quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Nacional-Bolchevismo Russo

“A causa do povo é a causa da nação, e a causa da nação deve ser a causa do povo” - Lenin

por Christian Bouchet

Se há disponível agora na França um número de trabalhos satisfatórios de referência que nos permite compreender bem o nacional-bolchevismo alemão, isso é não é o caso para um nacional-bolchevismo russo, a existência da qual nós estamos simplesmente descobrindo. Assim o trabalho de Mikhail Agusrky, embora hostil, é uma importante fonte de informação e de razões para meditar, ainda de ter esperanças.

A tese do autor, inspirada por reflexões de Ortega y Gasset em A Revolta das Massas, é que os componentes marxistas e socialistas do bolchevismo russo são somente “camuflagens históricas” para um processo realmente mais profundo geopolítica e historicamente. Para Agusrky, Lenin praticou uma linguagem dupla, ortodoxa marxista em suas escrituras, que deveriam somente ser consideradas como trabalhos de “relações públicas”, ele se colocou a si mesmo de fato na linha de Aleksandr Herzen, quem rejeitou o Ocidente e quem promoveu uma invasão da Europa Ocidental pelos eslavos. Desde o começo do século, Lenin e os bolcheviques teriam atribuído o objetivo para eles mesmos de dar a liderança da revolução mundial para a Rússia e para os russos. Nesse ponto de vista, o nacional-bolchevismo seria a ideologia nacionalista russa que faria o sistema da política soviética legitimar do ponto de vista nacionalista e não do ponto de vista marxista. O nacional-bolchevismo faria assim uma tentativa para a dominação mundial de um Império Russo cimentado pela ideologia comunista.

Examinando um período que estende de 1870 à Novembro de 1927 (data do triunfo de Stálin no 15º congresso do partido comunista), o livro de Agursky cobre sucessivamente diferentes faces do nacional-bolchevismo russo: a contribuição para ele por partidos revolucionários não-marxistas, suas relações com os proto-fascistas da União do Povo Russo, a facção ultra-bolchevique “Frente 1”, a influência futurista, a importância dos intelectuais judeus no nacional-bolchevismo, e o Smenovexismo.

A Herança Não-Marxista dos Nacional-Bolcheviques

Agursky vê no nacional-bolchevismo russo o resultado de um número certo de influências não-marxistas.

Isso do Aleksandr Herzen que figura que o socialismo russo beneficiaria do pan-eslavismo e que a Rússia foi uma nação jovem, em melhor saúde que o Ocidente, do qual o futuro foi criar um Império “que conteria o Reno, iria para a Bosphore e para o outro lado extenderia ao Pacífico”. Isso de Mikhail-Bakunin, anarquista com uma base nacionalista que fez de si mesmo o apoiador de Nikolai Muraviev-Amursky,governador da Sibéria que conquistou uma parte dos territórios do Extremo Leste com o consentimento do governo, e quem descobriu que os eslavos deveriam ter um interesse nacional na revolução. Isso do prussiano Ferdinand Lassalle, do qual o socialismo misturou com um nacionalismo muito forte e um estatismo não menos poderoso. Dos populistas, principalmente depois da revolução quando membros numerosos do Partido Socialista Revolucionário uniram-se aos bolcheviques, como o SR foi tradicionalmente oposto ao Ocidente capitalista, messianistas, acreditou que o povo russo criaria sua própria forma de socialismo que seria a vanguarda de toda a humanidade.

Bandeiras Vermelhas e Centenas Negras


A União do Povo Russo, conhecida também sob nomes de Centenas Negras, representa uma forma do proto-fascismo russo. Um movimento pró-Alemanha, anti-Inglês, e anti-Yankee, temendo a expansão dos povos amarelos, condenou com força o capitalismo, o parlamentarismo, e o liberalismo, e previu uma violenta revolução anti-Romanov. Sua base militante foi formada pela maior parte de trabalhadores industriários. Contrariamente à opinião decorrente, esse grupo não estava em oposição violenta aos comunistas russos, mas em concorrência e uma certa admiração existiu em parte deles, dirigindo-os para alianças temporárias e criando passagens de militantes de um campo para o outro.

Plexanov estimou que a fileira do URP foi 80% feito por proletários e que eles “se tornariam participantes ardentes do movimento revolucionário”, Peter Struve afirmou que o URP foi um partido socialista revolucionário, no congresso do Partido Social Democrata de 1907, Pokrovsky, que se encontrará na fração extremista bolchevique “Frente 1”, insistiu nos lados positivos da URP. Lenin foi primeiramente reticente nessas posições, e que foi convencido da boa base por Maksim Gorky, quem teve correspondência com os Centenas Negras desde 1905.

No lado da URP, isso levou á numerosas mudanças na estratégia para os futuros comunistas para trazer a destruição dos liberais. Para um dos líderes dos Centenas Negras, Apollon Maikov, eles “perseguiram os mesmos objetivos como os revolucionários, que é dizer do melhoramento das condições de vida, um objetivo que coincide de certa forma com o ensinamento dos anarquistas sociais...Os constitucionalistas chamam os revolucionários armados de ‘revolucionários de esquerda’, e os Centenas Negras de ‘revolucionários de direita’. Do ponto de vista deles essa definição tem uma certa legitimação...porque nós todos pensamos que a forma constitucional de governo traz a dominação total do capital, e nessas condições quando o poder estiver excessivamente na mão dos capitalistas, quem apenas manterá por sua própria vantagem para oprimir e explorar a população”. Outro líder do URP, Viktor Sokolov, acusou a burocracia reinante de desejar incitar os membros “à lutar contra os elementos revolucionários, e assim enfraquecer os dois partidos nessa luta”.

Começando na marcha de 1917, mais de 3000 membros do URP (ao mesmo tempo os bolcheviques foram somente 10000), começaram a unir-se ao Partido Bolchevique ou a trabalhar por ele depois da revolução. Assim se vê os jornais dos Centenas Negras chamando pela ditadura do proletariado, a cabeça dos estudantes da URP em Kiev, Yuri Piatakov, se tornando responsável pelos soviets ou trabalhando em Cheka (antiga KGB), enquanto numerosos outros se tornaram membros da Igreja Ortodoxa leal ao regime (a cabeça do URP de Tiflis se tornou também o metropolitano Varfolomei e morreu de causas naturais, aos 90 anos de idade, em 1956).

A Facção “Frente!”

Uma facção interna e externa do Partido Bolchevique, finalmente reintegrado adentro, “Frente” agruparam juntos quase totalmente os intelectuais bolcheviques (Makism Gorky foi um dos maiores partidários) e tiveram uma influência assombrosa na sociedade soviética sob Lenin e depois de sua morte.


A maioria dos líderes do “Frente” prosperaram sob Stálin e ninguém deles teve de sofrer punições. Se considera eles como teóricos do bolchevismo nacional e totalitário. Se muitas de suas idéias são interessantes neles mereceriam desenvolvimentos (a concepção faustiana da vida, acredita na criação de uma super-humanidade, democracia totalitária valorando o grupo e negando o individualismo) elas nos interessam principalmente porque têm contribuído muito para o desenvolvimento do nacional-bolchevismo da Rússia, primeiramente pela deificação do povo russo que nasceu de um movimento semi-religioso “Os Construtores de Deus”, seguidos por uma rejeição absoluta do Ocidente. Nesse ponto eles afirmam que a Rússia foi, depois da revolução, uma colônia do Ocidente, que suas tradições revolucionárias foram puramente russas e que a revolução de 1917 teve um elemento tradicional. Finalmente foram os membros do “Frente” quem foram à origem do Prolecult (cultura proletária) afirmando que o povo é somente criador de cultura e que a individualidade depravada deve ser eliminada.

O Nacionalismo dos Futuristas


Os futuristas russos vagueiam em sua totalidade no campo dos intelectuais soviéticos para os quais eles trouxeram um sólido nacionalismo desenvolvido de sua aparência bem antes da guerra. Insistindo na pureza de linguagem, eles popuseram a exclusão de termos de origem estrangeira do vocabulário russo. Intelectuais favorecidos, eles viajaram portanto “para o Ocidente” do qual eles muito deixaram reações citando sua decadência e sua fraqueza, oposta à jovialidade e força do Leste Russo, afirmando que “A luz do Leste não é somente a liberação dos trabalhadores. A luz do Leste é uma nova atitude para o homem, mulher, e coisas”, ou escrevendo “Eu mujo como um touro, sendo sortudo de que minha terra maternal – minha mãe – é a terra russa, a terra russa, a terra russa. Eu não conheço um êxtase mais profundo que ser russo. Eu não conheço sensações mais profundas do que ser russo, um verdadeiro russo”.

Um Nacional-Bolchevismo Judeu

Um dos muitos pontos surpreendentes do nacional-bolchevismo russo dos anos 20 é a importância nas suas fileiras de intelectuais de origem judaica tendo por grande parte cruzado uma fase mística. Para esses, a revolução significou um messianismo e os permitiu afirmar o amor da pátria russa sem serem rejeitados pelo anti-semitismo na sociedade russa.

Esses intelectuais judeus organizaram tanto na emigração na qual eles participaram em Smenovexista decorrente, ou na própria Rússia, onde, apesar de sua heterodoxia, alguns em especial ocuparam posições importantes. Se Ilya Ehrenburg, conhecido por seus artigos e difusões radialistas ultranacionalistas depois de 1941, não teve extraordinariamente originalidade conceitual, não se pode dizer o mesmo para dois dos principais teóricos judeus do nacional-bolchevismo: Isai Lezhnev e Vladimir Tan-Bogoraz.

O primeiro, ainda que oposto aos comunistas durante a revolução de 1917, foi um dos favoritos de Stalin, responsável por suas páginas literárias de Pravda e um dos principais críticos literários da União Soviética. Influenciado por Nietzsche, Shestov, e Hegel, ele rejeitou valores tradicionais, lei, ideologia, e somente reconheceu como critério o “Espírito do povo russo”, acreditando que isso carregou uma dimensão imperial: “O imperialismo russo (de oceano à oceano), o messianismo russo, o bolchevismo russo (em um nível global) estão todos marchando para uma mesma direção”.

Vladimir Tan-Bogoraz, vindo de uma via mais radical do movimento populista, se tornou o diretor do Instituto de Religiões. Violentamente anti-cristão, ele mostrou uma certa preferência ao islamismo, vendo no Deus do Antigo Testamente um populista-terrorista e suas escrituras ressentem uma influência cabalística. Se auto-afirmando orgulhoso de ser acusado de nacional-bolchevique, ele viu no reino de Pedro o Grande um exemplo para um novo regime e demonstrou um anti-Ocidentalismo muito forte.

Smenovexismo, Um Nacional-Bolchevismo em Emigração

Mas o mais puro e mais interessante nacional-bolchevismo nasceu nas fileiras da emigração branca. Em Outubro de 1920, Nikolai Ustrialov, fez referência ao nacional-bolchevismo alemão e confidenciou em seus amigos suas decisões em proclamar uma versão russa de tal.

Ensinando na Universidade de Moscou, Ustrialov se tornou conhecido em 1916 por colaborar com o jornal <> (“Problemas da Grande Rússia) e por defender no expansionismo russo um Estado forte. No mesmo ano ele deu conferências aos eslavófilos, em que ele afirmou que a Rússia teve uma missão global. Um membro ativo do Partido Kadet, ele testemunhou com satisfação a caída do Czarismo, e colaborou no diário <> (“Amanhecer da Rússia”) em que ele afirmou que a Revolução Bolchevique foi realmente autenticamente russa, assim como ele criticou a orientação da política exterior dos Bolcheviques. No verão de 1928, ele teve de fugir de Moscou e se uniu à zona mantida pelos brancos armados. Um refúgio as vezes em Omsk, ele terminou emigrando para a China em Harbin, de onde criticou as forças contra-revolucionárias muito unidas por ele para interesses estrangeiros...Em Novembro de 1920, Ustrialov, com três poetas exilados, quem mais trade se torna celebrado como escritor soviético, fundou a revista <> (“Janela”). Sua influência foi imediatamente muito grande em emigração, algumas conferências nacional-bolcheviques foeam mantidas em Paris, um boletim Smena Vex apareceu em Praga, um diário “Nakanun” (“Na Véspera De”) foi publicado em Berlim e um grupo militante muito importante apareceu na Bulgária (seu cabeça foi mais tarde assassinado pelos brancos). Na Rússia ainda, o smenovexismo não passou desapercebido, Lenin imaginou um retorno triunfal de Ustrialov para Moscou (de fato que não aconteceu, mas muitos de seus partidários retornaram à Rússia), tiveram artigos de Smena Vex publicados em Pravda, financiado Nakanun secretamente, e evocado favoravelmente a existência desta decorrente no 11º Congresso do Partido Comunista em Março de 1922. Depois da morte de Lenin, os Smenovexistas, que sustentaram os ataques de Kamenev, Buxarin, e Trotsky, foram defendidos por Stalin pessoalmente, como se diz que ele apreciava-os bastante. É dito que durante sua expulsão da URSS, Trotsky chorou, “É a vitória de Ustrialov!”. De um ponto de vista teórico, Ustrialov, quem pensou em termos de medidas do poder afirmou que “somente um Estado fisicamente poderoso pode possuir uma grande cultura. O pequeno pode, por natureza, prover sua elegância, honra, ainda heroísmo, mas eles são organicamente incapazes de grandiosidade; isso requere um grande estilo, uma proteção em grande unidade de pensamento e ação”. Ele considerava também que:

O governo soviético forçará por seus próprios significados a reunificação dos territórios periféricos com o Centro, em nome da Revolução Global. Os patriotas russos lutarão para conseguir o mesmo objetivo em nome da indivisível e Grande Rússia. Apesar das diferenças ideológicas, eles todos seguiram praticamente o mesmo caminho.

Enquanto um de seus discípulos, o poeta Vladimir Xolodkovsky, chorou, “A URSS não é somente um Estado do desenvolvimento da Rússia como uma entidade etno-geográfica, é um ponto desviado na evolução da nacionalidade na humanidade. Se Moscou de Kalita foi capaz de trazer a terra russa para o grande império pela glória e opressão, Moscou Soviética começou a trazer junto a terra para um Império de trabalhadores e de liberdade”.

O Nacional-Bolchevismo Russo Desde 1927

Apesar das 500 páginas, o trabalho de Agursky deixa-nos em um certo senso deficiente. Ele falha em providenciar-nos com uma análise do estalinismo triunfante, da “Grande Patriota Guerra”, ainda da evolução da opinião da emigração.

Ao mesmo tempo, a situação decorrente ou contemporânea permanece explorada.

Qual genealogia ideológica pode traçar os dissidentes nacional-bolcheviques do início dos anos 1970? Se estes são os membros do grupo Fetisov (em nome de AA Fetisov que sair do CP, a fim de protestar contra a desestalinização) afirmam que "o leninismo tem incomparavelmente mais em comum com a ortodoxia russa e eslavofilia do que com o marxismo e catolicismo" e que "apenas uma união da Rússia ortodoxa com o leninismo pode produzir essa visão do mundo ideal para o povo russo que irá criar uma síntese de toda a experiência das pessoas através dos séculos ". Ou é uma questão dos “ultras” de Gennadiy Shimanov, partidários da Terceira Roma que descobriram que o regime soviético foi somente uma organização política que foi capaz de se opor à “raiz democrática Ocidental”, e mobilizar o povo para um novo objetivo histórico: o Império. Ou é também, finalmente, a afiliação nacional-bolchevique dos líderes do decorrente Partido dos Bolcheviques da União Comunista, o Partido Comunista Russo, ou o Partido Comunista dos Trabalhadores Russos e alguns grupos políticos e jornais classificados no círculo “vermelho-marrom”.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Sobre o Popularismo ou Populismo

por Alberto Buela



A politologia, uma cisão relativamente recente da filosofia, tem considerado historicamento o populismo de forma pejorativa. Quer seja outorgando-lhe uma conotação negativa, caracterizando-o como uma patologia política na opinião de Leo Strauss ou como o enfant perdu da ciência política. Ele tem sido estudado vergonhosamente por aqueles que o fizeram. A mais renomada estudiosa do tema, a inglesa Margaret Canovan sustenta que: "o termo populismo se usa comumente a modo de diagnóstico de uma enfermidade".

 O termo populismo encerra uma polissemia de difícil acesso para os politólogos que por formação e disciplina carecem dos meios suficientes para elucidá-la. De modo tal que a maioria do tratadistas se ocupam de descrições mais ou menos sutis segundo usa capacidade pessoal. Porém tudo isso não vai mais além de um somatório de características que não chegam à essência do fenômeno. Conta muito em cada um deles sua experiência pessoal e sua conformação ideológica. Assim, por exemplo, o dicionário de política mais recente editado no Brasil o define: Designação que se dá à política posta em prática em sentido demagógico especialmente por presidentes e líderes políticos da América do Sul, os quais com uma aura carismática se apresentam como defensores do povo. Cumpre destacar como exemplo típico Perón na Argentina, vinculando aos interesses populares reivindicações nacionalitas. Definir o populismo através da demagogia é, não somente um erro de método, senão uma posição política vinculada ao universo liberal-socialista clássico.

Os tratados de história da ciência política, multiplicados ao maior nas últimas décadas anunciam nesse item, acriticamente, uma e outra vez uma série de regimes aos quais atribuem o caráter de populistas, havendo entre eles, diferenças substanciais. Assim vão juntos, os movimentos do século XIX, tanto o agrário radical dos EUA como o intelectual dos narodnichevsto da Rússia. A democracia direta da Suíça. Getúlio Vargas (1895-1974) e seu Estado Novo no Brasil. Perón (1895-1974) e sua Comunidade Organizada para a Argentina. Gamal Nasser no Egito. O general Boulanger e logo o mouvement Poujade na França. Mais proximamente George Wallace nos EUA e o Solidarnosc na Polônia. Nos perguntamos: Tudo isso junto, involucrado em um só conceito, não seria um sabá...não se parece bastante?
Porém o que tem acontecido ultimamente para que a grande maioria das revistas sobre ciência política se ocupem assiduamente do populismo? Em nossa opinião, este deixou de ser um fenômeno próprio das nações periféricas como o foi nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial para transformar-se em um fenômeno europeu. Assim a Lega Nord de Humberto Bossi na Itália; o Partido Rural de Veikko Vennamo na Finlândia; o Front National de Jean Marie Le Pen na França; na Bélgica o movimento flamengo do Vlaams Blok; o sucesso de Heider na Áustria; o Fremskirttsparti na Dinamarca, Suécia e na Noruega; a Deutsche Volksunion na Alemanha; o movimento socialista pan-helênico na Grécia, e a União Democrática na Suíça são alguns dos movimentos caracterizados como "populistas" pelos analistas políticos, seguindo os acadêmicos da vez.

A instalação política do populismo na Europa nestes últimos anos obrigou os teóricos a repensar a categoria de populismo com a intenção de liberá-la da conotação pejorativa que lhe outorgaram eles mesmos outrora quando o fenômeno do populismo se manifestava nos países periféricos ou do terceiro mundo, como foram os casos de Perón, Vargas ou Nasser.

É muito difícil levantar a demonização de uma categoria política logo de cinquenta anos de ser utilizada em um sentido denigrente e pejorativo. É por isso que propomos utilizar um neologismo como popularismo para caracterizar os fenômenos políticos populares.

Traços do Popularismo

Estes movimentos consideram o povo como: a) fonte principal de inspiração; b) termo constante de referência e c) depositário exclusivo de valores positivos.

O povo como força regeneradora é o mito mais funcional para a luta pelo poder político.

O popularismo exclui a luta de classes e é fortemente conciliador. Para ele a divisão não se dá entre burgueses contra proletários senão entre povo e antipovo. (ex. descamisados contra oligarquia na Argentina).

Seu discurso é, então, antielitista e canaliza o protesto no seio da opinião pública na forma de interpelação aos poderes públicos e ao discurso dominante.

Sua prática política radica na mobilização de grandes massas que expressam mais que um discurso reflexivo, um estado de ânimo. As multitudinárias concentrações são o locus do discurso popularista. Os muros e paredes das cidades ainda não foram substituídos pela mídia de massa como veículo de expressão escrita do discurso interpelativo do popularismo.

Finalmente sua vinculação emocional em torno a um líder carismático que em uma espécie de democracia direta interpreta o sentir desse povo.

Conciliação de classes, discurso interpelativo, mobilização popular e líder carismático são os traços essenciais do popularismo.

Existe uma diferença substancial entre os movimentos populares periféricos e os dos países centrais. Estes últimos tem uma tendência racista ostensível para expulsar de si a tudo aquilo que não é verdadeiro povo enquanto que nos países subdesenvolvidos ou dependentes existe neles uma tendência à fusão étnica dos elementos marginais. Aqui o povo é um modo de ser aberto enquanto que nos países centrais é fechado. Hoje, o horror ao imigrante é o exemplo mais evidente.

Os popularismos tem uma exigência fundamental de enraizamento ou pertença a uma nação ou região determinada, isso faz que por sua própria natureza se oponham sempre a todo internacionalismo, manifestado hoje sob o nome de globalização.

O exerício político do plebiscito através de essa espécie de democracia direta que é a mobilização popular convocada por um líder carismático com um discurso de protesto ao discurso oficial elaborado a partir do politicamente correto, coloca em contradição aos politólogos democratas que perante a crise de representatividade política buscam novas fórmulas para o abatimento da democracia liberal. Pois isso teóricos bem intencionados compreendem, a olhos vistos, que são os movimentos populares os que exercem a verdadeira democracia: aquela em que o governo faz o que o povo quer e não tem outro interesse mais que o do povo mesmo.

Esta contradição não se pode resolver com livros nem artigos eruditos, se soluciona legalizando o que legitimamente os povos vem fazendo em busca de sua mais genuína representação. E isso supõe uma "revolução legal" que nenhum governo ocidental, hoje, está disposto a realizar.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A Involução do Homem ao longo dos Ciclos: O Tradicionalismo Radical sobre a Antropogênese

por Michael Bell



No que concerne a gênese da humanidade moderna, há duas teorias primárias que recebem credibilidade nos círculos antropológicos. Uma é a hipótese "fora da África", que defende que os humanos de hoje são os descendentes evoluídos de uma raça primitiva de hominídios que, 70.000 anos atrás, saiu de seu território original na África e se espalhou pelo globo. Chegando na Ásia e na Europa, esses humanos arcaicos substituíram os neanderthais indígenas através do conflito violento e de taxas de natalidade mais altas. Eles então se adaptaram a seus meios e gradualmente se transformaram nas atuais raças humanas através de um processo chamado de evolução localizada.

A outra teoria é a "evolução divergente", que propõe que as várias raças da humanidade brotaram a partir de misturas contínuas entre os diferentes proto-humanos (homo erectus, cromagnon, neanderthais, etc.) há muitos milênios. Os incontáveis amálgamas híbridos então sofreram uma evolução localizada como o ancestral singular do processo "fora da África".

Ainda que essas hipóteses estejam em contradição uma com a outra, elas estão unidas por um conceito fundamental: a idéia de progresso. Enquanto cada uma dá uma diferente origem à humanidade, ambas parte da hipótese de que conforme o tempo passa, a humanidade se torna melhor. Ainda que a teoria evolucionária não implique que adaptações superiores também sejam superiores em termos de inteligência e beleza, essa noção é particularmente difícil de abalar no que concerne a evolução humana.

O Tradicionalismo radical rejeita a hipótese modernista da evolução humana progressiva, considerando-a o exato oposto de como o universo funciona. Para o Tradicionalismo, todas as coisas começam em seu zênite e gradualmente degeneram, através de uma série de fases, em meras sombras de sua glória anterior, um padrão que não é menos verdadeiro para seres humanos. O propósito desse ensaio é explicar como essa regra tem se aplicado à humanidade, que não ascendeu ao domínio do mundo a partir das origens medíocres de algum ancestral simiesco, mas ao contrário decaiu da divindade em sua atual condição demasiado humana.

Para fazê-lo, primeiro será necessário descrever o entendimento Tradicionalista radical da história. Como todos os princípios do Tradicionalismo, essa concepção é considerada uma verdade revelada transmitida através de uma cadeia iniciática. O que recomenda a perspectiva Tradicionalista ao não-iniciado é sua coerência e poder explicativo. No seguinte ensaio, eu mostro que o Tradicionalismo explica os registros arqueológios e histórios e também se harmoniza com mitos antigos. O empirista moderna provavelmente desprezará tais mitos como fantasias de imaginações primitivas, mas isso seria uma petição de princípio, haja vista que isso seria apenas uma outra versão da tese progressista que o Tradicionalismo rejeita.

História Cíclica



O Tradicionalismo radical compartilha da mesma visão da história humana que nossos antepassados de praticamente cada canto do globo. Em oposição ao modelo linear da história - seja ela governada por um propósito subjacente ou pelo mero acaso - os antigos aceitavam um modelo cíclico. Isso é evidente nos textos de virtualmente cada raça civilizada. Os hindus traçavam o descenso do homem ao longo de quatro eras ou yugas, da idade da Verdade (Satya Yuga) à idade das Trevas (Kali Yuga), com a série compreendendo uma única Grande Idade (Mahayuga). O Hesíodo helênico, em seus Trabalhos e Dias, descreveu a procissão de uma Idade do Ouro às Idades da Prata, Bronze, e Ferro, que correspondem à representação persa dos ciclos. O Velho Testamento revela que os povos semitas também partilhavam desse entendimento cíclico. Em um sonho tido pelo rei caldeu Nabocodonosor, havia uma estátua com a cabeça feita de ouro, o tórax e braços de prata, coxas de bronze, e pernas e pés de ferro e argila, que eventualmente desabou após ser atingida por uma preza. A lista poderia seguir adiante, com discussões sobre povos dos aztecas aos japoneses, mas os exemplos dados são suficientes para revelar a universalidade desse conceito cíclico.

Os antigos também concordavam que com cada era sucessiva, o homem se tornava mais e mais distante de um estado primordial de perfeição. Na Idade do Ouro, o homem vivia em harmonia com seres divinos e segundos princípios absolutos transcendentais que traziam felicidade, plenitude, e quase imortalidade aos indivíduos, ao mesmo tempo que trazia ordem e prosperidade à vida coletiva. Com a chegada da Idade de Prata ocorreu uma queda desse estado de graça e o estabelecimento de uma existência imperfeita, na qual aqueles antigos princípios foram abandonados, os deuses perderam muito de sua natureza divina, e o homem deu um passo para longo da harmonia cósmica e na direção do caos. Para os propósitos desse ensaio, nós abordaremos as Idades de Ouro e de Prata, pois foi nesses períodos pré-históricos que a humanidade passou por processos que nos concederam nossa multitude de formas físicas e mentais contemporâneas.



A Idade de Ouro Hiperbórea

A Idade de Ouro foi um período de perfeição em todos os níveis. A vida humana era diretamente guiada pelos deuses e assim era ordeira, plena, e proveitosa. Ainda que ela tenha sido há muito tempo e sua localização há muito tenha se perdido, sua memória é mantida viva pelas tradições míticas de quase todos os povos do planeta. Hesíodo, escrevendo no século VIII a.C., descreve a Idade de Ouro assim:

"Eram do tempo de Cronos, quando no céu este reinava;
como deuses viviam, tendo despreocupado coração,
apartados, longe de penas e misérias; nem temível
velhice lhes pesava, sempre iguais nos pés e nas mãos,
alegravam-se em festins, os males todos afastados,
morriam como por sono tomados; todos os bens eram
para eles: espontânea a terra nutriz fruto
trazia abundante e generoso e eles, contentes,
tranquilos nutriam-se de seus pródigos bens".

Hesíodo é um dentre poucos escritores a mencionar diretamente a Idade de Ouro e descrever suas qualidades. Usando sua obra como ponto de referência, porém, o estudioso pode detectar alusões ao mesmo período em outros textos antigos. Por exemplo, no Livro 6 do Mahabharata, o autor discute o Monte Meru, "feito de ouro", onde "a medida da vida humana é 10.000 anos" e "os homens são todos de uma compleição áurea...e sem doença, sem pesar, e sempre alegres". Fora da tradição ariana, o Livro de Lieh-Tzu (século IV a.C.) descreve o que parecem ser os habitantes da Idade de Ouro:

"Todos eram igualmente intocados pelas emoções do amor e da simpatia, do ciúme e do medo. A água não tinha o poder de afogá-los, nem o fogo de queimá-los; cortes e golpes não causavam ferimento ou dor, coçar ou fazer cócegas não lhes causava reação. Eles caminhavam pelo ar como se pisassem em terra sólida; eles aninhavam-se no espaço como se descansassem em uma cama. Nuvens e névoas não obstruíam sua visão, trovões não atordoavam seus ouvidos, a beleza física não perturbava seus corações, montanhas e vales não atrapalhavam seus passos. Eles caminhavam como deuses".

 Finalmente, nós temos a memória semítica do Jardim do Éden, no qual o homem primeiro se estabeleceu na Terra sob o comando de Deus. Segundo o Livro do Gênese, aqueles que lá habitavam viviam por quase mil anos em um alegre paraíso. As alusões a esse lugar pristino são numerosas, da lembranção avéstica de um período distante no Airyana Vaego, no qual o homem estava sob a proteção do próprio Ahura Mazda, à lembrança budista de Shambhala, traduzida aproximadamente como "terra de paz" ou "tranquilidade".

 Ao se tentar traçar uma antropogênese, é crucial estabelecer a localização física desse paraíso primordial. Infelizmente, nenhuma evidência material arqueológica oferece qualquer indicação a essa questão. Nós ficamos assim forçados a confiar apenas nas memórias mitológicas de nossos ancestrais. Entre os gregos, essa terra "para além do pólo" onde "nem pestilência ou doença chegavam" aos habitantes recebia o nome de Hiperbórea, significando "para além do vento norte".

Em seu livro O Lar Ártico nos Vedas, o nacionalista hindu Bal Gangadhar Tilak, escrevendo no início do século XX, apresenta uma vasta quantia de pistas da literatura védica e a véstica para arguir que o paraíso primordial se localizava no Ártico. Tilak explica que se alguém se posicionasse no Pólo Norte, o céu acima pareceria rodar "da esquerda para a direta, mais ou menos como o movimento de um chapéu ou guarda-chuva virado de cabeça pra baixo". Ele também explica que essa pessoa veria o sol continuamente no céu por aproximadamente seis meses, seguido de um período de crepúsculo, noite, e amanhacer de dois meses cada. Assim para o habitante do ártico, um ano inteiro pareceria desenrolar-se como um único dia.



Com esses fenômenos astrais em mente, Tilak procede a indicar alusões a eles nos textos arianos. Por exemplo, no Mahabharata, o Monte Meru é discutido em uma passagem como um lugar no qual o "sol e a lua giram da esquerda para a direita todo dia e assim o fazem todas as estrelas" e "O dia e a noite juntos são iguais a um ano para os residentes do lugar". Ele sustenta isso com uma seleção das Leis de Manú pós-vedicas, que dizem "Um ano (humano) é um dia e uma noite dos Deuses; assim se dividem os dois, a passagem do sol no norte é o dia e no sul é a noite". Tilak corrobora essa evidência com pistas da tradição persa. Do Avesta nós temos uma referência a um "cercado" no Airyana Vaego no qual "as estrelas, a lua, e o sol são apenas uma vez vistos ascendendo e descendendo, e um ano passa apenas como um dia".

As condições árticas atuais tornam isso impensável. Segundo Tilak, porém, cientistas modernas admitem que outrora na distante pré-hitória, talvez em tempos pré-glaciais, a região era habitável, fértil e cheia de vida. Entre esses cientistas está o geólogo James Geikie, que em 1893 afirmou que "durante o período interglacial o clima era caracterizado por invernos amenos e verões frescos de modo que plantas e animais tropicais, como elefantes, rinocerontes, e hipopótamos, habitavam toda a região ártica, e apesar de inúmeros carnívoros, o homem paleolítico não tinha vida desagradável lá". Joscelyn Godwin confirma que tais condições eram de fato possíveis quando, como "inúmeras autoridades" afirmam, "a Terra não era inclinada, mas girava perfeitamente ereta...com seu eixo perpendicular ao plano de sua órbita ao redor do sol", que era o caso em "tempos primordiais".

Como a Idade de Ouro ártica ocorreu muitas eras antes da história registrada, descobrir sua presença real no tempo é problemático. Usando cálculos hindus, o Tradicionalista René Guénon concluiu que essa Idade de Ouro teve lugar quase 65.000 anos atrás. Nós devemos preferir esse número à hipótese de 12.000 anos de Tilak, já que essa colocaria a Idade de Prata subsequente muito perto da história registrada para que isso fosse possível, especialmente considerando que a Idade das Trevas teria começado apenas 6.000 anos atrás. Ademais, seria impluasível colocar as origens humanas apenas 12.000 anos atrás, já que os processos involutivos que o reduziram a sua forma moderna não poderiam ter se desdobrado completamente dentro desse curto espaço de tempo.



Eventualmente, o assento ártico e sua Idade de Ouro encontraram um fim catastrófico por um número de razões, tanto físicas como metafísicas. Em seu magnum opus, Revolta Contra o Mundo Moderno, Julius Evola afirma que o eixo terrestre mudou levemente de posição, dando causa a uma mudança climática catastrófica. Como resultado, as regiões polares tornaram-se inabitáveis para a maioria das formas de vida. Em textos antigos encontram-se inúmeras referências a essa mudança de eixo. A tradição taoísta relembra quando "o pilar que conecta Céu e Terra" partiu (o eixo é essencialmente um pilar invisívei que une o céu com a Terra), explicando "porque o Céu pende para baixo na direção noroeste, de modo que sol, lua e estrelas viajam na direção daquele quarteirão". A história hebréia da derrocada da Torre de Babel, que conectava Céu e Terra, é outro exemplo. O Avesta explica o início da mudança climática em um diálogo entre o deus criador e seu discípulo, o rei Yima: "E Ahura Mazda falou a Yima, dizendo: 'Ó belo Yima, filho de Vivanghat! Sobre o mundo material cairão os invernos fatais, que trarão um duro e sujo congelamento; sobre o mundo material os invernos fatais cairão, que farão a neve cair densa". Como esse evento teria ocorrido dezenas de milhares de anos atrás, isso provavelmente oincidiria com o início de uma das várias eras do gelo.

 Mais um evento, metafísico por natureza, é explicado pelo Velho Testamento. Ele fala sobre como "os filhos de Deus" copularam com "as filhas do homem" e geraram uma raça de poderosos gigantes, cujo comportamento maligno, dirigido pelos apetites da carne, fez Deus lançar as forças elementais contra eles. Esses filhos são prováveis paralelos aos "deuses celestiais" que habitavam em Airyana Vaego, bem como outros deuses e semideuses que os textos antigos dizem que viviam nesse paraíso primordial. Das pistas acima, nós podemos pintar a seguinte imagem relativa ao fim da Idade de Ouro. Seres humanos vivendo harmoniosamente com seres divinos no paraíso ártico até que ambos participaram em uniões sexuais que produziram híbridos poderosos e semidivinos. Essa ação causou uma ruptura no equilíbrio cósmico do universo de modo que o eixo da Terra se alterou, dando início à era de gelo que transformou o paraíso em uma fria desolação.

Após a destruição do Airyana Vaego/Monte Meru/Éden/Hiperbórea, os sobreviventes semidivinos foram forçados a migrar para o sul. Em seu êxodo eles mantiveram a memória de sua origem polar, expressa por símbolos polares como a suástica (uma cruz torta girando ao redor de um ponto fixo) e a Árvore do Mundo, que tradicionalmente liga Midgard (Terra) com os reinos acima. Alguns se assentaram em áreas da América do Norte e do Norte da Europa, mas a maioria se reagrupou em uma localidade atlântica para reconstituir sua civilização.



Se tivermos que fazer conjecturas sobre a raça de nossos hiperbóreos, devemos olhar para aqueles que carregam consigo a memória dessa origem primordial. Por hiperbóreos, eu quero me referir à raça ártica de "homens" que viviam entre os deuses. Discernir os traços deles é impossível, já que eles não eram limitados pela existência material; eles poderiam ser antropomórficos, etéreos, ou capazes de alternar entre ambos. Nossa única pista é que eles eram "áureos", o que pode ser uma alusão a um vibrante blondismo.

Em todas as civilizações discutidas acima, bem como em outras, nossa preocupação seria com as castas superiores, nomeadamente a sacerdotal e a aristocracia militar, que preservavam as memórias de Hiperbórea. Entre os povos arianos da Europa, essa tarefa é mais simples devido à abundância de evidência física disponível, nomeadamente estátuas, afrescos, relevos, e restos físicos. Os ancestrais da Grécia e Roma clássicas, da Germânia, e da Celtia, que trouxeram consigo a celebração de Zeus, Saturno, Tuísto, e Dana, eram evidentemente de uma estirpe alta, robusta, e loira. O médico grego do século IV a.C., Adamantios, nos dá uma imagem dos primeiros helenos, afirmando que "Onde quer que as raças helênica e jônica foram mantidas puras, nós vemos homens altos de compleição ampla e reta, bem feitos, de pele razoavelmente clara e loiros; a carne é firme, os membros retos, as extremidades bem feitas".

Conforme avançamos para o leste, a evidência se torna menos abundante, mas não obstante continua sendo reveladora. Os brâmanes que levaram à Índia os mais antigos relatos da Idade de Ouro no Monte Meru eram da mesma raça nórdica. Se justapormos um brâmin ou kshatriyas modernos com um membro das castas inferiores, não raro parece que os primeiros tem algo de diferente em suas raízes. Ele tende a ser mais alto e mais claro em seus traços e às vezes possui olhos azuis ou verdes e, mais raramente ainda, cabelo claro. Indivíduos das castas inferiores geralmente tendem a ser menores e mais escuros, e ainda que muitos tenham feições caucasóides, outros mostram um fenótipo australóide. Kaiyata, escrevendo no século II a.C., afirma que brâmanes brancos outrora "floresceram em um ciclo de existência prévio" mas "seus descendentes raramente são encontrados hoje". O kshatriya do século VI a.C., Siddhartha Gautama (Buda), é descrito no cânone Pali como tendo abhi nila netto, ou "olhos muito azuis", um traço nórdico típico.

No Extremo Oriente, nós temos um meio inteiramente não-ariano. Porém, há ampla evidência genética de que brancos altos e claros vagaram tanto pela China ocidental como oriental muito antes dos atuais mongolóides. Junto com a descrição racial do Buda, nós temos o bastante para supor uma forte influência nórdica ou similar sobre a cultura chinesa. Como o budismo influenciou o desenvolvimento da cultura religiosa japonesa, a mesma regra se aplica ao Japão.

A lista poderia seguir adiante, mas nós já demos prova suficiente de que os portadores dos registros mais antigos da Hiperbórea eram branco altos, claros, de olhos azuis e cabelos claros. Seria então justo concluir que os hiperbóreos, dos quais eles afirmavam descender, eram provavelmente de uma raça proto-nórdica.



A Idade de Prata Atlante

O poema de Hesíodo continua com uma discussão da segunda era, "que os Celestiais chamam de anos de prata". Nesse período, o homem tornou-se sujeito à doença e à mortalidade. Ele não mais vivia segundo os princípios absolutos transmitidos por seus tutores divinos durante a Idade de Ouro, e não prestava honraria alguma aos deuses.

É com a aurora dessa era que os habitantes árticos, agora uma raça mistura com elementos humanos e divinos, viajaram como refugiados a partir de sua Urheimat destruída a uma localização em algum lugar do Atlântico. Lá eles fundaram a famosa cidade de Atlântida em imitação de seu lar original. Após se estabelecerem, eles embarcaram em uma campanha de colonização ao redor do mundo, ultrapassando os "Pilares de Hércules" (os Estreitos de Gibraltar) e chegando longe no Mar Mediterrâneo. Lá eles estabeleceram sua hegemonia, mantendo domínio "sobre a região situado depois dos Pilares tão longe quanto o Egito e o Tirreno". É razoável assumir que eles também enviaram viajantes para as Américas, já que Atlântida teria se situado entre elas e a Europa.



Como essa nova civilização foi construída antes da história escrita, é difícil precisar sua cronologia. Platão afirma que Atlântida sucumbiu 9.000 anos antes de seu próprio tempo, enquanto Guénon, confiando uma vez mais na matemática védica, diz que isso ocorreu milhares de anos antes. Isso colocaria, portanto, suas origens muito mais longe. Não obstante, nossa preocupação é com a condição racial daqueles que habitavam a Atlântida.

A raça boreal que habitava o ártico era provavelmente nórdica em aparência. Quando eles se misturaram com os deuses, porém, eles geraram "homens de tamanho monstruoso" segundo Hesíodo, em paralelo aos Nephilim do livro de Gênese. Considerando que os nórdicos modernos estão entre os homens mais altos, e que eles próprios são apenas descendentes degenerados de algo maior, o testemunho mitológico parece plausível. Assim, os atlantes nascidos da união de deuses e homens eram provavelmente muito mais altos que as pessoas mais altas de hoje e provavelmente mais musculosos; eles teriam sido gigantes temíveis. Mais credibilidade ainda é dada a essa idéia pelo fato de que em Números, os hebreus fazem referência aos Anakim como "Nephilim" devido a sua estatura imensa, que fazia com que os hebreus se sentissem como "gafanhotos".



Esses gigantes não eram a norma, porém. Platão fala deles tornando-se "diluídos demais com a mistura mortal", sugerindo que humanos boreais puros também viviam nas fronteiras da Atlântida. Essa também foi a causa da inevitável queda da Atlântida, como foi a de Hiperbórea. Após diversas gerações de miscigenação irrestrita com seus súditos humanos, os gigantes atlantes perderam sua constituição angélica e "tornaram-se visivelmente degradados, pois eles estavam perdendo o mais belo de todos os seus dons". Quando isso ocorreu, o equilíbrio cósmico novamente se rompeu. Evidências dos mitos, às vezes sugestiva e às vezes afirmativa, leva-nos a acreditar que um massivo terremoto ocorreu, fazendo com que Atlântida, centro da Idade de Prata, afundasse sob o Oceano Atlântico. A história mesopotâmia do dilúvio que submergiu os primeiros centros de culto, ligada ao dilúvio bíblico que Noé superou, é um exemplo.

Com a mistura entre atlantes e humanos surgiu uma raça quase inteiramente desprovida de divindade. Eles eram os ancestrais diretos dos norte-europeus modernos (proto-nórdicos), mantendo a compleição clara e o intelecto aguçado mas perdendo sua força e constituição titânicas. Forçados a abadonar seu reino agonizante, esses povos migraram em uma trajetória leste-oeste, levando números significativos às Américas e Europa.

Há algumas evidências físicas e genéticas para substanciar essa afirmação.

Primeiro, há o elo entre a cultura bélica solutreana antiga de 18.000 anos de idade da França, e a cultura bélica americana de 13.500 anos de idade de Clóvis, no Novo México. Os arqueólogos Bruce Bradley e Dennis Stanford concluíram em 2004 que há uma similaridade assombrosa entre os métodos de manufatura de ambas culturas, particularmente porque ambas usavam uma técnica muito difícil e rara chamada pressão em lascas. Eles também notaram que uma cultura bélica descoberta na Virgínia, datada de 16.000 anos atrás, parecia ser um "intermédio tecnológico entre o estilo solutreano francês e as pontas de Clóvis".



Nossa segunda evidência é genética. Cientistas descobriram que entre os genes das populações nativas americanas, o DNA mitocondrial (mtDNA) dos haplogrupos A ao D, que são comuns na Ásia, predominam. Porém, foi descoberto que um número significativo de nativos americanos no leste dos EUA possui mtDNA do haplogrupo X, que só é encontrada em populações da Europa Ocidental e em algumas partes da Mongólia. Pode-se afirmar que a presença desse mtDNA na Mongólia refuta o argumento de que  brancos teriam chegado à América do Norte primeiro, mas isso simplesmente não é verdade quando combinado com todas as outras evidências dadas aqui. Significativamente, o mtDNA dos esqueletos nativos pré-colombianos foi estudado, revelando que X já estava presente nos genes daquela raça antes da chegada dos conquistadores.

Em terceiro lugar, nós temos o controverso corpo do Homem de Kennewick. Esse esqueleto de 9.300 anos de idade, desenterrado no estado de Washington em 1996, foi descoberto pelo antropólogo James Chatters como sendo de origem caucasóide. Em uma reconstrução em argila a face até mesmo acabou se assemelhando ao ator britânico Patrick Stewart.

Esses pedaços de evidência indicam que uma raça humana anterior aos nativos americanos mongoloides dividiu-se na Europa e na América a partir do Atlântico. Eles levavam consigo os mesmos genes e métodos de manufatura, que eles adaptaram aos recursos disponíveis. Uma possibilidade alternativa seria de que essa raça do paleolítico superior teria primeiro migrado para a Europa, com um grupo então se separando e migrando para o leste até chegar à América.



Os Filhos da Terra

Conforme nossos ancestrais hiperbóreos se aventuraram pelo globo, primeiro ao Atlântico e então em uma trajetória leste-oeste, eles encontraram sociedades pré-existentes nas terras atravessadas por eles. Como a Idade de Ouro e de Prata ocorreram há dezenas de milhares de anos atrás, esses povos indígenas eram provavelmente dos incontáveis tipos de hominídios, incluindo o neanderthalensis e o soloensis. Independentemente do tipo de proto-humanos que eles eram, nossos ancestrais os caracterizaram ou como criaturas ctônicas nascidas da terra ou como criaturas originadas das águas caóticas. Na maioria dos casos, sua interação resultou em conflito, mas em outros eles coexistiram e até procriaram entre si. Esses eventos foram vividamente preservados nos vários mitos de origem hiperbórea: a luta épica entre os Tuatha de Danaan e os Fomori (povo "da água"); as batalhas entre os Olimpianos e os vários monstros paridos por Gaia (Terra); o relacionamento vitriólico entre os Aesir (os deuses celestiais nórdicos) e os Vanir (trolls, gigantes, e outros monstros); mesmo o épico anglo-saxão Beowulf recaptura esse tema na luta entre o herói e Grendel, um demônio humanóide que vive sob um lago.

Onde quer que recém-chegados se assentassem e se misturassem com os nativos, novas raças eram geradas representandos bastardizações gradativas do protótipo ártico semi-divino. Assim, nossa raça de gigante proto-nórdicos teriam se ramificado em diversas linhagens híbridas, cada uma diferindo em aparência e atributos dependendo das áreas nas quais eles se assentaram, as linhagens com as quais eles se misturaram, e o quanto eles permitiram que essa miscigenação continuasse. Dessas uniões teriam nascidos as várias raças mongolóides, semíticas, australóides, e negróides, com as últimas duas representante a maior degradação em relação ao fenótipo hiperbóreo original. Em instâncias nas quais a mistura foi menos pronunciada, ou em que adaptações ao ambiente e outros fatores operaram, as várias raças brancas foram geradas (i.e., nórdicos, mediterrâneos, alpinos, etc.).



Conclusão

Em resumo, a antropogênese foi um processo de involução, e não evolução. 65.000 anos atrás, uma raça de deuses descrita como "áurea" vivia harmoniosamente com uma raça de humanos avançados, caracterizada pela pele, cabelo e olhos claros, em uma alegre e ordeira Idade de Ouro em algum lugar do Ártico. Em algum ponto, as duas raças se misturaram e geraram gigantes semidivinos. Conforme o lar ártico congelou em uma das eras de gelo, esses semideuses lideraram os sobreviventes humanos para o Atlântico, com alguns ficando em diferentes terras pelo caminho. Aqueles que o fizeram, encontraram raças autóctones com as quais eles finalmente se misturaram, degradando sua natureza divina e dando origem a uma nova idade, a da Prata que correspondeu à civilização atlante vividamente descrita por Platão e lembrada por muitas tradições como uma terra "ocidental". Ela enviou exploradores ao redor do mundo das Américas ao Extremo Oriente. Milhares de anos depois essa segunda super civilização foi destruída graças à mistura continuada entre os semideuses e seus companheiros humanos, gerando a raça proto-nórdica do paleolítico superior.

Com o afundamento da Atlântida, esses seres, agora humanos em natureza mas ainda mantendo uma fagulha divina, migraram em uma trajetória leste-oeste. Nesse segundo grande êxodo, correspondendo à Idade de Bronze, alguns se misturaram com povos nativos e degradaram ainda mais sua linhagem enquanto outros mantiveram sua pureza. Estes últimos ergueriam depois as civilizações e impérios mais reverenciados da história escrita, como a Suméria, Índia Védica, Egito, Grécia, Roma, China, e muito depois, os regimes feudais da Europa Ocidental. Os povos misturados seriam lembrados como os pelasgos, minóicos, etruscos, hebreus, arameus, ibéricos, e todas as outras etnias ctônicas que foram subjugadas e restritas à casta plebéia. Infelizmente, os vastos impérios citados acima serviram como pouco mais do que reflexos figudios da civilização hiperbórea original, impedidas de realizar seu potencial verdadeiro pelas condições metafísicas dominantes na era em que elas floresceram.

Nós agora entramos na fase terminal da Idade das Trevas, e o tipo de humanidade que deverá herdar o Mahayuga sucessivo ainda está para ser vista; porém, se as raças do mundo continuarem no caminho da miscigenação indiscriminada, aquela fagulha divina, que levou os povos brancos do mundo a erguer as maiores civilizações da história, e que agora é guardada por tão poucos, será completamente extinta. A humanidade então será forçada a passar a tocha da grandeza a uma outra espécie.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

As Runas: símbolos sagrados da América do Sul


Por Rafael Videla Eissmann

A Runa Odal e símbolos runóides na cerâmica de Cuzco, Peru

Determinados símbolos se encontram presentes nas culturas aborígenes do continente americano. Estes símbolos foram traçados nos mais diversos campos (por exemplo, sobre pedras, tecidos e cerâmicas) e correspondem a um sistema ideográfico similar ao das runas da Europa e Ásia, possuíndo no geral os mesmos atributos e significados esotéricos e mágico-religiosos. A respeito, o professor Vicente Pistilli escreveu: As runas portadoras de segredos, tem diversos valores culturais. Como signos que representam o som da fala, conformam um sistema fonético de 16 a 33 sons, capazes de expressar palavras em diversos idiomas. Por sua vez, cada signo tem um significado simbólico muito considerado na cultura nórdica.
A runa sieg na cerâmica inca de Cuzco

No contexto sul-americano, estes sinais correspondem aos símbolos sagrados de culturas como a dos mapuches (araucanos), tiahuanacotas, chachapoyas, tupis e incas, herdeiros das tradições do grupo pré-diluvial americano: os indios brancos, população que como resultado da última Grande Catástrofe planetária ou Dilúvio -acontecido ao redor de 13000 anos atrás- se viu forçada a empreender extensas migrações para distintos pontos do planeta. São os movimentos migratórios identificados por Herman Wirth, Edmund Kiss e Roberto Rengifo.

Variações da runa odal em tecidos mapuches.

Neste sentido, o próprio Rengifo manifestou no estudo de 1921, El Secreto de la América Aborigen, queparece ter sido uma mesma raça a que escrevia nos Andes e nos Pirineus.

Estas remotas migrações explicariam a chegada dos vikings e outros grupos nórdicos à América, séculos antes de Cristovão Colombo e a empresa peninsular do "Descobrimento" e "Conquista" que se forjou a partir de 1492. Sobre este assunto fundamental, o professor Jaques de Mahieu escreveu dois estudos: La geografía secreta de América antes de Colón (1978) y Colón llegó después. Los templarios en América (1988).

No Hávamál, nas Palavras do Altíssimo da Edda de Sæmund, se descreve a obtenção das runas por Odin:

Sé que pendí nueve noches enteras
en el Árbol que mece el viento (Yggdrasil);
herido por una lanza y a Odín ofrecido
-yo ofrecido a mí mismo-,
colgué del Árbol del que nadie sabe
de dónde comienzan sus raíces.

Ni pan ni copa alguna recibí;
fijo en lo hondo observé;
las runas tracé, las obtuve entre gritos;
caí a la tierra de nuevo.

Nueve conjuros del hijo de Boltorn,
del padre de Bestla, aprendí,
y también he bebido el excelso Hidromiel,
el que estaba en Odrorir.

Todo saber yo entonces alcancé,
de poder me llené y de gran gozo:
de palabra a palabra la palabra me fue,
de acción en acción la acción me llevó.
Averigua las runas y aprende los signos,
las runas de mucha fuerza,
las runas de mucho poder,
que el Tulr supremo (Odín) trazó
y los altos poderes hicieron
y el Señor de los Dioses (Odín) grabó.

A los Ases Odín, a los Elfos Dain,
a los Enanos grabóselas Dvalin,
a los Gigantes Asvid;
yo mismo algunas grabé.

¿Las sabes tú grabar? ¿Las sabes tú entender?
¿Las sabes tú teñir? ¿Las sabes tú probar?
¿Las sabes tú pedir? ¿Las sabes tú ofrendar?
¿Las sabes tú ofrecer? ¿Las sabes tú inmolar?

Mejor no pedir que por todo ofrendar;
su pago la ofrenda busca;
mejor no ofrecer que siempre inmolando.
Así grabó Tund (el tronante, Odín) antes que gentes hubiese;
allá revivió cuando vino de nuevo.

Os símbolos rúnicos encontrados na América pertencem, desta forma, a expressões tanto dos aborígenes do continente -os primitivos índios brancos- como dos vestígios dos grupos nódico-vikings que chegaram posteriormente em várias ondas a partir do Séc. X da era cristã.

Os símbolos americanos que aqui se expõe correspondem aos sinais rúnicos odal, sieg, man e ao símbolo do Sol em movimento ou cruz de fogo. 

O conhecimento das origens e manifestações destes símbolos, certamente significará reescrever a história do mundo pré-colombiano, de seus habitantes e cultura. Ou seja, escrever a história proibida do continente americano.*

Rafael Videla Eissmann
1° de Noviembre de 2011.


O kultrun do Chile e a cruz do Cerro Tuja'Og, Paraguai. Correspondem ao símbolo da tetrapartição do mundo.


Símbolos runóides dos araucanos do sul do Chile a runa odal en un textil mapuche.

Inscrições runóides em Cerro Tupa, Paraguai.

* Este assunto se encontra amplamente desenvolvido no livro Símbolos rúnicos en América. El regreso a la tierra ancestral, de Rafael Videla Eissmann. Prólogo do Profesor Vicente Pistilli. Quito, Outubro de 2011.


domingo, 12 de fevereiro de 2012

A Causa do Povo

por Robert de Herte

Como sensibilizar um povo tão desencantado e anestesiado como o nosso, se não fazendo ficar alerta ante perigos imaginários? Assim escreveu Tocqueville em sua obra "O Antigo Regime e a Revolução". Hoje, esses perigos imaginários são de que a classe política midiática tira de sua cartola para desviar a atenção dos perigos reais e fazer o povo esquecer sua própria impotência. As denúncias de "populismo", a "ameaça populista", a "deriva populista", a "tentação populista" – se realiza fora de toda evidência constatavel. Desde o início dos anos oitenta, este termo, que anteriormente pouco utilizado, fez uma aparição estrondosa no discurso público. Atualmente funciona como uma desqualificação política ao assimilá-los, contraditoriamente, a um nível de categoria de análise.

Certamente que hoje o populismo é, acima de tudo, um estilo ou tendência. Como tal, pode ser combinado com quase qualquer ideologia: o populismo nacional-populismo, ultra-liberal, populismo de esquerda, o trabalho pró-populista, etc. O populismo pode ser democrático ou solidarista reacionária e xenófoba. É um termo “camaleônico”, absolutamente maleável à conveniência, de modo que o discurso da mídia ou o pseudo-intelectual pode satanizá-lo sem qualquer conteúdo verificável, e pode ser aplicado a qualquer situação. Daí a sua "hiper-utilização polêmica" (Pierre-André Taguieff), que em última análise, impede sua decodificação em tipologias e definições.

Como estilo, o populismo é principalmente aplicado em casos do tipo "catch all", que multiplicam as promessas de uma perspectiva essencialmente demagógica. Seus líderes, tribunos de mandíbulas apertadas com sorriso telegênico*, exploram as angústias e ressentimentos, capitalizam os medos, as misérias e as angústias sociais, muitas vezes, desiganando com frequência bodes expiatórios, mas sem jamais colocar em questão a lógica do capital. Sua posição mais corrente consiste em apelar ao povo contra o sistema vigente. Esta "chamada ao povo" é claramente enganosa, talvez porque a noção de "povo" pode ser entendida sob muitos pontos de vista. Este populismo tem também o seu componente "ingênuo", quando limita-se a elogiar as "habilidades inatas" do povo, certamente "espontâneos" de seus juízos, o que torna inútil qualquer mediação. Poderíamos dizer que os populistas não fazem política com relutância. Sempre correm o risco de cair, ou em uma atitude puramente apolítica, ou em em uma prática vociferante de dizer idiotices nos discursos.

Ainda assim, por mais criticável que seja, este populismo tem o valor de um sintoma. Reação dos “de baixo” contra os "de cima", daqueles que confundem cargos de poder com o desfrute de privilégios, representa ante toda a rejeição de uma democracia representativa que já não representa a mais ninguém. Protesta contra as ruínas apodrecidas das grandes instituições suportadas pelo país 'real', revelando um sistema político disfuncional que já não mais atende às expectativas dos cidadãos e que se mostra incapaz de garantir a permanência do vínculo social, testemunha uma rarefação do clima político, um afastamento cada vez maior da "classe política". Ela revela uma crise da democracia, recentemente analisada por Gerard Mendel como "uma tendência de fundo onde sucessivamente se dessacraliza a autoridade, se perde a fé nas ideologias globalistas na convergência “de gestão" dos grandes partidos, e se instala o sentimento difuso de que as forças econômicas são as verdadeiramente poderosas”. Tal fórmula populista surgiu desde que os cidadãos se afastam das urnas pela simples razão de que já não esperam nada de seus resultados.

Nestas condições, a denúncia de "populismo" esconde muitas vezes uma tendência para desarticular o protesto social, tanto por parte de uma direita preocupada com seus próprios interesses, como de uma esquerda já massivamente conservadora e afastada do povo. Isto permite que uma nova classe ociosa e corrompida, cuja principal preocupação é a "deslegitimação de todos aqueles para quem o povo é uma causa a defender o benefício daqueles para quem o povo é um problema a ser resolvido" (Annie Collovald), ver o povo com desprezo. Que o "apelo ao povo" pode por si só ser denunciada como uma patologia política, e mesmo uma ameaça para a democracia, é em si mesmo revelador. Esquecer que na democracia, o povo é o único depositário da soberania. E ainda mais quando esta se encontra confiscada.

Reduzido a mera postura, o populismo se converte em sinônimo de demagogia, ou melhor mistificação. Mas o populismo pode existir sob uma forma política integral, ou seja como um sistema de idéias organizado. Tem até mesmo seus grandes precursores: Ludditas e cartismo inglês, agraristas americanos e populistas russos (narodnitchestvo), sindicalistas revolucionários e representantes do socialismo francês de tipo associativo adesão associativa, sem esquecer de seus grandes teóricos, de Henry George a Bakunin, de Nicolas Tchernychevski a Pierre Leroux, Benoit Malon, Sorel e Proudhon.

Como política, o populismo se manifesta através de um compromisso com as comunidades locais ao invés da "Grande Sociedade". Não é amigo nem do Estado nem o mercado, chegando a rejeitar tanto o individualismo liberal quanto o estatismo. Tem como objetivo a liberdade e a igualdade, mas é inerentemente anti-capitalista, pois observa claramente que a primazia de “todo mercado” liquida com todas as formas de vida em comum às quais está ligado. Aspira a uma política coerente com as aspirações populares, com base na moral popular que possui grande desconfiança para com a "classe política", e pretende criar novos espaços de expressão coletiva, com base em uma política de proximidade. Postula a participação dos cidadãos na vida pública como algo mais importante do que as "regras institucionais" do jogo de poder. Em resumo, da um papel fundamental no conceito de subsidiariedade. É por isso que é explicitamente contra as elites políticas e midiáticas, diretivas e burocráticas.

Na medida em que é anti-elitista, o verdadeiro populismo é, portanto, incompatível com os sistemas autoritários a que temos tendência a assimilar. É também incompatível com os belos discursos dos auto-proclamados líderes que dizem falar em nome do povo, mas têm o cuidado de não lhe dar a palavra. Sempre que seu impulso venha de cima, ou por obra de um tribuno demagógico que se aproveita dos protestos sociais ou do descontentamento popular sem deixar o povo expressar-se, saímos do populismo propriamente dito.

Posto na sua própria perspectiva, o populismo tem mais futuro do que a política institucional, que precisamente tem cada vez menos futuro. Atualmente, é o único capaz de sintetizar o eixo justiça social-segurança que tende a suplantar o eixo esquerda-direita dos conflitos sociais clássicos. É desta forma que oferece uma alternativa à hegemonia neoliberal, nada mais que baseada na política representativa. Ao propor a revalorização da política local graças a uma concepção responsável da democracia participativa, pode desempenhar um papel libertador. Desta maneira se reencontra com seu papel de origem: servir à causa do povo.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Unus Deus, Unus Julianus

por Claudio Mutti



"Resulta difícil dizer até que ponto foi para ele natural elevar-se e viver nas regiões divinas: acaso não nos havia feito notar, Basílio, como somente com esforço elas descem, enquanto que para os homens comuns e inclusive para os filósofos mais destacados o esforço consiste em separar-se do baixo para poder elevar-se? Os belos sentimentos de amor e de amizade que conhecemos nele, vem em verdade de uma das ascensões de sua alma; e foram levadas sobre sua carruagem em uma de suas viagens através das esferas celestes e das infinitudes supremas. Se algum pensamento teve asas, certamente foi o seu". - Alfred de Vigny, Dafne

 Compelido a esboçar um "retrato" do Imperador Juliano, o teólogo Sérgio Quinzio fez uso de uma incomum e provocadora analogia: comparou, de fato, o "Apóstata" com João Paulo II, especificando no atuar de ambos a tentativa desesperada de manter com vida uma religião condenada a desaparecer. "Se Juliano tivesse me perguntado acerca da possibilidade da restauração da civilização pagã - escrevia o teólogo - eu teria dado a mesma resposta negativa que daria hoje se o Papa me interpelasse sobre a possibilidade da restauração da civilização cristã". Mais ainda: "precisamente, o impulso restaurador empreendido pelo jovem imperador contribuiu então a derrubar definitivamente o paganismo. E o fato me parece que se repete pontualmente, por aquilo de que a história volta a se repetir regularmente".

Um paralelismo igualmente original foi apresentado por Jacques Fontaine, professor de língua e literatura latina tardia da Sorbonne,, durante uma conversa com um jornalista que lhe pedia uma comparação entre Juliano e outros protagonistas da hitória "com projetos bastante similares" (sic!) como Hitler ou Stálin. "Eu - respondeu Fontaine - o colocaria junto, se assim me pedes, a Khomeini. Pelo fanatismo, pelo sentir-se imbuído de uma missão divina, pelo fato de considerar-se um deus. E logo pela cultura. Pela violência, pelo sectarismo. De Juliano possuímos descrições físicas muito precisas. Uma, de Ammiano de Antioquia (barba pontiaguda, olhos magnéticos, figura hierática) o faz verdadeiramente muito semelhante, inclusive nos traços, ao aiatolá iraniano".

Assim, a galeria de personagens históricos aos quais Juliano foi comparado se enriquece. Ignoramos o que Stalin teria pensado disso. De sua parte, Hitler provavelmente teria agradecido a comparação, já que não poucas vezes manifestou sua admiração pessoal pelo grande "Apóstata".

Quanto a Khomeini, deixando de lado a improcedente frivolidade de ele "considerar-se um deus", um discurso um pouco menos convencional teria sabido tomar em conta o caráter teocrático comum do projeto do Augusto como do Imã, pelo que uma resenha sobre a função restauradora do monoteísmo islâmico teria podido renovar, se fosse necessário fazê-lo já, a tentativa juliana de instaurar o que já foi denominado de "monoteísmo de Estado". Nem semelhante argumentação teria sido cientificamente abusiva, já que o aprentesco ideal entre a teologia solar antiga e o Islã já foi autorizadamente assinalada por um estudioso do calibre de Franz Altheim, para o qual "os neoplatônicos foram a vanguarda de Maomé e de seu ódio apaixonado contra toda fé que associe a Deus um 'companheiro'", enquanto um célebre estudo de Henry Corbin sobre a doutrina da unidade divina no Islã xiita se abre com uma invocação da literatura surgida nos anos vinte do século XX ao redor do 'drama religioso do Imperador Juliano'".

E não obstante, foi precisamente o próprio Jacques Fontaine o que sugeriu, em correspondência com a religião que Juliano oficiou como Pontifex Maximus, o conceito de "monoteísmo solar", ao qual tem sido feitas referências frequentes todos aqueles que investigram as manifestações religiosas da época imperial.



De fato, segundo o estudioso francês a forma que a tradição grecorromana assumiu na época de Juliano é "uma síntese de todas as religiões e de todas as teologias pagãs, sob o signo do monoteísmo solar", ou, se for preferido o sinônimo utilizado por outros estudiosos, de um "henoteísmo solar" definível com os seguintes termos: "Juliano quer demonstrar a todos que o deus Hélios é o único, verdadeiro deus e que as numerosas divindades romanas não são mais que hipóstases, quer dizer, aspectos particulares, manifestações concretas e fragmentárias da única, suprema divindade solar".

Monoteísta ou henoteísta, a doutrina defendida por Juliano fica resumida em várias inscrições contemporâneas que proclamam a unicidade de Deus, assim como a unidade e unicidade do poder imperial; epígrafes que segundo Spengler somente podem traduzir-se assim: "Há um só Deus e Juliano é seu Profeta". A reiteração neste ponto, que "tem uma importância central na concepção política de Juliano", levou Athanassiado-Fowden a falar inclusive de "uma obsessão pela unidade" e realçar o fato de que "Juliano não teria se quer concebido a possibilidade de compartilhar o poder com um associado, e ser assim considerado como o único vigário de Deus na terra". Tal concepção política encontra sua fórmula mais arcaica em Homero, que põe na boca de Odisseu: "Não é bom uma multidão de chefes, que somente haja um chefe"; Sêneca expõe o mesmo princípio para o Império Romano, dizendo que "foi a natureza que criou o Rei"; e Filón de Alexandria acrescente um corolária que estabelece uma comparação entre politeísmo e democracia: "Deus é somente um, e isso é um argumento contra os defensores da opinião politeísta, que não se envergonham em levar da terra ao céu a democracia que é a pior entre as más instituições".

Quanto ao "monoteísmo solar", Juliano não inventou nada, senão que se limitou a aperfeiçoar um processo de esclarecimento teológico que estava em marcha desde muito tempo e que Franz Altheim resume nos seguintes termos: "A história do antigo deus do sol, considerada em grandes traços, é a de um gradual refinamento. O culto, de origem beduína, se estabelece em uma cidade da Síria. Por sua peculiaridade e por seu caráter absoluto desata os comentários do mundo ocidental, provocando o rechaço mais inflamado. Porém sua expressão literária, a filosofia neoplatônica e, não em último lugar, a capacidade assimiladora da religião romana e da concepção romana de estado, conseguiram o milagre: da divindade de Heliogábalo (218-222 d.C.) infectada pelas orgias e pela superstição oriental, nasceu o mais puro dos deuses, destinado a unificar de uma vez por todas a religiosidade antiga". Em 274 d.C., sob Aureliano, o monoteísmo solar se converteu na religião oficial do Império Romano e o Sol Invictus foi reconhecido como a divindade suprema: em Roma se levantou um esplêndido templo dedicado ao Sol, em honra ao qual se instituíram festas periódicas, enquanto que se constituiu um colégio de pontífices do deus Sol, tendo sido cunhadas numerosas moedas com inscrições e símbolos solares. De tal modo o "monoteísmo, ao qual o sincretismo severiano havia orientado o paganismo romano, encontrou no culto solar patrocinado por Aureliano sua versão mais atrevida e eficaz", tanto é assim que no muro da intransigência cristão não se deixou de se constatar algumas fendas. Na época de Constantino adquiriram considerável importância "as imagens monoteistizantes da religião de Hélios: Apolo solar e o Sol Invictus se sobressaríam nos relevos do arco do triunfo e nas moedas da época". Enquanto que as figuras dos deuses desapareciam pouco a pouco das moedas de Constantino, o deus solar se impunha cada vez mais: "Sol Invictus (...) se mantém também por um longo tempo no território dominado por Constantino e em todas as sua fábricas de moeda (...) parece que o imperador em pessoa teve uma profunda devoção pelo deus Sol". Entre a burocracia e o exército, a religião solar desfrutava de máxima circulação: "o Sol Invictus e a Victoria eram os deuses militares do exército de Constantino; de igual prerrogativa gozava a divindade solar nas legiões de Licínio".

Considerada em seu contexto histórico, a formulação juliana da teologia solar se situa em uma fase de maturidade do neoplatonismo, na qual os fundamentos doutrinários desse movimento espiritual se encontram já estabelecidos e consolidados definitivamente. Se o fundador dessa escola, Plotino (204-270), havia reconhecido no Uno o princípio do ser e o centro da possibilidade universal, seu sucessor Porfírio de Tiro (233-305) havia feito do neoplatonismo uma espécie de "religião do Livro"; autor de um ensaio Sobre o Sol, Porfírio havia consagrado ao estudo da teologia solar um tratado do qual se conservam reveladores fragmentos nas Saturnais de Macróbio. "Em sua argumentação Porfírio não faz mais do que aplicar a metafísica platônica - que remete ao Uno qualquer aspecto parcial do Cosmos - às mais importantes divindades do panteão clássico, mostrando como estas não são outra coisa que atribuições particulares do Único, que desde a perspectiva teológica é caracterizado como Sol, enquanto é a essência espiritual sobre o plano cósmico se 'sustenta' no astro diurno (...) enquanto Apolo é magnificência, saúde e luminosidade (...) enquanto Mercúrio logo, 'preside a linguagem' (Saturnais I, XVIII, 70), desse modo toda atividade é reconduzida a uma presença divina 'solar'". Porém foi o herdeiro de Porfírio, o "divino Iâmblico" (250-330), o que mediante sua doutrina "converteu (...) ao último imperador pagão a sua helioatria transcendente". Depois de Juliano, é possível prosseguir a tradição "solar" até Proclo (410-485), autor entre outros de um Hino a Hélios, assim como a seu contemporâneo Marciano Capella, que com o hino-oração de Filologia ao Sol (De nuptiis, II, 185-193) nos deixou um "notável documento da 'teologia solar' do neoplatonismo tardio", sendo assim "o último testemunho do sincretismo solar no Ocidente"; de fato até 531, com a ida a Pérsia do escolarca Damáscio (474-544) e de outros neoplatônicos, a tradição solar abandonará o mundo cristão e continuará sua existência própria nos mesmos lugares desde onde se irradiou, difundindo-se por toda Europa, o culto de Mitra.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Entrevista de Alain de Benoist ao Jornal " IL FEDERALISMO " - 2005



1 – A França é um estado jacobino por excelência. Como você interpreta a reflexão federalista?

A.B : A França possui de fato uma tradição secular jacobina, que não começa, também, com a Revolução: a tendência de centralização das autoridades locais estava bem encaminhada no Antigo Regime, a Revolução que radicalizou tal fato. Esta tradição está relacionada ao modo de formação da nação francesa, que surgiu com a expansão gradual de um núcleo central, combinado com o estabelecimento de um mercado nacional e um espaço legal unificado. No entanto, deve-se lembrar que sempre houve, também, resistência à centralização, especialmente por parte da nobreza, mas também nas massas. Todos os tipos de pensadores, que vão de Henry de Boulainvilliers à Tocqueville, denunciaram fortemente os jacobinos. Nas províncias periféricas, a personalidade do forte regionalismo e autonomismo têm permanecido até hoje. No Século 19, esquerdistas como Proudhon, homens de direita como Maurras, ou, especialmente, jovens como Barres afirmam de forma explícita o federalismo.
Pessoalmente, eu vim para o federalismo por uma simpatia espontânea pelos movimentos regionalistas ( Bretão, Normando, Flamengo, Alsáciano, Basco, Córsego, etc ) comprovada desde a minha juventude, e por uma reflexão relevante da filosofia política. O Federalismo apareceu-me como o único sistema político capaz de conciliar a individualidade e a multiciplidade, isto é, as exigências aparementemente contraditórias da unidade, necessária para a decisão, e para a liberdade, de manutenção da diversidade. Mas também tenho sido influênciado por uma série de autores como Paul Sérant e Thierry Maulnier, que escreveram no século 20 ( o século federalista ), como, também, Robert Aron, que faz parte dos "não-conformistas dos anos 30", que continuou a defender as idéias de Sorel, do Socialismo Associativo, do Mutualismo Francês, além de Alexander Marc, diretor do L' Europe en formation e teórico do "federalismo integral", etc.


2 – A democracia representativa contemporânea tem em si o risco de não representar ninguém, muito menos o povo. Existe, segundo a lei, o problema da soberania?


A. B: A crise da representação agora é que afeta todas as democracias liberais. O enfraquecimento do Estado – Nação que, como tem sido dito muitas vezes, tornou-se muito grande para atender às expectativas das pessoas comuns, e muitos pequenos problemas estão se desenrolando em todo o mundo, resultando o afastamento social ( o Estado já não é mais um produtor social ) e uma pausa, sempre acentuada, entre políticos e cidadãos. Eles , então, tendem a refugiar-se na abstenção, ou votar em partidos puramente manifestantes, que não são forças construtivas. Podemos remediar essa crise, pondo em prática a democracia participativa em todos os níveis, desde a base, permitindo à todos a participação nos assuntos públicos.

O problema da soberania é outro problema. À partir da perspectiva jacobina do Estado – Nação, a soberania é definida, de acordo com Jean Bodin, como um conceito de indivisibilidade : a autoridade soberana é uma autoridade à qual, por definição, não podem ser atribuídos limites. Como uma autoridade soberana, sobre todos, tende naturalmente ao despotismo. Federalismo não rejeita o conceito de soberania, mas dá uma definição diferente. Soberania não é indivisível, mas compartilhada ou distribuída de acordo com o princípio da subsidiariedade ou competência suficiente. O poder soberano não é poder absoluto, ele representa apenas o poder localizado no mais alto nível e cujo campo de decisão é o maior, o que ocorre quando as autoridades locais nos níveis mais baixos, não são capazes para resolver os problemas.


3 – Parafraseando Johannes Althusius, acredita que é possível que o laço social pode ser reconstruído à partir da primeira forma de associação, ou seja, a família, então, transformando-se em municípios, províncias e regiões?

A.B: A revitalização das famílias é, certamente, uma das condições da re-criação de laços sociais, porque a família é um dos lugares de socialização da aprendizagem. Mas eu acho que é um erro grave considerar a sociedade global como um sistema de "matryoshkas" onde se pode passar sem qualquer ruptura real da família para os municípios e regiões. Este erro tem sido constantemente cometido pelos autores, geralmente de direita, que compararam a sociedade global com uma grande família ( muitas vezes com o objetivo de assimilar o soberano de uma família, onde os sujeitos seriam os "filhos") . A familía revela a dimensão privada da existência, os municípios e regiões, a dimensão pública. O tipo de relação, cuja família é o lugar, entre pais e filhos, é fundamentalmente diferente do que existe no seio da sociedade política. Ignorando a diferença de natureza entre a dimensão privada e a dimensão pública da existência humana, pode-se levar tanto a submeter-se à um totalitarismo político em todos os aspectos da vida privada, ou, inversamente, à um liberalismo que procura uma "privatização" generalizada de assuntos públicos.


4 – A sociedade atual é composta por individuos atomizados, separados uns dos outros, você vê a possibilidade do nascimento de um novo modelo antropologico?
A.B : Nós vivemos de fato em uma época em que o individualismo alcançou os seus maiores picos, mas ao mesmo tempo, e talvez em compensação, vemos o desenvolvimento espontâneo de novas formas de associação voluntária, tais quais as "tribos", comunidades, redes, etc. O verdadeiro problema é a colonização dos espíritos pelo imaginário economico e mercantil.

O modelo antropológico dominante é de um homem preocupado apenas com a maximização dos seus principais interesses, isto é, em geral, para chegar à uma quantidade cada vez mais de objetos consumidos. A mensagem implícita da mídia é a idéia de que a felicidade é sinônimo do consumo. Este modelo é igualmente descritivo e normativo: ela legitima tanto ao materialismo prático e à idéia de que o comportamento egoísta é o mais comum possível.

Neste contexto, o laço social invariavelmente derrotado, porque o outro aparece pela primeira vez como um rival em um campo transformado em um espaço social de concorrência generalizada. Portanto, de fato, é necessário trabalhar para a vinda de um novo modelo antropológico. Isto requer a capacidade de retornar ao imaginário simbólico, redefinir o homem como um ser fundamentalmente social e político, e remeter os valores de mercado para ele, necessariamente de forma subordinada.

5 – Existe na Europa um problema cultural para seus mútiplos povos?
A.B: Poderíamos repetir aqui a antiga distinção entre cultura e civilização, que também corta a distinção entre comunidade e sociedade, teorizada por Ferninand Tönnies. A civilização tende a ser única, enquanto as culturas sempre serão plurais. A diversidade cultural dos povos europeus – a diversidade em relação à medida em que essas pessoas têm uma herança em comum - é agora ameaçada pela homogeneização dos estilos de vida, induzidos pela globalização liderada pela superportência norte-americana, mas que se define, principalmente, como uma expansão global do capital de forma totalmente desterritorializada. Mias uma vez, acho que podemos combater esse processo, retornando à base, ao nativo, às comunidades. Isto é, atuação local para opor-se ao global, dando à globalização um conteúdo diferente, multipolar e diferenciado.

6 – O desaparecimento das línguas locais é, na sua opnião, um fato significativo?
A.B: O desaparecimento das línguas locais é, claramente, um aspecto do desaparecimento das culturas e redução da diversidade. Na época da Revolução, os jacobinos já haviam tentado remover de forma autoritária os "patois" ( dialetos não oficiais ) e as línguas locais. A III República continuou nessa direção ao tentar miminizar o uso das línguas regionais ao nível privado. Hoje as línguas locais são mais aceitas, e até protegidas, mas é todo o modo de vida caracteristico da sociedade global que lhes são desfavoráveis. O sistema mediático, e sobretudo a televisão, desempenha neste contexto um papel central: as crianças não falam mais como os seus pais, eles falam como se fala na televisão. Ao mesmo tempo, o inglês americano se impõe cada vez mais como a língua do novo koiné mundial. Contudo, a situação é bem diferente regionalmente. Algumas línguas são, obviamente, condenadas à desaparecer, outras têm uma boa chance de sobrevivência quando usadas diariamente em áreas que estão preservando a sua identidade.

7 – Quais são os cenários que estão previstos para os povos da Europa?
A.B: A construção política da Europa é agora totalmente bloqueada, tanto pela lógica persistência do Estado – Nação, quanto pela completa falta de vontade dos homens políticos, e pela burocracia. Ao invés de aprofundar suas estruturas institucionais, a Europa preferiu expandir rapidamente à países que não possuem outra ambição além de alcançar um vasto mercado transatlântico. A UE pretende agora adotar uma constituição, mesmo sem ter criado um poder constituinte, e pretende aderir à Turquia, mostrando que não há mesmo um acordo entre europeus sobre os limites da Europa.

O grande equívoco é que a grande maioria não está de acordo com as finalidades da integração europeia.
Este é o problema das finalidades que deve ser esclarecido. A alternativa é clara: ou a Europa dá prioridade à liberalização, a esposa da dinâmica de um grande mercado que se expandirá o máximo possível, e neste caso, a influência norte-americana irá se tornar predominante, ou se baseia em uma lógica de estruturas mais profundas de integração política através do federalismo e da subsidiariedade, tendo em vista, principalmente, a intenção continental de neutralizar o peso dos Estados Unidos.

8 – Qual Europa você anseia?
A. B: Vasta questão, mas penso que já respondi. Eu quero que a Europa se torne um poder independente em que possa desempenhar um papel regulador na globalização de um mundo multipolar, mas também uma Europa que não se limite à lógica exclusiva de poder, mas que possa ser novamente um projeto de civilização.