas eram cegos para a alienação técnica, incapazes de compreender o poder destrutivo da máquina. A dialética marxista, de fato, se torna um mecanicismo estéril ao serviço de um socialismo maquinista. O socialista permanece na mesma lógica que governa a automação total sob a égide do capitalismo. Mas o pior é que o seu triunfo não terminará (a menos que abandone o marxismo) com a alienação automatista, mas será um dos fatores do movimento de aceleração, simplificação e crescimento técnico. A criação de organizações é a causa da gênese da mobilização total, que transforma tudo em celulares e em todos os lugares em oficinas ou laboratórios cheios de agitação incessante e zumbidos. Toda área social que tende a aceitar essa mobilização total favorece, queira ou não, a repressão: é a porta aberta para campos de concentração, aglomerações, deportações em massa e massacres em massa. É o reinado do gestor impávido, uma figura sinistra que pode aparecer sob mil máscaras. A técnica nunca produz harmonia, a máquina não é uma deusa dispensadora de bondades. Pelo contrário, esteriliza os substratos naturais doados, organiza a pilhagem planejada contra a "Wildnis". A máquina é devoradora e antropófaga, deve ser alimentada sem cessar e, uma vez que acumula mais do que doa, acabará um dia com todas as riquezas da Terra. As enormes forças naturais elementares são desenraizadas pela gigantesca maquinaria e retém os prisioneiros por ela e nela, o que não conduz senão a catástrofes explosivas e à necessidade de uma sobrevivência constante: outra faceta da mobilização total.

As massas se entrelaçam voluntariamente nesta automação total, ao mesmo tempo que anulam as resistências isoladas de indivíduos conscientes. As massas são levadas pelo rápido movimento da automação, a tal ponto que, em caso de quebra ou paralisação momentânea do movimento linear para a automação, elas experimentam uma sensação de vida que acham insuportável.

A guerra, também, a partir de agora, será totalmente mecanizada. Os potenciais de destruição são amplificados ao extremo. A reivindicação de uniformes, o valor mobilizador dos símbolos, a glória, desaparecem na perfeição técnica. A guerra só pode ser suportada por soldados tremendamente endurecidos e tenazes, apenas os homens que possam exterminar a piedade em seus corações poderão suportá-la.

A mobilidade absoluta que inaugura a automação total se volta contra tudo tudo que pode significar duração e estabilidade, especificamente contra a propriedade (Eigentum). Friedrich-Georg Jünger, ao meditar sobre essa afirmação, define a propriedade de uma maneira original e particular. A existência de máquinas depende de uma concepção exclusivamente temporal, a existência da propriedade é devida a uma concepção espacial. A propriedade implica limites, definições, cercas, paredes e paredes, "clausuras" em suma. A eliminação dessas delimitações é uma razão de ser para o coletivismo técnico. A propriedade é sinônimo de um campo de ação limitado, circunscrito, fechado em um espaço específico e preciso. Para progredir de forma vetorial, a automação precisa pular os bloqueios da propriedade, um obstáculo para a instalação de seus onipresentes meios de controle, comunicação e conexão. Uma humanidade privada de todas as formas de propriedade não pode escapar da conexão total. O socialismo, na medida em que nega a propriedade, na medida em que rejeita o mundo das "zonas enclausuradas", facilita precisamente a conexão absoluta, que é sinônimo de manipulação absoluta. Segue-se que o proprietário de máquinas não é proprietário; o capitalismo mecanicista mina a ordem das propriedades, caracterizada por duração e estabilidade, em preferência de um dinamismo omnidisolvente. A independência da pessoa é uma impossibilidade nessa conexão aos fatos e ao modo de pensar próprio do instrumentalismo e do organizacionismo técnicos.

Entre suas reflexões críticas sobre a automatização e a tecnificação totais nos tempos modernos, Friedrich-Georg Jünger apela aos grandes filósofos da tradição europeia. Descartes inaugura um idealismo que estabelece uma separação insuperável entre o corpo e o espírito, eliminando o "sistema de influências psíquicas" que interligava ambos, para eventualmente substituí-lo por uma intervenção divina pontual que faz de Deus um simples demiurgo-relojoeiro. A "res extensa" de Descartes em um conjunto de coisas mortas, explicável como um conjunto de mecanismos em que o homem, instrumento do Deus-relojoeiro, pode intervir completamente impune em todos os momentos. A "res cogitans" é instituído como mestre absoluto dos processos mecânicos que governam o Universo. O homem pode se tornar um deus: um grande relojoeiro que pode manipular todas as coisas ao seu gosto e alvedrio, sem cuidado ou respeito. O cartesianismo dá o sinal de saída da exploração tecnicista ao extremo da Terra.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Leonid Savin - Carl Schmitt, a Rússia e a Quarta Teoria Política

por Leonid Savin



Carl Schmitt serve-se do conceito de Nomos para construir sua teoria acerca das diferentes ordens geopolíticas que se sucedem nas diferentes épocas. Reconhecendo o mérito do gênio alemão, no entanto, não podemos deixar de mencionar o fato de que ele estava naturalmente envolvido pelo paradigma científico europeu e, portanto, interpretava o conceito de Lei nestes termos. Assim, se nos dispusermos a criticar o eurocentrismo e suas raízes helênicas, seremos obrigados a iniciar uma minuciosa análise comparativa e uma revisão da teoria schmittiana. Por exemplo, do ponto de vista do eurasianismo clássico e dos filósofos russos que apelam à Ortodoxia, uma série de posicionamentos de Schmitt podem se revelar controversos. Não é por acaso que o publicista [публицист] russo, Vadim Kojinov, afirmava que tudo aquilo que é inerente ao Ocidente devesse ser definido pelo termo nomocracia (poder da lei), enquanto que as sociedades asiáticas seriam etocracias – do grego ethos (costume). Ao mesmo tempo, ele chamava Bizâncio de Estado ideocrático.

O modelo da ideocracia foi apresentado anteriormente por um dos fundadores do eurasianismo, o geógrafo Piotr Savitsky. Ele acreditava que tal sistema é caracterizado por uma cosmovisão geral e pela disposição das elites governantes de servirem a uma ideia de governo comum, que representa "o bem estar da totalidade dos povos que habitam este especial mundo autárquico."

Seguindo esta definição, a ideocracia pode parecer consoante com o Nomos de Schmitt, uma vez que invoca os grandes espaços. No entanto, seu conteúdo é diferente. Piotr Savitsky propôs uma ideocracia para a Rússia-Eurásia, onde a religião ortodoxa é dominante e onde há uma herança bizantina adaptada, principalmente por meio de um corpo teológico repleto de textos complexos e paradoxais.

Com relação a isso, gostaria de citar, por exemplo, o discurso do metropolita de Kiev Hilarion, "A Palavra da Graça", registrado em meados do século 11. Hilarion levanta a questão da igualdade de direitos dos povos, o que se opõe fortemente às teorias medievais de que um único povo teria sido eleito por Deus. Em outras palavras, é a teoria do Império universal, onde "cada um dos países, cidades e povos honram e glorificam o mestre que lhes ensinou a fé ortodoxa".

Os pontos de vista católicos de Schmitt são bastante conhecidos e, embora, em questões amplas, ele pudesse deixar de abordar o legado do Vaticano e de suas disposições legais correspondentes, é impossível negar uma influência geral da religião em seu pensamento. Assim como no caso da Rússia, apesar da antiguidade do texto citado e do conhecimento superficial da Ortodoxia que a maioria das pessoas tem atualmente, também é impossível negar a influência das estruturas do subconsciente coletivo, ou daquilo que costuma-se chamar de cultura estratégica, na agenda política.

Resumindo sucintamente, é possível estabelecer uma diferenciação. No conceito do Nomos schmittiano está expressa a ideia do território jurídico, enquanto que, no conceito de ideocracia, a filosofia russa evoca o território da bem-venturança.

Agora façamos um questionamento. Com que finalidade será desenvolvida a Quarta Teoria Política? Para justificar as Leis projetadas para uma área geográfica ou para consolidar os pólos da bem-aventurança?

Falando sobre a geopolítica multipolar e da formação de sua escola, devemos lembrar que “pólo” não é apenas um termo técnico, como supõem as atuais escolas de relações internacionais. Heidegger identificava o pólo com o polis. O pólo estabelece a essência em sua existência e aparece como o centro da manifestação desta essência em sua totalidade. Isso acontece na polis enquanto espaço político. A polis é o centro existencial de uma pessoa. Entre a polis e a "existência" reina uma correlação básica. Estamos em condições de entender as bases da Quarta teoria Política e que todas as colocações acima não consistem em um dogma ou em uma doutrina fechada, podendo ser questionadas. No entanto, espero que os pensamentos que foram expressados provoquem novas discussões e nos permitam olhar de uma forma nova para as coisas óbvias e avançar na direção da criação de um novo modelo político.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Marcelo Gullo - O Umbral do Poder

por Marcelo Gullo



O Conceito de Umbral de Poder

Para entender com maior precisão os fatores e elementos que marcam, compõem e modificam a situação dos Estados no âmbito internacional, tornando alguns Estados subordinadores e outros subordinados - uma situação que é relativa e, por natureza, cambiante - é necessário criar uma nova categoria de análise interpretativa. Essa categoria, que denominaremos "umbral de poder", não consiste em uma mera "invenção" - arbitrária ou caprichosa - mas sim um conceito operativo que nos permite expôr, de um modo sintético, uma série de parâmetros que existem e são realizados no curso da realidade histórica das nações e que determina sua situação perante outras nações.

Assim, por "umbral de poder", entenderemos de agora em diante uma quantidade de poder mínimo necessário abaixo do qual cessa a capacidade autonômica de uma unidade política. "Umbral de poder" é, portanto, o mínimo poder de que um Estado necessita para criar o estado de subordinação, em um determinado momento da história. A natureza "variável" desse umbral de poder deriva em seu momento de sua natureza histórica e relativa. Na interpretação do mundo feita a partir dessa postura do direito internacional, todos os Estados formalmente independentes são sujeitos de direito. Na Assembleia Geral das Nações Unidas, tanto a República Dominicana, Jamaica, Madagascar como Estados Unidos ou Chine tem um voto, são merecedores de um voto. Não obstante, dentro da mesma instituição que consagra a igualdade jurídica dos Estados, emerge o Conselho de Segurança para nos recordar que todos os Estados são iguais, mas que há uns que são mais iguais que outros. Diferentes do "mundo imaginado" por alguns professores de direito internacional, na área da realidade internacional - onde o poder é a medida de todas as coisas - só aqueles Estados que alcançam o umbral de poder que é utilizável nesse momento da história são verdadeiros "sujeitos" da política internacional. Os Estados que não alcançam o umbral de poder, ainda que possam alcançar grande prosperidade econômica, tendem a se converter, inevitavelmente, em "objetos" da política internacional, significando que são Estados subordinados.

O umbral de poder necessário para que um Estado não caia no estado de subordinação sempre está relacionado com o poder gerado por outros Estados que compreendem o sistema internacional. Quando uma ou várias unidades políticas incrementam consideravelmente seu poder, provocam mudanças substanciais no umbral de poder de que outras unidades necessitam para não caírem no estado de subordinação. Nesse sentido, quando a formação dos grandes Estados nacionais se produziu, Espanha em 1492, França em 1453 e Inglaterra em 1558, estes elevaram o umbral de poder, e as unidades políticas que não foram capazes de se converter em Estados nacionais, como as cidades-Estado da península italiana, progressivamente se converteram em Estados subordinados. Ao mesmo tempo, quando a Grã-Bretanha se converteu no Estado-Nação que produziu plenamente a revolução industrial - inaugurando a categoria do Estado-Nação industrial - se incrementou o umbral de poder de que outros Estados necessitavam para manter sua capacidade autônoma, isto é, para não caírem sob a subordinação britânica. As quedas de Espanha e Portugal tiveram sua origem fundamentalmente na incapacidade dessas duas unidades primeiro, em se converterem em produtores de manufaturas, e depois, em completar suas próprias revoluções industriais [1].

A deterioração progressiva em termos de poder fez com que Portugal se convertesse em um Estado subordinado ao poder inglês e a Espanha se convertesse em um Estado subordinado, primeiro ao poder francês e mais tarde ao britânico. Portugal e Espanha lentamente deixaram de ser Estados centrais - "membros de pleno direito" da estrutura hegemônica de poder - para serem simples Estados periféricos, excluídos da estrutura hegemônica de poder. Deixaram de ser Estados subordinadores para serem Estados subordinados. A exclusão se tornou graficamente óbvia inclusive na expressão popular usada na França e Inglaterra, de que "a Europa termina nos Pirineus". Assim, o resto da Europa, espanhois e portugueses, eram "africanos".

Os Estados alemães - Prússia,  Bavária, Wurttemberg, Baden, Saxônia e Hannover, para mencionar alguns - só foram capazes de superar seu Estado de subordinação quando Otto von Bismarck realizou a unidade da Alemanha que vinha sendo preparada pelo Zollverein, a união comercial entre os micro-Estados alemães. Isso significa que a Alemanha só foi capaz de superar seu Estado de subordinação quando, graças à unidade política e à industrialização, foi capaz de alcançar o "novo" umbral de poder, este umbral que a Grã-Bretanha havia estabelecido com a industrialização. A península itálica só foi capaz de superar seu estado de subordinação quando o reino de Piemonte e seus industriais geraram unidade e aprofundaram o processo de industrialização para ampliar seus mercados, um fato que permite ao novo Estado alcançar o umbral de poder que a Grã-Bretanha havia estabelecido. Na Ásia, só o Japão com a Revolução Meiji, é capaz de alcançar o umbral de poder e se converter na única nação asiática não sujeita à subordinação europeia.

No continente americano, começando com a "insubordinação fundadora" de 1775, à parte da estrutura hegemônica de poder, um Estado de dimensões pouco usuais começou a ser construído. Quando em 2 de fevereiro de 1848, pelo Tratado de Guadalupe-Hidalgo, o México se viu forçado a abandonar a ampla extensão de território entre Texas e Califórnia, os Estados Unidos se converteram em um Estado continental. Os territórios tomados do México junto com os territórios que os Estados Unidos havia ganho no Oregon e no sudoeste, tomou uma superfície de uns sete milhões e meio quilômetros quadrados, o que significava um território aproximadamente igual à extensão da Europa inteira. Mais tarde, com a vitória do norte industrial sobre o sul escravista e agrário, um novo e gigante Estado-Nação industrial avançou - o que gerou uma nova categoria de Estado: O Estado-Nação Industrial Continental - que progressivamente eleva o umbral de poder uma vez mais. Portanto, a partir da finalização plenamente industrial dos Estados Unidos em diante, se torna claro para outras unidades políticas do sistema internacional que só seria possível manter sua capacidade autônoma plena se fossem capazes de se tornar um Estado nacional industrial similar em superfício e população aos Estados Unidos, quer dizer, em superfície continental. Na Europa isso foi percebido prontamente por Alexis de Tocqueville, Bruno Bauer e Friedrich Ratzel. Na América Latina também o sentiram José Enrique Rodo, Manuel Ugarte, Rufino Blanco Fombona, Francisco García Calderón e José Vasconcelos.

A Construção do Poder Nacional e do Impulso Estatal

Para os Estados periféricos, sujeitos no sistema internacional a uma dupla subordinação, o objetivo estratégico fundamental não pode ser qualquer coisa além de alcançar o umbral de poder. Naqueles Estados, a construção do poder nacional requer um grande impulso do Estado para pôr em ação o que a força é. O impulso conduzido pelo Estado permite a mobilização de recursos potenciais que transforma a força em poder, a força em ação. [2] Em realidade, através do estudo profundo da história da política internacional se vê derivado que na origem do poder nacional dos principais Estados que conformam o sistema internacional sempre está presente um impulso conduzido pelo Estado. Isso é assim porque o poder nacional não emerge espontaneamente do simples desenvolvimento dos recursos nacionais. É mais, nos Estados periféricos, a necessidade do impulso estatal é visto para que seja incrementado porque os Estados que tem mais poder tendem a inibir a exploração dos potenciais subordinadores para que a relação de forças não seja alterada em seu detrimento. Recordemos com Pinheiro Guimarães que "as estruturas hegemônicas de poder tendem, por natureza, a alimentar sua própria perpetuação" (Pinheiro Guimarães, 2005:25).

Denominamos "impulso estatal" a todas as políticas realizadas por um Estado para criar ou incrementar os elementos que compõem o poder do Estado. De uma forma geral, podemos afirmar que dentro do conceito de impulso estatal caem todas as ações levadas a cabo por uma unidade política tendente a fortalecer, incitar, induzir ou estimular o desenvolvimento ou o fortalecimento de qualquer dos elementos que compõem o poder nacional. De um modo restritivo também podemos usar o conceito para nos referirmos a todas as ações levadas a cabo por um Estado periférico tendente a mover o início de forças necessárias para superar o estado de subordinação. O exemplo paradigmático dos que denominamos "impulso estatal" foi a ordenação de navegação inglesa de 1651 e suas sucessivas reformas [3].

Os conceitos de umbral de poder e impulso estatal encabeçam a análise dos elementos que compõem o poder estatal. O poder do Estado está composto por um grupo de elementos, tangíveis e intangíveis, que estão interligados. Este grupo de elementos está permanentemente afetado por mudanças tecnológicas e culturais. Para construir o poder é necessário se perguntar constantemente quais são os fatores que dão ao Estado o poder mínimo necessário para manter a autonomia, com a condição de que estes fatores sejam, como já afirmamos, permanentemente transformados pela evolução da tecnologia. Um dos aspectos que preserva a maior validade do pensamento da escola realista pode ser o reflexo de Hans Morgenthau nos elementos que compõem o poder nacional. Para Morgenthau, existem fatores "relativamente estáveis" que compõem o poder estatal, tais como o elemento geográfico e os recursos naturais, e outros que se podem estimar como "dinâmicos", tais como população, forças armadas ou capacidade tecnológica.

Podemos dizer que Morgenthau concebe o poder deu ma nação como uma pirâmide egípcia composta de 10 níveis em que o fator geográfico se encontra na base. No segundo nível a possibilidade de garantir a própria comida. No terceiro, os materiais raros que se tem. No quarto, a produção industrial. No quinto, a infraestrutura militar. No sexto, o tamanho e qualidade da população estatal. Os níveis sétimo e oitavo estão compostos pelo caráter nacional e moral respectivamente. O nono, da diplomacia estatal - que Morgenthau entende em um sentido amplo - e, quando a pirâmide não está truncada, o cume está habitado pela personalidade de um grande homem, um homem de Estado, como o Cardeal Richelieu, George Washington ou Charles de Gaulle. [4]

Visto em perspectiva e à distância, a pirâmide de Morgenthau parece mais sólida, forte e impenetrável quanto mais importantes são os fatores materiais, os elementos tangíveis de coisas tais como o tamanho da população. Não obstante, uma vez que o viajante se aproxima da fortaleza e penetra na estrutura da pirâmide, é apreciável que sua consistência depende menos dos fatores tangíveis que dos intangíveis, tal como a moral e o caráter nacional. Refletindo sobre os fatores tangíveis e intangíveis que compreendem o poder nacional, Friedrich List afirmou que: "É difícil dizer se as forças materiais influenciam as espirituais mais que o contrário, e de modo análogo em relação aos indivíduos e forças sociais. Mas o que é certo é que alguns tanto quanto outros são influenciados de forma recíproca e poderosa, de tal modo que o crescimento de um provoca o crescimento dos outros e a decadência de um está sempre seguida pela dos outros" (List, 1955:59). O próprio List, quando analisa o poder nacional da Grã-Bretanha, pergunta a si mesmo:

"Quem pode dizer que parte desses resultados favoráveis corresponde à constituição e ao espírito nacional inglês, que outros a sua situação geográfica e circunstâncias prévias, e quais quiçá à oportunidade, à sorte ou à fortuna?" (List, 1955: 60).

As Correntes do Poder

Os elementos do poder não são fatores estáticos, situados em um tipo de mundo de ideias platônicas, mas sim elementos dinâmicos; a chuva da história pode, como o caso da água aplicada ao cimento, dissolvê-lo e solidificá-lo, mas acima de tudo transformá-lo. Assim Morgenthau adverte quando afirma:

"As mudanças diárias, tão pequenas quanto inapreciáveis como se pode ver no princípio, influenciam os fatores que afetam a formação do poder nacional, acrescentando um pouco de força de um lado e erodindo um pouco de poder do outro... Todos os fatores que mencionamos, com a exceção dos geográficos, se encontram em constante movimento, influenciando uns aos outros e recebendo ao mesmo tempo a influência imprevisível da natureza e das pessoas. Juntos então compõem o atual poder nacional, fluindo lentamente e às vezes alcançando um grande caudal por séculos, como no caso da Inglaterra, ou piorando de repente e caindo abruptamente desde sua crista, como no caso da Alemanha, ou movendo-se lentamente e enfrentando as incertezas do futuro, como no caso dos EUA".

"Desenhar o curso dessa corrente e dos diferentes afluentes que o compõem e prever as mudanças de direção e velocidade, essa é a tarefa ideal do observador de política internacional". (Morgenthau, 198:193)

Agora então, como desenhar o curso do poder mundial atual? Como se pode prever as mudanças na direção e velocidade? Há um método que exista e que nos permitiria conhecer onde se encabeça o poder atual? Como se pode detectar, sob a superfície das atuais relações de poder, os desenvolvimentos germinais do futuro? É peculiar que, para responder a essas questões, um pensador tal como Morgenthau confiou mais na "intuição" e na "imaginação criativa" do que na razão pura. Para Morgenthau, a avaliação de fatores de poder no presente e no futuro é sempre uma tarefa ideal que quando é completada com êxito, constrói "a realização intelectual suprema" do analista político internacional. Como uma tarefa ideal, Morgenthau adverte que nunca será perfeito, precisamente porque a natureza e o homem são imperfeitos, elementos imprevisíveis, fatores que não podem ser conhecidos com exatidão e que tornam os cálculos de avaliação sempre imprecisos. [5] Não obstante, ainda que essa tarefa ideal seja um "impossível" factual, ao mesmo tempo é possível se aproximar a ela. Morgenthau encontra o início da solução para resolver o problema da avaliação relativa do poder das nações no presente e no futuro mediante a utilização da "imaginação criativa", consistente na combinação de conhecimento do que está com os "bons instintos", com intuições do que "poderia" ser. A imaginação criativa pode nos proporcionar um "mapa" que contém "tendências prováveis" futuras. Através dessa imaginação podemos "detectar, sob as atuais relações de poder, os gérmens do desenvolvimento rumo ao futuro" (Morgenthau, 1986: 199). Sem embargo, essa imaginação criativa, ele adverte que deve ser imune ao "fascínio que os fatores preponderantes de poder oferecem tão facilmente" [6]. Um erro no qual as elites políticas e intelectuais da América do Sul caem constantemente [7].

Desenvolvimento Econômico, Riqueza Nacional e Poder Nacional

Normalmente, as expressões "desenvolvimento econômico" ou mesmo "riqueza nacional" tendem a se confundir com "poder nacional". A segunda requer desenvolvimento econômico, mas o desenvolvimento econômico não garante, em si mesmo, o poder nacional. Para manter os Estados periféricos em uma situação de subordinação permanente na que estão - e a elite subordinada ideologicamente repete sem críticas nos Estados periféricos - que o desenvolvimento da riqueza nacional é mais importante que a construção do poder nacional. Essa é, realmente, uma longa discussão. Em relação a isso, List afirmou inclusive em 1838, refletindo sobre o destino da Alemanha que era nessa época uma região periférica, subordinada e subdesenvolvida:

"O poder é mais importante que a riqueza; ainda assim, por que é mais importante? Porque o poder de uma nação é uma força capaz de iluminar novos recursos produtivos, porque as forças produtivas são similares a uma árvore cujos ramos são como a riqueza e porque a árvore que produz frutas sempre tem mais valor que a fruta mesma. O poder é mais importante que a riqueza, porque uma nação através do poder não só adquire novos recursos produtivos como também reafirma sua posse de riqueza nacional alcançada no passado, e porque a oposição do poder, que significa a indefensibilidade, faz com que coloquemos nas mãos daqueles que são mais poderosos do que nós, não só a riqueza como também nossa força produtiva, nossa cultura, nossa liberdade e até nossa independência enquanto nação, como nos ensina claramente a história das repúblicas italianas, da Liga Hanseática, da Bélgica, da Holanda, de Portugal e da Espanha" (List, 1955: 56)

Notas

[1] - Enquanto a Inglaterra desempenhou o papel principal no processo de industrialização desde a época de Elizabeth (1558-1603) - que deliberou em uma superioridade econômica e tecnológica que colocou as peças do "xadrez político" em suas mãos em uma escala planetária - a Espanha foi incapaz de se industrializar. A miragem do ouro americano entorpeceu a economia espanhola. Tornou-se mais fácil comprar bens no exterior do que fabricá-los no país. A Espanha negligenciou, do império Inca em diante, a produção de manufaturas, a verdadeira fonte de riqueza e poder. Esta é a situação que explica que o ouro americano teria atravessado a Espanha apenas porque, de fato, rae direcionado aos países em que esse país comprou seus produtos manufaturados. Infelizmente para a Espanha, o influxo de metais preciosos começou uma verdadeira espiral inflacionária que, uma vez que era incapaz de conter, causou uma grave crise que atingiu a população inteira, o que na época levou à reação doa fuga em massa para o Novo Mundo, um êxodo que empobreceu ainda mais o reino ibérico. Assim, enfraqueceu-se na Espanha, um dos fatores que dão poder a qualquer Estado: a população. A emigração em massa despojou a Espanha, que entre 1600 e 1750 perdeu cerca de 4 milhões de habitantes. Em um período de um século e meio, sua população caiu de 12 para 8 milhões de habitantes. Paradoxalmente, as riquezas da América arruinaram a Espanha, que construiu sua própria vulnerabilidade estratégica. O despovoamento e a falta de uma política econômica adequada, não ter sido capaz de subir no trem da revolução industrial, e foi deixado para trás economicamente e tecnologicamente, um atraso que mal começou a avançar timidamente durante séculos até depois da Segunda Guerra Mundial. Para mais informações, veja Barbara Stein e Stanley Stein (1970, 2002).

[2] - Em um sentido físico, Raymond Aron (1984) argumenta que um homem forte é aquele que, graças ao seu peso e constituição física, possui os meios para resistir a uma prova de força, uma agressão ou superação de outros. No entanto, ele avisa sagazmente que a força física não é nada sem a esperteza, sem vontade, sem inteligência. Na área das relações internacionais, é necessário distinguir entre a força no poder e a força através do poder na ação; a mobilização é determinada pela capacidade e pela vontade, o que significa que, pela capacidade e vontade da população (especialmente na elite governante) de se mover à ação do que ainda é força.

[3] - Em agosto de 1651, o Parlamento inglês aprovou a portaria de navegação sob a qual as mercadoras só poderiam ser importados para a Inglaterra em embarcações inglesas sob comando inglês e em que três quartos da tripulação fossem marinheiros ingleses. A portaria também estabeleceu que, na Inglaterra, só era permitido importar diretamente do seu local de origem. Através desta lei, a indústria naval inglesa recebeu um enorme impulso estatal. Os comerciantes ingleses, obrigados a tomar provisões para si, deram um impulso à construção naval tão importante que a marinha britânica logo se tornou o principal porto do mundo.

[4] - "Que poder veio do poder da França", pergunta Morgenthau (1986: 179), "sem a habilidade de Richelieu, Mazarino e Talleyrand? O que teria sido do poder alemão sem Bismarck? Do poder italiano sem Cayour? Quanto deve o poder da jovem República dos Estados Unidos a Franklin, a Jefferson, a Madison, a Jay, a Adams, a seus embaixadores e secretários de Estado?".

[5] - Morgenthau (1986: 194) afirma: "Como toda tarefa ideal, é algo impossível de fazer. Mesmo que os líderes da política externa de uma nação possuíssem sabedoria superior e julgamento infalível e pudessem chegar à fonte de informação mais completa e confiável, sempre haverá algum fator desconhecido que tornará os cálculos imprecisos. Eles nunca poderiam prevenir desastres naturais [...] produzidos por pessoas [...] ou invenções e descobertas, o surgimento e desaparecimento de líderes intelectuais, militares e políticos, os pensamentos e ações de tais líderes, para não mencionar os imponderáveis da moralidade nacional. Para resumir, mesmo as pessoas mais sábias e mais informadas devem enfrentar as contingências da história e da natureza".

[6] - "O que o observador da política internacional precisa para minimizar os erros inevitáveis em um dos cálculos do poder é a mente criativa imune ao fascínio que é transmitida pelos fatores preponderantes do momento, capaz de deixar de lado as superstições, uma imaginação aberta às possibilidades de mudança oferecidas pela dinâmica da história. Uma imaginação criativa desse tipo seria capaz dessa conquista suprema, que consiste em detectar o germe dos desenvolvimentos futuros abaixo da superfície das relações de poder atuais, combinando o conhecimento do que é com o sentimento interior do que pode ser possível e condensar todos esses fatos, sintomas e problemas em um mapa de prováveis tendências futuras que não têm muita variação do que realmente ocorrerá"(Morgenthau 1986: 199).

[7] - Excusado das classes intelectuais e políticas da América do Sul, é necessário reconhecer que, apesar de todas as especulações teóricas que podemos fazer sobre o poder, muitos exemplos históricos nos permitem afirmar que, quando passamos da teoria à realidade, é sempre difícil explicar o poder, mas ainda mais quando se atravessa um estágio de transição, como o que atravessou o sistema internacional após o colapso do Muro de Berlim e a "evaporação" da antiga União Soviética, ou quando experimentamos uma revolução tecnológica de dimensões históricas. Naqueles momentos de perdas, como os modernizadores ou os revolucionários não conseguem entender a verdadeira revolução que está sendo produzida e como ela influencia e modifica todos os fatores de poder. Entre esses revolucionários, não podemos enxergar Nikita Khrushchev e os marxistas soviéticos - quando eles propuseram derrotar os Estados Unidos pela maior produção de aço, semeando mais e mais chaminés em toda a União Soviética quando a corrida da industrialização já havia acabado porque o mundo já havia passado ao pós-industrialismo - mas no exemplo paradigmático dos revolucionários franceses que acreditavam que o poder nacional da Inglaterra não era construído em bases sólidas, como o da França, porque não estava baseado na agricultura, uma atividade que os franceses acreditavam que contribuía não só para a auto-provisão de alimentos, mas também para um maior caráter nacional. De acordo com a curiosa interpretação dos revolucionários franceses, a atividade industrial deu origem a todas as corrupções e fraquezas imagináveis, pulverizando o caráter nacional das pessoas que a adotaram: "Entre os muitos equívocos dos revolucionários franceses, nenhum foi mais insidioso que a ideia de que a riqueza e o poder ingleses estavam apoiados em uma base artificial. Essa crença errônea na fraqueza da Inglaterra veio da doutrina que os economistas e fisiocratas ensinaram no final do século 18, assinalando que o comércio não era um produtor de riqueza por si só, pois a única coisa que fazia era promover distribuição dos produtos da terra, mas sim que a agricultura era a única fonte de riqueza e prosperidade. Desse modo, intensificaram a agricultura ao custo do comércio e dos bens manufaturados, e o curso da revolução, que supervisionava assuntos mais agrários, seguindo a mesma direção. Robespierre e Saint Just nunca se cansaram de contrastar as virtudes de uma vida pastoral simples com as corrupções e fraquezas causadas pelo comércio internacional; e quando, no começo de 1793, o jacobinismo zeloso envolveu a jovem republica contra a Inglaterra, os porta-vozes da convenção profetizaram com confiança a ruína da Cartago moderna"(McLuhan 1985: 67).

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