sábado, 7 de abril de 2012

Luta de Classes no Interior do Socialismo (1830 - 1914)

por Alain Soral



Todo mundo conhece a luta de classes que opõe o proletariado à burguesia. Menos conhecida é, e por bons motivos, a luta que opõe dentro do movimento socialista, o socialismo internacional ao socialismo libertário. E dentro do movimento nacional: o socialismo parlamentar, de inspiração maçônica, ao anarcossindicalismo considerado como pré-fascista.

Uma luta que vista a partir de suas origens classistas, estava opondo duas seções da burguesia. A alta e média burguesias cosmopolitas, com um "socialismo científico" (Marx, Lassalle, etc.) se esforçando para desacreditar, em prol do conceito de messianismo proletário, uma pequena burguesia nacional e empirista (Proudhon, Sorel, etc.) que estava profundamente enraizada na realidade e no mundo dos trabalhadores.

Uma luta silenciosa, porém mortal que resultará na vitória dos internacionalistas sobre os nacionalistas e, acima de tudo, na vitória de um socialismo reduzido a questão da conquista do poder - e portanto do mercado - sobre um socialismo que queria mudar radicalmente a vida.

Classes sociais sempre existiram

Determinadas pela evolução das forças produtivas - ou pela história do progresso técnico - e pelas relações de produção que seguem essa evolução (burguesia sem relações/proletariado sem invenção, como o motor a vapor necessário para a revolução industrial), as classas sociais sempre existiram.

Sempre existiram ou, mais exatamente, existiram desde que o homo faber, emergindo de um mítico "comunismo primitivo", deu início ao necessário e desastroso caminho da especialização das tarefas, para gerar a divisão do trabalho, a primeira divisão social.

Uma divisão social em classes que data aos primórdios dos tempos históricos.

Classe pela prática e mentalidade de classe

Classes sociais determinadas por sua práxis: os laboratores através da agricultura, da manufatura e do comércio, os bellatores pela profissão das armas, os oratores pelo estudo e pela transmissão de conhecimento, nesse antigo mundo tripartite.

Práxis que também geram cultura e mentalidade de classe: uma mentalidade comercial dominante atualmente, uma mentalidade popular majoritária ainda que sempre desprezada e uma mentalidade aristocrática logicamente ameaçada.

Uma cultura e mentalidade de classe que ademais, nem exaurem a questão do grupo etnocultural levando a outra ordem de consciência e solidariedade; ou a persistência do animal na humanidade e os comportamentos reflexos que o acompanham: instinto de sobrevivência individual, preocupação com a própria prole...

Antagonismo de classe, colaboração de classe e "conflito de classe"

Mas durante os tempos do poder monárquico, notavelmente sob a monarquia teocrática que vigorou antes da democracia mercantil e maçônica, o antagonismo de classe era ou suprimido ou transcendido - dependendo de ser visto ou não como algo positivo ou negativo - por meio de uma submissão geral à ordem divina.
A solidariedade etnocultural de todos os súditos da realeza, por exemplo, no reino da França, ultrapassando em última instância, e apesar das tensões, os antagonismos e solidariedades de classe.

Uma aceitação da lei divina - e do destino - que impedia esse "conflito de classe", denunciado por Charles Peguy como o mal moderno, e que inevitavelmente caracterizará o mundo da imanência que veio depois.

Um "conflito de classe" que só pode ser bloqueado, em nossa sociedade burguesa de imanência e lucro, através da solidariedade nacional como substituição para a ordem divina; ou ao contrário, pela promoção de um individualismo exacerbado que destruirá toda forma de solidariedade...

O proletariado, encarnação da mentira e traição burguesa

No mundo da imanência que emergiu após a Revolução Francesa, a luta de classes tornou-se o novo motor da história. Uma luta primeiro resultante do fim da solidariedade transclasse, que existia previamente na monarquia do direito divino; mas uma luta resultanto principalmente da quebra das promessas do iluminismo.

A conquista do poder pelo terceiro estado, uma vez expulsa a nobreza e o clero, não levou à igualdade social de todos os cidadãos e à fraternidade nacional, mas à exploração dentro do terceiro estado de um proletariado industrial por uma nova burguesia empresarial e capitalista, ainda mais dura com seus empregados do que a nobreza era com seus camponeses.

O proletariado e sua miséria sendo, literalmente, a encarnação da falsidade dessa burguesia e de seu assim chamado iluminismo

Uma nova situação de violência e falsidade interna ao campo progressita, que a partir de 1840 pavimentará o caminho para a aventura socialista...

O sonho de um messianismo proletário

Uma vez apagada, através da derrota histórica, a reivindicação do marxismo à cientificidade, a grande idéia do socialismo pode ser resumida assim:
O proletariado criado, como o golem, pela própria burguesia - e esse é o fruto de sua contradição - será, graças a sua lucidez gerada por sua miséria e pelas qualidades morais que resultam do respeito e da solidariedade para com o trabalhador, a classe encarregada de punir o explorador burguês capitalista, através de uma conquista do poder que desapossará essa mesma classe burguesa de seu poder sobre essa falsa democracia chamada democracia liberal.

Uma conquista do poder pelo proletariado que colocará um fim ao mesmo tempo à obra política progressista realizada pela Revolução Francesa - e traída pela burguesia - para finalmente produzir efetivamente, e não apenas formalmente, essa sociedade fraternal sem classes, promessa de cidadania igualitária do iluminismo...

Uma visão-de-mundo e esperança que faz dos marxistas, independentemente do que digam, moralistas e idealistas.

Uma visão que busca renovar a escatologia cristã da fraternidade e do amor no mundo materialista gerado pelo imanentismo mercantil, através de uma messianismo profético inspirado pelo judaísmo.

Visão socialista que finge se apoiar no logos para realizar a visão messiânica judaica e missionária cristã reconciliadas e resultante sem dúvida da cultura tríplice de Karl Marx (judaica, grega e cristã), principal teórico do socialismo científico...



O messianismo proletário, visão de intelectuais

Uma visão da revolução socialista, feita para o proletariado, mas não pensada ou desejada por ele - o proletariado raramente tendo tido, graças a sua práxis, a bagagem conceitual necessária - mas por intelectuais vindos de duas seções da burguesia:

- A pequena burguesia nacional, no caso dos socialistas libertários e sindicalistas revolucionários, como Pierre-Joseph Proudhon e Georges Sorel. Pensadores normalmente autodidatas e profundamente enraizados no mundo proletário.

- A alta e média burguesia ashkenazi, no caso de socialistas internacionalistas como Karl Marx e Ferdinand Lassalle. Teóricos pouco familiares com o proletariado e opostos ao empirismo da pequena burguesia, com uma arrogância de uma abstração conceitual inspirada da filosofia heleno-europeia; uma filosofia alegremente abraçada desde sua recente emancipação do pensamento talmúdico e do gueto.

O melhor exemplo dessa absoluta diferença entre o sujeito pensante e o objeto de pensamento é sem dúvida o livro História e Consciência de Classe de Georg Lukacs. Um enrome livro historico-filosofico no qual esse filho de banqueiro da alta burguesia judaica húngara tenta demonstrar com um fantasismo virtuoso o destino messiânico e antiburguês de um proletariado idealizado com o qual ele nunca teve qualquer contato. Um envolvimento teórico que fará com que esse culto homem letrado faça parte do sanguinário governo de Bela Kun e então apoie a obra de Stalin até o último suspiro!

Um proletariado ideal saído da mente de um intelectual, usado contra sua própria classe pelo cadete da burguesia cheio de culpa pela traição do iluminismo perpretada por seus pares.

Proletariado presumido revolucionário, e também usado como arma de vingança e conquista pelos sem classe e cosmopolitas contra as elites: essa burguesia nacional e cristã, cujo lugar quer ser tomado em nome do proletariado...

Não há autonomia de classe sem cultura de classe

Teatro antigo, gesto cavalheiresco, romance burguês...a consciência e autonomia de um grupo social são demonstrados primeiro por suas produções culturais. Uma cultura específica na qual esse grupo expressa diante da história o que eles sabem e o que eles querem.

Mas, como Edith Piaf, excelente intérprete, mas cantando canções escritas por outros, o proletariado revolucionário somente seguiu líderes que não se originaram em sua própria classe, e desempenhou diante da história uma música que não havia saído das próprias mãos.

Lúcito em relação a isso, Louis Ferdinand Céline, culto pequeno burguês que melhor expressou o sofrimento e alma populares, derivou um orgulho irônico do cumprimento de Stalin - outro cínico sem classe - que considerou "Viagem ao Fim da Noite" (traduzido ao russo por Elsa Triolet que também era completamente estranha ao proletariado) como o único romance proletário já escrito.

Ironia, compartilhada por aquelas duas mentes de um realismo amargo, o constatar que o proletário individual, que o século XIX havia tornado o herói da história, era na verdade um herói silencioso; a famosa classe messiânica, uma classe que jamais produziu qualquer cultura específica nem expressou sua consciência e projeto - o "realismo socialista" imposto pelo partido estando aqui para provar isso - a não ser que confundamos cultura proletária e cultura popular...

Povo ou proletariado?

De François Villon a Dieudonné passando por Louis Ferdinand Céline, Michel Audiard e Coluche, a cultura popular se perpetua ao longo dos séculos, um gênio afável que esta nas antípodas do "realismo socialista" que formula através de decretos a arte proletária.

Uma cultura popular para o povo, que nos obriga a definir o grupo humano do qual ela é a expressão, especificando primeiro o que o povo não é. O povo não é nem a nobreza ou o clero, mas esse "terço excluído" constituído pelos não-privilegiados sob o antigo regime, e que teoricamente chega - como terceiro estado - ao poder após a Revolução Francesa.

Um povo que nós ainda devemos definir, sob a exploração e parasitismo das classes superiores - nobreza e então burguesia dentro do terceiro estado - como o mundo do trabalho e da produção; ou, essa classe de trabalhadores assumindo e realizando - segundo a terminologia freudiana o "princípio da realidade": agricultores, artesãos, comerciantes, operários e pequenos comerciantes...aos quais devem ser agregados os funcionários públicos úteis e os artistas que expressam essa sensibilidade.

Um povo que pode ser definido em termo de classes como a soma entre o proletariado e a classe média

Um povo constituído pela pequena burguesia e pelo proletariado, que ademais se esbarram uns com os outros na vida real, como os donos de bar que controlam seus meios de produção e seus clientes, os trabalhadores assalariados.

Dois grupos sociais conectados e misturados que o socialismo científico, em prol de abstrações intelectuais contrariadas pela realidade - começando pela realidade social e urbana do bar da vizinhança - sempre tentou dividir e opor.

A farsa do internacionalismo proletário: o povo é sempre patriota

Proletários assombrados e manipulares por meio de abstrações de agitadores cosmopolitas, apresentados como internacionalistas, enquanto está historicamente demonstrado que o povo é sempre patriota.

Patriota como o povo da "comuna de Paris" recusando, em nome da dignidade francesa, a derrota em Sedan e a submissão ao ocupador prussiano, aceita pela burguesia de Versalhes.

Um povo patriota sempre celebrando suas equipes desportivas nacionais, face o desafia ou manipulação - quando o esporte se torna um comércio - da elite econômica que se aproveita das paixões simples e coletivas (e.g. Bernard-Henry Levy)

Um povo fiel a sua nação, face a traição de suas elites cosmopolitas; seja a traição de Louis XIV, sacrificando os interesses da França pelos de seu primo o rei da Prússia, ou a traição de Sarkozy "o americano", aniquilador da independência francesa atual...



Apenas o capital é internacional

Das famílias monárquicas colocando o parentesco europeu acima de interesses nacionais (explicando a fuga de Louis XVI para Varennes) à burguesia submissa aos interesses do capital apátrida, a mentalidade internacionalsita - em verdade cosmopolita - é totalmente estranha ao povo.

Um internacionalismo que é, ao contrário, a principal característica das elites viajantes e dos manipuladores nomádicos, realizando seus negócios por cima das cabeças do povo, que, graças a sua práxis, é pouco móvel e enraizado.

Portanto, o anti-nacionalismo pregado por Georges Sorel, no amanhecer de 1914, não deve ser compreendido como um desdém elitista pela solidariedade nacional, mas ao invés como a recusa frente a manipulação burguesa que empurravam os povos francês e alemão a um banho de sangue pelos interesses do capital...

O internacionalismo trabalhista bem entendido, em oposição ao anti-nacionalismo trotskista

Recusa de um nacionalismo agressivo manipulado - desde Napoleão I - pelas forças monetárias e sempre levando a mais sofrimento para o povo, e que não nos deve fazer entender o internacionalismo trabalhista como sendo expressão de um anti-patriotismo instintivo, mas sim como sendo a solidariedade das classes trabalhadoras, em nome da eficácia política, face as manipulações do capital apátrida.

Um internacionalismo que deixa o nacional para voltar a ele, como o partido comunista francês anti-imigração de Georges Marchais, formulado durante seu famoso discurso em Montigny-les-Corneilles.

Discurso popular e patriótico diametralmente oposto ao internacionalismo trotskista que expressa um ódio quase religioso da nação. Um desdém pelas fronteiras e pelo povo estabelecido professado por agitadores profissionais, raramente originados no proletariado, e compartilhado pela alta burguesia.

Daí, o interesse para o grande capital em discretamente promover esses agitadores anti-nacionais às custas de representantes legítimos do povo, unido e patriota...

Uma colusão entre globalismo de direita e internacionalismo de esquerda - em verdade, todos eles cosmopolitas - tornada mais fácil desde que eles normalmente vem, como a história demonstra, da mesma comunidade...

Filosofia da miséria contra a miséria através da filosofia

Para voltar à luta teórica anti-capitalista ocorrida durante a segunda metade do século XIX dentro do movimento socialista, dois campos se enfrentarão, ambos pretendendo dar uma boa resposta a essa mesma questão central:

"No mundo da imanência no qual tudo vem da práxis, quais são as condições materiais, sociais e políticas para libertar a humanidade?"

Uma questão mas duas respostas e dois grupos principais para levar a luta antiburguesa à fruição:
- Por um lado, o socialismo libertário de Mikhail Aleksandrovitch Bakhunin e Pierre-Joseph Proudhon.

- Por outro lado, o socialismo científico de Karl Marx e Friedrich Engels.

- Os primeiros buscando respondar essa pergunta através da razão e do empirismo.
- Os segundos opondo à tentativa e erro dos primeiros, um sistema filosófico abrangente invocando o "sentido da história" tomado de Hegel e que irá tratar a tentativa de pensar remédios práticos para a miséria dos primeiros, como uma miséria da filosofia.

Um virtuosismo conceitual chamado de "materialismo histórico e dialético" que infelizmente para eles e para o proletariado se provará retrospectivamente um conjunto de elucubrações, supostamente científicas, de burgueses arrogantes, que como novos ricos brincando de deuses com uma filosofia distante de sua cultura profético-messiânica herdada, zombam de pensadores autodidatas vindos do mundo proletário, cujas suspeitas anti-marxistas-leninistas foram provadas justificadas.

Desconfiança do Progresso

O Progresso, promovido em prol do "sentido da história" por Marx, contra as intuições de Proudhon e Sorel - que humildemente reconheciam a rejeição da mecanização expressada pelos luditas na Inglaterra e pelos canutos na França, e mais geralmente pelos corpos representativos da aristocracia do trabalho - levando ao estado imbecil da fragmentação do trabalho, suprema insanidade do taylorismo e do fordismo.

Pelo Emprego Generalizado

Esse progresso mecânico alienante - extremamente exigente em relação ao capital - que passa necessariamente pela concentração e por grandes unidades de produção. É a geração de um assalariado gerador de submissão, passividade e infantilismo, como Proudhon e Sorel haviam previsto contra Marx e Engels...

A ditadura do proletariado é a ditadura do partido 

A ditadura do proletariado, teorizada por Marx e depois realizada pelos bolcheviques - Lênin observando a informidade das massas proletárias deixadas a si mesmas e a sua consciência, preferindo confiar, para tomar o poder, em uma "vanguarda revolucionária" ou em profissionais que não são proletários mas que são treinados para ações revolucionárias, ao invés de em uma "espontaneidade" das massas realizando um "sentido da história" que levará a brilhante acadêmica mas politicamente ingênua Rosa de Luxemburgo à derrota e à morte.
 
Em suma, a chamada "ditadura do proletariado" que nunca pediu ou planejou nada, na verdade, levando à inevitável ditadura do Partido-Estado. Ou, a partir de Lenin, levando à burocracia e nomenklatura estalinista... 


Socialismo e populismo: as condições de consciência e de liberdade 

Confrontados com este regime baseado na divisão do trabalho e do emprego generalizado sob a autoridade exclusiva do Partido-Estado - ou, a ditadura policial e mecânica de um "socialismo real" justificado e disfarçado pela arrogância de uma ciência filosófica banal e acreditada como uma religião - os pensadores populistas: Bakunin, Proudhon e Sorel, mais realistas do que materialistas, mais intuitivos do que conceituais, opuseram desde o início outro caminho de salvação para o proletariado. 

Advogando uma sociedade de pequenos proprietários, a partir da aristocracia do trabalho e trabalhando de mãos dadas em respeito às escalas humanas, de modo a produzir um mundo de consciência e liberdade. 

Assim a consciência é aliviada, não pelo catecismo do partido dos trabalhadores infantilizados mas sim pela responsabilidade econômica e social resultante da propriedade dos próprios meios de produção. 

Em outras palavras, a liberdade, não distribuída por um estado policial centralizador, mas especificamente permitida pela independência econômica e social - e, portanto, política - conferida pela propriedade, para muitos, o seu meio de vida e produção. 

Uma sociedade mutualista de pequenos produtores, que não expressam o desejo por poder e dominação de um pequeno grupo manipulando um proletariado explorado e sem propósito por meio do aparato estatal, mas uma sociedade de liberdade, igualdade e fraternidade concretas, referindo-se mais à democracia grega do que ao socialismo soviético, mas desta vez sem escravos! 

Uma sociedade que é o exato oposto do socialismo marxista-leninista bem como do capitalismo burguês, ambos baseados progresso tecnicista, em uma extrema divisão do trabalho e do trabalho assalariado a serviço de um estado-patrão (estado como empregador) para o socialismo, ou, de um patrão-estado (empregador como estado) para o capitalismo, que é o mesmo. 

Proximidade desses dois sistemas, ambos baseados somente no progresso material, o que explica perfeitamente a transição suave e sem contestação, da União Soviética de Mikhail Gorbachev para a Federação Russa de Boris Yeltsin; a velocidade com que o chamado "homem novo", cunhado por setenta anos de socialismo, se converte em estupor consumista ocidental, já que tudo o que tinha que ser feito era substituir no cume de um edifício perfeitamente vertical a Estrela Vermelha pela Coca- Cola! 

Um "socialismo científico" arrogante, ultra-conceitual, em realidade salmódico e muito vulgar (cujo obscuro trabalho de Louis Althusser é a caricatura final) mascarando a irresponsabilidade fordista, guiado pelo parasitismo da nomenklatura, atrás de uma ditadura burocrática.

Socialismo real que não vai aparecer, em última instância, como oo desejo de emancipação da classe trabalhadora, mas como a vontade de dominação da burguesia e dos sem classe manipulando um legítimo sofrimento proletário contra a burguesia cristã culpada...


Nem capital nem ditadura do proletariado: a solidão de George Orwell 

Uma grande mentira política unindo o outro no mesmo totalitarismo, que o inglês George Orwell havia observado desde os anos 40, após as suas viagens na França e Espanha.

Baile de máscaras do "socialismo real" denunciado pelo russo Alexander Solzhenitsyn na década de 50, mas desta vez a partir do ponto de vista da reação.Reabilitação de um populismo que se recusa a se manifestar em favor do capitalismo ou do socialismo, defendido hoje em dia pelo sutil Jean-Claude Michea, em referência à obra de Christopher Lasch...

A luta pela luta de classes correta 

Não uma busca por salvação para Orwell e Michea, através do proletariado e da oposição abstrata proletariado/burguesia, mas a união do proletariado e da classe média rumo a uma classe média generalizada. Nesta união de pessoas: trabalhadores, artesãos resistindo durante a comuna de Paris contra o capital "versalhense" cujos interesses permaneciam estranhos a eles. 

O populismo acusado por seus inimigos burgueses - bem como pelos revolucionários cosmopolitas - de ser "pequeno burguês" e que está longe o bastante da verborragia democrática parlamentar francesa que surgiu a partir da revolução. 

Um populismo libertário e anti-autoritário igualmente distante do socialismo soviético, continuador em muitos aspectos - sem ofensa para Solzhenitsyn - do despotismo czarista. 

Um populismo em última análise, retornando mais ao ideal pioneiro americano, lutando tanto contra o banco como contra o Estado - incorporados pela Cidade e pela monarquia inglesa - por uma democracia mutualista de pequenos produtores, ainda encarnada na América provinciana por um certo espírito republicano... 

A estratégia discreta do Império, ou do banco impedindo, em nome do socialismo, a junção populista do proletariado e da classe média (Marx contra Proudhon) 

A partir de então, a luta socialista - começando com a oposição Bakunin-Proudhon contra Marx-Engels - não deve ser entendida como uma oposição binária entre socialismo e burguesia capitalista, mas, mais perversa e triangular, como a luta do grande capital mundialista manipulando e financiamendo revolucionários profissionais, geralmente oriundos da burguesia cosmopolita: agitadores venais, obscuros dialéticos, apresentando uma suposta unidade de luta do trabalhador contra a burguesia, na qual o grande burguês (especulador apátrida) e o pequeno burguês (empresário enraizado) são sistematicamente confundidos - como no catecismo da Arlette Laguiller - para evitar a junção popular, verdadeiramente revolucionária em relação ao poder do capital, da pequena burguesia e do proletariado nacional. 

A história desta manipulação e deste conluio, em que um socialismo cosmopolita manipula um proletariado assombrado contra uma classe média enraizada sistematicamente difamada, sendo a história oculta do movimento operário. 

Uma mentira e uma manipulação historicamente provadas, a partir de 1970, pela unificação final desses ditos revolucionários cosmopolitas com o liberalismo globalizado.

Unificação conduzida sob o rígido controle trotskista, conhecido como "liberalismo libertário" na Europa e como "neoconservadora" nos EUA. 

Uma série de traidores sociais cujos nomes evocam imediatamente a Lista de Schindler... 

A estratégia discreta do império, ou do banco promovendo a esquerda parlamentar contra o Sindicalismo Revolucionário (Jaurès contra Sorel) 

Uma vez assegurada a vitória dos socialistas científicos sobre os socialistas libertários, depois de uma luta desigual (considerando os patrocinadores), que irá durar até a segunda metade do século XIX, um segundo ataque de liquidação do povo revolucionário será realizada dentro do proletariado. 

Essa será, até a virada do século, até a primeira guerra mundial, a luta do sindicalismo revolucionário, entusiasta de greves gerais e ações diretas, contra um socialismo parlamentar de influência maçônica; ou, a segunda derrota populista de Georges Sorel contra Jean Jaures...
 
Uma luta reduzida à luta pela conquista do poder, ou a luta perdida dos representantes do povo contra os manipuladores do proletariado

Assim,  de 1840 a 1970, a luta travada dentro da esquerda deve ser entendida como a lenta derrota das forças populares contra os profissionais do socialismo. 


A transformação sutil e progressiva, pelas forças esquerdistas corrompidas pelo capital e influencidas por lojas maçônicas, de uma luta antiburguesa para mudar a vida em uma luta pela conquista do poder.

Ou, em última análise, a democracia - liberal ou socialista - limitada ao mercado...Conclusão: liquidar a classe média

Um mundo governado pela deriva do capital, cuja constante, independentemente das manipulações do mundo do trabalho e suas colaborações, terá sido o tempo todo - além de maximização do lucro -  liquidar a classe média, em essência independente e recalcitrante frente ao poder.
 
Primeiro, isolar a classe média, através da propaganda do socialismo cosmopolita consistindo em amalgama-los ideologicamente com a alta burguesia de modo a expo-los à condenação proletária; proletariado este com o qual desde a "comuna de Paris" eles constituem o povo.

 
Então substituir a classe média, usando a absorção-aquisição imposta pelas economias de escala, através das dóceis camadas médias assalariadas; ou, os pequenos empregados independentes pelos executivos dóceis.Finalmente, liquidar a classe média, pura e simplesmente, fazendo uso crises financeiras coordenadas pelos bancos, para cortar os créditos necessários para seu funcionamento, frente a uma taxação excessiva imposta pelo estado conivente. 


A destruição final da classe média - produtiva, lúcido e enraizada - correspondendo ao projeto imperial de liquidação de toda desobediência ao capital, essencialmente apátrida, de modo que nenhuma liberdade, consciência e independência restam entre o poder imperial do banco e as massas assalariadas...
 
E eu vou concluir com esta citação eloqüente, e pouco conhecida do anarquista Bakunin, oponente contemporâneo de Marx:


"O Estado não é a pátria. É a abstração, a ficção metafísica, mística, política, jurídica da nação. As massas populares de cada país amam profundamente sua pátria, mas esse é um amor verdadeiro e natural. Não uma idéia: um fato...e é por isso que eu francamente me sinto como o patriota de todas as nações oprimidas." - Mikhail Bakunin

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O Mito do Progresso

Por Kirkpatrick Sale

Eu consigo lembrar vividamente de sentar à mesa e argumentar com meu pai sobre o progresso, usando para isso toda a experiência e sabedoria que eu havia coletado até os quinze anos. Sem dúvidas nós vivemos em uma era de progresso, eu disse, apenas olhe para os carros – o quão grosseiros, instáveis e lentos eles eram nos velhos tempo, o quão suaves, eficientes e rápidos eles são agora.

Ele levantou um pouco a sobrancelha. E qual tem sido o resultado de ter todos esses carros maravilhosamente novos, eficientes e rápidos, ele perguntou. Eu me surpreendi. Eu procurei um modo de responder. Ele continuou.

Quantas pessoas morrem todos os anos como resultado destes carros velozes, quantos são mutilados e aleijados? Como é a vida para as pessoas que os produzem, naquelas famosas linhas de montagem, o mesmo trabalho padronizado por horas e horas, dia após dia, como no filme de Chaplin? Quantos campos e florestas e até mesmo povoados e vilas foram asfaltados para que estes carros pudessem chegar à todos os lugares que eles querem chegar, e estacionar ali? De onde toda essa gasolina vem, e a que custo, e o que acontece quando nós a queimamos e jogamos para o ambiente?

Antes que eu pudesse balbuciar uma resposta, felizmente, ele continuou a me falar sobre um artigo sobre o tema do progresso, um conceito do qual um nunca havia verdadeiramente pensado, escrito por um dos seus colegas da [Universidade] de Cornell, a historiador Carl Becker, um homem do qual eu nunca hava ouvido falar, na Enciclopedia de Ciências Sociais, uma fonte com a qual eu nunca hava me deparado. Leia, ele disse.

Temo que tenham se passo outros quinze anos antes que eu o fizesse, embora no meio tempo eu tenha vindo a aprender sobre a sabedoria do ceticismo de meu pai, enquanto o mundo moderno repetidamente vomitava outros exemplos de invenções e avanços – televisão, facas elétricas, fornos de microondas, energia nuclear – que mostravam a mesma natureza problemática do progresso, tomadas pela onda enegativamente produzidas, assim como o automóvel. Quando eu finalmente li o solene artigo de Becker, no curso de uma reavaliação total da modernidade, não foram necessárias armas intelectuais que ele havia empregado, para me convencer da proveniência histórica do conceito de progresso e de seu status, não como uma inevitabilidade, uma força como a gravidade, como meu eu-jovem imaginava, mas como uma construção cultural inventada por vários motivos práticos no Renascimento e no avanço da Propaganda Capitalista. Não era nada além de um mito útil, uma construção profundamente não-analisada – como todos os mitos culturais úteis – que promovia a ideia de avanços contínuos e eternos para a condição humana, amplamente pela exploração da natureza e pela aquisição de bens materiais.


Claro que atualmente esta não é uma percepção tão mágica. Muitos adolescentes de quinze anos hoje, vendo claramente os perigos trazidos pela tecnologia moderna que acompanha o progresso, alguns que ameaçam a própria continuidade da existência humana, já descobriram por si próprios o que há de errado com o mito. É difícil aprender que florestas estão sendo desmatadas em um ritmo de 56 milhões de acres por ano, que a desertificação ameaça 8 bilhões de acres de terra pelo mundo, que os dezessete maiores pontos de pesca do mundo estão em declínio e estão há uma década da exaustão virtual, que 26 milhões de toneladas de solo fértil são perdidos para a erosão e para a poluição todos os anos, e acreditar que o sistema econômico do mundo, cujas funções clamam estes preços, está caminhando na direção correta e que essa direção deva ser rotulada de “progresso”.

E.E. Cummings, certa vez chamou o progresso de “doença confortável” do moderno “não-ser-humano”, e assim tem sido para alguns. Mas em qualquer momento desde o triunfo do Capitalismo, apenas uma minoria da população mundial pode se dizer como realmente vivendo no conforto, e este conforto, constantemente ameaçado, é conquistado através de um custo considerável.

Hoje, dos aproximadamente 6 bilhões de habitants do mundo, é estimado que ao menos um bilhão viva na pobreza miserável, vidas crueis, vazias e compassivamente curtas. Outros 2 bilhões crescem em uma vida sob um mero nível de subsistência, normalmente sustentada por um ou outro amido, a maioria sem água potável ou vasos sanitários. Mais de 2 milhões vivem vivem no limiar da economia monetária, mas com salários menores que US$5000,00 anuais e sem propriedade, poupança ou patrimônio liquido para passar para suas crianças.

Isso deixa mais de um bilhão de pessoas, que até chegam perto da luta pela vda de conforto, com empregos e salários de alguma regularidade, e uma minoria bem reduzida no topo da escala, [e essa] pode-se dizer que conquistou uma vida confortável; no mundo, umas 350 pessoas podem ser consideradas bilionários (em Dólares Americanos), com um pouco mais de 3 milhões de milionários, e o seu patrimônio liquido é estimado como excedendo 45% da população mundial.

Isso é progresso? Uma doença que apenas tão poucos podem contrair? E com tamanha desigualdade, tamando desequilibrio?

Nos Estados Unidos, a nação mais avançada materialmente no mundo e há muito o mais ardente gladiador pela noção do progresso, mais ou menos 40 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza e outras 20 milhões abaixo da linha ajustada para custos reais de vida; mais ou menos 6 milhões estão desempregados, mais de 30 milhões dizem se sentir desencorajados para procurar empregos, e 45 milhões estão em empregos “descartáveis”, temporários ou de meio-período, sem benefícios ou segurança. 5% da população possui cerca de dois-terços da riqueza total; 60% não possuem ativos tangíveis ou estão endividados; em termos de renda, os 20% mais pobres, possuem menos de 4%.

Tudo isso dificilmente demonstra o tipo de conforto material que supostamente o progresso deveria provir. Certamente que muitos nos Estados Unidos e pelo mundo industrializado, vivem em níveis de riqueza impenssáveis em eras passadas, possibilitados de suscitar centenas de “quase-servos” ao apertar um botão ou girar uma chave, e provavelmente, pode-se dizer que um terço da população desse “primeiro mundo” possui na vida um determinado número de facilidades e conveniências. Ainda assim, é um fato estatístico que justamente este segmento é o que mais agudamente sofre da verdadeira “doença do conforto”, o que eu chamaria de afluenza: doenças cardíacas, estresse, excesso de trabalho, disfunção familiar, alcoolismo, insegurança, anomía, psicose, solidão, impotência, alienação, consumismo e frieza de coração.

Leopold Kohr, o economista austríaco, cujo seminário “A Dissolução das Nações”, uma ferramente essencial para entender as falhas do progresso político na última metade do milênio, frequentemente acabava suas lições com esta analogia.

Suponhamos que nós estamos em um trem-de-progresso, correndo na máxima velocidade permitida, abastecido pelo crescimento ganancioso e pelo esgotamento de recursos, e aplaudido por reconhecidos economistas. O que aconteceria se nós descobrissemos que estamos caminhando para uma queda vertiginosa, para um desastre certo, à apenas alguns quilômetros dali, quando os trilhos acabam em um abismo intrasponivel? Nós aceitamos os conselhos dos economistas, de colocar mais combustível nos motores, para que possamos viajar à uma velocidade eternamente crescente, presumindo esperançosamente que isso construiría uma nuvem de vapor tão forte que que nos faria aterrizar seguranmento no outro lado do abismo; ou nós apertamos freios e paramos bruscamente com algumas chacoalhadas fortes o mais rápido possível?

O progresso é o mito que nos assegura que a velocidade total para a frente nunca está errada. A ecologia é a disciplina que nos ensina que esse caminho é o desastre.

Diante do altar do progresso, adorado pelos seus ferrenhos seguidores da ciência e da tecnologia, a sociedade industrial moderna apresentou uma abundância crescente de sacrifícios do mundo natural, imitando em uma escala maior e muito mais devastadora, os ritos religiosos dos antigos impérios que se construiram sob conceitos similares de dominação da natureza. Agora, ao que parece, nós estamos preparados para oferecer até mesmo a biosfera toda.

Ninguém sabe o quão resiliente é a biosfera, quantos danos ela é capaz de absorver antes de parar de funcionar – ou ao menos, funcionar bem o bastante para manter a espécie humana viva. Mas em anos recentes, algumas vozes de autoridades muito respeitadas, têm sugerido que, se continuarmos com a implacável corrida pelo progresso, ou seja, acabar com a terra da qual ela depende, nós atingiremos este ponto em um futuro bem próximo. O Instituto Worldwatch, que publica análises anuais sobre estas questões, avisou que não há um sistema vivo de apoio, do qual a biosfera dependa para a sua existência – ar, água e solos saudáveis, temperatura e semelhantes – que agora estão severamente ameaçados e verdadeiramente piorando década após década.

Há não muito tempo, elite dos ciencistas ambientais e ativistas se encontrou em Morelia, México, e publicou uma declaração de aviso sobre “destruição ambiental” e expressou uma preocupação unânime de que “a vida no nosso planeta esteja em grave perigo”. E recentemente a U.S. Union of Concerned Scientists, afirmou em um documento, endossado por mais de cem ganhadores do Prêmio Novel e 1.600 membros das academias nacionais de ciência de todo o mundo, proclamando um “Aviso dos cientistas do mundo à humanidade”, afirmando que o presente ritmo de destruição ambiental e aumento populacional, não podem continuar sem uma “vasta miséria humana” e um planeta “tão irreversivelmente mutilado”, que seria “incapacitado de sustentar vida da maneira que conhecemos”.

A economia global de alta-tecnologia não escutará; não consegue escutar. Ela continua ferozmente com a sua expansão e exploração. Graças a ela, humanas usam anualmente, em torno de 40% de toda a energia fotosintética liquida presente no planeta Terra, apesar de sermos uma única espécie de números comparavelmente insignificantes. Graças a ela, a economia global cresceu mais de cinco vezes durante os ultimos 50 anos e continua em um ritmo vertiginoso a usar os recursos do mundo, criando taxas de poluição e lixo, irreversíveis, e aumentando as enormes desigualdades dentro e entre todas as nações do mundo.

Suponhamos que um “Observdor Objetivo” fosse medir o sucesso do Progresso – ou seja, o mito do P maiúsculo que desde o Iluminismo tem nutrido, guiado e liderado o casamento feliz entre ciência e capitalismo, que produziu a civilização industrial moderna.

Ele foi, como um todo, melhor ou pior para a espécie humana? Para outras espécies? Ele trouxe mais felicidade para os humanos do que existia antes? Mais justiça? Mais igualdade? Mais eficiência? E se os seus objetivos provaram ser mais benignos do que malignos, e os seus meios? A que preço os seus benefícios foram ganhos E eles são sustentáveis?

O “Observador Objetivo” teria concluido que a análise é misturada, sendo otimista. No lado positivo, não pode-se negar que a prosperidade material aumentou para cerca de um sexto dos humanos no mundo, para alguns, além dos mais avarentos sonhos de reis e autoridades do passado. O mundo desenvolveu sistemas de transporte e comunicação que permitem que pessoas, produtos e informação sejam transferidas em uma escala e com uma facilidade nunca antes possível. E para talvez um terço desses humanos, a longevidade aumentou, junto com uma melhoria geral na saúde e na higiene, que permitiram a expansão dos números humanos por cerca de dez vezes nos últimos três séculos.

Pelo lado negative, os custos foram consideráveis. O impacto sobre as espécies da terra e sistemas , para produzir prosperidade para um bilhão de pessoa foi, como nós vimos, devastador e destrutivo – apenas mais um exemplo, o fato de que ela gerou a extinção permanente de cerca de 500.000 espécies apenas neste século. O impacto sobre os restante cinco-sextos da espécie humana foi também destrutivo, sendo que a maioria deles viu suas sociedades colonizadas ou removidas, suas economias sugadas e quebradas, e seus meio-ambientes transformados para o pior durante o curso, levando-os à uma existência de privação e miséria que, provavelmente, é pior do que eles jamais teriam conhecido, havendo a dificuldade que fosse no passado, antes do advento da sociedade industrial.

E até memso o bilhão, cujo padrão de vida usa o que efetivamente é 100% dos recursos mundiais anuais, e que então, presume-se que sejam felizes como resultado, na verdade não o parecem ser. Nenhum indice social, de nenhuma sociedade avançada, demoonstra que as pessoas estão mais contentes agoras do que eram há uma geração atrás, várias pesquisas indicam que o “quociente de miséria” da maioria dos países, cresceu, e consideráveis evidências paupáveis (como crescentes índices de doenças mentais, drugas, crimes, divórcios e depressão) servem de argumento de que o enriquecimento material não incluiu muito a felicidade individual.

De fato, numa escala maior, quase que a totalidade do que o Progresso deveria conquistar, falhou em existir, apesar das imensas quantidades de dinheiro e tecnologia voltados para esta causa. Virtualmente, todos os sonhos que o adornaram ao passar dos anos, particularmente em seus estágios mais robustos do final do Século XIX e nos últimos 20 anos do advento da computação, se dissiparem em fantasias utópicas – aqueles que não se dissiparam, como energia nuclear, agricultura química, destino manifesto, e o Estado de bem Estar Social, se transformaram em pesadelos. O progresso não eliminou a pobreza, nem mesmo nas nações mais progressistas (o número de pobres aumentou e as rendas reais declinaram nos últimos 25 anos), ou a labuta (horas de trabalho cresceram, assim como o trabalho doméstico, para ambos os sexos), ou ignorância (taxas de alfabetização declinaram por 50 anos, notas em provas declinaram), ou doenças (as taxas de hospitalização, enfermidade e morte todas aumentaram desde 1980).

Parece ser bastante simples: para além da prosperidade e longevidade, e esses limitados à uma minoria, e ambos causando severos danos ambientais, o progresso não possui uma justificativa forte a seu favor. Para seus seguidores, sem dúvida, é provavelmente verdade que não seja necessário a existência de justificativa; porque é suficiente que a riqueza seja merecida, que as afluências sejam desejáveis e que viver mais é positivo. As regras do jogo para eles são simples: melhoria material para o máximo possível, o mais rápido possivel, e nada além, certamente não existem considerações sobre a moralidade pessoal, coesão social , profundidade espiritual e um governo participativo, nada disso importa para eles.

Mas o “Observador Objetivo” não é tão limitado, e consegue enxergar o quando profundas e mortíferas são as vias que tal visão. O “Observador Objetivo” pôde apenas concluir que desde que os frutos do Progesso são tão poucos, o preço pelo qual eles foram conquistados é extremamente alto, em termos sociais, econômicos, políticos e ambientais, e nem sociedades e nem o meio-ambiente conseguirão suportar o custo disso por mais de algumas décadas, caso eles já não tenham sido deteriorados além da redenção.

Herbert Read, o filósofo e critico ingles, alguma vez escreveu que “apenas um povo que sirva de aprendiz da natureza, pode ser confiado com maquinas”. É uma visualização profunda, e ele ressaltou ainda que “apenas tal povo inventará então e controlará essas máquinas, [percebendo que] seus produtos são aprimoramentos de necessidades biológicas, e não a negação delas”.

Aprendizes da natureza – este é verdadeiramente um mito estável e durável para guiar a sociedade.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Aleksandr Dugin - Julius Evola e o Tradicionalismo Russo

por Aleksandr Dugin



1) A Descoberta de Evola na Rússia

Os trabalhos de Julius Evola foram descobertos nos anos 60 pelo grupo de intelectuais esotéricos e anti-comunistas conhecidos como “os dissidentes da direita”. Eles compunham um pequeno círculo de pessoas que conscientemente se negavam a participar da “vida cultural” da URSS e que, ao invés disso, tinham escolhido uma vida subterânea para si. A disparidade entre o cultura Soviética presente e a verdadeira realidade Soviética foi quase que totalmente o motivo que os levou a buscar os princípios fundamentais que poderiam explicar as origens daquela terrível idéia absolutista. Foi pela sua recusa do Comunismo que eles descobriram certos trabalhos de autores anti-modernos e tradicionalistas: acima de tudo, os livros de Rene Guenon e Julius Evola. Duas personalidades centrais animavam este grupo – o filósofo islâmico Geidar Djemal e o poeta não-conformista Eugene Golovine. Graças a eles, esses “dissidents da direita” souberam os nomes e as idéias do dois maiores tradicionalistas do século. Nos anos 70, uma das primeiras traduções de um trabalho de Evola (A Tradição Hermética) apareceu e foi distribuída dentro de um grupo, de acordo com os métodos do Samizdat [1]. No entanto, as traduções originais eram particularmente ruins em qualidade, porque elas foram feitas por amadores incompetentes muito distantes do grupo de verdadeiros intelectuais tradicionalistas.

Em 1981, uma tradução do Heidnische Imperialismus apareceu de maneira similar, como o único livro desse tipo disponível na Livraria Lenin em Moscow. Desta vez, a distribuição pelo Samizdathavia se tornado muito maior e a qualidade da tradução era muito melhor. Pouco a pouco eles distanciaram a verdadeira corrente tradicionalista do anti-comunismo, e a aproximaram do anti-modernismo, extendendo a sua negação da existência Soviética para a rejeição do mundo moderno, de maneira muito próxima à visão tradicionalista integral. Deve notar-se que as idéias tradicionalistas em questão, neste ponto particular, foram completamente removidas dos outros grupos de “dissidentes da direita”, que geralmente eram Cristãos ortodoxos, monarquistas e nacionalistas. Nesta época, Evola era mais popular entre aqueles interessados no espiritualismo em sentido amplo: praticantes de yoga, teosofistas [2], psiquistas [3], e daí em diante.

Durante a Perestroika, todos os tipos de dissidência anti-comunista se manifestaram e dos “dissidentes da direita” vieram as ideologias políticas e culturais da Direita atual: nacionalistas, nostálgicos, anti-liberais e anti-Ocidentais. Neste contexto e depois do desenvolvimente de idéias estritamente tradicionalistas, como resultado do Glasnost, os nomes de Guenon e Evola foram introduzidos no conjunto cultural russo. Os primeiros trabalhos de Evola apareceram nos anos 90, nas amplamente lidas partes da mídia conhecidamente “patriótica” ou “conservadora” e o assunto do tradicionalismo tornou-se tema de virulentas polêmicas e era um assunto importante para a Direita Russa como um todo. Periódicos como Elementy, Nach Sovremennik, Mily Anguel, Den, etc, começaram a publicar fragmentos dos escritos de Evolas, ou artigos inspirados nele, ou em que seu nome e citações apareciam.Pouco a pouco o campo “conservador” veio a ter uma estrutura ideológica que produziu cisões entre os velhos nostáligcos e monarquistas da Direita e os mais abertos não conformistas e participantes da Direita menos ortodoxa (algumas vezes chamados de “novye pravye”, em russo, pode-se estar inclinado a fazer um paralelo com a “nouvelle droite”, mas foi um fenômeno bem diferente como um todo em relação com a ND européia). Pode-se categorizar este segundo grupo de patriotas como sendo parte da “Terceira Via” ou “Nacional-Revolucionários” e por aí em diante. O ponto de separação se dá exatamente sobre a aceitação ou rejeição da idéias de Evola, ou talvez mais apropriadamente, da idéias de Evola que não poderiam ser consideradas naturalmente “conservadoras” ou “reacionárias”, como a idéia de “Revolução Conservadora” e de “Revolta Contra o Mundo Moderno”.

Recentemente, o primeiro livro “Heidnische Imperialismus” teve 50.000 cópias publicadas. Até mesmo um programa de televisão voltado a Evola foi feito por uma canal popular. Então, pode-se ver que a descoberta de Evola pela Rússia foi feita em uma escala bastante ampla. Ele, que uma vez constitui o núcleo intelectual hiper-marginal da Rússia, antes da Perestroika, se tornou agora um fenômeno político e ideológico considerável. Mas é bem claro que Evola escreveu seus livros e formulou suas idéias num contexto temporal, cultural, histórico e étnico bem diferente. Isso, então, torna-se um problema: quais partes da filosofia de Evola são relevantes para a Rússia moderna e quais partes precisam ser trabalhadas, melhoradas ou mesmo rejeitadas, nessas circunstâncias? Esta pergunta necessita de uma rápida análise comparando e contrastando o tradicionalismo sagrado de Evola e o fenômeno político estritamente russo.


2) Contra o Ocidente Moderno

Desde o começo, se torna óbvio que a rejeição do mundo mercenário profano moderno, manifestado na Civilização Ocidental durante os últimos séculos, é comum tanto para Evola quanto para a totalidade da tradição intelectual da Eslavofilia Russa. Autores russos como Homyakov, Kirievsky, Aksakov, Leontiev e Danilevsky (entre os filósofos), assim como Dostoevsky, Gogol e Merejkovsky (entre os romancistas), criticaram o mundo Ocidental quase na mesma linguagem em que o fez Evola. Pode-se observar que todos eles possuiam o mesmo ódio pelo governo dos mafiosos, ou seja, o sistema democrático moderno, e que eles consideravam este sistema como degradação espiritual e profanação total. Similarmente, pode-se observar o mesmo diagnóstico para essas doenças do mundo moderno - a Franco-Maçonaria Profana, o judaismo depravado, o avanço da plebe, a deificação da “razão” – em Evola e na cultura “conservadora” russa. Obviamente, a tendência reacionária aqui é comum a ambos, então a crítica de Evola do Ocidente está totalmente de acordo com, e é aceitável para a linha de pensamentos do conservadorismo russo.

Mais freqüentemente do que não [freqüentemente], pode-se ver que as críticas de Evola estão mais proximamente relacionadas com a mentalidade russa do que com uma mais amplamente européia – o mesmo tipo de generalização, a invocação freqüente de objetivos mitológicos e místicos, a noção distinta de que o mundo espiritual interno é organicamente separado das realidades imediatas modernas da perversão e do desvio. Em geral, a tradição conservadora russa de hodiernamente explicar eventos históricos num sentido mitológico, é de alguma forma, obrigatória. O apelo ao sobrenatural/irracional, aqui, está em perfeita congruência com o pensamento russo, que faz da explicação racional a exceção, e não a regra.

Pode-se notar a influência que os conservadores russos exeerceram em Evola: nos seus trabalhos ele freqüentemente cita Dostoevsky, Merejkovsky (quem ele conhecia pessoalmente) e muitos outros autores russos. Na outra mão, as frequëntes referências que ele faz à Malynsky e Leon de Poncins carregam parcialmente a tradição contra-revolucionária tão típica do Ser europeu. Pode-se citar também as referências que ele faz a Serge Nilus, o compilador do famoso “Protocolos dos Sábios de Sião”, que Evola reeditou na Itália.

Ao mesmo tempo, fica claro que Evola conhecia relativamente pouco sobre os meios conservadores russos, e, de fato, ele nem mesmo estava particularmente interessado neles, devido à sua idiossincrasia anti-cristã. A respeito da tradição Ortodoxa ele fez apenas alguns insignificantes comentários. Mesmo assim, a semelhança entre a sua posição sobre a crise do mundo moderno e o anti-modernismo do autores russos é dada, amplamente, pela comunidade de reações orgânicas – Grandes Homens e “indivíduos”, no caso de Evola e heróis, no caso dos russos. Mas graças à espontaneidade das convergências anti-modernas, a gravidade dos desacordos de Evola, se tornam muito mais interessantes e muito mais críticos.

Em qualquer nível, as interpretações de Evola se encaixam perfeitamente no quadro de ideologia moderna da “novye pravye”, [isso ocorre] tão amplamente, que ela [novye pravye] agrega mais à sua visão da degradação da modernidade, aplicando, algumas vezes, as suas idéias [de Evola] mais globalmente, mais radicalmente e mais profundamente. Deste modo, as teorias de Evola são muito bem aceitas na Rússia moderna, onde o anti-Ocidentalismo é um fator político-ideológico extremamente potente. 

3) Roma e a Terceira Roma

Um aspecto particular do pensamento de Evola é sentido pelos russos como de uma extrema e iminente importância: sua exaltação do Ideal Imperial. Roma representa o ponto principal da visão-de-mundo de Evola. Este poder sagrado vivente, que se manifestou por todo o Império era, para Evola, a própria essência da herança do Ocidente tradicional. Para Evola, as ruínas do Palácio de Nero e dos prédios romanos eram como um testamento direto de uma santidade orgânica e física, da qual a integridade e continuaidade fora aniquilada pelo “castelo” kafkiano [4] do Vaticano Católico Guelfo.

A sua linha de pensamento Guibelina era clara: Imperium contra a Igreja, Roma contra o vaticano, a sacralidade iminente e orgânica contra as abstrações sentimentais e devocionais da fé, implicitamente dualista e Farisaica[5].

Mas uma linha de pensamento similar, aparentemente, é naturalmente sentida pelos russos, de quem o destino histórico sempre esteve profundamente ligado ao [Ideal] do Imperium. Esta noção estava dogmaticamente enraizada na concepção Ortodoxa da filosofia staret[6] – “Moscow: A Terceira Roma” – Deve-se tomar nota que a “Primeira Roma” nesta interpretação cíclica Ortodoxa não era a Roma Cristã, mas a Roma Imperial, porque a “Segunda Roma” (ou “a Nova Roma”) era Constantinopla, a capital do Império Cristão. Então a mesma idéia de “Roma” mantida pelos Ortodoxos Russos, corresponde ao entendimento de sacralidade como a importância daquilo que é Sagrado e assim, a necessária e inseparável “sinfonía” entre autoridade espiritual e o reino temporal. Para a ortodoxia tradicional, a separação católica entre o Rei e o Papa é inimaginável e beira a blasfêmia, este conceito é até mesmo chamado de “heresia Latina”.

Mais uma vez, pode-se ver a perfeita convergência entre o dogma de Evola e o pensamento comum da mentalidade conservadora russa. E outra vez mais, a clara exaltação espiritual do Imperium nos livros de Evola, é de inestimável valor para os russos, pois isto é o que eles veem como a sua verdadeira identidade tradicional. O “imperialismo sinfônico”, ou melhor, “Imperialismo Guibelino”.

Existe um outro detalhe importante que merece ser mencionado aqui. É sabido que o “Autor do Terceiro Reich” Artur Müller van den Bruck, foi profundamente influenciado pelos escritos de Fiodor Dostoievsky, para quem o conceito de “Terceira Roma” era vitalmente significativo. Pode-se ver mesma visão escatológica de van den Bruck do “Último Império”, nascido da convergência metafórica entre as idéias dos montanistas paracléticos[7] e as profecias de Joachim de Flora[8].

Van den Bruck, de quem as idéias eram algumas vezes citadas por Evola, adaptou o seu conceito de “Terceira Roma” da tradição Ortodoxa russa, e aplicou na Alemanha, onde ele foi ulteriormente trabalhado espiritual e socialmente pelos Nacional-Socialistas. Um fato interessante é que Erich Müller, o protegé de Nikisch[9], que fora grandemente inspirado por van den Bruck, comentou certa vez que o Primeiro Reich havia sido Católico[10], o Segundo Reich, Protestante[11], o Terceiro Reich deveria ser, exatamente, Ortodoxo!

Mas o próprio Evola participou amplamente nos debates intelectuais dos círculos revoluionários-conservadores alemães (ele era membro do “Herrenklub” de von Gleichen, que era a continuação do “Juniklub” fundado por van den Bruck), onde assuntos similares eram discutidos de uma maneira muito vívida. Agora é fácil ver outra maneira em que a mentalidade conservadora russa está ligada às teorias de Evola. Obviamente, não é possível dizer que as suas idéias, nesses problemas particulares, eram idênticas, mas ao mesmo tempo, existem conexões extraordinárias entre os dois que podem ajudar a explicar a assimilação das idéias de Evola para a mentalidade russa, que possui visões muito menos “extravagantes” do que aquelas pertencentes à Europa Conservadora Tradicional, que é majoritariamente Católica e Nacionalista nos dias de hoje, e raramente Imperialista.

***

[1] Samizdat foi um sistema na antiga URSS em que os livros oficialmente “impermissíveis” circulavam pelo país; estes eram cópias de cópias e não tinham boa qualidade, mas eles tendiam a chegar ao seu objetivo.

[2] Um escola religiosa/filosófica fundada pela ocultista russa Helena Blavatsky.

[3] Um conceito teosófico relacionado à todos os fenômenos mentais; C.G. Jung também o discutiu ocasinalmente.

[4] Para aqueles que não estão familiarizados com o trabalho de Kafka, esta é uma referência para o seu livro chamado “O Castelo”, que é sobre um homem que contrai o que deveria ser uma trabalho relativamente fácil num lugar distante, fazendo o levantamento das terras de um nobre local, mas que não consegue começar ou muito menos completar o seu trabalho, devido à burocracia imposta pelo seu próprio empregador (que ele nunca conhece pessoalmente, apenas por um representante ou representante de um representante) e que se frustra muito pelo fato de que o imenso e opressivo castelo do Conde pode ser visto de qualquer parte da cidade, mas ele não consegue nunca ir até lá para começar a sua tarefa. Obviamente, esta é uma acusação metafórica contra a totalidade do sistema judaico-cristão e como ele se relaciona com uma aparentemente impossível salvação. Da mesma forma, “Guelfo” se refere à uma coalisão alemã/italiana da Idade Média que apoiava a casa real de Guelfo contra a Dinastia Imperial Alemã dos Guibelinos, que era hostil ao Papa e ao Catolicismo.

[5] Referete aos Fariseus, hipocrisia, duplicidade, falsidade, fingimento.

[6] Os starets eram conselheiros espirituais, mas não sacerdotes: Rasputin poderia ser considerado como um.

[7] Os montanistas foram os precursors das seitas pentecostais modernas, i.e., aqueles que acreditam em revelações divinas pessoais e falar em linguas diferentes.

[8] de Flora era o Abade de Corazzo que completou um ensaio bastante presciente sobre a “era da razão”, por volta de 1200, onde ele escreveu “no novo dia, homens não dependerão da fé, porque tudo será fundamentado no conhecimento e na razão.”

[9] Ernst Nikisch, um nacionalista alemão da mesma época.

[10] o Sacro Império Romano-Germânico

[11] a Prússia sob o governo de Frederico, o Grande

terça-feira, 3 de abril de 2012

Ezra Pound - Qual é a função do Dinheiro?

por Ezra Pound


Nós nunca veremos um fim para as algazarras, nós nunca teremos uma administração sã e estável até que nós conquistemos uma concepção absolutamente clara a respeito do dinheiro. Eu quero dizer uma concepção absolutamente, e não aproximadamente clara.

Eu posso, se vocês quiserem, retroceder até o papel-moeda impresso na China por volta de 840 d.C., mas nós estamos preocupados com os caprichos do mundo ocidental. PRIMEIRO, Paterson, o fundador do Banco da Inglaterra, disse a seus acionistas que eles lucrariam porque "o banco teve lucro sobre os juros de todo o dinheiro que ele criou a partir do nada". O quê, então, é esse "dinheiro" que o banqueiro pode criar a partir do nada?

Sejamos claros. Dinheiro é um título ou reivindicação mensurada.

MEIOS DE TROCA

O dinheiro é válido quando as pessoas o reconhecem como um título e transferem bens ou trabalham com base no valor impresso na face da moeda, seja ela feita de metal ou papel. O dinheiro é um tipo de bilhete genérico, o que é sua única diferença de um bilhete de trem ou de teatro. Se essa afirmação parece infantil que o leitor pense por um momento sobre diferentes tipos de bilhetes.

Um bilhete de trem é um bilhete mensurado. Um bilhete de Londres a Brighton difere de um de Londres para Edinburgh. Ambos são mensurados, mas em milhas que sempre permanecem as mesmas. Um bilhete de dinheiro, sob um sistema corrupto, oscila. Por muito tempo o público tem confiado em pessoas cujas medidas eram impudentes.

Outro ângulo. Bilhetes de teatro possuem tempo. Você provavelmente não aceitaria um bilhete para a Fila H, Assento 27, se ele não fosse datado. Quando seis pessoas tem direito ao mesmo assento ao mesmo tempo os bilhetes não são particularmente bons. (Orage perguntou; Chamaríamos inflação o imprimir bilhetes para cada assento da casa?) Você ouvirá o dinheiro ser chamado de "um meio de troca", o que significa que ele pode circular livremente, como uma medida de bens e serviços, de mão para mão.

GARANTIA DE TROCA FUTURA

Nós teremos definido o dinheiro adequadamente quando tivermos afirmado o que ele é em palavras que não possam ser aplicadas para qualquer outra coisa e quando não haja nada sobre a natureza essencial do dinheiro que esteja omitida de nossa definição.

Quando Aristóteles chama o dinheiro de "uma garantia de troca futura" isso meramente significa que ele é um bilhete sem data, que será válido quando nós quisermos fazer uso dele. Bilhetes às vezes tem sido válidos por mais de um século. Quando nós não entregamos dinheiro imediatamente em troca de bens ou serviços recebidos diz-se que nós temos "crédito". O "crédito" é a crença do outro homem de que nós podemos e eventualmente entregaremos o dinheiro ou algo medido pelo dinheiro.

A maioria dos homens tem estado tão atenta ao ente individual do dinheiro, como medida, que esqueceu seu propósito, e então caiu em bagunças e confusões inextricáveis relativas à quantia total de dinheiro em um país. Um martelo perfeitamente bom é inútil para limpar seus dentes. Se você não sabe para que serve o dinheiro, você se confundirá ao usá-lo, e um governo se confundirá mais ainda em sua "política monetária".

Em termos estatais, isto é do ponto de vista de um homem ou partido que quer governar com justiça, um pedaço de dinheiro é um bilhete, o dinheiro do país é uma massa de bilhetes para conseguir a comida e bens justamente distribuídos. O trabalho par um homem hoje que está tentando escrever um panfleto por dinheiro não é dizer algo novo, não é pensar algo ou provar uma teoria, é simplesmente fazer uma afirmação clara sobre coisas que são sabidas há 200, e às vezes há 2.000 anos. Você tem que saber qual é a função do dinheiro.

PROPÓSITO DO DINHEIRO

Se você acha que ele é uma armadilha para homens ou um meio de parasitar o público, você vai admirar o sistema bancário do jeito que ele é administrado pelos Rothschilds e pelos banqueiros internacionais. Se você pensa que ele é um meio de espremer lucros do público, você vai admirar a bolsa de valores. Daí finalmente em prol de manter suas idéias em ordem você precisará de alguns princípios.

O objetivo de um sistema econômico sadio e decente é consertar as coisas para que pessoas decentes possam comer, ter roupas e casas até o limite de bens disponíveis.

O VALOR DO DINHEIRO

Pegue o dinheiro em tal sistema como meio de troca, e então perceba que para que ele seja um meio de troca justo ele tem que ser mensurado.

O que você usará para medir o valor de qualquer coisa? Um ovo é um ovo. Você pode comê-lo (até que ele estrague). Ovos não tem todos o mesmo tamanho, mas eles podem servir entre povos primitiso como uma medida aproximada.

Unterguggenberger, o reformador monetário austríaco, usava o TRABALHO como medida, "Arbeitswert", 10 schillings de trabalho. Isso era funcional em um vale de montanha no qual todo mundo podia fazer praticamente o mesmo tipo de trabalho nos campos. Carlos Magno usava uma medida de cereais, tantos punhados de cevada, trigo ou centeio valendo um denário. O preço justo da cevada tanto para o punhado.

Em 796 d.C., eram dois denários. E em 808 d.C., eram três denários. Isso quer dizer que o fazendeiro ganhava mais denários pela mesma quantidade de cevada. E esperemos que ele podia comprar mais de outras coisas com estes denários. Infelizmente o valor de todas as coisas depende de se há uma escassez real, o bastante  ou mais do que pode ser usado em um dado momento. Um punhado de ovos valem muito para um homem faminto em uma balsa. O trigo vale mais em algumas estações do que em outras. O mesmo ocorre com o ouro, bem como com a platina. Uma única commodity (mesmo o ouro) como base para o dinheiro não é satisfatório.

A autoridade estatal por trás da cédula impressa é o melhor meio de estabelecer uma moeda justa e honesta. Os chineses compreenderam isso há mil anos atrás, como podemos ver a partir da nota do Estado Tang (e não do banco). É inerente à soberania o direito de emitir moeda e determinar o seu valor.

Os interesses americanos ocultam a cláusula mais vital de nossa constituição. O governo americano não tem, eles dizem, o direito de fixar preços. Mas ele tem o direito de determinar o valor do dinheiro e esse direito pertence ao Congresso.

Essa é uma mera diferença em formalidades legais e arranjos verbais. O governo americano tem o direito de dizer "um dólar equivale a um celemim de trigo, a dez galões de petróleo". Então o governo americano poderia estabelecer o preço justo, e um sistema de preço justo.

O PREÇO JUSTO

A partir do escambo se desenvolveu a doutrina canônica do preço justo, e mil anos de pensamento desde São Ambrósio a São Antonino de Florença, quanto a como determinar o preço justo. Tanto os creditistas sociais douglasianos como os católicos modernos postulam o preço justo como uma parte necessária de seus Sistemas. A reclamação válida contra Douglas é que ele não inventou e desenvolveu instrumentos para impôr o preço justo. Um padre recentemente me contou que os distributistas ingleses perceberam há pouco tempo que eles não tinham mecanismos para instituir e impor o preço justo.

Apenas o Estado pode efetivamente fixar o preço justo de qualquer commodity por meio de reservas estatais de matérias-prima e pela restauração da organização corporativa na indústria.

A QUANTIDADE DE DINHEIRO

Tendo determinado o tamanho de seu dólar, ou meia coroa ou shilling, o próximo trabalho do seu Governo é garantir que os bilhetes sejam devidamente impressos e que eles cheguem às pessoas certas.

As pessoas certas são todas aquelas que não estão engajadas na criminalidade, e crime pela duração desse panfleto significa entre outras coisas enganar o resto dos cidadãos através de esquemas monetários. Nos EUA e na Inglaterra não há dinheiro suficiente. Não há nem ao menos cédulas suficientes circulando entre toda a população para comprar o que elas necessitam - mesmo quando os bens estão ali no balcão ou apodrecendo em armazéns.

Quando a totalidade da nação não tem ou não pode obter comida suficiente para seu povo, essa nação é pobre. Quando comida suficiente existe e o povo não consegue obtê-la através de trabalho honesto, o Estado é podre, e nenhum esforço linguístico será capaz de expressar isso completamente. Mas um banqueiro ou professor dizer que o país não pode fazer isso, aquilo ou aquilo outro porque carece de dinheiro é uma mentira tão negra e fétida, quanto baixa e imbecil, como seria dizer que o país não pode construir estradas porque não tem quilômetros. (Eu não inventei essa frase, mas ela é boa demais para que eu não a use). Roosevelt e seus professores estavam no caminho certo com seu dolár commodity, mas eles desconsideraram e ocultaram e se esquivaram do problema de ter cédulas suficientes para servir toda a população, e de manter essas cédulas circulando.

É uma questão de Estado garantir que haja dinheiro suficiente nas mãos de TODO o povo, e em uma troca adequadamente rápida, para efetivar a distribuição de toda a riqueza produzida e produtível. Até que cada membro da nação coma três vezes por dia e tenha abrigo e roupa, uma nação ou é preguiçosa ou doente. Se isso ocorre em um Estado rico então as riquezas do Estado não estão sendo empregadas corretamente.

Todo valor vem do trabalho. O trigo vem do plantio, a castanha vem da coleta. Mas muito trabalho foi feito por homens (em sua maioria inventores, construtores de fábricas, etc.) que agora estão MORTOS, e que portanto não podem comer e vestir roupas.

CRÉDITO SOCIAL

Em respeito a esse legado de eficiência mecânica e progresso científico nós temos a nossa disposição um grande volume de crédito social, que pode ser distribuído para o povo como bônus acima de seu salário. Douglas propôs elevar o poder de compra total de todo o povo através de uma emissão per capita de cédulas proporcional aos bens disponíveis. Na Inglaterra e nos EUA hoje, os bens disponíveis e desejados permanecem não comprados porque o poder de compra total (ou seja, a soma total de cédulas) é inadequado. Mussolini e Hitler perderam pouco tempo propondo. Eles começaram a agir e distribuem tanto cédulas como bens em várias escalas graduadas segundo as virtudes e atividades de italianos e alemães. Douglas objetaria que isso não é "democrático" (ou seja, igualitário) mas para o cientista monetário ou economista o resultado é o mesmo. Os bens estão sendo distribuídos.

Há um ângulo levemente diferente no modo como esses diferentes homens percebem a justiça. Todos eles concordam que a decidiência no poder de compra total de uma nação deve ser compensado. Dez anos atrás ou mais eu disse que Mussolini havia alcançado mais do que Douglas, porque Douglas havia apresentado suas idéias como um sistema de ganância, e não como um sistema de vontade.

Ambos Sistemas, fascista e douglasiano, diferem como o dia difere da noite em relação à degradação do assistencialismo, da infâmia do sistema britânico no qual homens que estão desempregados recebem dinheiro de homens que trabalham, e no qual os desempregados se tornam progressivamente ineptos para o trabalho ou para aproveitar as sensações da vida. Não apenas eles são um fardo sobre os trabalhadores, mas eles são um fardo para todas as pessoas que estão tentando manter um padrão decente de vida. Toda a escala de valores resta profanada. A cada ano vemos menos senso de valor social; menos sendo de viver a vida sem prejudicar o próximo; de vidas nas quais alguma medida e prudência são observadas.

Não há nada novo em criar dinheiro para distribuir riqueza. Se você não acredita que o imperador Tching Tang emitiu o primeiro dividendo nacional em 1766 a.C. você pode chamar de outra coisa. Pode ter sido um benefício emergencial, mas a história pelo menos esclarecerá uma confusão. O imperador abriu uma mina de cobre e emitiu moedas redondas com buracos quadrados e as deu aos pobres "e esse dinheiro os permitiu comprar cereais dos ricos", mas ele não teve efeito sobre a escassez geral de cereais.

Essa história tem 3.000 anos de idade, mas ela ajuda a entender o que é o dinheiro e o que ele pode fazer. Para o propósito do bom governo ele é um bilhete para a distribuição organizada do que está disponível. Ele pode ser até um incentivo para plantar ou fabricar mais cereais ou bens, isso é para alcançar abundância. Mas ele em si NÃO é abundância.

INFLAÇÃO

O termo inflação é usado como um bicho-papão para amedrontar as pessoas em relação a qualquer expansão monetária. Inflação REAL só começa quando você emite dinheiro (títulos mensurados) contra bens ou serviços que permanecem não distribuídos (como os assignats da Revolução Francesa emitidos contra terras estatais) ou quando você os emite em excesso do que é necessário. Isso quer dizer: dois ou mais bilhetes para o mesmo assento ao mesmo tempo, ou bilhetes em Londres para uma performance teatral hoje em Bombaim.

O dinheiro pode ser expandido desde que cada título mensurado possa ser honrado pelos produtores e distribuidores da nação através dos bens e serviços desejados pelo público, quando e onde eles os quiserem. Inflação é um perigo, estagnação é outro.

A LETRA DE CÂMBIO DE GESELL

Silvio Gesell, o reformador monetário sulamericano, viu o perigo do dinheiro ser acumulado e propos lidar com isso pela emissão de "letras de câmbio seladas". Isso deveria ser uma nota do governo demandando que seu portador afixasse um selo com valor de até 1% de seu valor facial no primeiro dia de cada mês. A não ser que a nota tenha consigo seu complemento devido ou estampas mensais ela não é válida.

Isso é uma forma de imposto sobre o dinheiro e no caso da moeda britânica poderia assumir a forma de 1/2d ou 1d por mês ou uma nota de dez shilling e 1d ou 2d sobre uma libra. Há qualquer número possível de impostos, mas o tipo de imposto de Gesell só pode recair sobre um homem que tenha, em seu bolso, no momento em que o imposto se torna devido, cem vezes mais, pelo menos, do que a quantidade do imposto.

O tipo de dinheiro de Gesell garante um meio e medida de troca que não pode ser acumulado impunemente. Ele sempre permanece em movimento. Os banqueiros não poderiam trancá-lo em seus porões e cobrar ao público por deixá-lo sair. Ele também tem o benefício adicional de colocar os comerciantes de bens perecíveis em uma desvantagem menor ao negociar com os donos de dinheiro teoricamente imperecível. Eu gosto particularmente de Gesell, porque uma vez que as pessoas tenham feito uso de letras de câmbio seladas elas TEM uma noção clara de dinheiro, elas entendem o dinheiro melhor do que homens que nunca fizeram uso delas. Eu não estou mais ansioso do que quem seja para usar um tipo novo de selo, mas eu mantenho que o público não é estúpido demais para usar selos e que não há ganho em fingir que eles são estúpidos demais para entender o dinheiro.

Eu não digo que temos que usar o método do Gesell. Mas uma vez que você compreenda o motivo pelo qual ele o aplicou você não será depenado por banqueiros e "autoridades financeiras" sem saber como você está sendo depenado. É por isso que Gesell é tão útil como professor. Ele propos um jeito bastante simples de manter suas cédulas circulando.

DINHEIRO ESTATAL

Em 1816 Thomas Jefferson fez uma afirmação básica que não foi adequadamente diferida, muito menos colocada em perspectiva com várias "propostas modernas" para melhores especiais sobre o maldito e destrutivo sistema atual. É melhor que o leitor enquadre a afirmação de Jefferson:

"E se as cédulas nacionais emitidas forem lastreadas (como é indispensável) sobre promessas de impostos específicos para seu resgate dentro de um tempo certo e moderado, e forem de denominações adequadas para a circulação, nenhum juro sobre elas seria necessário ou justo, porque elas corresponderiam a cada um dos propósitos do dinheiro metálico retirado e substituído por elas". Jefferson a Crawford, 1816.

A fórmula de Jefferson é sólida. Se o Estado emite dinheiro suficiente para gastos válidos e justificáveis e o mantem se movendo, circulando, saindo pela porta da frente e voltando pela janela dos impostos, a nação não sofrerá estagnação. A questão do dinheiro honesto é um serviço e quando o Estado realiza o serviço o Estado tem o direito a uma justa recompensa, o que difere de quase todas as formas conhecidas de impostos.

Eu digo "quando o Estado emite", porque quando Estados são fracos ou incompetentes ou sua emissão inadequada, então indivíduos e aglomerados de homens ou localidades tem assumido essa atividade (ou a mantiveram desde eras pré-estatais), e é melhor, na verdade é necessário, que a função da medida de troca continue a ser realizada do que deixe de operar.

Por outro lado uma nação cuja medida de troca esteja à mercê de forças externas à nação, é uma nação em perigo, é uma nação sem soberania nacional. É uma nação se idiotas incompetentes vagando em direção à ruína. Vamos repetir. É inerente à soberania o direito de emitir títulos mensurados de riqueza, isto é, dinheiro.

GARANTIAS NECESSÁRIAS

Nenhuma parte ou função do governo deve estar sob supervisão mais rígida, e em nenhuma outra parte do governo deve um critério moral superior ser tão garantido. O dinheiro estatal baseado na riqueza nacional deve substituir o ouro manipulado pelos usurários internacionais. A ordam sadia na fundação de uma dinastia ou na reorganização de um governo é:

PRIMEIRO conseguir os resultados, ou seja garantir que o povo seja alimentado e abrigado. ENTÃO regular o mecanismo de distribuição (sistema monetário ou o que seja) que não cairá em decadência.

Por exemplo, J.Q. Adams, um dos pais fundadores americanos, tinha ótimas idéias socialistas ou estatais sobre reservar a riqueza nacional para propósitos educacionais ou speriores. Suas propostas foram extemporâneas. Jackson abriu a terra; colonos puderam ir e pegar um punhado cada um, livremente. Isso foi feito na hora certa e foi útil. Mas nenhuma medida foi tomada para impedir colonos de transferir essa terra quando eles não tinham mais uso para ela e não queria trabalhar nela. Daí as terras americanos degeneraram em latifúndios. O mesmo perigo se aplica a sistemas monetários. Estabeleça um sistema monetário justo e perfeito e em três dias rufiões e bastardos de mentalidade mercantilista e monopolista, começaram a pensar em algum esquema para ludibriar o povo. Os caçadores de concessões vão brotar em novas formas enquanto a merda feder e a humanidade continuar produzindo abortos mentais. John Adams viu desde cedo que logo os especuladores substituiriam os pequenos tiranos dos latifúndios.

Por volta de 1860 um dos Rothschilds foi gentil o bastante para admitir que o sistema bancário era contrário ao interesse público, e isso foi antes que a sombra dos cárceres de Hitler caíssem sobre as fortunas de sua família. É o papel dessa geração fazer o que não foi terminado pelos primeiros democratas. O sistema de guildas, imbuindo o povo por ocupação e vocação com poderes corporativos, dá a ele os meios de se proteger por todo o tempo contra o poder monetário.

Se você não gosta do sistema de guildas, tente conseguir os mesmos resultados com algum outro, mas não perca a cabeça esquecendo quais são os objetivos dos homens limpos. E não minta para si mesmo e confunda um arado com uma hipoteca e vice-versa. É inútil falar de economia ou ouvir outrem falando de economia ou ler livros sobre o tema até que tanto leitor como escritor saibam o que querem dizer através da meia-dúzia de termos mais simples e necessários frequentemente usados.

UM SISTEMA ECONÔMICO

A primeira coisa na qual um homem deve pensar quando ele propõe um sistema econômico é; QUAL É SUA FUNÇÃO? E a resposta é: garantir que toda a população seja capaz de comer (de maneira sadia), de se abrigar (decentemente) e se vestir (de modo adequado ao clima). Outra forma dessa afirmação é a de Mussolini:

"Disciplinar as forças econômicas e igualá-las às necessidades da nação".

A Esquerda afirma que a propriedade privada destruiu esse propósito autêntico de um sistema econômico. Vejamos como a propriedade era definida, no início da era capitalista durante a Revolução Francesa.

"A propriedade é o direito que cada cidadão tem de desfrutar e dispor da porção de bens que lhe é garantida pela lei. O direito de propriedade é limitado, bem como o são todos os outros direitos pela obrigação de respeitar os direitos alheios. Ela não pode ser prejudicial à segurança, nem à liberdade ou à existência, nem à propriedade de outros homens. Cada posse, cada tráfico, que viole este princípio é ilícito e imoral" - Robespierre.

USURA

A perspectiva do maldito século XIX mostra pouco mais do que a violação desses princípios pela usurocracia demoliberal. A doutrina do Capital, em resumo, demonstrou ser pouco mais do que a idéia de que ladrões desprovidos de princípios e grupos antissociais deveriam ter a permissão de mastigar os direitos de propriedade. Essa tendência a "mastigar" tem sido reconhecida e estigmatizada desde o tempo das leis de Moisés e ele a chamou de neschek. E nada difere mais disso do que o direito de compartilhar os frutos de um trabalho comum cooperativo.

De fato, a usura tornou-se a força dominante no mundo moderno. "Ademais, o imperialismo é uma imensa acumulação de capital em uns poucos países, o que, como nós vimos, chega a 4 ou 5 mil milhões de libras esterlinas em garantias. Daí o crescimento estraordinário de uma classe, ou melhor um estrato, de rentistas, ou seja, pessoas que vivem de 'cortar cupões', que não tomar parte de qualquer iniciativa, e cuja profissão é o ócio. A exportação de capital, uma das bases econômicas mais essenciais do imperialismo, isola ainda mais essa camada rentista em relação a produção, e imprime o selo do parasitismo em todo o país vivendo da exploração do trabalho de diversos países e colônias ultramarinas". V.I. Lênin, citando Hobson, em "Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo".

Muito bem! Isso vem de Lênin. Mas você poderia citar a mesmas substância a partir de Hitler, que é um nazista (observe o parágrafo do "Minha Luta" magnificamente isolado por Wyndham Lewis em seu "Hitler" - "A luta contra as finanças internacionais e o capital prestamista tornou-se o ponto mais importante do programa nacional-socialista; a luta da nação alemã por sua independência e liberdade".

Você poderia citar a partir de Mussolini, um fascista, ou de C.H. Douglas, que se diz democrata e seus seguidores os únicos democratas autênticos. Você poderia citar a partir de McNair Wilson que é um monarquista cristão. Você poderia citar de uma dúzia de outras fontes que não fazem idéia de que estão parafraseando Lênin. As únicas pessoas que não parecem ter lido e digerido esse seu ensaio é o Partido Trabalhista Britânico e vários grupos de supostos comunistas ao redor do Ocidente.

Alguns fatos são agora conhecidos para além de partidos, algumas percepções são a herança comum de todos os homens de boa vontade e apenas os jornais judaicos e o que há de pior do que eles tentam agora obscurecê-los. Entre o que há de pior do que os jornais judaicos devemos litar os professores contratados que ensinam mentiras às novas gerações, que mentem por recompensa e que continuam a mentir por pura preguiça e inércia e por um desprezo canino pelo bem-estar da humanidade. Nesse ponto, e para prevenir a profusão ignoratio elenchi, eu gostaria de distinguir entre o preconceito contra o judeu enquanto tal e a sugestão de que o judeu deve encarar seu próprio problema.

Ele em seu caso individual deseja observar a lei de Moisés? Ele propõe continuar a roubar outros homens através da usura ao mesmo tempo em que deseja ser considerado um "semelhante"? Esse é o tipo de duplicidade que uma corrupta delegação inglesa tentou impor através da Liga das Nações (fachada para a pior corrupção internacional em Basel).

A usura é o câncer do mundo, que apenas a faca cirúrgica do fascismo pode extirpar da vida das nações.

APÊNDICE

1. "O negócio bancário é declarado um monopólio estatal", Lênin, Kryienko, Podvoisky, Gorbunov. O que, é claro, significa "todo o poder" para o Estado.

2. "Disciplinar as forças econômicas e igualá-las às necessidades da nação", Mussolini, Consgina para o Ano XII.

3. "Problema da produção resolvido, economistas convocados pelo Estado devem agora resolver o problema da distribuição". Ibid.

4. Rossoni, ministro italiano, indica a política de ofammassi, ou agrupamento de cereais com possibilidades de um sistema de impostos totalmente diferente.

Observe que extorsão tem normalmente consistido em forçar pessoas a pagar em uma substância ou através de um meio que elas não possuem e que elas são então forçadas a obter a um preço injusto.

5. Bankhead propos o uso da letra de câmbio selada no Senado americano, possivelmente a única proposta monetária 100% honesta feita na legislatura americana desde que a civilização americana oi destruída pela Guerra Civil.

6. Daladier, independentemente de seus erros, propos o uso da letra de câmbio selada em uma assembléia do Partido Radical Francês, possivelmente a única proposta monetária 100% honesta feita naquele país podre e miserável desde que Necker lá introduziu seu verme, e desde que o Banco da França foi cravado nas costas do povo. 

Essas afirmações devem ser encaradas e ou verificadas ou refutadas. Uma gigantesca e escorregadia ignorância persiste. Preocupações americanas contratam o mais baixo grau de jornalistas para obscurecer a mente americana. Nós deveríamos supor que nem empregador nem escritor sabem que salários são pagos em dinheiro; que dividendos são pagos em dinheiro; que matérias-primas e produtos acabados são comprados com dinheiro?

Quanto a melhores mentiras não há limite discernível entre as mentiras do Saturday Evening Post e os pronunciamentos diários dos "estadistas" e da imprensa britânicas.

SOBRE A INGLATERRA

Até onde eu saiba nenhuma política monetária 100% honesta foi oficialmente proposta no Parlamento Britânico desde que o Banco da Inglaterra foi fundado. Nem qualquer dos maiores corpos religiosos na Inglaterra falou em favor da honestidade monetária comum. O seu sistema de impostos é uma infâmia. O camponês não come mais porque as pinturas de Raeburn ou Constable são tomadas da casa senhorial e colocadas no porão do comerciante de arte judeu sob uma sombria e iníqua taxa sobre heranças.

O obscurecimento do senso da natureza do dinheiro destruiu todas essas belas coisas inutilmente. A casa senhorial desmantelada que podia e devia mostrar um modelo de como viver, foi transformada em um esqueleto sem propósito algum. Se algum aparador de sebe ou cavador de canal recebeu meia onça a mais de carne PORQUE a biblioteca da casa senhorial foi vendida e seus quadros colocados a leilão, poderia haver alguma justificativa nesses impostos. Mas não há justificativa para os impostos como eles são agora na Grã-Bretanha.

PARA O ARKANSAS

"No Mississippi o plantador de algodão médio produz quatro fardos de algodão por ano, no mercado atual, 42.00 dólares o fardo. Isso equivale a 170 dólares por um ano de trabalho. Uma filha dessa família ganhando em média 12 dólares por semana em uma fábrica próxima ganha 624 dólares por ano, mais de três vezes a renda da fazenda" - Commonwealth College Fortnightly de Mensa, Arkansas em 1 de março de 1938. Daí as afirmações de que "dinheiro não é tudo" e que "esse não é exclusivamente um problema monetário".

Vocês poderiam ter uma cunhagem justa e estável; medida por ovos, pelo trabalho ou por um índice logarítmico de preços, e este fazendeiro poderia ainda ganhar apenas 42.00 dólares por fardo e ser incapaz de plantar mais algodão por acre. Essa afirmação vai satisfazer meus amigos bolcheviques no Arkansas e aqueles que acham que eu estou preocupado apenas com dinheiro?

O Totalitarismo Monoteísta

Por Alain de Benoist

O totalitarismo cresce fora de um desejo de estabelecer unidade social e humana ao reduzir a diversidade de indivíduos e povos em prol de um modelo único. Nesse sentido, é legítimo falar de uma “arena social politeísta, referindo-se aos múltiplos e complementares deuses” contra uma “arena monoteísta fundada na ilusão da unidade”. Uma vez o politeísmo de valor “desaparece, nós encontramos o totalitarismo”. O Pensamento pagão, por outro lado, o qual fundamentalmente permanece anexado ao enraizamento e ao lugar, e o qual é um centro preferencial da cristalização da identidade humana, rejeita todas as formas de universalismo religioso e filosófico.

domingo, 1 de abril de 2012

O Espaço-Tempo

por Julius Evola

Já chamamos antes a atenção para o facto de o homem tradicional e o homem moderno não diferirem simplesmente pela sua mentalidade e pelo tipo da sua civilização. Pelo contrário, a diferença diz também respeito às próprias possibilidades da experiência, e ao modo de vivê-las no mundo da natureza, e portanto às categorias da percepção e à relação fundamental entre o Eu e o não-Eu. O espaço, o tempo e a casualidade tiveram, para o homem tradicional, um carácter muito diferente do que corresponde à ex-periência do homem de épocas mais recentes. O erro da chamada gnoseologia (ou teoria do conhecimento) a partir de Kant é o de supor que estas formas fundamentais da experiência humana têm sido sempre as mesmas, e, em particular, as que são familiares ao homem actual. Na realidade, também a este respeito se pode verificar uma transformação profunda, em conformidade com o processo geral de involucão. Vamos limitar-nos aqui a considerar a referida diferença no que respeita ao espaço e ao tempo.

Em relação ao tempo, já na introdução se indicou o ponto fundamental: o tempo das civilizações tradicionais não é um tempo «histórico» linear. Não há experiência do «devir». Para esclarecer este ponto, é conveniente precisar o que significa o tempo hoje em dia. É uma simples ordem irreversível de acontecimentos sucessivos. As suas partes são homogéneas umas em relação às outras e, por isso, podem medir-se como uma quantidade. Além disso, implica também a diferenciação do «antes» e do «depois» (passado e futuro) em relação a um ponto de referência totalmente relativo (o presente). Mas o facto de ser passado ou futuro, situado num ponto ou noutro do tempo, não confere nenhuma qualidade especial a um acontecimento determinado: liga-o a uma data, e é tudo. Em resumo, existe uma espécie de indiferença recíproca entre o tempo e os seus conteúdos. A temporalidade destes conteúdos significa simplesmente que eles são arrastados por uma corrente contínua que nunca volta atrás e de que, no fundo, cada ponto, embora seja sempre diferente, contudo é sempre igual a qualquer outro. Nas concepções científicas mais recentes — como a de Minkowski ou de Einstein — o tempo chega mesmo a perder este carácter. Com efeito fala-se da relatividade do tempo, do tempo como «quarta dimensão do espaço» e assim por diante, o que significa que o tempo se transforma numa ordem matemática, absolutamente indiferente aos acontecimentos, que só podem encontrar-se num «antes» em vez de num «depois» em função do sistema de referência escolhido.

A experiência tradicional do tempo era de um tipo completamente diferente. Nela o tempo não é uma quantidade, mas sim uma qualidade; não é uma série, mas sim um ritmo. Não transcorre uniforme e indefinidamente, mas sim fractura-se em ciclos, em períodos, dos quais cada um dos momentos tem um significado, e por isso um valor específico em relação a todos os outros, uma individualidade bem viva e uma funcionalidade. Estes ciclos ou períodos — o «grande ano» caldeu e helénico, o saeculum etrusco-latino, o éon irânico, os «sóis» aztecas, os kalpa hindus, e assim por diante — representam cada um deles um desenvolvimento completo, formando unidades fechadas e perfeitas, portanto idênticas umas às outras, e ao repetirem-se não se alteram nem multiplicam, mas sim sucedem-se — conforme a feliz expressão de alguém — como «uma série de eternidades». Tratando-se de um conjunto não quantitativo mas sim orgânico, a duração cronológica do saeculum podia também ser flexível. Durações quantitativamente desiguais podiam ser consideradas como iguais, desde que cada uma delas contivesse e reproduzisse todos os momentos de um ciclo. Por isso, assistimos à repetição tradicional de números fixos — por exemplo o sete, o nove, o doze, o mil — que não exprimem quantidades mas sim estruturas típicas de ritmo, permitindo ordenar durações materialmente diferentes, mas simbolicamente equivalentes.

Nesta base, o mundo tradicional ao longo da sequência cronológica indefinida conheceu uma hierarquia assente nas correspondências analógicas entre grandes ciclos e pequenos ciclos e, para dizer a verdade, desembocando numa espécie de redução da multiplicidade temporal a uma unidade supratemporal. Com o pequeno ciclo a reproduzir analogicamente o grande ciclo, dispunha-se virtualmente de um meio de participar em ordens cada vez mais vastas, em durações cada vez mais livres de qualquer resíduo de matéria ou de contingência até atingir — por assim dizer —, uma espécie de espaço-tempo. Ao ordenar o tempo a partir de cima, de maneira que cada duração se repartisse em períodos cíclicos reflectindo essa estrutura, ao associar a determinados momentos destes ciclos celebrações, ritos ou festas destinados a despertar ou a fazer pressentir os correspondentes significados, o mundo tradicional, também sob este aspecto, atuou no sentido de uma libertação e de uma transfiguração; deteve o fluxo confuso das águas; criou nestas a transparência através da corrente do devir que permite a visão da imóvel profundidade. Portanto não devemos espantar-nos por antigamente o calendário, base da medição do tempo, ter um carácter sagrado e ter sido confiado à ciência da casta sacerdotal, nem por certas horas do dia, certos dias da semana, e certos dias do ano, terem sido consagrados a determinadas divindades ou associados a determinados destinos. De resto, como resíduo disto o catolicismo conhece um ano recheado de festas religiosas e de dias mais ou menos assinalados por acontecimentos sagrados, em que se mantém ainda um eco daquela antiga concepção do tempo, ritmada pelo rito, transfigurada pelo símbolo, formada à imagem de uma «história sagrada».

O facto de se ter adotado tradicionalmente para fixar as unidades de ritmo as estrelas, os períodos estelares e sobretudo pontos do curso solar, portanto está muito longe de vir apoiar as chamadas interpretações «naturalistas»; com efeito, o mundo tradicional nunca «divinizou» os elementos da natureza e do céu, mas sim, pelo contrário, estes elementos foram assumidos como matéria para exprimir analogicamente significados divinos; significados estes percebidos directamente por civilizações que «não consideravam o céu superficialmente» ou como «gado a pastar». Pode-se mesmo admitir que o percurso anual do Sol foi primordialmente o centro e a origem de um sistema unitário (de que a notação do calendário não passava de um simples aspecto) que estabelecia como constantes as interferências e correspondências simbólicas e mágicas entre o homem, o cosmos e a realidade sobrenatural. As duas curvas da descida e da subida da luz solar no ano na realidade apresentam-se como a matéria mais imediata para exprimir o significado sacrificial da morte e do renascimento, o ciclo constituído pela via obscura descendente e pela via luminosa ascendente.

Prestando-se as constelações zodiacais de uma maneira natural à fixação dos «momentos» deste desenvolvimento, articulações do «deus-ano», o número doze encontra-se como sendo uma das «siglas do ritmo» que surgem com maior frequência a propósito de tudo o que tenha o sentido de uma realização «solar» e figura igualmente onde quer que se tiver constituído um centro que de uma maneira ou doutra tenha encarnado ou tentado encarnar a tradição urano-solar,ou onde quer que o mito ou a lenda tenham dado em figurações ou personificações simbólicas um tipo de regência análogo.

Mas no percurso duodecimal do Sol através dos signos zodiacais existe um ponto com um significado particular: o ponto crítico correspondente ao lugar mais baixo da eclíptica, o solstício de Inverno, fim da descida, início da reascensão, separação do período obscuro e do período luminoso. Segundo figurações que remontam à alta pré-história, aqui o «deus-ano» aparece como o «machado» ou o «deus-machado» que despedaça em duas partes o sinal circular do ano, ou outros símbolos equivalentes: espiritualmente, é o momento tipicamente «triunfal» da solaridade (em vários mitos é dado precisamente como o resultado vito-rioso da luta de um herói solar contra criaturas que representam o princípio tenebroso, frequentemente com uma referência ao signo zodiacal em que se encontra, de acordo com as idades, o solstício de Inverno): numa «vida nova», num novo cïclo —naíalis dii solis invicti.

Com um estudo comparado, pode-se facilmente salientar a correspondência e a uniformidade de festas e de ritos calendariais fundamentais, por meios dos quais se introduzia o sagrado entre as malhas do tempo, de modo a fraccionar a duração em outras tantas imagens cíclicas de uma história eterna, que os fenómenos da natureza vinham recordar e ritmar.

Alem disso, o tempo apresentava na concepção tradicional um aspecto mágico. Tendo cada ponto de um ciclo — devido à lei das correspondências analógicas - uma individualidade, a duração do ciclo desenrolava a sucessão periódica de manifestações típicas de determinadas influências e de determinados poderes: apresentava assim tempos propícios e não propícios, fastos e nefastos. Este elemento qualitativo do tempo constituía uma parte substancial na ciência do rito: as partes do tempo não podiam ser consideradas como indiferentes às coisas a realizar, apresentavam um carácter ativo que se tinha de ter em conta. Cada portanto tinha o seu «tempo» — tinha de ser executado num momento determinado, fora do qual a sua virtude se encontrava diminuída ou paralisada, se não mesmo produzindo um efeito oposto. Segundo certos pontos de vista, po-demos aliás concordar com os autores que têm afirmado que o antigo calendário assinalava apenas a ordem de periodicidade de um sistema de ritos. De um modo mais geral, conheceram-se disciplinas — como as ciências augurais — destinadas a inquirir se um dado momento ou período seria propício para a realização de um certo ato ou não —e já aludimos que era grande a preocupação que neste sentido se manifestou na própria arte militar romana.

É conveniente notar que tudo isto não corresponde de forma alguma a um «fatalismo», mas sim que exprime antes a intenção permanente do homem tradicional de prolongar e de integrar a sua própria força com uma força não-humana descobrindo momentos em que dois ritmos — o humano e o das potências naturais — por uma lei de sintonia, de acção concordante e de correspondência entre o físico c o metafísico se podem tornar uma única e mesma coisa, a ponto de arrastarem para a acção poderes invisíveis. Também assim se volta portanto a confirmar a concepção qualitativa do tempo vivo, em que cada hora e cada momento tem a sua fisionomia e a sua «virtude» e em que — no plano mais elevado, o simbólico-sacro — existem leis cíclicas que desenvolvem identicamente uma «cadeia ininterrupta de eternidades».

Daqui deriva uma consequência que não deixa de ter importância. Se tradicionalmente o tempo empírico foi ritmado e medido por um tempo transcendente, contendo não fatos mas sim significados, e se é neste tempo essencialmente supra-histórico que temos de reconhecer o lugar em que os mitos, os heróis e os deuses tradicionais vivem e «atuam» — temos no entanto de conceber uma passagem em sentido inverso, de baixo para cima. Por outras palavras, pode acontecer que alguns fatos ou personagens historicamente reais tenham repetido e dramatizado um rito, tenham encarnado — parcial ou totalmente, conscientemente ou não — estruturas e símbolos supra-históricos. Então, por isso mesmo, estes factos ou estes seres passam de um tempo para o outro, tornando-se expressões novas de realidades pré-existentes. Pertencem simultaneamente aos dois tempos, são personagens e factos ao mesmo tempo reais e simbólicos, e nessa base podem ser transportados de um período para outro, antes ou depois da sua existência real, quando se tiver em vista o elemento supra-histórico por eles representado. Por isso, certas investigações dos estudiosos modernos sobre a historicidade de alguns acontecimentos ou personagens do mundo tradicional, as suas preocupações em separar o elemento histórico do elemento mítico ou lendário, os seus espantos perante as «infantis» cronologias tradicionais, e finalmente certas ideias suas sobre as chamadas «evemerizações», assentam absolutamente no vácuo. Nos casos em questão — como já dissemos — são precisamente o mito e a anti-história que conduzem ao conhecimento mais completo da «história».

Além disso, é mais ou menos nesta mesma ordem de ideias que se tem .de procurar o verdadeiro sentido das lendas relativas a personagens levadas para o «invisível» e por isso «nunca mortas», destinadas a «despertar» ou a manifestar-se de novo ao fim de certo tempo (correspondência cíclica), como por exemplo Alexandre Magno, o rei Artur, «Frederico», o rei D. Sebastião, encarnações várias de um tema único, transpostas da realidade para a supra-realidade.