por Geydar Dzhemal
(2012)
Muitas pessoas acostumadas a que o Islã político é um fator antiocidental, não conseguem aceitar a coexistência e até colaboração entre o Islão radical e a burocracia internacional, que atuam conjuntamente em alguns pontos quentes do planeta.
Lembramos que no seu dia os Estados Unidos apoiaram a resistência afegã e a sua ala internacional contra o assim chamado contingente limitado soviético. (Ali foi, por sinal, onde se criou a marca da dita “Al-Qaeda”, que não é mais do que a nomenklatura dos comandantes militares de formato internacional, que podem ser mobilizados para as atividades militares em determinados lugares).
Em geral a colaboração do Islã político com algumas forças do Ocidente, cuja ordem do dia coincidia com o vetor da política islâmica em curso, nem sequer começou ontem, mas, como mínimo no século XIX. Como marcos principais no caminho desta colaboração pode-se destacar a aliança temporal do Império Otomano com a Grã-Bretanha e a França contra a Rússia nas guerras da Crimeia e dos Balcãs (por então o Império Otomano respondia pelo Islã político na sua forma submetida ao califado); no século XX o exemplo de semelhante colaboração foi a aliança antibritânica do Islã político e o Reich alemão: a rebelião contra a ocupação britânica do Iraque do primeiro-ministro Rashid Geilani, a colaboração com Berlim do Grande Mufti de Jerusalém também contra os ingleses, por último, a presença de aproximadamente meio milhão de muçulmanos nas fileiras da Wehrmacht e das Waffen SS, incluídos não menos de 420 mil cidadãos da URSS…
Mas isso não é mais do que história. O que está a ocorrer nos começos da segunda década do século XXI?
A burocracia internacional pretende converter-se no “governo mundial” num lapso de tempo muito curto. A questão hoje coloca-se de tal maneira que no caso do sucesso todo o recurso financeiro-especulativo da economia neoliberal ficará diretamente submetido às estruturas políticas internacionais, que se libertam assim dos últimos entraves aos sujeitos soberanos do direito internacional, que no seu dia criaram estas mesmas estruturas. Por outras palavras a ONU deixará de ser a Organização das Nações Unidas que conhecemos e converter-se-á num aparelho autônomo, com a sua própria legitimidade oficial, que estará acima de qualquer legitimidade de um governo nacional (se é que reste algum). Este aparelho poderá contratar diretamente as companhias militares privadas, às quais passarão os melhores representantes dos exércitos nacionais que se estão a desmantelar; decidirá as questões de guerra e paz, sem ter em conta o direito de veto, que têm os sistemas como o Conselho de Segurança, que se estão a tornar antiquados a marchas forçadas.
Fica claro que para alcançar este objetivo, que ainda ontem parecia uma sinistra antiutopia, e hoje foi logrado pelas forças correspondentes em 60–70%, primeiro deve ser quebrada a resistência das soberanias nacionais, devem ser derrotados os bastiões reforçados com armas nucleares como a China e a Rússia – e por muito que isto surpreenda alguns observadores antiocidentais – também os EUA na medida em que o Partido Republicano ainda joga aí algum papel.
É evidente que as soberanias nacionais que compõem o variado mapa político mundial não são iguais. Além dos gigantes como os países do BRIC – Rússia, China, Brasil, Índia, - também existem países menores, ainda que influentes a nível regional. Entre eles em primeiro lugar estão o Irã, até há pouco o Egito e, por sinal, também Israel… Além disso as soberanias nacionais diferenciam-se pelas cores ideológicas das corporações burocráticas que exercem a administração nestes países. Entre as burocracias nacionais há-as que não têm nenhuma perspectiva vital fora da sua soberania, arraigada no sistema do direito internacional saído da Paz de Westfália. Isto refere-se sobretudo aos chamados países proscritos. A lista destes países é móvel como o fole do acordeão, pode alongar-se e reduzir-se, criando a melodia da ameaça dirigida aos estados ainda não controlados e não transparentes do ponto de vista do “governo mundial” em formação. Também existem outras burocracias nacionais que se encontram em estado de decomposição moral e não pensam opor-se à vontade da assim chamada comunidade internacional (sob esta deve entender-se precisamente a burocracia internacional, que inclui não somente os aparelhos da ONU, União Europeia e a NATO, mas em primeiro lugar as organizações não governamentais, no seio das quais se tomam as decisões mais importantes).
A experiência líbia demonstrou (e a síria em curso confirma-o uma vez mais), que dentro de cada burocracia nacional, condenada a ser purgada de uma ou outra maneira, sempre há um montão de funcionários de distinto ranking, desejosos de abandonar o seu lado e passar-se ao “governo mundial”, ainda que seja no papel dos funcionários designados por este último para os seus territórios de origem. A conversão em persona non grata vê-se como uma catástrofe pessoal não unicamente na Rússia por um simples motivo: a burocracia internacional já agora controla os fluxos financeiros mundiais até tal ponto que no caso de oposição direta a esta burocracia torna-se totalmente impossível para um funcionário assegurar o seu futuro pessoal e o da sua família. Dado que os funcionários, como regra, são pessoas desprovidas de qualquer ideologia, e ainda menos predispostas a um sacrifício heroico, as burocracias nacionais que se compõem deles são “exércitos” políticos derrotados de antemão. Por isso por enquanto os mais estáveis entre estes regimes são aqueles construídos de cima para baixo sobre as relações familiares de parentesco: os representantes destas administrações simplesmente não têm para onde fugir.
A burocracia internacional – o “governo mundial” em formação – com uma estratégia muito correta ensaia-se com as soberanias isoladas mais odiosas com uma massa político-militar relativamente pequena, porque no mapa político essas soberanias representam a clientela de outros patronos mais grandes. Assim, a Síria é um cliente do Irã, e, por exemplo, o Paquistão entra na clientela geopolítica da China. Os golpes contra os clientes deixam a descoberto os seus patronos, pondo nervosos e debilitando a coesão interior das suas corporações burocráticas e preparando a sua destruição.
Quanto à visão que tem o Islã político das soberanias nacionais, é muito importante o caráter secular das burocracias nacionais, assim como a obrigatória presença de um líder carismático (ou de alguém que se posicione como tal) à cabeça dessas corporações. Para o Islã político, em primeiro lugar, é inaceitável a divisão do espaço islâmico em segmentos nacionais administrativos, independentes entre si e que na sua política se guiam pelos interesses do Ocidente e das elites compradoras ao seu serviço. Os líderes carismáticos/ditadores à cabeça dos regimes seculares burocráticos que, como regra, têm uma ideologia populista, representam o que na tradição islâmica se chama tagut. O que significa a concentração da idolocracia, cuja essência é concretamente satânica. Depois do fim do califado (e para muitos representantes do Islã político o próprio califado Otomano, pelo menos desde os princípios do século XIX, tinha perdido as características do governo islâmico) o objetivo fundamental tinha consistido no derrube de todas as administrações neocoloniais e pós-coloniais, impostas com a ajuda do Ocidente nos territórios da extensão da sharia.
De modo que nos nossos dias tem lugar a coincidência muito importante, providencial de duas ordens do dia. A burocracia internacional que pretende suprimir todos os obstáculos para impor a sua exclusiva legitimidade universal, e o Islã político, que está a liquidar as administrações seculares nacionais, que por sua vez, tradicionalmente odeiam e reprimem o Islã, seguem os cursos paralelos. No plano tático têm os objetivos comuns.
O Irã é um caso à parte. A revolução islâmica neste país ocorreu quando a burocracia internacional ainda não se tinha fortalecido como força independente. Ao mesmo tempo o clero xiita estava tradicionalmente relacionado com os centros do Clube Tradicionalista, que viam os Pahlavi como usurpadores que serviam aos interesses do liberalismo estadunidense republicano. Justamente o consenso dentro do Clube Tradicionalista tinha permitido à oposição ao xá trabalhar com proveito em Londres e em Paris. No momento da revolução na Casa Branca mandava Jimmy Carter – democrata, que de alguma maneira era o proto-Obama do seu tempo, o seu “pálido” (em todos os sentidos) predecessor. É o que explica a reação estadunidense tão apática aos sucessos no Irão, assim como a indiferença com respeito à sorte do xá fugido, ao que inclusive impediram acabar os seus dias em terra norte-americana (morreu de cancro num hospital militar mexicano). Na época posterior a Carter o republicano Reagan tentou corrigir a situação utilizando o seu cliente Saddam, mas mesmo no seu estado pós-revolucionário debilmente organizado o Irão foi demais para o regime baathista, armado pelos EUA, França, URSS e alimentado com o dinheiro procedente de todas as monarquias petrolíferas árabes.
O Irã atual representa, por um lado, um exemplo indubitável de soberania nacional, por outro lado, a burocracia nacional do Irã não obedece aos liberais, sejam esses os comunistas chineses ou os republicanos dos EUA. O seu dono é o clero xiita que tem peso e autoridade nos mais altos níveis dos clubse do tradicionalismo. Por isso o Irã representa um fenômeno extraordinariamente complexo. Pode-se dizer, sem exagerar, que hoje em dia é o país mais soberano em todo o globo terrestre, no sentido de que os seus líderes sagrados não têm um dono terreno. (Nem Stalin, nem Mao podiam presumir de semelhante nível de emancipação política.)
É o que em primeiro lugar explica a rigidez da postura iraniana com respeito ao que o país tem ou não o direito de fazer. Para os líderes sagrados da estatalidade iraniana fica excluída a mesma possibilidade de que a burocracia internacional possa dobrar a República Islâmica segundo os seus caprichos.
Por outro lado a burocracia internacional não tem o apoio garantido para o enfrentamento com Teerã por parte dos seus donos do Clube Tradicionalista que estão por detrás dos bastidores. A situação à volta deste país, que se encontra no centro da Eurásia, é extremamente ambígua graças a esta configuração única que impede aplicar as soluções simples, unívocas.
Dado que o Irã constitui a única soberania nacional autêntica (independentemente de como se avalie o seu conteúdo ideológico e metafísico), também pretende colocar-se à cabeça do “despertar islâmico” – assim é como em Teerã chamam a “primavera árabe”, - apesar das diferenças e contradições inter-religiosas. Tecnicamente semelhante ambição do Irã seria perfeitamente factível, se não fosse pelo peso representado pela Síria, que se tem convertido na pedra de toque no caminho da colaboração entre xiitas e sunitas. O apoio ao agonizante regime de Damasco, indubitavelmente debilita o recurso político do Irã de hoje.
Não cabe dúvida de que o mencionado curso paralelo do Islã político e da burocracia internacional terá uma perspectiva relativamente curta. Quando todos os kaddafi e saddam do mundo encontrarem o seu, por sinal perfeitamente merecido, final o Islã político e o “governo mundial” ficarão a ambos os lados da barricada como dois inimigos principais que sobreviveram numa dura luta, condenados a enfrentar-se no último combate. O mundo estará liberto das pequenas tirânicas dos carismáticos líderes nacionais, mas a maioria dos humanos não se aperceberá deste bem, porque o lado populista das ditaduras em forma de salsichão e eletricidade gratuita ficará no passado, enquanto que no seu presente apenas haverá ruínas e guerra civil. No entanto mesmo isto será melhor do que o que traz consigo a absolutização do domínio da burocracia internacional. Do abismo da total falta de direitos e da expulsão violenta da história os povos do mundo apenas ficarão separados pela resistência organizada daquelas mesmas forças que hoje com terror taxam de radicais. O que significa que o Islã político deve alcançar o objetivo da criação do “governo mundial alternativo”, que possa dar a forma de um projeto ideológico altamente organizado à resistência mundial.
Precisamente por isso um dos objetivos não da burocracia internacional, mas dos seus donos do Clube Tradicionalista consiste em substituir o Islã político pelo “califatismo”. O projeto da reconstrução do califado é uma bomba que o poder dos clubes põe debaixo do Islã político para lhe tirar em perspectiva o eixo organizador da resistência global frente ao “governo mundial”.
