terça-feira, 14 de novembro de 2017

Paul Antonopoulos - Resistência, Imperialismo e Contradições na Guerra na Síria

por Paul Antonopoulos



Introdução:

O imperialismo é o mecanismo que busca controlar militarmente e economicamente o mundo. É por meio de um sistema capitalista, e da exportação de grandes corporações, que se pode impor a própria dominação sobre Estados mais fracos. O imperialismo é o que ocorre quando corporações multinacionais ou um Estado, particularmente da Anglosfera, pode extrair matéria-prima como petróleo e metais preciosos ou impor dominação econômica e militar sobre outro Estado sem ser responsável perante ninguém ou sem dividir os lucros com o povo. No entanto, isso não se reduz apenas à matéria-prima ou à dominação militar: é também é o meio pelo qual o dólar americano, em particular, seja a moeda hegemônica no planeta. Aqueles que não se encaixam nos paradigmas do comércio em dólar americano, ou em ter seus recursos naturais sob controle corporativo ocidental, se tornam alvos.

sábado, 4 de novembro de 2017

Daniele Perra - Messianismo e Imperialismo

por Daniele Perra



Contra quem combatem realmente a Rússia, o Irã, as forças lealistas e o Hezbollah na Síria? A resposta para tal questão, para respeitar o intrínseco caráter dicotômico sacro/profano da ciência geopolítica, não pode se limitar à ideia do conflito pelo controle dos recursos e dos corredores energéticos ou pela vontade norte-americana de impôr o próprio domínio sobre o Rimland eurasiático. O projeto "Grande Oriente-Médio" inaugurado no início do novo milênio pela administração Bush-Cheney, impresso na constituição do pivô geopolítico curdo como ponta-de-lança útil para a desestabilização da região, tem um precedente, substancialmente idêntico na estratégia, no Plano Oded Yinon de 1982 voltado para a realização da Grande Israel (Eretz Yisrael) nos limites esperados para o Estado hebraico pelo pai do sionismo Theodor Herzl em 1904: em outras palavras, "do rio egípcio ao grande rio, o rio Eufrates", segundo o que está escrito no livro de Gênese (15, 18-21).

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Aleksandr Dugin - As Raízes da Identidade

por Aleksandr Dugin



Para que analisemos mais corretamente uma série de novas tendências políticas relacionadas ao crescimento do fator identitário, sugiro a seguinte abordagem metodológica, que explica os três níveis da identidade coletiva nas sociedades:

1. Identidade difusa:

A maioria esmagadora dos membros de uma sociedade possui este tipo de identidade como uma percepção vaga, geralmente subconsciente, da unidade de pertencimento a um povo, uma história, um Estado, uma linguagem e religião. A identidade difusa quase nunca domina a vida cotidiana, sendo secundária, ou mesmo terciária, em relação à identidade individual. É comum que aqueles que possuem uma identidade difusa deem prioridade ao próprio "eu", ao conforto, aos sentimentos e à segurança seguido pelos de familiares e amigos – e somente depois vem um vago entendimento a respeito de sua pertença a uma determinada sociedade ou povo (ao invés de a outro). Em circunstâncias normais, a identidade difusa não requer ações específicas e é percebida de maneira fraca: seus portadores podem até não ter noção de seus conteúdos e estruturas. 

Ela só emerge em casos excepcionais: guerras, conflitos, cataclismos políticos ou, às vezes, sob a forma de uma vitória da pátria em eventos desportivos ou em alguma outra conquista significativa. A identidade difusa não impulsiona a pessoa a pertencer a um determinado partido e pode se exprimir através de cosmovisões e de ideologias muito distintas.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Aleksandr Dugin - Qual é o Sentido da Vida?

por Aleksandr Dugin



O sentido da vida está em superar os seus limites.

Eu penso que vida é dinâmica. A vida exige de todos que estão em sua esfera de influência a superação dos seus limites. Realidade como presença é uma realidade morta, ou como imobilidade, é o domínio da morte. Realidade enquanto tarefa é o domínio da vida. É por isso que eu penso que o significado da vida está em superar todas as barreiras, em todas as direções. Há apenas uma coisa, e isso é um truísmo, toda criatura minúscula, até mesmo uma molécula, pode superar algo. A questão é, a superação em todas as direções, no modelo de uma esfera (a verdadeira superação), e há a superação unidimensional, uma trajetória mais geral, mais popular, mas a superação está em todo lugar. Eu penso que só a superação esférica e ininterrupta é a verdadeira.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Alessio Mulas - Política, Liberalismo e Violência: Walter Benjamin e Carl Schmitt

por Alessio Mulas



Tornou-se célebre a carta que, em 1930, Walter Benjamin escreveu a Carl Schmitt. Omitida por Adorno na primeira edição dos Gesammelte Schriften, mas publicada mais tarde por Jacob Taubes, a carta tinha como objetivo informar ao advogado de que seus estudos, em particular Die Diktatur, lhe haviam sido de grande ajuda. [1] Mais além das relações pessoais, é interessante ver como dois pensadores nas antípodas haviam encontrado involuntariamente pontos de convergência de valor notável, e sobre estes pontos se centrará nossa breve análise. Ainda que a teoria política que se conhece com o nome de comunitarismo seja uma via pouco comentada, o certo é que as diversas formas que ela encarna tem como alvo polêmico comum o liberalismo. Para formular uma crítica comunitária é necessário, portanto, examinar a relação do direito e da política com a violência, tema dissimulado pelo liberalismo, mas que afeta à política em sua essência. É o terreno sobre o qual les extrême se touchent.

sábado, 30 de setembro de 2017

Luca Siniscalco - Pensamentos para um Novo Humanismo: A Metanoia Antropológica (Comunitarista) de Mircea Eliade

por Luca Siniscalco



Minha intervenção se desenvolve a partir de dois pressupostos teóricos essenciais, que vale a pena assinalar de imediato para evitar equívocos ou sobreposição de planos de análise heterogêneos.

Em primeiro lugar, é fundamental, enquanto elemento crítico constitutivo, assumir que não pode haver uma filosofia política sem uma prévia e coerente antropologia (seja esta descritiva ou normativa). Sem dispôr de uma ideia precisa do homem, entendido como sujeito operante em uma rede de relações interpessoais com outros atores - assunção inevitável para escapar de qualquer perspectiva niilisticamente solipsista - não pode haver uma especulação razoável sobre modelos teóricos através dos quais examinar e organizar dita ação. Estudar o homem, e fazê-lo, empregando o vocabulário husserliano, considerando não só a quantidade, mas acima de tudo sua qualidade, e portanto a via régia com o fim de elaborar uma perspectiva comunitária advertida, que não se limita a brincadeira ingênua e sentimental.

Em segundo lugar, é importante em minha opinião estender a reflexão comunitarista a autores normalmente descuidados pelos principais teóricos dessa corrente filosófica; não por cometer estéreis parricídios ou realizar forçações ideológicas, aplicando facciosamente esquemas teóricos a autores estranhos a esta corrente com o simples objetivo de exibi-los como estampas de uma nova religião secular, mas para aceitar o desafio proposto por Aleksandr Dugin quando, em seu ensaio fundador A Quarta Teoria Política [1], convida o leitor a considerar o próprio modelo não sic et simpliciter a hipóstase de uma doutrina completa, mas uma "obra aberta" com o fim de estimular, especialmente nas pars construens, as melhores mentes da cultura antimodernista, o esforço de identificar uma postura capaz de alcançar aquela superação da linha do niilismo com a qual se enfrentaram Jünger e Heidegger na famosa Sobre a Linha [2].


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Eduard Popov - Primavera Russa: A Dinâmica Sociopolítica do Movimento de Independência do Donbass

por Eduard Popov



A ascensão do movimento de protestos no Donbass (e outras regiões da Nova Rússia histórica) que resultou na proclamação das Repúblicas Populares, foi uma reação ao golpe de Estado em Kiev e às políticas russofóbicas agressivas. Não é acidente que o primeiro passo legislativo das novas autoridades ucranianas foi abolir a lei dos idiomas, ratificada em 2003 pela Verkhovna Rada em linha com a Carta Europeia para Idiomas Regionais ou Minoritários, o que efetivamente empurrou o idioma russo para fora do espaço educacional e cultural-informacional da Ucrânia. Porém, o movimento popular no Donbass no fim do inverno e na primavera de 2014 também tinha motivos mais profundos. A proclamação das repúblicas populares do Donbass foi uma reação lógica ao desmonte do Estado ucraniano como ele havia sido constituído no esquema da República Socialista Soviética Ucraniana. As novas autoridades ucranianas violaram o contrato social tácito de lealdade ao Estado existente em troca por um mínimo de direitos linguístico-culturais garantidos para as regiões "Sudeste" (Nova Rússia histórica).


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Robert Steuckers - A Perfeição da Técnica: Friedrich-Georg Jünger

por Robert Steuckers



Nascido em 1 de setembro de 1989 em Hannover, irmão do famoso escritor alemão Ernst Jünger, Friedrich-Georg Jünger se interessou pela poesia desde uma idade muito jovem, despertando nele um forte interesse pelo classicismo alemão em um itinerário que atravessa Klopstock , Goethe e Hölderin. Graças a esta imersão precoce no trabalho de Hölderin, Friedrich-Georg Jünger é fascinado pela antiguidade clássica e percebe a essência da helenidade e da romanidade antigas como uma aproximação à natureza, como uma glorificação da elementalidade, ao mesmo tempo que é dotada de uma visão do homem que permanecerá imutável, sobrevivendo ao longo dos séculos na psique européia, às vezes visível à luz do dia, às vezes escondida. A era da técnica separou os homens dessa proximidade vivificante, elevando-o perigosamente acima do elemental. Toda a obra poética de Friedrich-Georg Jünger é um protesto veemente contra a pretensão mortífera que constitui esse distanciamento. Nosso autor permanecerá profundamente marcado pelas paisagens idílicas de sua infância, uma marca que se refletirá em seu amor incondicional pela Terra, pela flora e pela fauna (especialmente insetos: foi Friedrich-Georg quem apresentou seu irmão Ernst ao mundo da entomologia), pelos seres mais elementares da vida no planeta, pelas raízes culturais.

A Primeira Guerra Mundial acabará com essa imersão jovem na natureza. Friedrich-Georg se alistará em 1916 como aspirante a oficial. Severamente ferido no pulmão, na frente do Somme, em 1917, passa o resto do conflito em um hospital de campo. Depois de sua convalescença, se matricula em Direito, obtendo o título de doutor em 1924. Mas ele nunca seguirá a carreira de jurista, logo descobriu sua vocação como escritor político dentro do movimento nacionalista de esquerda, entre os nacional-revolucionários e o nacional-bolcheviques, unindo-se mais tarde à figura de Ernst Niekisch, editor da revista "Widerstand" (Resistência). A partir desta publicação, bem como de "Arminios" ou "Die Kommenden", os irmãos Jünger inauguraram um novo estilo que poderíamos definir como do "soldado nacionalista", expressado pelos jovens oficiais que chegaram recentemente do front e incapazes de se adaptar à vida civil . A experiência das trincheiras e o fragor dos ataques mostraram-lhes, através do suor e do sangue, que a vida não é um jogo inventado pelo cerebralismo, mas um rebuliço orgânico elemental onde, de fato, os instintos reinam. A política, em sua própria esfera, deve compreender a temperatura dessa agitação, ouvir essas pulsões, navegar em seus meandros para forjar uma força sempre jovem, nova e vivificante. Para Friedrich-Georg Jünger, a política deve ser apreendida de um ângulo cósmico, fora de todos os miasmas "burgueses, cerebrais e intelectualizantes". Paralelamente a esta tarefa de escritor político e profeta desse nacionalismo radicalmente anti-burguês, Friedrich-Georg Jünger mergulha na obra de Dostoiévski, Kant e dos grandes romancistas americanos. Junto com seu irmão Ernst, ele realiza uma série de viagens pelos países mediterrâneos: Dalmácia, Nápoles, Baleares, Sicília e as ilhas do Mar Egeu.

Quando Hitler sobe ao poder, o triunfante é um nacionalismo das massas, não aquele nacionalismo absoluto e cósmico que evocava a pequena falange (sic) "fortemente exaltada" que editou seus textos nas revistas nacional-revolucionárias. Em um poema, Der Mohn (A Papoula), Friedrich-Georg Jünger ironiza e descreve o nacional-socialismo como "a música infantil de uma embriaguez sem glória". Como resultado desses versículos sarcásticos, ele se vê envolto em uma série de problemas com a polícia, pelo que ele sai de Berlim e se instala, com Ernst, em Kirchhorst, na Baixa Saxônia.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Leonid Savin - Carl Schmitt, a Rússia e a Quarta Teoria Política

por Leonid Savin



Carl Schmitt serve-se do conceito de Nomos para construir sua teoria acerca das diferentes ordens geopolíticas que se sucedem nas diferentes épocas. Reconhecendo o mérito do gênio alemão, no entanto, não podemos deixar de mencionar o fato de que ele estava naturalmente envolvido pelo paradigma científico europeu e, portanto, interpretava o conceito de Lei nestes termos. Assim, se nos dispusermos a criticar o eurocentrismo e suas raízes helênicas, seremos obrigados a iniciar uma minuciosa análise comparativa e uma revisão da teoria schmittiana. Por exemplo, do ponto de vista do eurasianismo clássico e dos filósofos russos que apelam à Ortodoxia, uma série de posicionamentos de Schmitt podem se revelar controversos. Não é por acaso que o publicista [публицист] russo, Vadim Kojinov, afirmava que tudo aquilo que é inerente ao Ocidente devesse ser definido pelo termo nomocracia (poder da lei), enquanto que as sociedades asiáticas seriam etocracias – do grego ethos (costume). Ao mesmo tempo, ele chamava Bizâncio de Estado ideocrático.

O modelo da ideocracia foi apresentado anteriormente por um dos fundadores do eurasianismo, o geógrafo Piotr Savitsky. Ele acreditava que tal sistema é caracterizado por uma cosmovisão geral e pela disposição das elites governantes de servirem a uma ideia de governo comum, que representa "o bem estar da totalidade dos povos que habitam este especial mundo autárquico."

Seguindo esta definição, a ideocracia pode parecer consoante com o Nomos de Schmitt, uma vez que invoca os grandes espaços. No entanto, seu conteúdo é diferente. Piotr Savitsky propôs uma ideocracia para a Rússia-Eurásia, onde a religião ortodoxa é dominante e onde há uma herança bizantina adaptada, principalmente por meio de um corpo teológico repleto de textos complexos e paradoxais.


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Marcelo Gullo - O Umbral do Poder

por Marcelo Gullo



O Conceito de Umbral de Poder

Para entender com maior precisão os fatores e elementos que marcam, compõem e modificam a situação dos Estados no âmbito internacional, tornando alguns Estados subordinadores e outros subordinados - uma situação que é relativa e, por natureza, cambiante - é necessário criar uma nova categoria de análise interpretativa. Essa categoria, que denominaremos "umbral de poder", não consiste em uma mera "invenção" - arbitrária ou caprichosa - mas sim um conceito operativo que nos permite expôr, de um modo sintético, uma série de parâmetros que existem e são realizados no curso da realidade histórica das nações e que determina sua situação perante outras nações.

Assim, por "umbral de poder", entenderemos de agora em diante uma quantidade de poder mínimo necessário abaixo do qual cessa a capacidade autonômica de uma unidade política. "Umbral de poder" é, portanto, o mínimo poder de que um Estado necessita para criar o estado de subordinação, em um determinado momento da história. A natureza "variável" desse umbral de poder deriva em seu momento de sua natureza histórica e relativa. Na interpretação do mundo feita a partir dessa postura do direito internacional, todos os Estados formalmente independentes são sujeitos de direito. Na Assembleia Geral das Nações Unidas, tanto a República Dominicana, Jamaica, Madagascar como Estados Unidos ou Chine tem um voto, são merecedores de um voto. Não obstante, dentro da mesma instituição que consagra a igualdade jurídica dos Estados, emerge o Conselho de Segurança para nos recordar que todos os Estados são iguais, mas que há uns que são mais iguais que outros. Diferentes do "mundo imaginado" por alguns professores de direito internacional, na área da realidade internacional - onde o poder é a medida de todas as coisas - só aqueles Estados que alcançam o umbral de poder que é utilizável nesse momento da história são verdadeiros "sujeitos" da política internacional. Os Estados que não alcançam o umbral de poder, ainda que possam alcançar grande prosperidade econômica, tendem a se converter, inevitavelmente, em "objetos" da política internacional, significando que são Estados subordinados.

O umbral de poder necessário para que um Estado não caia no estado de subordinação sempre está relacionado com o poder gerado por outros Estados que compreendem o sistema internacional. Quando uma ou várias unidades políticas incrementam consideravelmente seu poder, provocam mudanças substanciais no umbral de poder de que outras unidades necessitam para não caírem no estado de subordinação. Nesse sentido, quando a formação dos grandes Estados nacionais se produziu, Espanha em 1492, França em 1453 e Inglaterra em 1558, estes elevaram o umbral de poder, e as unidades políticas que não foram capazes de se converter em Estados nacionais, como as cidades-Estado da península italiana, progressivamente se converteram em Estados subordinados. Ao mesmo tempo, quando a Grã-Bretanha se converteu no Estado-Nação que produziu plenamente a revolução industrial - inaugurando a categoria do Estado-Nação industrial - se incrementou o umbral de poder de que outros Estados necessitavam para manter sua capacidade autônoma, isto é, para não caírem sob a subordinação britânica. As quedas de Espanha e Portugal tiveram sua origem fundamentalmente na incapacidade dessas duas unidades primeiro, em se converterem em produtores de manufaturas, e depois, em completar suas próprias revoluções industriais [1].