sábado, 5 de dezembro de 2015

Kerry Bolton - A Rússia de Spengler

por Kerry Bolton



Teria sido fácil para considerar Oswald Spengler, autor do epocal O Declínio do Ocidente (volume um foi publicado no verão de 1918) como  um russófobo. Ao fazê-lo o papel da Rússia no desenrolar histórico dessa era para a frente poderia ser facilmente desprezado, oposto ou ridicularizado por adeptos de Spengler, enquanto na Rússia seus insights sobre morfologia cultural seriam compreensivelmente mal vistos como partindo de um nacionalista alemão eslavófobo. Porém, enquanto Spengler, como muitos outros da época posterior à revolução bolchevique, considerasse - parcialmente a Rússia como o líder asiatizado de uma "revolução colorida" contra o mundo branco, ele também considerava outras possibilidades.

A "Alma" da Rússia

Spengler considerava os russos como formados pela vastidão da planície terrestre, como inatamente antagônicos à Máquina, como enraizados no solo, como irrepreensivelmente camponeses, religiosos e "primitivos". Porém, quando Spengler escreveu sobre essas características russas ele estava fazendo referência aos russos como um povo ainda juvenil, em contraste ao Ocidente senil. Daí o russo "primitivo" não é sinônimo da "primitividade" como popularmente compreendida àquela época em relação a povos tribais "primitivos". Nem deve ser isso confundido com a percepção hitlerista do "eslavo primitivo" incapaz de construir seu próprio Estado.

Para Spengler, o "camponês primitivo" é a fonte da qual uma raça retira seus elementos mais saudáveis durante suas épocas de vigor cultural. A agricultura é a fundação de uma Alta Cultura, permitindo que comunidades estáveis diversifiquem o trabalho nos especialismos dos quais a Civilização procede.

Segundo Spengler, cada povo possui sua alma, uma concepção alemã derivada do Idealismo de Herder, Fichte, etc. Uma Alta Cultura reflete esta alma, seja em sua matemática, música, arquitetura; tanto nas artes como nas ciências físicas. A alma russa não é idêntica à alma faustiana ocidental, como Spengler a chama, ou à alma "magiana" da civilização árabe, ou à clássica dos helenos e romanos. A Cultura Ocidental que foi imposta sobre a Rússia por Pedro o Grande, que Spengler chama de Petrinismo, não passa de um verniz.

A base da alma russa não é o espaço infinito - como no imperativo faustiano do Ocidente (Spengler, 1971, I, 1983), mas sim a planície ilimitada (Spengler, 1971, I, 201). A alma russa expressa seu próprio tipo de infinitude, ainda que não o do ocidental que se torna até escravizado por sua própria técnica ao fim de seu ciclo vital. (Spengler, 1971, II, 502) (Ainda que poderia ser dito que o sovietismo escravizou o homem à máquina, um spengleriano citaria isso como um exemplo de petrinismo). Porém, civilizações seguem seu próprio curso de vida, e não se pode ver as descrições de Spengler como juízos morais, mas sim como observações. O encerramento para a Civilização Ocidental segundo Spengler não pode ser o de criar ainda mais formas grandiosas de arte e música, que pertencem à época juvenil ou "primaveril" de uma civilização, mas dominar o mundo sob uma mandato tecnocrático-militar, antes de decair no esquecimento como civilizações mundiais anteriores. É após este declínio ocidental que Spengler aludiu à próxima civilização mundial sendo a da Rússia.

A arquitetura russa ortodoxa não representa o infinito na direção do espaço que está simbolizado pelas torres das catedrais góticas da Alta Cultura do Ocidente, nem o espaço fechado da mesquita da Cultura Magiana, (Spengler, 1971, I, 183-216) mas a impressão de assentar-se sobre um horizonte. Spengler considerava que esta arquitetura russa "não era ainda um estilo, apenas a promessa de um estilo que despertará quando a verdadeira religião russa despertar". (Spengler, 1971, I, p.201) Spengler estava escrevendo sobre a cultura russa como um forasteiro, e ele mesmo reconhecia as limitações disso. É, portanto, útil comparar seus pensamentos sobre a Rússia com os de russos notáveis.

Nikolai Berdyaev em A Ideia Russa afirma o que Spengler descreve:

"Há aquilo na alma russa que corresponde à imensidão, à vagueza, à infinitude da terra russa, a geografia espiritual corresponde com a física. Na alma russa há um tipo de imensidão, uma vagueza, uma predileção pelo infinito, tal como a que é sugerida pela grande planície da Rússia". (Berdyaev, 1).

"Socialismo Russo"

No que concerne a alma russa, o ego e vaidade do homem e cultura ocidentais estão ausentes; a persona busca crescimento impessoal no serviço, "no mundo-irmão da planície". O Cristianismo Ortodoxo condena o "Eu" como "pecado". (Spengler, 1971, I, 309) O conceito russo de "nós" ao invés de "Eu", e de serviço impessoal à vastidão da própria terra implica outra forma de socialismo distinto do marxismo. É talvez neste sentido que o stalinismo procedeu segundo linhas às vezes antitéticas ao bolchevismo pensado por Trótski et al. (Trotski, 1936)

Um comentário de uma visitante americana à Rússia, Barbara J. Brothers, parte de uma delegação científica, afirma algo similar à observação de Spengler:

"Os russos possuem um senso de conexão consigo e com outros seres humanos que simplesmente não é parte da realidade americana. Não é que a competitividade não existe; a questão é que simplesmente sempre parece haver mais consideração e respeito pelos outros em qualquer dada situação".

Do ethos tradicional russo, intrinsecamente antitético ao individualismo ocidental, incluindo suas relações de propriedade, Berdyaev escreveu:

"De todos os povos no mundo, os russos possuem o espírito de comunidade; no mais alto grau o modo de vida russo e as maneiras russas são desse tipo. A hospitalidade russa é uma indicação desse senso de comunidade". (Berdyaev, 97-98)

Taras Bulba

A literatura nacional russa partindo de 1840 começou a expressar conscientemente a alma russa. Primeiramente, o Taras Bulba de Nikolai Vasilievich Gogol, que junto com a poesia de Pushkin fundou uma tradição literária russa; isto é, verdadeiramente russa, e distinta da literatura anterior baseada na alemã, na francesa e na inglesa. John Cournos fala disso em sua introdução a Taras Bulba:

"A palavra falada, nascida do povo, deu alma e asa à literatura; apenas vindo à terra, à terra nativa, lhe foi permitido voar. Vindo da Pequena Rússia, a Ucrânia, com sangue cossaco nas veias, Gogol injetou seu próprio vírus saudável em um corpo fraco, soprou seu próprio espírito viril, o espírito de sua raça, em suas narinas, e deu ao romance russo sua direção até o dia de hoje.

Taras bulba é um conto sobre a formação do povo cossaco. Nessa formação popular o inimigo exterior desempenha um papel crucial. O russo foi formado fundamentalmente como resultado de batalhas ao longo de séculos contra tártaros, muçulmanos e mongois".

Sua sociedade e nacionalidade eram definidas pela religiosidade, como as do Ocidente pelo Cristianismo Gótico durante sua época "primaveril", em termos spenglerianos. O recém-chegado a um Setch, ou aldeia permanente, era saudado pelo Chefe como um cristão e como um guerreiro: "Bem-vindo! Você crê em Cristo?" - "Sim", respondia o recém-chegado. "E você crê na Santíssima Trindade?" - "Sim" - "E você vai à igreja?" - "sim". "Agora faça o sinal da cruz". (Gogol, III)

Gogol retrata o desprezo que se tinha pelo comércio, e quando o comércio havia penetrado entre os russos, ao invés de ser mentido confinado a não-russos associados ao comércio, isso é considerado como um sintoma de decadência:

"Eu sei que a ignomínia encontrou seu caminho para nossa terra. Os homens só se importam em ter suas pilhas de grãos e feno, e seus rebanhos de cavalos, e que seu hidromel possa estar seguro em seus porões; eles adotam, sabe-se-lá que costumes muçulmanos. Eles falam de forma desprezível com suas línguas. Eles não se importam em falar seus reais pensamentos com seus compatriotas. Eles vendem suas próprias coisas a seus próprios camaradas, como criaturas desalmadas em um mercado... . Que eles saibam o que irmandade significa em solo russo!" (Spengler, 1971, II, 113)

Aqui podemos ver um socialismo russo que está a um mundo de distância do materialismo dialético adumbrado por Marx, o sentimento místico de "nós" forjado pela vastidão das planícias e pelo imperativo de irmandade acima da economia, imposto por aquela paisagem. O sentimento de missão de mundo da Rússia possui sua própria forma de messianismo, seja expressa pela Ortodoxia cristã ou pela forma não-marxiana de "revolução mundial" sob Stálin, ou ambas em combinação, como sugerido pela reaproximação posterior entre Stalinismo e a Igreja a partir de 1943 com a criação do Conselho para Assuntos da Igreja Ortodoxa Russa (Chumachenko, 2002). Em ambos os sentidos e mesmo nas formas embrionárias tomando lugar sob Putin, a Rússia é consciente de uma missão mundial, expressa hoje no papel da Rússia em forjar um mundo multipolar, com a Rússia tendo um papel principal na resistência ao unipolarismo.

O comércio é preocupação para estrangeiros, e as intrusões trazem com elas a corrupção da alma russa e de sua cultura em geral: na fala, na interação social, no servilismo, solapando a "irmandade" russa, o sentimento russo de "nós" que Spengler descreveu. (Spengler, 1971, I, 309)

A irmandade cossaca é retratada por Gogol como o processo formativo na construção do povo russo. Este processo não é um biológico, mas espiritual, transcendendo até o laço familiar. Spengler similarmente tratou a questão racial mais como uma de alma do que uma de zoologia. (Spengler, 1971, II, 113-155) Para Spengler a paisagem era crucial para determinar o que se torna "raça", e a duração de famílias agrupadas em uma paisagem particular - incluindo nômades que possuem uma extensão definida de deslocamento - formam "um caráter de duração", que era a definição spengleriana de "raça". (Spengler, II, 113) Gogol descreve este processo formativo "racial" entre os russos. Longe de ser um nacionalismo racial agressivo, é uma irmandade mística em expansão sob Deus:

"O pai ama seus filhos, a mãe ama seus filhos, os filhos amam seu pai e mãe; mas isto não é como aquilo, irmãos. A besta selvagem também ama sua prole. Mas um homem pode se relacionar apenas por similaridade de mente ao invés de sangue. Tem havido irmandades em outras terras, mas nunca nenhuma irmandade tal como a que há em nosso solo russo". (Gogol, IX)

A alma russa nasce no sofrimento. O russo aceita o destino da vida a serviço de Deus e de sua Pátria. Rússia e fé são inseparáveis. Quando o velho guerreiro Bovdug é mortalmente ferido por uma bala turca suas palavras finais são exortações à nobreza do sofrimento, após o que seu espírito alça voo para se unir a seus ancestrais. (Gogol, IX) A mística da morte e do sofrimento pela Pátria é descrita na morte de Taras Bulba, quando ele é capturado e executado, suas palavras finais sendo de ressurreição:

"Aguardem, o tempo virá quando vocês aprenderão o que é a fé ortodoxa russa! O povo já o fareja longe e perto. Um czar surgirá do solo russo, e não haverá poder no mundo que não se submeterá a ele!". (Gogol, XII)

Pseudomorfose

Um elemento significativo da morfologia cultural de Spengler é a "Pseudomorfose Histórica". Spengler traçou uma analogia a partir da geologia. Quando cristais de um mineral estão embutidos em uma camada de rocha, onde "fissuras e rachaduras ocorrem, a água se infiltra, e os cristais são gradualmente trazidos para fora de modo que no devido tempo apenas seu molde oco permanece". (Spengler, II, 89)

"Pelo termo 'pseudomorfose histórica' eu proponho designar aqueles casos em que uma Cultura estrangeira mais velha jaz tão massivamente sobre a terra que uma Cultura jovem, nascida nessa terra, não consegue respirar e falha não só em atingir formas de expressão puras e específicas, mas até mesmo em desenvolver sua própria consciência plena de si. Tudo que emerge das profundezas da alma jovem é lançado nos velhos moldes, sentimentos jovens se endurecem em obras senis, e ao invés de se empinar em seu próprio poder criativo, ele só pode odiar o poder distante com um ódio que cresce até se tornar monstruoso". (Ibid.)

Uma dicotomia tem existido por séculos, começando com Pedro o Grande, de tentativas de impôr um verniz ocidental sobre a Rússia. Isso é chamado de Petrinismo. A resistência a essas tentativas é o que Spengler chamou de "Velha Rússia". (Spengler, 1971, II, 192) Spengler também descreveu essa dicotomia.

Nikolai Berdyaev escreveu em termos similares aos de Spengler: "A Rússia é uma seção completa do mundo, um Leste-Oeste colossal. Ela une dois mundos, e dentro da alma russa dois princípios estão sempre engajados em uma luta - o oriental e o ocidental". (Berdyaev, 1).

Com a orientação da política russa na direção do Ocidente, a "Velha Rússia" foi "forçada a uma história falsa e artificial". (Spengler, II, 193) Spengler pensou que a Rússia havia sido dominada pela cultura ocidental tardia:

"Artes e ciências de um período tardio, iluminismo, ética social, o materialismo das cidades globais, foram introduzidos, ainda que neste tempo pré-cultural a religião fosse a única língua pela qual o homem compreendia a si e ao mundo". (Spengler, 1971, II, 193)

Em 1863, escrevendo para Dostoievski, Ivan Sergyeyevich Aksakov (fundador do grupo "Eslavófilo" anti-petrinista) notou que "A primeira condição de emancipação para a alma russa é que ela deve odiar Petersburgo com toda sua força e toda sua alma". Moscou é santa, Petersburgo satânica. Uma lenda popular apresentava Pedro o Grande como o Anticristo.

O ódio do "Ocidente" e da "europa" é o ódio por uma Civilização que já havia atingido um estágio avançado de decadência no materialismo e buscava impôr sua primazia pela subversão cultural ao invés dep elo combate, com sua perspectiva urbanita e monetarista, "envenenando a cultura ainda não nascida no ventre da terra". (Spengler, 1971, II, 194) A Rússia era ainda uma terra em que não havia burguesia e nenhum sistema de classes verdadeiro, mas apenas senhor e camponês, uma visão confirmada por Berdyaev, escrevendo: "As várias linhas de demarcação social não existiam na Rússia; não havia classes preponderantes. A Rússia nunca foi um país aristocrático no sentido ocidental, e igualmente não havia burguesia". (Berdyaev, 1)

As cidades que emergiram vomitaram uma intelligentsia, copiando a intelligentsia do Ocidente Tardio, "ávidos por desvendar problemas e conflitos, e abaixo, um campesinato desenraizado, com todo aquele pesar e ansiedade metafísicas...perpetuamente nostálgicos pela terra aberta e odiando amargamento o mundo cinzento e pétro no qual o Anticristo os havia tentado. Moscou não tinha alma adequada". (Spengler, 1971, II, 194) Berdyaev ressalta de forma similar sobre o petrinismo da classe superior que "a história russa era um conflito entre Oriente e Ocidente dentro da alma russa". (Berdyaev, 15)

Messianismo Russo

Berdyaev também afirma que enquanto o petrinismo introduziu uma época de dinamismo cultural, ele também colocou um fardo pesado sobre a Rússia, e uma desunião de espírito. (Ibid.) Porém, a Rússia possui seu próprio senso religioso de Missão, que é tanto universal quanto a do Vaticano. Spengler cita Dostoievski que escreveu em 1878 que "todos os homens devem se tornar russos, primeiro e fundamentalmente russos. Se a humanidade geral é o ideal russo, então todo mundo deve em primeiro lugar se tornar russo". (Spengler, 1963, 63n) A ideia messiânica russa encontrou uma expressão de força Os Possuídos de Dostoiévski, onde, em uma conversa com Stavrogin, Shatov diz: 

"Reduzir Deus ao atributo de nacionalidade?...Ao contrário, eu elevo a nação a Deus... O povo é o corpo de Deus. Cada nação é uma nação apenas na medida em que tenha seu próprio Deus particular, excluindo todos os outros deuses na terra sem qualquer reconciliação possível, desde que creia que por seu próprio Deus ele conquistará e expulsará todos os outros deuses da face da terra... A única nação 'portadora de Deus' é a nação russa..." . (Dostoievski, 1992, Parte II:I:7,265-266)

Spengler viu a Rússia como estando fora da Europa, e mesmo como "asiática". Ele até mesmo via um renascimento ocidental vis-à-vis a oposição à Rússia, que ele considerava como liderando a "revolução colorida" contra os brancos, sob o manto do bolchevismo. Porém também havia outros destinos que Spengler viu no horizonte, que haviam sido previstos por Dostoievski.

Uma vez que a Rússia houvesse derrubado suas intrusões estrangeiras, ela poderia olhar com outra perspectiva sobre o mundo, e reconsiderar a Europa não com ódio e vingança mas em parentesco. Spengler escreveu que enquanto Tolstoi, o petrinista, cuja doutrina foi precursora do bolchevismo, era a "Rússia passada", Dostoievski era a "Rússia vindoura". Dostoievski como representante da "Rússia vindoura" "não conhece" o ódio da Rússia pelo Ocidente. Dostoievski e a velha Rússia são transcendentes. "Seu poder apaixonado de viver é suficientemente compreensivo para abarcar todas as coisas ocidentais também". Spengler cita Dostoievski novamente: "Eu tenho duas pátrias, Rússia e Europa". Dostoievski como o portador de uma alta cultura russa "passou para além tanto do petrinismo como da revolução, e de seu futuro ele olha para trás por sobre elas com ode longe. Sua alma é apocalíptica, desejosa, desesperada, mas de seu futuro ele está certo". (Spengler, 1971, II, 194)

Para os "Eslavófilos", dos quais Dostoievski era um, a Europa é preciosa. O Eslavófilo aprecia a riqueza da alta cultura europeia, ao mesmo tempo que percebe que a Europa está em um estado de decadência. Berdyaev discutiu o que ele considerou uma inconsistência em Dostoievski e nos eslavófilos em relação a Europa, mas uma que é compreensível quando consideramos a diferenciação crucial de Spengler entre Cultura e Civilização:

"Dostoieviski chama a si mesmo de um eslavófilo. Ele pensava, como o fazia também um grande número de pensadores sobre o tema da Rússia e da Europa, que ele sabia que a decadência estava se estabelecendo, mas que um grande passado existe nela, e que ela fez contribuições de grande valor para a história da humanidade". (Berdyaev, 70)

É notável que enquanto essa diferenciação entre Kultur e Zivilisation é atribuída a uma tradição filosófica particularmente alemã, Berdyaev comenta que ela estava presente entre os russos "muito antes de Spengler", ainda que derivando de fontes alemães:

"É de ser notado que muito antes de Spengler, os russos traçaram a distinção entre 'cultura' e 'civilização', que eles atacaram a 'civilização' mesmo quando permaneciam apoiadores da 'cultura'. Essa distinção na verdade, apesar de expressa em uma fraseologia distinta, seria encontrada entre os eslavófilos". (Ibid.)

Dostoievski era indiferente ao Ocidente tardio, enquanto Tolstoi era um produto dele, o Rousseau russo. Imbuídos com ideias do Ocidente tardio, os marxistas buscavam substituir uma classe governante petrina por outra. Nenhuma das duas representava a alma da Rússia. Spengler observou: "O verdadeiro russo é o discípulo de Dostoieviski, ainda que ele possa não ter lido Dostoievski, ou qualquer outro, não, talvez porque ele não possa ler, ele é ele próprio Dostoievski em substância". A intelligentsia odeia, o camponês não. (Ibid.) Ele eventualmente derrubaria o bolchevismo e qualquer outra forma de petrinismo. Aqui nós vemos Spengler inequivocamente afirmando que a civilização pós-ocidental será russa:

"Aquilo pelo que esse povo desassentado anseia é sua própria forma vital, sua própria religião, sua própria história. O Cristianismo de Tolstoi foi um equívoco. Ele falava de Cristo, mas queria dizer Marx. Mas ao Cristianismo de Dostoievski os próximos mil anos pertencerão". (Ibid.)

Sobre a verdadeira Rússia, como Dostoievski a expressou, "nem uma única nação já foi alguma vez fundada sobre princípios da ciência ou da razão". (Dostoievski, 1872, II:I:VII)

À época em que Spengler publicou A Hora da Decisão em 1934 ele concluiu que a Rússia havia derrubado o petrinismo e as vestimentas do Ocidente tardio, e ainda que ele chamasse a nova orientação da Rússia de "asiática", ele disse que ela era "uma nova Ideia, e uma ideia com um futuro também". (Spengler, 1963, 60) Esclarecendo, a Rússia olha para o "Oriente", mas enquanto o ocidental assume que "Ásia" e Oriente são sinônimos de mongol, a etimologia da palavra "Ásia" vem do grego Aσία, ca. 440 a.C., se referindo a todas as regiões a leste da Grécia. (Ibid. 61) Durante seu tempo Spengler viu que na Rússia,

"raça, língua, costumes poulares, religião, em sua forma presente...todos ou qualquer um deles pode e será fundamentalmente transformado. O que vemos hoje, então, é simplesmente o novo tipo de vida que uma vasta terra concebeu e irá fazer emergir presentemente. Não é definível em palavras, nem está seu portador consciente disso. Aqueles que tentam definir, estabelecer, ditar um programa, estão confundindo a vida com uma frase, como o faz o bolchevismo governante, que não é suficientemente consciente de sua própria origem cosmopolita, racionalista e euro-ocidental". (Ibid.)

Na Rússia Spengler já via em 1934 que "de marxismo genuíno há pouco, excetuando nomes e programas". Ele duvidava que o programa comunista seja "realmente levado a sério ainda". Ele via a possibilidade dos vestígios de bolchevismo petrino serem derrubados, para ser substituído por um tipo oriental "nacionalista" que atingiria "proporções gigantescas". (Spengler, 1963, 63) Spengler também se referiu à Rússia como paradoxalmente o país "menos perturbardo pelo bolchevismo", (Ibid., 182) e sugeriu que a "face marxiana só foi trajada para benefício do mundo exterior". (Ibid., 212) Uma década após a morte de Spengler a direção da Rússia sob Stálin havia perseguido definições mais claras, e o bolchevismo petrino havia se transformado da maneira que Spengler previu. (Brandenberger, 2002)

Conclusão

Como na época de Spengler, como séculos antes, continuava a existir duas tendências na Rússia: a Russa Antiga e a Petrina. Nem um, nem o outro espírito domina atualmente, ainda que sob Putin a Velha Rússia lute para ressurgir. Spengler em uma palestra publicada para a Convenção de Negócios Reno-Vestfaliana em 1922 se referiu ao "antigo, instintivo, difuso, inconsciente e subliminar impulso que está presente em todo russo, não importa o quão metodicamente ocidentalizada sua vida consciente possa ser - um anseio místico pelo Sul, por Constantinopla e Jerusalém, um espírito cruzado genuíno similar ao espírito que nossos ancestrais góticos tinham em seu sangue, mas que dificilmente podemos apreciar hoje". (Spengler, 1922)

O bolchevismo substituiu uma forma de petrinismo por outra forma, limpando o caminho "para uma nova cultura que algum dia surgirá entre Europa e Ásia. É mais um início do que um começo". O campesinato "algum dia se tornará consciente de sua própria vontade, que aponta em uma direção totalmente diferente". "O campesinato é o verdadeiro povo russo do futuro. Ele não se permitirá perverter ou sufocar". (Ibid.).

Spengler, o antimarxista arquiconservador, seguindo a tradição alemã de realpolitik, considerava a possibilidade de uma aliança russo-alemã em seu discurso de 1922, o Tratado de Rapallo sendo um reflexo dessa tradição. "Um novo tipo de líder" despertaria na adversidade, para "novas cruzadas e conquistas lendárias". O resto do mundo, repleto com um anseio religioso, mas que cai sobre chão infértil, está "rasgado e cansado suficiente para lhe permitir subitamente assumir um novo caráter sob as circunstâncias adequadas". Spengler sugeriu que "talvez o próprio bolchevismo mude dessa maneira sob novos líderes". "Mas a Rússia silenciosa e profunda" voltaria sua atenção para o Oriente Próximo e Extremo, como um povo de "grandes extensões interiores". (Ibid.)

Ainda que Spengler postulasse os ciclos orgânicos de uma Alta Cultura passando pelas fases vitais de nascimento, vigor, maturidade, velhice e morte, deve-se ter em mente que um ciclo de vida pode ser perturbado, abortado, rompido ou acometido por doença, a qualquer momento, e findar sem se realizar. Cada um tem sua analogia na política, e há muitos russófobos ávidos por aleijar o destino da Rússia com contaminações políticas, econômicas e culturais. O bloco soviético caiu por contágio interno e externo.

O que Spengler previu para as possibilidades da Rússia, ainda a realizar sua missão histórica, messiânica e de escopo mundial, pode agora estar se desabrochando se a Rússia conseguir aparar pressões de dentro e de fora. A revogiração da Ortodoxia é parte desse processo, como o estilo de liderança de Putin, distinto de um Ieltsin, por exemplo. Do que quer que a Rússia seja chamada externamente, seja monárquica, bolchevique ou democrática, há uma Rússia interior - eterna - que perdura e aguarda a sua hora no palco histórico mundial.

Referências

Nikolai Berdyaev, The Russian Idea, MacMillan Co., New York, 1948

D Brandenberger, National Bolshevism: Stalinist culture and the Formation of Modern Russian National Identity 1931-1956. Harvard University Press, Massachusetts, 2002

T A Chumachenko, Church and State in Soviet Russia, M. E. Sharpe Inc., New York, 2002

H Cournos,‘ Introduction’, N V Gogol, Taras Bulba & Other Tales, 1842, http://www.gutenberg.org/files/1197/1197-h/1197-h.htm

Dostoyevski, The Brothers Karamazov, 1880

Dostoyevski, The Possessed, Oxford University Press, 1992

Spengler, Prussianism and Socialism, 1919

Spengler, ‘The Two Faces of Russia and Germany’s Eastern Problems’, Politische Schriften, Munich, 14 February, 1922

Spengler, The Hour of Decision, Alfred A Knopf, New York, 1963

Spengler, The Decline of The West, George Allen & Unwin, London, 1971

Leon Trotsky, The Revolution Betrayed: what is the Soviet Union and where is it going?, 1936

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