terça-feira, 26 de setembro de 2017

Robert Steuckers - A Perfeição da Técnica: Friedrich-Georg Jünger

por Robert Steuckers



Nascido em 1 de setembro de 1989 em Hannover, irmão do famoso escritor alemão Ernst Jünger, Friedrich-Georg Jünger se interessou pela poesia desde uma idade muito jovem, despertando nele um forte interesse pelo classicismo alemão em um itinerário que atravessa Klopstock , Goethe e Hölderin. Graças a esta imersão precoce no trabalho de Hölderin, Friedrich-Georg Jünger é fascinado pela antiguidade clássica e percebe a essência da helenidade e da romanidade antigas como uma aproximação à natureza, como uma glorificação da elementalidade, ao mesmo tempo que é dotada de uma visão do homem que permanecerá imutável, sobrevivendo ao longo dos séculos na psique européia, às vezes visível à luz do dia, às vezes escondida. A era da técnica separou os homens dessa proximidade vivificante, elevando-o perigosamente acima do elemental. Toda a obra poética de Friedrich-Georg Jünger é um protesto veemente contra a pretensão mortífera que constitui esse distanciamento. Nosso autor permanecerá profundamente marcado pelas paisagens idílicas de sua infância, uma marca que se refletirá em seu amor incondicional pela Terra, pela flora e pela fauna (especialmente insetos: foi Friedrich-Georg quem apresentou seu irmão Ernst ao mundo da entomologia), pelos seres mais elementares da vida no planeta, pelas raízes culturais.

A Primeira Guerra Mundial acabará com essa imersão jovem na natureza. Friedrich-Georg se alistará em 1916 como aspirante a oficial. Severamente ferido no pulmão, na frente do Somme, em 1917, passa o resto do conflito em um hospital de campo. Depois de sua convalescença, se matricula em Direito, obtendo o título de doutor em 1924. Mas ele nunca seguirá a carreira de jurista, logo descobriu sua vocação como escritor político dentro do movimento nacionalista de esquerda, entre os nacional-revolucionários e o nacional-bolcheviques, unindo-se mais tarde à figura de Ernst Niekisch, editor da revista "Widerstand" (Resistência). A partir desta publicação, bem como de "Arminios" ou "Die Kommenden", os irmãos Jünger inauguraram um novo estilo que poderíamos definir como do "soldado nacionalista", expressado pelos jovens oficiais que chegaram recentemente do front e incapazes de se adaptar à vida civil . A experiência das trincheiras e o fragor dos ataques mostraram-lhes, através do suor e do sangue, que a vida não é um jogo inventado pelo cerebralismo, mas um rebuliço orgânico elemental onde, de fato, os instintos reinam. A política, em sua própria esfera, deve compreender a temperatura dessa agitação, ouvir essas pulsões, navegar em seus meandros para forjar uma força sempre jovem, nova e vivificante. Para Friedrich-Georg Jünger, a política deve ser apreendida de um ângulo cósmico, fora de todos os miasmas "burgueses, cerebrais e intelectualizantes". Paralelamente a esta tarefa de escritor político e profeta desse nacionalismo radicalmente anti-burguês, Friedrich-Georg Jünger mergulha na obra de Dostoiévski, Kant e dos grandes romancistas americanos. Junto com seu irmão Ernst, ele realiza uma série de viagens pelos países mediterrâneos: Dalmácia, Nápoles, Baleares, Sicília e as ilhas do Mar Egeu.

Quando Hitler sobe ao poder, o triunfante é um nacionalismo das massas, não aquele nacionalismo absoluto e cósmico que evocava a pequena falange (sic) "fortemente exaltada" que editou seus textos nas revistas nacional-revolucionárias. Em um poema, Der Mohn (A Papoula), Friedrich-Georg Jünger ironiza e descreve o nacional-socialismo como "a música infantil de uma embriaguez sem glória". Como resultado desses versículos sarcásticos, ele se vê envolto em uma série de problemas com a polícia, pelo que ele sai de Berlim e se instala, com Ernst, em Kirchhorst, na Baixa Saxônia.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Leonid Savin - Carl Schmitt, a Rússia e a Quarta Teoria Política

por Leonid Savin



Carl Schmitt serve-se do conceito de Nomos para construir sua teoria acerca das diferentes ordens geopolíticas que se sucedem nas diferentes épocas. Reconhecendo o mérito do gênio alemão, no entanto, não podemos deixar de mencionar o fato de que ele estava naturalmente envolvido pelo paradigma científico europeu e, portanto, interpretava o conceito de Lei nestes termos. Assim, se nos dispusermos a criticar o eurocentrismo e suas raízes helênicas, seremos obrigados a iniciar uma minuciosa análise comparativa e uma revisão da teoria schmittiana. Por exemplo, do ponto de vista do eurasianismo clássico e dos filósofos russos que apelam à Ortodoxia, uma série de posicionamentos de Schmitt podem se revelar controversos. Não é por acaso que o publicista [публицист] russo, Vadim Kojinov, afirmava que tudo aquilo que é inerente ao Ocidente devesse ser definido pelo termo nomocracia (poder da lei), enquanto que as sociedades asiáticas seriam etocracias – do grego ethos (costume). Ao mesmo tempo, ele chamava Bizâncio de Estado ideocrático.

O modelo da ideocracia foi apresentado anteriormente por um dos fundadores do eurasianismo, o geógrafo Piotr Savitsky. Ele acreditava que tal sistema é caracterizado por uma cosmovisão geral e pela disposição das elites governantes de servirem a uma ideia de governo comum, que representa "o bem estar da totalidade dos povos que habitam este especial mundo autárquico."

Seguindo esta definição, a ideocracia pode parecer consoante com o Nomos de Schmitt, uma vez que invoca os grandes espaços. No entanto, seu conteúdo é diferente. Piotr Savitsky propôs uma ideocracia para a Rússia-Eurásia, onde a religião ortodoxa é dominante e onde há uma herança bizantina adaptada, principalmente por meio de um corpo teológico repleto de textos complexos e paradoxais.


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Marcelo Gullo - O Umbral do Poder

por Marcelo Gullo



O Conceito de Umbral de Poder

Para entender com maior precisão os fatores e elementos que marcam, compõem e modificam a situação dos Estados no âmbito internacional, tornando alguns Estados subordinadores e outros subordinados - uma situação que é relativa e, por natureza, cambiante - é necessário criar uma nova categoria de análise interpretativa. Essa categoria, que denominaremos "umbral de poder", não consiste em uma mera "invenção" - arbitrária ou caprichosa - mas sim um conceito operativo que nos permite expôr, de um modo sintético, uma série de parâmetros que existem e são realizados no curso da realidade histórica das nações e que determina sua situação perante outras nações.

Assim, por "umbral de poder", entenderemos de agora em diante uma quantidade de poder mínimo necessário abaixo do qual cessa a capacidade autonômica de uma unidade política. "Umbral de poder" é, portanto, o mínimo poder de que um Estado necessita para criar o estado de subordinação, em um determinado momento da história. A natureza "variável" desse umbral de poder deriva em seu momento de sua natureza histórica e relativa. Na interpretação do mundo feita a partir dessa postura do direito internacional, todos os Estados formalmente independentes são sujeitos de direito. Na Assembleia Geral das Nações Unidas, tanto a República Dominicana, Jamaica, Madagascar como Estados Unidos ou Chine tem um voto, são merecedores de um voto. Não obstante, dentro da mesma instituição que consagra a igualdade jurídica dos Estados, emerge o Conselho de Segurança para nos recordar que todos os Estados são iguais, mas que há uns que são mais iguais que outros. Diferentes do "mundo imaginado" por alguns professores de direito internacional, na área da realidade internacional - onde o poder é a medida de todas as coisas - só aqueles Estados que alcançam o umbral de poder que é utilizável nesse momento da história são verdadeiros "sujeitos" da política internacional. Os Estados que não alcançam o umbral de poder, ainda que possam alcançar grande prosperidade econômica, tendem a se converter, inevitavelmente, em "objetos" da política internacional, significando que são Estados subordinados.

O umbral de poder necessário para que um Estado não caia no estado de subordinação sempre está relacionado com o poder gerado por outros Estados que compreendem o sistema internacional. Quando uma ou várias unidades políticas incrementam consideravelmente seu poder, provocam mudanças substanciais no umbral de poder de que outras unidades necessitam para não caírem no estado de subordinação. Nesse sentido, quando a formação dos grandes Estados nacionais se produziu, Espanha em 1492, França em 1453 e Inglaterra em 1558, estes elevaram o umbral de poder, e as unidades políticas que não foram capazes de se converter em Estados nacionais, como as cidades-Estado da península italiana, progressivamente se converteram em Estados subordinados. Ao mesmo tempo, quando a Grã-Bretanha se converteu no Estado-Nação que produziu plenamente a revolução industrial - inaugurando a categoria do Estado-Nação industrial - se incrementou o umbral de poder de que outros Estados necessitavam para manter sua capacidade autônoma, isto é, para não caírem sob a subordinação britânica. As quedas de Espanha e Portugal tiveram sua origem fundamentalmente na incapacidade dessas duas unidades primeiro, em se converterem em produtores de manufaturas, e depois, em completar suas próprias revoluções industriais [1].


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Alain de Benoist - Jünger & Drieu La Rochelle

por Alain de Benoist



Nos seus Pariser Tagebücher [Diários Parisienses], Ernst Jünger se refere a seus encontros na Paris ocupada com Pierre Drieu La Rochelle (por exemplo, em 11 de outubro de 1941 e em 7 de abril de 1942). Drieu era então o editor-em-chefe da revista La Nouvelle Revue française, publicada por Gallimard. Às quintas-feiras, Jünger usualmente ia ao salão literário de Florence Gould, ao qual ele foi introduzido por Gerhard Heller, e onde ele conheceu Paul Léautaud, Henry de Montherland, Marcel Jouhandeau, Alfred Fabre-Luce, Jean Schlumberger, Jean Cocteau, Paul Morand, Jean Giraudoux, e muitos outros. Depois, Jouhandeau se lembraria dele como "um homem muito simples, de aparência muito jovem, com rosto delicado, e que usava roupas civis, com gravata borboleta". [1]

Em 16 de novembro de 1943, Jünger notou em seu diário que ele havia visto novamente Drieu La Rochelle no Instituto Alemão de Paris, então dirigido por Karl Epting. Ele lhe disse que eles haviam "trocado fogo em 1915. Foi perto de Godat, a aldeia em que Hermann Löns caiu. Drieu também recordou o sino que soava as horas ali: nós dois o havíamos ouvido". Muitos anos depois, em suas discussões com Antonio Gnoli e Franco Volpi, Jünger, agora já com 100 anos de idade, recordou essa memória novamente: "Quando nos encontrávamos, nós usualmente falávamos sobre nossas experiências da Primeira Guerra Mundial: nós havíamos combatido na mesma zona do front, ele do lado francês, eu do lado alemão, e ouvíamos, em lados opostos, o som dos sinos da mesma igreja". [2]

Não deveria surpreender que estes dois homens haviam se aproximado de início por suas memórias da Grande Guerra. Ela marcou ambos mais profundamente que qualquer outra coisa, como com muitos homens de sua geração. Mas entre Jünger e Drieu La Rochelle, houve muitos outros pontos em comum. Profundamente impressionados com a leitura de Nietzsche, ambos aspiravam a uma aventura africana em suas juventudes: Jünger se alistou na Legião Estrangeira Francesa, enquanto em 1914 Drieu requisitou ser designado para os rifleitos marroquinos (em ambos os casos, a experiência foi breve). Acima de tudo, ambos os homens foram teóricos políticos além de escritores, simultaneamente no caso de Drieu, sucessivamente no de Jünger. Ambos poderiam ser justificadamente descritos, em um ponto ou outro de suas vidas, como "nacional-revolucionários". Ambos, finalmente, foram incontestavelmente conservadores revolucionários, ávidos por salvguardar valores que eles consideravam eternos, mas ao mesmo tempo conscientes de que o advento do mundo moderno criou abismos através dos quais era impossível retornar. Ainda assim, apesar de tudo isso, muitos coisas os separavam.


terça-feira, 29 de agosto de 2017

Julius Evola - Teologia do Estado Nacional

por Julius Evola



(1935)

Resulta conhecido o nome de Wilhelm Stapel. O mesmo publicou recentemente um ensaio muito agudo em relação à crítica da teoria racial (janeiro de 1935). Acreditamos ser interessante dar a conhecer agora algo desse pensador. Ele é o autor de muitas obras de filosofia política e religiosa, conjuntamente com A.E. Günther dirige a revista Deutsches Volkstum e é por certo uma personalidade de primeiro plano na Alemanha contemporânea. A corrente à qual ele se remete tem um caráter espiritual e tradicional, e isso a distingue claramente daquelas formas em grande medida exaltadas e desequilibradas do nazismo racista e paganizante. Recentemente Stapel entrou na luta e demonstrou coragem na defesa da figura de Carlos Magno. Quiçá nem todos os leitores sabem que na Alemanha se desencadeou um processo verdadeiro e próprio contra Carlos Magno, ao qual se acusa de ter traído a causa nórdica, de ter submetido a ideia nórdica à romana, de ter massacrado os núcleos mais puros dos nórdicos, os saxões, em razão de seu fanatismo religioso, e assim sucessivamente: de modo tal que na Alemanha não se diz mais Carlos Magno, mas Carlos o Franco. Se bem vários professores se viram destituídos de sua cátedra por terem defendido Carlos Magno, ainda assim Stapel não hesitou em tomar parte em tal polêmica se declarando positivamente a favor dessa grande figura histórica.

Dar a conhecer as ideias político-espirituais de Stapel é interessante a fim de que na Itália se saiba a respeito do que existe ao lado das formas mais teatrais, bem como mais superficiais e frívolas, do pensamento político alemão: e de que forma se apresenta acima de tudo o problema de conciliar a ideia cristã com o nacionalismo e de dar uma justificativa antissecular e metafísica seja à ideia de Estado, como à de Império. Nós nos referimos ao livro de Stapel, Der christliche Staatsmann - Eine Theologie des Nationalismus (Hamburgo, 1935), que segue sendo sua principal obra.


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Esaúl Álvarez - Metapolítica e Tradição: Por uma Ciência Tradicional da Política

por Esaúl R. Álvarez



Com certa frequência se ouve dizer que a Tradição, qualquer que seja, como caminho espiritual de realização deve estar separada da política. Muitas vezes, esta posição é defendida com um argumento de conveniência: quem segue um caminho espiritual não deve 'se meter' na política, mas deve tratar exclusivamente de sua realização pessoal.

Às vezes, se vai ainda mais longe na defesa da incompatibilidade entre os dois campos, sob a idéia geral de que a Tradição não pode desempenhar um papel político de algum tipo sem degenerar e trair a si mesma, o que resulta algo paradoxal, pois a Tradição trata precisamente de criar um quadro abrangente para a existência humana em que todo o humano fique incluído e seja harmonioso.

No fundo nós acreditamos que essas atitudes vêm de um duplo erro:


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Andrew Korybko - A América do Sul na Ordem Multipolar Emergente

por Andrew Korybko



A Nova Rota da Seda

A China avança com seu plano de construir a primeira Ferrovia Transoceânica (TORR [Trans-Oceanic Railroad]) entre o porto atlântico brasileiro de Santos e sua contraparte pacífica peruviana de Ilo, e visualiza-se que este projeto formará a medula do futuro geopolítico sul-americano na Ordem Mundial Multipolar emergente. O continente está separado da Afro-Eurásia pelos Oceanos Atlântico e Pacífico, diminuindo assim a prioridade imediata que os motores multipolares da Rússia e da China dão a essa massa terrestre. É verdade que o Brasil é o único membro hemisférico ocidental do BRICS e que isso proporcionou um novo impulso para o envolvimento de Moscou e Pequim com Brasília, mas as distâncias geográficas que separam o Estado sul-americano de seus homólogos eurasianos sempre serão um obstáculo para relações comerciais mais próximas. A Rússia não tem a capacidade de satisfazer as expectativas econômicas do Brasil a esse respeito, mas a China é uma história completamente diferente e está muito mais em sintonia para abraçar novos parceiros neste setor.

A visão da China de Um Cinturão Uma Estrada (OBOR [One Belt One Road]), popularmente conhecida como Nova Rota da Seda, é uma política inovadora de investimentos globais em infraestrutura projetada para amarrar o resto do mundo mais perto da economia chinesa, abrindo assim novos mercados para todos os países conectados. Isto é especialmente importante para a China na medida em que ela procura novos parceiros para comprar os bens extras que são produzidos como resultado de sua crescente capacidade. O dilema da China é que sua industrialização historicamente rápida nos últimos 30 anos tem sido quase bem sucedida demais no sentido de que a estabilidade do país inteiro seria abalada se esse processo desaelerar ou desastrosamente reverter seu impulso. A República Popular não tem como suportar o grande descontentamento social que poderia explodir em Revoluções Coloridas ou pior no caso de milhões de chineses estarem sem trabalho e desempregados nas maiores megacidades do mundo. Portanto, a China é obrigada a manter a produção em seus níveis padrão como a maneira mais estável de enfrentar a crise econômica global, esperando que as novas rotas comerciais que se abrem nos próximos anos como parte do projeto OBOR compensem qualquer excesso de capacidade que inadvertidamente resulte durante este tempo.


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Doug Enaa Greene - O Ato Heroico: Mito e Revolução

por Doug Enaa Greene



Segundo a lenda, as últimas palavras de Che Guevara antes de sua execução foram "Eu sei que você veio me matar. Atire covarde, você só vai matar um homem". O que Che queria dizer aqui era que a causa da revolução seguiria viva apesar de sua morte. Seja o mito verdade ou não, o sentido por trás dele inspirou revolucionários por todo o mundo. De certa maneira, o mito que cerca Che Guevara foi tão importante quanto a verdade. Na verdade, os mitos fornecem um sustentáculo crucial para como ideologia e sociedade são capazes de funcionar. Os mitos desempenham um papel importante não só na sociedade, nas em movimentos políticos radicais, como foi reconhecido pelo sindicalista francês Georges Sorel e pelo comunista peruviano José Carlos Mariátegui. E apesar das pretensões científicas de boa parte da esquerda, os mitos também fornecem inspiração, paixão e fé para militantes no curso da luta.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Lucian Tudor - A Revolução Conservadora e seu legado

por Lucian Tudor


Durante os anos entre a Primeira Guerra Mundial e o estabelecimento do Terceiro Reich, as crises políticas, econômicas e sociais que a Alemanha experimentou de repente como resultado de sua derrota na Primeira Guerra Mundial deram origem a um movimento conhecido como "Revolução Conservadora" que também é comumente referido como "Movimento Revolucionário Conservador", com seus membros às vezes chamados de "Conservadores Revolucionários" ou até "Neoconservadores".

A frase "Revolução Conservadora" foi popularizada como resultado de um discurso em 1927 pelo famoso poeta Hugo von Hofmannsthal, que era um católico conservador cultural e monarquista [1]. Aqui, Hofmannsthal declarou: "O processo do qual falo é nada menos que uma revolução conservadora a uma escala tal como a história da Europa nunca conheceu. Seu objeto é a forma, uma nova realidade alemã, na qual toda a nação irá compartilhar". [2]


terça-feira, 18 de julho de 2017

Alain de Benoist - Terra do Leite e do Mel

por Alain de Benoist



Ninguém gosta de ser objeto de crítica, e os americanos não são exceção. E quando alguém é o alvo de críticas, não se deve esperar que ele sempre concorde com elas. É importante, porém, compreender essa crítica, levá-la a sério em seus próprios termos, e não simplesmente descartá-la como se fosse inspirada por malícia, inveja ou ignorância.

A crítica que a Nova Direita francesa lançou contra a América a fez receber um rótulo injustificado de ser inspirada por algum tipo de chauvinismo francês oculto ou por algum tipo de fobia "anti-americana". E vezes demais a crítica da Nova Direita não foi entendida bem o bastante. Alguns americanos (eles próprios críticos do que seu país se tornou agora e de como ele evoluiu) assumem que a crítica é dirigida primariamente à América de hoje. Isso não é verdade. A crítica que a ND dirige contra a América tem como alvo, na verdade, a própria base do que chamamos de "ideologia americana", uma ideologia que tem suas origens nos Pais Fundadores. Ou para falar de outro jeito, essa não é uma crítica da América multirracial (ou "multicultural") dos tempos modernos e pós-modernos, mas essencialmente uma crítica dirigida contra a América criada por brancos e cristãos anglo-saxões.

A Europa jamais declarou guerra contra os EUA. É evidente, porém, que desde seu início, os Estados Unidos da América tem tido contas a acertar com a Europa. A Europa nasceu de um desejo de ruptura com a Europa. O que as comunidades imigrantes no Novo Mundo desejavam em primeiro lugar era se livrar das regras e princípios políticos que dominavam na Europa. A nação americana nasceu de uma forma contratual durante a era da modernidade, evocando bastante a "cena primal" como imaginada por Sigmund Freud: os filhos se unem para matar seu pai e, depois, eles rascunham um contrato sancionando a relação entre iguais.

Evidentemente, o pai nesse esquema era a Europa. Foi necessário romper com o passado para criar uma nova humanidade. Assim, em O Federalista nós lemos:

"Se medidas importantes não tivessem sido tomadas pelos líderes da Revolução para as quais não era possível descobrir precedentes; nenhum governo estabelecido do qual um modelo exato não fosse apresentado, o povo dos Estados Unidos poderia, neste momento, ser contato entre as vítimas melancólicas de conselhos equivocados, estaria na melhor das hipóteses estar labutando sob o peso de algumas daquelas formas que esmagaram as liberdades do resto da humanidade. Felizmente, para a América e nós confiamos para toda a raça humana, eles buscaram um caminho novo e mais nobre. Eles realizaram uma revolução que não tem paralelo nos anais da sociedade humana. Eles criaram os tecidos de governos que não tem modelo sobre a face do mundo". (1)


Similarmente, foi contra a Europa que em dezembro de 1823 James Monroe afirmou a posição central de sua famosa "Doutrina", isto é, que nenhuma intervenção europeia deveria ser tolerada em qualquer ponto que seja do continente americnano. "Temos ouvido por tempo demais às musas cortesãs da Europa", exclamou por sua vez o poeta e filósofo Ralph Waldo Emerson no século XIX. "Em muitos sentidos" como Dominique Moisi e Jacques Rupnik afirmam, "América é a anti-Europa. Ela nasceu de um desejo de criar uma 'nova Jerusalém' na terra para superar os limites e erros da história europeia".



Dado que a cidadania americana está fundada em um contrato entre imigrantes de diversas origens, segue-se que todas idiossincrasias culturais devem ser relegadas à esfera privada, o que significa que elas devem ser temporariamente mantidas fora da noção de cidadania. Essa demanda se encaixa perfeitamente com a filosofia individualista dos Pais Fundadores. Foi na América, pela primeira vez, que uma sociedade construída composta exclusivamente de indivíduos e não de grupos, tal como o próprio capitalismo pressupunha um tipo de individualismo orientado em primeiro lugar para a possessão privada.


Às vezes a indiferença dos americanos pela história é explicada por uma duração relativamente curta da existência de seu país. Essa explicação não parece convincente. Afinal, dois séculos é um período de tempo longo. Na verdade, o problema não é tanto que os americanos "não tem história", mas que eles não querem ter uma. Eles não terem ter uma porque, para eles, o passado é reminiscente de suas raízes europeias, que eles outrora tentaram descartar. "Este é o único povo sem quaisquer raízes e genealogia", escreveu, afetuosamente, o autor liberal Guy Sorman. Thomas Jefferson expressou a mesma ideia ao dizer que cada geração forma uma "nação separada". "Os mortos", disse ele, "não possuem direitos". Daniel Boorstin, ex-diretor da Biblioteca do Congresso, escreveu que "a noção de americanos hifenados é anti-americana. Eu creio haver apenas americanos. Polaco-americanos, ítalo-americanos ou afro-americanos são uma ênfase infértil.... Os americanos preferem ser chamados por seus primeiros nomes e abandonam os nomes de sua herança. O mesmo se aplica a objetos, a tendência sendo na direção do insustentável e do descartável".

A mesma observação foi feita por Christopher Lasch, que escreveu que nos EUA "a remoção das raízes sempre foi vista como pré-requisito para liberdades ampliadas". Daí, a América pode ser descrita como uma civilização do espaço e não uma civilização do tempo. Seu mito fundador não é a origem, mas a fronteira, o que em 1893 Frederick Jackson Turner interpretou como a noção mais representativa do ideal americano, isto é, a aspiração à "conquista do espaço". "O que outras pessoas experimentam como história", observa Jean-Paul Dollé, "os americanos percebem como um sinal de subdesenvolvimento".

E os americanos não quiseram romper apenas com a Europa. Eles também quiseram criar uma nova sociedade que regenerasse a humanidade. Eles queriam criar uma nova "terra prometida" que se tornaria o modelo da República Universal. Esse tema de inspiração bíblica, baeado na ideia de uma América "escolhida", desde seus primórdios e por uma escolha supostamente divina, constituiu a fundação de uma "religião civil" e do "excepcionalismo" americano. Ele seguiu ressurgindo como leitmotif ao longo da história americana, desde os dias dos Peregrinos, como quando o teólogo da Baía de Massachusetts John Cotton sugeriu a adoção do hebraico como idioma oficial para as  ex-colônias britânicas. John Winthrop, o primeiro governador da Colônia da Baía de Massachusetts, que foi fundada em 1629, afirmou:

"Devemos sempre considerar que seremos como uma cidade sobre uma colina, os olhos de todos estão sobre nós. Hoje os olhos de todos estão verdadeiramente sobre nós, e nossos governos, em cada seção, em cada nível, estado nacional e local deve ser como uma cidade sobre uma colina". (2)

Declarações similares foram feitas por William Penn, o chefe da colônia quaker da futura Pensilvânia, apenas para ser ecoado pelos colonos da Virgínia. Tão cedo quanto 1668, William Stoughton exclamou: "Deus peneirou uma nação inteira para que ele pudesse enviar os melhores grãos para este ermo" (3). Para Daniel Webster, os Estados Unidos são uma "terra prometida":


"Se de fato ele designou pro Providência que a mais grandiosa exibição de caráter humano e acontecimentos humanos seria feita neste teatro do mundo ocidental". (4)


Thomas Jefferson define um único conjunto de direitos individuais e coletivos para todos os homens. Influenciado pela doutrina dos direitos naturais, esses direitos eram tidos com osendo universal e válidos em todos os tempos e lugares. Em 13 de novembro de 1813, John Adams exortou os americanos em prol de "nossa pura, virtuosa e pública república federativa que durará para sempre, governará o globo e introduzirá a perfeição do homem" (5). Mesmo em 1996, o senador "conservador" americano Jesse Helms exclamou, "Os Estados Unidos devem liderar o mundo com a tocha moral... e servir como um exemplo para todos os povos".

O objetivo não é apenas receber os pobres e refugiados, como proclamado na inscrição no pedestal da Estátua da Liberdade:


"'Mantenham antigas terras sua pompa histórica!', grita ela

Com lábios silenciosos 'Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado'" (6)


O objetivo também é permitir que os recém-chegados se vinguem contra o país de sua origem. E também continuar a proceder de uma maneira que eventualmente levaria todo o mundo a se impregnar com a ideia de que a sociedade americana é a sociedade perfeita e que os descendentes dos puritanos são os eleitos de Deus. Ademais, foi a teologia puritana do "Pacto" que inspirou a doutrina do Destino Manifesto, como apresentada por John L. O'Sullivan em 1839:


"Nosso nascimento nacional foi o comçeo de uma nova história de formação e progresso de um sistema político ainda não experimentado, que nos separa do passado e nos conecta apenas com o futuro; e no que concerne todo o desenvolvimento dos direitos naturais do homem, na vida nacional, política e moral, nós podemos confiantemente assumir que nosso país está destinado a ser a maior nação do futuro.... Quem, então, pode duvidar que nosso país esteja destinado a ser a maior nação do futuro?" (7)


Em outras palavras, se Deus escolheu favorecer os americanos, eles devem ter o direito a converter outros povos no que quer que eles achem melhor e mais prático.


Daí, por um lado estamos testemunhando isolacionismo; a América deve se separar do mundo exterior, que é visto como corrupto. Por outro lado, há uma necessidade por uma "cruzada", o mundo deve ser gradativamente penetrado pelos valores universais do sistema americano. Na economia, políticas de livre-comércio jamais proibiram o uso de protecionismo, quando quer que fosse necessário; similarmente, na política externa, o isolacionismo, associado ao espírito de "cruzada", podem marchar lado-a-lado. Estes são dois lados da mesma vocação messiânica e um exemplo típico de como o universalismo político é só uma máscara para o etnocentrismo, isto é, um modelo peculiar com ambições planetárias.

Essa certeza subjacente explica a estabilidade extraordinária do sistema americana. No curso de sua história, os EUA só conheceram um único modelo político importante, um modelo que permaneceu virtualmente imutável desde os dias dos Pais Fundadores. A Constituição, bastante inspirada por Locke, e falando de modo geral pela filosofia do Iluminismo, e peneirada por meio do puritanismo, se tornou um tipo de monumento sagrado que faz do americanismo uma religião genuína. Estejam eles à direita ou à esquerda, todos os americanos estão de acordo no fato de terem uma missão de espalhar "a palavra" para a humanidade. Mesmo os utopistas mais frenéticos não põem em questão a autoridade da Constituição ou a superioridade da iniciativa individual. O sistema pode ser razoavelmente melhorado ou reformado, mas ele deve permanecer fundamentalmente imutável, na medida em que ele se mistura com a própria existência do país. Enquanto na Europa ainda é possível fazer referência a alguns entre incontáveis modelos políticos que existiram no passado, o debate político na América se reduz a discussões sobre os méritos relativos de Hamilton, Jefferson, Washington, et al. Fascismo e comunismo nunca tiveram qualquer impacto real nos EUA, nem a ideia de contrarrevolução, nem o marxismo crítico, nem o sindicalismo revolucionário, nem o anarcossindicalismo, o situacionismo, etc. Nas universidades, os cursos de Ciência Política usualmente envolvem longas discussões sobre a obra dos Pais Fundadores, que são retratados como pessoas com um legado insuperável. Mesmo o eterno debate entre federalistas e anti-federalistas, entre hamiltonianos e jeffersonianos, é, na verdade, uma disputa familiar, que jamais questiona o consenso político subjacente.

A política doméstica americana é muitas vezes reduzida a uma competição entre os dois principais partidos, que aos olhos dos europeus dizem mais ou menos a mesma coisa. As competições eleitorais, com as suas convenções organizadas como espectáculos de circo, são inteiramente dependentes do dinheiro. A "democracia" na América equivale a oligarquia financeira. As eleições são efusões financeiras da classe bilionária. Para os americanos, é considerado natural que os políticos sejam ricos (na minha opinião, a sociedade deve ser extremamente cética de qualquer pessoa que seja rica e poderosa ao mesmo tempo) assim como é natural que os políticos exibam suas esposas e filhos em eventos públicos, enquanto multiplicam slogans religiosos em seus discursos. Na Europa continental, um Chefe de Estado dirigindo-se seus eleitores com um "Deus te abençoe" e convidando os parlamentares para um dia de oração e jejum seria visto por muitos como uma pessoa pronta para o hospício...

O outro lado dessa paralisia institucional é o formidável conformismo e a extraordinária monotonia de uma sociedade que, década após década, afirma, com a mesma convicção dócil, que a América é um "país livre", enquanto adere aos mesmos modos, cumprindo as mesmas convenções, repetindo os mesmos slogans e, claro, usando os mesmos uniformes (jeans e t-shirts com um logotipo de uma universidade jamais frequentada ou uma equipe de beisebol da qual não se é membro). Esta monotonia já foi descrita por Alexis de Tocqueville, que observou que a sequência de comoção e modas fugazes nunca augura nada novo na América. Aproximadamente ao mesmo tempo, a Condessa de Merlin também observou que a vida dos americanos é "um curso eterno de geometria".

A mesma certeza messiânica inspira a política externa americana, cujo princípio principal é que o que é bom para a América deve também ser bom para o resto do mundo, o que, por sua vez, deve permitir que a América espere de seus aliados contribuições financeiras e aplausos. Como um disfarce secularizado do ideal puritano, a política externa está baseada na ideia de queapenas a falta de informação ou o mal intrínseco de líderes estrangeiros explica a relutância de pessoas ao redor do mundo em abraçar o modo de vida americano. Como Jean Baudrillard escreveu, os Estados Unidos são uma sociedade "cuja ingenuidade pode ser descrita como insuportável e cuja ideia fixa é a de que a América é a completude perfeita de tudo com que os outros sonham". (8)


As "relações internacionais" não passam de uma difusão global do ideal americano a nível planetário. Como assumem que representam o modelo de perfeição, os americanos não se sentem obrigados a conhecer os outros. Resta para os outros adotar o jeito americano. "A troca é desigual", observa Thomas Molnar, "porque a América não tem nada a aprender, mas tudo a ensinar" (9). E, de fato, tudo o que acontece na América deve eventualmente acontecer em outro lugar do mundo. Em outras palavras, a política externa tem como objetivo a criação de uma humanidade unificada que não precise mais de nenhuma política externa. Nessas circunstâncias, não se deve surpreender que as derrotas enfrentadas pelos Estados Unidos na arena internacional sejam freqüentemente resultados da incapacidade dos EUA de compreender que outros povos pensam de forma diferente do que eles. Na verdade, para os americanos, o mundo externo ("o resto do mundo") simplesmente não existe, ou melhor, só existe na medida em que se torna americanizado - uma condição prévia necessária para tornar-se compreensível.


Muitos observadores notaram a importância da religião na sociedade americana. "Em Deus confiamos" está escrito em todas as notas bancárias, e desde 1956, tornou-se lema nacional. Nos EUA, quase todas as cerimônias oficiais são precedidas ou seguidas por uma oração. Já em 1923, o Reverendo B. Soames declarou em Washington, durante uma bênção solene do equipamento militar: "Se Jesus Cristo voltasse à Terra ele seria branco, americano e orgulhoso disso!". Tocqueville já havia notado:

"É a religião que pariu as sociedades anglo-americanas. Nunca se deve esquecer isso; nos EUA, a religião está, portanto, misturada com todos os hábitos nacionais e com todos os sentimentos aos quais um país nativo dá origem". (10)


A religião é normalmente redefinida em um sentido otimista, consistente com as demandas do materialismo prático e com as aspirações do povo que nunca deixou de crer nas virtudes da tecnologia e que espontaneamente assume, dado que o sentido do trágico é alheio a ele, que de alguma forma as coisas sempre se acertarão no fim. O conhecido professor americano Thomas L. Pangle, em seu estudo sobre Montesquieu e sua influência sobre os Pais Fundadores, sugere que a adoração do republicanismo liberal comercial e do espírito do comércio como o melhor regime "se opunha fundamentalmente, não apenas à insegurança, mas também à virtude cívica austera da antiguidade republicana e à autotranscendência religiosa ou sobrenatural". (11)



O ponto principal é a reconciliação da religião com o otimismo herdado do Iluminismo e arraigado na direção que aponta para o futuro e para a mística do progresso. De John Winthrop a George W. Bush e Barack Obama, os americanos jamais desistiram da crença no progresso, que usualmente os leva à conclusão de que desenvolvimentos materiais e tecnológicos também melhorarão a humanidade. Nesse nosso mundo, somente pelo acúmulo de bens materiais pode uma pessoa ser salva. Daí a ideia de "redenção" pela conversão ao modo de vida americano. O calvinismo já havia tentado resolver este problema da "predestinação" interpretando o sucesso material como sinal de escolha divina. A glorificação da performance individual, o espírito do capitalismo, as virtudes pacificadoras do comércio, tudo isso nutre esperança de que o acúmulo de riqueza eventualmente aniuilará todo mal. O mal se torna um "erro", um estado de imperfeição que deve ser eventualmente ultrapassado por mais comércio e "desenvolvimento" econômico. A partir de agora, não é mais a ética que justifica os interesses, mas o interesse que tenta justificar a ética. Em sua carta de 1814, dirigida a Thomas Law, Jefferson escreveu: "A resposta é que a natureza constituiu a utilidade para o homem como a maior das virtudes" (12). Cem anos depois, o juiz Oliver Wendell Holmes acrescentou:


"O melhor teste da verdade é o do pensamento de conseguir ser aceito na competição do mercado, e essa verdade é o único fundamento sobre o qual seus desejos podem ser realizados com segurança".(13)


Parece que na América a verdade se tornou uma questão comercial. Televangelistas pregam o "evangelho da prosperidade", ficar rico é sinal de ser salvo, antes de fazer seus constantes apelos por doações.


Os puritanos retiveram de Locke a ideia de que todos os outros direitos humanos derivam do "direito natural à propriedade". Para Madison, "o primeiro objetivo do governo" é garantir a aquisição de propriedade. Em 1792, ele disse: Em uma palavra, como é dito que o homem tem um direito à sua propriedade, pode-se dizer igualmente que ele tem uma propriedade em seus direitos" (14). Direitos são interpretados como atributos inerentes à natureza humana, algo que os indivíduos possuem por causa de sua pertença à espécie humana, e são estes direitos que os governos devem "garantir".

A Nova Direita rejeita totalmente essa noção de direitos subjetivos, que se opõe de forma absoluta à noção tradicional de lei objetiva. Nessa perspectiva, o direito é uma relação de equidade, que permite a todos conquistar o que lhe cabe. Similarmente, a Nova Direita rejeita a ideia de que a propriedade privada deva ser um absoluto.

Tal ideia do homem era inerente às bases de uma sociedade apropriadamente descrita por Ezra Pound como uma "civilização puramente comercial". Suas palavras ecoam as de Tocqueville:

"As paixões que agitam os americanos mais profundamente são paixões comerciais e não paixões políticas, ou melhor, eles levam os hábitos do comércio para a política". (15)


A América certamente não é a primeira república comercial na história, mas ela é a primeira a ter afirmado que absolutamente nada deve limitar as atividades econômicas, por elas serem os melhores meios para se atingir o melhoramento de toda a humanidade. Estando por conta própria, o indivíduo conta na medida em que sua atividade externa segue crescendo. Naturalmente, apenas sua performance econômica pode medir adequadamente o seu valor. "Na América", escreveu Hermann Keyserling, "as pessoas realmente creem que os ricos são superiores simplesmente por terem dinheiro; na América, ter dinheiro cria, de fato, direitos morais".


Max Horkheimer e Theodor W. Adorno observaram a partir de sua perspectiva:

"Aqui na América, não há diferença entre um homem e deu destino econômico. Um homem é feito de seus bens, renda, posição e prospectos. A mistura econômica coincide completamente com o caráter interior de um homem. Todo mundo vale o que ganha e ganha o que vale". (16)


A competição capitalista representa o mais ético tribunal: os ricos são os "vencedores", e os "vencedores" são os justos. Essa é a primazia da civilização do ter sobre a civilização do ser.


Tais traços não contribuem muito para o pensamento meditativo e para a reflexão interior. Quando o elo com outros é nutrido apenas pelo respeito por bens materiais e pelo Todo-Poderoso Dólar, o resultado é alienação sem fronteiras. Para os americanos, nota Anaïs Nin em seu diário, "é um pecado ter uma vida interior". Essas palavras podem soar excessivas, mas ainda assim elas refletem as mesmas conclusões do americano Christopher Lasch. Nos EUA há uma tendência consistente de crer que a inteligência deve ser reduzida a conhecimento técnico e que a fixação com questões econômicas deve ajudar a dispensar com o mundo das ideias puras. Quem quer que tente expressar uma ideia original e profunda corre o risco de se deparar com a resposta: "Não seja tão negativo. Seja prático! Pense positivo!".

Para os Pais Fundadores o propósito do governo era garantir os "direitos inalienáveis" dos indivíduos que foram "criados iguais". Assim, a vida política foi reduzida à moralidade e à lei. O dissidente americano H.L. Mencken brincou que o exato oposto era verdadeiro:

"O pior governo é o mais moral. Um governo composto de cínicos é não raro bastante tolerante e humanista. Mas quando fanáticos estão no topo não há limite para a opressão". (17)


Nos Estados Unidos, a ação política deve sempre começar com uma súbita onda de consciência moral ("Algo deve ser feito em relação a isso!"), o que invariavelmente leva a um exame "técnico" do assunto em questão. A própria lei é um modo de expressão que estabelece formas jurídicas de características morais inerentes à ideologia dos direitos humanos. Daí a extraordinária importância dos advogados na política americana, que Michel Crozier chama de "delírio dos procedimentos" e "loucura legal". Enquanto isso, a superioridade intrínseca da vida privada sobre a vida pública deve ser declarada em voz alta em todos os lugares; a "sociedade civil" sobre o mundo da política, os negócios e a competição econômica sobre o bem comum. "Um americano, seja ele um funcionário do governo ou homem na rua", escreve Thomas Molnar, "está convencido de que a política enquanto tal é uma coisa ruim e que as pessoas precisam encontrar outra coisa para se comunicar e estabelecer relações pacíficas". Como afirmei acima, os americanos estão inclinados a pensar que o mal poderia desaparecer e que é possível remover o traço trágico da existência humana. É por isso que eles querem abolir a política e, ao mesmo tempo, levar a história a um fim. "A América foi construída para que ela possa sair da história", escreveu Octavio Paz. O "neoconservador" americano Francis Fukuyama acreditava poder anunciar seu fim.


Travar guerras sempre significou para os americanos uma "cruzada" de moralidade. É por isso que não é suficiente para eles obter apenas a vitória militar. Eles também devem aniquilar o inimigo, que é invariavelmente retratado não como um líder ou um Estado que por acaso é adversário, mas como a encarnação do mal. Sob o disfarce de "intervenção humanitária" ou batalhas contra "terroristas", as guerras americanas são sempre "guerras justas", isto é, guerras de justa causa - e não guerras contra um justus hostis ("inimigo justo"). Por isso, o inimigo deve ser invariavelmente descrito não apenas como o inimigo do momento (que poderia eventualmente se tornar um aliado no futuro), mas como um criminoso que merece punição e reeducação.

As diferenças parecem ser profundas entre o pensamento político na Europa continental e a mentalidade americana, marcada por uma visão econômica, comercial e processual do mundo, pela onipresença dos valores bíblicos, bem como pelo otimismo tecnológico, pelo contratualismo, a linguagem de "direitos", e a crença no progresso.

Eu acho que conheço os Estados Unidos bem, como eu perambulei por lá em muitas ocasiões. Eu viajei em todas as direções, de Washington, DC, para Los Angeles, de Nova Orleans para Key Largo, de San Francisco para Atlanta, de Nova York para Chicago. Eu, obviamente, me deparei com uma série de coisas de que gostei muito. Os americanos são amigáveis ​​e acolhedores (mesmo que o relacionamento humano seja frequentemente superficial). Eles têm um senso tangível de comunidade. Suas maiores universidades oferecem condições de trabalho com as quais os europeus só poderiam sonhar. Não consigo esquecer a influência que os filmes americanos tinham sobre mim em um momento em que eles não estavam limitados a efeitos especiais ou besteirol de super heróis. Especialmente impressionante para mim, eram figuras da literatura americana como Mark Twain, Edgar Allan Poe, Herman Melville, John Steinbeck, Ernest Hemingway, John Dos Passos, William Faulkner e outros. Mas também detecto o lado reverso do "modo de vida americano": a cultura vista como mercadorias perecíveis ou como "entretenimento", uma concepção tecnomórfica da vida humana, destinada a transformar as pessoas em terminais remotamente controlados ou computadores, relações de gênero falsas, uma civilização automobilística e arquitetura comercial (há uma sociabilidade mais genuína em um mercado local africano do que em um supermercado americano - um símbolo privilegiado do niilismo ocidental), crianças obesas educadas pela televisão, glorificação dos "vencedores" e a obsessão pelo consumo, fast food, uma mistura de decretos puritanos e transgressões histéricas, corrupção hipócrita, etc. Sim, estou ciente do risco de ser acusado de parcialidade. Mas devo admitir que, para a América dos "meninos dourados", dos "rednecks", dos "fisioculturistas" e "bimbos", do "sonho americano" e das líderes de torcida, dos "fazedores de dinheiro" e "corretores" em Wall Street, não tenho a menor simpatia.

O globalismo é hoje sinônimo de americanismo? Somos tentados a responder afirmativamente. O fato é que os Estados Unidos nunca deixaram de exportar seus problemas para o resto do mundo, começando pela Europa. Nas pesquisas de opinião, a hostilidade em relação à globalização é muitas vezes acompanhada pela rejeição da hegemonia americana. Políticamente e culturalmente, a globalização significa, em grande parte, um processo de americanização, já que a superpotência dominante continua exportando suas mercadorias, seu capital, seus serviços, sua tecnologia, mas também sua "indústria do imaginário", sua cultura, sua linguagem, seus padrões de vida e sua própria cosmovisão.

Mas ao invés de americanização, não seria mais apropriado falar em "ocidentalização"? Muitos americanos se consideram "ocidentais", com alguns até mesmo usando o termo "O Ocidente" como sinônimo do "mundo branco" (politicamente uma expressão sem sentido).

Etimologicamente, "o Ocidente" é um lugar onde o sol se põe, um lugar onde as coisas perecem, e onde a história chega ao fim. No passado, este termo designava um dos dois impérios (pars occidentalis) nascidos do desmembramento do Império Romano. Subsequentemente, o termo se tornou sinônimo da "civilização ocidental". Hoje, como muitos outros termos, ele está em processo de assumir uma aura econômica, na medida em que os países ocidentais são primariamente designados como países "desenvolvidos". Este não é um termo, porém, que eu uso em sentido positivo. Em minha opinião, "o Ocidente" se tornou agora o veículo, em contraste com a Europa, de um modelo social que se tornou a imagem espelhada do niilismo. Durante minhas viagens ao redor do mundo, eu testemunhei o que acontece a culturas enraizadas quando elas são afetadas pelo "Ocidente": tradições rapidamente são transformadas em folclore para turistas, laços sociais são desfeitos, os mores se tornam utilitários, a linguagem e a música americana permeiam a mente, e a paixão pelo dinheiro se torna sobrepujante.

Muitas vezes, é entendido pela expressão "O Ocidente", o agregado composto pelos Estados Unidos da América e pela Europa. Mas este agregado, supondo que alguma vez tenha existido, já está desmoronando, como já foi observado há alguns anos por Immanuel Wallerstein.(18) A lacuna transatlântica se amplia cada dia mais e mais. A globalização, ao mesmo tempo que exacerba a concorrência, revela profundas divergências entre interesses europeus e interesses americanos. No nível geopolítico, as divergências são ainda mais flagrantes: os Estados Unidos são um poder marítimo, enquanto a Europa é um poder continental. Como foi demonstrado por Carl Schmitt, a lógica de Terra vs. Mar representa duas lógicas conflitantes.(19) A Terra se opõe ao Mar, assim como a política se opõe ao comércio, o limite à onda, o elemento telúrico ao elemento oceânico. Portanto, eu não me identifico como "ocidental". Eu sou europeu.

Visto do ângulo da economia, o capitalismo não nasceu em todo o Atlântico, embora tenha sido lá que ele foi incorporado à ideologia nacional: o primado do contrato, a redução do Estado, a crítica do "governo grande", a defesa da concorrência e do livre comércio, etc. É também nos Estados Unidos que nasceu o conceito de "governança" - primeiro aplicado aos negócios e depois à vida política e social. Não deve ser uma surpresa que, desde 1945, a economia dos EUA se tornou o palco central do sistema financeiro internacional. Foram os Estados Unidos que estabeleceram em 1947 o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), sucedido em 1995 pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Essas foram as instituições que liberaram os movimentos de capital em 1974, a fim de financiar os déficits da América. No âmbito do capital financeiro, a América ainda mantém uma participação muito maior em relação ao seu setor industrial. Ela estabelece as regras para o comércio internacional, enquanto suas políticas monetárias continuam sendo o principal mecanismo de regulamentação da acumulação financeira em todo o mundo.

Assim como muitos europeus, eu fico impressionado com o fato de os conservadores americanos defenderem, quase sem exceção, um sistema capitalista cuja expansão destrua metodicamente tudo o que supostamente desejam conservar. Apesar da crise estrutural que o sistema capitalista experimentou nos últimos dois anos, os conservadores americanos continuam a celebrar o capitalismo como um sistema que supostamente respeita e garante a liberdade individual, a propriedade privada e o livre comércio. Eles acreditam nas virtudes intrínsecas do mercado, cujo mecanismo eles apreciam como um paradigma de todas as relações sociais. Eles acreditam que o capitalismo tem algo a ver com democracia e liberdade. Eles acreditam na necessidade metafísica, não apenas econômica, do "crescimento" perpétuo. Eles pensam que o consumo é igual à felicidade e que "mais" é sinônimo de "melhor".

O capitalismo, no entanto, não é "conservador". É o oposto disso. Karl Marx já observou que o desmantelamento do feudalismo e a erradicação das culturas e valores tradicionais são o resultado do capitalismo que, por sua vez, afoga tudo na "água gelada do cálculo egoísta". (20) Hoje, o sistema capitalista, mais do que nunca antes, está voltado para o excesso de acumulação de capital. Precisa de mais lojas de comércio, mais e mais mercados e mais e mais lucro. Bem, tal objetivo não pode ser alcançado a menos que tudo o que esteja no caminho seja desmantelado, começando pelas identidades coletivas. Uma economia de mercado de pleno direito não pode operar de forma sustentada, a menos que as pessoas internalizem uma cultura modista, o consumo e o crescimento ilimitado. O capitalismo não pode transformar o mundo em um mercado vasto - o que, com certeza, é seu principal objetivo - a menos que o planeta seja achatado e todas as pessoas renunciem à sua imaginação simbólica e continuem a indulgir em uma febre pela acumulação infinita de algo novo.

Esta é a razão pela qual o capitalismo, na tentativa de apagar as fronteiras, também é um sistema que se tornou muito mais efetivo e muito mais destrutivo do que o comunismo. A razão para isso é que a lógica econômica coloca lucro acima de tudo. Adam Smith escreveu que o comerciante não possui pátria além do território onde ele consegue o maior lucro. É a essa lógica da mercadoria, inspirada frequentemente pelos Estados Unidos da América, que a Nova Direita se opõe firmemente.