terça-feira, 13 de novembro de 2012

A Antártida e o Mito Lovecraftiano

por Sergio Fritz Roa


A Antártida é um daqueles locais de nosso planeta que mais tardou para se converter em outro objeto da cobiça do homem. Seus mistérios e perigos exerceram seu influxo poderoso sobre intrépidos aventureiros do passado, porém seus feitiços superaram os oceanos do tempo e invadiram a alma de alguns modernos exploradores que não trepidam em aceitar o desafio que lhes arroja o Continente Gelado. Estes personagens tiveram que se enfrentar com mistérios de velha data, utilizaram ferramentas incomuns de exploração para penetrar em sua Verdade, se servindo talvez da Literatura e do universo mágico dos sonhos. Eles ultrapassaram, inclusive, os umbrais da consciência ordinária para acessar um estado de superconsciência. E tudo isso, para desenterrar obscuros arcanos e lançar luz sobre um lugar físico e espiritual tão distinto a qualquer outro que nos parece uma região não-terrestre.

Quem são estes aventureiros? São três magos que trazem seus feitiços desde sua antiga terra, são poetas e narradores aos quais conheceremos por seus nomes atuais: Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Miguel Serrano. Três gênios literários, três sonhadores de sonhos impossíveis, três colossos que narraram outra vez os mitos de antanho. Três buscadores do Graal na Antártida. Entre eles, o mais importante para este trabalho em particular é, certamente, H.P. Lovecraft. Ele será o fio condutor de nossa aventura, a qual comprometeu o espírito dos que realizaram este ensaio e implicará o de todos nossos leitores.

Lovecraft será quem assinalará, com sua tocha, o caminho e nos alertará dos terrores que, entocados, acossam ao viajante.

Edgar Allan Poe

"As Aventuras de Arthur Gordon Pym" ou, em tradução de Julio Cortázar, "Narrativa de Arthur Gordon Pym", é um romance que carece daquela grandeza da pluma de Poe que encontramos em seus contos inesquecíveis como "A Queda da Casa de Usher", "Ligéia" e "Manuscrito encontrado em uma Garrafa". Não obstante, não carece desse elemento que distingue tanto sua obra: o mistério. Sem embargo, este, curiosamente, não se encontrará senão até o desenlace dessa narrativa, a qual ocorre de ser qualificada, por alguns críticos, como lenta e frouxa. Em efeito, enquanto que a maior parte do desenvolvimento da Narrativa de Arthur Gordon Pym - talvez dois terços do romance - carece de vitalidade e emoção, a última fração se mostra como um giro incrível que rompe com a monotonia do relato, para se transformar em um oceano de mistério, assim como misteriosas são as águas antárticas. Este fato comoveu os estudiosos da obra de Poe e promoveu um longo debate onde não se consegue ainda formular uma resposta.

O tema do romance, a grosso modo, consiste em uma longa viagem por mar que culmina nos brancos gelos do extremo sul. Ali os viajantes se encontram com aborígenes negros, um povo desconhecido para o homem branco, cuja condição provocará nestes uma complexa confusão de sentimentos opostos, onde a atração e a repulsão se mesclam. As últimas páginas são uma corrida suicida que parece não levar a outra parte que ao terror do vago, a um redemoinho demencial cujo fim não se encontra em nenhum centro nem em nenhum vértice. As respostas são demasiado tímidas, quase ingênuas; os mistérios estão por se decifrar, porém jamais se logra revelá-los; pois, ao final da Narrativa de Arthur Gordon Pym, Poe começa outra história, outro relato. Uma história que, certamente, jamais escreverá...

Porém neste mar de dúvidas e de névoas indefinidas, há um mistério que, no desenlace, se decifra. A saber; Poe nos assinala aquilo que provoca terror nos negros: temiam o branco, a ausência de toda cor que preenchia toda aquela região e ao desesperado grito de Tekeli-Li, pois é o presságio nefando de sua pronta manifestação. Mas, o mistério logo voltará a nos cobrir com seu manto: Uma terrível visão, a última imagem do romance, será a emersão de um gigante branco "cujas proporções eram muito maiores que as de qualquer habitante da terra", visão aterradora que fulmina ao negro Nu-Nu. Quem é este ser? Qual é a origem misteriosa de Nu-Nu e dos outros aborígenes? Qual é a alegoria que se oculta no medo ao branco? O que nos quis dizer Edgar Allan Poe com tudo isso?

As perguntas galopam velozmente, como malditas estrelas fugazes. Uma leitura profunda da Narrativa de Arthur Gordon Pym, centrada naqueles sinais com maior denotação, talvez nos assinale o caminho correto. Uma leitura que assuma a análise comparativa como uma de suas regras mais imperativas. Este é o caminho que decidimos fazer nosso neste ensaio e, certamente, nesse apartado sobre Poe e seu estranho romance.

Não cabe dúvidas de que a essência do mistério da Narrativa reside no seguinte: o branco como fonte de terror. Eis aqui o elemento que faz dessa obra algo mais que um simples romance. Muito mais, sem dúvida, pois nos obriga a realizar uma interpretação metaliterária, esotérica. Veremos, então, o significado do branco no código de Poe e em seu romance. Porém antes devemos conhecer o significado dessa não-cor conforme a hermenêutica tradicional (René Guénon) e a interpretação de um companheiro de ofício de Poe: Herman Melville.

Primeiro: Existe um confronto entre branco e negro. A explicação mais frequente que se dá a respeito, nos diz René Guénon, tem direta relação com a luz e as trevas, o dia e a noite; quer dizer, o confronto entre os opostos complementares.

Segundo: A oposição não é absoluta, já que branco e negro tem a mesma origem. Não haveria dualismo, "pois se tais dualidades existem real e verdadeiramente em sua ordem, seus termos não deixam por isso de se desviar da unidade de um mesmo princípio". Isso adquire clareza quando pensamos no símbolo de ying-yang. Nesse, ainda que as cores pareçam se enfrentar, notamos que dentro de cada zona de domínio de uma cor se encontra presente a cor contrária.

Terceiro: Negro e Branco são expressões do Não-Manifesto e do Manifesto, respectivamente. Não obstante, essa regra tem exceções e, às vezes, nos encontramos na situação inversa; ou seja, onde o negro corresponde ao Manifesto e o branco ao Não-Manifesto. A Antártida, segundo nosso juízo, seria um desses casos excepcionais. O branco polar é o Não-Manifesto, o véu que esconde o Segredo.

Em relação ao prosista Herman Melville, norteamericano como Poe e Lovecraft, devemos considerar sua obra "Moby Dick, a Baleia Branca", como um dos romances ocidentais mais simbólicos e misteriosos dos que já se escreveram. Seu capítulo "A Brancura da Baleia" nos ajudará a comprovar nossa hipótese e a resolver o caráter esotérico do branco, assunto de vital importância para esse artigo. Este capítulo é uma soma de pensamentos em relação ao branco daquela baleia e às emoções que este provoca. O princípio sobre o qual se sustenta Melville é o mesmo sobre o que se baseiam as ideias de Poe e Lovecraft; a saber, o medo humano em relação ao branco.

"O que me estonteava sobre todas as coisas era a brancura da baleia". Curiosa pode nos parecer essa citação de Melville, mas somente se nos detemos aqui e não continuamos com a leitura desse capítulo. O autor mencionará a muitas outras bestas de branco: o urso polar, o tubarão branco, o albatroz, cuja não-cor fará com que o sangue se esfrie somente com sua presença. Assim, o narrador seguirá este mesmo caminho, para tentar responder o enigma. Com novas perguntas irá abrindo o caminho para a solução do mistério: Como é possível que essa cor que representa a espiritualidade, "o próprio véu da deidade cristã", segundo Melville, seja ao mesmo tempo um signo do mais terrível? Não se deverá este horror ao indefinido, o qual se manifesta através do branco? Não será que o branco, que implica a ausência da cor, nos assalta de improviso tocando as mais íntimas fibras de nosso ser?

O branco, podemos concluir da leitura da obra de Melville, ao significar o indefinido, e quiçá também o dual, que não são sinônimos, representa, em definitivo, o misteriosos por antonomasia. E daí vem o medo que o branco provoca em nós, pois nos encontramos perante um véu misterioso que oculta outros mistérios.

Voltando à obra de Poe, recordaremos que o branco causa o medo dos habitantes de Tsalal, ilha próxima à Antártida, ocupada por indígenas de pele negra. Não importa se se trata de um simples pano branco ou de um inofensivo pó branco, o que seja, a reação de horror dos negros não tardava em chegar.

Na página final da tragédia de Pym lemos: "Muitos pássaros gigantescos, de uma brancura fantasmagórica, voavam continuamente vindo de mais além do véu branco, e seu grito, enquanto se perdiam de vista, era o eterno Tekeli-Li!". Este acontecimento causará a morte de Nu-Nu, o habitante de Tsalal, o prisioneiro de Pym. O terrível Tekeli-Li! das aves, é imitado pelos índios cada vez que se encontram diante da presença do branco ou quando estão muito próximos a sua poderosa influência. Os pássaros serão os mensageiros de Deus: recordemos a importância desses no relato bíblico de Noé. eles anunciarão o último terror para os negros: virá figurado no Gigante Branco.

Em síntese, o branco antártico no romance de Edgar Allan Poe é um símbolo de terror e, por conseguinte, de mistério. Porém que significado poderia ter o branco no âmbito do código moral e social do próprio autor? Sidney Kaplan e Julio Cortázar, acreditam ter uma resposta: A luta entre o branco e o negro que se representa em "Narrativa de Arthur Gordon Pym", é uma manifestação do pensamento racista de Poe. "Poe não dissimulou jamais suas opiniões em favor da escravidão", dirá o argentino.

Porém como tornar coerentes as ideias raciais de Poe com a arquitetura de seu romance? Por certo não é difícil: a viagem da Jane Guy (embarcação que resgata a Pym e seus companheiros do naufrágio de seu navio anterior, o Grampus) representa o esotérico caminho em direção ao branco, símbolo da pureza. Quanto mais ao sul se adentram os navegantes, o branco impõe com mais força sua presença e seu mistério. Quanto mais próximo à Antártida - recordemos seu outro nome: o continente branco - Pym se encontra mais próximo ao símbolo aristocrático por excelência.

Não obstante, essa viagem iniciática não está isenta de perigos e dificuldades. A carnificina em que são vitimados os homens da Jane Guy às mãos dos furibundos negros, são somente algumas das perigosas provas pelas quais deve passar o peregrino que vai por esse caminho solitário.

Como signo de proximidade ao sagrado e desde a perspectiva racista de Poe, seguimos analisando essa aproximação ao extremo final do Continente Branco. A medida em que o viajante se aproxima ao Centro do Pólo, vai experimentando um aumento gradual da temperatura - ou seja, na medida em que nos encontramos mais próximos ao centro do centro, as forças hostis da natureza vão perdendo o poder de sua influência. E ainda que este dado anotado por Poe em seu relato possa hoje parecer de escasso valor científico, o certo é que não estava longe da experiência que pode ser constatada pelos sentidos de algum viajante antártico. Como exemplo citamos o curioso fenômeno dos "Oásis da Antártida" onde a água alcança uma temperatura comparativamente mais elevada que o resto das águas antárticas. Conhecia este fenômeno Edgar Allan Poe? Se pudesse nos responder, talvez o faria da mesma forma que Lovecraft quando lhe perguntaram se havia viajado alguma vez a Paris: "Sim, em meus sonhos".

Poe pensava, sem dúvida, da mesma forma: recordemos sua bela frase: "Toda certeza está em meus sonhos".

Um último dado quanto a Poe e sua posição frente aos negros. Se especula que seu gosto pela narrativa do medo nasce com as histórias que escutava dos escravos na cozinha de sua casa quando era uma criança: "E esses temores lhe haviam inculcado os negros e negras escravos de seu tutor, nos relatos de aparecidos que constantemente tinham na boca, e que a criança Edgar ia escutar na cozinha". Inclusive, Hervey Allen, cuja opinião é citada por Ferrari, assegura que a influência narrativa dos negros sobre Poe é ainda maior pois a musicalidade de sua composição literária - os ritmos, complicados e cheios de matizes - é, de certa forma, uma imitação dos cânticos dos escravos".

Seja ou não certo, é importante considerar essas opiniões como hipóteses, as quais podem nos ajudar a lançar luzes no caso de Poe.

Seguindo muito próximo ao genial Poe, após o mistério que aqui nos interessa, encontramos a pessoa de outro mago, o chileno Miguel Serrano.

Miguel Serrano - Os Gigantes

O Mito Antártico adquire força incontida na literatura do poeta, escritor e viajante Miguel Serrano, criador de textos mágicos como "Nem por Mar nem por Terra", "A Serpente do Paraíso", "Quem Chama nos Gelos", "O Círculo Hermético", "Ele-Ella, Livro do Amor Mágico", "Nietzsche e a Dança de Shiva" e "As Visitas da Rainha de Saba", com prólogo de C.G. Jung.

Dizem relação com a Antártida dois de seus trabalhos mais interessantes: "A Antártida e outros Mitos", de 1948 e "Quem Chama nos Gelos", 1957.

O primeiro deles é a transcrição de uma série de conferências ditadas em Chile pelo autor e ex-diplomata. Seu frontispício é revelador: um desenho de um gigante bicorne alado emergindo das brancas neves e portando um tridente. Desde o começo, Serrano faz gala do sincronismo que mantém com Poe.

O tema dessas conferências é o Mito em relação com a Antártida, e nos damos conta de que o título do texto, como diz Erwin Robertson, assinala que "a Antártida é um mito". Serrano relacionará numerosas lendas em referência ao tema que nos ocupa: os belos relatos dos onas (antigos habitantes da Terra do Fogo), a lenda da Virgem dos Gelos, o continente de Lemúria, o gigante de Poe e, ainda, a atrevida ideia de que Adolf Hitler mora no frio antártico. E ainda que à simples vista pareça não existir relação alguma entre cada uma dessas; as há, posto que todas essas lendas se referem aos misteriosos moradores da Antártida. Eis aqui outro ponto onde conflui o pensamento desses três autores. Serrano conhece o relato de Poe e assinala em relação ao Gigante Branco: "É que Poe conhecia a lenda dos selcnam sobre os Jon que habitam na Ilha Branca". "Sabia também do Prisioneiro da Antártida, que vive em seu fundo negro, e que certamente por isso mesmo se vê branco"?

Para entender quem eram os Jon e a que se refere Serrano quando fala de Ilha Branca, se recomenda ler a página 25 de "A Antártida e Outros Mitos", onde explica que os antigos onas (os sélcnam eram somente uma tribo ona) acreditavam na existência dos Jon: humanos de casta aristocrática dotados de faculdades sobrenaturais e possuidores dos Mistérios. "Foram os Jon, magos sélcnam da Terra do Fogo, os que conservaram os segredos ensinados por Quenós e os que ainda se imortalizam se embalsamando dentro dos gelos do sul, para ressuscitar renovados no mais longínquo futuro. Dizem também os sélcnam, que é no Sul, além, nessa "Ilha Branca que está no Céu" onde moram os espíritos de seus antepassados, fazendo uma vida livre de preocupações".

Serão esses espíritos ancestrais Os Antigos, mencionados por Lovecraft? Será a Antártida aquela Ilha Branca da qual falavam as velhas lendas onas?

Serrano, que foi um dos primeiros chilenos a conhecer a região antártica, dá conta da relação entre esse lugar e a loucura. E assinalamos, por nossa parte, que o título do inesquecível romance de Lovecraft, Nas Montanhas da Loucura, não se deve a um capricho ou a uma ocorrência engenhosa para chamar a atenção de alguns leitores enfebrecidos.

Serrano dirá que a única via para compreender essa realidade austral, ou melhor, para se salvar da loucura que ali espreita, é o Sonho, e o mundo dos sonhos é um elemento clássico da narrativa de H.P. Lovecraft.

A inquietante possibilidade de que exista uma entidade não-humana na Antártida, se registra também nas páginas do texto do autor chileno. O sincronismo entre esses dois escritores nos deixa assombrados, acima de tudo porque Miguel Serrano desconhecia a obra de Lovecraft quando escreveu "A Antártida e Outros Mitos". Citemos, então, Serrano, que com sua arte nos lembra os velhos alquimistas: "Não obstante, nesse continente do repouso e da morte alguém vive. Um prisioneiro se agita, tendo por meio habitável o fogo ardente e eterno". Essa ideia de Serrano se plasma também em outro texto do mesmo autor: "Quem Chama nos Gelos".

Eis aqui um parágrafo de terrível beleza: "Eu vi a esse ser, esse Anjo Negro: aí, em seu recinto do Pólo Sul. É em uma imensa cavidade escura onde reside... Espaços enormes, sem limites, levianos e deprimentes ao mesmo tempo, que se estendem, com segurança, pelo interior psíquico da terra, debaixo dos gelos eternos. E assim se move o Zinoc... Ascende ou descende, até o extremo dessa cavidade e, desde aí, se arroja a uma velocidade vertiginosa em demanda de seu outro extremo, de seu final inalcançável. Toda a eternidade passou nesse esforço, caindo de cabeça, tratando de alcançar o lugar antipódico do qual foi proscrito no início mesmo da criação. O norte é seu sonho, seu desejo profundo e seu maior sofrimento". Lovecraft, por sua parte, em seu romance escreverá algo revelador: "Se fundaram novas cidades terrestres, as mais importantes delas no Antártico, já que aquela região, cenário de sua chegada, era sagrada. A partir de então, o Antártico foi como antes o centro da civilização dos Antigos, e todas as cidades construídas ali pela prole de Cthulhu foram destruídas". Mais adiante, o narrador do romance de Lovecraft indicará que os mapas encontrados na velha cidade polar mostram que as cidades dos Antigos na época pliocênica se encontravam em sua totalidade, por baixo do paralelo 50 da latitude sul. Essas referências de ambos autores são fundamentais, porque nos indicam a oposição simbólica entre Pólo Norte (ou a mítica Hiperbórea) e Pólo Sul, sede dos Antigos. Essa oposição não responde somente a uma diferença de caráter geográfico, senão que, acima de tudo, a diferenças espirituais. Em efeito, o Pólo Norte é o pólo positivo - em termos cristãos, o Bem - e o Pólo Sul - desde a mesma perspectiva, o Mal. Não obstante, esses opostos, conforme os princípios da filosofia maniquéia, se complementam. Ambos pólos mantém a Ordem na Terra, regulam o bom funcionamento energético de nosso mundo. A única possível diferença diz relação com o tipo de energia que irradiam ditos lugares, pois em verdade são centros energéticos. Esse conhecimento que se expressa através da literatura moderna (Lovecraft e Serrano), que diferencia os centros volitivos terrestres, concorda ponto por ponto com o pensamento antigo ou tradicional que ensinaram os mestres indo-europeus, para os quais as palavras que nomeiam os distintos lugares sagrados são: Céu, Terra ou Mundo, Meio e Inferno. O Céu, para eles, é a morada dos heróis, aqueles que viveram a vida tal como se deve, e corresponde a Hiperbórea ou nosso Pólo Norte; a Terra é o lugar habitado ou terreno de expedições e viagens, eles a identificavam com Ásia ou Europa. O Inferno, que era o lar dos demônios - os Antigos e os Shoggoths - parece não ter sido descrito e situado com tanto detalhe e precisão pelos antigos sábios indo-europeus. Esse Inferno é para nós o Pólo Sul.

Em "Quem Chama nos Gelos", Serrano relata um sonho, no qual um misterioso ser lhe diz: "A imortalidade se logra entre os gelos - me respondeu - e se consegue gelando-se. Não sou ninguém, nem nada posso fazer agora. Teu grande combate será com o Anjo das Sombras". Serrano destaca acima de tudo os mitos onas em suas conferências sobre os Mitos da Antártida, para nos proporcionar uma chave para decifrar os arcanos ocultos: "Foi Quenós quem começou a criar a terra, de cima para baixo. Porém antes, com argila branca modelou aos Hohuen, seres gigantescos e transparentes como anjos. Apenas criados, os Hohuen começaram a lutar entre si. Não obstante, não podiam morrer". Eis aqui os mesmos traços arquetípicos dos Antigos lovecraftianos: grande tamanho, poderosos, belicosos, inumanos e imortais. A mitologia ona assinala que os Hohuen (nossos Antigos) foram criados com gelo. Isso, em verdade, assinala sua origem geográfica: a Antártida.

Para finalizar, o romance de Miguel Serrano aporta um dado que é, quiçá, o fio que nos permite unir aos três autores; a saber: a relação do branco com o continente gelado. A cor neste caso não só é expressão dos gelos, senão de aspectos imateriais e filosóficos. Cortázar, como já se escreveu, seguindo nisso a Sidney Kaplan, verá nestes princípios o fundamento do racismo de Poe: "A oposição do negro como signo negativo e do branco como uma força que luta com ele e em último termo". E a propósito de racismo, devemos assinalar aqui um fato que não deixa de nos intrigar: Poe e Lovecraft sustentaram uma filosofia racista, e Miguel Serrano, sustenta hoje essa mesma filosofia. Recorde o leitor que não há casualidade, senão causalidade misteriosa.

Porém citaremos o próprio Serrano em relação à vinculação entre as cores e a Antártida: "Existe ademais uma relação entre a cor e o pólo. Os pássaros negros tendem a desaparecer desses mares e lhes é muito difícil alcançar as latitudes extremas da Antártida. Por sua vez, as aves de plumagem branca suportam o frio muito melhor". Curioso, Lovecraft também nos fala desse outro vínculo entre pássaros e cor. Em seu belo poema Antarktos, lemos:

Deep in my dream the great bird whispered queerly
Of the black cone amid the polar waste;
Pushing above the ice-sheet lone and drearly,
By storm-crazed aeons battered and defaced.
Hither no living earth-shapes take their courses,
And only pale auroras and faint suns
Glow on that pitted rock, whose primal sources
Are guessed at dimly by the Elder Ones.
If men should glimpse it, they would merely wonder
What tricky mound of Nature's build they spied;
But the bird told of vaster parts, that under
The mile-deep ice-shroud crouch and brood and bide.
God help the dreamer whose mad visions shew
Those dead eyes set in crystal gulfs below!

E já que mencionamos Lovecraft, chegou o momento de penetrarmos em seus símbolos e seus mitos.

Howard Phillips Lovecraft - O Trovador de Leng

O recluso de Providence, o mestre do horror e gênio da literatura fantástica desse século, escreverá no ano de 1931 um de seus poucos romances que se constituirá em um pilar fundamental de seu opus. Nos referimos a "Nas Montanhas da Loucura".

Escrevê-la e publicá-la foi todo um sofrimento para nosso autor. A razão: ele detestava transcrever à máquina suas narrativas, porém este era um requisito obrigatório para que qualquer conto ou romance fosse considerado para sua publicação em revistas para aficionados tais como a lendária Weird Tales. Lovecraft dirá, se referindo ao diretor da mencionada revista: "Maldito seja Wright, por rechaçar o conto que quase me mata ao mecanografá-lo!" Essa foi uma experiência dura e desagradável para Lovecraft. Não obstante, o destino não quis que seu romance passasse inadvertido, e decidiu que ao final deveria ser publicado.

Em síntese, Nas Montanhas da Loucura trata das aventuras de uma expedição científica à Antártida, porém, o protagonista, antes de iniciar seu relato, insistente em advertir aos possíveis leitores de que aquele continente não deve ser perfurado por mão alguma, para que não ocorra que se despertem horrores que não devem ser liberados.

O horror que não deve ser perturbado é a raça dos Antigos e seus escravos, os Shoggoths. Na mitologia lovecraftiana, os Antigos são horríveis divindades que desceram desde o céu e que fizeram da Antártida sua primeira base. Esses gigantes de cabeça em forma de estrela criaram o homem e também aos Shoggoths, torpes bestas de carga, submissas inicialmente, mas que mais tarde foram capazes de conduzir uma rebelião contra seus senhores. É difícil subtrair-se à tentação de comparar essa emancipação com o combate bíblico entre Deus e seus Anjos fieis contra o Primeiro Rebelde, Lúcifer ou Prometeu. Os Antigos se defenderão dessa ameaça por meio de uma arma tão devastadora como a bomba atômica. "Os Antigos utilizaram umas curiosas armas de perturbação molecular e atômica contra os entes rebeldes, e ao final abraçaram uma vitória total". Convém recordar que somente em 1945 cairá uma bomba atômica sobre Hiroshima e outra em Nagasaki. Esse caráter profético da obra lovecraftiana é outro de seus aspectos inquietantes.

A narrativa faz perturbadoras referências a um livro espantoso de saber proibido: O Necronomicon, do árabe louco Abdul Alhazred. Esse obscuro texto é um elemento central na narrativa de Lovecraft, é a fonte de sua cosmogonia e de sua teologia. O Necronomicon teria sido consultado por alguns dos membros da expedição antártica, especialmente por Danforth, que era um estudioso e "um grande leitor de temas estranhos que havia falado muito de Poe". Ademais ele era um dos poucos infortunados que teve o valor para examinar de forma exaustiva o livro condenado. Danforth, se referirá em repetidas ocasiões ao Necronomicon e fará tímidas referências sobre a possibilidade de que a obscura Meseta de Leng, aquela tenebrosa região, cuja localização nem o próprio Alhazred foi capaz de precisar, em verdade seja um antigo nome para assinalar a Antártida.

Mais que a narrativa em si mesma, a atmosfera de terror do romance está dado pela paisagem e pelo ambiente urdidos pela pena de Lovecraft. Em efeito, ele será sempre fiel a um princípio seu segundo o qual o mais importante na literatura de terror não é tanto o enredo, senão o ambiente ou a atmosfera que cria o escritor e os sentimentos e sensações nefandos que experimenta o leitor. Angela Carter, em um excelente estudo lovecraftiano, assinalará a respeito: "A Antártida de Lovecraft é a mais terrível de todas as suas paisagens. Esse reino desolado de gelo e morte, o lugar onde chegava 'a névoa e a morte' ao velho marinheiro é, ao mesmo tempo, uma versão realçada da Antártida real, e uma visão da aborrecível meseta de Leng, o teto do mundo".

Lovecraft, com a pluma de um escrito que é antes de tudo um observador atento e um psicólogo, criou de forma singular um dos ambientes mais inóspitos e mais hostis à Terra. Cada elemento do continente austral é uma adaga, uma passagem sem saída para a Morte. Alguns desses elementos estão representados pelo Vento, pela Solidão, pela Distância, pelas Lendas, pelo Gelo, pelo Odor e, certamente, pelos habitantes desse ermo, que ocultos na brancura não estão mortos, senão que esperam ser despertados de seu sonho conjurado. E como exemplo do uso magistral desses elementos, citaremos algumas linhas do romance que fazem alusão ao som do vento: "O terrível vento antártico soprava de modo intermitente, e sua cadência tinha para mim um vago som musical, semelhante ao eco de umas charamelas silvestres, que por algum motivo ignorado me parecia inquietante e inclusive ameaçador".

O título do romance se refere particularmente à gigantesca cordilheira onde se encontram as colossais ruínas das cidades dos Antigos, uma região de alturas impossíveis de alcançar pela mente e pelos sentidos de um homem normal e onde o assombroso é a regra. Adentrar naqueles lugares significa penetrar no subconsciente; eterno oceano cósmico de arquétipos: "Era como se aqueles pináculos de pesadelo constituíssem o umbral que dava passagem a esferas proibidas de sonho, a complexos abismos de tempo, espaço e ultradimensionalidade remotos".

A arquitetura lovecraftiana é um conceito desafiador e ousado que tende a levar os sentidos a seu nível máximo de resistência; justo até o ponto em que a tensão é quase insuportável e terminarão por se precipitar na escuridão de um vazio sem sensações. Este traço tão pessoal de seu estilo narrativo, o encontramos em vários de seus relatos mais sobressalentes; a saber, O Chamado de Cthulhu, A Cidade Sem Nome, e Os Sonhos na Casa da Bruxa. Em todos esses, o titânico e o grandioso é a essência do conteúdo narrativo. Ante esses edifícios formidáveis e essas esculturas anormais e inquietantes, o homem deve compreender que não é mais que um pequeno átomo, uma criatura insignificante que crê conhecer os segredos da imensidade do espaço interestelar e da vida, quando em realidade não passa de um ignorante, um grosseiro, que flutua em um amplo mar de conceitos irrelevantes, criados para fazer mais suportável sua existência.

Aqueles exploradores da fria Antártida, sentirão essa ominosa sensação de insignificância, e entre aqueles que possuem um nível mais alto de compreensão, como é o caso de Danforth, enlouquecerão. Ao final serão afogados pela terrível imensidão e a devastadora opressão da solidão nas turbulentas águas da loucura.

Outro elemento de horror é o misterioso grito que já havíamos mencionado no apartado dedicado a Edgar Allan Poe. sim, o temível Tekeli-Li! As palavras de Poe se transformam por meio da magia de Lovecraft no pássaro que avisa a morte, o mistério carregado de ameaças. Pois é o encontro com o horror mais terrível, é a voz mesma dos Shoggoths. Danforth que conhecia a obra de Poe, dirá "que estava interessado devido ao cenário antártico do único romance longo de Poe: o desconcertante e enigmático Arthur Gordon Pym". Como vemos, outra vez a literatura de Poe é o ponto de partida de autores posteriores, como Serrano e Lovecraft. Em efeito, Poe é a Chave.

Assinalados alguns aspectos primordiais do romance de Lovecraft, revisaremos a continuação de maneira detida as chaves do mistério da Antártida que se encontram nessa.

A primeira chave, que nos ajudará na compreensão de aspectos um tanto obscuros nas obras dos outros dois autores, é aquela que assinala à Antártida como o lugar onde fizeram sua entrada os Antigos. O Pólo Sul é a Porta. Desde ali as hostes luciféricas ascenderão ao Pólo Norte, em direção à mítica Hiperbórea, em um caminho de representação da ascese esotérica pelos distintos chakras corporais e que é a via da tomada do poder divino, precisamente o que o Demiurgo castigou. Serrano em uma entrevista disse: "A Terra é um astro, um ser vivo, que está aqui, que tem seus distintos órgãos, e a parte correspondente ao sul do mundo, e ao Pólo, corresponde aos órgãos sexuais". Esses dados nos permitem entender porque o cristianismo foi tão reticente em relação ao poder sexual e a energia que dele deriva. Isso se deve, como vimos recentemente, à relação existente entre energia sexual e Lúcifer. Não obstante, uma alquimia espiritual há de nos facultar transcender o plano da energia sexual pura (o orgônio de Wilhelm Reich) para transformá-la em energia do Espírito, aquilo que nos levará a esse estado de plenitude.

O Pólo Sul - que é o sexo do mundo - é a guarida dos Antigos. E ainda que hajam ocupado também outros territórios, voltarão ali para construir suas cidades. René Guénon, em uma crítica à interpretação de Eliphas Levi sobre o Inferno de Dante, diz: "Isso é certo em um sentido, posto que o monte do Purgatório se formou, no hemisfério austral, com os materiais arrojados do seio da terra quando a queda de Lúcifer cavou o abismo". Podemos afirmar, então, que o monte do Purgatório era a Meseta de Leng da qual nos fala o Necronomicon?

Essa intuição de Lovecraft para reconhecer o Pólo Sul como Porta e Guarida dos Antigos, pode provar o que muitos pensam sobre ele: era um iniciado no esoterismo. Não obstante, acreditamos que seu despertar não se deveria às generosas fontes de alguma irmandade secreta, senão a sua poderosa intuição que foi se fazendo lúcida através de suas leituras e à justa interpretação das mensagens que lhe chegavam do mundo dos sonhos.

A segunda chave, revela que a viagem externa realizada pelos homens do Arkham e do Miskatonic (os barcos que transportam os exploradores da Antártida) é também uma viagem interior. Em efeito, eles devem se enfrentar aos Cinco Elementos para chegar ao Centro do Labirinto. Essa luta nos lembra a imortal Divina Comédia, de Dante. Ambos textos descrevem muito bem as etapas do caminho iniciático. Diferem, isso sim, em que os expedicionários da Universidade de Miskatonic não resolvem o enigma da Esfinge e se precipitam no Inferno, para sofrer para sempre em sua pestilência.

A viagem ao Centro do Sul, o Pólo Sul, é a senda condutora ao Centro do Mundo Inconsciente. Daí sua dificuldade: se ver arrastado nas águas turbulentas dos sonhos, dos medos e dos traumas. Essa realidade perturbadora ficou representada nas páginas finais do romance, cenas que transcorrem em vertiginosos labirintos sob a terra, sítios onde serão descobertos o narrador e o jovem Danforth por um Shoggoth, o qual vem a significar o Minotauro, o guardião do Labirinto.

O Labirinto demanda atenção especial, porque ocupa um lugar de preferência na narrativa lovecraftiana, por exemplo: "Nos Muros de Eryx", "Encerrado com os Faraós", "A Fera da Gruta", "Os Ratos das Paredes", "Horror em Red Hook". Em todos esses relatos sempre encontraremos uma imagem do Labirinto e seus moradores. É provável que o maior número de semelhanças entre os relatos de Lovecraft possam ser encontradas no romance antártico e na Fera da Gruta. Em ambos relatos o Labirinto tem a forma de uma caverna ou se quiser, uma profunda fenda na terra. Em geral se associa a caverna com a morada de nossos primitivos antepassados, porém ademais ela possui outro significado mais justo: é o recinto onde se realiza a iniciação. "...A caverna deve formar um todo completo e conter em si mesma a representação do ciclo tanto como da terra". É o lugar da morte e da ressurreição.

Em relação ao Labirinto, um princípio fundamental é a seleção: Não é qualquer um que deve entrar ali. É uma das provas finais, aquela que mede as destrezas adquiridas no longo caminho da ascese gnóstica. É a última partida de xadrez, na qual se enfrenta com um inimigo que segue nosso avanço e que nos conhece. É o enfrentamento contra o mais terrível de nós: O Monstro.

Os antigos, como seu nome o indica, são a representação viva do mundo passado, no princípio do tempo, são a imagem daquilo que se encontra no mais recôndito de nossa mente. Os Shoggoth são a degeneração do antigo, o imperfeito ou que se encontra submetido a um processo de câmbio constante. O Branco - a grande chave do mistério antártico - é o intocável, o virginal e proibido. O Vento corresponde àquilo que é intangível, porém que não obstante existe, os murmúrios dos outros. O grito Tekeli-Li! é o terrível que se diz e repete, uma e outra vez. As titânicas construções de pedra, é aquilo que ainda que não tenha objetivo ocupa um lugar na mente; é um estorvo, uma inútil ruína que devemos deixar de lado. E o nefando Necronomicon é o lugar onde todos esses elementos tomam a forma terrível da lenda, que se perpetua mais além dos aeons e das gerações, levando consigo a mensagem dos antepassados.

Desde essa perspectiva, se pode dizer que o narrador proíbe, em termos de uma advertência, a exploração da Antártida para assinalar, na realidade, que ninguém deve atravessar o mundo do inconsciente sem estar preparado, pois poderá não voltar.

A interpretação que fizemos poderá se assemelhar à psicanálise aos olhos de alguns. Porém não é assim, porquanto toda técnica psicológica está limitada por uma visão e um pensamento parcelados e muito distantes de toda origem ou fonte primeira; portanto, nada mais distante de um esforço por lograr uma visão tradicional, que se caracteriza pelo totalitarismo, ou seja, que tenta se situar fora de todo ponto de vista: no centro mesmo do Centro. Então se trata de entender o sentido oculto desse romance desde a interpretação tradicional de René Guénon e de Evola, pois somente uma filosofia tradicional nos permite fazer uma comparação esotérica da obra de Lovecraft em relação à obra de outros autores. Alguns deles possuidores de um sólido conhecimento da Tradição e outros ignorantes dessa mesma.

Não é necessário mais do que ler para se dar conta de quais são uns, e quais os outros.

O Encontro de Três Gigantes

Os textos que revisamos estão relacionados - sem dúvida - por um mesmo tema e por um cenário único. Comprovamos que o pensamento desses três autores, coincide à mercê de uma causalidade interna que não é fácil de decifrar, porém que responde a um sincronismo universal e às fontes únicas de cujas águas eles beberam.

Uma vez concluída essa viagem à Antártida cremos que é conveniente nos sentarmos em companhia do aristocrata Edgar Allan Poe, de rosto lívido e frente ampla, e do grande Miguel Serrano, adepto do Amor Mágico. Junto a eles está comodamente sentado um dos homens mais lúcidos do século, Howard Phillips Lovecraft. Se nos aproximamos e compartilhamos de sua conversa, poderemos ouvir maravilhosas histórias de gigantes brancos, dos Hohue e dos Antigos. E se aguçarmos os ouvidos ouviremos todo um fino sussurro, um murmúrio que provém, sem sombra de dúvidas, dos frios mares antárticos.

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