quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Esteban Montenegro - Pampa e Estepe

por Esteban Montenegro



Comemorando o centenário da revolução russa fazemos esta contribuição ao diálogo dos povos, em face da visita de Aleksandr Dugin à Argentina.

I


Introdução



O Ano Novo do Espírito



Universalização e Filosofia da História


A tendência à unificação do globo terrestre acontece com a força de um destino. Todos sentimos, em um primeiro momento, que se trata do impulso com que a globalização liberal-capitalista atravessa a tudo. Mas o sentimento de todos, o sentido comum, nem sempre acerta. Apear desse processo ter hoje um signo negativo, isso não quer dizer que não se possa orientar seu rumo em outro sentido. Podemos ver então, neste momento crítico, uma oportunidade. Assim o fez Perón quando antecipou que o mundo caminhava rumo à universalização. Introduziu, assim, um conceito, que tentava compreender e oferecer uma orientação para o que estava no porvir. Não se resignava o General, pois não é indefectível que o mercado feche suas mãos sobre o planeta, se tivermos a inteligência e a força para disputar o rumo das grandes integrações entre povos e nações. Aqui tentaremos seguir a linha aberta por este conceito, o processo de universalização, abrindo perspectivas para o exercício de uma geopolítica consciente que responda aos desafios da hora, para que essa hora seja a hora dos povos. A existência de cada um deles depende em grande medida do que aconteça a nível global, de grandes linhas de ação que transcendem os centros de poder local. O maior grau de autonomia passará então por participar na tomada de decisões global da forma mais ativa possível. Só assim alcançará um povo a sua própria conservação.

Esta situação nos empurra ao reconhecimento mútuo. Mas longe disso pressupor outro chamado vazio à paz mundial, necessita tomar como base o conflito e a tensão. Não é esperável que este trânsito ao continentalismo e ao universalismo seja um longo período paulatino e harmonioso, sem tropeços, como pretendeu o mito do progresso no apogeu da modernidade. Ao contrário, a universalização se mostra para nós como profundamente conflituosa porque a própria história o é; ainda que isso não signifique que não alcance em algum momento um novo equilíbrio, e a isso deve apontar. Mas para alcançá-lo, deverá lutar e perseguir sua vocação - e assim a sua própria preservação e a do resto - antes que a paz. Porque o que está em jogo aqui é a própria sobrevivência de todos e cada um dos povos, ameaçada pelo atual rumo globalista. E não obstante, esta luta pela sobrevivência tampouco é uma luta agônica de todos contra todos, como imagina a modernidade liberal. Esta luta é, também, e fundamentalmente, uma luta pelo poder mundial, pelo sentido da história universal.

sábado, 25 de novembro de 2017

Kerry Bolton - Foi o Bolchevismo um Produto do Messianismo Tradicional Russo?

por Kerry Bolton



Com o centésimo aniversário da Revolução Bolchevique em Outubro de 1917, a Rússia ainda é em grande parte produto daquele legado. Mas e quanto ao bolchevismo em si? O bolchevismo despertou forças contraditórias. Este artigo defende que a facção vitoriosa não foi a do marxismo doutrinário, mas sim que ela foi moldada pela "Rússia eterna", e metamorfoseada em algo distante do marxismo, como Trotsky e muitos outros marxistas lamentaram. Neste artigo, o bolchevismo é reexaminado como produto de uma longa tradição, focando nas opiniões do dissidente russo Mikhail Agursky.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Horacio Cagni - A Influência da História Clássica e da Guerra Antiga no Realismo Político Estadunidense

por Horacio Cagni[1]



Se bem o realismo político - tal como todo ismo - é uma expressão ambígua, no léxico político ele é um conceito central, que apela "ao modo de ser das relações de poder, consideradas independentemente dos desejos e preferências dos atores ou das teorias, mais ou menos explicitamente normativas, dos espectadores". É a realidade, então, a que opõe resistência aos desejos e pulsões subjetivas, uma realidade "que vale, apesar de sua finitude, mais que o desejado ou idealmente imaginado e, portanto, o real também é limite, dor e sofrimento" (Portinaro, 2007:18). Enquanto o realismo político, como o gnoseológico, se retrotrai à realidade - entendida de qualquer modo - , ele atribui a ela um valor positivo. Desnecessário dizer que esta escola de pensamento e de ação se nutre dos grandes ensinamentos da história.

Na atualidade existe a tendência a considerar a política externa da grande potência estadunidense, sobrevivente do mundo bipolar fenecido, como o produto de poderes indiretos que, através dos distintos componentes da constelação de poder, atuam no empíreo internacional com o embasamento puro e exclusivo da força. Não obstante, é fundamental considerar que o realismo político estadunidense, uma escola que, com altos e baixos, há duas décadas marca sua política internacional, tem bases teóricas complexas e firmes. Intelectuais relevantes como Hans Morgenthau e George Kennan antes, e Zbigniew Brzezinski e Henry Kissinger depois - muitos deles europeus emigrados aos EUA -, foram as mentes ocultas por trás do agir político de Washington no mundo. Resulta interessante relembrar outros pensadores, alguns de influência demonstrada na direita norte-americana, e outros, representantes do neoconservadorismo estadunidense atual.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Paul Antonopoulos - Venezuela: Experimento Bolivariano Falido ou Acusação Legítima de Imperialismo Americano?

por Paul Antonopoulos



Introdução

A ascensão de Hugo Chávez, um oficial militar de carreira, à presidência em 1999 viu o início do que se tornou conhecido como a revolução bolivariana após a adoção de uma nova constituição para a Venezuela. A revolução viu a redistribuição da riqueza do petróleo depois que a indústria viu uma nacionalização limitada e um pouco independente dos cartéis internacionais do petróleo. O processo foi bem sucedido, em grande parte devido às receitas recordes do petróleo na década de 2000, e viu quatro milhões de pessoas saírem da pobreza, o acesso gratuito e universal a cuidados médicos e educação para todos e a erradicação do analfabetismo.

O sucesso da revolução bolivariana viu a Venezuela sob Chávez tornar-se cada vez mais anti-americana, anti-imperialista e firmemente contra o neoliberalismo e suas instituições como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, ambos localizados em Washington DC. O seu mandato foi visto no contexto mais amplo da "maré rosa" socialista que varreu a América Latina e viu a Venezuela alinhar-se com os governos marxistas-leninistas de Fidel e depois Raúl Castro em Cuba e com os governos socialistas de Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador) , e Daniel Ortega (Nicarágua).

Chávez pressionou pela integração econômica e social da América Latina para tornar a região totalmente independente do capitalismo dos Estados Unidos (EUA). Tais projetos para integração latino-americana incluem: o estabelecimento da TeleSUR, uma rede de televisão latino-americana patrocinada pela Venezuela, Cuba, Equador, Nicarágua, Uruguai e Bolívia; O Banco do Sul, um fundo monetário e uma organização de empréstimos estabelecida pela Venezuela, Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Equador e Bolívia; A Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe (CELAC), que foi criada para aprofundar os laços e a integração desses estados e reduzir a influência significativa dos EUA sobre a política e a economia da América Latina; e talvez o mais importante, a Aliança Bolivariana para os Povos da América (ALBA), composta por Antígua e Barbuda, Bolívia, Cuba, Dominica, Equador, Granada, Nicarágua, São Cristóvão e Neves, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, e a Venezuela, e tem como objetivo que a moeda virtual SUCRE substitua o dólar americano pelas Américas, desafiando diretamente a influência e dominação dos EUA na região.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Paul Antonopoulos - Resistência, Imperialismo e Contradições na Guerra na Síria

por Paul Antonopoulos



Introdução:

O imperialismo é o mecanismo que busca controlar militarmente e economicamente o mundo. É por meio de um sistema capitalista, e da exportação de grandes corporações, que se pode impor a própria dominação sobre Estados mais fracos. O imperialismo é o que ocorre quando corporações multinacionais ou um Estado, particularmente da Anglosfera, pode extrair matéria-prima como petróleo e metais preciosos ou impor dominação econômica e militar sobre outro Estado sem ser responsável perante ninguém ou sem dividir os lucros com o povo. No entanto, isso não se reduz apenas à matéria-prima ou à dominação militar: é também é o meio pelo qual o dólar americano, em particular, seja a moeda hegemônica no planeta. Aqueles que não se encaixam nos paradigmas do comércio em dólar americano, ou em ter seus recursos naturais sob controle corporativo ocidental, se tornam alvos.

sábado, 4 de novembro de 2017

Daniele Perra - Messianismo e Imperialismo

por Daniele Perra



Contra quem combatem realmente a Rússia, o Irã, as forças lealistas e o Hezbollah na Síria? A resposta para tal questão, para respeitar o intrínseco caráter dicotômico sacro/profano da ciência geopolítica, não pode se limitar à ideia do conflito pelo controle dos recursos e dos corredores energéticos ou pela vontade norte-americana de impôr o próprio domínio sobre o Rimland eurasiático. O projeto "Grande Oriente-Médio" inaugurado no início do novo milênio pela administração Bush-Cheney, impresso na constituição do pivô geopolítico curdo como ponta-de-lança útil para a desestabilização da região, tem um precedente, substancialmente idêntico na estratégia, no Plano Oded Yinon de 1982 voltado para a realização da Grande Israel (Eretz Yisrael) nos limites esperados para o Estado hebraico pelo pai do sionismo Theodor Herzl em 1904: em outras palavras, "do rio egípcio ao grande rio, o rio Eufrates", segundo o que está escrito no livro de Gênese (15, 18-21).

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Aleksandr Dugin - As Raízes da Identidade

por Aleksandr Dugin



Para que analisemos mais corretamente uma série de novas tendências políticas relacionadas ao crescimento do fator identitário, sugiro a seguinte abordagem metodológica, que explica os três níveis da identidade coletiva nas sociedades:

1. Identidade difusa:

A maioria esmagadora dos membros de uma sociedade possui este tipo de identidade como uma percepção vaga, geralmente subconsciente, da unidade de pertencimento a um povo, uma história, um Estado, uma linguagem e religião. A identidade difusa quase nunca domina a vida cotidiana, sendo secundária, ou mesmo terciária, em relação à identidade individual. É comum que aqueles que possuem uma identidade difusa deem prioridade ao próprio "eu", ao conforto, aos sentimentos e à segurança seguido pelos de familiares e amigos – e somente depois vem um vago entendimento a respeito de sua pertença a uma determinada sociedade ou povo (ao invés de a outro). Em circunstâncias normais, a identidade difusa não requer ações específicas e é percebida de maneira fraca: seus portadores podem até não ter noção de seus conteúdos e estruturas. 

Ela só emerge em casos excepcionais: guerras, conflitos, cataclismos políticos ou, às vezes, sob a forma de uma vitória da pátria em eventos desportivos ou em alguma outra conquista significativa. A identidade difusa não impulsiona a pessoa a pertencer a um determinado partido e pode se exprimir através de cosmovisões e de ideologias muito distintas.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Aleksandr Dugin - Qual é o Sentido da Vida?

por Aleksandr Dugin



O sentido da vida está em superar os seus limites.

Eu penso que vida é dinâmica. A vida exige de todos que estão em sua esfera de influência a superação dos seus limites. Realidade como presença é uma realidade morta, ou como imobilidade, é o domínio da morte. Realidade enquanto tarefa é o domínio da vida. É por isso que eu penso que o significado da vida está em superar todas as barreiras, em todas as direções. Há apenas uma coisa, e isso é um truísmo, toda criatura minúscula, até mesmo uma molécula, pode superar algo. A questão é, a superação em todas as direções, no modelo de uma esfera (a verdadeira superação), e há a superação unidimensional, uma trajetória mais geral, mais popular, mas a superação está em todo lugar. Eu penso que só a superação esférica e ininterrupta é a verdadeira.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Alessio Mulas - Política, Liberalismo e Violência: Walter Benjamin e Carl Schmitt

por Alessio Mulas



Tornou-se célebre a carta que, em 1930, Walter Benjamin escreveu a Carl Schmitt. Omitida por Adorno na primeira edição dos Gesammelte Schriften, mas publicada mais tarde por Jacob Taubes, a carta tinha como objetivo informar ao advogado de que seus estudos, em particular Die Diktatur, lhe haviam sido de grande ajuda. [1] Mais além das relações pessoais, é interessante ver como dois pensadores nas antípodas haviam encontrado involuntariamente pontos de convergência de valor notável, e sobre estes pontos se centrará nossa breve análise. Ainda que a teoria política que se conhece com o nome de comunitarismo seja uma via pouco comentada, o certo é que as diversas formas que ela encarna tem como alvo polêmico comum o liberalismo. Para formular uma crítica comunitária é necessário, portanto, examinar a relação do direito e da política com a violência, tema dissimulado pelo liberalismo, mas que afeta à política em sua essência. É o terreno sobre o qual les extrême se touchent.

sábado, 30 de setembro de 2017

Luca Siniscalco - Pensamentos para um Novo Humanismo: A Metanoia Antropológica (Comunitarista) de Mircea Eliade

por Luca Siniscalco



Minha intervenção se desenvolve a partir de dois pressupostos teóricos essenciais, que vale a pena assinalar de imediato para evitar equívocos ou sobreposição de planos de análise heterogêneos.

Em primeiro lugar, é fundamental, enquanto elemento crítico constitutivo, assumir que não pode haver uma filosofia política sem uma prévia e coerente antropologia (seja esta descritiva ou normativa). Sem dispôr de uma ideia precisa do homem, entendido como sujeito operante em uma rede de relações interpessoais com outros atores - assunção inevitável para escapar de qualquer perspectiva niilisticamente solipsista - não pode haver uma especulação razoável sobre modelos teóricos através dos quais examinar e organizar dita ação. Estudar o homem, e fazê-lo, empregando o vocabulário husserliano, considerando não só a quantidade, mas acima de tudo sua qualidade, e portanto a via régia com o fim de elaborar uma perspectiva comunitária advertida, que não se limita a brincadeira ingênua e sentimental.

Em segundo lugar, é importante em minha opinião estender a reflexão comunitarista a autores normalmente descuidados pelos principais teóricos dessa corrente filosófica; não por cometer estéreis parricídios ou realizar forçações ideológicas, aplicando facciosamente esquemas teóricos a autores estranhos a esta corrente com o simples objetivo de exibi-los como estampas de uma nova religião secular, mas para aceitar o desafio proposto por Aleksandr Dugin quando, em seu ensaio fundador A Quarta Teoria Política [1], convida o leitor a considerar o próprio modelo não sic et simpliciter a hipóstase de uma doutrina completa, mas uma "obra aberta" com o fim de estimular, especialmente nas pars construens, as melhores mentes da cultura antimodernista, o esforço de identificar uma postura capaz de alcançar aquela superação da linha do niilismo com a qual se enfrentaram Jünger e Heidegger na famosa Sobre a Linha [2].