quarta-feira, 27 de abril de 2016

Jafe Arnoldski - Tragédia & Farsa: Reconsiderando a Análise Superestrutural Marxiana de Movimentos Sociais Heterodoxos (Parte II)

por Jafe Arnoldski



Uma Reconsideração Heurística do Marxismo e da Modernidade na Eurásia


Na introdução a esta série, nós apresentamos e fornecemos algumas afirmações cursórias sobre o tópico geral de nossa investigação. Nós chamamos atenção para a aplicação problemática da tese de Marx sobre a "poesia do passado" (como apresentada no Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte) e a confusão dominante sobre a relação entre a superestrutura (ideologia, a "poesia") e a base (forças classistas objetivas) que se manifesta quando marxistas analisam e tentam identificar a trajetória de movimentos sociopolíticos, particularmente dos que são sincréticos na era moderna e pós-moderna, que geralmente desafiam estereótipos estéticos normativos, apresentando "pistas" superestruturais aparentemente "heterodoxas" e talvez "contraditórias", estas por causa do precedente falho disposto por Marx em contradição a seu próprio esquema, confunde marxistas em suas análises e não raro os leva a categorizações errôneas de movimentos ou Estados "progressistas" como "reacionários".


Nesta fase, nós nos aprofundaremos nos sustentáculos teóricos do marxismo enquanto ideologia da modernidade, com o objetivo de descobrir os paradoxos que subjazem o precedente estabelecido por Marx no Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte. Nós vamos prosseguir, então, apresentando os contornos gerais junto aos quais nosso estudo se desdobrará conforme examinamos o marxismo através de suas próprias lentes, reconsideraremos sua percepção de movimentos sociopolíticos heterodoxos e as implicações práticas e teóricas aí, e traçar a trajetória da hermenêutica paradoxal do marxismo na direção de uma ideologia política sincrética.

Marxismo, o Século XX e a Quarta Teoria Política


Há muito tempo já se tornou claro que a Primeira Teoria Política (1TP), o liberalismo, emergiu do século XX como a ideologia vitoriosa da modernidade. Este fato inevitável e suas implicações práticas tem sido analisados por um número de estudiosos em uma ampla variedade de campos. As outras duas principais teorias sociopolíticas, marxismo (com seus vários derivados) e fascismo (com suas várias correntes), foram postas uma contra a outra, demonizadas a partir de todas as direções, e sofreram derrotas decisivas em esferas cruciais em diferentes épocas pelo massivo complexo militar, ideológico e político-econômico da 1TP, que desde os anos 90 se tornou a norma aterradora para amplas faixas da população mundial. Agora, porém, conforme este "Fim da História" vai se revelando cada vez mais insustentável, intolerável e indesejável, atenção crescente vai se dando para as várias ideologias antiliberais da modernidade, com um olho para resgatar e analisar criticamente seus elementos nominais, bem como os antiliberais e antimodernos paradoxais.




Esta, por exemplo, é parte da obra em desenvolvimento da Quarta Teoria Política, que busca dissecar a 2TP e a 3TP, remover seus núcleos hermenêuticos derivados da modernidade, e assim absorver criticamente aquelas entre suas teses que possam ser mensuradas contra as realidades de criticar o liberalismo e a pós-modernidade sem arrastar a bagagem de seus preconceitos modernistas. Esta também é parte do po projeto de sincretismo político que busca reconsiderar os ritmos de coincidência entre as três teorias sociopolíticas da modernidade, sintetizar um novo entendimento dessas ideologias políticas, e empregar criticamente análises antiliberais para o fim de informar a nascente 4TP.



De particular interesse para nós no contexto e esquema de tal projeto é o marxismo. O marxismo foi a única das três ideologias políticas primárias da modernidade que desenvolve uma estrutura ideológica ampla e sistemática que se prestou para analisar de forma habilidosa uma gama bastante ampla de fenômenos. Em comparação com o obscurantismo dos jingoísmos do liberalismo e com alguns dos apelos emocionais fascistas a certos arquétipos finalmente canalizados em um projeto fundamentalmente modernista, o marxismo ofereceu a mais "científica" de todas as filosofias políticas "cientificistas" da modernidade. Ademais, um estudo da evolução do marxismo ao longo dos séculos XIX e XX, e mesmo de seus vários remanescentes "dogmáticos" hoje, revela que ele provou ser o esquema analítico mais dinamicamente autocrítico de todas as ideologias antiliberais. Em termos de movimentos sociopolíticos e projetos analíticos, o marxismo se provou mais duradouro que outras ideologias. Suas análises da lógica e trajetória do capitalismo, sua crítica do imperialismo moderno, e outras teses já foram até transplantadas para os arsenais de outras teorias e projetos políticos aparentemente contraditórios. Ademais, o liberalismo e os próprios liberais, reconhecendo, ou, mais precisamente, temendo a presciência de certas projeções marxistas, fizeram uso da própria estrutura marxista para melhor entender como fortificar suas posições e neutralizar qualquer oposição antiliberal.

Onde o marxismo falha, porém, e isso pode responder por boa parte das inadequações dos experimentos socialistas do século XX, é na compreensão e reconsideração dele próprio. Conquanto Marx e seus seguidores expuseram e formularam de forma brilhante teses contra aspectos cruciais do liberalismo, do capitalismo e do imperialismo capitalista, e até conseguiram liderar algumas revoluções com base na estrutura analítica autocrítica e dinamicamente aplicável, o marxismo, sem falar nos marxistas, comumente falharam em apreender as dimensões mais profundas de suas experiências revolucionárias. Ao invés, as premissas inerentemente modernistas do marxismo foram levadas à sua conclusão lógica e as grandes revoluções socialistas do século XX ou falharam em resistir ou reexaminaram criticamente seus preconceitos em relação aos paradigmas fundamentais da modernidade. O produto final, que assola a maior parte da esquerda do século XXI, foi uma série de "revisões" que, ao invés de escavar o "marxismo real", castrou e prendeu o marxismo ainda mais nas garras do liberalismo, finalmente colocando algumas de suas encarnações políticas em linha com a burguesia, com a política liberal e com a confusão e desilusão da pós-modernidade.

Marxismo e Modernidade - Contornos Introdutórios


É de supremo interesse que quando Vladimir Lênin se gabou de que "a doutrina marxista é onipotente porque ela é verdadeira", [2] seu ângulo para tal perspectiva pouco tinha a ver com o ângulo a partir do qual intelectuais e líderes revolucionários marxistas posteriores procederiam quando se engajando em exercício ideológico ou mobilização insurrecional. Para Lênin, o marxismo era "onipotente" e "verdadeiro" não porque era a motivação ideológica última para "servir o povo", "construir o Exército Vermelho" ou "reunir o povo ao redor do Partido e do Líder", mas porque ele era um "sucessor legítimo" para e representava a conclusão lógica e ampla do "melhor que o homem produziu no século XIX, como representado pela filosofia alemã, pela economia política inglesa e pelo socialismo francês".


Na percepção de Lênin, o valor do marxismo enquanto ideologia não era seu apelo idealista, apaixonado aos instintos rebeldes dos trabalhadores explorados, das "nacionalidades oprimidas", ou dos inconformistas alienados e incansáveis da intelligentsia, mas sua conformidade com, continuação da, e aplicação revolucionária (interpretar o mundo com o objetivo de mudá-lo) das ciências mais desenvolvidas produzidas pela modernidade. Que o caráter moderno do marxismo era a joia mais valorizada, incansavelmente defendida, para o maior e mais vitorioso líder comunista revolucionário do século XX deve imediatamente chamar a atenção de qualquer um que busque entender as origens, trajetória e natureza do marxismo enquanto ideologia revolucionária. Afinal, um dos argumentos mais amplamente vocalizados por seus defensores é precisamente que o marxismo é uma "ciência" que, com base em absorver e sintetizar criticamente todas as "descobertas" até então, tanto na escola analítica, como na escola continental, de filosofia europeia, representa um arsenal autocrítico de pensamento e práxis revolucionárias capazes de explicar e guiar a humanidade a uma nova fase na evolução histórica.

A dialética se desdobra diante de nós. O marxismo, ao digerir os produtos mais "progressistas" do pensamento moderno, simultaneamente os leva até sua conclusão lógica, finalmente revelando as contradições em suas manifestações abstratas (ideológicas), bem como concretas (socioeconômicas e políticas). A partir daí, o marxismo aponta para a irreversibilidade, inevitabilidade e desejabilidade de uma derrubada revolucionária do modo existente de produção (capitalismo) e sua ideologia (liberalismo), abrindo assim uma nova fase no desenvolvimento humano, que é aguardada para resolver essas contradições através de um novo modo de produção (socialismo -> comunismo).

Ao chamar pela reconstituição revolucionária da sociedade humana contemporânea, não apenas como uma inevitabilidade lógica, historicamente sancionada, mas também como um imperativo revolucionário, o marxismo pode ser considerado uma ideologia que é "contra o mundo moderno". Porém, é normalmente tomada como dada a medida em que isso é limitado, e os paradoxos que se tornam evidentes aí, sem mencionar as consequências dessa realidade para os experimentos socialistas do século passado. Na medida em que o mundo moderno é predominantemente capitalista, o marxismo, com sua proposta de uma substituição revolucionária do capitalismo pelo socialismo, é indubitavelmente uma ideologia de oposição. Porém, como Lênin esclarece bem profundamente, o marxismo em si é um produto da própria transição de paradigma filosófico e histórico, a modernidade, que estabeleceu as bases teóricas, epistemológicas e antropológicas para todas as três teorias políticas da modernidade: liberalismo, marxismo e fascismo. Enquanto o marxismo critica e analisa a lógica e trajetória da manifestação socioeconômica do liberalismo, o capitalismo, ele simultaneamente, enquanto ideologia da modernidade, partilha de alguns dos postulados fundamentais do liberalismo, sem mencionar o fato de que elogia e absorve os "avanços científicos" que acompanharam a derrubada dos resquícios da sociedade pre-moderna pelo liberalismo.

Essa realidade torna o marxismo apenas circunstancialmente, ou parcialmente, antagônico à trajetória da modernidade. Ademais, isso significa que, apesar de sua reivindicação partilhada com o liberalismo de ser uma ideologia universalmente aplicável, o marxismo foi um produto das experiências europeias da Renascença, da Reforma, da Revolução Científica e do Iluminismo, cuja soma total produziu a modernidade e as revoluções derivadas no pensamento e na organização da sociedade humana. Para elaborar este ponto e colocá-lo no âmbito específico de nossa discussão, vamos revisar brevemente exatamente o que significa "modernidade".

Modernidade pode ser compreendida tanto como uma era histórica, bem como um paradigma filosófico. De fato, foi precisamente a transição em paradigma filosófico na Europa Ocidental que assinalou o início de uma nova fase histórica como resultado das transformações ideológicas, tecnológicas, políticas e socioeconômicas dialeticamente conectadas com (no sentido de engendrando, bem como sendo refletido por) mudanças dramáticas no âmbito do pensamento. As proposições revolucionárias por modificarem a compreensão que os humanos tinham do mundo ao seu redor, como produzidas pelos movimentos acima mencionados e seus pensadores, justificavam e refletiam transformações na base das sociedades europeias. Suas teses, que primeiro e mais importantemente incluíam humanismo, secularismo, materialismo, progressismo e universalismo, bem como um eurocentrismo conjurado a partir de uma Tradição Ocidental falsificada, finalmente estabeleceram as fundações para todas as três das "grandes ideais" da modernidade. O marxismo está saturado com e foi elaborado com base nesses postulados.



O marxismo acabou sendo a tendência antiliberal mais duradoura e a mais comparativamente bem sucedida do século XX. Revoluções de centenas de milhões de pessoas foram realizadas sob seu estandarte e lideradas por seus pensadores; ele ofereceu um caminho não-capitalista de desenvolvimento socioeconômico para várias sociedades, e demandou enormes concessões e reações por parte do liberalismo e do capitalismo. Mesmo hoje, os movimentos e analistas que se mantiveram fieis a seus princípios continuam a exercer enorme influência e projetam poder considerável em partes seletas do mundo.

Não obstante, permanece um fato que o liberalismo e o capitalismo venceram a batalha pelo século XX. Apesar de todos os sucessos desse ou daquele país socialista ou movimento político marxista, foi o liberalismo que reivindicou o "Fim da História" e prosseguiu para construir uma nova ordem mundial em seus termos.

Em Busca do "Marxismo real"

Hoje, uma reconsideração e "revolucionização", em oposição a uma "revisão" pró-liberal, pró-capitalista ou pró-modernista, é necessária não apenas para retificar os erros dessa formidável tendência antiliberal do século XX, mas também para incorporá-la no impulso crescente de uma nova luta filosófica, ideológica, política e socioeconômica contra todas as bases e manifestações do mundo moderno que o marxismo previamente reduzia ao capitalismo.

À primeira vista, isso pode de fato parecer ser uma "revisão" do marxismo. Após uma análise mais profunda, porém, nós descobrimos que isso não significa descartar ou sair da estrutura analítica marxiana, mas usá-la para alcançar o que grandes marxistas do século XX foram incapazes de fazer: explorar os núcleos profundos e paradoxais do marxismo, que o situam enquanto uma ideologia condicionalmente e parcialmente antimoderna e ressuscitar certos elementos que jazem enterrados ou disfarçados sob o marxismo puramente "materialista" que vê a história do homem através de lentes liberais.

Isso envolve um número de ângulos. Isso significa invocar e analisar o marxismo "mitológico", "escatológico" ou "esotérico" que o marxismo nominal e o Marx do século XIX afirmaram ter superado e "posto de pernas para o ar". Isso significa dar um novo olhar para as razões pelas quais as revoluções "marxistas" e historicamente socialistas aconteceram em sociedades subdesenvolvidas, "pré-modernas". Isso similarmente demanda uma justaposição do marxismo com vários movimentos nominalmente não-marxistas que, apesar de usualmente identificados com a "direita" política, na verdade partilham de certas trajetórias e perspectivas complementares que reforçam ou, paradoxalmente, se interseccionam e confirmam uma à outra e sugerem a possibilidade de um sincretismo político capaz de reconciliar a foice e martelo industriais do comunismo com os antigos e esotéricos símbolos da Tradição. Isso necessariamente inclui um reconhecimento da coincidência entre a luta entre Capital e Trabalho e outras forças historicamente antagônicas, como fundar a luta do Trabalho na terra, em um marxismo continental contra o mar do liberalismo atlantista.

Em certa medida, isso não só significa ler Marx "a partir da direita" ou ler pensadores direitistas antiburgueses e antimodernos "a partir da esquerda", mas também buscar pelo embutimento dessas ideologias e projetos na carne dos "inimigos da sociedade aberta" i.e., os inimigos não só do capitalismo e da burguesia, mas da própria modernidade. Em geral, isso significa um exame dos erros qualitativos do marxismo desde a perspectiva de trabalhar através de seu próprio pensamento qualitativo e do revolucionamento subsequente de sua visão da história do mundo, o que colocaria Marx não apenas em linha com sua própria ciência proposta, mas na verdade exorcizaria a "ciência" fundamentalmente liberal de Marx e revelaria o marxismo oculto, o marxismo que toca os arquétipos profundos da consciência, da história e da escatologia até então não descobertos dentro do próprio marxismo. Só com base em tal retificação ideológica podemos então prosseguir para estudos de caso como previamente proposto pela série.

O produto final de tal marxismo revitalizado seria um "socialismo eterno", i.e., um socialismo livre dos preconceitos e limitações modernistas que finalmente o estrangularam, desacreditaram e o confundiram na teoria e na prática no século XX.

Alguns pensadores e movimentos já tentaram realizar este projeto. Nas décadas de 20 e 30, os nacional-bolcheviques da Alemanha e da Rússia e alguns eurasianistas tentaram transformar não apenas as concepções do marxismo enquanto ideologia, mas também diluir seus elementos modernistas para chegar a uma nova ideologia política.

Na década de 90, Gennady Zyuganov, como líder do Partido Comunista da Federação Russa em colaboração com tais intelectuais como Aleksandr Dugin, buscou reconceitualizar o socialismo soviético sobre uma nova base que permitisse a importância dos fatores "civilizacionais" e "espirituais" russos e mais profundos. Os movimentos "vermelho-marrons" na Rússia no início do século XXI também contribuíram para este processo. Dugin explorou e propôs orientações e perspectivas para escavar o que ele chama de "marxismo real" que, apesar de ignorado por marxistas "ortodoxos" ou "nominais", na verdade teve a maior influência sobre os socialismos do século XX. O próprio Centro para Estudos Sincréticos também buscou embarcar em uma "ressurreição" desse "marxismo das formas para além das imagens e coisas". 



Tal marxismo não remove as teses e análises cruciais de seu contexto histórico, seu embasamento, mas na verdade leva suas raízes ainda mais fundo no solo para atingir o centro encoberto dos verdadeiros significados de "revolução", "o povo", o "proletariado", "Terceira Internacional", o "ópio do povo", o "espectro rondando a Europa", e o slogan "Marx não está morto". Só uma abordagem assim pode resgatar o marxismo das garras da "política de identidade", determinar movimentos políticos genuinamente positivos (em oposição ao termo modernista de "progressista", e oferecer a teoria revolucionária para um movimento revolucionário, um "socialismo do século XXI" contra o mundo moderno em todos os seus aspectos. Tal produto inevitavelmente formaria parte de uma Quarta Teoria Política objetivando decifrar o paradigma, as contradições, os elos fracos, e a reconstituição revolucionária da ordem mundial existente que afirmou a morte de Marx e o Fim da História na década de 90.

Assim, nós propomos iniciar este trabalho teórico e integrá-lo em nossa critica das percepções marxianas de movimentos sociopolíticos nominalmente não-marxistas e nossa escavação das possibilidades no próprio marxismo "morto". 


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