quarta-feira, 20 de julho de 2016

Ramiro Ledesma Ramos - O Fascismo Italiano: A Segunda Mensagem das Juventudes Subversivas

por Ramiro Ledesma Ramos

(Trecho de Discurso às Juventudes da Espanha)



1 - Fascismo e Marxismo, frente a frente

O triunfo do fascismo em 1922, e principalmente sua vitória definitiva contra todas as oposições em 1925, que é realmente o fato que o aloja e consolida, equivale à primeira réplica que diz NÃO à revolução bolchevique mundial. O fenômeno tem um interesse culminante para perceber o leito exato por onde correm as novas formas europeias. Pois já hoje, aos treze anos do regime fascista, é ingênuo, e já falso, pensar que Mussolini congregou ao redor dos fasces litórios às forças passadistas e regressivas da Itália para combater e deter a ofensiva bolchevique com a instauração de um Poder reacionário. Essa interpretação do fascismo é absolutamente errônea, e se por efeito da batalha política, da agitação e da estratégia revolucionária, a fazem sua os partidos e as organizações marxistas, é seguro que nem o mais fanático de seus dirigentes o estima e julga desse modo.

Mussolini organizou e dirigiu o fascismo com apoio em uma mística revolucionária. E o que de verdade faz dele um criador e um inventor, quer dizer, um caudilho moderno, é precisamenter ter intuído ou descoberto, antes de qualquer outro, a presença nessa época de uma nova força motriz com possibilidades revolucionárias, ou o que é o mesmo, a presença de um novo palanque, de signo e estímulo diferentes aos tradicionalmente aceitos como tais, mas capaz também de conduzir à conquista revolucionária do Estado.

O fascismo é, de fato, a primeira manifestação clara de que as consignas bolcheviques, não só não esgotavam ou polarizavam em sua defesa todas as energias transmutadoras da época, senão, ao contrário, deixavam de fora uma zona poderosíssima, e também subversiva e revolucionária, e tão extensa, que seria chamada a usurpar o próprio bolchevismo, em cruenta luta de rivalidade, a missão de desarticular o sistema caduco das formas demoliberais. E criar uma nova ordem.

Foi na Itália, pois, onde ficou patenteada essa realidade, onde se evidenciou o erro em que se debatiam os propósitos universais do bolchevismo. E é curioso que alguns escritores socialistas, não bolcheviques mas sim revolucionários, como o espanhol Ramos Oliveira, imputem a razão da vitória do Mussolini sobre o marxismo na Itália "a que o leninismo se havia inoculado na maioria do socialismo italiano". Quiçá não se dão conta esses escritores do quão profunda é sua observação, mas não no sentido da mera influência tática, mas sim no que concerne a dimensão histórica do signo mundial bolchevique.

2 - O Fascismo, Fenômeno Revolucionário

Que o fenômeno fascista pertence à ordem dos acontecimentos revolucionários, nutridos com um estrito espírito da época, é para nós um fato incontestável. O que pediremos nestes tempos a um fato político destacado para poder situá-lo na órbita revolucionária, na linha subversiva de serviço à missão criadora e libertadora que corresponde a nossa época? Simplesmente o que segue:

I) Que contribua para decompor as instituições políticas e econômicas que constituem o embasamento do regime liberal-burguês, e isso, claro, sem facilitar a menor vitória às forças propriamente feudais;

II) Que ao arrancar da burguesia o papel de monopolizadora de todo o timão dirigente, edifique um novo Estado nacional, no qual os trabalhadores, a classe operária, colabore na missão histórica da Pátria, no destino assignado a "todo o povo";

III) Que tenda a subverter o atual estancamento das classes, postulando um regime social que dê base para o equilíbrio econômico, não no sistema dos lucros privados, mas no interesse coletivo, comum e geral de todo o povo.

IV) Que seu triunfo se deva realmente ao esforço das gerações recém-surgidas, mantendo uma ordem de coação armada como garantia da revolução.

É evidente que o fascismo italiano admite esse quadrilátero, e que os fascistas creem de verdade que esse é o sentido histórico da marcha sobre Roma. Agora, que a subversão haja sido quiçá excessivamente modesta, que o grau de serviço concreto à ascensão social e política dos trabalhadores resulte ainda pequeno, que o influxo dos velhos poderes anti-históricos, representativos da grande burguesia e do espírito reacionário, seja ainda excessivo, etc., tudo isso, apesar de aceito, não priva à revolução fascista do caráter que atribuímos a ela, e admite explicações bem variadas.  Uma delas, a de que todo regime necessita de uma base de sustentação o mais ampla possível, e se o fascismo, por chegar à vitória após uma luta com a classe operária de tendência marxista, se viu privada da devida adesão e colaboração de grandes núcleos proletários, teve que se apoiar mais do que o conveniente em uma constelação social distinta.

Mussolini retificou, com o fascismo, a linha que os bolcheviques se gabavam de apresentar como a única com direito a monopolizar a subversão moderna. Para isso, o primeiro foi considerá-la como exorbitante e monstruosa em seu duplo signo primordial e característico: a ditadura proletária e a destruição do "nacional", quer dizer, a aniquilação política absoluta de tudo que não fosse "proletário", e a aniquilação histórica, igualmente absoluta, da "Pátria".

O fascismo estava conforme, sem dúvida, em reconhecer a razão histórica do proletariado, a justiça de sua ascensão a ser de modo direto uma das forças sustentadoras do novo Estado. Não aceitava seu caráter único, sua ditadura de classe contra toda a nação, e menos ainda que isso aceitava o signo internacional, anti-italiano, da revolução bolchevique.

Mussolini demonstrou com seus "fascios" que não podia ser exata a imputação que os "vermelhos" faziam a "toda a burguesia", quer dizer, a todo "o não-proletário", de ser resíduo podre e moribundo. Para defesa da Itália, para triturar uma revolução que ele acreditava, naquelas duas ordens, monstruosa e injusta, mobilizou massas de combatentes, extraídos de todos os lugares, em boa parte procedentes dos setores assinalados pelos marxistas como podres e moribundos. Sua atuação, heroica em muitos casos, a serviço, não da ordem vigente e da sensatez conservadora, mas de uma possível revolução "italiana", se impôs como mais vigorosa, mais profunda e popular que a atuação paralela desenvolvida pelo bolchevismo.

O fascismo revelou a existência de juventudes, de uma massa ativa, extraída em geral das classes médias, que se montava por cima da luta de classes, contra o egoísmo e o passadismo da burguesia e contra o afrouxamento anti-nacional e exclusivista dos "proletários". E fez dessas forças um palanque subversivo, desencadeado contra o que realmente havia de podre e moribundo na burguesia, que era seu Estado mofado, sua democracia parlamentar, sua estupidez exploradora dos despossuídos com a artimanha da liberdade, seu sistema econômico capitalista e seu viver mesmo alheio e estranho ao serviço patriótico e nacional da Itália. Agora bem, esse palanque não podia ser uma revolução antiproletária, anti-operária. Isso o viu e tinha que ver Mussolini, antigo marxista, homem absolutamente nada reacionário, para quem a primeira verdade social e política da época, verdade de signo terrível para quem a ignore, consistia na ascensão dos trabalhadores, em sua elevação a coluna fundamental do novo Estado.

3 - Os Interesses Econômicos das Grandes Massas

Julgue-se o difícil e delicado de uma revolução como a fascista de Mussolini, que tendo sido feita em grande parte contra a consciência proletária, mantida fiel ao marxismo, tinha, não obstante, que realizar a missão histórica de elevar a classe proletária ao mesmo nível de influência que os atuais grupos dominantes da burguesia.

Por sua própria origem, por esse caráter seu de ter tido que se bater contra uma das forças motrizes evidentes da subversão moderna a que assistimos, o fascismo se ressente e até se retarda no cumprimento daquela missão histórica. Ele derrubou, de fato, as instituições políticas da burguesia, e dotou os proletários de uma nova moral e de otimismo político, proveniente de terem desaparecido as antigas oligarquias; mas, terá ele derrubado ou pelo menos enfraquecido pelo menos as grandes fortalezas do capital financeiro, da alta burguesia industrial e dos terratenentes, em benefíci oda economia geral de todo o povo? E ainda, ele vai realmente tornando possível a eliminação do sistema capitalista e baseando cada dia mais o regime nos interesses econômicos das grandes massas? Não parece suficiente que os operários se formem na milícia fascista e participem na mesma medida que outras classes no sustento político do Estado, se ao mesmo tempo o Estado fascista não adota a crença de que é, precisamente, elevando o nível econômico dos trabalhadores como se fortalece de fato a verdadeira potência do Estado italiano.

Facilmente se adivinham os perigos de que resulte futuramente falida neste aspecto a revolução. Claro que isso não tiraria do fascismo o caráter que já tem, mas evidenciaria seu fracasso histórico, seu caráter de coisa inacabada, de tentativa, de começo. Sua marcha sobre Roma recordaria então mais à marcha sobre Roma de Sila do que a de Julio César, e sua etapa de mando mais a um período conservador e regressista que a um revolucionário e fértil.

4 - O Fortalecimento do Estado por meio da Incorporação dos Trabalhadores

Neste momento, a eficácia fascista, quanto a ter conquistado a colaboração proletária, parece superior à da democracia burguesa. Não se pode por em dúvida que os operários italianos estão hoje mais identificados com o Estado fascista do que os operários franceses, por exemplo, com o Estado democrático-parlamentar da França. Este fato pode proceder de uma situação sentimental, o que significaria seu caráter transitório e movediço, mais que de uma realidade social-econômica, o que lhe proporcionaria um valor mais firme, mas é um fato existente e formidavelmente representativo.

O Estado fascista ve diante de si a possibilidade de ampliar sua força história, fazendo com que a incorporação proletária represente para ele a própria eficácia que a incorporação da burguesia, com a revolução francesa, supôs para o Estado napoleônico. É evidente que a surpresa da Europa, ante a pujança imperial de Napoleão, procedia de que a Europa desconhecia, ao que parece, que a primeira consequência do fato revolucionário de 1789 foi vigorizar consideravelmente o Estado com a ascensão política da burguesia. Isso, hoje vemos com clareza solar. Antes de 1789, o Estado não tinha outro poder que o emanado dessas três forças: o rei, a nobreza e a Igreja. A revolução francesa pôs o Estado sobre os quadris e costas da burguesia, grande e pequena, e as consequências foram aprendidas pela Europa através das jornadas imperiais de Napoleão. Não se esqueça que o espírito bonapartista era o próprio espírito jacobino tornado hierarquia e disciplina, quer dizer, milícia.

Pois bem, parece que não escapa à perspicácia e à agudeza histórica e política de Mussolini que sozinho, na medida em que consiga realizar com os trabalhadores um fenômeno similar, conquistará para o Estado fascista verdadeira transcendência, e para a Itália verdadeiro império.

As dificuldades do fascismo italiano para a plena realização de semelhante perspectiva histórica são enormes. No que escrevemos estão insinuadas as de linhagem mais perigosa. Quiçá o fascismo, agoniado com o problema de se assegurar ferrenhamente desde o princípio, está ligado excessivamente a velhos valores, cuja vigência perturbaria quase por inteiro a ambição histórica a que temos nos referido.

5 - O Fascismo e as Instituições Demoburguesas

Mussolini derrubou com grande sentido revolucionário as instituições políticas da burguesia. Desfez o parlamento, destruiu as oligarquias partidárias e acabou com o mito da liberdade política, coisas todas elas que não vacilamos um só minuto em assinalar como um serviço à subversão moderna. Não há, em efeito, nada mais insólito e deprimente que ver hoje as massas concedendo o menor crédito a esses redutos políticos da democracia parlamentar, cuja vigência, ademais de desmoralizar e corromper os partidos operários, assegurará sempre a vitória à burguesia, dona do dinheiro, e, portanto, monopolizadora da grande propaganda, da imprensa e de todos os estímulos do triunfo eleitoral.

Efetivamente, a revolução fascista tem em seu haver o desmoronamento real e teórico das formas políticas demoburguesas. E ainda que isso seja avaliado, desde o setor marxista mundial, como um fortalecimento das posições da burguesia, já que fortalece sua segurança com instituições mais firmes que as parlamentares, as consequências históricas que em nossa opinião devem se deduzir daquele fato são precisamento de orientação contrária. Pois deslocada a burguesia das formas políticas e das instituições que lhe são próprias, aquelas que são uma típica criação sua e a cuja vigência deve de fato seu desenvolvimento econômico e sua força social, é notório que resulta debilitada enquanto poder histórico e político.

Arrancar da burguesia sua democracia parlamentar, seu culto ao livre jogo econômico e político das energias individualistas, e isso de um modo definitivo, sistemático e doutrinário também, quer dizer, não ao estilo de ditaduras reacionárias transitórias, dessas que deixam resquícios para o futuro e as quais desde logo o bom burguês aplaude, como aqui na Espanha aconteceu com o general Primo de Rivera, arrancar-lhe tudo isso do jeito que o fascismo fez, com certo sabor catilinário e adoração pública aos mitos de império, ação direta e coação absoluta, é, não o duvide ninguém, iniciar a decomposição radical da burguesia enquanto classe dominante. Em resumo, que o espírito burguês, e disso trataremos em outro capítulo posterior, não respira livremente na atmosfera do fascismo, não está nele nem se move em seu seio como o peixe na água ou o leão na selva. Não está em seu elemento próprio. Isso nos conduz a extrair uma consequência: o fascismo não é uma criação da burguesia, não é um produto de sua mentalidade, nem de sua cultura, nem de suas formas de vida.

Quiçá acontece com o fascismo o que já apontávamos em relação ao regime soviético. Que são fenômenos típicos da subversão que começa a se desenvolver em nossa época, e fenômenos com características de índole nada definitivo ou concluído, mas como as primeiras erupções, anunciadoras de algo ainda sem previsão. Por isso, abundam neles contradições que não se apresentam nunca em sistemas definitivos, acabados e perfeitos. Assim resulta que o marxismo, doutrina internacional e estranha em absoluto à ideia de Pátria, salva a Rússia "nacionalmente", fenômeno pelo menos tão estranho quanto o de nascer uma amendoeira onde se houvesse posto uma semente de laranjeira. E que o fascismo italiano, vitorioso contra os supostos "proletários", e em muitos aspectos, não sendo o menor o de seu financiamento, elevado pela grande burguesia, tenha que ser quem busque o fortalecimento de seu Estado na adesão e colaboração dos trabalhadores.

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