domingo, 25 de outubro de 2015

Alain de Benoist - A Lógica do Capitalismo

Entrevista de Alain de Benoist para a Boulevard Voltaire



P: Apesar das repetidas promessas de políticos, tanto da direita como da esquerda, nada parece estar detendo o aumento do desemprego. Isso é algo inevitável?

R: Oficialmente, há 3.5 milhões de desempregados na França, o que significa que a taxa de desemprego está hoje em 10.3%. Este número, porém, varia dependendo de como ele é computado. As estatísticas oficiais levam em consideração apenas a categoria "A", i.e. aqueles que estão desempregados e estão ativamente procurando um emprego, deixando de lado as categorias "B", "C", "D" e "E", i.e. aqueles que estão procurando por um emprego apesar de estarem trabalhando de maneira reduzida ultimamente; aqueles que pararam de procurar por emprego, mas ainda estão desempregados; aqueles que estão recebendo treinamento; aqueles que são estagiários; aqueles que estão trabalhando sob "contratos subsidiados", etc. Somando todas essas categorias, alcançamos a taxa de desemprego real de 21.1% (mais do que o dobro dos números oficiais). Se nos remetermos à taxa geral de população inativa em idade de trabalho, então chegamos a 35.8%. Ademais, se levarmos em consideração trabalhos inseguros, de tempo parcial ou de prazo determinado, bem como os números de trabalhadores abaixo da linha de pobreza, etc., então este número fica cada vez maior.

Indubitavelmente, mudanças no desemprego dependem das políticas oficiais - mas apenas até certo ponto. O desemprego atual não é mais de natureza cíclica, mas primariamente estrutural, algo que muitos ainda não compreenderam completamente. Isso significa que o trabalho está se tornando uma commodity escassa. Os empregos que estão se perdendo são cada vez menos e menos sendo substituídos por outras aberturas de vagas. É claro, a expansão do setor de serviços é real; mas o setor de serviços não gera capital. Ademais, vinte anos para a frente quase metade desses empregos no setor de serviços serão substituídos por máquinas em rede. Imaginar, portanto, que algum dia retornaremos ao pleno emprego é uma ilusão.

P: Há pessoas que vivem para trabalhar e outras que trabalham para viver. Não seriam aqueles que se recusam a perder suas vidas para ganhá-la parte de alguma sabedoria ancestral? Seria o trabalho realmente um valor em si?

R: O que precisa ser apontado é que aquilo que chamamos de "trabalho" hoje não possui qualquer relação com o que costumava ser atividade produtiva em séculos passados, nomeadamente uma simples "metabolização" da natureza. O trabalho não é nem um sinônimo de atividade, nem de emprego. A quase universal difusão do trabalho assalariado já foi uma revolução de certa forma perante a qual as massas seguiram hostis por um longo período de tempo. A razão para isso é que eles haviam estado acostumados ao consumo dos frutos de seu próprio labor apenas e nunca viram o labor como meio de adquirir os frutos alheios, ou em outras palavras, trabalhar para comprar os resultados do trabalho alheio.

O trabalho possui uma dimensão dual; ele representa tanto um labor concreto (seu propósito metabolizador) como um labor abstrato (energia e tempo gastos). No sistema capitalista o que conta é o labor abstrato apenas, porque este tipo de labor, sendo indiferente a seu próprio conteúdo, sendo também igual para todos os bens para os quais fornece uma base de comparação, é o único fator que se transforma em dinheiro, adquirindo assim um papel mediador em uma nova forma de interdependência social. Isso significa que em uma sociedade na qual a commodity é a categoria estrutural básica, o trabalho deixa de ser socialmente distribuído por estruturas de poder tradicionais. Ao contrário, ele realiza ele mesmo a função daquelas antigas relações. No capitalismo, o trabalho constitui por si a forma dominante de relações sociais. Seus subprodutos (commodity, capital) representa simultaneamente produtos do labor concreto e as formas objetificadas da mediação social. Daí, o trabalho deixa de ser um meio; se torna um fim em si mesmo.

No capitalismo o valor é feito do tempo gasto trabalhando e representa portanto a forma dominante de riqueza. Acúmulo de capital significa acumular o produto do tempo gasto em labor humano. É por isso que os enormes ganhos de produtividade gerados pelo sistema capitalista não resultaram em qualquer redução significativa das horas de trabalho, como se poderia esperar. Ao contrário, com base nas tendências de expansão ilimitada, o sistema segue impondo sempre mais trabalho. E é bem aqui que podemos observar suas contradições fundamentais. Por um lado, o capitalismo busca ampliar as horas de trabalho, já que é apenas tendo pessoas trabalhando mais e mais que se pode alcançar o acúmulo de capital. Pelo outro, os ganhos de produtividade permitem de agora em diante a produção de mais e mais bens, com cada vez menos pessoas. Isso torna a produção de riqueza material cada vez mais independente do tempo gasto trabalhando. Nesse sentido, os desempregados já se transformaram em pessoas supérfluas.

P: Você é conhecido como um workaholic. Você alguma vez sente falta de ficar vendo a grama crescer e de acariciar alguns dos gatos de sua casa?

R: Eu trabalho de 80 a 90 horas por semana simplesmente porque gosto de fazer o que faço. Isso não me torna um adepto da ideologia do trabalho. Muito pelo contrário. No Gênese (3:17-19) o trabalho é representado como uma consequência do pecado original. São Paulo diz: "Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer" (II Tessalonicenses 3:10). Esta visão moralista e punitiva do trabalho me é tão alienígena quanto a ética de trabalho redentora do protestantismo, ou quanto a exaltação do valor do trabalho por regimes totalitários. Sim, eu tenho consciência do fato de que a palavra "travail" (trabalho) vem do latim tripalium, uma palavra originalmente usada para designar um instrumento de tortura. Portanto, eu sei como sacrificar as demandas do "tempo livre", que é "livre" na medida em que é livre de trabalho.

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