terça-feira, 6 de junho de 2017

Wan Fayhsal - A Ascensão do Precariado

por Wan Fayhsal



Foi um pesadelo para muitos liberais, tanto nos EUA como no mundo, ver uma figura controversa como Donald Trump vencer as eleições presidenciais e ser posto no leme do país mais poderoso do planeta (1). Apesar da barragem de exercícios difamatórios organizada pela mídia de massas durante a corrida presidencial, Trump venceu e causou enorme incômodo ao conseguir arrebanhar os votos cruciais do público americano: o proletariado e a classe média dos estados do Cinturão da Ferrugem, o centro pelo qual a América se fez conhecer como uma grande nação industrial e manufatureira(2).

Muitos analistas políticos entenderam tudo errado, mas os sinais já estavam no horizonte há anos indicando a possível reviravolta social que levou à vitória de Trump. Se pudéssemos classificar os eleitores, como poderíamos descrevê-los melhor? Talvez a resposta esteja na nova classe social chamada de "precariado".

O que é e quem são o precariado?

Nas palavras do economista britânico Guy Standing, "precariado", derivado da palavra 'precário', é uma nova classe surgindo na força de trabalho que passa por privação, raiva, ansiedade e alienação constantes em seu trabalho. Há três importantes dimensões do trabalho que definem tais qualidades: relações de produção, distribuição e o Estado(3).

Em termos de suas relações de produção, o precariado está em um estado instabilidade laboral que vai de contratos flexíveis, trabalhos casuais, freelance, trabalho a tempo parcial até ter emprego intermitente. Todas essas relações resultam em uma identidade ocupacional insegura e uma narrativa pouco clara no que concerne sua carreira.

Do ponto de vista das relações de distribuição, o precariado se apoia apenas em salário monetário, privado de pensões, abonos de custos e benefícios médicos. Eles também perdem o que o proletariado usualmente possuía: os benefícios baseados em direitos segundo o modelo do Estado de bem-estar social. Conforme os salários ficam estagnados, o precariado normalmente recorre a pegar dinheiro emprestado de bancos ou quaisquer outras instituições financeiras informais para continuarem vivendo. Tamanho desespero só aprofunda seu problema e exacerba a desigualdade social ainda mais.

Em relação às relações do precariado com o Estado, seu modo de vida é similar ao de moradores mais do que ao de cidadãos portando direitos civis, culturais, políticos sociais e econômicos claros. Na verdade, segundo o professor Standing, eles estão rapidamente se tornando suplicantes do Estado demandando benefícios ou serviços prestados pelos burocratas.

O que os separa da classe trabalhadora comum chamada proletariado é que o precariado usualmente tem mais educação do que seu trabalho exige. Eles foram criados para fazer algo ligado a seu conhecimento e habilidades adquiridos de suas iniciativas educacionais, mas acabam fritando hamburguer em um restaurante de fast food ou se tornando mão-de-obra na economia informal, dirigindo Uber, por exemplo(4).

O Precariado e o Tsunami Político Antiglobalização

É seguro assumir que aqueles que votaram por Trump e pelo Brexit são em sua maioria do precariado. Eles possuem valores conservadores no sentido de ansiar pelos "bons e velhos tempos" quando seus países eram prósperos e possuíam empregos estáveis e benefícios sociais que estão agora desaparecendo cada vez mais rápido graças ao envio de empregos para o exterior e um número cada vez maior de imigrantes competindo no mercado de trabalho.

Por exemplo, nos EUA, a The Economist reportou que os impactos negativos da NAFTA sobre os empregos americanos são bem claros: entre 1999 e 2011, a América perdeu algo por volta de 6 milhões de empregos na indústria(5). Somado à ascensão da China na arena comercial global após se tornar membro da OMC, uma pesquisa feita por David Autor, David Dorn e Gordon Hanson concluiu que até 2.4 milhões de empregos na América podem ter se perdido, diretamente ou não, graças a importações mais baratas da China(6).

Todos esses trabalhadores que perderam seus empregos por causa dos fatores acima formam o grosso dos eleitores do Cinturão da Ferrugem cujas opiniões ressoavam com o chamado de Trump de tornar a América grande de novo trazendo empregos de volta para o antigo coração industrial americano.

Os mais jovens do precariado podem ter valores diferentes do precariado do Cinturão de Ferro de Trump, mas seu apoio a Bernie Sanders, que perdeu para Hillary Clinton as primárias presidenciais do Partido Democrata, indicou uma precariedade similar em relação a questões econômicas e laborais(7).

Uma das maiores preocupações entre o precariado jovem são os empréstimos estudantis. Segundo estatísticas oficiais dos EUA, quase 40 milhões de americanos estão em débito estudantil, o que equivale a 1.2 trilhão de dólares. Esse é o segundo nível de dívida mais alto depois das hipotecas.

O Movimento Occupy que emergiu em 2011 foi impulsionado por este tipo de ressentimento do precariado mais jovem que demandava maior responsabilidade e uma melhor distribuição de riqueza. O movimento afirmava representar os 99% do povo em seu protesto contra o 1%, consistindo nos banqueiros e capitalistas de Wall Street, normalmente culpados pela crise econômica cíclica, especialmente na recente questão de 2008 dos subprime.

O Precariado e Bilderberg

A noção de precariado não é mero discurso acadêmico, nem um fenômeno isolado ocorrendo apenas no Ocidente. Sua presença entre nós até virou as cabeças das elites que governam e moldam a direção de nossa política e economia globais.

A 64ª Conferência Bilderberg, uma reunião elitista de líderes globais e capitães corporativos realizada em Dresden, Alemanha de 9 a 12 de junho de 2016 colocou a questão do "precariado e classe média" na agenda do ano. Chamada por alguns de a "Davos secreta" graças à natureza de seu encontro envolto em mistério e exclusividade, a conferência é um duro contraste a sua contraparte mais ilustre e espalhafatosa no Fórum Econômico Mundial(8).

A conferência de Bilderberg é conhecida por abordar grandes questões que moldam as tendências da política e economia internacionais. Uma reunião anual iniciada em 1964 ela foi projetada para fomentar diálogo entre Europa e América do Norte reunindo líderes nacionais, especialistas da indústria, das finanças, da academia e da mídia para participarem de discussões sobre grandes questões giados pela Regra da Casa Chatham(9).

O resultado das conferências não era relatado e só recentemente passou a se emitir um press release sobre a agenda das conferências e sua lista de participantes. Com o precariado posto na agenda desse ano da Bilderberg, o problema agora está sendo devidamente reconhecido pelos membros que consistem fundamentalmente no topo dos 1% possuem influência maciça em nosso mundo hoje(10).

Como a economia mundial permanece em crise e a desigualdade de renda aumenta globalmente, como relatado pelo Relatório de 2016 da Credit Suisse(11), a ascensão do precariado não estará mais confinada ao hemisfério norte. Ao contrário, ela será contagiosa para outras partes do mundo, especialmente entre economias emergentes já que seu modelo de desenvolvimento permanece similar ao das nações desenvolvidas onde o precariado primeiro emergiu.

Já é hora de cada governo na Eurásia prestar mais atenção a essa classe emergente, do contrário a estabilidade política das nações vai se reduzir dia após dia, tal como a do precariado o qual, caso não gerenciado, se tornará uma força política a se ter em conta, como demonstrado recentemente nos EUA e Grã-Bretanha.

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1 Zakaria, Fareed. From Wealth to Power: The Unusual Origins of America's World Role. Princeton, N.J: Princeton University Press, 1998.

2 Brownstein, Ronald. “How the Rustbelt Paved Trump's Road to Victory”. The Atlantic. http://www.theatlantic.com/politics/archive/2016/11/trumps-road-to-victory/507203/ (accessed January 1st 2017); Tão cedo quanto julho de 2016, Michael Moore, o cineasta americana renomado por sua crítica às políticas doméstica e externa dos EUA previu a vitória de Trump e apontou o fator do Cinturão da Ferrugem como uma de suas principais razões. Ver Rosenmann, Alexandra. “Michael Moore Gives 5 Scary Reasons Why Trump Will Win”. Alternet. http://www.alternet.org/election-2016/michael-moores-5-reasons-why-trump-will-win (accessed January 1st 2017); ver também Mellon, Steve. After the Smoke Clears: Struggling to Get by in Rustbelt America. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2002.

3 Standing, Guy. The Precariat: The New Dangerous Class. London: Bloomsbury Academic, 2016. p11-40.

4 Standing, The Precariat. p159. Para uma projeção geral da natureza cambiante do trabalho na era da revolução tecnológica e especialmente da automação, pesquisar também em Avent, Ryan. The Wealth of Humans: Work, Power, and Status in the Twenty-First Century. New York: St. Martin’s Press, 2016.

5 The Economist. “Free Trade in America: Open Argument”. The Economist. http://www.economist.com/news/leaders/21695879-case-free-trade-overwhelming-losers-need-more-help-open-argument. (accessed 1st January 2017)

6 David, H., David Dorn, and Gordon H. Hanson. "The China syndrome: Local labor market effects of import competition in the United States." The American Economic Review 103, no. 6 (2013): 2121-2168.

7 O candidato presidencial democrata derrotado Bernie Sanders era apontado por muitos como o melhor candidato para enfrentar Trump na disputa pelos corações e mentes dos eleitores do Cinturão da Ferrugem graças à natureza e foco da campanha de Sanders, bem como de seu ativismo de longa data. Ver Gabatt, Adam. “Former Occupy Wall Street protesters rally around Bernie Sanders campaign”. The Guardian. https://www.theguardian.com/us-news/2015/sep/17/occupy-wall-street-protesters-bernie-sanders. (accessed 1st January 2017).

8 Em seu press release oficial, o 64º Encontro Bilderberg delineou o “precariado e a classe média” como parte de sua agenda de discussão. Ver Bilderberg, “Press Release”, Bilderbergmeeting.org.http://www.bilderbergmeetings.org/press-release.html (accessed 1st January 2017)

9 Para um tratamento acadêmico de Bilderberg, ver Richardson, Ian, Andrew Kakabadse, and Nada Kakabadse. Bilderberg People: Elite Power and Consensus in World Affairs. Abingdon, Oxon: Routledge, 2011.

10 Ver Jeffers, H P. The Bilderberg Conspiracy: Inside the World's Most Powerful Secret Society. New York: Citadel Press, 2009. Estulin, Daniel. The True Story of the Bilderberg Group. Walterville, OR: TrineDay, 2009.

11 Suisse, Credit. Global Wealth Report 2016. Zurich, Switzerland: Credit Suisse AG, Research Institute, 2016.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

José Alsina Calvés - A Dimensão Coletiva do "Dasein"

por José Alsina Calvés



O Dasein é, segundo Heidegger, o ser humano entendido como "ser-aí"

O que para o liberalismo é o indivíduo, para o marxismo é a classe social e para o neoliberalismo o "pós-indivíduo", quer dizer, o sujeito sobre o qual se assenta uma teoria política, para a Quarta Teoria Política (daqui para a frente QTP) é o Dasein. O Dasein é, segundo Heidegger, o ser humano entendido como "ser-aí", como único ente capaz de "perguntar pelo ser" e que é ao mesmo tempo ser-no-mundo, ser-no-tempo e ser-com-os-outros. Neste artigo nos concentraremos no Dasein e em explicitar sua dimensão coletiva e suas características existenciais que o diferenciam do sujeito cartesiano, que é o correlato metafísico do indivíduo como sujeito do liberalismo, primeira teoria política da modernidade.

Para tentar entender a ideia de Dasein devemos fazer um percurso pelo pensamento de Heidegger, desde o pressuposto "esquecimento do ser", que se produz nos albores da filosofia grega, a "pergunta pelo ser" e a analítica existencial do ser humano como preparação para o estudo da essência do ser ou ontologia.

Intuição e o "Esquecimento do Ser"

Para Heidegger, nos primórdios da filosofia grega (séculos VI a V a.C.), surge uma nova maneira do homem estar no mundo: pensar que as coisas são [1]. Estas primeiras respostas dadas a este problema contém gérmens de solução verdadeira [2], mas estas não se desenvolveram normalmente. Na exegese do ser, especialmente a partir de Platão, se desenvolveu um dogma que, não somente declarava supérflua a pergunta que interroga sobre o ser, mas sancionou a omissão da pergunta [3]. A filosofia tradicional, quer dizer, a tradição filosófica ocidental desde Platão, considerou o ser da totalidade das coisas que são, isto é, dos entes, e dessa maneira oblíqua de pensar o ser nasceu a metafísica. A essa entidade dos entes se deu diversas interpretações: ideia platônica, enteléquia aristotélica, cogitatio cartesiana, etc.

Mas o Ser não é somente o ser dos entes. Para poder pensar o Ser, segundo Heidegger, há que inverter tudo que foi pensado até agora, há que voltar À fonte originária e entender que o Ser não é uma propriedade dos entes, mas sim que estes são o que são no Ser e graças ao Ser.

A Metafísica, a partir de seu olhar oblíquo do Ser, se ocupou do ser dos entes. A tradução do termo grego Alétheia (desocultamento) para o latim veritas (verdade) foi o início da "falta de fundamento" do pensar ocidental. Porque Alétheia nomeia a experiência grega inicial do Ser: o estar aberto, em brilho, luz e esplendor, luzindo cada coisa a sua maneira. Junto a ela está Physis, o brotar do Ser, o surgir. A tradução de Physis simplesmente por natureza (daí Física e Fisiologia) e as interpretações das ciências nos arrancaram de nosso lugar na "natureza natural" e nos levaram a uma natureza "tecnicamente domesticada".

Heidegger interpreta a história da filosofia ocidental como uma história de decadência; mas não é uma decadência "clássica": origem, desenvolvimento, esplendor e decadência, mas sim uma decadência que está nas próprias origens, que é consubstancial. Essa ideia conecta Heidegger com os autores da chamada "Revolução Conservadora", que também interpretaram a história ocidental como a história da decadência, mas de uma decadência que já se apontava em suas próprias origens.

A tarefa que propõe Heidegger é uma tarefa autenticamente revolucionária. A crítica a toda a metafísica ocidental e a volta às origens para reconstruí-la. Essa tarefa tem um nome: a pergunta pelo Ser.

A Pergunta pelo Ser. O Ser e o Tempo

Em 1927, quando ainda é um jovem professor de filosofia praticamente desconhecido, publica Heidegger sua obra principal, Sein und Zeit (O Ser e o Tempo) onde desenvolve a "pergunta pelo Ser". Mas O Ser e o Tempo é uma obra inacabada: depois de denunciar o "esquecimento do Ser" e apresentar a "pergunta" Heidegger recorre ao método fenomenológico [4], desenvolvido por seu mestre Husserl, e nos diz que antes de desenvolver uma ontologia (o estudo do Ser) há que começar previamente por uma analítica existencial do ser humano, pois este é o único ente capaz de se perguntar pelo Ser, e, portanto, o que vive na proximidade do Ser.

O ser humano é Dasein (ser-aí) e Heidegger dedica à analítica desse Dasein a maior parte de seu livro, que termina justamente onde deveria começar a tratar propriamente de ontologia.

Na Introdução de O Ser e o Tempo Heidegger apresenta sua "pergunta pelo Ser" e trata de redefinir os três preconceitos que ocultaram as respostas a tal pergunta. A seu entender são três:

1 - O Ser é o mais universal dos conceitos [5]. Mas essa universalidade não é a do "gênero". O Ser é um "transcendente" e Aristóteles já o identificou como a unidade da analogia. A ontologia medieval discutiu o problema e finalmente Hegel definiu o Ser como "imediato indeterminado". A universalidade do conceito não significa que ele seja o mais claro, mas sim que ele é o mais obscuro.

2 - O conceito de Ser é indefinível. O Ser não pode ser concebido como um ente, não é suscetível a uma definição que o derive de conceitos mais elevados ou que o explique por mais baixos. Mas a indefinibilidade do Ser não dispensa da pergunta que interroga por seu sentido, ao contrário, ela o empurra justamente à ela.

3 - O Ser é o mais compreensível de todos os conceitos. Em todo conhecer de um ente se faz uso do termo "ser", e o termo é compreensível sem mais. Todo o mundo nos entende se falamos "o céu é azul". Mas essa suposta compreensibilidade de fato, revela incompreensibilidade: em todo ser de um ente há, na verdade, um enigma. O fato de vivermos uma certa compreensão do Ser e ao mesmo tempo que este esteja oculto na obscuridade prova a necessidade fundamental de formular a pergunta que interroga pelo sentido do Ser.

Superados estes três preconceitos Heidegger reitera sua pergunta pelo sentido do Ser. O primeiro progresso filosófico é entender que o Ser dos entes não é ele mesmo um ente. Faz-se necessário, portanto, uma forma peculiar de demonstrá-lo, que se diferencia do descobrimento dos entes [6]. Para prosseguir, Heidegger propõe um método: a fenomenologia.

Fenomenologia e Analítica Existencial

O termo "fenomenologia" remete a Husserl e a sua máxima "às coisas mesmas", mas não há que entendê-lo como uma divisa destinada a restaurar o realismo ingênuo [7]. Enuncia a vontade de excluir da filosofia os conceitos mal fundados e as construções gratuitas. Mas Heidegger não admite a ideia de Husserl de uma "filosofia sem pressupostos" e de alguma maneira "toma emprestado" seu método sem aceitar suas conclusões finais.

Para Heidegger a fenomenologia não designa o objeto da investigação, senão se limita a indicar como mostrar e tratar o que estamos estudando [8]. Fenomenologia é, pois, leitura ou ciência dos fenômenos [9], e por fenômeno entendemos tudo que de alguma maneira se manifesta. Manifestar-se um fenômeno não equivale forçosamente à aparição sensível: uma cultura, uma instituição política ou uma doutrina filosófica se "manifestam" de modo tão real quanto uma cor, mas de maneira distinta. O sentido kantiano de fenômeno como oposto ao "noumenon" ou "coisa-em-si" é rechaçado, pois não se considera o fenômeno como expressão deformada de algo oculto.

A fenomenologia é, para Heidegger, um método, é a forma de aceder ao que deve ser tema da ontologia, de tal modo que esta só é possível como fenomenologia [10]. Agora bem, este exame fenomenológico como propedêutico ao estudo do Ser deve fazer-se sobre um objeto determinado. Toda ontologia geral (o estudo do Ser) deve inaugurar-se como exame fenomenológico da existência humana, do Dasein.

O ser humano é o único ente capaz de se perguntar pelo Ser. O ser humano, para Heidegger, vive na proximidade do Ser. O ser humano se distingue da pedra, que "não tem mundo" e do animal, que é "pobre de mundo", na medida em que é "ser-no-mundo".

O Dasein não é um existente fixo, mas se caracteriza em seu ser pela relação permanente de instabilidade que mantém em si. O ser da existência humana nunca é coisa feita (salvo quando morre e deixa de ser). O Dasein é um existente cujo ser esta sempre posto em jogo [12], é fundamentalmente poder-ser.

Assentadas as premissas, Heidegger avança para a analítica existencial do ser humano como Dasein [13] ou Ser-aí.

O Dasein como Ser-no-Mundo

A primeira característica existencial que nos oferece o ser humano é sua característica de Ser-no-Mundo. As três características desse existencial são: o existir-em, o ser desse existente, e o mundo no qual este ser existe [14].

Normalmente, o termo 'em' designa uma relação de pertença. A águal está 'no' copo ou o banco está 'na' aula designam uma relação da coisa material e espacial. O livro está 'na' biblioteca, mas posto 'em' outro lugar, segue sendo livro. Mas no caso que nos ocupa o termo 'em' toma um significado distinto, uma relação que no estilo clássico chamaríamos transcendente. Quando se afirma que o Dasein está 'no' mundo se ultrapassa a simples situação de fato [15], pois não pode haver um 'eu' senão por e em uma relação com algo distinto do 'eu'. Falar de existência humana, quer dizer, de Dasein, implica falar em esforço, em conquista e em luta contra uma resistência que é ao mesmo tempo inimiga e aliada de nossa ipsiedade.

Este ser-em próprio do Dasein não deve ser visto como um atributo mais, porque não há nenhum momento em que se possa dizer que ainda não está no mundo [16]. Portanto, o ser-em é um constituinte fundamental e irredutível de nossa existência.

Tudo isso tem consequências imediatas. Não existe o ser humano "anterior" ao social. De fato, a própria ideia de "sociedade" como associação voluntária de indivíduos fica impugnada. O ser humano vive em "comunidade", anterior a qualquer existência individual. Ademais o ser-no-mundo implica comunidade com as coisas, mas também, e acima de tudo, com os outros Dasein. Tal como assinala Gil [17], Heidegger, a partir de 1933 e sem explicação prévia, começa a falar de Dasein do povo. Em realidade, o Dasein sempre teve um sentido coletivo e comunitário do ser-com-os-outros enquanto ser-no-mundo.

O Dasein não tem nada a ver com o indivíduo cartesiano ou com o "bom selvagem" de Rousseau. Em primeiro lugar, o Dasein não é uma "coisa" que pensa, não é um ser dado e concluso, mas sim um processo, existência, drama. Parafraseando Ortega ele "não tem natureza (mais que a biológica), mas história". Mas ao ser ser-no-mundo está enraizado em uma família, em uma comunidade, em um território, em uma tradição, em uma história. Não é anterior a essas realidades, ao contrário estas formam parte do mundo, e o Dasein é ser-no-mundo.

Ocupemo-nos agora do ser do existente. O verdadeiro existencial do ser-em é a preocupação [18], o que significa que a ligação fundamental do Dasein com o mundo se traduz no fato de que o Dasein não exite senão enquanto preocupado. Não deve, portanto, nos estranhar que o conhecimento que o Dasein trata de obter dos objetos e do mundo seja, em princípio, profundamente interessado. O saber começa por ser o útil do obrar.

Tudo isso leva o perigo de uma deformação. A preocupação com as coisas e com o mundo leva o Dasein a uma falsa interpretação de si mesmo: em lugar de fazê-lo a partir de sua existência no mundo, o faz a partir dos objetos que seu mundo contém. Daí a tendência ao coisismo, a interpretar a si mesmo como uma realidade conclusa, fechada. O Dasein se esquece do ser-no-mundo para centrar-se em seu mundo. O que é fundamental se dissipa na banalidade do dia-a-dia, e se acabamos sendo o que fazemos [19].

Vamos nos ocupar finalmente do que é este mundo no qual estamos [20]. O mundo não pode ser concebido pela soma dos objetos que contém, ao contrário é necessário explicar os objetos pelo mundo, e não o mundo por seus objetos. O objeto, como o Dasein, mas de maneira distinta, também é ser-no-mundo.

Em qualquer caso, o mundo não é apenas um mundo de objetos, mas é acima de tudo um mundo do Dasein, porque somente o ser humano enquanto Dasein é configurador do mundo [21]. Não há, pois, um ponto de partida absoluta para o estudo do mundo, além de que para conhecer o mundo há que partir do Dasein.

A Temporalidade do Dasein

A análise da temporalidade do Dasein leva a analítica existencial a seu ponto de culminação [22]. O ser do Dasein só pode ser entendido se contemplado como um drama que se desdobra pelo tempo (e não 'no' tempo), e é constituído por este tempo, tal como o tempo é constituído pelo Dasein [23]. A temporalização se manifesta na diversidade dos modos de ser. Inversamente, a diversidade no Dasein e os modos de ser. Inversamente, a diversidade no Dasein e nos modos de ser entranha uma diversidade nos modos de temporalização. 

A temporalidade é um fenômeno complexo. Há um tempo físico, um tempo biológico e um tempo histórico, e este último é o que nos interessa, pois é o que corresponde ao Dasein, que faz a história, e ao mesmo tempo se faz na história. O Dasein está na temporalidade, mas essa temporalidade depende do modo de ser o Dasein.

Na Modernidade domina um conceito do tempo linear, progressista e que tende a um "fim da história". Neste fim da história se acabarão as contradições e a "natureza" humana se revelará em toda sua plenitude. A história se vê como uma sem-razão, mas no fim dos tempos a razão prevalecerá sobre a história, e o ser humano, como "coisa", poderá manifestar suas verdadeiras essências, livre de limitações. É o último homem do qual falam Nietzsche e Fukuyama. Essa teoria do tempo resulta da combinação do tempo absoluto de Newton com a secularização da seta do tempo da escatologia cristã [24].

Mas há outras visões da temporalidade. Ela pode ser interpretada como involução ou decadência, pode ser concebida como ciclos que se repetem, ou pode ser entendida como uma esfera, na qual o tempo pode fluir em qualquer direção. De fato, não nenhuma evidência da linearidade da história, e menos ainda do suposto "progresso", e a própria história se encarregou de desbaratar as supostas "profecias" sobre seu fim.

Aprisionados no conceito moderno do tempo entendemos um evento histórico como algo que ocorre no tempo, e nós mesmos seríamos pontos que ocorrem no contínuo espaço-temporal. Mas a história é criada pela liberdade, o tempo da história não é o tempo da física e a produção humana não está 'na' história, senão é a história [25]. Fazemos a história a partir das decisões, e levamos a cabo projetos de futuro a partir do que já somos no passado, quer dizer, a partir de uma tradição.

Os Modos de ser do Dasein

Vimos que o Dasein é ser-no-mundo (o que implica ser-com-os-outros) e ser-no-tempo, o que implica sua historicidade e que sua "essência" coincida com sua "existência". Mas nos falta um elemento fundamental para entender o Dasein: sua possibilidade de existir de forma inautêntica e de forma autêntica.

A existência inautêntica do Dasein vem dada por sua submissão ao impessoal. Na vida quotidiana sofremos uma dependência radical em relação ao "outro". Mas quando nos perguntamos a quem estamos submetidos não sabemos responder. Este inominado tirano é o sujeito neutro, impessoal, o 'se' do "diz-se...", "fala-se...", "veste-se agora assim". O verdadeiro sujeito dessa existência quotidiana é este 'se' impessoal (em alemão Man) [26].

O impessoal rende culto à banalidade média. O nivelamento universal é procurado encarniçadamente e a propósito de tudo. O segredo e a personalidade são combatidos sem trégua; fomenta-se a instauração de uma existência "aberta", completamente difundida e exposta a "todos os ventos". Cada um se dissolve em todos os outros. 

Frente a este modo de ser inautêntico (mas totalmente real) se levanta o Dasein autêntico. A passagem do Dasein inautêntico ao autêntico vem dado pela angústia. A angústia desperta no Dasein quando este toma consciência de sua finitude, de ser um Ser-para-a-morte. O Dasein autêntico despreza o impessial e o palavrório quotidiano que o acompanha. Não se aparta do mundo nem da vida quotidiana, mas contempla esta desde outra perspectiva, pois desde sua consciência de ser-para-a-morte vê a vida quotidiana em sua radical insignificância.

Para que o Dasein possa "antecipar" sua morte ele deve ser capaz de "dirigir-se à" seu porvir, deve ser futuro. Não se coloca na situação de sua existência, senão torna presentes, dominando-os, os diversos elementos que determinam suas possibilidades em cada instante determinado, quer dizer, seu presente, seu porvir e seu passado. Não pode existir autenticamente senão aceitando o levar sobre si o peso de seu passado: deve reconhecer-se seu herdeiro [27].

Portanto, a existência é a que assume a dupla herança de seu abandono no mundo, e do que fez no mundo, quer dizer, seu passado mundano. A autenticidade é herdeira, sob pena de abdicar de sua resolução.

Na medida em que o Dasein está mais resoluto em sua existência e seja mais dono de seu patrimônio, tanto menos aparecerá o que faz ou o que suceda como efeito do azar. Se esquece seu passado abandonará as rédeas de seu destino.

O Dasein inautêntico, que esqueceu seu passado, renuncia ao exercício de sua liberdade real. Enredado ao longo de sua vida, deixa de ter um destino para se converter em uma "coisa" joguete das circunstâncias. 

Agora, sendo a existência humana existência em comum, que deriva do caráter de ser-no-mundo, tudo que podemos predicar do Dasein individual, é também aplicável ao Dasein coletivo, comunidade ou povo. Este também pode levar uma existência autêntica ou inautêntica. Assim o povo é para Heidegger "ser nós mesmos" [28].

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1 Soler, F. (1993) Prologo a Ciencia y Técnica de Martin Heidegger. Santiago de Chile, Editorial Universitaria.

2 De Waelhens, A. (1952) La filosofia de Martin Heidegger. Madrid, CSIC, Instituto “Luis Vives” de filosofía, p. 9.

3 Heidegger, M. (1998) El Ser y el Tiempo. Traducción de José Gaos. México, Madrid, Fondo de Cultura económica, p. 11-

4 La Fenomenología, desarrollada por Husserl, es un intento de filosofar sin presupuestos, de volver a “las cosas mismas”. Heidegger, aunque no acepta la posibilidad de filosofar si presupuestos, considera adecuado el método fenomenológico de reducción.

5 El Ser y el Tiempo, p. 12.

6 Idem, p. 16.

7 De Waelhens, obra citada, p. 18

8 El Ser y el Tiempo, p. 45.

9 De Waelhens, obra citada, p. 19.

10 El Ser y el Tiempo, p. 46.

11 Heidegger, M. (2007) Los conceptos fundamentales de la Metafísica: mundo, finitud, soledad. Madrid, Alianza Editorial, p. 251 i sig.

12 De Waelhels, obra citada, p. 30

13 El Ser y el Tiempo, p. 50.

14 De Waelhels, obra citada, p. 39. El Ser y el Tiempo, p. 65.

15 De Walhens, obra citada, p. 40. El Ser y el Tiempo, p. 66.

16 De Waelhens, obra citada, p. 41. El Ser y el Tiempo, p. 67.

17 Gil, E. (2014) Heidegger y la política. Madrid, Editorial Retorno, p. 121

18 De Waelhens, oba citda, p. 41.El Ser y el Tiempo, pp. 74-75

19 El Ser y el Tiempo, p. 75.

20 El Ser y el Tiempo, p. 76.

21 Heidegger, M. (2007) Los conceptos fundamentales de la metafísica: mundo, finitud, soledad. Madrid, Alianza Editorial, p. 332 (cap. Sexto)

22 De Walehens, obra citada, p. 189.

23 Dugin, A. (2013) La Cuarta Teoría Política. Barcelona, Ediciones Nueva República, p. 90

24 Alsina Calvés, J. (2015) Aportaciones a la Cuarta Teoría Política. Tarragona, Ediciones Fides, p. 31

25 Gil, obra citada, p. 45.

26 De Waelhens, obra citada, p. 75.

27 El Ser y el Tiempo, p. 414.

28 Heidegger, M. (1991) Lógica. Lecciones de Heidegger (semestre de verano de 1934) Legado de Heleb Weiss. Barcelona, Ed. Anthropos, p. 17.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Aleksandr Bovdunov - Zbigniew Brzezinski: A Morte do Demiurgo

por Aleksandr Bovdunov



Brzezinski morreu, mas continuamos a viver no mundo que ele criou

Zbignew Brzezinski está morto. Um proeminente globalista e atlantista deixou este mundo em 27 de maio de 2017. A morte foi anunciada primeiro por sua filha, a famosa apresentadora americana de TV Mika Brzezinski. Nos obituários subsequentes, apesar das diferentes cores ideológicas, a maioria ressaltou as notáveis habilidades intelectuais do morto, seu papel como conselheiro do presidente Carter de 1977 a 1981, e também sua contribuição significativa para o estudo das relações internacionais. Porém, Brzezinski não era apenas um cientista político ou estadista talentoso. Ele foi um dos arquitetos da ordem mundial existente em todos os seus aspectos: das estruturas globalistas influentes ao terrorismo internacional, do conceito de "totalitarismo" enfiado na mente de todo graduado nas faculdades de ciência política ao bloco sino-americano que pôs fim ao projeto soviético. Brzezinski foi de soldado a un dos generais da Guerra Fria, vencida pelos EUA

Geopolítica como Destino

Zbignew Brzezinski era um atlantista consistente. A escolha geopolítica a favor das Potências Marítimas, Grã-Bretanha, e posteriormente EUA, se tornou a questão principal no destino desse filho da Polônia. Como atlantista, ele era bastante consciente de que a principal ameaça aos planos de dominação mundial dos EUA era o poder continental da Rússia, e posteriormente o soviético. A confronto com a Rússia se tornou o sentido de sua vida. E mesmo após o colapso da URSS e do comunismo, Brzezinski se opôs radicalmente a todos os intentos imperiais de Moscou. Ao mesmo tempo, Brzezinski era um liberal consistente no sentido de que, em contraste com realistas nas relações internacionais, ele tinha o fator ideológico em alta conta, acreditava na necessidade de promover valores liberal-democráticos por todo o mundo e acreditava em uma utopia globalista. Brzezinski fundiu uma profunda compreensão da geopolítica (a mais brilhante obra "geopolítica", "O Grande Tabuleiro de Xadrez") e a adesão à abordagem liberal nas relações internacionais. Neste sentido, a Rússia era para ele o inimigo ideal, já que sua oposição ao Ocidente era causado não só por razões geopolíticas, mas não raro estava pintada em cores ideológicas. Quando Brzezinski disse amar a Rússia, ele não mentiu: em seus conceitos, ele deixava um lugar para ela, mas essa seria uma outra Rússia, com outra configuração territorial e orientação ideológica.

Avô do Terror

No esquema da doutrina do confronto com a Rússia durante a Guerra do Afeganistão, Brzezinski fez o possível para ressuscitar o islamismo militante das cinzas e voltá-lo contra os soviéticos. Ele se encontrou pessoalmente com seus líderes, inclusive com o bilionário saudita Osama bin Laden, e persuadiu o presidente Carter a apoiar os mujahideen no Afeganistão. O processo inaugurado por Brzezinski levou à emergência de um novo fenômeno no mundo islâmico, o terrorismo global. Islamistas educados pelos EUA se tornaram um novo fator nas relações internacionais, ultrapassando os terroristas esquerdistas e nacionalistas dos anos 70 em todos os sentidos. Posteriormente, quando os próprios EUA entraram em rota de colisão com este inimigo, Brzezinski afirmou que ele não se arrependia da escolha feita na virada da década de 80. Os islamistas esmagaram o principal inimigo ideológico e geopolítico dos EUA, a Rússia soviética, apesar de eles próprios representarem uma ameaça, mas uma menos perigosa do seu ponto de vista. 

Pai da Trilateral

Brzezinski foi um dos que esteve nas origens da Comissão Trilateral. Junto a David Rockefeller em 1973, ele se tornou um dos fundadores da instituição globalista cujo objetivo era unificar as elites políticas e econômicas dos EUA, Europa e Japão. É claro, o objetivo imediato era fortalecer laços entre os centros do pólo pró-americano (o chamado "Mundo Livre") do sistema mundial bipolar. Mas nem o próprio Brzezinski, nem Rockefeller ocultavam que o objetivo final era um mundo unificado sob controle da elite global. Em sua obra dos anos 70 "Entre as Duas Eras: O Papel Americano na Era Tecnocrática", Brzezinski justificou a necessidade de criar tais centros de reconciliação e governança global. De 1973 a 1976 ele foi o presidente da Comissão Trilateral. Este famoso cientista político também se uniu ao Conselho de Relações Exteriores (CFR) e ao Clube Bilderberg.

A Teoria do Totalitarismo

Junto a outro cientista político americano, Carl Joachim Friedrich, Brzezinski promoveu a popularização da teoria do "totalitarismo". Desenvolvendo as ideias de Hannah Arendt, que uniu os regimes nazista e comunista em uma única categoria, Brzezinski e Friedrich não obstante desafiaram a tese de Arendt de que os regimes totalitários estão opostos, em suas origens, às autocracias tradicionais. Para Brzezinski, o totalitarismo é uma das formas de autocracia que é característica da era industrial. Assim, o totalitarismo soviético era para ele não algo novo, alienígena à história da Rússia, mas uma continuação do Estado autocrático histórico. Por outro lado, essa posição demonstra o rigorismo liberal de Brzezinski que essencialmente introduziu a classificação dicotômica de "regimes democráticos contra todos os outros".

Tudo que não fosse uma democracia liberal neste sistema, a qual, apesar de críticas, era usualmente tomada como garantida pelo pensamento ocidental comum, era situado na mesma categoria que o fascismo e, assim, ostracizado.

Escolha Chinesa

Um dos principais sucessos de Brzezinski em política externa foi a continuação da política de aproximação com a China, começada sob Henry Kissinger. Como resultado, foram estabelecidas relações diplomáticas entre EUA e China e a RPC se tornou um aliado de facto dos EUA na Guerra Fria contra a URSS. No caso da China, Brzezinski preferiu seguir a lógica geopolítica, como potência da Rimland (NT: a periferia da Eurásia, a região circundante da Heartland), a China podia ser tanto atlantista como eurasiana, mas diferentemente da Rússia ela não controlava territórios significativos do continente eurasiático, primariamente a Heartland. Posteriormente nos anos 2000, Brzezinski falou nos "Dois Grandes", um sistema mundial dominado pelas duas potências, EUA e China, como uma alternativa interessante à atual instabilidade. É graças a Brzezinski (mas não só a ele) que hoje vivemos em um mundo onde muito depende das relações entre EUA e RPC. Os dois vencedores e aliados inevitavelmente chegam a uma concorrência global tal como os aliados anglo-americanos e a URSS após a Segunda Guerra Mundial.

Fantoche Negro

A mais recente contribuição de Brzezinski à política mundial foi a presidência de Obama. O geopolítico foi um auxiliar ao candidato presidencial negro, e após a campanha eleitoral Brzezinski foi às vezes chamado "o cardinal cinzento de Obama". Parece que este definitivamente tentou seguir as recomendações de um idoso cientista político, como expressadas por ele no livro "Segunda Chance: Três Presidentes e a Crise da Superpotência Americana". Em particular, a "Primavera Árabe" pode ser explicada pelas tentativas americanas de adotar o conceito de "despertar democrático global" de Brzezinski. Os EUa tentaram reorientar forças no mundo árabe que estavam insatisfeitas com o déficit de democracia em seus países na direção dos EUA e seus ideais liberais, apesar de esse déficit geralmente estar organizado por regimes pró-americanos. Em relação à Rússia nessa obra, Brzezinski propunha aplicar a estratégia de engagamento, integração em projetos ocidentais, que se tornou base do famoso "reset". Mas algo deu errado.

A reunificação russa com a Crimeia foi um ponto de virada, quando todos perceberam que não haveria engajamento real no futuro próximo. A Primavera Árabe terminou com uma nova onda de terror. Terroristas islâmicos sempre foram uns dos principais beneficiários das ideias de Brzezinski. A ascensão de Trump ao poder supostamente arruinou o velho homem. Segundo suas próprias palavras, ele não acreditava que isso poderia ocorrer. A China, apesar do encontro entre Trump e Xi Jinping organizado por seu amigo e adversário Henry Kissinger, é mais um competidor que um parceiro na divisão do mundo. Brzezinski morreu, deixando o mundo criado por ele em uma condição enfraquecida.

Morte do Pensamento

Com sua morte, toda uma era e estilo de pensamento se vão. Não. A russofobia e a abordagem geopolítica continuarão presentes por um longo tempo na política externa americana. É algo mais. Na segunda metade do século XX, pelo menos no que concerne a política externa, imigrantes europeus pensavam no lugar dos americanos: fossem pessoas nascidas na Europa e migradas para os EUA, como Kissinger ou Morgenthau, ou o próprio Brzezinski, ou com raras mas importantes exceções, como Samuel Huntington, eles eram representantes da diáspora judaico-americana, filhos de emigrantes da Europa, criados na cultura europeia. Isso se aplica a neoconservadores, adeptos do judeu alemão Leo Strauss. Mesmo Francis Fukuyama e seu "Fim da História" não poderiam existir sem a influência do estudante de Strauss Alan Bloom. Em outras palavras, o sucesso intelectual da velha e não-americanizada Europa, paradoxalmente, serviu para o sucesso americano. Com a partida de dinossauros como Brzezinski e Kissinger, este recurso se exaurirá. A velha geração de neocons também morre, e a nova só aprendeu com eles a amar Israel e odiar a Rússia, mas não a pensar. Se a América será capaz de começar a pensar com sua própria cabeça após a partida de sua elite intelectual em política externa de origem europeia é uma grande questão. 

sábado, 27 de maio de 2017

Forças Armadas Peronistas - Por que Somos Peronistas?

por Forças Armadas Peronistas



Em 1945 o país estava em um período de progresso e ascensão econômica. Estava crescendo internamente, à medida que os centros industriais cresciam no interior do país e o governo podia contar com grandes reservas monetárias externamente. Esta situação geral tornou possível o aparecimento do fenômeno peronista, principalmente devido a três fatores:

1 - O aparecimento da indústria nacional, fruto da prosperidade geral, das condições do mercado internacional do pós-guerra e das condições do mercado interno devido à escassez de material manufaturado.
2 - Os inícios da penetração dos ianques como consequência do enfraquecimento do Império Britânico e da expansão da América do Norte.
3 - Migração interna. Como consequência do crescimento da indústria surgiu um novo proletariado urbano proveniente do interior do país de origem crioula, não politizado e numa situação de desorientação total. No entanto, apesar da prosperidade econômica florescente, a situação da classe trabalhadora era de exploração, condições de trabalho precárias e ausência de regulamentações trabalhistas, aposentadorias e proteção social.

O coronel Perón colocou-se à frente do movimento nacionalista - unido por setores da burguesia nacional e do exército - e a classe operária organizada com este novo proletariado urbano, tomando como bandeiras a defesa da indústria nacional nascente, a luta contra a penetração ianque e as exigências sociais da classe trabalhadora.

O 17 de outubro de 1945 foi a primeira ação de massas da classe operária argentina, foi o despertar político dos descamisados, foi o encontro do Povo com seu líder, que o elevou para que atingisse seu mais alto nível de consciência: a consciência de sua missão e destino históricos. Centenas de milhares de homens e mulheres foram mobilizados em massa para impor sua vontade e reconquistar o poder. Tivemos aqui a poderosa e nova força dos trabalhadores contra os valores obsoletos da oligarquia imperialista e exploradora.

O peronismo deve seu nascimento à erupção dos trabalhadores na vida nacional como co-participantes na construção da nova Argentina. No campo internacional significou o avanço dos países do Terceiro Mundo, que buscavam seu próprio caminho fora das duas potências hegemônicas.

A partir de 1945, o peronismo, como movimento antiimperialista, popular e nacionalista, iniciou o processo democrático burguês no país. No campo econômico representou a defesa da riqueza do país contra mãos estrangeiras. A dívida externa foi reembolsada (somando 40% de nossos recursos e reservas). Os transportes, gás, telefone e eletricidade foram nacionalizados. A nacionalização do Banco Central permitiu o uso da poupança nacional para o desenvolvimento do país. O preço dos materiais primários exportados e importados foi assegurado através do IAPI.

No entanto, as estruturas de poder oligárquico não foram modificadas em seus aspectos econômicos.

Uma série de reivindicações sociais autênticas foram expressas: os direitos dos trabalhadores, da família, dos idosos e o direito à educação foram regulamentados. A participação no governo foi concedida ao povo, concedendo o voto às mulheres e aos povos indígenas; A classe trabalhadora participava diretamente no poder político e havia ministros, governadores, deputados, senadores e diplomatas operários; A distribuição da renda nacional permitiu a melhoria das condições de vida da classe trabalhadora. As proporções foram revertidas em favor dos trabalhadores, que recebiam 66% da renda nacional.

Politicamente, o proletariado recebeu consciência de classe e consciência de seu poder, e graças a isso a possibilidade de participar da liderança do país.

Os confrontos começaram com o desaparecimento das prósperas condições do pós-guerra. Houve luta de classes dentro do movimento peronista. O exército participou da industrialização, mas não com uma política socialmente progressista. A burguesia queria aumentar ainda mais seus próprios lucros, negociando com o imperialismo, e os burocratas não fizeram nada além de paralisar o processo. Diante deles, as "pequenas cabeças negras" e os "gordurosos" - como eles chamavam o povo - tendiam a radicalizar a política social. O aumento da consciência política exigiu o aprofundamento dos slogans e políticas nacionais revolucionários, bem como a participação dos trabalhadores nas decisões da liderança.

No entanto, a liderança do movimento permaneceu nas mãos da burguesia nacional todo-poderosa e da burocracia sindical e política. Sem combatividade de classe, sem a presença revolucionária de Evita, abundaram as conquistas fáceis. O Povo viveu a euforia do progresso ilimitado, não tomando consciência da necessidade de destruir as estruturas que sustentam a oligarquia e seus interesses, a fim de conseguir uma distribuição efetiva dos bens de produção. A democracia do movimento estava paralisada.

Foi assim que o processo foi paralisado e as forças anteriormente unidas em uma ampla frente anti-imperialista se dispensaram e se acabaram com um choque: a frente foi rompida.

Desde 1955 14 anos se passaram nos quais a minoria oligárquica assumiu o poder, espoliando o povo e Perón do governo. Neste 14 anos o peronismo instituiu uma luta nas frentes mais diversas para reconquistar o poder. Durante estes 14 anos os caminhos tomados não estiveram no ápice de sua condição revolucionária e tiveram em comum seu espontaneísmo. Eles foram: golpismo, eleitoralismo, burocracia reformista ou traidora usualmente em contato com comandantes militares, terrorismo e sabotagem, que só levaram a becos-sem-saída. As sucessivas crises militares, o triunfo militar, o massivo e popular triunfo do peronismo em 18 de março de 1962, a derrubada de Frondizi, a nova crise militar demonstraram isso.

O 18 de março demonstrou que a oligarquia não estava disposta a render o governo ou o poder por uma questão de mais ou menos votos. O golpe de 28 de junho de 1966 representou a continuação genuína da oligarquia, despida hoje de falsas máscaras pelas forças armadas que, nessa conjuntura, são a única estrutura capaz de defender efetivamente os interesses da oligarquia e do imperialismo.

A falta de uma ideologia coerente e de uma estratégia revolucionária que fornecesse um esquema, os distintos métodos separadamente empregados provocaram a dispersão atual do peronismo, e o levou à derrota várias vezes.

Mas estes anos de luta permitiram que ele aprendesse, permitiram ver que a situação da Argentina e do peronismo é aprte de um processo de libertação da América Latina. Estes anos de luta e rebelião permitiram a formação de um novo peronismo que tenta integrar todas as suas derrotas, todas as suas experiências.

Hoje, quando a burguesia é incapaz de liderar qualquer processo histórico revolucionário; hoje quando o processo se apresenta em termos inseparáveis da Revolução Social e da Libertação Nacional, a força histórica do peronismo como expressão da classe trabalhadora não pode ser igualada.

SOMOS PERONISTAS porque, crendo na força do peronismo, devemos continuar e aprofundar suas atividades segundo as novas demandas históricas e as novas conjunturas nacionais e internacionais.

SOMOS PERONISTAS porque existe uma continuidade clara entre a grandeza nacional iniciada pelo peronismo no governo e aquela que reaparecerá com novas e superiores formas de luta, tudo enquanto integramos estas com os estandartes de nossos primeiros dias. À estratégia contrarrevolucionária de opressão e miséria, de vergonha e privilégio do regime que existiu desde 1955, oporemos a estratégia revolucionária de tomar o poder pela luta armada.

Aqueles que veem em Perón um obstáculo para levar à frente a luta armada carecem da clareza de ver a continuidade histórica que existe entre o processo de 1945-1955, a busca pela estrada que leva ao poder nos últimos 14 anos, e o novo caminho através da luta revolucionária que o peronismo está iniciando e que é a culminação das duas fases anteriores.

SOMOS PERONISTAS e afirmamos o estandarte do retorno de Perón, porque esta é uma autêntica demanda popular. Porque para além da forma e da aparência, o povo não pede pelo retorno de um homem, mas do que ele encarna e é; sua participação na lidernaça do país.

Pois Perón é um fenômeno que não pode ser contido em qualquer sistema. A possibilidade de negociação entre Perón e o regime não tem existência real, e o significado de Perón na Argentina são os milhares e milhares de descamisados nas ruas. Por isso Perón e o peronismo são uma oposição inassimilável ao regime, e essa realidade é independente do próprio Perón.

SOMOS PERONISTAS e lutamos pelo retorno de Perón porque temos confiança no povo, sentimos com ele e não o consideramos como algo que possa ser conquistado por uma seita de iluminados. Só podemos ter um método: tomar as demandas do povo como nossa bandeira e aspirar a outras ainda maiores junto ao povo.

Che disse que não se deve se afastar demais do povo, nem se misturar totalmente com ele, deixando assim de ser a vanguarda. Fazer isso significaria não ver as necessidades reais do povo e assumir outras que até agora foram pura teoria e que o povo não sente ser suas. A segunda seria aceitar que Perón deve vir para fazer a revolução, sem explicar que apenas uma revolução em marcha pode trazer Perón.

SOMOS PERONISTAS e por causa disso afirmamos que da tuba do peronismo deve vir a Vanguarda Revolucionária capaz de liderar o Povo à única solução para o país e para a classe trabalhadora, A TOMADA POLÍTICA E ECONÔMICA DO PODER, para a criação de uma Argentina Justa, Livre e Soberana.

FORÇAS ARMADAS PERONISTAS
Argentina 1969

terça-feira, 23 de maio de 2017

Winston Wu - Oito razões pelas quais os americanos modernos parecem desalmados e inumanos

por Winston Wu



Você já notou (mas nunca ousou contar a ninguém sobre isso) que os americanos modernos parecem desalmados e inumanos, como se eles carecessem de calor e sentimento? Bem, não é coisa de sua cabeça. Até programas de TV e filmes refletem isso. 

Você pode ter notado que os programas de TV e filmes dos anos 60 e 70 tinham personagens muito diferentes de hoje. Os personagens daqueles dias exalavam bondade, calor, sentimento e uma moral forte. Os personagens principais nunca eram idiotas, mesmo que fossem heróis de ação. Eles cuidavam dos outros, e eram simpáticos e amigáveis, como pessoas que você ficaria feliz em sair com. E eles tinham um ar de familiaridade, como se fossem parte de sua família. Os espectadores sentiam um apego emocional a eles. Cenas de amor e drama estavam cheias de emoção e sentimento genuíno. Até mesmo a música em antigos programas de TV e filmes eram muito românticas. 

Mas os modernos programas de TV e filmes têm personagens frios, indiferentes, arenosos que parecem sem alma, desumano e desprovido de sentimento ou calor. Todos eles se preocupam é atuar duro e mal. Sem investimento emocional neles, você nem se importa se eles vivem ou morrem. Infelizmente, eu acho que isso reflete a atitude dos jovens americanos modernos (ou é suposto). 

É como um filme de terror de ficção científica de 1978, "Vampiros de Almas", com Donald Sutherland. Nesse grande filme clássico, vagens alienígenas replicam seres humanos na Terra em clones alienígenas que estão desprovidos de qualquer emoção ou sentimento. No final, todos na cidade de São Francisco se transformaram em clones desalmados e desumanos. É preciso se perguntar se os cineastas estavam tentando nos dizer algo, já que o cenário do filme tão frio descreve com precisão a América moderna. Além disso, os seres humanos só obtêm replicas quando eles "vão dormir", que foi um grande trocadilho, intencional ou não

Muitos estrangeiros conscientes têm observado que os americanos parecem ser desalmados e só têm olhos para o dinheiro. É como se a "força vital" tivesse sido drenada ou sugada para fora deles. Agora, eu não vejo como seria até possível sugar a alma ou a força vital de uma nação inteira, então só posso me perguntar se algo "fora deste mundo" está acontecendo em um nível mais alto ou mais profundo da realidade. (A realidade é multi-camadas, afinal, com camadas físicas e não-físicas). É como se forças extra-dimensionais invisíveis estivessem funcionando. 

No entanto, uma vez que eu não posso especular sobre coisas invisíveis, Só posso tentar encontrar razões e causas físicas mais terrenas. Então, aqui estão alguns pontos que eu ofereço com base na minha especulação e suposições educadas.

1. Os americanos são condicionados a ter um único objetivo de vida, que é ganhar dinheiro. Eles são ensinados que a vida e tudo é tudo negócio. Um estilo de vida workaholic é considerado a norma que se esforçam. Um foco tão estreito sobre a vida suprime a sua criatividade e imaginação, e torna-os aborrecido também.

Na América, a busca do dinheiro SUBSTITUIU a alma humana. Assim, os olhos dos americanos parecem vazios e plásticos, sem alma nem paixão. Seus olhos também parecem deprimidos também, como se estivessem sobrecarregados de trabalho e estivessem consumindo demais com nada mais para viver.

Além disso, o custo cada vez maior de vida na América (devido à inflação e as práticas ilegais da Reserva Federal e da elite bancária), que tem saído do controle, tem perpetuado a necessidade de viver um estilo de vida workaholic para manter-se.

A maioria dos americanos não percebe o quão insano é viver em uma tarefa monótona e árdua. Eles nunca param para se perguntar esta questão esclarecedora: Qual é a razão de ganhar a vida se tudo que você faz todos os dias é trabalhar para ganhar a vida? Afinal, não há "viver" para fazer se não há tempo ou liberdade para "viver" e fazer o que quiser certo? Assim, a frase "fazer a vida" torna-se uma autocontradição e oxímoro.

2. Os americanos são condicionados a serem materialistas e derivam felicidade do consumismo e das posses materiais. Assim, seu foco está no externo e não no interno. Como resultado, eles não cultivam seu eu interior ou alma e, assim, tornam-se sem alma. Isto explica porquê as pessoas que são altamente materialistas parecem ter olhos vazios sem alma, sem interior próprio ou espírito irradiando dentro, e falta verdadeira paixão também.

Os americanos também trocam a felicidade pelo conforto, seguindo o sistema em vez de sua alma. Este é um grande erro, porque quando você se concentra no conforto do corpo e negligencia os desejos de sua alma, coração ou espírito, você se nega e vive uma vida muito falsa e inautêntica.

3. Os americanos são condicionados a viver com medo e paranóia. Alguém me disse uma vez: "Os carros funcionam com combustível, os americanos funcionam com medo". A típica mentalidade, personalidade e atitude americana está em um estado de consciência de medo. Você pode ver em sua personalidade, linguagem corporal e vibração. Sua mídia perpetua o medo alimentando-os de más notícias e tragédias todos os dias. Estudos mostram que quanto mais você assiste à notícia, mais paranóico você se torna, o que não é surpresa.

Mas mesmo se eles ouvirem os meios alternativos, eles ainda serão temerosos, porque a mídia alternativa lhes diz que seu inimigo é seu próprio governo e as mentiras, corrupções e conspirações dos poderes que estão. Assim, eles são sempre mantidos com medo de alguma coisa, seja por fontes do establishment ou fontes alternativas.

A coisa é, ter medo quando há perigo real envolvido é normal e necessário para a sobrevivência. Mas os americanos estão em um modo de medo sobre tudo, até o ponto onde ele domina seu estado de mente e consciência, tornando-se excessivo e além da razão. Eles até começam a temer coisas que não existem. Como resultado, eles vêem cada estranho como um potencial psicopata, criminoso ou terrorista.

O que é irônico é que em países estrangeiros onde há um nível mais alto de perigo e crime, as pessoas não são tão paranóicas. Por exemplo, a Rússia, o México e as Filipinas têm crimes mais elevados nas suas ruas do que os EUA, mas ainda assim as pessoas não são paranóicas ou estão em constante estado de medo. Nesses países, você pode caminhar até estranhos (incluindo mulheres) e falar com eles e eles ficaram relaxados e confortáveis. Ao contrário dos americanos, eles não têm medos imaginários. Em vez disso, eles estão mais em contato com a realidade e suas personalidades são mais pé-no-chão.

Eu até me arriscaria a supor que os americanos projetam seus medos e falta de liberdade para outras nações. Eles vêem as pessoas em outras nações como vivendo com medo, sendo indelicado e sem liberdade, enquanto eles mesmos são amigáveis, calorosos e abertos, mesmo que a verdade seja exatamente o oposto.

O problema de estar em um estado perpétuo de medo, ou de estar em consciência de medo, é que ele diminui seus níveis de energia e chakra para uma vibração lenta, o que o torna menos consciente e prejudica sua capacidade de pensar claramente. Inibe o seu potencial de crescimento, criatividade, abertura, aventura e novas idéias. Como resultado, sua alma/espírito torna-se de baixa densidade e menos vibrante. Ao invés de estar no fogo, você se sente fraco e impotente.

A conseqüência é que o medo restringe sua mente. Quanto mais temeroso você é, mais estreita sua mentalidade é. Mas, quanto menos medo você tem, mais mente aberta você é e, juntamente com ela, sua imaginação, criatividade e alma irão florescer e se expandir também.

4. Os americanos não são curiosos nem são atraídos pela novidade. Eles preferem a familiaridade com a novidade, e falta de curiosidade. Assim, eles não são atraídos por novas idéias, novas pessoas e coisas novas. Em vez disso, procuram o familiar e a rotina, nas pessoas e nas coisas, e não confiam no desconhecido.

Isso explica o motivo dos americanos não estarem à vontade para conhecer novas pessoas e porque não gostam de conversar com estranhos, a menos que seja apenas para negócios. A vida social americana é altamente exclusivista, o que significa que é limitado a dentro de grupos que são fechados e EXCLUSIVO. Preferindo familiaridade, os americanos só se socializam com amigos estabelecidos em sua camarilha social, e não estão abertos com estranhos. Para estranhos, eles tendem a ser distante, como se todo mundo fosse esperado para ocupar-se de seus próprios negócios.

O problema com a vida social sendo limitado a camarilhas é que camarilhas por natureza são fechadas e exclusivas. Assim, as pessoas dentro delas vão ter uma atitude e mentalidade que é "fechada e exclusiva" também (ou esnobe e preso em outras palavras). Portanto, para entrar em um camarilha , é preciso ser "fechado e exclusivo" você mesmo. Caso contrário, você terá um tempo difícil de quebrar, pois você não estará no mesmo comprimento de onda que as pessoas neles.

(O que é interessante notar é que quando dois estranhos americanos se encontram num país estrangeiro, eles são muito mais propensos a iniciar uma conversa e fazer perguntas sobre si, do que se tivessem se conhecido na América, o que fala muito sobre o assunto)

Este é especialmente o caso com as mulheres na América. Estudos mostram que as mulheres preferem a familiaridade, enquanto os homens são mais atraídos pela novidade. Veja aqui

Assim, as mulheres na América são mais exclusivista e socialmente fechadas quando se trata de conhecer novas pessoas e socializar com estranhos, do que os homens são. Este é um padrão consistente que eu vi uma e outra vez. Não há dúvida. 

O significado aqui é que as pessoas que são mais curiosas, mais abertas, procuram novas experiências e são atraídas para a novidade, tendem a ser mais apaixonadas, criativas e imaginativas do que aqueles que não são. Assim eles parecerão mais vivos e com alma também.

5. Os americanos são ensinados a cuidar apenas de si mesmos, ser independente e não precisar de outros. Como resultado, eles são socialmente desconectados e distantes dos outros. Como se costuma dizer, todo homem é uma ilha. Por padrão, há uma "barreira de gelo" entre estranhos, daí o termo "quebrar o gelo". Os americanos não falam com estranhos, a menos que seus negócios  estejam relacionados.

A maioria das amizades são fachadas e mais de uma relação de amizade do que uma verdadeira amizade. A verdadeira amizade, conexão, camaradagem, amor, romance, comunidade e valores familiares, não existem na sua forma natural na América moderna.

Internamente, os americanos são frios e insensíveis, embora com falsos sorrisos de plástico, bem como arrogante e babacas. Na verdade, a televisão americana moderna e os filmes idolatram personagens que são assassinos impiedosos sem sentimentos, que refletem a típica personalidade americana moderna, infelizmente. Em contraste, programas de televisão no passado (antes da década de 1990) apresentavam personagens que eram calorosos e atenciosos. Os  americanos acreditam que para ser verdadeiramente independente e não precisar de outros, é preciso ficar frio e indiferente. Isso os faz parecer sem alma também.

6. Nas escolas públicas americanas, a imaginação e a criatividade são suprimidas, não cultivadas. As crianças são condicionadas a utilizar a parte esquerda do cérebro por etapas conseguintes, memorizando dados e repetindo-o em testes. Isso os torna o cérebro esquerdo dominante, ignorando o cérebro direito, que controla a criatividade, imaginação e pensamentos livros. Como resultado, eles se tornam robóticos, zumbis e maçantes. Eles também se tornam rígidos e não tão abertos a novas idéias. Esse é o objetivo do sistema americano, infelizmente, que trata tudo como um negócio, incluindo as pessoas.

No fundo, as pessoas podem sentir intuitivamente que foram suprimidas e controladas em uma existência inautêntica. É por isso que seus rostos parecem deprimidos, vazios e mal-humorados. Sua "força vital" foi suprimida e morta. Eles podem sentir que algo está errado, mas não podem conscientemente entender o por quê. Então eles sentem esta insatisfação e vazio constante. Mas ao invés de se envolver na introspecção, eles se envolvem no consumismo e ganhar dinheiro. Mas, em última análise, nada disso leva à verdadeira felicidade, alegria ou satisfação.

7. Alimentos na América contém mais ingredientes processados do que em qualquer outro país. Basta olhar para as etiquetas de alimentos no supermercado na América e você verá o que quero dizer. Há tantos ingredientes processados e aditivos listados que você não pode sequer pronunciar. Não é assim em outros países. E quem sabe o que esses OGMs (organismos geneticamente modificados) da Monsanto, que agora estão na maioria dos alimentos americanos, estão nos fazendo geneticamente.

Você conhece o provérbio, "você é o que você come". Bem, se a maioria do que você come todos os dias contém uma grande quantidade de ingredientes artificiais processados, então a lógica seria seguir que você vai se tornar "artificial e processado", não é? Assim, quanto mais "artificial e processado" você se tornar, menos você parecerá estar vivo e com alma.

8. A arquitetura na América é maçante e sem alma. Os edifícios na maior parte da América, como o projeto arquitetônico dos subúrbios, shoppings e escritórios corporativos, não têm estilo ou criatividade. Eles parecem sem alma, vazio, deprimente, rígido e conformista, especialmente em comparação com a rica arquitetura colorida e criativa na Europa. Como resultado, a arquitetura sem alma que envolve os americanos deve desempenhar um papel em torná-los desalmados também, uma vez que o ambiente externo exerce influencia sobre as pessoas.

As conseqüências solitárias da não conformidade

No que diz respeito a estas prováveis ​​razões pelas quais os americanos parecem tão sem alma, a triste implicação é que se você não compartilha essas mesmas qualidades, e se você é um pensador livre com uma alma, então você estará em um comprimento de onda diferente e não será capaz de se conectar com outros.

Como conseqüência, você pode ser ostracizado da vida social, deixando sentir-se só, alienado e isolado. Será difícil para você fazer amigos, sair ou se divertir. Você vai ter dificuldade em quebrar a camarilhas, que são obrigatórios para ter uma vida social na América, porque como mencionado anteriormente, as pessoas (especialmente as mulheres) são apenas sociais dentro de camarilhas exclusivistas, eles não saem e conhecem novas pessoas.

Como resultado, a vida vai se entediante, vazia e deprimente. Você não terá nenhuma ação em sua vida. E você será ignorado e ficará perguntando: "O que aconteceu com o mito da América aberta e selvagem mostrada na mídia?" Porque a realidade é que todo mundo está fechado e reservado, especialmente as mulheres.

No entanto, você não pode simplesmente "fingir" para se encaixar. Como percebeu, se você estiver em um comprimento de onda ou freqüência diferente do que outros, eles vão sentir isso e SENTIR também. Eles ficarão estranhos por você sem saber por quê. Se você estiver no comprimento de onda polar oposto a eles, começarão a temê-lo. Você vai agir como um "espelho" para eles que lhes mostra o que eles realmente se tornaram, o que os torna desconfortáveis. Afinal, a escuridão teme a luz.

Os países do noroeste da Ásia compartilham os mesmos traços desalmados

Mas os traços dominantes acima não se aplicam apenas aos norteamericanos. Eu descobri que eles se aplicam a países do noroeste da Ásia também. Por isso quero dizer pessoas de Taiwan, Japão, Coréia e Singapura. Esses países também suprimem as almas de seus povos para que eles possam se tornar workaholics. Como os americanos, eles são reprimidos, vivem em medo e paranóia, e limitam sua vida social dentro de grupos fechados.

Assim, eles não estão abertos, não fazem contato visual com estranhos, e não ficam relaxados. Eles preferem a familiaridade invés da novidade, e são altamente conformistas também. Sua mentalidade é um pensamento de grupo. (Mas como Aaron Russo disse, "pensamento grupal" é não pensar.") Nestas maneiras, os asiáticos do Norte são muito semelhantes aos americanos.

(O que é engraçado é que o Noroeste da Ásia é enganado por Hollywood em pensar que a América é muito aberta e selvagem, mas é tudo ilusão, é claro.)

Assim, se você é um pensador de mente aberta, você não se encaixará lá e não se conectará com qualquer pessoa de lá, deixando o sentimento de estar alienado, isolado e só também. Vai ser difícil de fazer amigos, participar de redes sociais, se divertir, ou conseguir encontros lá desde que sua vibe e comprimento de onda será diferente dos outros. Então, eu evitaria os países asiáticos do noroeste também, se você não se encaixasse em tais culturas conformistas reprimidas. Caso contrário, você vai se sentir ostracizado e entediado lá.

Por exemplo, no meu país natal de Taiwan, percebo a mesma correlação que na América. Os taiwaneses vivem em um alto grau de medo e paranóia, e são condicionados a ser workaholics com muito poucos interesses. Eles estão focados em coisas materialistas externas e só se preocupam com questões práticas. Não há foco no interno, e nenhum cultivo da alma. Assim eles parecem desalmados também.

Portanto, eu também não posso me conectar com taiwaneses e me sinto excluído dos grupos sociais. Seu comprimento de onda é bem diferente do meu. Além disso, sua vida social é confinada dentro de grupos exclusivos fechados também, e as mulheres não falam com estranhos.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Jorge Cuello - A Terceira Posição de Perón na Era da Quarta Teoria Política de Dugin

por Jorge Cuello



Corria o mesmo de agosto de 1945 quando uma das operações militares mais crueis de que se tem memória se concretiza sobre Hiroshima e Nagasaki, cidades do Japão. Ambas foram arrasadas com bombas atômicas, armas espantosas usadas pela primeira vez na história humana.

Os intensos reflexos dos átomos se decompondo, como luzes de um novo amanhecer nos tempos dos homens, anunciavam o nascimento da Era Atômica. E sobre suas cinzas radiativas, assinaram os vencedores as Atas que punham fim à Segunda Guerra Mundial. Com ela chegava também ao fim de seu ciclo histórico a Modernidade. Desde então, a tecnologia e seus sacerdotes tecnotrônicos se encarregariam de substituir os grandes poetas e músicos, estrategistas, estadistas, Papas, filósofos e notáveis artistas de todas as disciplinas que aquela época deu à humanidade. A nova Escola de Frankfurt, transferida aos EUA, se encarregaria de assentar as bases teórico-práticas para a dissolução definitiva daquele mundo e preparar os povos para o novo sistema que sucederia, o Governo Mundial neoliberal e sua ala cultural, o progressismo mundialista neomarxista, gramsciano. Ambos configuram a nova era, a era pós-moderna.

Daquele novo mundo que nascia iluminado pelo fogo atômico, assomavam duas potências formidáveis, impetosos como leões famintos por territórios: Rússia e Estados Unidos da América do Norte, duas superpotências extra-europeias. Uma eurasiática, e outra americana. Com os anos fomos dando conta que, na realidade, começaram neste então a montar algo inimaginável, um espetáculo mundial, nunca visto: dividir artificialmente o Mundo em duas esferas de influência para que, como dois pólos dialéticos, montassem um cenário de um confronto que nunca existiu na cúspide e que, nos níveis inferiores da pirâmide do Poder Mundial o originavam somente para espartilhar as nações que cada um submetia em sua zona exclusiva. Ainda que sendo novos impérios realizavam comércio entre si e se punham de acordo nas cúspides para seguir com a farsa dialética engana-trouxas e dominar caprichosamente o mundo. Assim, diz Perón, "os russos invadiram a Tchecoslováquia com o okay dos ianques e estes invadiram o Panamá com o okay dos russos".

Primeira conclusão: é também evidente que se analisamos sem ideologismos nem preconceitos os fatos aos quais fazemos referência, a derrotada na Segunda Guerra Mundial foi, na verdade, a Europa, toda a Europa. E não só os países centrais e sua vanguarda, a Alemanha.

Este foi realmente um retrocesso ou, se preferirem, um desvio da evolução histórica da humanidade, que até 1939 tinha na Europa sua locomotora universal.

Porque a Europa estava em uma fase de transformação da ordem demoliberal. Novos Estados tradicionalistas que, fundados em tradições milenares de seus povos, na religião que unia seus homens, nas hierarquizações sociais novas, haviam criado uma nova organização naiconal com novas instituições segundo as características de cada um deles. Assim, uma nova ordem europeia, estruturada por Estados fortes, e a novidade, planificadores da economia nacional, estava nascendo pujante e realizadora. Os movimentos, multitudinários, nacionalistas e populares nos quais se baseavam, rechaçavam por igual tanto o liberalismo como o marxismo. Refundar os Estados implica a existência de um Poder fundador interno na nação em questão, independente, soberano, capaz de realizar exitosamente a obra. Este conjunto de poderes nacionais europeus, se tornaram assim perigosos para as potências dominantes, liberais e marxistas. Para meu modesto entendimento, este foi, considerando hoje aqueles fatos, o verdadeiro quid Político daquela questão. Porque a Política é sempre uma luta de Poderes em primeiro termo. Difiro que seja uma luta ideológica. A ideologia está a serviço das estretégias de Poder, não ao contrário.

Tudo isso foi aniquilado pelos vencedores da guerra. Arrasaram povos e culturas, Estados, instituições, classes sociais, etnias e tradições. Aquela Europa de antes da guerra foi literalmente arrasada.

Perón faz referência a essa realidade em "A Hora dos Povos" (1). Nessa obra dizia o General que tanto o comunismo, como o fascismo, como o nacional-socialismo, o nacional-sindicalismo espanhol, os socialismos e comunismos nacionais de diversas cores, eram todas manifestações de uma nova concepção da organização política e consequentemente econômica e social dos Povos que, forçados pelo liberalismo a viver competindo uns contra os outros, todos contra todos buscavam recuperar a felicidade perdida de viver em comunidade, todos com todos e respeitando o pessoal.

O General Perón, que era militar de carreira especializado em Estratégia, viveu pessoalmente, como agregado militar em embaixadas argentinas na Europa, parte dessa rica experiência do Velho Mundo. Evidentemente, ao regressar a nossa Pátria em 1942, o fez decidido a procurar enquadrar a Argentina no mundo que já em 1943 se avizinhava de forma irremediável. Mas, tal como o constata sua atuação posterior, concebeu uma proteção política e institucional que salvaguardasse nossa nação das possíveis tensões e lutas entre a URSS comandada pela Rússia e o mundo demoliberal partidocrático comandado pelos EUA. A Terceira Posição aborda e resolve essa ameaça, colocando ideologicamente a Argentina por sobre o socialismo marxista e o liberalismo capitalista que essas potências impunham como necessários em suas respectivas zonas de influência e ocupação.

Diz o General Perón, "é evidente que nenhuma dessas duas soluções, nem a liberal, nem a marxista, nos levaria à conquista da felicidade que ansiamos para nosso povo. Assim foi que nos decidimos a criar as novas bases de uma Terceira Posição que nos permitiu oferecer a nosso povo outro caminho que não conduzisse à exploração e à miséria. Em uma palavra, uma posição completamente argentina, para os argentinos, o que nos permitiu seguir em corpo e alma a rota da liberdade e da justiça que sempre nos assinalou a bandeira de nossas glórias tradicionais"(2).

Perón desenvolve as concepções sobre as quais se funda a Nova Argentina que, a partir de 1947, ele preside. Aquelas experiências europeias, o conhecimento, compreensão e amor que chegou a ter pela população argentina graças às vivências em sua passagem pelos quarteis da Pátria e a inspiração e guia espiritual da Doutrina de Jesus Cristo, encontram na inteligência de Perón a cristalização cabal de uma nova filosofia política autenticamente argentina, distanciada "dos dois pólos, o liberal e o marxista", e que deverá desembocar irremediavelmente na criação de uma nova organização institucional. Caso contrário, o peronismo nunca poderá concretizar seu ciclo. Isso é vital para o Justicialismo. Mas também, advertimos, para a Quarta Teoria Política de Dugin.

Aleksandr Dugin, filósofo russo de enorme influência nestes momentos sobre dirigentes, pensadores e analistas políticos tanto europeus como eurasiáticos, homem próximo às mais altas esferas de poder da Rússia de Putin, é hoje o mais importante referencial da Quarta Teoria Política que ele deu a conhecer ao mundo inteiro.

Esta Quarta Teoria parte de um "não", como gosta de dizer Dugin: não ao liberalismo e não à modernidade.

E eis aqui que não só o liberalismo é rechaçado enfaticamente, mas fundamentalmente, sua causa e origem: a Modernidade e suas criações,principalmente as nações e seus Estados, o materialismo e o distanciamento de Deus, enfim, o esquecimento da Tradição.

Aqui os americanos temos um problema de fundo, então. Porque a Argentina e as nações da América nasceram para a vida política independente na modernidade, e por tanto como um Estado nacional. E não podem se conceber de outra maneira senão como nação. Se um ser nasceu leão, deve ser concebido e apreciado como leão, por mais que não nos agrade o lugar e o tempo em que nasceu. Por essa razão a nossa Terceira Posição Justicialista se dirige às nações. É propícia para a Argentina e seu espaço continental sulamericano. As nações irmãs do continente podem tornar sua essa Terceira Posição, mas sempre "desde sua nação", para sua grandeza, felicidade e liberdade.

A nação, para Perón, não é só uma consequência da modernidade. É uma etapa na evolução da organização humana que começa com o homem isolado e sua família, o clã, a tribo, a fraternidade, a cidade, o Estado, o Continentalismo e desembocará no universalismo.

E este é um dos principais aspectos que Aleksandr Dugin observa criticamente no Justicialismo.

O assinala como "Moderno", seguindo a divisão clássica dos tempos históricos. E diz isso posto que "a modernidade" é o tempo dos Estados-nações, surgidos após a decadência dos Impérios tradicionais em um processo que toma força decisiva com a Paz de Vestfália de 1648, o Justicialismo também é um fruto da modernidade. Por isso não seria útil para superar o liberalismo e o marxismo.

Mas aceitemos analisar Dugin em si mesmo, como corresponde.

Antes, devemos saudar o filósofo russo. O mundo necessita urgentemente de filósofos desse calibre e os russos parecem estar na ponta.

Dugin lança sua Quarta Teoria Política como a superação da modernidade e de suas excrecências, entre elas, como dizia acima, as nações. Mas também sua teoria se apresenta como uma superação do homem moderno e dos sistemas que se fundam neste homem: a Primeira Teoria Política, ou liberalismo, a Segunda Teoria Política, o marxismo, e a Terceira Teoria Política, o fascismo. O fascismo é derrotado definitivamente na Segunda Guerra Mundial, o marxismo em 1991 com a queda da URSS e só fica vigente como único triunfador o liberalismo. Fortalecido e expandido a nível mundial, está hoje correndo sua nova etapa, chamada neoliberalismo, em consonância à nova era pós-moderna.

Dugin crê que nenhuma dessas teorias políticas pode superar à modernidade, pois são filhas dela mesma e possuem os mesmos fundamentos: o homem-sujeito de Descartes.

Portanto, a Quarta Teoria Política deve desconstruir a modernidade e fundar uma nova era baseada nas tradições, nas sociedades hierárquicas, nas castas, na fé religiosa, nos sãos e milenares costumes comunitários, enfim, voltar à sociedade Tradicional(3). A forma política seria a organização de vastos territórios, não já nacionais, mas civilizatórios. E a Rússia, segundo Dugin, é um espaço geopolítico civilizatório. Outro seria o Islã, outro a Europa, e assim segue.

Suas expressões deixam entrever uma impressão favorávei para os Impérios pré-modernos, posto que estes foram, fundamentalmente, "espaços político-culturais".

Assim, podemos concluir que a Quarta Teoria Política está fundamentalmente orientada para estruturar a reorganização do espaço geopolítico eurasiático e com ele o papel de liderança da Rússia. Acompanhada ou não pela China. Isso veremos. Tenho minhas dúvidas pessoais. Mas seja a Rússia com ou sem a China, deverá necessariamente adotar algo semelhante a uma política imperial centralista ao estilo pré-moderno. O mesmo para a China. E essa futura possível realidade, é definida por duas condições geopolíticas de enorme envergadura: os infinitos espaços geográficos russos e o enorme espaço chinês, povoado por uma demografia excepcional de um bilhão e quatrocentos milhões de seres humanos. Não se pode governar essas situações geopolíticas senão por um Estado centralizado ao estilo imperial pré-moderno. Sempre foi assim. Depois de tudo, o Czar foi substituído não por seu herdeiro dinástico, mas por uma nova estirpe de Czares provenientes do Partido único, dono do Estado russo. No fundo, Dugin viu com absoluta clareza e sem preconceitos ideológicos a realidade concreta das possibilidades geopolíticas russas, isto é, a forma que deve ocupar politicamente o espaço geográfico russo.

A Terceira Posição do Nacional-Justicialismo é fruto de outra realidade. Está orientada essencialmente para a organização política da comunidade nacional argentina e exposta como fonte de inspiração para a América do Sul. Mas sempre partindo das situações integrais nacionais.

Essa Terceira Posição é nacional porque "nacional" é o espaço geopolítico que se ocupa e ordena. E está baseada na soberania política, mãe da independência econômica e da justiça social. Três objetivos estratégicos que o Justicialismo busca concretizar através do Novo Estado e da Comunidade Organizada.

A primeira impressão ao considerar ambas as teorias é positiva. Consiste em que a Quarta Teoria de Dugin é para a Europa e para a Eurásia o mesmo que a Terceira Posição de Perón é para a América Hispânica. Não pode a Quarta Teoria inspirar a América mais que em conceitos aos quais abaixo faço referência, porque a Europa foi outro mundo, que os americanos não vivemos. Dugin pensa como um eurasiático. Do mesmo modo, a Terceira Posição de Perón pode orientar, aportar conceitos, também apenas em aspectos daquela nova teoria. Me refiro às concepções e realizações justicialistas em relação à Justiça Social, à organização interior como Comunidade Organizada e, inclusive, às instituições políticas criadas pelo Justicialismo e expostas no modelo argentino.

Mas não devemos perder de vista que o fundamental no que estamos tratando, é que a questão do conflito político em nosso continente passa pela consolidação das nações herdeiras do Império Espanhol.

Hoje em nossos dias, nos inícios do mundo pentapolar (segundo meu entender) e de modificações profundas nas geopolíticas das potências mundiais, é de valer, portanto, para a América a conformação de blocos defensivo-produtivos entre nações-irmãs soberanas. Oxalá possamos criar as formas institucionais para organizar o espaço comum civilizatório, como o chama Dugin e o assinala nosso Alberto Buela: a América Hispana e seus vice-reinados(4). Mas para isso se torna fundamental e decisivo, e até urgente, a reorganização institucional interna das nações americanas com o objetivo de superar o demoliberalismo partidocrático, econômico e institucional, e o marxismo gramsciano progressista, plataforma cultural na qual se assenta o neoliberalismo mundialista, enquistados hoje em nossas sociedades. A tão cacarejada "integração" e suas formas e instituições, desde que caiu em mãos dos organismos transnacionais do mundialismo e operado pelas corporações multinacionais, passou a ser uma farsa. Uma trágica farsa. Um disfarce mais para seguir explorando os povos e roubando suas riquezas.

Há outra diferença originada na história e composição das sociedades eurasiáticas e americanas. As teorias eurasiáticas, no fundo, necessitam de uma lúcida e responsável aristocracia nobre, valente e prudente, sadia, de uma honestidade religiosa profunda, de grande temperamento e inteligência, capazes de governar e conduzir desde um Estado centralista, espaços com populações que superam os bilhões de seres humanoas e vastos e intermináveis territórios de milhões e milhões de quilômetros quadrados. Essa é sua tradição milenar.

A Terceira Posição Justicialista e o Modelo Argentina, por sua vez, estão concebidos para organizar os Povos dessas latitudes americanas, em instituições virtuosas que frutifiquem necessariamente na Comunidade Organizada e tornem realidade a Soberania Nacional, a Independência Econômica e a Justiça Social, único caminho que vemos na América para alcançar a felicidade e grandeza de nossos povos. Creio que a Terceira Posição de Perón e a Quarta Teoria Política de Dugin não se exluem, ao contrário, convergem na criação de sistemas político-culturais que superem de forma definitiva tanto o marxismo em todas as suas variantes, incluído o pérfido progressismo, como o liberalismo em todas as suas manifestações.

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(1) Diz Perón: "O século XX se inicia com o signo das grandes lutas e como tal impulsiona o desenvolvimento frenético da ciência e da evolução. Por isso, a primeira metade desse século com suas duas grandes guerras e as revoluções do comunismo, do fascismo e do nacional-socialismo, iniciaram tanto a era atômica como impulsionaram a 'hora dos Povos'." - Juan D. Perón, La Hora de los Pueblos, Ed. Norte, Buenos Aires, 1968

(2) Juan D. Perón, Mensagem à IV Conferência de Países Não-Alinhados, setembro de 1973, em Diego Mazzieri, Nem Ianques, Nem Marxistas, Peronistas!, Ed. del Oeste, Buenos Aires, 2003

(3) Aleksandr Dugin, entrevistado por Anatoly Kizichef para Tsargrad TV, Moscou, 22 de janeiro de 2017

"Se rechaçamos as leis da modernidade tais como o progresso, o desenvolvimento, a igualdade, a justiça, a liberdade, o nacionalismo e todo este legado de três séculos de filosofia e história política, então há uma escolha. .... Esta é a sociedade tradicional. Um dos movimentos mais simples em direção à Quarta Teoria Política é a reabilitação global da Tradição, do sagrado, do religioso, o relacionado com a casta, se se prefere, do hierárquico e não da igualdade, da justiça ou da liberdade. Rechaçamos tudo isso junto com a modernidade e reelaboraremos tudo isso completamente..."

Deixo claro que não se nega a justiça, a liberdade, etc., mas sim que se propõe reelaborar estes conceitos a partir da Tradição.

(4) Alsina Calvés, José, La Razón Histórica, nº27, Murcia, 2014.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Jack London - Como eu me tornei socialista

por Jack London


Pode-se dizer que me tornei um socialista de maneira similar à dos pagãos teutônicos ao cristianismo – à força. Não apenas eu não procurava o socialismo na época da minha conversão, mas lutava contra ele. Eu era demasiado jovem e inexperiente, não sabia nada de coisa alguma e, apesar de nunca ter ouvido falar de uma escola de pensamento chamada “individualismo”, cantava o hino dos fortes com todo o meu coração.

Isso porque eu próprio era forte. Por forte quero dizer que tinha boa saúde e músculos rijos, ambas características que podem ser facilmente explicadas. Vivi minha infância nos ranchos da Califórnia, vendendo jornais nas ruas de uma próspera cidade do Oeste e passei minha juventude nas águas saturadas de ozônio da Baía de San Francisco e do Oceano Pacífico. Amava a vida a céu aberto, desempenhando as tarefas mais difíceis. Sem aprender nenhum ofício, mas pulando de emprego em emprego, observava o mundo e gostava dele em todos os sentidos. Deixe-me repetir: esse otimismo existia porque eu era forte e saudável, nunca experimentando dores nem debilidades, nunca sendo recusado por um patrão por não aparentar estar em boas condições físicas, sempre capaz de obter trabalho nas minas de carvão, como marinheiro ou como trabalhador braçal de qualquer espécie.

Por tudo isso, exultante em minha juventude, capaz de me defender bem, tanto no trabalho como nas brigas, eu era um feroz individualista. E isso era muito natural. Eu era um vencedor. Por conseguinte, considerava o jogo, da forma como era jogado, muito apropriado para HOMENS. Ser HOMEM significava escrever em letras maiúsculas no meu coração. Arriscar-me como homem, lutar como homem, fazer o trabalho de homem (mesmo que com o salário de menino) – essas eram coisas que me tocavam profundamente e ficavam gravadas em mim como nenhuma outra. E eu olhava adiante as amplas paisagens de um futuro nebuloso e interminável, em direção ao qual – jogando o que eu considerava um jogo de homens –, continuaria a viajar com uma saúde inquebrantável sem acidentes, e com os músculos sempre vigorosos. Como digo, esse futuro era interminável. Podia ver-me apenas avançando pela vida sem fim como uma das feras louras de Nietszche, perambulando lascivamente e triunfando pela simples superioridade e força.

Quanto aos desafortunados, aos doentes, aos que sofrem, aos velhos e aos aleijados, devo confessar que raramente pensava neles, a não ser que vagamente achasse que estes, salvo acidentes, poderiam ser tão bons quanto eu e trabalhar igualmente tão bem, se realmente o desejassem. Acidentes? Bem, eles representavam o DESTINO, também soletrado com letras maiúsculas, e não havia modo de se esquivar do DESTINO. Napoleão sofreu um acidente em Waterloo, mas isso não tirou meu desejo de ser outro Napoleão. Além disso, o otimismo, vindo de um estômago que podia digerir pedaços de ferro moído e de um corpo que florescera de uma vida dura, não me permitia considerar que acidentes tivessem qualquer relação, mesmo que remota, com minha personalidade gloriosa. Espero ter deixado claro que eu tinha orgulho de ser um daqueles seres eleitos da Natureza. A dignidade do trabalho era para mim a coisa mais impressionante do mundo. Sem ter lido Carlyle ou Kipling, formulei um evangelho do trabalho que varriam os deles “no chinelo”. O trabalho era duro. Era a santificação ou a salvação. O orgulho que sentia depois de um dia de trabalho árduo e bem feito seria algo incompreensível para os demais. Ë quase inconcebível para mim quando penso nisso agora. Nunca um capitalista explorou um escravo do salário tão fiel quanto eu. Embromar ou ludibriar o homem que me pagava o salário era um pecado, primeiro contra mim mesmo, e depois contra ele. Para mim era um crime que vinha logo atrás da traição, mas tão ruim quanto.

Resumindo, meu individualismo entusiasta era dominado pela ética ortodoxa burguesa. Eu lia os jornais burgueses, ouvia os pregadores burgueses e repetia plenitudes sonoras dos políticos burgueses. E não duvido que – se outros eventos não tivessem mudado minha trajetória -, viesse a me transformar num fura-greves profissional (um dos heróis do reitor Eliot), e tivesse minha cabeça e minha capacidade de trabalho irremediavelmente esmagadas por um porrete nas mãos de algum sindicalista militante.

Por essa época, voltando de uma viagem que durara sete meses, e logo após ter completado dezoito anos de idade, pus na cabeça a ideia de que iria vagabundar. Em vagões de passageiros ou compartimentos de carga, desbravei meu caminho pela vasta região Oeste, onde os homens trabalhavam duro e os empregos procuravam as pessoas, até os congestionados centros operários da região Leste, onde os homens tinham pouco valor e davam tudo que tinham para conseguir trabalho. E nesta nova aventura de fera loura, comecei a ver a vida de um ângulo novo e totalmente diferente. Eu havia descido da condição de proletário para o que os sociólogos chamam de “porção submersa”, e comecei a descobrir a maneira como aquela porção submersa era recrutada.

Lá encontrei todo tipo de homens, muitos dos quais haviam sido algum dia tão bons e tão feras louras quanto eu: marinheiros, soldados, operários, todos estropiados, comidos e desfigurados pelo trabalho, pelas agruras e pelos acidentes e dispensados por seus patrões como cavalos velhos. Com eles mendiguei nas ruas, pedi comida nas portas dos fundos das casas e senti frio em vagões de trens e parques da cidade, ouvindo as histórias de vidas, que começavam sob auspícios tão favoráveis como os meus, com estômagos e corpos iguais ou melhores do que os meus, e que terminavam ali, diante de meus olhos, arruinados, no fundo do Abismo Social.

E enquanto eu ouvia, meu cérebro começava a funcionar. A mulher das ruas e o homem da sarjeta se tornaram muito próximos de mim. Vi a imagem do Abismo Social vividamente, como se fosse algo concreto. Eu os observava lá no fundo do abismo, um pouco acima deles, agarrando-me às paredes escorregadias com todo o suor e a força de minhas unhas. E confesso que um medo terrível se apoderou de mim. E se acabasse minha força? E quando me tornasse incapaz de trabalhar lado a lado com os homens fortes que ainda estavam por nascer? Aí, então, fiz um juramento. Era algo mais ou menos assim: Todos os dias tenho trabalhado até a exaustão com meu corpo e apesar do número de dias que trabalhei, cheguei bem próximo do fundo do Abismo. Deverei sair dele, mas não com os músculos do meu corpo. Não vou nunca mais trabalhar como trabalhei e que Deus me fulmine se um dia eu der de mim mais do que o meu corpo pode dar. E desde então tenho me dedicado a fugir do trabalho duro.

A propósito, enquanto vagabundava por umas 10.000 milhas pelos EUA e Canadá, entrei na cidade de Niágara Falls, fui pego por um policial à caça de multas, tive negado o direito de me declarar culpado ou inocente, fui imediatamente sentenciado a trinta dias de prisão por não ter residência fixa ou meio aparente de subsistência, algemado e acorrentado a um grupo em situação similar, despachado para Buffalo e registrado na penitenciária do condado de Erie; meu cabelo e meu incipiente bigodinho foram raspados, fui vestido com o uniforme de prisioneiro, vacinado compulsoriamente por um estudante de medicina que praticava em pessoas como nós, obrigado a marchar em fila e a trabalhar sob a vigilância de guardas armados com rifles Winchester – tudo isso por ter me lançado em aventuras ao estilo das feras louras. Para mais detalhes, esta testemunha declara-se muda, embora se possa desconfiar que seu exultante patriotismo tenha se evaporado um pouco e vazado por alguma fresta no fundo de sua alma – pelo menos, desde que passou por essa experiência, já se deu conta de que se interessa muito mais por homens, mulheres e criancinhas do que por linhas geográficas imaginárias.

Voltando a minha conversão. Acho que aparentemente meu individualismo feroz foi efetivamente extraído de mim e foi-me inculcada outra coisa, de forma igualmente eficaz. Mas, assim como eu havia sido um individualista sem saber, era agora um socialista sem saber, ou seja, um socialista não científico. Eu havia renascido, mas não havia sido rebatizado, e andava à toa por aí, tentando descobrir o que de fato era. Voltei para a Califórnia e abri os livros. Não me recordo quais abri primeiro. Este é um detalhe sem importância, de qualquer forma. Eu já era isso, seja lá o que isso fosse, e com a ajuda dos livros descobri que isso era ser socialista. Desde aquele dia abri muitos livros, mas nenhum argumento econômico nenhuma demonstração lúcida da lógica e da inevitabilidade do socialismo me afeta tão profundamente e tão convincentemente como o dia em que vi pela primeira vez os muros do Abismo Social se erguerem à minha volta e me senti escorregando, escorregando, para as ruínas que se amontoavam lá no fundo.