terça-feira, 14 de março de 2017

Amory Stern - Shylock e Infinitude: Mihai Eminescu e Gottfried Feder sobre Economia

por Amory Stern



O ensaista e poeta romeno do século XIX Mihai Eminescu, diferente da maioria dos poetas (mas tal como Ezra Pound), era um grande economista além de grande poeta. Eminescu partilhava muitas ideias econômicas em comum com o influente economista alemão do início do século XX Gottfried Feder. Por exemplo, como Feder, Eminescu se opunha à usura. Tanto Eminescu, que é mencionado várias vezes como precursor intelectual no Para meus Legionários de Corneliu Zelea Codreanu, e Feder, que influenciou profundamente as visões e realizações econômicas de Hitler, evidentemente preferiam que a economia de uma nação pudesse ser mensurada com o empirismo antigo, não com infinitesimais modernos. Aquela eles associavam a uma economia política concreta; esta, com uma usura aniquiladora de nações.

Essas ideias fornecem alternativas revigorantes não apenas ao marxismo, mas também aos tipos como Milton Friedman e personagens associados cujas famílias provavelmente alcovitaram seu caminho até a "respeitabilidade" no infame Império Austro-Húngaro tardio. (Não surpreendentemente, tanto Eminescu como Feder deploravam a igualdade de direitos civis para judeus em seus países). Aqui nós veremos alguns exemplos de seu pensamento econômico. Para começar, vamos reproduzir em sua totalidade um editorial de Eminescu publicado na primavera de 1880:

O Banco de Descontos e Circulação


As objeções da oposição não puderam impedir a lei sobre o estabelecimento de um banco de descontos e circulação de ser votada ou promulgada, tal como elas não puderam impedir a redenção das ferrovias.



O sucesso inesperado da transação de redenção se deve a ter sido hipotecada a renda do tabaco, uma renda de 10 milhões correspondendo a um capital de 200 milhões, mais do que à perícia com que o contrato de redenção foi redigido. É claro que, ao hipotecar ordenadamente todas as rendas estatais, ao nos encontrarmos na posição do Egito ou da Turquia, e nos expondo à possibilidade de ter uma instituição financeira internacional dentro de nosso tesouro, nós seremos capazes de concluir outras transações similares.


Um empréstimo não implica necessariamente hipotecar toda renda e todos os bens como meio de conseguir dinheiro. Um devedor eficiente é um que, por meio de transações estratégicas, prova que ele não é irresponsável a ponto de arriscar perder todos os seus pertences ou desperdiçá-los em trivialidades. Apenas alguém que economiza dinheiro incansavelmente pode ter crédito. O dr. Platter, um professor na Universidade de Chernovtsy, em seu livreto chamado Usura na Galícia e em Bukovina, forneceu informações bem embasadas dando suporte à ideia de que possuir bens imóveis não torna um homem elegível para um empréstimo. Possuir um imóvel valendo cem vezes o empréstimo creditado não reduz as taxas de juros usurárias, tornando possível que milhares de francos sejam hipotecados por um capital de 6 ou 7 francos graças às altas taxas de juros e às cláusulas penais. Ao hipotecar imóveis e rendimentos, a ilusão do crédito é produzida; assim, seu verdadeiro significado é mal interpretado.


Portanto, o sucesso da transação de redenção se deve, por um lado, à hipoteca da renda do tabaco, que não foi listada na Convenção de Strasberg, nem na de Bleichroeder, e, por outro lado, às estipulações excepcionais feitas aos acionistas, nomeadamente que eles adquiririam uma posição melhor na companhia do que antes. Para provar isso, nós só temos que comparar os preços das ações antes da proclamação da redenção com os preços das ações que vemos hoje.



Nada é mais fácil de produzir, e difícil de manter, que a ilusão econômica. Uma vez que não tenhamos mais nada para hipotecar, o gerenciamento financeiro do partido liberal demonstrará sua infeciciência, ainda que o partido esteja no hábito de se retirar do poder, deixando para outros gerenciar e consertar seus erros quando a situação parece atroz. O Banco de Descontos e Circulação é tão problemático, de um ponto de vista econômico, quanto a própria redenção.



A chamada aridez do capital econômico e financeiro consiste no fato de que contratos são redigidos usando uma linguagem abstrata e complexa ao invés da quotidiana, para que aquele que leia o contrato não entenda os termos e condições escritos ali. Ele fica tão iludido pela esplêndida visão que parece emergir das abstrações do contrato que ele deixa passar o supremo princípio, nomeadamente o de que qualquer teoria, mesmo que apresentada da maneira mais abstrata possível, precisa ser reduzida a algo prático e concreto. Conteúdo físico é evidência para qualquer verdade. De outra forma, é tudo uma fraude.



O que termos econômicos como manufatura, consumo, produção, troca, comércio, etc., significam materialmente?



O que é produção?



É o ato de modificar um objeto, manualmente ou pelo uso de instrumentos, com o objetivo de manufaturar um item de valor.



O que é consumo?



É o ato de desgastar um objeto por meio de trabalho. Essa categoria inclui todos os recursos que podem ser consumidos e utilizados. Comida, abrigo, roupas, todos esses são necessários para o melhor e mais durável instrumento de trabalho, a mão-de-obra.



O que é dinheiro, móveis ou imóveis então, se não poupanças?



É um fato da vida que aquele que trabalha a terra, tendo que arar, semear, debular e cultivar trigo, trocará o resultado de seu trabalho por outro item, por exemplo, por roupa, que é o produto do produtor de lã, do tecelão, do tintureiro e do alfaiate. Um conjunto de serviços é trocado por outro, assim é justo concluir que não só mercadoria é trocada por mercadoria, mas no final das contas, trabalho é trocado por trabalho.



Porém, não se troca diretamente mercadoria por um item necessário, porque o comércio seria trabalhoso. Portanto, uma commodity, uma que fosse difícil de extrair e rara em relação a seu uso, foi buscada de modo a pagar por todos os tipos de serviços; uma que pudesse ser dividida e subdividida sem perder seu valor. Uma que tivesse qualidades facilmente distinguíveis como peso constante, som distinto, a habilidade de reconhecer suas ligas e que não se manchasse. Ouro e prata são os metais nobres que correspondem a todas as condições qualitativas necessárias.



Nós temos a tendência a converter trabalho em qualidade e itens duráveis, enquanto tal uma grande quantidade de trabalho pode ser acumulada e trocada por objetos feitos desses metais, que não perdem seu valor mesmo que sejam derretidos, enquanto outros objetos se deterioram e desgastam.



Assim, estes metais são mercadoria, como qualquer outra.



Papeis-moeda também são mercadoria? Podemos fazer algo a partir de um papel-meda que produza um lucro de pelo menos a milésima parte do valor impresso original?



A resposta é não, porque aquele pedaço de papel não tem valor por si mesmo e é usado como maneira de expressar o valor do próprio trabalho. Notas bancárias foram emitidas para serem redimidas por um lastro legal, fosse ouro ou prata, do mesmo valor que o serviço fornecido, um processo ligeiramente trabalhoso. Portanto, dinheiro de metal é o representante valioso das notas bancárias comerciais. Quando precisamos de notas bancárias, uma moeda que possui as qualidades opostas às do dinheiro de metal? Uma é uma commoditu, a outra não é; uma pode ser dividida sem perder seu valor, enquanto a outra pode ser nulificada cortando-a com tesouras; uma serve como instrumento de trabalho utilizado em uma miríade de indústrias, enquanto a outra não. Uma é dinheiro e a outra é nula. Seja emitida pelo Estado, pelo banco nacional ou por um simples comerciante em Veneza, notas bancárias são apenas notas que mostram que quem quer que as tenha emitido receberá, por todos os meios, o lastro legal com um valor igual ao que está impresso na nota quando a commodity universal, nomeadamente metais preciosos, não estiver à disposição. Assim, notas bancárias são contratos de crédito.



Em países agrícolas, o trabalho é, por sua própria natureza, limitado e rígido, sendo apto a produzir uma quantidade definida de produtos de um valor preciso. Um acre de terra só pode gerar uma quantidade limitada de trigo, sem a possibilidade de exceder essa limitação. A mão-de-obra é limitada e nenhuma quantidade de exercício pode superar isso; o mesmo vale para a terra, que, não importa quanto fertilizante se use, não pode superar sua capacidade produtiva naturalmente limitada. Daí, o trabalho físico, no qual a inteligência desempenha papel reduzido, é caracterizado pela limitação, pela perda, pela simplificidade e por dificuldade.



A situação é inteiramente diferente no que concerne as artes e indústrias, áreas nas quais a inteligência é de máxima importância e o trabalho físico desempenha um papel secundário. Neste caso, a utilização não é vista em relação à produção, já que para se pintar uma pintura, só se precisa de uma tela e algumas tintas; para se tecer um vestido precisa-se de tesouras, um tecido de qualidade, linhas e renda. O valor do trabalho industrial é, assim, infinitamente multiplicado. O trabalho agrário é difícil e gera uma quantia limitada de produção, enquanto o trabalho industrial implica menos esforço e tem, ao menos em teoria, um potencial de lucro ilimitado.



A agricultura sempre será lucrativa. Nem todos precisam de renda para vestidos, mas trigo é uma necessidade. Todo mundo, seja da Índia, da Grécia ou da Ásia Menor, é forçado pela necessidade a trocar metais preciosos por hortifrutigranjeiros. Assim, um produto universalmente necessário é trocado por outro produto de igual importância. Ao contrário, os objetos industriais demandam mercados de varejo, ou seja lugares em que sua necessidade seja artificialmente produzida. Porém, estes mercados não raro estão isolados. É, porém, verdadeiro que uma vez que os produtos cheguem aos mercados de saída, seu valor será traduzido em metal precioso, mas até então o produtor precisa receber uma nota que estipula que valor tem seu trabalho, e essa nota é o papel-moeda.



O princípio da questão fiduciária é que ela está diretamente proporcionalizada com o trabalho; se alguém não trabalha, não vai fazer dinheiro, e se essa pessoa trabalha, então essa pessoa fará dinheiro de acordo. É óbvio que a quantidade de notas bancárias emitidas é diretamente proporcional à quantidade de produção industrial, que por sua vez pode ser multiplicada em desproporção com a quantia existente de dinheiro emitido. Uma produção infinitamente aumentável demanda um representativo aumentável, que pode estar sujeito às mesmas flutuações que as da indústria, simultaneamente subindo e caindo.



Dessa forma, vemos que a diferença entre dinheiro de metal e papel-moeda é representada pelas diferenças entre a linha de produção finita e a produção industrial infinita. O trabalho é a base da economia política. Nós pensamos que nosso discurso demonstrou com clareza que, por um lado, notas bancárias e produção devem estar necessariamente em proporção direta, e por outro lado, que um país exclusivamente agrícola não precisa necessariamente de notas bancárias. Os produtos industriais necessários, que são feitos no exterior, não podem ser comprados com notas bancárias, e uma produção nacional não deveria ser vendida por uma moeda estrangeira.



Um país agrícola vende grãos por dinheiro de metal, e com este dinheiro compra mercadoria industrial, e assim segue-se o ciclo econômico. Administrar um país agrícola e suas necessidades deveria ser tão simples quanto o próprio trabalho agrícola. Quando a demanda de mercado é maior que a oferta, o país e seus cidadãos serão deixados em ruínas, independentemente das alternativas temporárias utilizadas para salvar a economia.



No que concerne a indústria, nomeadamente a possibilidade de dar aos produtos cem vezes ou mil vezes seu valor original, ela não pode ser e nunca foi estabelecida sem proteção. Ocorre que proteção só pode ser exercida por Estados políticos poderosos. Mas quando se está preso por contratos comerciais e pela necessidade de viver na fila do pão, assim deixando trabalhadores desempregados porque os trabalhadores de países vizinhos fornecem mão-de-obra mais barata, então uma empresa não pode se desenvolver e especializar. Ao contrário, ela é gradativamente retrogradada e a produção é cada vez mais limitada, uma limitação que é ditada pela própria natureza da produção.



Essa teoria, de que o dualismo imanente do dinheiro como unidade de contabilidade, depende do dualismo do trabalho, que é desafiado. A produção não-processada e a industrial não tem nada a ver com nosso banco, já que ele só emite notas baseadas em transações feitas dentro do país. Se tais transações são feitas, o banco emitirá notas, e se elas não estiverem sendo feitas, ele não o fará.



De fato, se o banco fosse uma instituição legítima, nada poderia ser dito contra ele. O banco, fosse oportuno ou não, estaria sujeito a riscos, já que os acionistas não receberão os dividendos que eles esperavam conseguir, o que, por sua vez, se deve à carência ou limitação de transações reais concluídas dentro do país, bloqueando assim o fluxo de capitais privados. O banco indubitavelmente registraria perdas, mas ninguém estaria falido. O capital seria bloqueado, mas estaria seguro dentro do banco.



Essa teoria se aplica a nosso banco?



O princípio estabelecido, ainda que provisionado, é o de que o banco não pode emitir notas que excedam 1/3 do valor em dinheiro metálico disponível e 2/3 da quantia baseada em notas bancárias, transações e taxas bancárias de curto prazo.



Se este princípio fosse seguido de forma precisa não haveria riscos. Mas a lei demanda que o banco redima os 26 milhões em notas de hipoteca emitidas pelo governo, o que, apesar da obrigação de serem pagas após o término da hipoteca, não é uma transação que o banco faz sozinho. Em uma época de crise, o banco não poderia dar conta desses 26 milhões, enquanto tal ele deve fazer um empréstimo e aceitar as estipulações impostas. A partir desse momento, o banco se torna uma fábrica de papel-moeda.



O que nos entristece mais é que discussões sobre tais questões delicadas que podem levar à bancarrota total não são levadas pragmaticamente. Ao invés, elas estão focadas em ganhos temporários, não tendo em mente a plausibilidade de suas ações.



Todas as empresas que basearam sua estratégica comercial em ilusões artificialmente produzidas, sem considerar sua plausibilidade econômica, tiveram esses momentos temporários de sucesso. Tais empresas ascenderam com milhares apenas para cair no abismo da falência, empobrecendo miríades de pessoas inocentes.



Somente a realidade do trabalho, posta em prática seguindo as demandas da economia política, nomeadamente levando em consideração que a oferta deve ser inversamente proporcional à demanda, pode suportar todas as crises e reviravoltas. Enquanto tal, qualquer instituição profissional só pode confiar na realidade do trabalho". [30 de abril de 1880]


Como podemos ver, Eminescu argumentava que a economia de um país deveria ser mensurada com concretude empírica, não com abstrações vazias. A desconfiança de Eminescu em relação ao princípio infinitesimal, ao menos quando aplicado à economia, é similar às sensibilidades de Gottfried Feder no Manifesto pela Abolição da Escravidão aos Juros sobre Dinheiro. Este pequeno, mas lúcido livro tem sido alternativamente traduzido como Manifesto para a Ruptura da Escravidão Financeira aos Juros. Eis algumas das principais teses de Feder:

Sobre Capital Prestamista vs Capital Produtivo


"Onde a abolição da escravidão aos juros deve começar? Com o capital prestamista! Por que? Porque o capital prestamista, comparado a todo grande capital industrial, é tão sobrepujante que as grandes potências financeiras só podem ser combatidas efetivamente por meio da abolição da escravidão dos juros. 20:1 é a proporção do capital prestamista perante o grande capital industrial".



"A insaciável necessidade de juros do capital prestamista é a maldição de toda a humanidade trabalhadora!"



"O juro, o influxo infindo e sem esforço de bens baseado na mera posse de dinheiro sem qualquer acréscimo de trabalho, causou o crescimento das grandes potências financeiras".



"As curvas do capital prestamista mostram primeiramente um desenvolvimento de crescimento gradual; o desenvolvimento, então, acelera até que, cada vez mais amplo e arrastando tudo consigo, ele se ergue muito além dos conceitos humanos e se estende rumo à infinitude. A curva do capital industrial, em contraste, permanece no finito!"



Sobre a Fraudulência do Marxismo



"É agora bastante assombroso ver como a cosmovisão socialista de Marx e Engels, do Manifesto Comunista ao Programa de Erfurt (especialmente Kautsky), e mesmo os líderes sociais atuais, poupam os juros do capital prestamista como sob ordens. A santidade dos juros é tabu; o juro é o santo dos santos; ninguém jamais ousou pô-los em questão. Enquanto a propriedade, a nobreza, a segurança da pessoa e suas posses, as leis da Coroa, os privilégios e convicções religiosas, a honra dos oficiais, a pátria e a liberdade são mais ou menos ilegalizados, os juros são sagrados e inatacáveis".



"A social-democracia está fadada à ruína porque ela está baseada na ideologia marxista, que não reconhece a diferença radical entre capital industrial e capital prestamista".



Sobre Usura e Guerra



"A ideia de juros sobre empréstimos é a invenção diabólica do capital prestamista; só ela torna possível a preguiçosa vida parasitária de uma minoria de magnatas às custas das pessoas produtivas e seu potencial de trabalho; ela levou a diferenças profundas e irreconciliáveis, ao ódio classista, do qual a guerra entre cidadãos e irmãos nasceu".



"Os grandes magnatas se esgueiram como a força impulsora definitiva por trás do imperialismo globalista anglo-americano; nada mais".



Sobre a Usura na História



"Na Idade Média se costumava dar cabo rapidamente de usurários; os camponeses ou cidadãos tendo sido explorados se reuniam e espancavam os usurários até a morte".



"Deve ser bastante enfatizado que precisamente nossa cultura contemporânea, precisamente a internacionalidade das relações econômicas, tornam o princípio dos juros tão homicida. Esta retrospectiva histórica também não deve ser considerada como fornecendo uma analogia para as circunstâncias de hoje. Quando os babilônios sobrepujaram os assírios, os romanos os cartagineses, os germânicos os romanos, não houve continuação de escravidão a juros; não havia potências mundiais internacionais. As guerras também não eram financiadas por empréstimos mas com tesouros acumulados durante a paz. David Hume fez uma revisão excelente disso em seu Ensaio sobre o Crédito Público. Somente a era moderna, com sua continuidade da posse e seu direito internacional permite ao capital prestamista escalar à infinitude".



Em conclusão, Eminescu e Feder parecem ter desejado banir as formas abstratas modernas de mensuração da economia política, e substituí-las por formas concretas, empíricas. Para ambos pensadores econômicos, as ideias matemáticas infinitesimais modernas só servem para justificar a usura, pelo menos se estes sistemas de aritmética forem aplicados à economia. Tais sistemas podem ser úteis para a ciência e para a tecnologia, mas eles não tem lugar na economia.



segunda-feira, 13 de março de 2017

Eduard Limonov - Os Desajustados: Uma Minoria Ativa

por Eduard Limonov



O PCFR, o PCTR, os já quase inexistentes apoiadores de Anpilov e as bem minúsculas organizações "comunistas" ortodoxas e até o "terrorista" Gubkin e a UJCR (do Bilevsky) ainda consideram o "proletariado", "o povo trabalhador", como eles dizem, como uma classe revolucionária. Eles olham para o "marxismo-leninismo" como os judeus para as Tábuas da Aliança trazida a eles por Moisés. Os "comunistas" estão errados. Por alguma razão eles supõem que os pobres são necessariamente violentos. Nos tempos de Marx o proletariado estava, de fato, em terríveis condições, ele de fato trabalhava 12 horas por dia. Sim, ele vivia em alojamentos gélidos e úmidos. Assim, emocionalmente ele estava em situação extrema, pronto a qualquer momento para o protesto e explosão histéricos. Sua vida era tão ruim que mesmo uma câmara de tortura não era tão terrível para eles em comparação com uma fábrica. Em certo sentido, eles realmente não tinham nada a perder a não ser seus grilhões. Eles eram os mais inveterados, após os prisioneiros talvez. É neste sentido que eles eram revolucionários. Isto é, em caso de desordens organizadas por terceiros era possível esperar a participação desses inveterados trabalhadores fabris. Por causa de sua vida dura eles podiam ficar facilmente exaltados e facilmente cair em pânico ou ser acometidos por emoções revoltosas.

Porém, mesmo já meio século após a publicação do "Manifesto Comunista", por volta de 1900, os trabalhadores, até na Rússia, já não viviam de forma tão desesperadora. Eles simplesmente viviam de forma consistentemente ruim. Quanto à organização da revolução, ou sua preparação, então o proletariado correspondiam na forte coorte de narodovoltzi (membros da Vontade Popular) e socialistas-revolucionários de Lênin não mais, mesmo até menos que outras classes. Perovskaia, Kibalchich, Grinevitsky, Alexandr Ulianov, como é sabido, não eram trabalhadores. De forma totalmente acidental, me deparei na biblioteca do castelo Lefortovo com uma pesquisa bastante instrutiva de R.A. Gorodnitsky "A Organização de Combate do Partido Socialista Revolucionário em 1901-1911". E ali eu descobri dados raros e incríveis sobre a origem dos combatentes socialistas revolucionários.

A Organização de Combate em 1903-1906 compreendia 13 mulheres e 51 homens. A origem estamental dos membros da OC era como segue: 13 nobres, 3 cidadãos honorários, 5 filhos de padre, 10 filhos de comerciante, 27 pessoas de classe média e 6 camponeses. A administração da OC era formada por 2 indivíduos de origem nobre, 3 filhos de comerciante e 2 pessoas de classe média.

O nível educacional da OC para o período estudado: 6 membros tinham educação superior, 28 tinham superior incompleto, 24 tinham educação média, 6 educação primária. Os números, conclui Gorodnitsky, revelam o ambiente principal do qual os membros da OC eram recrutados, a comunidade estudantil de instituições de ensino superior. Interessante, também, é a composição nacional da OC: 43 russos, 19 judeus e 2 poloneses. Por idade: "São precisamente os jovens de 20 a 30 anos que compunham o esqueleto da OC" avalia Gorodnitsky.

Não se pode descartar essas deprimentes estatísticas para o proletariado com a afirmação de que, bem, os socialistas revolucionários eram um partido que colocavam como sua principal tarefa a distribuição de terra para os camponeses e que eles, portanto, não tinham proletários. Gorodnitsky especialmente especifica que a Organização de Combate dos socialistas revolucionários diferia radicalmente do partido socialista revolucionário e, em essência, era uma organização diferente, a Organização de Combate da própria Revolução Russa. "Para muitos membros da OC de 1903-1906 os cânones ideológicos estritos do PSR eram estreitos demais e sua presença e trabalho na OC era tomada por eles como serviço à revolução russa como um todo, após cuja vitória, como esperavam os combatentes, se deveria produzir uma reconstrução radical da sociedade sobre bases socialistas".

Então é isso. A vanguarda da revolução russa: 13 nobres, 27 plebeus pequeno-burgueses, uma horda de estudantes incompletos e nem um único proletário. Mas talvez nos anos seguintes nessa mesma eficiente organização revolucionária russa (os bolcheviques, em comparação, à essa época ainda estavam em suas fraldas) proletários teriam ingressado e camponeses dominado?

Eis os dados sobre a OC em 1907-1909. 7 homens e 3 mulheres (a época da exposição de Azef, a organização passava por tempos difíceis). A origem estamental: 6 plebeus, 2 filhos de comercientes, 1 filho de padre, 1 camponês. Nível educacional: 3 membros da OC com educação superior, 3 com superior incompleta, 4 com ensino médio.

Em 1909-1911 a OC compreendia 13 homens e 4 mulheres. A origem estamental dos membros da OC: 6 nobres, 1 cidadão honorário, 3 filhos de comerciantes, 1 filho de padre, 5 plebeus e 1 camponês. A composição nacional: 11 russos, 3 judeus, 1 ucraniano, 1 letão e 1 polonês. O nível educacional: 2 pessoas tinham educação superior, 8 superior incompleta, 5 média, 2 primária.

Novamente. Nem um único proletário!

Indubitavelmente proletários marcharam com Gapon até o czar em 9 de janeiro, durante o levante revolucionário de 1905, mesmo todo o distrito operário "Presnya Vermelho" se distinguiu mas estes são casos de "tumultos organizados por terceiros".

Deixemos o proletariado. Vamos olhar mais de perto para a identidade de quem abalava o Império Russo no início do século e preparava a revolução. É o estudante de uma instituição de ensino superior, russo (1 em cada 4 é judeu), com entre 20 e 30 anos, originalmente da classe média, ou seja, da pequena burguesia. Vamos olhar para os líderes da OC. O fundador da Organização de Combate Gregory Andreevich Gershuni (Gersh) nasceu em 1870 na província de Kovensk. A família foi registrada no estamento médio. Em 1885 ele foi enviado para estudar farmacêutica. Em 1887-1888 ele trabalha em uma farmácia em Kronschtadt. Ele se muda para Petersburgo. Ele trabalha como farmacêutico até 1895. Em Petersburgo ele trava amizade com eruditos, artistas, estudantes. Ele escreve o pequeno conto "Como ser" onde se descreve o assassinato de um membro de um círculo revolucionário suspeito de provocação. Em 1895 Gershuni foi para Kiev e ingressou como ouvinte nos cursos da faculdade de medicina da Universidade de São Vladimir. Em março de 1896 ele é preso, ele é acusado de participar em uma associação antigoverno "O Conselho Aliado das Organizações Estudantis e Afiliações Rurais de Kiev". Ele só levou um susto. Tendo sido aprovado nos exames para se tornar farmacêutico ele se mudou de novo para Petersburgo. Depois, ele veio para Moscou, trabalhou em cursos de bacteriologia, então no instituto de medicina experimental. Na primavera de 1898 ele vai a Minsk, começa a oferecer serviços a grupos revolucionários, organiza uma oficina de máquinas para tipografias ilegais, cria um departamento de passaportes, envia pessoas ilegais através da fronteira, etc. Finalmente, ele se une ao círculo "Partido dos Trabalhadores para a Liberação Política da Rússia" em 1899. Em 1990 ele é preso. Acidentalmente libertado. Passa a uma posição ilegal. No verão de 1901 ele viaja por Nizhni Novgorod, Ufa, Voronezh, Saratov e Samara estabelecendo contatos. Em setembro de 1901 ele começa a recrutar pessoas para a Organização de Combate. O primeiro ato terrorista acontece em 2 de abril de 1902. O assassinato do Ministro do Interior Sipyagin em Petersburgo.

Boris Victorivich Savinkov (foi precisamente seu "Memórias de um Terrorista" que trouxe à OC sua fama histórica) nasceu em 1879 em Kharkov na família do promotor público da corte do distrito militar. Savinkov completou o ginário em Varsóvia em 1897. Em dezembro do mesmo ano, aos 18 anos de idade, a administração da gendarmaria de Varsóvia o convocou para prestar contas de sua participação em tumultos estudantis ligados à abertura em Varsóvia de um monumento ao supressor do levante polonês de 1863-1864 o conte M. N. Muraviev. Savinkov é posto sob vigilância policial. Em 1897 Savinkov ingressa na faculdade de Direito da Universidade de Petersburgo. Mas já em 1899 ele foi expulso da universidade por causa de tumultos estudantis e de uma investigação preliminar sobre o caso de um grupo de estudantes que haviam se reunido em um "comitê organizacional". Por volta do fim de 1899 Savinkov atravessou a fronteira e durante dois anos ele estudou nas faculdades jurídicas das universidades de Berlim e Heidelberg. Em outono de 1900 Savinkov veio a Varshava para a execução de seu dever militar, mas foi declarado "completamente incapaz para serviço militar". Savinkov se aproxima dos social-democratas, entra para o grupo "Estandarte Proletário" e junto com P. M. Rutenberg funda o grupo "Socialista". Em 1901, na primavera, Savinkov é preso por causa da participação em organizações social-democratas. Em dezembro de 1901 a investigação é finalizada. No início de 1902 Savinkov é exilado para Vologda. Na primavera de 1903 Savinkov se une ao PSR. Em junho do mesmo ano ele escapa de Vologda para Archangelsk, e de lá para a Noruega, depois para Genebra onde ele se encontra com um membro do Comitê Central do PSR, Gotz. Ele tem 24 anos de idade e já é um revolucionário profissional.

Dos ataques que tornaram a OC famosa três são proeminentes: o assassinato por Stepan Balmashov do ministro Sipyagin, o assassinato por Egor Sozonov em 15 de julho de 1904 de V. K. Pleve e o assassinato por Ivan Kalyaev em 4 de fevereiro de 1905 do Grão-Duque Sergei Alexandrovich. Kalyaev foi executado em 10 de maio do mesmo ano. Há muito material sobre ele nas "Memórias" de Savenko, tanto quanto sobre Egor Sozonov. De todos os herois da OC Kalyaev, um poeta e revolucionário inspirado, era um tipo acabado do mais fanático aderente a meios descompromissados de luta. Ao longo de toda sua vida ele desafiou não só o regime político existente na rússia como também foi uma revolta contra as bases injustas do próprio mundo.

Stepan Balmashov nasceu em 1881 em uma família de nobres hereditários da província de Archangelsk. Ao mesmo tempo seu pai já era um antigo populista revolucionário. Em 1899 ele ingressa na Universidade de Kazan de onde ele é transferido para Kiev, para a faculdade de direito. Por participar em uma reunião estudantil Balmashov foi expulso da universidade e obrigado a prestar serviço militar por 1 ano. O 23 de janeiro de 1901 tendo chegado (ele ainda não havia sido enviado ao exército) no prédio da Universidade de Kiev, Stephan trouxe consigo alguns canos de vidro cheios de um líquido fedorento os quais ele pisou em uma sala da universidade com o objetivo de paralisar as aulas. Ele foi preso e manuscritos proibidos foram encontrados com ele, bem como notas e mensagens trocadas com conhecidos. Em 10 de abril de 1901 Balmashov foi liberado para formar guarda sob a vigilância das autoridades militares na cidade de Roslavl na província de Smolens. Logo após ele pegou uma licença de 6 meses e foi a Simferopol, então em 30 de julho de 1901 para Kharkov, mas mesmo ali ele não ficou, foi para Kiev onde ficou até dezembro de 1901, quando ele foi então para Saratov. Nessa cidade, Balmashov tinha conexões com os socialistas revolucionários. (O encontro de Balmashov com Gershuni aconteceu em 1901 em Kiev). Os SR de Saratov deram a Balmashov os meios de cometer um ato terrorista.

Em 2 de abril de 1902 no prédio do Comitê de Ministros veio Balmashov, disfarçado com um uniforme de adjunto e tendo aguardado a chegada de Sipyagin disparou vários tiros contra ele. Sipyagin morreu após 1 hora e meia. Depois dos tiros, Balmashov gritou: "Isso é o que deve ser feito a essa gente". No dia seguinte era aniversário de Balmashov, ele tinha agora 21 anos de idade. Em 3 de maio, às 4 horas da manhã, Balmashov foi enforcado no jardim da fortaleza Shlisserburg. Stepan recusou a confissão e a eucaristia e ao ver o padre disse: "Não quero ter que lidar com hipócritas".

Este é o tipo de pessoa, fanática, irrequieta, que hoje seria chamada de desajustada, que foi a matéria-prima da organização mais revolucionária do início do século na Rússia. E de todas as organizações revolucionárias em essência, não só na Rússia. Precisamente em constante frenesi, incansáveis, mudando de local de estudo, serviço, trabalho, residência e até de estilo de vida. Essas são todas características primárias de desajustados. Também eram desajustados os Grandes Líderes de futuros movimentos políticos poderosos que eclodiriam por toda Europa. Antes de se tornar cabo e depois chanceler da Alemanha, Adolf Hitler vagabundeou em Viena por 7 anos, vivendo em abrigos, desenhando paisagens vienenses, perambulava com sobretudo até o calcanhar como Lautreamont (Hitler, aliás, parece um pouco com Edgar Allan Poe, alguém além de mim já notou?), dividiu abrigo com um mendigo que vendia seus desenhos. Tudo isso costuma ser omitido em biografias, mas é precisamente a juventude, os anos que formam uma pessoa, que é importante. Lá, em Viena, na sombra de magníficas catedrais, entre museus esplêndidos, próximo a mansões burguesas imensamente luxuosas, como ele deve ter sofrido, o desconhecido andarilho Adolf! E como ele deve ter começado a odiar Viena como, depois, como chanceler em 1938 ele deve ter exultado em adentrar na cidade outrora hostil acompanhado pelas ovações de milhões de pessoas. O jovem Stálin também era um desajustado, basta olhar para sua foto jovem, com uma pequena barba, em uma leve echarpe presa a uma pequena jaqueta. Benito Mussolini, um socialista barulhento da pequena aldeia de Predappio vagabundeou na rica Suíça, passou noites sob pontes, foi preso pela polícia, trabalhou como pedreiro, trabalhou em fábrica de latas, vagou, fitou, invejou, odiou. Depois ele afirmou que se encontrou com Lênin em Zurique e Genebra. Mussolini era um italiano falador... Todos eles liam avidamente, escreviam, estudavam pouco a pouco, vagabundeavam, escreviam poesia e procuraram por um longo tempo por algo que fazer. Vladimir Lênin não foi mendigo, mas ele também não foi o assistente jurídico mais comportado, irmão de um executado por uma tentativa má sucedida de regicídio, revolucionário profissional quase desde os 17 anos de idade, aos 27 já um exilado, aos 30 um migrante, um esquisitão estranho e cruel. Quando eclodiu na Rússia a Revolução de Fevereiro ele queria sobrevoar os campos militares da Europa em um balão! Ou viajar de trem com os documentos de um sueco surdo-mudo! Vejam que tipo! Nas humilhações, na pobreza, no sofrimento os líderes dos Grandes Partidos experimentaram iluminações: iluminações sobre suas missões.

E os irmãos-de-armas dos líderes dos Grandes Partidos da Europa! Ao se redor se reuniram poetas, jornalistas provincianos, escritores (randomicamente: Goebbels, Trotsky, Marinetti, Lunacharsky), mulheres esquisitas (as primeiras a vir: Inessa Armand, Angelica Balabanoff, Kollontai, Leni Riefenstahl, Larisa Reisner), militares estranhos (Ludendorff, Ernst Röhm, o conde Ciano, Tukhachevsky, Frunze), psicopatas, incontáveis tipos extravagantes de meio-criminosos meio-revolucionários (aleatoriamente: Kotovsky, Dzerjinsky, Horst Wessel).

Lênin provavelmente viu com clareza este paradoxo: a primeira revolução proletária foi organizada e posta em prática não pelos proletários, mas por pessoas desajustadas, histéricas, vagabundos, demagogos, oradores, pessoas semi-educadas, mendigos e todo tipo de figuras exóticas. Depois, os marinheiros e os camponeses e os operários ousaram chegar ao que já havia acontecido, sim. Porém, eles não foram os primeiros no negócio revolucionário, eles não são seus pais, eles se juntaram depois.

E aqui um equívoco é cometido. O próprio Lênin tem culpa aqui porque ninguém a não ser ele poderia ter feito isso. Como pai fundador, ele deveria ter deixado tábuas onde ele deveria ter indicado com clareza segundo que critérios dever-se-ia selecionar os diamantes entre as montanhas de estrume. Como os budistas tem critérios especiais para a seleção do Dalai-Lama e do Panchen-Lama. Ele deveria ter dito: "No futuro, para propósito de serviço público procurem por talentos entre os desajustados, entre os esquisitos, pessoas histéricas e poéticas, entre os lunáticos, mas não entre os trabalhadores ou alguns camponeses, a não ser que você se depare com algum exemplar realmente excepcional. Deus nos livre, camaradas sucessores, de procurar entre as classes estáveis da população".

Mas Lênin não deixou qualquer instrução do tipo. A insolência e honestidade de declarar que somente um partido constituído por desajustados, poetas, profetas e psicopatas é capaz de realizar uma revolução faltou a Lênin. A magia da justiça absoluta da revolução em nome da maioria o forçou a preservar e apoiar a mentira ideológica: uma revolução proletária, do Quarto Estado, em prol da maioria (dos trabalhadores). (Da mesma maneira, os fascistas na Alemanha disseram ter feito sua revolução de 1933 em nome do Volk, o povo, os fascistas italianos fizeram a sua em nome da nação italiana). Mas eles apenas tinham que admitir que a maioria (proletariado, volk, nação) é desprovida de talentos e não é capaz de conquistar ou defender seus interesses. Depois, essa mentira ideológica teve consequências desastrosas, ela refletiu catastroficamente na qualidade das fileiras partidárias que veio a substituir as primeiras fileiras heroicas de desajustados. A mentira oficial sobre o caráter especialmente revolucionário dos proletários (após eles, os mais revolucionários eram considerados os camponeses e em terceiro lugar os soldados, vai saber o porquê) foi gravada em letras vermelhas brilhantes no legado do partido comunista dos bolcheviques.

Os líderes foram selecionados e promovidos entre eles, os operários e camponeses por origem foram encorajados.

Eles não estavam interessados ou se esqueceram das origens estamentais da Organização de Combate dos Socialistas Revolucionários ou do pessoal do Comitê Central. O partido acreditava que o proletariado era a coroa da criação, quando ele era tão somente um pretexto para a tomada do poder pelos melhores: os desajustados, os psicóticos, os marginais. Aonde isso levou é de conhecimento comum: um completo ninguém veio do campo, o pequeno filho diretor de um kolkhoz, o imbecil Misha Gorbachev e então o imbecil de Sverdlovsk Boris Iéltsin, e o Estado criado pelo gênio de loucos, sádicos, poetas, açougueiros, o extraordinário Estado desabou. É isso que quer dizer uma política errada de recrutamento.

Dever-se-ia ter rastreado nas oficinas da boemia, nas prisões, nos hospícios, por indivíduos estranhos, isso que deveria ter sido feito. Homens possuídos, criadores de poesia, homens que falam dormindo em línguas desconhecidas. Dever-se-ia ter levado nos anos 70 ao Comitê Central Vladimir Bukovski, Natan Sharansky, Eduard Kuznetsov e Volodia Gershuni! (Eu conheci o neto do terrorista em 1968-1970. Nós até vivemos por um tempo sob o mesmo telhado. Metade da vida de Volodia foi passada em prisões e hospícios. Independentemente das divergências ideológicas eu o respeitava. Com Savinkov estamos ligados por Kharkov, local de seu nascimento e eu passei ali minha infância e juventude). Mas pegar essas pessoas delinquentes, mas vigorosas, aqueles que os teriam levado ao Comitê Central deveriam ter sido gênios eles próprios! É um paradoxo, mas para salvar uma elite e um Estado que envelheciam cada vez mais rápido eram necessários aqueles que os atacavam mais furiosamente...

Olhando para nossas organizações regionais do PNB podemos ver com grande satisfação que elas são comandadas por jornalistas provincianos, poetas, roqueiros, punks, estudantes semi-educados. Há também alguns trabalhadores, eles são pessoas incríveis, mas eles são apenas trabalhadores acidentais, temporários (e já se tornaram revolucionários profissionais), maseles são as ovelhas negras de sua classe e como exceção só confirmam a regra geral. É por isso que o PNB não está envolvido com massas, não tenta transformar trabalhadores em zumbis (não podemos igualar a habilidade dos impérios televisivos de propagandizar e manipular pessoas). Porém, o PNB conduz uma propaganda seletiva, reconhecendo e organizando a minoria ativa, os desajustados. Nos anos 60 e 70 os esquerdistas também se voltaram para o proletariado, eles ficaram perto das entradas de fábricas inundando os trabalhadores com panfletos, mas após se olharem no espelho, após se compararem com os proletários e após refletirem sobre quem eles eram eles propuseram a teoria de que a classe mais revolucionária era a dos estudantes. Nós, o PNB, apesar de entre os membros do partido haver estudantes, não achamos que os estudantes sejam uma classe revolucionária especial. Até hoje, os pupilos de classes escolares avançadas os superam e os deixam para trás em revolucionismo. Mas mesmo isso não é uma verdade, em última instância. As classes revolucionárias inexistem. Um caráter revolucionário é, ou não é. Assim o tipo mais revolucionário de indivíduo é o desajustado: uma pessoa estranha, desorganizada, vivendo à margem da sociedade, um pervertido talentoso, um fanático, um psicopata, um tipo azarado. Não se deve achar que há muito poucos desses para formar um partido revolucionário. Há centenas de milhares de pessoas marginais, ou até milhões. Este é todo um grupo social. Uma parte dos desajustados preenche as fileiras do mundo criminoso. Os melhores precisam estar  conosco.


terça-feira, 7 de março de 2017

Carlos Alberto Sanches - A Superação do Homem e a Civilização da Super-Humanidade

por Carlos Alberto Sanches



Nosso objetivo é apresentar uma interpretação do Übermensch nietzscheano que esteja suficientemente livre das determinantes humanistas que o desfiguram e encobrem seu autêntico significado, bem como apresentar a “contraparte” do conceito situada na filosofia de Sri Aurobindo, que, por sua vez, possibilita uma significação espiritual, supraindividual e metapolítica à ideia da superação do homem.

Que as ideias de um filósofo sejam má compreendidas ou distorcidas interessadamente constitui talvez a própria tragoedia philosophae. O caso de Nietzsche, contudo, é especial, considerado que o estilo próprio de sua escrita - efusiva, intempestiva, aforismática -, inseparável do caráter essencial de sua filosofia, torna-o excepcionalmente pronto para fáceis deformações. Somente se contemplada em seu conjunto e sua evolução cronológica a filosofia de Nietzsche revela alguns de seus traços fundamentais e distintos, o que faz com que, como escreve Scarlett Marton, “quem julgou compreendê-lo equivocou-se a seu respeito; quem não o compreendeu julgou-o equivocado”.

Antes de tudo, o Übermensch nietzscheano não é o homem otimizado, não é o homem ampliado, o homem hipertrofiado - e menos ainda quando conceituamos “homem” a partir do que observamos da condição humana atual. O “homem” (mensch) dos discursos de Zaratustra não é o “homem” do Humanismo moderno. Este último se lhe apresenta apenas como resultado de uma escola de antropotécnica específica, apequenadora, esterilizadora. O “homem” de Zaratustra também não é simplesmente o animal rationale da tradição metafísica Ocidental, isto é, um animal acrescido de razão - ou “uma desarmonia e misto de planta e fantasma” (ein Zwiespalt und Zwitter von Pflanze und von Gespenst) -, embora contenha caracteres essenciais do mesmo, inevitavelmente. A essência do homem consiste no fato de ser ele próprio uma passagem: uma transição (Übergang) e um ocaso (Untergang). “O homem é corda estendida entre o animal e o Übermensch. O homem é o caminho entre uma “coisa” e um além não coisificável; e que se apaga a si mesmo neste cruzar de um pontoo ao outro. Deixemos em suspenso esta imagem por um momento, e passemos a uma consideração sobre a natureza do Übermensch. Para uma melhor visualização desta natureza e um mais rápida condução ao nosso objetivo, coloquemo-lo ao lado de dois tipos humanos: o “Último Homem” (Letzte Mensch) e o “Homem Superior” (Höhere Mensch).

O último homem é o resultado das antropotécnicas modernas da escola humanista cujas raízes retroagem à guerra contra o tipo de homem superior que coube ao cristianismo levar a cabo. Ele foi obtido após séculos de nanificação. O último homem desconhece o destino de sua humanidade. Ele é incapaz de enxergar a potência expressa no primeiro impulso da Vida e que lhe atravessa. Ter se esquecido de sua destinação, ter deixado de corresponder ao fluxo dos seres, faz dele “o mais macaco de todos os macacos”, uma anormalidade na escala dos seres. O último homem compreende a essência do ser humano a partir da observação de seu estado atual, como se os anteriores fossem necessariamente inferiores a ele (“No passado toda gente era louca!”, dizem os últimos homens), ou como se ao homem, visto tal como se encontra hoje, não houvesse mais nada a acrescentar ou nenhuma potencialidade a se desdobrar em fato; pressupõe que esta forma humana atualmente observável, com sua respectiva organização social, representa o estágio mais elevado atingível pelo impulso conformador do nosso gênero. Prova disto é que seus empenhos políticos consistem todos em proteger este homem, proteger esta humanidade. “Vida” é reduzida conceitualmente por ele a mera “sobreviva”, “sobrevivência”. Não sabe o que é exceder-se. Tudo o que quer é esticar sua existência a qualquer custo. O último homem não sabe morrer. “Sua raça é indestrutível como a da pulga”. Com sua risada de macaco, ri-se da pira dos sacrifícios. O mais importante: as potências criativas de um tal homem se encontram anuladas; ele é espiritualmente castrado. É por isto, aliás, que se chama o “último homem”: vive como se não houvesse nada além dele; representa a esterilização da terra; caos sem fertilidade. É por isto também que, em sua vigência, “o deserto cresce”, ou, como diria Heidegger, “cresce a escuridão sobre a terra”.

Os homens superiores são os prenunciadores e preparadores do Übermensch. Eles estariam sintonizados com a essência do homem como transição e ocaso, mencionada acima. Como anunciadores, são arautos do raio (pois o Übermensch, “der ist dieser Blitz”), são as pesadas gotas de chuva que o antecedem. O próprio Zaratustra assim se nomeia (“ein Verkündiger des Blitzes”, “ein schwerer Tropfen”). Os homens superiores, a que Zaratustra não apenas se refere objetivamente, mas os quais ele passa a procurar como auditório depois de ter desistido de falar à turba, não carregam nenhum caráter, digamos, tipicamente burguês. São uma elite visionária e criativa. Em sua temperança e simplicidade, são homens belicosos tanto quanto trabalhadores silenciosos. São tão raros que o autor não os vê entre seus contemporâneos. Lemos na Gaia Ciência:

Homens preparatórios – Eu saúdo todos os sinais de que se aproxima uma época mais viril, guerreira, que voltará a honrar acima de tudo a valentia! Ela deve abrir caminho para uma época ainda superior e juntar as forças que de que ele precisará – a época que levará heroísmo para o conhecimento e travará guerras em nome dos pensamentos e das conseqüências deles. Para isto são agora necessários muitos homens preparatórios valentes, que certamente não podem surgir do nada – muito menos da areia e do lodo da atual civilização, e educação citadina; homens que, silenciosos, solitários, resolutos, saibam estar satisfeitos e ser constantes na atividade invisível; homens interiormente inclinados a buscar, em todas as coisas, o que nelas deve ser superado; homens cuja animação, paciência, singeleza e desprezo das grandes vaidades seja tão característico quanto a generosidade na vitória e a indulgência para com as pequenas vaidades dos vencidos; homens de juízo agudo e livre acerca dos vencedores e do quinhão de acaso que há em toda vitória e toda glória; homens com suas próprias festas, dias de trabalho e momentos de luto, habituados e seguros no comandar e também prontos a obedecer, quando for o caso, igualmente orgulhosos nas duas situações, igualmente servindo a própria causa; homens mais ameaçados, fecundos e felizes![i]

Estes homens, a julgar pelas características listadas, têm correspondência histórica. Corresponderiam ao tipo humano a que Nietzsche se refere no Prefácio d'O Anticristo, o tipo almejado pelo “grande laboratório de pesquisa da Vontade de Potência” que é a história,[ii] mas que surgia no interior das sociedades antigas como um feliz acaso, “um golpe de sorte” (ein Glücksfall), uma exceção (eine Ausnahme);[iii] contudo, segundo Nietzsche, é contra este protótipo que luta o cristianismo, que em tal empenho produziu o tipo inverso, o animal de rebanho (Heerdenthier). Este último tipo, portanto, seria o tronco de cuja ramagem brotaria, dois milênios depois, o último homem.

De volta à terra firme, Zaratustra se pergunta o que acontecera ao homem durante sua ausência. Observando uma fileira de casas, lamenta que “tudo ficou menor”: “a virtude é para eles aquilo que torna modesto e domesticado: com ela fazem do lobo um cão, e dos próprios homens os melhores animais domésticos para os homens”.[iv] Neste discurso de Zaratustra que, segundo Peter Sloterdijk, oculta “um discurso teórico sobre o homem como força domesticadora e criadora”, o Humanismo aparece como escola de antropotécnica apequenadora. “Da perspectiva de Zaratustra, os homens da atualidade são uma coisa: bem-sucedidos criadores que conseguiram fazer do homem selvagem o último homem”.[v] O Humanismo visa a inocuidade; “o padre, o professor e todos aqueles que se apresentam como amigos dos homens”[vi] seriam agentes apequenadores. Poderíamos - por que não? – estender esta definição, “amigos dos homens”, com toda sua carga crítica, ao conjunto heterogêneo de agentes sociais sobre os quais repousa atualmente a responsabilidade do cuidado biopolítico dos seres humanos.

O Humanismo é inibidor por definição. O cataclismo cujo anúncio Nietzsche havia previsto como seu destino, a “profunda colisão de consciências” que se seguiria à sua morte, seria, em grande parte, esta batalha (para Sloterdijk eminente no horizonte do século XXI) entre aqueles que governam o homem para fazê-lo menor aqueles que governam o homem para fazê-lo maior; “os que criam o homem para ser pequeno e aqueles que o criam para ser grande”;[vii] é uma batalha entre “os humanistas e os super-humanistas”,[viii] “os amigos do homem e os amigos doÜbermensch.[ix] Isto não equivale a dizer que o Übermensch possa ser conseguido por um simples projeto de desinibição ou um retorno ao bestial ou pré-humanista. Em todo caso, trata-se de superar o diagrama humanista segundo o qual é dever das organizações humanas superiores  proteger o “homem”, e não apenas o indivíduo humano, como reza a cartilha globalista pós-Guerra, mas proteger igualmente as condições atuais da subjetividade do “homem”; proteger o homem no plano das ideias; conservar a ideia de homem; o que significa ao mesmo tempo proteger o sujeito autorreferente que observa a terra e a si mesmo, como diz Hannah Arendt, de um “ponto de vista arquimediano”, do lado de fora da terra, alienado das raízes que lhe prendem às entranhas da terra. Quando Heidegger define o homem como “o pastor do ser” (der Hirte des Seins) e a linguagem como a “casa do ser” (Haus des Seins), o que está contido nessas denominações é a ideia de que aquilo a ser “protegido”, “guardado”, não é o “homem” em si, o animal pensante esquadrinhado pelos discursos científicos biologizantes, mas sim aquela dimensão fundamental e transcendente à qual o ser humano se encontra aberto e da qual depende sua humanidade. Se Humanismo, também como diz Heidegger, significa cuidar para que o homem não resida fora de sua essência, o verdadeiro cuidado do homem se daria através da guarda não exatamente do ente humano, mas das condições da Abertura (Erschlossenheit).

A interpretação que faz do Übermensch um mero homem otimizado desaba no risco de concebê-lo como um moderno amplificado. Ela desconsidera as nuances supracitadas. Somente do último homem poderia vir a acepção que faz o Übermensch coincidir com o personagem dos quadrinhos norte-americanos. O Übermensch não é um indivíduo com super-poderes ou acoplado a próteses lutando para salvar a “humanidade” atual. Também não é um ou mais aspectos ou potências ampliados do homem. Seria lícito dizer que ele representa a força configuradora de toda uma nova forma social. O Übermensch é uma meta, em toda a plenitude significativa deste termo. A tradução mais adequada seria, aliás, Supra-homem, pois, como vimos, não se trata da superlativização da forma humana, menos ainda a atual, mas sim, digamos agora diretamente, do atingir de um novo estágio do Ser, do alcançar de um lócus ontológico diferenciado. Ele não pertence mais à formação epistemológica do humanismo moderno, de onde brotam as “Ciências Humanas”; ele se situa no estágio posterior à morte do “Homem” das ciências positivas; é por isto que ele surge no final do penetrar do sujeito na matéria infinitesimal; confunde-se com a vingança do silício sobre o carbono: o Übermensch, resume Deleuze citando Rimbaud, é “o homem carregado dos próprios animais”.[x] Ele é o portador do destino da Vida, pois nasce da união consciente do homem com o fluxo dos seres. Obedece soberanamente à vontade da terra. E é por isto que o Supra-homem é o sentido da terra (der Sinn der Erde).


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Como interlúdio à crítica de um pensador indiano, que nos seja permitido fazer uso de uma imagem símbolo da transição, do Oriente e do novo começo: a aurora.

Nas culturas do passado, as palavras que se referem à aurora remetem diretamente a um campo significativo do qual nunca se pode dizer que dele o homem esteja fora. Mesmo que textos antigos possam se referir ou explicá-la enquanto fenômeno natural, a palavra que a designa como tal, seja em sânscrito, grego ou latim, é antes de tudo o nome de uma divindade, e não uma qualquer, mas uma divindade ligada à dádiva da forma dos homens, dos animais e dos próprios deuses. Na antiguidade mais remota, quando se dizia os nomes da aurora, pronunciava-se o nome de uma divindade das mais nobres. Uma divindade feminina. Uma divindade da prenhez. Que surge todas as manhãs trazendo pelas mãos nascimento e morte. Uma divindade da origem e do retorno certo da origem. A Ushas é dedicado um número relevante de hinos no Rig Veda: “Essa luz chegou, entre todas as luzes a mais bela. Nascida está a brilhante e extensa claridade. A Noite, expulsa por Savitar [o sol], revelou-se um berço para a Manhã. A justa e clara chegou com sua prole branca [Ushas surge numa carruagem puxada por sete vacas brancas]; o Escuro renunciou à sua morada. Imortais, ambos os firmamentos [heavens] seguem adiante, seguindo-se um ao outro, mudando suas cores. (…) A Aurora despertou todas as criaturas vivas” (Hino CXIII, versos 1-5). Na fórmula empregada repetidas vezes por Homero para descrever a passagem dos dias, do nascimento de um novo dia, a jovemEos surge com seu belo e famoso epíteto: “Quando surgiu a Aurora de dedos rosados...” (rhodo-dáktylos Eos). Em Hesíodo ela não surge apenas aos homens, mas também aos deuses, “brilha sobre tudo o que há na terra e sobre os deuses imortais que vivem no amplo firmamento”. Para os romanos, Aurora é irmã de Sol e Luna, e na fórmula de Virgílio se lê: “A Aurora agora deixou sua cama de açafrão, e feixes de luz matutina se espalham pelos céus...”. Digno de nota que os germânicos tinham Ostara, uma divindade equivalente, da qual se tem menção num tratado astronômico do ano 725 escrito por um monge anglo-saxão, onde se diz apenas que sua celebração ocorria em abril, ou seja, e isto é significativo, no mês em que o gelo se transforma em água e o chão no hemisfério Norte floresce. Todas as Auroras dos mundos antigos do hemisfério Norte eram celebradas na chegada da primavera. Nós, completos estranhos, comemoramos, no mês da primavera, a Páscoa. (Que também não nos é assim mais tão familiar.) Ou talvez não sejamos tão estranhos com relação à aurora dos antigos, talvez seja possível encontrar sentidos coincidentes entre “aurora” e “páscoa” se colocarmos lado a lado suas cadeias etimológicas: *hausos é a raiz proto-indo-europeia do sânscrito austra, brilhar, do grego astron, astro, e do proto-germânico *austron, aurora. Desta última, *aust gera o alemão Osten, leste, onde surge o sol. De *austron também vêm o nome da deusa germânica Ostara, o alemão Oestern e o inglês Easter, nomes da celebração cristã que chamamos em português de páscoa. A tudo isto também se liga Ister, como os antigos germânicos chamavam o rio Danúbio. Este, do latimdanuvius, do céltico *dan(w)-yo, que significa, em português, simplesmente, rio; *dan(w)-yo está relacionado com o inglês arcaico dauin, o período da passagem entre a escuridão e o alvorecer, com dagian, tornar-se dia, e com o inglês moderno dawn, aurora. Como Heidegger certa vez escreveu, aquilo que transporta Aurora em sua subida até nós é chamado por Homero de éosphoros, “portador da aurora”. Pherein, carregar, tem raiz no sânscrito panthah, caminho, do proto indo-europeu *pent, passar, passagem, mesma raiz de pontos, como os gregos chamavam o mar aberto. Já o português páscoa vem do grego pascha, passagem, no sentido do inglês passover, do aramaico pasha, com o mesmo significado. Aurora, rio, carregar, caminho, mar aberto, passagem. O sentido de transição liga a celebração cristã de abril àquela pagã dos mundos antigos. Uma transição, uma passagem, da escuridão à luz igualmente passageira. O retorno, a cada nova manhã, da primeira luz que os homens viram, da primeira luz que viu os homens. Através da aurora se observa o anúncio do eterno retorno do começo humano. No tumulto e confusão dessas línguas bárbaras, pode-se reconhecer uma experiência “humana” no interior do próprio fenômeno natural. O filólogo Nietzsche sabia disto. E o filósofo Nietzsche soube disto fazer bom uso. Antes de pôr suas palavras na boca de um (des)profeta batizado com o nome de um ícone primordial, Nietzsche o faz deixar sua pátria (Heimat), ir para as montanhas, lá permanecer por dez anos até se cansar da sua solidão, e então “se levantar com a aurora rosada” (stand er mit der Morgenröthe auf). A aurora não é um mero detalhe no ponto alto da indispensável iniciação pela qual Zaratustra tem que passar antes de se tornar anunciador do Übermensch. Dois anos antes, Nietzsche parecia já saber que, para fazer brilhar sua aurora, seria preciso retornar até o mais antigo nome pelo qual a aurora foi chamada (ao mais longe que pudesse ir nesta direção), e recolher, dessa fonte das fontes, um feixe de luz primordial a partir do qual pudesse irradiar os seus próprios, como um prisma. Somente então o filósofo que nasceu póstumo poderia falar aos ouvidos do futuro. Em seu idioma, curiosamente, quem escreve “luz primordial” com duas palavras escreve “luz” duas vezes: Urlicht Licht. Essa luz primordial, só lhe pôde ocorrer buscá-la onde acreditava ser o berço das culturas Ocidentais. Este raio capturado de luz primordial lá está: a epígrafe de sua Aurora. Só poderia ser a epígrafe. E não poderia ser creditada senão ao Rig Veda: “Há tantas auroras que não brilharam ainda...”



A relação entre o pensamento alemão (principalmente a partir do século XIX) e o pensamento Oriental (em toda sua diversidade e primordialidade) é um tópico intrigante. Do lado outro, o pensador indiano Sri Aurobindo (1872-1950) é um dos que promovem deliberadamente o intercâmbio. Aurobindo lançou o projeto urbano de um distrito experimental, uma espécie de “cidade espiritual universal”, realmente fundada após sua morte. Foi batizada de Auroville. É conhecida como a “Cidade da Aurora”. Eis o que escreve sobre a Aurora dos Vedas:

Ao longo dos Vedas, Ushas, irmã de Céu, tem sempre a mesma função. Ela é o meio [medium] do despertar, da atividade e do crescimento dos outros deuses; ela é a primeira condição da realização védica. Por meio de sua crescente iluminação toda a natureza do homem é clarificada; através dela ele chega à Verdade, através dela ele desfruta a Beatitude. A divina aurora dos Rishis é o advento da divina Luz retirando [throwing off] véu após véu e revelando nas atividades do homem a luminosa divindade [godhead]. Nesta luz a Obra é feita [the Work is done], o sacrifício ofertado, e seus frutos desejáveis reunidos pela humanidade.[xi]

A Aurora é a origem da forma (eidos) e de tudo o que é feito pelo homem (pragma). Mais do que isto, ela abre acesso a uma dimensão do destino humano que, apesar de compartilhada com todos os indivíduos humanos, individualmente nenhum homem pode viver:

E elas estarão juntas - Auroras que brilharam e Auroras que hão de brilhar. A Aurora anseia com voracidade pelas Auroras que a antecederam, e segue adiante, alegre, brilhando com as outras. Idos são os homens que nos dias antes de nós olharam [look] o surgimento da primeira Manhã [earlier Morning]. Nós, nós os vivos, agora contemplamos sua claridade, e eles se aproximam, os que hão de vê-la” (Hino CXIII, versos 10-11).

Em períodos históricos de grande recorrência do tema da “escuridão que sobrevêm sobre o mundo”, é bom lembrar que é a Aurora que “leva para longe a melancolia da sua irmã [a Noite], e, através de sua excelência, fá-la retraçar seu caminho” (Hino CLXXII, verso 4).

***

A filosofia de Sri Aurobindo se constitui no diálogo crítico e construtivo com os filósofos Ocidentais. No que diz respeito ao nosso tema, iniciemos por afirmar que Sri Aurobindo critica o Übermensch de Nietzsche por julgá-lo carregado de vícios modernos ou, em suma, Ocidentais. A noção de Super-Humanidade da filosofia aurobindiana se expressa pelo conceito de Supermind, Supramente.
Antes de tudo, o que seria a Supramente?

Esse termo intermediário é (...) o princípio e o fim de toda ordem e criação, o Alfa e o Ômega, o ponto de partida de toda diferenciação, o instrumento de toda unificação, originativa, executiva e consumativa de todas as harmonias realizadas ou realizáveis. Ele tem o conhecimento do Uno, mas é capaz de extrair do Uno suas multitudes escondidas; Ele manifesta o Múltiplo, mas não perde a si próprio em suas diferenciações.[xii]

Sri Aurobindo também chama a Supramente, em certos contextos, de “Real-Ideia”, isto é, “um poder de Força Consciente expressiva do ser real, nascida do ser real e participante de sua natureza”. Escreve Joan Price:

[A Supramente] refere-se sempre à unidade acima de si e à multiplicidade abaixo de si, portanto atuando como uma ponte pela qual a maya inferior [matéria] se desenvolve a partir da maya superior [mente]e pela qual a maya inferior retorna novamente em direção à sua fonte. Do ponto de vista da Supramente (Consciência-Verdade), toda existência é um Ser tendo consciência como natureza essencial; é uma consciência cuja natureza ativa é vontade; é uma consciência-força que é deleite, quer esteja ativamente criativa, quer esteja em repouso. Isto, diz Sri Aurobindo, é Brahman - nós mesmos em nossa essência, nosso ser não fenomenal.[xiii]

            Segundo Aurobindo, no ato de Criação, a Consciência, primordialmente absoluta e perfeita, involui (involves) gerando a matéria limitada e, encerrando-se nela, inicia uma marcha de evolução (evolution) através de estágios sucessivos rumo à libertação de si mesma e reaquisição do estado primordial, perfeito, supramental. A Consciência-Força, dirigida pela unidade da Supramente, manifesta-se dando forma à multiplicidade. É o que Aurobindo chama “a involução do Espírito”. “Evolução” sendo, portanto, “um auto-desenvolvimento do Espírito”. Não apenas a Vida, a Mente e a Consciência, mas a própria Divindade se encontra involuída na matéria. Achamos oportuno recordar que o termo contém a raiz indo-europeia vol, que significa tanto esconder quanto revelar, “esconder revelando” e “revelar escondendo”, o que pode ser relevante para uma compreensão, diria, heideggeriana do que poderíamos muito bem tratar como um processo de (des)velamento do Ser. Aqui é impossível não recordar das narrativas tradicionais dos ciclos de decadência nas quais os seres divinos involuem em sucessivos estados obtusos.

No mundo material que nós habitamos, a Mente está involuída e subconsciente na Vida, como a Supramente está involuída e subconsciente na Mente, e esse instinto de Vida com uma Mente subconsciente involuída está novamente ela própria involuída na Matéria (…) O universo material principia com o átomo formal sobrecarregado com energia, instinto com a substância não formada de um subconsciente desejo, vontade e inteligência.[xiv]

A Consciência é, em si, onipresente; é a substância tanto da matéria grosseira quanto da matéria sutil, tanto da maya inferior (matéria) quanto da maya superior (mente). Para Sri Aurobindo, não faria sentido fazer da Consciência um epifenômeno ou um acaso da evolução material, tal como tende a conceber a ciência materialista dos Ocidentais. É a Consciência que utiliza o órgão cerebral, não o órgão cerebral que utiliza a Consciência. “(…) a consciência usa o cérebro que nossos esforços em direção ao alto têm produzido, o cérebro não tem produzido a consciência nem usa a consciência”.[xv] E usa nossos esforços em direção ao alto – com o intuído, diríamos, em resumo, de liberar-se da matéria buscando (re)atingir o estado de perfeição. A matéria mais limitada contém todos os princípios da realidade última, isto é, a Vida, a Mente e a Consciência. “Essa teoria de Sri Aurobindo reconcilia a realidade sem tempo de Ser com o mundo temporal de vir a ser e explica a evolução teleológica como um derradeiramente livre ato de criação.”[xvi]
Sri Aurobindo escreve:

Nós falamos da evolução da Vida na Matéria, a evolução da Mente na Matéria; mas evolução é uma palavra que meramente refere-se ao fenômeno sem explicá-lo. Pois parece não haver nenhuma razão para a Vida evoluir de elementos materiais ou a Mente de formas viventes, a menos que aceitemos a solução vedântica de que a Vida já está involuída na Matéria e a Mente na Vida porque, em essência, a Matéria é uma forma de Vida velada, e Vida uma forma de Consciência velada.[xvii]

Todo o processo evolutivo é tornado possível pela involução de princípios-força superiores para dentro da matéria, do átomo; são estes princípios que carregam a matéria da força consciente necessária para sua propulsão em direção a estados materiais e mentais cada vez mais perfeitos. No átomo jaz em estado latente tudo o que irá se desdobrar. Se a Matéria com a Vida e a Mente em estado latente se restringe a movimentações involuntárias de atração e repulsa, é a Supramente, também involuída nela, que a possibilita constituir organismos primários, nos quais já se verifica em estado manifesto, além da Vida, uma crescente atividade mental. Nas palavras de Joan Price: “Desde que ele é capaz de fazer associações e tem memória, nós podemos observar uma inteligência prática; alguns animais são capazes de fazer planos, usar estratégias e astúcia. Tudo isso, diz Sri Aurobindo, é uma preparação para a evolução de uma ainda mais consciente inteligência”, a humana.[xviii]

A partir do estado animal, em que Vida e Mente ainda inconsciente já se encontram manifestados, a evolução alcança com o ser humano o estágio da Mente consciente, isto é, da Sobremente. Trata-se do desvelar, na terra, de um nível superior da Consciência caracterizado pelas capacidades de raciocínio, objetividade etc:

[no ser humano] ...há uma transição da mente vital para a mente reflexiva e pensante, há desenvolvido um mais alto poder de observação e invenção, coletando e conectando dados; consciente do processo e resultado, uma força de imaginação e criação estética, uma sensibilidade mais plástica superior, a razão coordenadora e interpretadora, os valores de uma inteligência não mais de reflexos ou reações mas de domínio, compreensão e auto-desapego.[xix]

Importante notar que é sobre este nível de Consciência que se desdobra o domínio técnico do homem sobre o mundo. Como lemos no brilhante comentário de Joan Price:

Devido a essa complexa mente humana ter uma consciência superior, ela torna-se dominante na terra. Aqui é importante reiterar que nada na evolução é destruído ou deixado para trás. O ser humano carrega consigo a vida física e mental dos animais e transforma-as em valores mais altos. Se os estados de animal inferior lutam contra serem elevados, a mais complexa mente racional lida com eles desenvolvendo ética, disciplina, ascese e eventualmente integração.[xx]

O homem conduz o processo evolutivo conscientemente subjugando os animais que traz dentro de si e que lhe puxam constantemente para os níveis de consciência mais baixos. A Ignorância, produto da involução da consciência na matéria (digamos, o cegar-se a si mesma da Consciência) é fundamental para o processo evolutivo, exercendo a função da camada de obscuridade da qual os estados superiores devem se desvencilhar. Ainda Joan Price: “Para Sri Aurobindo a criação é uma involução do Espírito para dentro da Ignorância, que é o elemento necessário da evolução para dar a nosso mundo a promessa da perfeição. Através dos séculos, pensadores e pessoas criativas do mundo todo têm realizado a ignorância da natureza e a verdade de Deus interligados por uma realidade”. Segundo Sri Aurobindo: “a perfectibilidade do homem, a perfectibilidade da sociedade, a visão de Alwar da descida de Vishnu e dos Deuses sobre a terra, o reino dos santos... a cidade de Deus, o milênio, o novo céu e terra do apocalipse...”,[xxi] estas intuições, mesmo oscilantes, não são construções míticas ou simbólicas arbitrárias ou gratuitas. “De acordo com Sri Aurobindo, a vida divina evoluindo na natureza-terra não é apenas nossa imaginação esforçando-se por alcançar, em falsa esperança, um futuro brilhante; existe uma base racional para tal ponto de vista”. De fato, as representações dos Deuses seriam como projeções fixadas da Supramente para manter o homem tensionado com seu polo superior, com seu destino evolutivo, a saber, a liberação, dentro e fora de si, da Vida Divina. Porém, a maioria dos indivíduos tem dificuldade de superar a plataforma da Sobremente, que Sri Aurobindo, aliás, chama mesmo de “mente física” devido ao fato de carecer sempre da sensibilidade física e de suportes materiais para operar. A transição evolucionária se dá pela superação do animal no homem: “O animal foi uma ajuda; o animal é o impedimento.”[xxii]

O estágio seguinte ao da Sobremente se alcança por meio de uma gradativa abertura ao nível da Supramente. Isto se dá pelo surgimento, aparentemente ocasional, de indivíduos que Sri Aurobindo chama de Seres Gnósticos. Estes seres transcendem a multiplicidade de centros do Ser e atingem a unidade primordial na plataforma da Supramente. “A crescente posse do ser individual e do mundo pela presença Divina, Luz, Poder, Amor, Deleite, Beleza irá ser o sentido da vida para o ser gnóstico”. Os Seres Gnósticos experimentam um contínuo estado de fusão com o Brahman impessoal sem contudo deixarem de experimentar a personalidade – tanto a da Divindade quanto a deles próprios.[xxiii]


Isto não significa um desprendimento ou simples abnegação da matéria ou do corpo. Como escreve Joan Price:

Na pessoa ordinária o corpo é, em parte, o instrumento da alma e desde que o corpo é físico, mesmo se ele obedece a alma, sua ação é limitada. O corpo tem também uma lei de sua própria ação física que a alma não pode inteiramente controlar. Mas no ser gnóstico a lei do corpo e os movimentos do corpo são diretamente determinados pela Vontade e Espírito da Consciência-Verdade superior precisamente por essa consciência espiritual que o corpo será tornado um 'verdadeiro e pronto e perfeitamente responsivo instrumento do Espírito'. O que é importante sobre a nova relação entre Espírito e corpo é 'uma livre aceitação do todo da Natureza material em lugar de uma rejeição'.[xxiv]

Lemos em Sri Aurobindo:

O ser gnóstico utilizando a Matéria, mas utilizando-a sem desejo ou apego material ou vital, sentirá que ele está utilizando o Espírito nesta forma de si próprio com seu consentimento e sanção para seus próprios propósitos. Existirá nele um certo respeito por coisas físicas, um sentido de presença de... consciência nelas, de sua vontade cega de utilidade e serviço, ... um cuidado por um perfeito e não faltoso uso desse material divino, por um verdadeiro ritmo, ordenada harmonia, beleza na vida da Matéria, na utilização da Matéria.[xxv]

Os Seres Gnósticos, inicialmente raros, situam-se além dos limites da determinação moral ou mesmo das formas religiosas; encontram-se além dos códigos valorativos binários ou, digamos, além do bem e do mal do mundo dos homens. “Aqui os princípios de liberdade e ordem são basicamente unos; eles são dois aspectos da verdade espiritual e inerentes um ao outro.”[xxvi] Porém, transcendem igualmente a ideia rasa segundo a qual estes códigos seriam “inúteis”. Como lemos em um dos aforismos de Sri Aurobindo:

O poder de acatar a lei rigidamente é a base da liberdade; é por isto que a maioria das disciplinas da alma têm de suportar e cumprir a lei em seu ser inferior antes de poderem elevar-se à liberdade perfeita de seu ser divino. As disciplinas que já começam pela liberdade foram feitas apenas para seres poderosos e naturalmente livres que em vidas anteriores cimentaram sua liberdade. Aqueles que são deficientes na observância livre, plena e inteligente de sua própria lei devem ser submetidos à vontade de outros. Esta é uma das principais causas da submissão das nações. Somente quando o alarmante egoísmo for esmagado pelos pés de um amo, dar-se-á, mediante prova de força própria, uma nova oportunidade de merecer a liberdade. Somente em Deus e mediante a supremacia do espírito podemos desfrutar de uma liberdade perfeita.[xxvii]

Vê-se em Sri Aurobindo que, junto às classes de seres humanos intermediários, os Seres Gnósticos formam uma espécie de comunidade metafísica na qual se opera a construção do destino da humanidade como um todo: libertar aVida Divina encerrada dentro da matéria, que é a Vida Divina mesma involuída.

Na parte não transformada da humanidade poderia muito bem surgir uma nova e maior ordem de seres humanos mentais; para o ser mental diretamente intuitivo ou parcialmente tornado intuitivo, mas não ainda gnóstico, para o ser mental diretamente ou parcialmente iluminado, poderia surgir o ser mental em direta ou parcial comunhão com o plano de pensamento superior: esses poderiam tornar-se mais e mais numerosos, mais e mais evoluídos e seguros em seu tipo e poderiam mesmo existir como uma raça formada de humanidade superior conduzindo para cima os menos evoluídos em uma verdadeira fraternidade nascida do sentido da manifestação do Divino Uno em todos os seres.[xxviii]

Nenhum esforço é perdido. Nenhuma ideia, nenhum pensamento individual é desperdiçado no arrancar da espécie rumo à Supramente.

Assim como foi estabelecida na terra uma consciência e Poder mentais que moldam uma raça de seres mentais e trazem para dentro de si tudo da natureza terrestre que está pronto para a transformação, assim agora serão estabelecidas na terra uma Consciência e Poder gnósticos que irão moldar uma raça de seres espirituais gnósticos e trarão para dentro de si tudo da natureza terrestre que está pronto para essa nova transformação. [xxix]


***

Antes de apresentar a crítica de Aurobindo ao Übermensch nietzscheano, é importante antecipar certas deficiências. Como nota Renato Alejandro Huerta, “nas críticas do filósofo oriental (...) não encontramos nenhuma menção do eterno retorno e do amor fati”,[xxx] o que sugere que, como iremos ver, Sri Aurobindo toma o conceito de Übermensch a partir de sua acepção humanista, ignora as nuances que marcam sua autenticidade frente o humanismo moderno, o que já vimos ser problemático. Contudo, como tentaremos demonstrar, o que seria uma deficiência nos oferece na verdade uma ótima oportunidade para ensaiar uma integração crítica das ideias destes pensadores.

Sri Aurobindo dedica um artigo especial ao protótipo do Superman (Übermensch),[xxxi] publicado na revista Arya em 1915. Para ele, é extremamente natural que o Superman desponte no horizonte de uma humanidade que assume conscientemente a tarefa evolutiva.

Nietzsche foi o primeiro que tirou [esta conclusão], o místico do culto da Vontade, o problemático, o profundo, o quase luminoso Eslavo Helênico (o termo Helênico implica um amor pagão e sem restrições em contraste com o Judaísmo que implica uma austeridade moralista, uma maneira de viver menos sensual da vida) com suas claridades estranhas, suas ideias violentas, suas raras intuições cintilantes que vinham marcadas com o selo de uma absoluta verdade e soberania da luz. Mas Nietzsche foi um apóstolo que nunca entendeu inteiramente sua própria mensagem. Seu estilo profético era como o dos oráculos de Delfos, que convertiam a verdade em mentira para satisfazer a seus ouvintes e crentes. [xxxii]

Através do Übermensch nietzscheano, Sri Aurobindo entrevê não a Vontade de Potência compreendida no sentido ontológico ou metafísico como o que lhe atribui Heidegger ou Müller-Lauter, por exemplo, mas algo como uma “Vontade de Domínio” de caráter essencialmente materialista.“Nietzsche o cantou no Olimpo mas o apresentou com o aspecto de um Asura.”[xxxiii] Na filosofia aurobindiana, Asura  equivale e de fato também é chamado de Titã. O Titã seria um ser vital mentalizado cujo pensamento e vontade são governados pela Ignorância (atributo da Consciência em estado involuído) e pela falsa identidade (a identificação da Consciência com o limitado ego anímico). “Para Sri Aurobindo o titã será filho da obscuridade e da divisão”[xxxiv] Devido ao fato de a Natureza começar com a divisão e o egoísmo (isto é, com a involução do Ser em centros múltiplos), “o Titã emerge primeiro que o Deus”; os Asuras sempre surgem antes dos Devas. Isto aliás significa que o Titã “ocupa um lugar determinado na economia do universo”. Os Titãs preparam o caminho para o desabrochar dos Deuses, tal como pode se vislumbrar no episódio védico do “batimento do leite”.

O asura (titán) tem a porção da carga mais pesada e menos agradável. Ele é o que começa a tarefa e a dirige; ele vai em seu caminho macheteando, dando forma e plantando: o deus segue, retificando [enmendando], concluindo, colhendo. Ele prepara ferozmente, com angústia e contra milhares de obstáculos, a força que nós usaremos: o outro desfruta da vitória e da delícia.[xxxv]

Para Sri Aurobindo, o Superman nietzscheano é um ideal de Super-Humanidade legítimo somente até certo ponto, pois ainda imperfeito e já obsoleto; ou seja, é um ideal titânico.

Para o titã seria impossível compreender a grandeza da missão do deus. Os instintos do titã reclamam, em verdade, um domínio tangível, concreto e visível. O titã estaria seguro de seu império somente se tivesse as coisas debaixo de seus pés. Aquilo que enche o titã com a sensação de glória e senhoridade é sua capacidade de forçar, exigir abertamente. E ele, porque é titã, é o filho da divisão e do potente florescimento do egotismo. Para o titã, ademais, seria necessário sentir a limitação dos outros para sentir-se imensurável. E isto porque ele não tem um sentido de infinidade autoexistente que não depende nem que pode ser anulada por circunstâncias externas. Par ao titã o contraste, a divisão, a negação das vontades dos outros são coisas fundamentais para seu desenvolvimento e autoafirmação. O titã deve conquistar e menosprezar o que não é ele para que sua própria imagem possa se marcar, estampar todas as coisas e dominar todo seu meio ambiente.[xxxvi]

Sri Aurobindo cogita as razões pelas quais Nietzsche não pôde se desvencilhar do titanismo. O ímpeto anticristão do filósofo alemão o teria impedido de enxergar a unidade por trás da multiplicidade; impedido de enxergar o sentido da crucificação: os deuses exigem a crucificação do egoísmo dos homens para se desvencilharem da natureza titânica.

Portanto, à via titânica de Super-humanidade se segue outra, evolutivamente posterior e superior àquela: a divina. A Super-Humanidade enquanto Vida Divina  é a superação do estágio da limitada Consciência titânica, isto é, ao estágio da Sobremente, ou seja, da humanidade tecnológica. É esta a via que realiza a plenitude da Supramente. O Ser Supramental “se ergue vitorioso sobre a mortalidade e os sofrimentos”. Se o titânico se lança ao domínio cego da exterioridade, este, o divino, rege a exterioridade mediante uma simultânea conquista interna


Ser o homem divino é reger a si mesmo e ao mundo, mas não em um sentido externo. Esta é uma lei que depende da afinidade secreta da unidade que conhece a lei do outro ser e do ser do mundo e o ajuda ou, se há necessidade, o compele ou obriga a realizar suas grandes possibilidades próprias, mas por um mandato divino e essencialmente interno.[xxxvii]

É por isto que o Bhagavad-Gita só poderia ser ensinado por Krishna a um guerreiro ário, Arjuna, somente em pleno campo de batalha e, mais especificamente ainda, no centro, entre os dois exércitos, circunscrevendo simbolicamente uma batalha ao mesmo tempo interna e externa na qual esta mesma dicotomia será suplantada, e na qual vencer a morte servir de instrumento à vontade divina (“Todos estes já estão mortos, seja apenas meu instrumento e lute) significa transcender a plataforma titânica da dualidade.


Segundo Sri Aurobindo, superar o homem significa:

evolucionar no sentido do deus ou do deva, é crescer em intuição, em luz, em gozo, em amor, em maestria feliz; servir pela lei e para a lei pelo serviço mesmo; ser capaz de ser valente e diligente e inclusive violento, mas sem ferir nem abusar, e, à vez, ser suave e gentil e inclusive auto-indulgente sem
, y a la vez, ser suave y gentil e incluso autoindulgente sem negligência, vício ou debilidade; ser um mesmo, uma unidade completa, brilhante e feliz por simpatia à humanidade e todas as suas criaturas. E, afinal, isto é evolucionar uma grande personalidade impessoal e elevar a simpatia em uma experiência constante da unidade do mundo. Porque assim são os deuses, conscientes sempre de sua universalidade e, portanto, divinos.[xxxviii]

É este, o divino, o estágio para o qual a humanidade transita ascendentemente, não o titânico que, como vimos, o precede. O Superman representa uma etapa necessária, “porém de uma evolução já pretérita”. O homem já a realizou, já completou o estágio da  Sobremente, a mente física, a mentalidade mais próxima da natureza anímica do que da natureza divina, restando a ele, agora, operar a transição para a plena liberação da sua essência: a Supramente. A transição evolucionária, como já vimos, será realizada por indivíduos pioneiros, Seres Gnósticos, e, “seguindo estes, existirá um maior número, atuando por conhecimento, que um dia irão tornar-se tão dominantes no mundo quanto são hoje os seres mentais”.



***

Do ponto de vista de Sri Aurobindo tanto quanto das doutrinas tradicionais, a figura do Übermensch faz, sim, todo sentido, sob as figuras míticas dos Asuras, no vocabulário védico, ou dos Titãs, no vocabulários greco-romano. Muitos souberam identificar no discurso de Nietzsche (a determinação da essência do homem como transição e ocaso) um certo sentido “teológico”. Se este fala em Supra-homem (tradução que, recorde-se, julgamos a mais adequada para Übermensch) e não em “Deuses”, é porque fala a partir da experiência da “Morte de Deus”, isto é, a partir da experiência do vazio, da ausência de fundamento ontológico escancarada na última fase do processo de Esquecimento do Ser – é esta, aliás, a razão pela qual sua saída metafísica é nomear o fundamento do ente em sua totalidade a partir da única “coisa” que resta, ou seja, a Vontade de Poder. O homem é corda estendida entre dois extremos sobre a qual é impossível se deter: porém, completaríamos, dando voz às doutrinas tradicionais, que, sobre esta corda, ou se caminha em direção aos deuses ou se retroage ao animal. Imaginemos um elástico tensionado entre estes dois extremos: se ele se soltar de uma extremidade irá automaticamente de encontro à outra. Ou as antropotécnicas mantém o homem tensionado com o polo de cima ou elas servirão para deixá-lo cada vez menor. Ora, o que caracteriza a pequenez do homem do Humanismo moderno, o nanismo do último homem, é suaincapacidade de transcendência. Se do Oriente vem alguma luz, ela vem anunciar, dentre outras coisas, a necessidade de pensar fora do homem, de estender a vontade para além do homem. Não é o homem que deve ser protegido, mas a humanidade do homem, as condições da Abertura, isto é, sua inerente capacidade de transcender, de carregar em si o destino de todos os animais, de dar sentido à vida na terra, enfim, o que deve ser resguardado. Um tal empreendimento, por sua inerente grandeza, não pode ser levado a cabo sem a concepção de uma nova forma social capaz de proporcionar as condições historial do escancaramento ontológico ou, dito de outro modo, uma nova Civilização. É por isto que as sociedades atuais, que se converteram em estufas de procriação do último homem, devem ser demolidas a fim de que se erijam condições de elevação do homem a um novo estágio do Ser. É forçoso que no presente texto não deixemos esta questão intocada.

Vimos na primeira parte que o Übermensch nietzscheano é um destino, uma meta, um lugar, e terminamos a última seção afirmando que a ele corresponde uma nova Civilização. Claro que este termo é problemático para quem sabe haver em Nietzsche uma tensão conceitual estrutural entre cultura (Kultur) e civilização (Zivilisation/Bildung), mas chamemos civilização à imagem ideal de sociedade de que as novas tábuas de Zaratustra seriam os alicerces. O que está em jogo neste termo, “Civilização”, já o sabemos: quem diz “Civilização” diz “Estado”; e em Nietzsche o “Estado” primordial se identifica justamente com a tarefa de atribuição de forma à massa amorfa da humanidade anímica.

...a inserção de uma população sem normas e sem freios numa forma estável, assim como tivera início com um ato de violência, foi levada a termo somente com atos de violência - que o mais antigo 'Estado', em conseqüência, apareceu como uma terrível tirania, uma maquinaria esmagadora e implacável, e assim prosseguiu seu trabalho, até que tal matéria-prima humana e semi-animal ficou não só amassada e maleável, mas também dotada de uma forma. Utilizei a palavra 'Estado': está claro a que me refiro - algum bando de bestas louras, uma raça de conquistadores e senhores, que, organizada guerreiramente e com força para organizar, sem hesitação lança suas garras terríveis sobre uma população talvez imensamente superior em número, mas ainda informe e nômade. Deste modo começa a existir o 'Estado' na terra: penso haver-se acabado aquele sentimentalismo que o fazia começar com um 'contrato'.[xxxix]

O “Estado” idealizável da Super-humanidade nietzscheana não seria o mesmo “Estado” do último homem, aquele que Zaratustra chama de “O Novo Ídolo” (neuen Götzen), do discurso homônimo. O Estado que Nietzsche (farto do nacionalismo wagneriano) tem diante de si é o Estado moderno, corresponde ao esfacelamento dos povos. Não por acaso este termo, Volk, ainda denota em Nietzsche uma unidade social de caráter mais ou menos autêntico, enquanto Staat, o Estado (o Estado moderno), denota uma unidade superestrutural artificial sem qualquer enraizamento naquela Vontade de Potência particular de cada povo.

Estado chama-se o mais frio dos monstros. Mente também friamente, e eis que mentira rasteira sai da sua boca: “Eu, o Estado, sou o Povo”. É uma mentira! Os que criaram os povos e suspenderam sobre eles uma fé e um amor, esses eram criadores: serviam a vida. Os que armam laços ao maior número e chamam a isso um Estado são destruidores; suspendem sobre si uma espada e mil apetites. Onde há ainda povo não se compreende o Estado, que é detestado como uma transgressão aos costumes e às leis. Eu vos dou este sinal: cada povo fala uma língua do bem e do mal, que o vizinho não compreende. Inventou a sua língua para os seus costumes e as suas leis. Mas o Estado mente em todas as línguas do bem e do mal, e em tudo quanto diz mente, tudo quanto tem roubou-o. Tudo nele é falso; morde com dentes roubados. Até as suas entranhas são falsas. Uma confusão das línguas do bem e do mal: é este o sinal do Estado.[xl]

Este caráter assinalado do Estado moderno se repete no “País da Civilização” (Lande der Bildung), que nada mais é do que “o país dos vasos coloridos” (die Heimat aller Farbentöpf), dos homens tornados sem consistência (discurso que serviria muito bem para uma crítica do multiculturalismo). Portanto, que se elimine da idealização de um “Estado” nietzscheano qualquer força que desfigure o ethnos, e que seja apenas uma confusão babilônica de unidades étnicas unidas por laços meramente jurídicos ou econômicos.

Eliminemos também de um tal “Estado” a ética burocrata que faz de toda empresa ou agente “estatal” um servidor do “bem-estar do povo”, pois, como sabemos, esta noção coletivista e utilitarista de sociedade é absolutamente contrária a uma sociologia nietzscheana. Se falamos na missão antropotécnica de uma nova Civilização, da forjadura de uma condição humana ontologicamente diferenciada, devemos excluir dos fundamentos da ação social filosoficamente orientada qualquer risco de torná-la refém de determinações hedonistas, utilitaristas ou eudemonistas.



Hedonismo, pessimismo, utilitarismo ou eudemonismo: todos esses modos de pensar, que têm por medida o prazer e o sofrimento, isto é, certos estados acessórios, são modos de pensar primitivos e ingênuos, que cada um que se sinta de posse de forças criadoras e de uma consciência artística olhará com ar de desprezo (…) O bem-estar, como o entendeis, não representa um fim, mas, pelo menos para nós, o fim! Significa um estado que acaba por tornar o homem ridículo e desprezível — que faz com que deseje a perdição. A escola da dor, da grande dor — não sabeis que esta escola permitiu ao homem atingir certas atitudes? Aquela tensão da alma na desventura, proveniente da própria força, os calafrios que o perpassam quando assiste a uma grande ruína, o engenho, a bravura que se demonstra no suportar, no perseverar, no interpretar, no desfrutar a desventura, tudo isso que a alma ganhou em profundidade, segredo, dissimulação, espírito, astúcia, grandeza, não há talvez conquistado sob o signo da dor, na escola da grande dor? No homem se encontram reunidos a criatura e o criador, no homem está a matéria, isto é, o incompleto, o supérfluo, isto é, a argila, o lodo, o absurdo, o caos, mas no homem também está o sopro que cria, que plasma, isto é, a dureza do martelo, quer dizer, o espectador, a divina contemplação do sétimo dia. Observai o contraste entre a vossa compaixão, que é a revolta da 'criatura que há no homem', isto é, aquilo que deve ser plasmado, estampado, batido como o ferro, afinado, passado pelo fogo e purificado — aquilo que deve e é constrangido a sofrer, e a nossa compaixão? Não adivinhais contra o que se revolta nossa compaixão, que se rebela contra a vossa, porque a vossa significa o resumo de toda debilidade? E então, compaixão contra compaixão! Mas, como já dissemos, existem problemas mais altos que aqueles que têm por objeto o prazer e o sofrimento e a compaixão e toda filosofia que se devesse ocupar exclusivamente disso seria sempre uma criancice.[xli]

A ascensão do Criador no homem, da força conformativa exercida pelo polo superior sobre o polo inferior, exige o Grande Desprezo (Grossen Verachtung) a que Zaratustra se refere desde seu primeiro discurso – desprezo tanto do “si” (desprezo da “felicidade” e afirmação do autossacrifício) e desprezo do homem figurado como a pedra irregular a ser batida. Duas “compaixões” rivalizam: a compaixão para com a massa amorfa, e que inutiliza o martelo, e a compaixão para com a força conformadora, que o impele adiante. O que poderíamos dizer acerca disto a não ser que Nietzsche fala do homem da perspectiva de quem está fora dele, acima do homem-criatura? “A minha ardente vontade de criar impele-me sempre de novo para os homens, assim como é impelido o martelo para a pedra. Ai, homens! Uma imagem dormita para mim na pedra, a imagem das minhas imagens”.[xlii]

Mas quem diz Civilização diz estabilidade. E aqui encontramos um empecilho heraclitiano a superar. Apenas para citar uma de suas recorrências:


Quando há madeiras estendidas sobre a água, quando há pontes e parapeitos através do rio, não se dá crédito a ninguém que diga: “Tudo corre”. Pelo contrário: até os imbecis o contradizem. “Que! — exclamam. — Tudo corre? Então as madeiras e os parapeitos que estão sobre o rio?” (…) O vento do degelo, um vento que não lavra, um touro furioso e destruidor que quebra o gelo, com hastes coléricas! O gelo, por sua parte, quebra as pontes! Ó! meus irmãos! Não corre agora tudo! Não cairam à água todos os parapeitos e todas as pontes![xliii]

Não há melhor maneira de assimilar este brilhante discurso de Zaratustra, repleto de simbologia, do que situando Nietzsche na crise transicional do Ocidente. Para dizê-lo simplesmente: em toda transição civilizacional os Zeitgeistern cantam que “tudo flui”, endossam a preponderância do movimento, da passagem e do fluxo perpétuo das coisas sobre a estabilidade e a fixidez. Cabe à genialidade dos Orientais (e dos Antigos) mostrar que ambos, movimento e estabilidade, não são excludentes. Ora, as imagens projetadas do futuro por Zaratustra são tecidas no jogo estrutural arquetípico entre estabilidade e instabilidade. Apenas a título de exemplo, citemos o belíssimo trecho no qual os leitores familiarizados com a simbologia tradicional saberão entrever, no símbolo da ilha, da terra firme cercada por águas, uma significação ao mesmo tempo hiperbórea e antropotécnica (civilizacional).

Os homens atuais, para quem há pouco se inclinava o meu coração, agora são-me estranhos e já não amo, pois, senão o país dos meus filhos, a terra incógnita entre mares longínquos: é essa que a minha vela deve, incessante, procurar.[xliv]

Os homens superiores, para Nietzsche, devem ser “criadores e educadores” de um novo tipo de homem, um tipo que, ontologicamente diferenciado, já não pode mais ser considerado simplesmente “homem”. Está claro que a independência, digamos, “política” do filósofo não permite que se elimine este caráter revolucionário, fundamental, de sua obra. O Supra-homem não pode surgir nas condições politicas Ocidentais que Nietzsche encontrava em torno de si, e que hoje se encontram agravadas. A nobreza da qual brotarão os exemplares da Super-humanidade não pode ser a elite burguesa e liberal, que se caracteriza rigorosamente pela mania (no sentido genuíno do termo) de reduzir tudo mediante critérios econômicos e utilitaristas (razão pela qual não poderiam ser conseguidos, igualmente, através do projeto de sociedade comunista, também caracterizado pelo economicismo, utilitarismo e coletivismo).

Ó! Meus irmãos! Ao ensinar-vos que deveis ser para mim criadores e educadores — semeadores do futuro — invisto-vos de uma nova pobreza; não é, na verdade, nobreza que possais comprar como bufarinheiros, e com ouro de bufarinheiros, porque tudo quanto tem preço, pouco valor tem.[xlv]


Mesmo com toda sua crítica ao Übermensch nietzscheano, Sri Aurobindo soube admitir, pontualmente, que o filósofo alemão “soube superar a si mesmo”. E de fato percebemos que, a despeito do caráter titânico do Übermensch, Nietzsche, ao atacar as bases da civilização moderna, abre caminho para a superação da mesma. Fica claro que partimos do pressuposto (examinado da perspectiva heideggeriana e tradicionalista) de que esta superação, a aquisição do estágio ontológico superior ao da presente “humanidade”, não pode se abster da tarefa de incluir o elemento do Espírito.[xlvi]


De fato, diz Sri Aurobindo, a insistência na vida material e econômica é uma reversão ao nosso estado e preocupação bárbaros com apenas a vida e a matéria. O desenvolvimento espiritual é deixado para trás e é por isso que a evolução está cheia de perigos; esse ressurgir do velho barbarismo material em uma forma civilizada significa que a ciência colocou à nossa disposição uma vida material que poderia cristalizar-se em uma 'vida social estável, confortável e mecanizada sem ideal ou cuidado'.[xlvii]

Um dos principais argumentos de Zaratustra contra a existência de “deuses” é o de que “se existissem deuses, o que mais restaria para criar?”, “Podes criar um deus? Então não me faleis em deuses!”. Para Sri Aurobindo, sim, é não apenas possível, como é destino dos homens parir os deuses conforme penetram na dimensão além da mente física. As imagens da Vida Divina visitam o homem constantemente por este motivo. “A evolução não terminou; a razão não é a última palavra e bem o animal racional a figura suprema da Natureza. Assim como o homem surgiu do animal, do mesmo modo, do homem surge o Supra-Homem”.[xlviii] 

Tanto a noção de Super-Humanidade de Nietzsche quanto a de Sri Aurobindo contém a ideia de que os olhos dos homens são os olhos da terra; suas mãos são as mãos da terra; sua vontade, em estado genuíno, despoluído, é a vontade da terraO homem traz dentro de si o sentido do ser de todos os animais. Há agora que levá-los à combustão na pira do sacrifício em que ele, homem, é a oferenda.  Todas as tradições concordariam que o homem é uma transição; seu lugar é Midgard, a “terra do meio”. Escreve Sri Aurobindo: “O homem se ergue entre o céu superior e a natureza inferior”. “O animal humano é o obscuro ponto de partida; o humano natural de hoje, diverso e emaranhado, é a metade do caminho; mas o homem supranatural é o destino luminoso e transcendental de nossa travessia humana”.[xlvix] 

Não há que poupar a “humanidade” do sofrimento necessário na travessia. “Aquele que não mata quando Deus o ordena ocasiona no mundo incalculável caos.”[l] É o fogo dos sacrifícios que faz surgir todas as manhãs a esperada Aurora. “A genialidade é o primeiro intento da Natureza para liberar o deus aprisionado no molde humano; o molde tem que sofrer no processo. É surpreendente que as fissuras sejam tão escassas e tão insignificantes”.[li]

Façamos a síntese crítica dos conteúdos que determinam a fisionomia dos Homens Superiores de Nietzsche e dos Seres Gnósticos de Sri Aurobindo, ambos tipos anunciadores de uma nova Aurora, tão esperada pelos antigos; mas não esqueçamos de transcender a plataforma titânica que o filósofo alemão somente em parte soube superar. O sentido do titanismo, da civilização tecnológica, depende de sua superação através da liberação da divindade; assim justificamos o passado no futuro. Libertemos os Deuses aprisionados na matéria. A saga da Supramente é a da superação do homem; e a construção da Civilização do Supra-Homem pode, ou melhor, deve ser concebida como ligada à construção de dutos capazes de conduzir os homens vindouros aos estados superiores da Consciência - sob o risco de, negligenciada tal necessidade, erigirmos uma Civilização meramente tecnocrática que não passa da realização dos sonhos do homem pequeno, da perpetuação ad infinitum da menor raça que já grassou sobre a terra.

Tal deve ser o heroísmo dos homens preparatórios. O heroísmo de Héracles, que liberou das correntes o titã Prometeu; Héracles, filho de Zeus e aliado dos deuses olímpicos.

Referências Bibliográficas



1. NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência, 283.Expressão de Jean Beaufret.
2. NIETZSCHE, F. O Anticristo, III.
3. NIETZSCHE, F. Assim Falou Zaratustra. [Da Virtude Amesquinhadora].
4. SLOTERDIJK, 2000, p. 39.Idem, p. 40.
5. Idem, p. 40.
6. Ibidem.            
7. ibidem.
8. Ibidem.
9. Ibidem.
10. DELEUZE, J. Nietzsche e a Filosofia, Editora Rio, Rio de janeiro, 1976.
11. AUROBINDO. The Secret of the Veda. 2008, p. 295; tradução minha.
12. AUROBINDO. The Life Divine. Vol. 18, p. 126.
13. PRICE, J. Introdução à Filosofia de Sri Aurobindo. Sri Aurobindo Ashram Press, 1977, p. 22.
14. AUROBINDO. The Life Divine. Vol. 18, p. 84.PRICE, J. op. cit. p. 30.
15. AUROBINDO. op. cit. p. 3.AUROBINDO. op. cit. p. 188.
16. PRICE. op. cit. p. 36.AUROBINDO. op. cit. p. 713
17. PRICE. op. cit. p. 36.AUROBINDO, op. cit. p. 485-86.
18. AUROBINDO & ALFASSA. Pensamientos y aforismos de Sri Aurobindo. Bogotá, Colombia, 2013. p. 1. “Entre los seres del mundo supramental y los hombres existe más o menos la misma separación que entre los hombres y los animales. Hace algún tiempo tuve la experiencia de la identificación con la vida animal, y es un hecho que los animales no nos entienden; su conciencia está construida de tal manera que eludimos su comprensión casi por completo. Y aun así conocí animales domésticos –gatos y perros, pero sobre todo gatos– que hacían un esfuerzo de conciencia casi yóguico por alcanzarnos. Pero usualmente, cuando nos miran vivir, actuar, no entienden, no nos ven tal como somos, y sufren por nosotros. Somos un enigma constante para ellos.”
19. “Lemos em um de seus aforismos: “Até mesmo Vivekananda, no estresse da emoção, admitiu em certa ocasião a falácia de que seria demasiado imoral padecer a um Deus personificado e que seria o dever de todo bom homem resistir-lhe. Mas se uma Vontade Inteligente supramoral e onipresente governa o mundo, com toda segurança é impossível resistir a Ela; nossa resistência serviria apenas a Seus fins, e em realidade estaria sendo ditada por Ela. Então, ao invés de condená-la ou negá-la, não seria melhor estudá-la e entendê-la?”
20. AUROBINDO & ALFASSA. Pensamientos y aforismos de Sri Aurobindo. Bogotá, Colombia, 2013. p. 242.
21. PRICE. op. cit. p. 55.
22. AUROBINDO. op. cit. p. 984.
23. PRICE, op. cit. p. 52.
24. AUROBINDO & ALFASSA. op. cit. p. 238.
25. AUROBINDO. op. cit. pp. 1012-13.
21.AUROBINDO. op. cit. p. 969.
36. HUERTA, R. A. La Crítica de Sri Aurobindo al Superhombre de Nietzsche. Disponível em: http://www.geocities.ws/sapiencia.geo/superhombre.htm
37. A partir daqui, utilizaremos o termo Superman para nos referirmos ao Übermensch conforme interpretado por Sri Aurobindo.

38. Arya, Vol. I, No. 9 (Abril de 1915)Arya, Vol. I, No. 9 (Abril de 1915)
39. HUERTA, R. A. La Crítica de Sri Aurobindo al Superhombre de Nietzsche.
40. Arya, Vol. I, No. 9 (Abril de 1915)
41. HUERTA, R. A. La Crítica de Sri Aurobindo al Superhombre de Nietzsche. http://www.geocities.ws/sapiencia.geo/superhombre.htmArya, Vol. I, No. 9 (Abril de 1915)Arya, Vol. I, No. 9 (Abril de 1915)
42. NIETZSCHE, F. A Genealogia da Moral, 17.NIETZSCHE, F. Assim Falou Zaratustra. Do Novo Ídolo.
43. NIETZSCHE, F. Além do Bem e do Mal. 247.NIETZSCHE, F. Assim Falou Zaratustra. Nas Ilhas Bem-Aventuradas.
44. NIETZSCHE, F. Assim Falou Zaratustra. Das Antigas e das Novas Tábuas, VIII.
45. NIETZSCHE, F. Assim Falou Zaratustra. Do País da Civilização.
46. NIETZSCHE, F. Assim Falou Zaratustra. Das Antigas e das Novas Tábuas, XII. “Somente um mundo espiritual garante ao povo sua grandeza. Pois ele força a constante decisão, entre a vontade de grandeza e o deixar livre curso à decadência, a se tornar a lei a ditar o passo à marcha que o nosso povo iniciou adentro à sua história futura.” (Heidegger)
47. AUROBINDO & ALFASSA. op. cit. p. 238.
48. AUROBINDO & ALFASSA. op. cit. p. 252.
49. AUROBINDO & ALFASSA. op. cit. p. 259.
50. AUROBINDO & ALFASSA. op. cit. p. 256.
51. PRICE, J. Introdução à Filosofia de Sri Aurobindo. Sri Aurobindo Ashram Press, 1977, p. 64.