terça-feira, 19 de março de 2013

Ernesto Milà - A Formação da Mentalidade Americana

por Ernesto Milà



Foi assim como, pouco a pouco, cobrou forma o que hoje se conhece como "american way of life", o estilo de vida americano. A "Terra Prometida" só se podia alcançar através do sofrimento e do trabalho. Persistir nessa linha levaria gradualmente a um progresso indefinido cuja meta lógica era a reconstrução do Paraíso original.

Quando os impulsos religiosos iniciais se atenuaram, persistiu a idéia laica de progresso indefinido e de trabalho. O enraizamento do calvinismo nos EUA foi imediato; para essa doutrina a fortuna e o êxito constituíam o signo inequívoco com o que a divindade marcava aos escolhidos. O justo era o multimilionário, o homem de êxito, e o pária, em sua miséria aparecia como culpável contra a lei de Deus.

Tais conceitos não podiam senão terminar por fazer dos colonos algo radicalmente diferente à Metrópole. O problema teológico consistiu em explicar como o mal havia aparecido no Novo Mundo, considerado reedição do Paraíso, e inclusive como o próprio Paraíso. A explicação, de um maniqueísmo exasperante, relacionava a entrada do mal na América com a presença de colonos católicos, franceses e espanhóis, fundamentalmente. Eram eles que haviam armado os indígenas e lhes haviam incrustado seus maus hábitos. Eram eles que haviam trazido o Anticristo para a América. Os "pais peregrinos" deviam alçar um muro contra a maldade: deviam terminar a história e começar algo novo.

É desde esse ponto de vista que se pode entender a inclusão do adjetivo "Novo" em boa parte de suas fundações: "Nova Iorque", "Nova Inglaterra", "Novo Porto", "Nova Escócia", etc. Isso não era senão a traslação de um impulso interior bem arraigado na mentalidade dos colonos: se tratava de renovar o mundo.

Logo, quando cedeu o impulso religioso originário, ao se secularizar o ideal escatológico, tomaram forma as concepções de progresso indefinido e o culto à juventude. O slogan psicológico associado à sociedade americana desse século é "o país onde qualquer um pode chegar a Presidente". Por acaso Harry S. Truman não era um vendedor de camisas? E Clinton? Não é um filho de honestos burgueses médios?

Como vemos, um dos motores organizativos do americanismo foi a maçonaria, instituições que se viu também influenciada por este espírito. Ali cobraram forma lendas maçônicas especificamente americanas que destilavam idêntico espírito messiânico e regenerador do mundo. Uma delas - todavia em uso nas lojas americanas - afirma que um grupo de cavaleiros templários conseguiu alcançar as costas americanas depois da perseguição de Felipe o Belo. Levaram ali tesouros, relíquias e ritos que passariam à maçonaria local. Se chega a afirmar que os templários levaram o Graal ao Novo Mundo. Os índios não compartilhavam dessa versão...

Do Bom Selvagem e o Homem Natural

O choque com os índios foi imediato: desde os primeiros momentos da colonização existiram enfrentamentos com os "pagãos". Os índios, bem enraizados em sua concepção do mundo, não estavam dispostos a abraçar o puritanismo; seus princípios religiosos estavam fortemente enraizados em sua vida social, a conversão não teria representado só abraçar uma nova fé, mas renunciar à totalidade de seu estilo de vida.

Em 1624, Thomas Morton, advogado inglês, um dos fundadores de Massachusetts, vendia já armas para os nativos em nome do velho paganismo. Em 1629 os puritanos o prenderam depois de ter organizado uma festa do "mastro de maio", equivalente aos ritos pagãos de consagração da Árvore da Vida. Os frequentadores da festa levavam chifres de cervo e praticaram ritos orgiásticos. Queimada sua casa e preso, foi deportado para a Inglaterra; regressou em 1643 à América e preso de novo, morreu em 1647.

Thomas Morton nos põe na senda de um novo elemento que aparece em alguns coletivos da sociedade americana das origens: restos deformados de paganismo europeu, provavelmente cultos telúricos e gineocráticos que, sobreviventes durante a Idade Média, foram assimilados a ritos satânicos no velho continente. Clandestinos e ocultos na Europa, puderam se expressar com uma maior liberdade e confiança no Novo Mundo.

Os pontos de vista de Morton não variam em relação aos que deram vida aos EUA: para Morton se tratava também de recuperar em terra americana a pureza das origens. A América era a pátria do "bom selvagem" ou se se quer do "homem natural".

Apesar das atividades de Morton em favor dos índios, os quais considerava "bons selvagens", estes tiveram nos puritanos, tendência dominante da sociedade americana, a seus inimigos mais impiedosos. Os puritanos não podiam admitir que os "bons selvagens", não só desconheciam a mensagem de Cristo, senão que ademais eram impermeáveis a sua pregação.

Desde princípios do século XVII, paralela à colonização, os índios resultaram dizimados; porém não foi assim em todo o território. Só no Norte e Noroeste. É curioso constatar que durante a guerra civil, as tribos indígenas mais combativas constituíram unidades regulares de cavalaria que lutaram junto aos Confederados do sul entre os quais o puritanismo estava quase completamente ausente. Índios cherokees, seminoles, choctaws, creeks, não só aportaram seu sangue e seu valor à Confederação, senão que foram as últimas tropas confederadas a se renderem. Se sabe que as duas brigadas de cavalaria ligeira, comandadas pelo chefe cherokee Stan Watie, depuseram as armas dois meses depois que se rendeu o General Lee.

Os puritanos quiseram se adaptar ao esquema que havia criado seu fanatismo religioso: eles e não outros eram os "homens naturais", os "bons selvagens". Se rendia culto à simplicidade e se tinha à inteligência como um traço diabólico: "Quanto mais se cultiva a inteligência, mais se trabalha para Satã" expressou John Cotton. Ali onde existia um granjeiro puritano vivendo nas planícies, ali havia um homem justo. As cidades eram anatemizadas como focos de corrupção das quais os portos do velho continente eram sua visão mais extrema e decadente.

Essa concepção constitui uma das origens do antagonismo entre os Estados do Norte e do Sul que desembocaram, primeiro na guerra de independência e logo na guerra de secessão. Os colonos puritanos pensaram primeiro que a condição sine qua non para o advento do "milênio" era o retorno à pureza do cristianismo primitivo, que chocava com as forças demoníacas procedentes da Europa, com seus "cavalheiros" ociosos e viciosos, urbanos, em definitiva; se tinha à prática religiosa inglesa como o culto do anticristo.

Mircea Eliade reconhece que na marcha rumo à independência "a Inglaterra ocupa o lugar de Roma", como logo o Sul será considerado o inimigo por seu refinamento, perante o Norte que não duvidava em proclamar sua superioridade moral reconhecendo jubilosos sua inferioridade cultural. Chama a atenção como durante a guerra civil americana, as tropas de Grant, Sherman e Sheridan saquearam com singular sanha as grandes cidades do Sul. E não obstante, é rigorosamente certo que o espírito missionário, puritano e messiânico estava presente em certa medida nos estados e nas gentes do Sul. O maior dos generais sulistas, Jonathan Jackson fazia eco do mesmo espírito quando escrevia a sua esposa: "Deus quis conceder a minha brigada o papel mais importante. O digo somente para lhe informar de onde procede minha glória". E é que um dos motivos da vitória do Norte sobre o Sul foi sua homogeneidade: em efeito, o Sul era um agregado de tendências, em ocasiões, contrapostas que tinham como único elemento cimentador o ter nascido sobre um mesmo território.

A vida urbana não foi considerada com respeitabilidade senão até os últimos anos do século XIX. E ainda então a vida urbana estava sob suspeita. Quando triunfou a revolução industrial nos EUA e se criaram grandes cidades, os magnatas da indústria realizaram atividades e doações filantrópicas em uma tentativa de demonstrar que a ciência e a técnica também podiam contribuir para fazer triunfar os valores espirituais.

Enquanto isso a Europa languidescia nas convulsões prévias à derrubada do antigo regime absolutista. Os americanos eram considerados desde a Europa, especialmente pela Ilustração, como homens simples, parecidos em sua essência ao estado de infância e ingenuidade primitivas. Sua situação e hábitos contrastava com a sofisticada decadência da nobreza dos pós, peruca e rapé que detinha o poder na Europa. Essa era precisamente a virtude mais apreciada pelos puritanos: a rústica simplicidade de gentes que rechaçavam a cultura por considerá-la como demonstração de um titânico satanismo. Pode-se entender assim o ódio puritano pelos jesuítas, grandes cultivadores da inteligência posta ao serviço do Papado. Os "bons selvagens" gozavam no velho continente de uma reputação exótica alheia à mentalidade norteamericana.

Era precisamente essa opinião a que punha a salvo a Europa da influência da mentalidade americana. Ao longo do século XVIII e após uma longa guerra de emancipação, as colônias do Novo Mundo se foram libertando da metrópole. A nova sociedade ali criada, despertava certa admiração nos ambientes intelectuais europeus, não obstante, precisamente essa simplicidade primitiva constituía uma barreira incontornável para que essas concepções influíssem sobre a Europa. Eram vistos como gentes simples e piedosas, tolerantes, e os tinha como granjeiros-filósofos, homens justos que haviam erradicado o luxo, o privilégio e a corrupção; porém, contudo, não deixavam de ser algo impossível de traduzir na Europa.

Teve que chegar um homem providencial para estabelecer uma ponte entre o Novo Mundo e a Velha Europa. Esse homem foi Benjamin Franklin.

Franklin chegou à Europa com fama de homem justo, simples e sábio. A maioria de quados o retratam no último quarto do século XVIII, moderadamente calvo, ralo o pouco cabelo restante; um bom dia enquanto viajava a bordo do "Reprisal", lançou sua peruca pela borda e não a voltou a utilizar. Este fato, aparentemente banal, causou grande sensação na sociedade francesa, na qual inclusive seus representantes mais progressistas, eram incapazes de prescindir desse inútil enfeite. Viram nesse gesto uma mostra de simplicidade e pragmatismo. A anedota repetida mil vezes nos cenáculos intelectuais franceses suscitou uma corrente de simpatia pelo personagem; Franklin soube canalizar essa enxurrada de adesões em benefício dos interesses da nova nação americana e de seus ideais que difundiu na Europa com zelo missionário.

Condorcet escreveu sobre Franklin: "Era o único homem da América que tinha na Europa grande reputação... A sua chegada se converteu em objeto de veneração. Se considerava uma honra tê-lo visto: se repetia tudo o que se ouvia dizer por ele. Cada festa a que tinha por bem aceitar, cada casa onde consentia ir, esparzia na sociedade novos admiradores que resultavam outros tantos partidários da revolução americana". Voltaire disse dos quakers - uma derivação puritana - americanos que "estes primitivos são os homens mais respeitáveis de toda a humanidade". Immanuel Kant, o filósofo alemão escreveu a propósito de Franklin que "é o novo Prometeu que roubou o fogo do céu". Em 1767 conheceu Mirabeau, no curso de sua primeira viagem à Europa, um dos grandes animadores da futura Revolução Francesa. Mirabeau o elogiou calorosamente: "Franklin é o homem que mais contribuiu a estender a conquista dos direitos do homem sobre a terra". O historiador Bernard Fay reconhece a importância que teve na gestação da Revolução Francesa: "Todo o grupo de futuros revolucionários se encontra em torno a ele: Brissot, Robespierre, Danton, La Fayette, Marat, Bailly, Target, Petion, o Duque de Orleans, Rochefoucauld". Van Doren, igualmente, lhe reconhece este papel: "Para os franceses é o líder de sua rebelião: a do Estado de Natureza contra a corrupção da ordem antiga".

Benjamin Franklin foi, sem dúvida, o difusor da Revolução Americana na Europa. Certamente alguns de seus valores coincidiam com os do Enciclopedismo, porém este não deixava de ser uma idéia filosófica, pelo demais muito bem considerada pela monarquia (D'Holbach, um dos grandes enciclopedistas franceses chamava Luis XVI - posteriormente guilhotinado - "Monarca justo, humano, benéfico; pai de seu povo e protetor do pobre"). Ao enciclopedismo faltava um modelo de sociedade alternativo ao "antigo regime", algum lugar onde se tivesse ensaiado e mostrasse sua capacidade para vertebrar um novo modelo de organização social. A partir da chegada de Franklin a Europa, o fermento revolucionário adquiriu um modelo e um exemplo a seguir.

Porém a prontidão com a que foi conhecido Franklin nas Gálias é inconcebível se fazemos abstração de um elemento capital: a pertença do missionário americano à franco-maçonaria e a excepcional importância que tiveram as lojas maçônicas no fermento de idéias intelectuais e nos primeiros momentos da Revolução Francesa.

O partido maçônico é tanto o partido da revolução americana como o da revolução francesa.


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