sábado, 24 de março de 2012

Julius Evola - O “Amor Pelo longínquo”

por Julius Evola


No campo das reações interiores e daquela disciplina que, com um neologismo, foi denominada a etologia, se podem distinguir de formas fundamentais, marcadas respectivamente com as fórmulas de “amor pelo próximo” e “amor pelo longínquo” (que não é outra que a nietzscheana Liebe der Ferne). No primeiro caso se sente atraído por aquilo que se encontra próximo, no segundo, do contrário, pelo que está longe. O primeiro tem que ver com a “democracia”, no sentido mais amplo e sobretudo existencial do termo; o segundo, contrariamente, tem relação com um tipo humano mais alt, rastreável com o mundo da Tradição.

No primeiro caso, a fim de que uma pessoa, um chefe, seja seguido, é necessário que se sinta ele como “um dos nossos”. Assim, pois, alguém cunhou com tal respeito a feliz expressão de “nostrismo”. As relações deste com a “popularidade”, com o “ir em direção ao povo” ou “netre o povo”, assim como também, consequentemente, com sua infrutibilidade em relação a tudo o que signifique diferenças qualitativas, resultam sumamente evidentes. Casos recentes e significativos de tal orientação são conhecidos por todos nós, podendo-se incluir entre os mesmos também a insípida vocação “viajante” dos mesmos Pontífices, alí onde o normal tivera sido alimentar uma casi-inacessibilidade, essa mesma pela qual certos soberanos apareceram ante o povo como “alturas solitárias”. Há que salientar aqui o pathos da situação, posto que pode existir uma proximidade física que não exclui senão que mantêm a distância interior.

Se sabe do papel relevante que o “nostrismo” teve ainda nos regimes totalitários passados e de hoje em dia. São patéticas as cenas, que não deixaram de ressaltar por toda parte, de ditadores que demonstram compaixão por figurar entre o “povo”. Alí onde a base do poder é em grande medida demagógica, resulta pelo demais quase uma necessidade. O “Grande Companheiro” (Stalin) não cessou de ser o companheiro. Tudo isto pertence a um preciso clima coletivo. Faz já mais de um século e meio que Donoso Cortés, filósofo e homem de Estado espanhol, teve ocasião de escrever com amargura que já não existem soberanos que pretendem apresentar-se verdadeiramente como tais; e que se eles o fizerem, quiçá quase ninguém os seguiria. De modo tal que parece como se se impusera hoje em dia uma espécie de prostituição, já posta em relevo por Weininger no mundo da política. Não é acaso afirmar que se hoje existissem chefes em um autêntico sentido aristocrático, estes muitas vezes estariam obrigados a esconder sua natureza e apresentar-se sob a vestimenta de agitadores democráticos de massas, se é que pretendessem exercer uma influência. O único setor que em parte permaneceu ainda imune de tal contaminação é o chefe do exército, ainda se já não é fácil falar alí do estilo severo e impessoal que caracterizou por exemplo o prussianismo.

Ao “nostrismo” corresponde um tipo humano essencialmente plebeu. O tipo oposto é aquele ao qual se pode referir a fórmula do “amor pelo longínquo”. Não a proximidade “humana”, senão a distância suscita nele um sentimento que no fundo o eleva e, ao mesmo tempo, o impulsiona a seguir e a obedecer, em termos sumamente diferentes do outro tipo. Antigamente se podia falar da magia ou do fascínio da “superioridade olímpica”. Vibram aqui outras cordas da alma. Em um domínio diferente, nós não podemos por certo ver um progresso na passagem do homem-deus do mundo clássico (por mais simbólico ou ideal que fosse) ao deus-homem do judeu-cristianismo, aquele deus que se faz homem e funda uma religião de fundo humano, com um amor que deveria mancomunar a todos os homens assim como fazê-los próximos um do outro. Não equivocadamente, Nietzsche denunciou neste ao oposto do que designou com a palavra vornhem, que se traduz por “distinto” ou “aristocrático”.

O céu noturno estrelado por cima de si era exaltado por Kant por sua indizível longinquidade, e tal sentimento é provado por muitos seres não vulgares, de maneira totalmente natural. Nos encontramos aqui no limite. Sem embargo, um reflexo pode ser ressaltado também em planos infinitamente mais condicionados. À distância “anagógica” (quer dizer, à distância que eleva), se pode opor aquele que se esconde sob a vestimenta de uma certa humildade. É de Séneca o dito de que não existe orgulho mais detestável que o dos humildes. Este dito deriva de uma agúda análise do fundo da humildade ostentada por pessoas que, no fundo, sentem compaixão consigo mesmas, sintindo-se, do contrário, sumamente insuportáveis em relação a tudo o que é superior a elas. O sentir-se juntas nestas é natural e remete ao que temos dito mais acima.

Como em muitos outros casos, as considerações aqui expostas são compreendidas com a finalidade de estabelecer critérios de discriminação, de medida, e se encontram em verdade em uma posição de contracorrente com o atual.

A respeito da mania de popularidade dos grandes, não resistimos à tentação de referir um episódio pessoal. Anos atrás dissemos chegar um de nosso livros a um soberano reespeitando as regras normais de etiqueta, quer dizer, não de maneira direta, senão através de um intermediário. E bem, nós dissemos a pura verdade quando afirmamos ter provado quase um schock ao receber uma carta de agradecimento que começava com as palavras “Querido (!) Evola”, sem que eu tivesse conhecido pessoalmente tal personagem ou tivesse sequer escrito ao tal. Esta “democraticidade” parece estar muito em voga. Em vez disso, hoje em dia tenho desgosto àquela pessoa que ainda tem uma sensibilidade pelos antigos valores. Em um domínio sumamente banal, se podia recordar como índice de uma linha similar, um uso muito difundido nos Estados Unidos, o país mais plebeu da Terra. Em especial na nova geração não se pode trocar um par de palavras com alguém sem que este nos convide a tuteá-lo e chamá-lo com seu primeiro nome, Al, Joe, etc. Em constraste com isto podemos recordar aqueles filhos que tratavam de Você a seus próprios pais e de uma certa pessoa, a nós sumamente próxima, a qual continuava tratando de Você a meninas (meninas, bem) ainda logo de ter-se deitado com elas, enquanto que películas, que seguramente refletem os costumes do mais além do oceano, nos apresentam o estereótipo daquele que, logo de um simples e insípido beijo em seguida tuteia a mulher.

sexta-feira, 23 de março de 2012

A Idéia de Cultura Integral

por Stephen Edred Flowers



I - Introdução

Nossa cultura está doente. Ela tem passado por um processo de desintegração já há alguns séculos. Suas várias partes constituintes tem sido progressivamente dispersas e desconectadas de seus ancoradouros naturais ou orgânicas. Tal desintegração somente pode ser retificada, curada, como ela era, através da integração, ou reintegração.

A palavra "cultura" tem me irritado um pouco ao longo dos anos.

As pessoas parecem usá-la de modos vagos e ambíguos. Quando eu comecei a ensinar literatura universal na Universidade do Texas no outono de 1984 eu realizei um estudo mais detalhado do termo "cultura", com a intenção de usar o que eu descobrisse em minhas palestras. O resultado foi a descoberta da "rede cultural". 

A cultura é composta por pelo menos quatro diferentes categorias, cada uma das quais é essencial para toda a idéia de cultural, nenhuma delas podendo ser ignorado quando se tenta descrever a cultura em sua totalidade. Essas quatro categorias são: cultura étnica, cultura ética, cultura material, e cultura linguística.

Na maior parte das discussões passadas a respeito dessas categorias culturais, a ênfase tem sido posta na existência das quatro categorias, e na necessidade de cada uma delas para uma descrição da totalidade. Essa ênfase foi boa até onde foi, mas foi consideravelmente estática. Na verdade, o que ocorre em culturas dinâmicas é que as categorias da cultura estão todas constantemente interagindo umas com as outras. Há um fluxo constante e interligado das categorias, cada uma das quais serve para reforçar as outras.

Nossa primeira tarefa é identificar as partes constituintes da cultura, ou seja, do mapa completo da experiência e ação humanas. Daí segue o imperativo de desenvolver cada uma dessas categorias intensamente o máximo que nossas habilidades permitirem. Finalmente se torna necessário completar o círculo pela reintegração das partes componentes em um todo orgânico e vital no qual a vontade individual expresse um homem culturalmente autêntico. Mais importantemente, o processo de "completar o círculo" serve para revigorar a própria cultura.

Esse processo orgânico é alcançado por um esforço consciente de integrar as categorias culturais e assim reconstruir uma cultura integral. Isso deve ser feito primeiramente de modo individual antes que possa ser transposto a um nível coletivo. A reintegração cultural começa a partir de dentro.

Ao fim deste artigo se tornará aparente que se for possível concordar que a cultural ideal deve ser integral, e que os indivíduos somente são realmente livres dentro do contexto de uma cultura integral, então seguir-se-ão toda uma série de imperativos pessoais e coletivos. Esses imperativos geralmente correm em sentido contrário às tendências da vida moderna, que tende a desintegrar a cultura em favor de aparentes interesses do indivíduo isolado. Esse indivíduo, separado de sua cultura, então se torna um alvo fácil para promotores de vários interesses transitórios. Esses interesses podem envolver uma noção política, ou um novo produto para consumo, ou qualquer uma entre um bilhão de outras coisas. O indivíduo desintegrado, atomizado, desconectado de seu contexto cultural orgânico é relativamente mais suscetível a essas sugestões do que alguém firmemente enraizado em um conjunto de valores culturais objetivos e conscientes. Valores culturais reais desse tipo, porém, não podem ser manufaturados artificialmente. Eles devem crescer a partir de um profundo solo histórico.

II - Cultura

De modo a desenvolver mais completamente a idéia de cultura integral, uma compreensão mais global das categorias da cultura deve ser alcançada.

A assim chamada rede cultural aparece na ilustração abaixo. Essa rede mostra as quatro categorias culturais organizadas de um modo que sugere bem mais do que sua mera listagem poderia.


As duas à esquerda do diagrama são principalmente materiais em natureza, enquanto as duas à direita são principalmente simbólicas. Enquanto as duas de cima podem ser consideradas primárias, as duas de baixo são secundárias.

Todas as categorias culturais envolvem contato com dois ou mais humanos. A cultura étnica está enraizada na conexão sexual entre um homem e uma mulher que leva à produção de crianças. O produto dessa união é o veículo corpóreo para que a cultura se manifeste no mundo material. Sem essa atividade reprodutiva - a encarnação (incorporação) literal da cultura - obviamente nenhuma cultura é possível. O próprio corpo, na forma do DNA, é considerado por muitos como codificando certos padrões culturais, e também é verdadeiro que dados culturais absorvidos pelo ser humano em desenvolvimento (principalmente nos primeiros anos de vida) efetivamente resulta em mudanças físicas permanentes no cérebro. (Ver Cultura em Mente de Brad Shore, Oxford, 1996.)

O elo que indivíduos vivos possuem com seus ancestrais não é meramente simbólico. É também físico. A totalidade dos corpos de nossos ancestrais constituem uma espécie de super-corpo cultural para nós. Cultura étnica é cultura corporificada.

Na outra ponta de um espectro aparente está a cultura ética. O ethos de uma cultura é seu simbolismo ou ideologia. Essa talvez seja a parte da cultura que mais nos interessa, já que nós normalmente somos mais fascinados pelas idéias de nossa cultura mais do que pelas das outras. Essa é a parte da cultura que contém estruturas, padrões, e mitos (ou metanarrativas) formadas por idéias simbólicas.

As palavrás "étnica" e "ética" são escolhidas aqui, ainda que outros termos pudessem ter sido utilizados, para demonstrar o elo arcaico entre biologia e idéias.

Para os antigos gregos o ethnos ou tribo era determinado pelos deuses aos quais se sacrificava, e de onde se absorvia os próprios valores. Gregos eram aqueles que sacrificavam aos deuses gregos, falavam a língua grega e perpetuavam biologicamente o ethos grego. Uma padrão de crenças similar pode ser detectado em outros ramos da tradição indo-europeia.

A cultura simbólica, ou ética, é inteiramente invisível e supra-sensível. Nós a conhecemos através de suas manifestações nas outras três categorias culturais: étnica, material, e linguística.

A cultura simbólica está codificada mais perfeitamente na cultura linguística. Isso se deve principalmente ao código linguístico falado e compreendido pelos membros de uma certa cultura. Mas o código linguístico, sua fonologia, morfologia, sintaxe, e semântica também constituem um código semiótico complexo através do quai os membros da cultura compreendem o mundo e se expressam a outras partes do mundo. Sem tal comunicação entre humanos, e metacomunicação entre humanos e outras partes do cosmo, os humanos seriam impotentes no mundo.

A cultura material é facilmente percebida. Ela é formada por tudo que uma cultura produz, ou sea, todos os objetos físicos feitos por membros daquela cultura. Isso pode ser uma ponta de flecha, ou um arranhacéus. Esses são os objetos feitos pela mão humana após terem sido imaginados pelo coração humano. Em outras palavras esses objetos são artificiais, ou seja, "feitos por artifício do homem". Costuma ser o caso de que tudo que sabemos sobre uma cultura arcaica se resumir aos objetos que a mesma deixou para trás. Mas a partir desses objetos muitas vezes podemos reconstruir os valores de uma cultura. Se a cultura moderna fosse ser avaliada apenas por sua cultura material, eu não tenho certeza sobre o que pensaria os arqueólogos do futuro. Eles certamente a considerariam titânica, mas talvez também estéril e vazia.

Uma coisa que deveria ser óbvia é que estes quatro componentes da cultura não são categorias separadas e isoladas. Ao invés eles são quatro pólos de manifestação que pertencem a um todo maior. Cada categoria interage com as outras três em um discurso ativo. A cultura linguística cruza a material na forma da escrita, de inscrições, livros, softwares de computação, etc. A cultura simbólica não somente fornece formas para a produção de objetos materiais (como templos e esculturas), como também normalmente determina a natureza da reprodução física de corpos humanos na forma de leis e costumes relativos ao casamente, reprodução e criação. (O caos generalizado e desintegração atual desses costumos é tanto uma declaração sobre esse tópico como também o são os costumes mais tradicionais encontrados em outros tempos ou culturas).

As quatro categorias básicas da cultura se tocam e influenciam uma a outra, e nenhuma delas pode existir sem as outras três. Mudanças em uma inevitavelmente levarão a alterações nas outras partes. A vitalidade em uma ajudará a revigorar as outras, enquanto a fraqueza em uma também naturalmente resultará em uma difusão dessa fraqueza para o resto da totalidade.

Em nosso estado atual de fragmentação cultural, essa percepção da natureza integrada da cultura foi perdido. A causa fundamental dessa fragmentação também deve ser aparente. Um dos modos mais eficazes de se revoltar contra o mundo moderno é participar na reintegração da cultura, realizar uma síntese pessoal e cultural das várias categorias da cultura.

De modo a participar nessa revolta, deve-se começar por si mesmo. A síntese das categorias culturais interiores deve ser harmônica. Isto é, ainda que os humanos sejam em um sentido prático livres para "misturar e combinar" elementos culturais, apenas idiotas suporiam seriamente que eles próprios são sábios o bastante para projetar uma síntese tal antes de eles mesmos serem produtos irtualmente finalizados da cultura e do caráter. Seria como pedir que uma criança projetasse sua vida aos oito anos de idade! Nesse caso nós não teríamos que advinhar porque motivo tal pessoa seria bastante infeliz aos vinte anos de idade. A nossa própria síntese cultural individual existe in potentia. É a tarefa do indivíduo perceber isso, torná-la real, atualizar o potencial.

Essa síntese cultural pré-existente, à qual buscamos retornar em uma oitava superior, só pode ser alcançada em um tempo em que a totalidade integrada esteja em evidência. É por isso que os indivíduos interessados em autenticidade cultural almejam tanto por tempos pagãos ou arcaicos. Não é tão uma nostalgia pelo "paganismo" per se, como uma nostalgia pela completude e pela natureza integral do eu e da cultura que é possível em tais sociedades.

Em um nível pessoal, individual cabe ao praticante da cultura integral descobrir e então harmonizar os conteúdos de seu corpo, cérebro (mente), língua (linguagem) e seus feitos ou ações quotidianas. Cada parte da vida recebe indicações de outra parte integral dessa vida multidimensional. O corpo contém um código que porta a história essencial de todos os nossos ancestrais. Nossos mitos culturais articulam essa história, e esses mitos são então recodificados em histórias expressas às vezes em linguagens arcaicas. Esses códigos portam as instruções para a ação interior que pode levar o indivíduo de volta a um estado integrado de existência. É assim que eles funcionavam em tempos pretéritos, e é assim que eles podem funcionar hoje. Meramente ler e pensar sobre esses padrões normalmente não é o bastante. Outras técnicas construídas para imprimir os códigos na mente consciente devem ser experimentados. Níveis altos de pensamento repetido, concentrado, ordenado e intenso devem ser experimentados. Este não é o lugar para descrever essas técnicas.

Uma parte essencial do processo de reintegrar culturalmente a personalidade envolve a interação consciente com outros que pertençam a esta cultura. Cultura é, em uma análise final, sempre relativa ao contato entre humanos. A experiência individual isolada é uma forma de misticismo, mas não uma manifestação de atividade cultural integrada. Deve-se determinar por conta própria como se pode contribuir melhor para a tarefa da integração cultural, ou permitir que ela seja determinada por outros. Alguns fornecerão corpos humanos fortes para o futuro, outros criarão instituições que irão revigorar e impulsionar a cultura adiante, outros ensinarão as sabedorias e linguagens da cultura, outros moldarão e criarão os instrumentos artísticos e práticos que portarão a cultura materialmente. Algumas almas nobres serão capazes de contribuir em mais do que uma dessas áreas. Mas todos estes âmbitos são necessários; nenhum é realmente mais importante do que os outros. Eles devem ser vistos trabalhando juntos como uma totalidade.

Pode ser notado que todas as idéias da cultura parecem estar de algum modo enraizadas no "passado". De modo a compreender a idéia do "passado", a própria idéia de história deve ser examinada.



III - Uma "História" das Idéias

Dependendo de como ele é compreendido, o conceito de "história" pode ser ou irrelevante ou essencial para a idéia de cultura integral.

Se por história entendemos uma cadeia objetiva de eventos progredindo do passado distante até o momento presente imbuída com sentido e significância "cósmicas", então a "história" pode ser descartada como "farsa". A história jamais foi, nem jamais será, algum tipo de ocupação científica limitada por fatos objetivos. A história é o que ela própria diz que é: uma história. Todas as histórias são narrativas. Para ter algum sentido todas elas devem possuir certas características de moralidade, tensão, e principalmente certos "enredos" que são inerentemente interessantes ao ouvinte ou leitor. Essas características demonstram o quanto a "história" é simplesmente mitologia reconfigurada de modo secular. Não há nada de errado com isso, a parte das mentiras que poderiam ser fomentadas caso as pessoas acreditassem de outro modo - o que, é claro, a maioria faz. Isso se deve ao fato de que o mito, ou metanarrativa, do mundo moderno no qual a maioria das pessoas vive hoje possui como um de seus suportes principais a idéia de uma "história objetiva". (Esta é uma metanarrativa herdada do judaico-cristianismo, a qual foi a primeira ideologia a sacralizar eventos históricos mundanos e imbuí-los de significância cósmica). Por outro lado, se por história queremos dizer uma visão sintética de mitos, estruturas, e idéias, bem com vários eventos contemplados ao longo do tempo, então "história" é fundamental para a cultura.

Mircea Eliade jamais cansou de apontar que o mito busca destruir a história. Isto é, o mito é eternamente verdadeiro e recorrente, graças a suas características estruturais herdadas. A história, como normalmente compreendida, porém, devia ser provisionalmente verdadeira, inevitavelmente aberta a várias interpretações, e fundamentalmente cronológica e progressiva. O mito é eternamente verdadeiro, enquanto a história é não raro uma celebração do absurdo. O pensador e crítico francês Alain de Benoist, entre outros, a indicou que o passado, presente e futuro não são, em realidade, uma progressão linear, mas sim três dimensões inteiramente distintas da existência humana. Outras idéias, tais como as de Oswald Spengler, enfatizam a "morfologia da história" e veem culturas como sujeitos orgânicos de "história" limitados por leis cíclicas de nascimento, vida, e morte.

Ainda que ela seja certamente uma metanarrativa, ou mito, não obstante é útil revisar a noção ordinária do historiador a respeito da progressão de épocas na história das ideias europeias.

O tempo anterior ao advento do Cristianismo é agrupado por historiadores em um período que eles chamam de "antigo". Eles não sabem o que fazer com isso em um sentido mais amplo, já que não havia qualquer mito supremo ou teoria geral em cujos termos esse período poderia ser compreendido. Os indoeuropeus (e todos os seus ramos culturais) tinham seu próprio conjunto de valores, os egípcios o seu, os chineses o seu, e daí em diante. Uma pluralidade inteligível reinava e categorias étnicas eram suficientes para diferenciar culturas em um sentido mais geral também: Nós podemos falar de um povo, religião, obras de arte, e língua germânicas de um modo mais ou menos coerente e integrado. O mesmo é válido para os gregos, os celtas, ou qualquer dos outros ramos da árvore indoeuropeia. É claro, isso é igualmente verdadeiro para todas as outras culturas "antigas". Nós confrontamos uma situação curiosa, porém, quando examinamos culturas de autenticidade contínua: sejam elas encontradas na Índia, ou em outros lugares. Certas culturas não sofreram qualquer grande ruptura entre seus passados arcaicos e seus estados atuais. Porém, a maioria das culturas passou por grandes perturbações em sua continuidade simbólica.

Essa perturbação é identificada nos pontos das mudanças do paradigma reinante de um paradigma particular e culturalmente autêntico a um mais generalizado (internacional). Esse paradigma generalizado é normalmente caracterizado pelo monoteísmo, por exemplo, Cristianismo ou Islã. Com o advento desse paradigma em uma cultura, não importa o quão parcial e imperfeito tenha sido o advento, diz-se que a cultura entrou em uma nova fase. Na Europa essa nova fase subsequentemente veio a ser chamada de período "medieval", ou "Idade Média". Qualquer coisa no meio vem entre duas coisas. Nesse caso essas duas coisas são o "antigo" e o "moderno". A Idade Média foi dominada pelo mito da fé institucionalizado na Igreja. Este não é o lugar para discutir os méritos desse mito. Somente é importante aqui perceber que as várias, plurais e nacionalmente determinadas mitologias foram ao menos parcialmente substituídas por uma única mitologia "internacional". Ainda que se dê muita ênfase à transição entre os períodos medieval e moderno, as diferenças entre as mitologias medieval e moderna não são tão grandes como as que havia entre a antiga e a medieval ou a moderna.

A modernidade meramente substituiu um mito monolítico por outro. Ao invés da fé e da Igreja serem os maiores árbitros da verdade, a razão e a ciência assumiram essa posição. Não raro os valores "religiosos" medievais foram meramente secularizados e reformulados em um modelo "político". A Igreja prometia a salvação de toda a humanidade através da fé, enquanto o cientificismo, o humanismo, etc, prometiam o mesmo tipo de perfeição universal através da aplicação progressiva da razão.

Aqueles que criticam a monoteose tanto do medievalista como do modernista, aqueles que veem uma burrice malévola nas promessas tanto da fé como da razão - como manifestas nas ideologias da Idade Média e no "progresso" da modernidade - podem ser chamados "pós-modernistas". Deve-se notar, porém, que o termo "pós-modernismo" tem sido sabotado por marxistas acadêmicos e cripto-marxistas para fazer avançar seus próprios objetivos (que estã ogeralmente ligados ao progresso de suas próprias carreiras nas universidades, agora os últimos bastiões dos fiéis marxistas). Por essa razão é difícil utilizar o termo sem invocar paralelamente toda uma horda de fábulas "politicamente corretas".



IV - A Idéia de Cultura Integral

No contexto das metanarrativas modernas a revolta mais eficaz seria aquela que desafiasse a atomização modernista - a desintegração de todas as unidades integradas em partes menores com o objetivo de homogeneizá-las politicamente e/ou economicamente - através da promoção de uma reintegraçã ode elementos ou categorias culturais em uma totalidade harmônica e autêntica. A partir do qeu foi dito talvez uma boa idéia de como isso poderia ser feito já foi entendido. Porém, em conclusão, eu gostaria de ser mais específico. Há certos caminhos de ação na direção de uma cultura integral. Essas não são alternativas ou opções mas coisas que devem ser, em um grau ou outro, integradas na própria vida. A primeira é tradição, a outra é autenticidade pessoal, e a terceira é ação cultural.

Tradição é aquelo que tem sido transmitido desde tempos imemoriais através de diversos caminhos: genéticos, míticos, linguísticos, e materiais. O sujeito, ou seja, o ator desse tipo de ação deve descobrir a tradição, mito e escola ao qual ele ou ela pertence. Isso não é uma "escolha" no sentido de ser algo que é completamente arbitrário. É uma percepção de uma verdade. Uma vez que esta escolha autêntica tenha sido feita, o que pode ser visto tão facilmente como uma "escolha" por alguns aspectos desta tradição, não se pode voltar atrás ou vacilar frente às implicações dessa percepção.

A razão para isso é que isso é uma questão de autenticidade pessoal. As pessoas modernas pensam que elas podem escolher se tornar algo que elas não são na realidade, por exemplo, um xamã ameríndio ou um místico cabalista. Mas não é possível se tornar qualquer dessas coisas a não ser através da própria imaginação, (e talvez na imaginação dos outros). Na verdade, nós podemos apenas, para parafrasear Fichte, nos tornar o que nós somos. Dentro do reino das possibilidades há um número infinito de direções, mas a tradição é uma direção fixa. O mundo moderno torna o caminho da descoberta de uma tradição autêntica quase impossível. Porém, alguns poucos tem perseverado, na esperança de que algum dia a porta será aberta para os muitos. Deve-se simplesmente perguntar a si mesmo: "Do que eu posso ser um examplar de primeira categoria?" Eu posso ser um xamã ameríndio? Não, um ameríndio pode ser isso. Eu posso ser um cabalista de primeira categoria? Não, um judeu ortodoxo pode ser isso. A resposta positiva para esta pergunta pode assumir muitas formas. Mas dentro do próprio coração, se a honestidade da resposta for completa, o despertar autêntico será inequívoco e irrevogável na vida. O verdadeiro caminho será aberto, mas ele estará longe de ter sido trilhado.

O terceiro componente no caminho para uma cultura integral envolve a interação com outros. Deve-se participar ativamente com outros dentro da mesma escola ou tradição, com outros que similarmente descobriram seu caminho autêntico. Ser ensinado por outros, ensinar a outros, criar em cooperação com outros, e em geral interagir de todo e qualquer modo possível com outros da mesma tradição forma o laboratório quintessencial não apenas para uma ação cultural ampla, mas também para o trabalho interior.

Essa abordagem do desenvolvimento individual necessariamente leva em consideração mais do que os próprios desejos momentâneos e transitórios. Ela vê o indivíduo em seu verdadeiro contexto, como um ente que existe em muitas dimensões, no passado, no presente, e no futuro simultaneamente. O indivíduo possui uma história, no sentido de que o indivíduo existe apenas como parte de uma corrente cultural que não pode ser compreendida a parte de seus eventos e estruturas constituintes. A reconstrução da cultura a partir do modelo de uma visão sadia e integrada da sociedade não pode deixar de ter um efeito benéfico sobre as relações interpessoais, e portanto sobre todos os aspectos da cultura.

A doença profunda e sutil do mundo moderno tem suas raízes na desintegração e a promove a cada momento. Tal desenraizamento é propagandeado sob termos nobres como "liberdade", " direitos individuais". Mas uma vez que a árvore tenha sido arrancada e morta pela avalanche do modernismo progressista, e quando aqueles que vivem na árvore tiverem percebido o que aconteceu em nome da "liberdade individual", já será tarde demais. O eterno bem da totalidade terá sido sacrificado aos apetites efêmeros do indivíduo. Como então pode o indivíduo organizar uma revolta contra o mundo moderno?

A desintegração cultural é combatida pela reintegração cultural. Os caminhos de retorno até este nível de existência são marcados com os signos da tradição, da autenticidade, e da ação. Sem estes nenhuma revolta eficaz é possível.

Sic semper tyrannis!



quinta-feira, 22 de março de 2012

Julius Evola - A Lenda do Graal e o “Mistério” do Império

Por Julius Evola


De uma outra forma, nas tradições dos povos mais variados sempre se encontra a idéia de um poderoso “Senhor do Mundo”, de um reino misterioso que se encontra por cima de todo reino visível. De uma residência que tem, em sentido superior, o significado de um pólo, de um eixo, de um centro imutável, representado como uma terra firme em meio ao oceano da vida, como uma comarca sagrada e intangível, como uma terra da luz, ou terra solar. Significados metafísicos, símbolos e obscuras memórias se entrelaçam aqui inseparadamente. A idéia da realeza olímpica e do “mandato do céu” constitui um tema central: “Aquele que reina através da virtude (do Céu) – disse Kong-tze – se assemelha a estrela solar polar: permanece imóvel, mas todas as coisas se movem ao seu redor”. A idéia do “Rei do Mundo” concebida como cackravartî se encontra por cima de uma série de temas subordinados: o kravartî – Rei dos reis – faz girar a roda – a roda do Regnum, da “Lei” – permanecendo ele mesmo imóvel. Invisível como a do vento, sua ação tem sem embargo a irresistência das forças da natureza. De mil formas, e em estreita conexão com a idéia de uma terra nórdico-hiperbórea, irrompe o simbolismo da sede do meio, da sede imutável: a ilha, a altura montanhosa, a cidadela do sol, a terra defendida, a ilha branca ou ilha do esplendor, a terra dos heróis: “Nem por terra, nem por mar, se alcança a terra sagrada”- se dizia na tradição helênica. “Só o vôo do Espírito pode conduzir até aí” – sussurra a tradição extremo-oriental. Outras tradições falam de um monte magnético misterioso, e do monte do qual desaparecem ou são raptados aqueles que obtiveram a perfeita iluminação espiritual. Outros falam ainda novamente de uma terra solar, desde a qual provêm aqueles que são destinados a assumir a dignidade de reis legítimos entre povos sem príncipes. Essa é também a ilha de Avalon, quer dizer, a ilha de Apolo, o deus solar hiperbóreo, denominado a sua vez Aballún pelos celtas. Também a respeito das lendárias raças “divinas”, como os Tuatha de Dannan, que vieram de Avalon, se diz que vieram do “céu”. Os Tuatha levaram consigo desde Avalon alguns objetos místicos: uma pedra que indica os reis legítimos, uma lança, uma espada, um vaso que provê um alimento permanente, o “dom da vida”. São os mesmos objetos que figurarão na lenda do Graal.

Desde os tempos primordiais, estes temas originários descem até o Medievo assumindo nesta época formas características. De aqui, por exemplo, as tradições relativas ao reino de Preste Juan e do Rei Arthur.

“Preste Juan” não é um nome, mas um título: se fala de uma das dinastias de “Prestes Juan” a qual, do mesmo modo que a estirpe de David, haveria revestido ao mesmo tempo a estirpe régia e a sacerdota. O reino de Juan assume muitas as características do “lugar primordial”, do “paraíso terrestre”. É lá onde cresce a Árvore; uma árvore que, nas diversas redações da lenda, aparece as vezes como Árvore da Vida, outras como Árvore da Vitória e do domínio universal. Alí se encontra também a pedra da Luz, uma pedra que tem a virtude de ressuscitar o animal imperial, a Águia. Juan domina os povos de Gog e de Magog – as forças elementares, o demonismo do coletivo. Várias lendas falam de viagens simbólicas que os maiores dominadores da história teriam feito até o país de Preste Juan, ou à terras que teriam um significado análogo, para receber alí uma espécie de consagração sobrenatural de seu poder. Por outro lado, Preste Juan enviou imperadores, como “Federicus”, doações simbólicas que teriam o significado de um “mandato divino”. Um dos heróis que alcançou o reino de Preste Juan foi Oyero de Dinamarca. Mas na lenda de Oyero de Dinamarca, o reino de Preste Juan se identifica com Avalon, quer dizer, com a ilha hiperbórea, com a terra solar, com a “ilha branca”.

Ao Avalon rei Arthur se retirou. Acontecimentos trágicos, descritos de formas diferentes de acordo aos textos, o obrigam a buscar alí refúgio. Este retiro de Arthur não tem o significado da conversão do princípio de uma função, em algo latente. Arthur, de acordo à saga, não foi nunca morto. Ele vive, todavia, em Avalon. Ele voltará a se manifestar novamente. Na figura do Rei Arthur deve se ver uma das múltiplas funções de “dominador polar”, do “rei do mundo”. O elemento histórico se encontra aqui revestido pelo suprahistórico. E a antiga etimologia vinculava o nome de Arthur com arkhtos, quer dizer, “urso”, o qual, através do simbolismo astronômico da constelação polar, remete novamente à idéia do “centro”. O simbolismo da “Mesa Redonda”, de cuja cavalaria Rei Arthur é o chefe supremo, é “solar” e “polar”. O palácio de Rei Arthur – assim como Mitgard, a residência luminosa dos Aesir, dos “heróis divinos” nórdicos – está construído no “centro do mundo” – in medio mundi constructum. De acordo com alguns textos, o mesmo gira ao redor de um ponto central: gira, como na “ilha branca” – Sveta Dipa – recordada pelos indoeuropeus da Ásia, na terra hiperbórea cujo deus é o solar Vishnu, gira a swastika, como a “ilha de vidro” celto-nórdica – um semelhante de Avalon – gira; como a roda fatal do cackravartî, do “Rei do Mundo” ariano, gira. As características sobrenaturais, “mágicas”, próprias desta figura se encarnam, por dizer assim, em Myrddhin, quer dizer, em Merlin, conselheiro inseparável do Rei Arthur, que é, no fundo, mais um ser diferente dele, a representação personificada da parte sobrnatural do mesmo Arthur. A cavalaria de Arthur irá em busca do Graal. A cavalaria de Arthur, que recruta seus membros entre todas as pátrias, tem como lema: “O que for nosso chefe, que seja nossa ponte”. De acordo com a antiga etimologia, pontifex significava pelo demais o “criador de pontes”, aquele que estabelece o laço entre as duas margens, entre os dois mundos.

A ele se agregam obscuras memórias históricas e transposições geográficas de noções temporais. A “ilha” situada “na extremidade do mundo”, a respeito do qual, em várias tradições, em realidade significa o centro primordial nas distâncias remotas do tempo. A terra do sol é, para os Gregos, Thule – Thule ultima a sole nomen habens – e Thule equivale ao Airyanem-Vaêjô, o país do extremo norte dos antigos persas. O Airyanem-Vaêjô foi conhecido como reino do solar rei Yma, na “idade de Ouro”. Mas Hesíodo recorda: “Quando esta idade (a idade de Ouro) declinou, aqueles homens divinos continuaram a viver toí mèn...eisí e se converteram, em forma invisível eóra essamenou nos guardiães dos homens”. Isso porque o “sentido da história” é a decadência: à idade de Ouro sucede a de Prata – a idade das Mães; logo a de Bronze – a idade dos Titãs; finalmente a idade de Ferro; “idade obscura”, kali-yuga, “crepúsculo dos deuses”. Por quê? Muitos mitos parecem querer estabelecer uma relação entre “caída” e hybris, quer dizer, usurpação prometeica, revolta titânica. Mas novamente, Hesíodo nos recorda: Zeus, o princípio olímpico, criou na idade de Ferro uma geração de heróis, que são mais que “titãs” e têm a possibilidade de conquistar uma vida similar à dos deuses, iós te òesí. Um símbolo: o Heracles dórico-aqueu, aliado ao dos Olímpicos, inimigo dos titâs e dos gigantes.

A doutrina do centro supremo e das idades do mundo está estreitamente vinculada com a das leis cíclicas e das manifestações periódicas. Se se deixasse de um lado tais pontos de referência, muitos mitos e muitas recordações tradicionais nos remeteriam a uma situação de fragmentos quase incompreensíveis. “Ele aconteceu uma vez – acontecerá de novo”, ensina a tradição. E também: “Cada vez que o Espírito declina e a impiedade triunfa, eu me manifesto; para a proteção dos justos, para a destruição dos malvados, para estabelecer firmemente a lei, de idade em idade me revisto com um corpo”. Em todas as tradições, sob formas diferentes, mais ou menos completas, recorre sempre a doutrina das manifestações cíclias de um princípio único, subsistente nos períodos intermediários no estado latente. Messias, Juízo Universal, Regnum, etc.: em tudo isto não representa outra coisa que uma tradução religiosa e fantasiosamente deformada, deste conhecimento; conhecimento que por demais se encontra também na base de aquelas lendas confusas, nas que se narra sobre um dominador que não tinha sido morto nunca, senão que se tinha retirado a uma sede inacessível – idêntica no fundo, ao “Centro” – para voltar a manifestar-se no dia da “última batalha”; de um imperador que dorme e que voltará a despertar; de um príncipe ferido, que espera aquele que o curará e que conduzirá a seu reino decaído ou devastado até um novo esplenador. Todos estes muito notórios temas da lenda imperial medieval nos remetem sumamente longe dos tempos. O mito primordial do Kalki-avatâra contém já todas estas idéias em uma relação sumamente significativa com outros símbolos já indicados por nós. Kalki-avatâra “nasceu” em Shamballa*, que é uma das designações do centro hiperbóreo primordial. O ensino foi transmitido por parte de Paraçu-Râma, o representante “nunca morto” da tradição dos “heróis divinos”, o destruidor da casta guerreira em rebelião. Kalki-avatâra combate contra a “idade obscura” e sobretudo contra os chefes das forças demoníacas da mesma, Koka e Vikoca, os quais, ainda etimologicamente remetem a Gog e Magog, às forças subterâneas que, já dominadas e subjugadas pelo rei Preste Juan, se desencadearão na idade obscura e contra as quais também o imperador voltará a despertar e deverá combater.

***

A lenda do Graal deve ser referida a tal ordem de idéias e somente sobra a base destes dados tradicionais e deste simbolismo universal a mesma pode ser compreendida seja desde o ponto de vista histórico como desde o suprahistórico. Aquele que na história do Graal considera tão somente uma lenda cristã, ou uma expressão do “folklore celta pagão”, ou a criação de uma literatura cavaleiresca sublimada, não captará dos respectivos textos, senão o aspecto mais exterior, acidental e insignificante. Da mesma maneira, seria equivocado também toda tentativa de deduzir os temas do Graal do Espírito de um povo em particular. Se pode afirmar, por exemplo, que o Graal é um “mistério” nórdico; mas tão somente a condição de entender por “nórdico” a algo sumamente mais profundo e mais compreensivo que “alemão” ou ainda “indogermânico”, algo que em vez remita à tradição hiperbórea, a qual faz uma mesma coisa com a mesma tradição primordial do presente ciclo. Em realidade, justamente desde esta tradição se podem deduzir todos os temas principais das lendas em questão.

Com respeito a isto é sumamente significativo que, segundo o “Perceval li Gallois”, os textos que contêm a história do Graal teriam sido encontrados na “Ilha de Avalon”, onde “está a tumba de Arthur”. Ademais, outros textos chamam ao país, no qual José de Arimatéia teria levado o Graal e onde habitavam certos enigmáticos antepassados do mesmo José, a “Ilha Branca”, e “Insula Avallonis”: são, novamente, designações do centro nórdico primordial. Se Inglaterra nesta literatura aparece muitas vezes como uma espécie de terra prometida do Graal e como o país no qual se desenvolvem essencialmente as aventuras do Graal, muitos indícios nos dizem que, a respeito disso, se trata de um país simbólico. Inglaterra foi também chamada de “Albion” e “Ilha Branca”; “Albânia” foi uma parte da mesma; Avalon na localidade de Glastonbury. A antiga toponímia celto-britânica parece pois haver transposto a Inglaterra, pelo menos a uma parte desta, algumas recordações e alguns significados referidos essencialmente eo centro nórdico primordial, a Thule, a “terra solar”. Este é o verdadeiro país do Graal. E é por isso que o reino do Graal se encontra em estreita relação com o reino simbólico de Arthur, com o reino devastado –la terre gaste- com o reino cujo soberano se encontra ferido, em letargia e decaído. Uma ilha montanhosa, uma olha de vidro, uma ilha que gira sobre si mesma (the isle of the tournance), uma residência rodeada pelas águas, um lugar inacessível, uma cúpula alpina, um castelo solar, um monte selvagem e um monte da salvação (Montsalvatsche e Mons Salvationis), uma cidadela invisível, tal de poder ser alcançada somente pelos eleitos, e incluso por estes correndo um perigo mortal, etc. – aqui as cenas principais sobre as quais se dirigem as principais aventuras dos heróis do Graal: não são senão tantas representações do “Centro”, da residência simbólica do Rei do Mundo. Também o tema da terra primordial é recorrente: um texto chama “Eden” à terra do Graal. O ciclo de Lohengrin e a Sachsenkronik von Halberstadt referem: “Arthur se encontra com seus cavaleiros, no Graal, que já foi o paraíso e que agora foi convertido em um lugar de “pecado”.

Na literatura cavalheiresca do Graal é propriamente um objeto sobrenatural, que tem essencialmente estas virtudes: alimenta (“dom da vida”; ilumina (iluminação espiritual); converte em invencível (quem tem o visto, n’en court de bataille venchu, segundo Robert de Boron). Enquanto os restantes aspectos, há que se notar dois.

Sobretudo, o Graal é uma pedra celeste, que não somente designa aos reis – como a pedra que os Thuata levaram consigo ao Avalon- senão que indica também aos dominadores destinados a se converter em “Preste Juan” (de acordo a “Triturel”). Em segundo lugar, o Graal seria a pedra caída da coroa de Lúcifer no monento de sua derrota (de acordo com “Wartburgkrieg”). Como tal, o Graal simboliza um poder que Lúcifer, ao cair, perdera, e o mesmo também em outros textos conserva o caráter de um mysterium tremmendum. Como uma força temível, o Graal mata, despedaça, cega os cavaleiros que se acercam sem serem dignos do mesmo e sem serem eleitos (segundo o “Grand St. Graal”, “Jpseph de Arimathia”, etc.). Este aspecto do Graal se encontra em relação com a prova do “lugar perigoso”. À Mesa Redonda de Arthur falta alguém. Um lugar se encontra vazio, no qual, no fundo, é do chefe supremo da Ordem. Aquele que o ocupa sem ser o herói esperado, é fulminado ou é levado por um súbito vórtice. O Graal pode ser alcançado tão somente combatendo – er nous erstriten werden – disse Wolfram von Eschenbach.

O mistério do Graal compreende duas temáticas. A primeira retoma a idéia de um reino simbólico, concebido como ua imagem do centro supremo; reino, que deve ser restaurado. O Graal não está mais presente alí, ou bem perdeu sua virtude. O rei do Graal está doente, ferido, decrépito, ou bem padece de um sortilégio, em razão da qual ele parece viver, conserva uma aparência de vida, ainda estando morto desde séculos (segundo o “Diû Krone”). A outra temática consiste na chegada de um herói que, tendo visto o Graal, deve se sentir levado à uma tal restauração; de outro modo ele trairá sua missão e sua força heróica será maldita (segundo Wolfram von Eschenbach). Ele deve voltar a unir uma espada partida. Ele deve ser vingador. Ele deve “formular a pergunta”.

De que pergunta se trata? E qual é propriamente a missão deste “eleito”? Parece ser a mesma que Hesíodo atribui aos “heróis”, quer dizer, àquela mesma geração que, nascida na idade obscura da decadência, tem sem embargo ainda a possibilidade de restaurar a “idade de Ouro”. E assim como o herói hesiódico deve superar e governar o elemento titântico, da mesma maneira vemos que o herói do Graal deve superar o perigo luciférico. Não basta que o cavaleiro do Graal se mostre como “o melhor e mais valente cavaleiro do mundo” e um coração de aço – “ein stählernes Herz” – em cada tipo de aventuras naturais e sobrenaturais: ele deve também “estar livre de orgulho” e deve “conquistar a sabedoria” (segundo Wolfram e Gautier). Se o Graal tem sido perdido por Lúcifer, é aqui que alguns textos (Grand St, Graal, Gerbert de Mostreuil, “Morte Darthur”) referem justamente a Lúcifer o poder demoníaco que atua em diferentes provas contra os cvaleiros do Graal. Ademais, o velho rei do Graal foi feito impotente e incapaz de reinar em razão de uma ferida que se fizera com uma lança envenenada enquanto ele se encontrava ao serviço de Orguelluse: Mas é bastante visível que esta Orguelluse não é senão uma personificação feminina do mesmo princípio do “orgulho”. Ademais, outros cavaleiros do Graal, por exemplo Gauvain (“Galvano”), são postos à prova no castelo desta mesma Orguelluse. Mas eles não sucumbem. Vencem, deslocam – “possuem” – Orguelluse. O sentido desta prova é a realização de uma força pura, de uma virilidade espiritual; é a transposição da qualificação heróica sobre um plano separado de tudo o que é caos e violência, “A cavalaria terrestre deve se converter em cavalaria celeste” – se diz (Queste du Graal). Esta é a condição para poder se abrir o caminho em direção ao Graal, para poder ocupar o “lugar perigoso” sem ser fulminados, assim como o foram os titãs por parte do Deus olímpico.

Sem embargo, como tema fundamental de todo o ciclo do Graal deve ser considerado o seguinte: ao herói de todas estas provas se impõe uma tarefa ulterior e decisiva. Uma vez que tem sido admitido no castelo do Graal, ele deve sentir a tragédia do Rei do Graal ferido, paralizado ou vivente somente em aparência e deve tomar a ainiciativa de uma ação de restauração absoluta. É expressado pelos textos em várias formas enigmáticas: o herói do Graal deve “formular a questão”. Qual questão? Aqui se diria que os autores quiseram se calar. Se tem a impressão de que algo os impede de falar e que uma explicação banal possa esconder a resposta verdadeira. Mas se se segue a lógica interna do conjunto não é difícil compreender aquilo do que em verdade se trata: a questão a formular é a questão do Império. Não se trata de saber – como segundo a letra dos textos- o que significam certos objetos do catselo do Graal, senão que se trata de compreender a tragédia da decadência e, logo de ter “visto” o Graal, de formular o problema da restauração. Somente sobre esta base a virtude milagrosa desta enigmática pergunta se converte em compreensível: posto que o herói que não tem sido indiferente e que tem “formulado a questão”, com esta questão redime o reino. Então aquele que teria tão somente uma aparência de vida desaparece; aquele que estava ferido se cura. As vezes, o herói se converte no novo e verdadeiro rei do Graal, substituindo o precedente. Um novo ciclo começa.

Segundo alguns textos, o cavaleiro morto, que parece querer recordar ao herói a missão a cumprir e a vingança, aparece em um ataúde transportado sobre o mar por cisnes. Mas o cisne é o animal de Apolo no país dos Hiperbóreos, na terra nórdica primordial. Conduzidos por cisnes, partem os cavaleiros do centro supremo, no qual Arthur é rei: desde o Avalon.

Em outros textos, o herói do Graal é chamado de o cavaleiro das duas espadas. Mas na literatura teológico-política da época, sobretudo na gibelina, as duas espadas significavam nada mais que o duplo poder, temporal e sobrenatural. Um texto clássico fala do país hiperbóreo como da terra da que vieram dinastias que, como as dos Heraclidas, encarnaram ao um mesmo tempo a dignidade régia e a sacerdotal. Em um texto do Graal, a espada que volta a se unir tem uma custódia cujo nome é: memória do sangue.

O reino inacessível e inatingível do Graal é uma realidade também na forma, segundo a qual o mesmo não está vinculado a nenhum lugar, a nenhuma organização visível e a nenhum reino terrestre. O mesmo representa uma pátria, a qual se pertence por um nascimento diferente do corporal, que tem o sentido de uma dignidade espiritual e iniciática. Este reino une em uma cadeia inquebrantável homens que possam também aparecer como dispersos pelo mundo, pelo espaço, pelo tempo, pelas nações, até o limite de aparecer como isolados e de não se conhecer reciprocamente. Nesse sentido, o reino do Graal – como o de Arthur e do Preste Juan, como Thule, como Mitgard, Avalon, etc. – está sempre presente. Segundo sua natureza “polar”, o mesmo permanece imóvel. Em consequência, não é que o mesmo esteja as vezes mais próximo e as vezes mais longe da corrente da história, são os homens e seus reinos que podem estar mais ou menos próximos.

Agora bem, em um certo período, o Medievo gibelino pareceu apresentar uma maior aproximação e oferecer, por dizer assim, uma matéria histórica e espiritual de tal caráter, que o reino do Graal tinha podido se converter, de oculto, também em sensível, e dar lugar a uma realidade ao mesmo tempo interior e exterior, como nas civilizações tradicionais das origens. Sobre tal base se pode sustentar que o Graal foi a coroação e o “mistério” do mito imperial medieval e a suprema profissão de fé do alto gibelinismo. Uma profissão de fé se manifesta mais na lenda e no mito do que na clara vontade política da época, segundo o que acontece também no indivíduo, onde o que há de mais profundo e de mais perigoso se expressa menos através das formas de sua consciência, reflete através do simbolismo e de uma espontaneidade subconsciente.

O Medievo esperava o herói do Graal a fim de que a Árvore Seca do Império voltasse a florescer, a fim de que toda usurpação, todo contraste, toda oposição, fosse destruída e reinasse verdadeiramente uma nova ordem solar. O reino do Graal, que tinha de ressurgir com um novo resplendor, era o mesmo Sacro Império Romano. O herói do Graal, que tinha podido se converter em “dominador de todas as criaturas” e aquele al qual “tem sido confiado o poder supremo”, é o Imperador histórico – “Fredericus” – se ele tivesse sido o realizador do mistério do Graal, do mistério hiperbóreo.

História e suprahistória pareceram pois, por um instante, interferir: resultou disto um período de alta tensão metafísica, uma culminação, uma suprema esperança – logo, novamente, colapso e dispersão.

Toda a literatura do Graal parece se agrupar em um período relativamente breve: nenhum texto parece ser anterior ao último quarto do século XII. A partir do primeiro quarto do século XIII se cessa briscamente, como por uma consigna, de falar-se do Graal. Somente depois de muitos anos, e já sob um espírito diferente, se exreverá novamente sobre o Graal. Parece pois como se em um certo momento uma corrente subterânea tivesse voltado a aflorar, para logo voltar a se ocultar (Weston). A época desta repetina desaparição da primeira tradição do Graal coincide aproximamente com a tragédia dos templários. Quiçá este é o início da fratura.

Em Wolfram von Eschenbach, os cavaleiros do Graal são chamados de Templeiste –“templários” – se bem em seu relato não figure para nada um templo, senão somente uma corte. Em alguns textos, os cavaleiros-monjes da “ilha” misteriosa levam ao século dos Templários: uma cruz vermelha sobre um fundo branco. Em outros textos as aventuras do Graal tomam uma direção típica de “crepúsculo dos deuses”: o herói do Graal cumpre, é certo, com a “vingança” e restaura o reino, mas uma voz celeste anuncia que ele deve se retirar com o Graal para uma terra insular misteriosa. A nave que vem buscá-lo é a nave dos Templários: tem uma vela branca com uma cruz vermelha.

Como artérias dispersas, organizações secretas parecem ter custodiado os antigos símbolos e as tradições do Graal, ainda logo do colapso da civilização imperial ecumênica: “Fieles del Amor” gibelinos, trovadores do período mais tardio, hermetistas. Assim chegamos aos Rosacruzes. Entre os Rosacruzs se apresenta todavia uma vez mais o mesmo mito: a cidadela solar, o Imperator como “Senhor do Quarto Império”, e destruidor de toda usurpação, uma confraternidade invisível de personalidades transcendentes, unidas unicamente através de sua essência e sua intenção, finalmente, o estranho mistério da ressurreição do Rei, mistério que se transforma na constatação de que o Rei já havia ressuscitado, já vivia e já estava desperto. O que assiste a este mistério leva consigo dos Templários: um estandarte branco com uma cruz vermelha. Também o pássaro do Graal- a pomba – está presente.

Mas uma consigna parece ter sifo transmitida neste caso. Em um determinado momente, se deixa subitamente de falar dos Rosacruzes. De acordo com a tradição, os últimos Rosacruzes, no período no qual o absolutismo, o racionalismo, o individualismo, e o iluminismo estavam preparando o caminho à Revolução Francesa e os tratados de Westfalia iam selando a decadência definitiva da autonomia do Sacro Império Romano, tinham abandonado o Ocidente para se retirar na “Índia”.

A “Ìndia” é aqui o símbolo. Equivale à residência de Preste Juan, do Rei do Mundo. É Avalon. É Thule. Segundo o “Titurel”, tempos obscuros chegaram para Salvaterra, onde residem os cavaleiros de Monsalvat. O Graal não pode permanecer mais naquele lugar. É transportado à “Índia”, ao reino de Preste Juan, que se encontra “próximo do paraíso”. Uma vez que os cavaleiros do Graal chegaram alí, o mesmo Monsalvat e sua cidadela aparecem a eles, são transportados ali magicamente, porque “nada de tudo isto dvee permanecer entre povos pecadores”. O mesmo Parcifal revestirá a função de “Preste Juan”.

E ainda hoje ascetas tibetanos dizem a respeito de Shamballah, a cidade sagrada do Norte, para onde conduz a “via do Extremo-Norte”, quer dizer “via dos deuses” – devayâna-: “Ela reside em meu coração”.


*(Nota do Tradutor) Shamballah é muitas vezes confundida com Agartha, como neste texto, porém, a primeira é uma cidade celeste para onde vão as almas pacíficas, da idéia de Zeus como Criador do Mundo (no mesmo caso, Olimpo e Valhalla [representados originalmente como análogos ao Tártaro e Agartha], são confundidos muitas vezes no mesmo mito). Porém, portanto, Agartha é a original cidadela representada nos mitos da Terra Oca, e para lá vão os guerreiros do Graal, e é lá também onde reside o Graal (a pedra da coroa de Lúcifer), diferentemente da cidade “celeste” e montanhosa do “Oriente” chamada Shamballa, para onde vão os sacerdotes e servos do Criador (também confundido com Zeus, algumas vezes).

quarta-feira, 21 de março de 2012

Por que os Conservadores sempre perdem

por Alex Kurtagic



Em nossas sociedades ocidentais modernas, os liberais somente riem, e os conservadores somente choram. Os liberais podem considerar essa uma afirmação extraordinária, dado que ao longo do último século seus partidos políticos favoritos passaram mais tempo fora do poder do que seus rivais conservadores, e, de fato, nenhum partido radical de esquerda já conseguiu uma maioria parlamentar. Porém, essa perspectiva só é possível quando se considera um partido Trabalhista ou Democrata como "a Esquerda", e um partido Conservador ou Republicano como "a Direita" - isto é, quando se considera a política como limitada à política liberal, e se considera a negação do liberalismo como uma negação da política. A realidade é que nas sociedades ocidentais modernas, tanto "a Esquerda" como "a Direita" consistem de liberais, vindo simplesmente em dois sabores: radicais e menos radicais. E se um é chamado de liberal ou conservador é simplesmente uma questão de grau, e não de partilhar de uma perspectiva fundamentalmente diferente. O resultado é que a posição política dominante no Ocidente tem sempre deslizado à "esquerda". É apenas a velocidade desse deslize que mudou de tempo em tempo.

Não digo isso para negar a existência do conservadorismo. O Conservadorismo é real. Isto quer dizer que o conservadorismo, mesmo em suas formas mais extremas, opera contra, e é inevitavelmente arrastado por, esse pano de fundo esquerdizante. E isso é crucial se quisermos ter um entendimento verdadeiro do conservadorismo moderno e do motivo pelo qual os conservadores estão sempre perdendo, mesmo quando vitórias eleitorais criam a ilusão de que os conservadores estão frequentemente vencendo.

Seria errado, porém, atribuir a derrota sem fim do conservadorismo inteiramente à deriva à esquerda do universo político moderno. Isso seria uma abrogação da responsabilidade conservadora por suas próprias derrotas. Os conservadores são responsáveis por suas próprias derrotas. As causas derivam menos da dominação do liberalismo, do que da própria premissa do conservadorismo. O liberalismo triunfante é tornado possível pelo conservadorismo, enquanto o conservadorismo triunfante leva eventualmente ao liberalismo. Qualquer um que sonhe em "retormar seu país" apoiando o movimento conservador, e assombrado por sua inabilidade de impedir a marcha do liberalismo, ainda não conseguiu entender a natureza de sua causa. A verdade brutal: ele está perdendo seu tempo. Derrotar o liberalismo demanda a aceitação de duas proposições fundamentais.

* O tradicionalismo não é conservadorismo.
* A derrota liberal implica a derrota conservadora.

Boa parte do diálogo contemporâneo sobre o futuro da sociedade ocidental tem focado na desconstrução do liberalismo. Pouco desse diálogo tem focado em uma desconstrução do conservadorismo. A maioria das desconstruções do conservadorismo tem vindo da Esquerda, e, como nós veremos, há bons motivos para isso. Já é tempo do conservadorismo ser desconstruído de fora da Esquerda (e portanto também da Direita). Eu digo "também" porque nem o conservadorismo, nem o tradicionalismo, eu classifico como "a Direita". Nem eu aceito que a "Direita" seja o oposto da "Esquerda"; "a Direita" está predicada sobre "a Esquerda", e portanto não é independente da "Esquerda". Consequentemente, qualquer uso dos termos "Esquerda" e "Direita" vindo desse campo é e sempre tem sido uma questão de utilidade; eu espero que tais termos desapareçam do uso atual logo que o paradigma política tenha sido fundamentalmente modificado.

Logo abaixo eu descrevo oito traços salientes que definem o conservadorismo, explico o padrão de derrotas conservadoras a longo prazo, e demonstro como o liberalismo e o conservadorismo são parceiros complementares e mutualmente auxiliares, ao invés de inimigos antitéticos.

Anatomia do Conservadorismo

Medo

Apologistas da Esquerda radical gostam de descrever a política da Direita como "a política do medo". A propaganda esquerdista pode estar cheia de caracterizações preconceituosas, falsas dicotomias, e mentiras descaradas, mas essa é uma observação que, quando aplicada ao conservadorismo, está inteiramente correta. A razão pela qual os conservadores conservam e são avessos à juventude e à inovação é porque eles temem mudanças. Conservadores preferem ordem, fixidez, estabilidade, e resultados previsíveis. Um de seus refrões favoritos é "se não está quebrado, não conserte". Há alguma sabedoria nisso, e há, de fato, vantagens nessa perspectiva, já que ela demanda menos esforço, permite planejamento para o futuro, e reduz a probabilidade de situações desagradáveis. Uma vez que um negócio bem sucedido ou uma fórmula funcional seja encontrada, pode-se descansar bastante confortavelmente em uma rotina reconfortadora em um mundo lento de certezas, que na melhor das hipóteses permite uma evolução gradual e controlada. A mudança acaba com a rotina, rompe a fórmula, perturba planos, e leva a situações desagradáveis que demandam esforço e rapidez, causa stress e incerteza, e pode gerar resultados imprevisíveis. Conservar é portanto uma estratégia de evasão de indivíduos avessos a riscos que não gostam do desafio de pensar criativamente e de se adaptar a novas situações. Para os conservadores a mudança é um mal a ser temido.

Sem Respostas

Nós podemos deduzir então que a razão pela qual os conservadores temem mudanças é que eles não são muito criativos. A criatividade, afinal, envolve quebrar o molde, associações inesperadas, imprevisibilidade. Conservadores se sentem perturbados por mudanças porque eles geralmente não sabem como responder. Essa é a razão primária pela qual, quando a mudança de fato ocorre, como se dá inevitavelmente, sua resposta tende a ser lenta e a focar em administrar sintomas ao invés de abordar causas. Essa também é a razão primária pela qual ou eles planejam com bastante antecedência contra toda e qualquer contingência imaginável ou permanecem em um estado de negação até serem encarados pelo perigo imediato e inevitável. Os conservadores são primeiro motivados pelo medo e então paralisados por ele.

Defensividade

Infelizmente para os conservadores, o mundo está sempre mudando, o universo desdobra-se ciclicamente, e qualquer coisa viva está sempre sujeita a mudanças de estado imprevisíveis. Porque eles geralmente não tem respostas, isso coloca os conservadores sempre na defensiva. A única vez em que conservadores realizam uma ação agressiva é quando estão planejando contra possíveis perturbações contra sua vida plácida. Eles são os últimos a demonstrar iniciativa em qualquer coisa porque ser um pioneiro é arriscado, está repleto de stress e incertezas. Assim, o conservadorismo é sempre um movimento de resistência, um movimento permanentemente recuando, enfrentando uma maré que continua avançando. A principal preocupação dos conservadores é a de se agarrar a suas posições, e garantir que, quando o recuo seja inevitável, sua nova posição seja o mais próxima possível de sua antiga. Uma vez assentados em uma nova posição, qualquer recuo da maré se torna uma oportunidade de recuperar a posição prévia. Porém, porque calmarias não duram o bastante e recuperar posições perdidas é difícil, a recuperação é na melhor das hipóteses parcial, jamais completamente bem sucedida. Os conservadores são consequentemente sempre vistos como derrotados e vendidos, já que eventualmente eles são sempre forçados a compromissos.

Necrofilia

Sua falta de criatividade leva os conservadores a buscar respostas no passado. Isso vai para além de aprender com as lições da história. Avessos a riscos, eles desconfiam de novidades, o que torna seu presente uma mera continuação do passado. Nisso eles contrastam tanto com liberais como com tradicionalistas: para os primeiros o presente é uma antecipação do futuro, para os segundos é um momento entre o que foi e o que será. Ao mesmo tempo, os conservadores se parecem com os liberais, e contrastam com os tradicionalistas mais do que eles pensam. Uma razão é que eles confundem tradição com conservação, olvidando que tradição envolve renovação cíclica ao invés de restauração museológica. Restauração museológica é todo o sentido do conservadorismo. Seu domínio é o domínio dos mortos, embalsamados, ou mantidos artificialmente vivos com sistems médicos. Outro motivo é que tanto liberais como conservadores são obcecados com o passado: porque eles o amam muito, conservadores reclamam que coisas do passado estão morrendo; porque eles o odeiam muito, liberais reclamam que coisas do passado não estão morrendo rápido o bastante! Um é necrófilo, o outro um assassino. Ambos tem como foco a morte. Em contraste, o tradicionalismo remete a vida, pois a vida é um ciclo de nascimento, crescimento, maturidade, morte, e renovação.

Tédio

Medo, resistência a mudança, falta de criatividade, e uma paixão por coisas mortas tornam os conservadores tediosos. Coisas mortas podem ser interessantes, claro, e em nossa sociedade descartável, coisas mortas podem ter o apelo do exótico, particularmente considerando que elas pertencem a um tempo em que a ênfase era em qualidade ao invés de quantidade. Qualidade, entendida tanto como alta qualidade e como possuir qualidades, está ligada a raridade ou singularidade, agitação ou surpresa, e, portanto, criatividade ou imprevisibilidade. Conservadores, porém, conserva porque eles almejam um mundo de certezas - lento, seguro, confortável, e com resultados previsíveis. Garantidamente: tal existência pode ser agradável considerando-se condições ótimas, e pode realmente ser recomendada em uma variedade de situações, mas ela não é excitante. Excitação envolve precisamente as condições e estados alterados que os conservadores temem e buscam evitar. Assim se torna difícil se excitar a respeito de qualquer coisa conservadora.



Velhice

Há boas razões pelas quais o conservadorismo é associado com a velhice. Conforme uma pessoa fica velha ela perde seu gosto por excitação; sua constituição é menos robusta, ele tem menos energia, ele tem menos reservas, ele tornou-se fisica e mentalmente rígido, e ele é menos capaz das respostas rápidas e flesíveis demandadas por situações intensas e choques súbitos. Faz sentido uma pessoa se tornar mais conservadora conforme ela se torna velha, mas esse processo dificilmente é saborado. Uma vez que se torne velho o bastante para ser levado a sério, o desejo é sempre de permanecer jovem e atrasar os sinais da velhice. Expressar tédio dizendo que algo "ficou velho" implica uma necessidade periódica de mudança. Conservadores se opõem a mudanças, logo eles ficam velhos bastante rápido.

Irrelevância

Preocupação com o passado, resistência a mudanças, e desconfiança de novidades eventualmente torna os conservadores irrelevantes. Este é o caso particularmente em um mundo predicado na desejabilidade do progresso e da inovação constante. Os conservadores acabam se tornando antiquários políticos, ao invés de atores políticos eficazes: eles operam não como líderes de homens, mas como curadores de um museu.

Perdedores

Cedo ou tarde, através de sua recusa em se adaptar até à irrelevância, os conservadores são constantemente deixados para trás, agitando o punho contra o mundo com uma incompreensão raivosa. Porque eventualmente a sobrevivência necessita de rendições periódicas e reagrupamentos em posições mais à Esquerda, os conservadores passam a ser vistos como covardes, como sempre recuando, como, em resumo, perdedores. A função efetiva de um conservador na sociedade atual é organizar a rendição, garantir que as retiradas sejam ordeiras, para manter esperanças vazias de uma restauração, para que jamais haja risco de um levante revolucionário.

Melhor Aliado do Liberalismo

Com tudo isso em mente, é difícil não ver o conservadorismo como a própria oposição controlada do liberalismo: pode não ser exatamente assim, mas o efeito é certamente o mesmo. O conservadorismo garante uma folga periódica após um acesso de liberalismo, permitindo que os cidadãos se adaptem e se acostumem com seus efeitos antes da próxima onda de liberalização. Pior, as causas conservadoras, porque elas eventualmente sempre se tornam irrelevantes, dão uma justificativa ao liberalismo, dando prova para a Esquerda do porque ela é e deve permanecer a única opção na área. Liberais amam conservadores.

Conservadorismo e Tradição

O conservadorismo não precisa ser o melhor aliado do liberalismo: o conservadorismo pode ser o melhor aliado de qualquer movimento anti-sistema, já que ele sempre vem representar a alternativa tediosa. Os conservadores defendem o familiar, mas a familiaridade gera desprezo, de modo que ao longo do tempo as pessoas perdem respeito pelo que é e se tornam mais ávidas por experimentar alguma turbulência - os resultados podem ser imprevisíveis e podem mesmo acabar sendo negativos, mas pelo menos a turbulência faz com que as pessoas se sintam vivas, como se houvesse algo com que elas pudessem se envolver ativamente. Na era do liberalismo, o conservadorismo é fundamentalmente liberal: ele não defende a tradição, já que o liberalismo fez com que ela fosse esquecida em sua maior parte, mas uma versão mais antiga do liberalismo. Em uma era de tradição, o conservadorismo bem poderia ser o melhor aliado de uma tradição rival, já que o conservadorismo sempre paralisa o que é, assim aumentando a receptividade ao longo do tempo para qualquer tipo de mudança. Assim o conservadorismo estabelece as condições para formas destrutivas de mudança.

Por contraste, tradição é evolução, e conquanto ela evite a armadilha do conservadorismo (estagnação), aqueles inseridos na tradição permanecem engajados nela. Isso não quer dizer que tradições sejam imunes a eventos autodestrutivos e jamais devam ser abandonadas: hipertelia, inadaptação, ou evolução patológica, por exemplo, podem destruir uma tradição por dentro. Porém, isso está foro de nosso escopo aqui.

Confusão entre Tradição e Conservação

Na era do liberalismo, porque a tradição foi esquecida, a tradição é confundida com conservação. Assim alguns conservadores descrevem a si mesmos como tradicionalistas, ainda que eles sejam simplesmente liberais arcaicos. Alguns supostos tradicionalistas podem erroneamente adotar traços conservadores, talvez por um desejo confuso de rejeitar as noçãos liberais de progresso. Tradição e conservação são processos distintos e separados. O liberalismo pode contar suas próprias tradições. O liberalismo também pode se tornar conservador em sua rejeição da tradição. Similarmente para o conservadorismo, exceto que ele rejeita o liberalismo e o faz apenas ostensivamente, não na prática.

Fim do Liberalismo

Acabar com o liberalismo requer acabar com o conservadorismo. Nós jamais deveríamos nos chamar conservadores. A distinção entre tradição e conservação deve sempre ser feita, pois transcender o atual paradigma "esquerda"-"direita" da política democrática moderna no Ocidente demanda uma grande separação do que é tradicional em relação ao que é conservador, de modo que o primeiro possa ser redescoberto, e o segundo descartado como parte do aparato liberal.

Ao fazê-lo devemos permanecer alertas para a armadilha da reação. Os reacionários são definidos por seus inimigos, e assim se tornam prisioneiros das construções de seus inimigos, de falsas dicotomias, e de pressuposições implícitas. Ao invés da rejeição, a palavra-chave é transcendência. O fim do liberalismo é alcançado através de sua transcendência, sua relegação à irrelevância.

Considerando a confusão de nossos tempos, deve-se enfatizar que o sentido da tradição não é retornar a um passado imaginado, ou revivar uma prática que foi esquecida para que ela possa ser continuada exatamente como era quando foi abandonada. Pode haver uma razão válida para abandonar uma certa prática, e a instituição de uma nova prática pode ter sido necessária para que a tradição pudesse perdurar. Uma tradição, uma vez redescoberta, deve ser impelida para frente. Continuação não é replicação infinita.

Após o Liberalismo

A medida de nosso sucesso nessa missão será visto na linguagem.

Nós sabemos que o liberalismo foi vitorioso porque muitos de nós acaba se definindo como uma negação de tudo que definiu o liberalismo. Muitas das palavras usadas para descrever nossas posições políticas são prefixadas com "anti-". Isso representou uma adoção por "antiliberais" de identidades negativas manufaturadas por liberais para propósitos de se autoafirmarem de modos que se adequavam a sua conveniência e atiçava sua vaidade.

Acabar com o liberalismo implica, portanto, o desenvolvimento de uma terminologia que transcenda as construções do liberalismo. Apenas quando eles comecem a se descrever como uma negação do que nós somos é que saberemos que fomos vitoriosos, pois sua falta de um vocabulário afirmativo, positivo será indicativo de que sua identidade foi completamente desconstruída e tornou-se, portanto, socialmente, moralmente, e filosoficamente inaceitável.

Desenvolver tal vocabulário, porém, é uma função de determinarmos novamente quem nós somos e o que buscamos. Sem uma metafísica para definir a tradição e impulsioná-la adiante, qualquer tentativa de uma revolução cultural falhará. Um povo necessita de uma metafísica se ele deve contar sua história. Se a história de quem nós somos e para onde nós vamos não pode ser contada por falta de uma metafísica definidora, qualquer tentativa de revolução cultural precisará confiar em histórias antigas, e eventualmente deslizará na direção do conservadorismo, e portanto do tédio e da irrelevância.

Após o Conservadorismo

Não se pode defender a cultura ocidental sem defender as coisas que definiram a cultura ocidental. Uma metafísica, e portanto "nossa história", é definida através da arte. A arte, no sentido mais amplo possível, dá expressão a valores, ideais, e sentimentos que um povo compartilha e sente no âmago e seu ser, mas que costumeiramente não podem ser articulados em palavras. Portanto, a batalha pela identidade ocidental é travada nesse nível, não no campo político, mesmo que a identidade seja uma questão política. Similarmente, qualquer tentativa de usar a arte para propósitos políticos falha, porque a política, sendo meramente a arte do possível, é definida pela cultura, e não o contrário.

Na busca por "nossa história", nós não devemos confundir arte com técnica. A técnica pode ser definida pela tradição, e uma tradição pode encontrar expressão em diversas técnicas, tornando-as "tradicionais", mas as duas coisas não são sinônimas. Similarmente, a técnica pode melhorar a arte, mas a técnica não é mais arte do que a arte é técnica. A arte explora e define. A técnica reproduz e perpetua. Assim, a arte está para a tradição como a técnica está para o conservadorismo. É por isso que a arte contemporânea, sendo uma expressão extrema de ideais liberais, é desprovida de técnica, e porque arte com técnica é considerada conservadora, ilustrativa, ou "estranha".

Aqueles preocupados com a continuidade do Ocidente não raro tratam a leitura exclusiva de não-ficção e clássicos como prova de sua seriedade e dedicação, mas ironicamente será quando eles comecem a ler ficção e a escrever ficção que eles estarão em seu estado mais sério e dedicado. Se tradição implica continuidade e não simples replicação, então ela também implica criação contínua e não simplesp reservação.

Após a Tradição

Nenhuma tradição possui vida eterna. A nossa um dia acabará. O liberalismo vê sua realização como o fim da história, mas essa é sua cosmologia, não a nossa. Portanto, o liberalismo não nos indica - e nem deveria - que alcançamos o fim da linha. A degeneração do Ocidente está ligada à degeneração do liberalismo. O Ocidente será renovado quando os liberais sejam derrubados. Eles serão reduzidos a uma subcultura obsoleta e irrelevante vivendo de memórias e preocupadas com conservar o seus restos. Uma vez regenerado, o Ocidente continuará até que sua tradição destrua a si mesma ou seja substituída por outra. Qualquer seja a tradição que substitua a nossa ela pode ser autóctone, mas poderá também ser a tradição de outra raça. Se for assim, este será o fim de nossa raça. Assim, enquanto nossa raça permanecer vibrante, capaz de gerar uma nova metafísica quando uma metafísica antiga morrer, ela poderá continuar a viver, e a ser mestra do próprio destino.

terça-feira, 20 de março de 2012

Alain de Benoist - Dinheiro

por Alain de Benoist


Claro, todo mundo prefere ter um pouco mais do que de menos. “Dinheiro não compra felicidade, mas contribui com ela” – como diz o ditado. Precisamos encontrar, entretanto, o significado de felicidade. Max Weber escreveu em 1905: “Um homem ‘por natureza’ não deseja ter mais dinheiro; ele apenas quer viver conforme é acostumado a viver, e ganha o quanto é necessário para isto.”

Numerosas investigações apontaram um contraste relativo entre o padrão de vida crescente e o nível de satisfação entre indivíduos. Passado um certo limite, ter mais dinheiro não significa ter mais felicidade. Em 1974, em seus estudos, Richard Easterlin estabeleceu que o nível médio de satisfação expressa pela população manteve-se virtualmente imutável desde 1945, apesar do espetacular aumento na riqueza de países desenvolvidos. (Este “paradoxo de Easterlin” tem sido recentemente confirmado) O fracasso em medir crescimento material, assim como o PIB, para avaliar o nível do real bem-estar, é também muito notado – especialmente o nível de uma certa comunidade. Não há um serviço para escolhas indiscutíveis que seria capaz de calcular as preferências individuais em termos das preferências sociais.

É tentador ver o dinheiro como uma ferramenta de poder. Infelizmente, o antigo projeto de separação radical entre poder e riqueza (um é mais rico e poderoso) continuará a ser um sonho. Uma vez o homem foi rico porque era poderoso; hoje ele é poderoso porque é rico. O acúmulo de dinheiro tem rapidamente se tornado não o significado de expansão de mercado (como alguns acreditam), mas o objetivo da produção de commodities. O capitalismo não tem outro objetivo senão o de lucro sem limites e de acúmulo interminável de dinheiro. A habilidade para acumular dinheiro obviamente dá poder discricionário para aquele que a tiver. Especulações com dinheiro dominam o governo mundial. O banditismo especulativo mantêm o método preferido do acúmulo de riqueza capitalista.

O dinheiro não devia ser confundido com moeda. O surgimento da moeda pode ser explicado com o desenvolvimento do intercâmbio mercantil. É somente pelo comércio que os objetos adquirem sua dimensão econômica. E é também pelo comércio que o valor econômico é obtido com completa objetividade, dado o fato de que bens comercializados devem beirar o lado subjetivo de um ator singular – assim esses bens podem ser medidos em termos da relação entre diferentes atores.

Como um equivalente geral, moeda é intrinsecamente um fator de unificação. Reduzindo todos os bens a um denominador comum automaticamente torna o comércio homogêneo. Aristóteles já tinha observado: “Todas as coisas que são comercializadas deveriam ser de alguma maneira comparáveis. Com esse propósito, a moeda foi inventada, que mais tarde se tornou, de certa forma, um intermediário. É uma medida de todas as coisas”. Criando uma perspectiva da qual a maioria das diversas coisas pode ser valorizada com simples números, a moeda torna tudo “igual”; a moeda, portanto, reduz todas qualidades de distinção mutualística a uma simples lógica de “mais e menos”. Dinheiro é o padrão universal que garante a equivalência abstrata de todos commodities. Como um equivalente geral, reduz toda qualidade à mera quantidade. O valor de mercado é somente capaz de diferenciação quantitativa.

O Monoteísmo do Mercado

“A lei do dinheiro, escreve Jean-Joseph Goux, é o reino de medida única da qual todas coisas e atividades humanas podem ser avaliadas... O que observamos aqui é a “mentalidade monoteísta” em relação a noção de valor como equivalente geral para todas as coisas. Essa racionalidade monetária, baseada em um simples padrão de valor, é totalmente consistente com a “univalência teológica”. Isso pode ser chamado de lei “monoteísmo de mercado”. O dinheiro, escreve Marx, é como uma commoditiy, que leva a uma total alienação porque produz alheamento global de todas as commodities”.

O dinheiro é muito mais do que apenas dinheiro – e seria um grande erro acreditar que o dinheiro é “neutro”. Não menos do que a ciência, não menos do que a tecnologia e linguagem, o dinheiro não pode ser neutro. Vinte três séculos atrás, Aristóteles observou que “a necessidade humana é insaciável”. Bem, “insaciável” é a palavra certa; não há nada suficiente. E sim, porque nunca será saciável, nunca se terá superávit. O desejo por dinheiro é um desejo que nunca poderá ser satisfeito porque alimenta a si mesmo. Qualquer quantidade dele, seja o que for, deve ser acrescentada ao ponto em que melhor deve sempre significar mais.

A coisa, a qual se pode ter sempre mais, nunca se terá o suficiente. Essa é a razão do porque as antigas religiões européias continuamente advertiam contra a paixão pelo dinheiro:

O Mito Gullveig na Mitologia Nórdica

O Mito de Midas

O Anel de Policratos

O Crepúsculo dos Deuses (“Ragnarök”)

Todas essas foram consequências do desejo pelo dinheiro (a “Maldição de Rheingold”). “Nós estamos correndo perigo”, Michael Winock escreveu poucos anos atrás, “de ver o dinheiro e sucesso financeiro como o único padrão de prestígio social, o único propósito de vida”. Aqui estamos agora. Hoje em dia, todo mundo almeja dinheiro ao redor do mundo. O Direitismo tem sido por anos seu maior servente devoto. A Esquerda institucional, sob o guia do “realismo”, esposou os princípios da economia de mercado – quer dizer, a administração liberal do capital. A linguagem da economia tem se tornado ubíqua. O dinheiro se tornou rito de passagem obrigatório em todas as formas de desejo que eles expressam no registro de comércio.

O sistema monetário, entretanto, não durará muito mais. O dinheiro será destruído pelo próprio dinheiro – por hiperinflação, bancarrota e hiperdébito. Provavelmente, se compreenderá com isto que só se pode ser rico pelo que se dá aos outros.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Plataforma da Frente Popular para a Libertação da Palestina

por FPLP



1 - Guerra Convencional é Guerra Burguesa. Guerra Revolucionária é Guerra Popular

A burguesia árabe desenvolveu exércitos que não estão preparados para sacrificar seus próprios interesses ou arriscar seus privilégios. O militarismo árabe tornou-se um aparato para a opressão de movimentos socialistas revolucionários nos estados árabes, enquanto ao mesmo tempo afirma ser radicalmente anti-imperialista. Sob a máscara da questão nacional, a burguesia tem usado seus exércitos para fortalecer seu poder burocrático sobre as massas, e para prevenir que trabalhadores e camponeses conquistassem o poder político. A burguesia nacional usualmente chega ao poder através de golpes militares e sem qualquer atividade por parte das massas, e logo que chega ao poder reforça sua posição burocrática. Através da aplicação generalizada do terror ela é capaz de falar em revolução enquanto ao mesmo tempo suprime todos os movimentos revolucionários e prende todos que tentam defender a ação revolucionária. A burguesia árabe tem utilizado a questão palestina para distrair as massas árabes de perceber seus próprios interesses e seus próprios problemas domésticos. A burguesia sempre concentrou suas esperanças em uma vitória fora das fronteiras estatais, na Palestina, e desse modo eles foram capazes de preservar seus interesses de classe e suas posições burocráticas.

A guerra de junho de 1967 refutou a teoria burguesa da guerra convencional. A melhor estratégia para Israel é atacar rápido. O inimigo não é capaz de mobilizar seus exércitos por um longo período de tempo porque isso intensificaria sua crise econômica. Ele recebe apoio completo do imperialismo americano e por essas razões necessita de guerras rápidas. Portanto para nosso povo pobre a melhor estratégia a longo prazo é uma guerra popular. Nosso povo deve superar suas fraquezas e explorar as fraquezas do inimigo através da mobilização dos povos árabes e palestino. O enfraquecimento do imperialismo e do sionismo no mundo árabe demanda uma guerra revolucionária como meio de confronto.

2 - Combate de Guerrilha como Forma de Pressão pela "Solução Pacífica"

A luta palestina é parte da totalidade do movimento de liberação árabe e do movimento de liberação global. A burguesia árabe e o imperialismo global estão tentando impor uma solução pacífica sobre esse problema palestino mas essa sugestão meramente promove os interesses do imperialismo e do sionismo, a dúvida na eficácia da guerra popular como meio de liberação e a preservação das relações da burguesia árabe com o mercado imperialista global. A burguesia árabe tem medo de se isolar desse mercado e de perder seu papel de mediadora do capitalismo global. É por isso que os países produtores de petróleo romperam o boicote contra o Ocidente (instituído durante a guerra de junho) e por essa razão McNamara, como presidente do Banco Mundial, estava disposto a oferecer créditos a eles.

Quando a burguesia árabe busca uma solução pacífica, ela está em verdade buscando o lucro que ela pode conseguir a partir de seu papel como mediadora entre o mercado imperialista e o mercado interno. A burguesia árabe ainda não se opôes à atividade das guerrilhas, e às vezes até a ajuda; mas isso é porque a presença das guerrilhas é um meio de pressão para uma solução pacífica. Enquanto as guerrilhas não tiverem uma clara afiliação de classe e uma clara posição política elas serão incapazes de resistir às implicações dessa solução pacífica; mas o conflito entre as guerrilhas e aqueles que lutam por uma solução pacífica é inevitável. Portanto as guerrilhas devem avançar para transformar suas ações em uma guerra popular com objetivos claros.



3 - Não há Guerra Revolucionária sem uma Teoria Revolucionária

A fraqueza fundamental do movimento guerrilheiro é a ausência de uma ideologia revolucionária, que poderia iluminar os horizontes dos combatentes palestinos e que incarnaria as fases de um programa político militante. Sem uma ideologia revolucionária a luta nacional permanecerá prisioneira de suas necessidades práticas e materiais imediatas. A burguesia árabe está bem preparada para uma satisfação limitada das necessidades da luta nacional, desde que sejam respeitados os limites que a burguesia estabelece. Uma ilustração clara disso é a ajuda material que a Arábia Saudita oferece ao Fatah enquanto o Fatah declara que ela não interferirá nos assuntos internos de qualquer país árabe. Como a maioria dos movimentos de guerrilha não possui armas ideológicas, a burguesia árabe pode decidir seu destino. Portanto, a luta do povo palestino deve ser apoiada pelos trabalhadores e camponeses, que irão lutar contra qualquer forma de dominação pelo imperialismo, pelo sionismo ou pela burguesia árabe.

4 - A Guerra de Liberação é uma Guerra de Classes Guiada por uma Ideologia Revolucionária

Nós não devemos ficar satisfeitos com ignorar os problemas de nossa luta, dizendo que nossa luta é apenas nacional e não uma luta de classes. A luta nacional reflete a luta de classes. A luta nacional é uma luta por terra e aquelas que lutam por ela são os camponeses que foram expulsos de suas terras. A burguesia está sempre disposta a liderar um movimento tal, esperando ganhar o controle do mercado interno. Se a burguesia for bem sucedida em colocar o movimento nacional sob seu controle, o que fortalecerá sua posição, ela poderá liderar o movimento sob a ma´scara de uma solução pacífica na direção de compromissos com o imperialismo e com o sionismo. Portanto, o fato de que a luta de liberação é fundamentalmente uma luta de classes enfatiza a necessidade de que trabalhadores e camponeses devem desempenhar um papel central no movimento de liberação nacional. Se a pequena burguesia assumir o papel de liderança, a revolução nacional cairá vítima dos interesses de classe dessa liderança. É um grande erro começar dizendo que o desafio sionista demanda unidade nacional porque isso apenas demonstra que não se conhece a verdadeira estrutura de classes do sionismo. A luta contra Israel é primordialmente uma luta de classes. Portanto a classe oprimida é a única classe capaz de realizar um confronto com o sionismo.

5 - O Principal Campo de Nossa Revolução é a Palestina

A batalha decisiva deve ser na Palestina. A luta popular armada pela Palestina pode ajudar a si mesma com as armas mais simples de modo a arruniar as economias e máquinas de guerra de seu inimigo sionista. A movimentação das lutas populares para a Palestina dependem da agitação e organização das massas, mais do que de ações de fronteira no vale do Jordão, ainda que essas ações sejam importantes para a luta na Palestina.

Quando as organizações de guerrilha começaram suas ações nas áreas ocupadas, elas foram confrontadas por uma brutal repressão militar pelas forças armadas do sionismo. Porque essas organizações não tinham uma ideologia revolucionária e, portanto, qualquer programa, elas se entregaram às demandas de autopreservação e recuarão para a Jordânia oriental. Toda sua atividade transformou-se em ação de fronteira. Essa presença das organizações de guerrilha no Jordão permite que a burguesia jordaniana e seus agentes secretos esmaguem essas organizações quando elas não são mais úteis como pressão por uma solução pacífica.

6 - Revolução em Ambas as Regiões do Jordão

Nós não devemos negligenciar a luta na Jordânia oriental pois está terra está ligada à Palestina muito mais do que com qualquer outro país árabe. O problema da revolução na Palestina está dialeticamente conectado com o problema da revolução na Jordânia. Uma cadeia de cocnspirações entre a monarquia jordaniana, o imperialismo e o sionismo tem provado essa conexão.

A luta na Jordânia oriental deve assumir o caminho correto, aquele da luta de classes. A luta palestina não deve ser utilizada como meio de apoiar a monarquia jordaniana sob a máscara da unidade nacional. E o principal problema na Jordânia é a criação de um partido marxista-leninista com um claro programa de ação segundo o qual as massas possam ser organizadas para realizar a luta nacional e de classes. A harmonia da luta nessas duas regiões deve ser realizada através de órgãos de coordenação cuja tarefa será a de garantir reservas dentro das Palestinas e mobilizar os camponeses e soldados em territórios fronteiriços.

Esse é maneira pela qual Amman pode se tornar uma Hanói árabe: uma base para revolucionários lutando na Palestina.