por Claude Bourrinet
(2025)
Para que haja revolução, não basta decretá-la, ou pensar que uma revolta (a dos Coletes Amarelos, por exemplo, seja suficiente), ou que uma crise económica vai empurrar a população para os seus últimos redutos (pelo contrário, uma ditadura feroz pode daí nascer e achatar qualquer sobressalto).
As revoluções nascem quando se tem um mundo a defender, ou um mundo a conquistar.
O universo diferenciado dos operários, artesãos, camponeses, dos bairros e das cidades ainda preservados da uniformidade niveladora, a manutenção de expressões culturais ricas, variadas, e não o martelar do show business audiovisual, os imaginários florescentes, e não a imposição de UM imaginário artificial e imbecil, eram o terreno favorável ao sonho e à resistência. O rolo compressor da opressão capitalista e colonialista (e os povos ocidentais americanizados são agora tratados da mesma maneira que os povos colonizados de outrora) só pode desenrolar o seu achatamento mortal sobre um caminho que o acolhe. A sociedade de massa, servil e porosa à propaganda, voraz em pobres sonhos de bêbados e se intoxicando das mentiras envenenadas oferecidas pelos charlatães televisivos, é o solo ideal para uma servidão voluntária. Arquimedes precisava de uma alavanca para levantar a Terra, os revolucionários não têm nem Terra, nem alavanca.
Pois, no que concerne justamente à "alavanca", a saber, os "mitos" (no sentido soreliano, ou seja, no final das contas, fascista, ou comunista), isto é, essas ideias-força, esses slogans, essas imagens obsessivas que cativam as multidões (ler Gustave Le Bon) já nem sequer são atuais num mundo liquefeito, flutuante, lodoso, proteico, estilhaçado, atomizado, que não dá qualquer ponto de apoio a um empurrão, ou a uma levitação bruta e dirigida por um partido de ferro. A estagnação pantanosa é o seu destino, não a vontade! Até os discursos "críticos" (na medida em que o são, pois muitas visões "rebeldes" estão tão geladas quanto as palavras ventosas do sistema englobante) se diluem no banho como nuvens de tinta. Entrámos noutra "civilização", que é – tal como o cristianismo foi a saída de toda a religião, pois tinha desencantado o mundo – a saída de toda a civilização, ou seja, de toda a ligação, seja horizontal, seja vertical. O nosso mundo é órfão, desligado, desunido, desprovido de tudo, estamos nus no seio de um universo frio, gelado, infinito, tenebroso e sem qualquer consideração pela humanidade. Deus está morto, e, por via disso, toda a ideia de revolução.
Pois Deus (mesmo quando é estatizado), é uma história, um conto, um sonho acordado, um conhecimento. Ora, não há mais narrativas. Já não se conta nada. Para se levantar, é preciso imaginar-se DEPOIS. O que fazer, uma vez os fumos dos incêndios revolucionários extintos? Que mundo construir? Que sonho erguer até ao céu? A aposentadoria aos 60 anos? Um salário mínimo a não sei quanto? Mais hospitais? Certamente... Mas eu falo, eu, das estrelas a conquistar! Não ria! Todas as verdadeiras revoluções tiveram a peito alcançar as estrelas. E não há mais estrelas.
