quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Entrevista de Alain de Benoist ao Jornal " IL FEDERALISMO " - 2005



1 – A França é um estado jacobino por excelência. Como você interpreta a reflexão federalista?

A.B : A França possui de fato uma tradição secular jacobina, que não começa, também, com a Revolução: a tendência de centralização das autoridades locais estava bem encaminhada no Antigo Regime, a Revolução que radicalizou tal fato. Esta tradição está relacionada ao modo de formação da nação francesa, que surgiu com a expansão gradual de um núcleo central, combinado com o estabelecimento de um mercado nacional e um espaço legal unificado. No entanto, deve-se lembrar que sempre houve, também, resistência à centralização, especialmente por parte da nobreza, mas também nas massas. Todos os tipos de pensadores, que vão de Henry de Boulainvilliers à Tocqueville, denunciaram fortemente os jacobinos. Nas províncias periféricas, a personalidade do forte regionalismo e autonomismo têm permanecido até hoje. No Século 19, esquerdistas como Proudhon, homens de direita como Maurras, ou, especialmente, jovens como Barres afirmam de forma explícita o federalismo.
Pessoalmente, eu vim para o federalismo por uma simpatia espontânea pelos movimentos regionalistas ( Bretão, Normando, Flamengo, Alsáciano, Basco, Córsego, etc ) comprovada desde a minha juventude, e por uma reflexão relevante da filosofia política. O Federalismo apareceu-me como o único sistema político capaz de conciliar a individualidade e a multiciplidade, isto é, as exigências aparementemente contraditórias da unidade, necessária para a decisão, e para a liberdade, de manutenção da diversidade. Mas também tenho sido influênciado por uma série de autores como Paul Sérant e Thierry Maulnier, que escreveram no século 20 ( o século federalista ), como, também, Robert Aron, que faz parte dos "não-conformistas dos anos 30", que continuou a defender as idéias de Sorel, do Socialismo Associativo, do Mutualismo Francês, além de Alexander Marc, diretor do L' Europe en formation e teórico do "federalismo integral", etc.


2 – A democracia representativa contemporânea tem em si o risco de não representar ninguém, muito menos o povo. Existe, segundo a lei, o problema da soberania?


A. B: A crise da representação agora é que afeta todas as democracias liberais. O enfraquecimento do Estado – Nação que, como tem sido dito muitas vezes, tornou-se muito grande para atender às expectativas das pessoas comuns, e muitos pequenos problemas estão se desenrolando em todo o mundo, resultando o afastamento social ( o Estado já não é mais um produtor social ) e uma pausa, sempre acentuada, entre políticos e cidadãos. Eles , então, tendem a refugiar-se na abstenção, ou votar em partidos puramente manifestantes, que não são forças construtivas. Podemos remediar essa crise, pondo em prática a democracia participativa em todos os níveis, desde a base, permitindo à todos a participação nos assuntos públicos.

O problema da soberania é outro problema. À partir da perspectiva jacobina do Estado – Nação, a soberania é definida, de acordo com Jean Bodin, como um conceito de indivisibilidade : a autoridade soberana é uma autoridade à qual, por definição, não podem ser atribuídos limites. Como uma autoridade soberana, sobre todos, tende naturalmente ao despotismo. Federalismo não rejeita o conceito de soberania, mas dá uma definição diferente. Soberania não é indivisível, mas compartilhada ou distribuída de acordo com o princípio da subsidiariedade ou competência suficiente. O poder soberano não é poder absoluto, ele representa apenas o poder localizado no mais alto nível e cujo campo de decisão é o maior, o que ocorre quando as autoridades locais nos níveis mais baixos, não são capazes para resolver os problemas.


3 – Parafraseando Johannes Althusius, acredita que é possível que o laço social pode ser reconstruído à partir da primeira forma de associação, ou seja, a família, então, transformando-se em municípios, províncias e regiões?

A.B: A revitalização das famílias é, certamente, uma das condições da re-criação de laços sociais, porque a família é um dos lugares de socialização da aprendizagem. Mas eu acho que é um erro grave considerar a sociedade global como um sistema de "matryoshkas" onde se pode passar sem qualquer ruptura real da família para os municípios e regiões. Este erro tem sido constantemente cometido pelos autores, geralmente de direita, que compararam a sociedade global com uma grande família ( muitas vezes com o objetivo de assimilar o soberano de uma família, onde os sujeitos seriam os "filhos") . A familía revela a dimensão privada da existência, os municípios e regiões, a dimensão pública. O tipo de relação, cuja família é o lugar, entre pais e filhos, é fundamentalmente diferente do que existe no seio da sociedade política. Ignorando a diferença de natureza entre a dimensão privada e a dimensão pública da existência humana, pode-se levar tanto a submeter-se à um totalitarismo político em todos os aspectos da vida privada, ou, inversamente, à um liberalismo que procura uma "privatização" generalizada de assuntos públicos.


4 – A sociedade atual é composta por individuos atomizados, separados uns dos outros, você vê a possibilidade do nascimento de um novo modelo antropologico?
A.B : Nós vivemos de fato em uma época em que o individualismo alcançou os seus maiores picos, mas ao mesmo tempo, e talvez em compensação, vemos o desenvolvimento espontâneo de novas formas de associação voluntária, tais quais as "tribos", comunidades, redes, etc. O verdadeiro problema é a colonização dos espíritos pelo imaginário economico e mercantil.

O modelo antropológico dominante é de um homem preocupado apenas com a maximização dos seus principais interesses, isto é, em geral, para chegar à uma quantidade cada vez mais de objetos consumidos. A mensagem implícita da mídia é a idéia de que a felicidade é sinônimo do consumo. Este modelo é igualmente descritivo e normativo: ela legitima tanto ao materialismo prático e à idéia de que o comportamento egoísta é o mais comum possível.

Neste contexto, o laço social invariavelmente derrotado, porque o outro aparece pela primeira vez como um rival em um campo transformado em um espaço social de concorrência generalizada. Portanto, de fato, é necessário trabalhar para a vinda de um novo modelo antropológico. Isto requer a capacidade de retornar ao imaginário simbólico, redefinir o homem como um ser fundamentalmente social e político, e remeter os valores de mercado para ele, necessariamente de forma subordinada.

5 – Existe na Europa um problema cultural para seus mútiplos povos?
A.B: Poderíamos repetir aqui a antiga distinção entre cultura e civilização, que também corta a distinção entre comunidade e sociedade, teorizada por Ferninand Tönnies. A civilização tende a ser única, enquanto as culturas sempre serão plurais. A diversidade cultural dos povos europeus – a diversidade em relação à medida em que essas pessoas têm uma herança em comum - é agora ameaçada pela homogeneização dos estilos de vida, induzidos pela globalização liderada pela superportência norte-americana, mas que se define, principalmente, como uma expansão global do capital de forma totalmente desterritorializada. Mias uma vez, acho que podemos combater esse processo, retornando à base, ao nativo, às comunidades. Isto é, atuação local para opor-se ao global, dando à globalização um conteúdo diferente, multipolar e diferenciado.

6 – O desaparecimento das línguas locais é, na sua opnião, um fato significativo?
A.B: O desaparecimento das línguas locais é, claramente, um aspecto do desaparecimento das culturas e redução da diversidade. Na época da Revolução, os jacobinos já haviam tentado remover de forma autoritária os "patois" ( dialetos não oficiais ) e as línguas locais. A III República continuou nessa direção ao tentar miminizar o uso das línguas regionais ao nível privado. Hoje as línguas locais são mais aceitas, e até protegidas, mas é todo o modo de vida caracteristico da sociedade global que lhes são desfavoráveis. O sistema mediático, e sobretudo a televisão, desempenha neste contexto um papel central: as crianças não falam mais como os seus pais, eles falam como se fala na televisão. Ao mesmo tempo, o inglês americano se impõe cada vez mais como a língua do novo koiné mundial. Contudo, a situação é bem diferente regionalmente. Algumas línguas são, obviamente, condenadas à desaparecer, outras têm uma boa chance de sobrevivência quando usadas diariamente em áreas que estão preservando a sua identidade.

7 – Quais são os cenários que estão previstos para os povos da Europa?
A.B: A construção política da Europa é agora totalmente bloqueada, tanto pela lógica persistência do Estado – Nação, quanto pela completa falta de vontade dos homens políticos, e pela burocracia. Ao invés de aprofundar suas estruturas institucionais, a Europa preferiu expandir rapidamente à países que não possuem outra ambição além de alcançar um vasto mercado transatlântico. A UE pretende agora adotar uma constituição, mesmo sem ter criado um poder constituinte, e pretende aderir à Turquia, mostrando que não há mesmo um acordo entre europeus sobre os limites da Europa.

O grande equívoco é que a grande maioria não está de acordo com as finalidades da integração europeia.
Este é o problema das finalidades que deve ser esclarecido. A alternativa é clara: ou a Europa dá prioridade à liberalização, a esposa da dinâmica de um grande mercado que se expandirá o máximo possível, e neste caso, a influência norte-americana irá se tornar predominante, ou se baseia em uma lógica de estruturas mais profundas de integração política através do federalismo e da subsidiariedade, tendo em vista, principalmente, a intenção continental de neutralizar o peso dos Estados Unidos.

8 – Qual Europa você anseia?
A. B: Vasta questão, mas penso que já respondi. Eu quero que a Europa se torne um poder independente em que possa desempenhar um papel regulador na globalização de um mundo multipolar, mas também uma Europa que não se limite à lógica exclusiva de poder, mas que possa ser novamente um projeto de civilização.


F. Roger Devlin - O Pensamento Econômico de Bonald

por F. Roger Devlin


A era francesa do Iluminismo testemunhou e celebrou uma revolução econômica: o rápido crescimento da especulação e de uma economia monetária, e uma correspondente diminuição da importância da terra enquanto riqueza. Bonald acreditava que a mudança havia sido causada pela prática da usura. Ele não condenava todo empréstimo a juros como usura, mas distinguia entre os casos de empréstimo para aquisição de bens produtivos (como terra ou capital) e empréstimos para bens improdutivos pretendidos para o consumo.

Por exemplo, se eu empresto dinheiro para que um homem compre uma fazenda, eu posso legitimamente cobrar juros sobre os bens produzidos pela fazenda. Na França do tempo de Bonald, isso normalmente significaria uma taxa de juros ao redor de 4 ou 5% ao ano. Por outro lado, se eu empresto dinheiro para que um homem compre pão, sua compra, longe de ser produtora de mais valor, perde o valor que tiver se não for rapidamente consumida. Em contraste com a própria terra, "os produtos da terra, são valores mortos que diminuem em quantidade ou qualidade". Ganhar dinheiro emprestando para o consumo é, na visão de Bonald, essencialmente injusto e uma violação da caridade cristão mesmo quando livremente acordado entre credor e devedor.

Pode parecer que tal doutrina impediria que um quitandeiro comum operasse sua loja e lucrasse. Bonald sustenta que o "lucro" do quitandeiro na verdade se resume a um salário pelo trabalho que ele faz:

"O trabalho dos homens que compram, transportam, guardam, preservam e melhoram bens merece um salário. O natural decréscimo, a perda acidental e eventual de bens e o desperdício inevitavel que eles sofrem em sua transformação em valores industriais merecem todos eles compensação".

Isso contradiz o dogma de Adam Smith:

"Os lucros de capital, poder-se-ia pensar, são apenas um nome diferente para o salário de um tipo particular de trabalho, o trabalho de inspeção e direção. Eles são, porém, completamente diferentes, sendo regulados por princípios distintos, e não são proporcionais à quantidade, dificuldade ou engenhosidade desse suposto trabalho de inspeção e direção. Eles são regulados completamente pelo valor do capital empregado, e são maiores ou menores em proporção à quantidade desse capital... Em muitas manufaturas grandes, quase todo o trabalho desse tipo é atribuído a algum funcionário importante. Seu salário expressa propriamente o valor desse trabalho de inspeção e direção. Ainda que em sua determinação alguma consideração normalmente se tem, não apenas quanto a seu trabalho e perícia, mas também à confiança que é depositada nele, porém este salário nunca tem qualquer proporção regular com o capital cuja aplicação ele supervisiona; e o proprietário desse capital, ainda que ele esteja assim desincumbido de quase qualquer trabalho, ainda espera que seu lucro tenha uma proporção regular com seu capital. No preço das commodities, portanto, os lucros de capital constituem uma parte componente totalmente diferente do salário de trabalho, sendo regulados por princípios bastante distintos". (A Riqueza das Nações, Livro I, Capítulo 6)

Eu não irei me aventurar em decidir a questão em favor de Bonald, mas eu estou inclinado a imaginar quantos economistas modernos poderiam dar uma explicação coerente do motivo pelo qual essa perspectiva impopular está erradao.

O dinheiro, na perspectiva de Bonald, é fundamentalmente um signo de valor e um meio de troca ao invés de uma commodity como qualquer outra. Ele não deve, portanto, demandar um "preço" na forma de juros (exceto como notado acima). Quando a usura é permitida,

"os juros, ou melhor o preço do dinheiro, é infinitamente maior que os frutos da terra, assim todos desejam vender sua terra de modo a buscar dinheiro para emprestar. Mas quando todos querem vender, ninguém quer comprar. Os frutos da terra tendem a subir aos preços mais altos, enquanto a terra desce ao preço mais baixo, ou elas se tornam impossíveis de vender a qualquer preço, e compra-se apenas aquilo que a miséria deixa para trás ou as revoluções tornam disponível. Nota-se uma tendência geral a deixar o próprio lar e o lar dos próprios antepassados, abandonar a própria família e seu país. Uma vaga inquietude e desejo por mudança atormentam os donos de terra. Eles reclamam de estarem presos a uma propriedade sobrecarregada de cuidados, e com muito pouca renda sobrando para pagar por seus luxos e prazeres. Nós vemos um desejo imodesto de ficar rico espalhando-se até pelas ordens mais baixas da sociedade, causando desordens horríveis e crimes inauditos; enquanto em outros causando um egoísmo duro, uma extinção total de qualquer sentimento generoso, e uma transformação insensível da mais desinteressada e amistosa nação em uma população de especuladores que veem nos eventos da sociedade apenas oportunidades de ganho ou perda".

 A esse sistema instável, calculista e caótico Bonald opõe o tradicional sistema da economia agrária que floresce quando as taxas de juros não tem permissão de exceder ao fruto da terra:

"Aqueles que são capazes de viver dentro dos limites de seu capital buscam adquirir terra produtiva, porque a renda da terra é aproximadamente a mesma que o juro pago por dinheiro, e é mais segura porque o capital em si está mais protegido contra imprevistos. Porém, caso todos quisessem comprar, ninguém iria querer vender. Terras estão então possuem um preço elevado em relação a bens. Todos os cidadãos aspiram passar de possuidores de dinheiro a possuidores de terra, ou seja, de uma condição política móvel e dependente a uma posição fixa e independente. Essa é a disposição mais feliz e moral da consciência pública, a mais oposta ao espírito da ganância e da revolução".

O leitor aprenderá mais sobre agrarianismo de algumas páginas de Bonald do que de todos os exercícios literários em I'll Take My Stand.

Bonald não via razão pela qual o legislador deveria permanecer neutro em relação a desenvolvimentos tão danosos aos hábitos morais da sociedade:

"Uma política sábia, mais atenta aos interesses gerais do que aos privados, buscaria tornar a circulação de dinheiro menos rápida: em Esparta, pelo uso de dinheiro de ferro, nos Estados modernos, pela proibição dos empréstimos usurários... Se os lucros do comércio regularmente sobem muito acima das rendas da terra, seria uma medida sábia devolvê-las à igualdade, ou favorecendo o cultivo da terra de todos os modos possíveis, ou contendo as especulações comerciais dentro dos limites da utilidade geral".

Para restaurar a ordem agrária, Bonald também advogava a restauração da primogenitura e demanda: "uma lei feita não para o benefício do mais velho, mas para a preservação e permanência da família agrária". A legislação revolucionária havia demandado a divisão igual da herança de propriedades agrárias. Isso não era diferente do juízo de Salomão de cortar uma criança em dois: a metade ou 1/4 ou 1/8 de uma propriedade usualmente não tem o valor correspondente da fração da propriedade original. Pode ser triste que nem todos os homens podem viver de suas próprias terras, mas fracionar propriedades em uma miríade de jardins vegetais não melhora as coisas; isso apenas força os "herdeiros" a vender sua terra por qualquer preço que eles consigam. Como cidadão de destaque de seu distrito, Bonald veio a conhecer os males do novo sistema em primeira mão.

"Um rico agricultor que o autor parabenizou pelo bom estado de sua propriedade respondeu em um tom doloroso: 'É verdade, minha propriedade é bela e bem cuidada. Meus pais por vários séculos e eu por cinquenta anos trabalhamos para ampliar, melhorar e embelecê-la. Mas você vê minha família grande, e com as leis de herança deles, meus filhos um dia serão servos aqui quando outrora foram mestres".

Bonald defendia até mesmo o sistema de guildas, que Smith havia criticado por restringir a competição e demandar ineficientemente sete anos de aprendizado para ofícios que levava seis meses para aprender.

"Para as classes inferiores, as corporações de artes e ofícios eram um tipo de nobreza municipal hereditária que dava importância e dignidade aos indivíduos mais obscuros e às profissões menos exaltadas. Essas corporações eram ao mesmo tempo fraternidades, e é isso que excitava o ódio dos 'filósofos' que perseguiam a religião até mesmo em suas manifestações mais modestas. Essa instituição monárquica trouxe grandes benefícios à administração. O poder dos mestres continha jovens que careciam de educação, que haviam sido retirados da autoridade paterna ainda cedo pela necessidade de aprenderem algum ofício e ganhar seu pão, e cuja obscuridade afastava do poder público. Finalmente, a herança das profissões mecânicas também servia à moralidade pública pela colocação de uma barreira à mudanças ruinosas e ridículas de moda".

O primeiro ponto do autor é especialmente digno de ponderação: um homem pode ser feliz em uma posição baixa, desde que ela seja uma posição reconhecida dentro da sociedade. O "vírus da igualdade" infecta homens que estão desenraizados, ou seja, que não pertencem a lugar algum. Aqueles com a dignididade de até mesmo um "lugar" modesto raramente são perturbados pelas fortunas maiores dos outros.
 
Bonald criticava Smith diretamente:

"Riqueza, tomada em um sentido geral e filosófico, é meio de existência e preservação; opes, no latim, significa tanto riqueza como força. Para o indivíduo - um ser físico - esses meios são riqueza material, os frutos do solo e da indústria. Para a sociedade - um ser moral - os meios de existência e duração são as riquezas morais, e as forças da conservação são, para a sociedade doméstica, a moralidade, e para a sociedade pública, as leis. Morais e leis são, portanto, a verdadeira e até mesmo a única riqueza das sociedades, famílias e nações".

Aqui novamente nós vemos a radical distinção entre interesses universais ou públicos e particulares ou privados: bens econômicos são sempre privados, mesmo que sejam desfrutados por todos os indivíduos de uma dada sociedade. É por isso que o Liberalismo (que segundo o próprio Ludwig von Mises é "meramente economia aplicada") não pode dar um motivo pelo qual os cidadãos deveriam sacrificar suas vidas pelo seu país:

"Um espírito público não pode ser mantido em uma nação comercial ou manufatureira devotada a cálculos de interesse pessoa, e ainda menos hoje quando as leis da guerra protegem a propriedade pessoal do conquistado e em nossos sentimentos humanitários nós consideramos um crime que o cidadão não seja pago para defender sua terra. Em cada era, nações pobres conquistaram nações ricas, mesmo que em sua riqueza elas tivessem os motivos mais poderosos para auto-defesa".

Similarmente, em seu tratado Sobre o Divórcio, Bonald apontou que povos comerciais tendem a pensar até em casamento a partir de um modelo de contrato mercantil. Ele escreve "da degradação de um povo vizinho [o inglês] que avalia a fraqueza da mulher, o crime de um sedutor, e a vergonha de um marido em libras, shillings, e pence, e processa pelo total a partir de estimativas de especialistas".
Bonald rejeita o impulso "privatize tudo!" que enxerga socialismo espreitando em cada praça:

"O uso de coisas comuns, templos, águas, florestas, e pastos constitui a propriedade da comunidade. De fato, não há mais comunidade onde não há mais uma comunidade de uso. Pode ser verdade que as comuns eram mal administradas. Eu até acreditaria que sua divisão, em alguns lugares, produziu um pouquinho mais de trigo. Porém em algumas terras essa divisão restringe o rebanho a espaços pequenos demais e assim arruina uma parte importante da agricultura. Mais importante, não há mais propriedade comum entre os habitantes do mesmo lugar e, consequentemente, não há mais comunidade de interesses, não há mais ocasiões para deliberação e acordo. Por exemplo, se houvesse apenas uma fonte pública em uma aldeia a partir da qual a água fosse distribuída para todas as casas, retirar a fonte seria negar aos cidadãos uma ocasião contínua para ver, falar, e ouvir uns aos outros".

Bonald, como Marx após ele, viu que a pobreza industrial era diferente da pobreza dos estados agrícolas, e uma ameaça maior à ordem social tradicional. De fato, ele chega próximo de chamar o proletariado industrial de vanguarda da revolução.

"O verdadeiro político está preocupado com as desordens que emergem da alternância de abundância e miséria à qual a população industrial está exposta, que, produzindo bens industriais sem ser capaz de consumi-los, não está menos forçada a consumir os frutos da terra sem ter a habilidade de produzi-los ou mesmo compra-los - e que, encontrando-se sem trabalho e sem pão, é um instrumento preparado para a revolução... Que não se duvide que é na esperança de colocar toda essa população abundante em seu bolso que um partido europeu promove o crescimento exagerado da indústria, certo de que pode dar trabalho a esses mãos vazias na imensa oficina da indústria revolucionária".

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Meio Ambiente, Imigração, e Redução Populacional

por Thomas Dalton



Com 308 milhões de pessoas, os EUA são atualmente a terceira nação mais populosa na Terra, atrás apenas da China (1.3 bilhões) e Índia (1.2 bilhões). Por volta de 2050, a Índia chegará ao primeiro lugar, com 1.6 bilhões - um crescimento de 37%. A política de controle de natalidade da China limitará seu crescimento a aproximadamente 8% (1.4 bilhões). A taxa de crescimento nos EUA, porém, ultrapassa ambos: Nós estamos projetados para alcançar 440 milhões, ou um crescimento de incríveis 43%. Essa, de longe, é a maior taxa de crescimento de qualquer nação ocidental industrializada.

Tamanho crescimento populacional, sob qualquer circunstância, causa uma variedade de problemas sociais e econômicos. Nos EUA, como sabemos, a situação é exacerbada pelo fato de que a maior parte de nosso crescimento se dará entre grupos não-brancos minoritários, primariamente hispânicos. Os números são notáveis: O crescimento de 43% equivale a 132 milhões de pessoas; dessas, 130 milhões serão minorias. A população branca crescerá apenas em 2 milhões, reduzindo-a a 46% do total em 2050. Assim nós podemos esperar que problemas com minorias crescerão em uma variedade de áreas: habitação, escolas, benefícios sociais, saúde, criminalidade, segurança, desigualdade econômica, e conflitos étnicos e raciais.

Mas uma área negligenciada de importância é verdadeiramente daltônica, e está é a do meio ambiente. Uso de recursos e energia, desenvolvimento, construção de estradas, áreas de cultivo e pastoreio ampliadas, deflorestamento, poluição e produção de lixo - nada disso leva em consideração a raça ou etnia que está consumindo. Apenas duas coisas importam: quantidade de pessoas, e o nível de consumo. E apenas levando em consideração esses critérios, nós já estamos encarando uma crise ecológica nesse país.

Medir o impacto ambientla é um prospecto a, mas consenso parece estar se formando ao redor do conceito de pegada ecológica como critério relevante. A idéia básica por trás disso é razoável: que os seres humanos, como consumidores e produtores, demandam o uso contínuo de certa porção da superfície do planeta, da qual retirar recursos e na qual depositar seus restos. Alguns recursos são renováveis, outros não. Alguns tipos de lixo deixam de existir rápido, outros levam milênios. Muitos de nossos recursos demandam uma área quantificável de terra: terra para plantar, pavimentar, pastorear, ou desenvolver de outros modos. E também nossos restos: nosso lixo demanda um espaço cada vez maior, emissões de gases estufa de todas as fontes podem demandar compensações em termos de vegetação (árvores ou outros tipos de cobertura vegetal). E a vegetação geralmente tem uma habilidade vital de destruir os vários poluentes e toxinas que nossa sociedade gera diariamente.

Em uma tentativa de formular uma medida padronizada, cientistas ambientais somaram a área terrestre de todo o nosso uso de recursos, mais a área terrestre necessária para todo nosso lixo e compensações para carbono. O resultado é, para cada nação, uma única medida de área - a pegada ecológica - que representa a quantidade de área necessária, por pessoa, para sustentar um certo padrão de vida.

Na parte mais baixa da escala, nações como Haiti e Bangladesh sobrevivem basicamente com aproximadamente 1 acre por pessoa. O grosso do Terceiro Mundo cnosome entre 2.5 e 8 acres, incluindo Índia (2.3) e China (5.3). A maior parte da Europa Ocidental vai de 10 a 15. E no topo da lista está os EUA, a quase 24 acres por pessoa. (Dois feudos petrolíferos, Emirados Árabes Unidos e Qatar, pontuam acima dos EUA, mas apenas por pouco.)

Naturalmente, há bastante de suposições e estimativas nesses números, e certamente eles estão sujeitos a debate. Mas eu não tenho dúvidas de que eles estejam direcionalmente corretos, e que a margem de erro esteja em um nível aceitável. Mas mesmo que eles estejam equivocados por 50% - isto é, se eles indicarem o dobro do nível de consumo real - eles apontam para algumas conclusões problemáticas para nosso país.



Considere, por exemplo, a pegada total dos EUA. Com mais de 300 milhões de pessoas consumindo em média 24 acres por pessoa, isso resulta em uma pegada total de 7.4 bilhões de acres. Por comparação, os EUA continentais (ou seja, excluindo o Alaska) possuem uma área territorial total de apenas 1.9 bilhões de acres - somente 1/4 de nosso uso total. Colocando de outro modo: Nossa pegada é 400% de nossa área continental, e ocupa mais do que 20% de todo o planeta.

Na verdade existe uma dupla explicação para nossa situação. Primeiro, nós estamos sobrecarregando a própria terra. O cálculo supracitado da pegada ecológica para os EUA indica que é possível usar mais do que 100% da terra. Isso ocorre, essencialmente, esgotando-se o "capital natural" da biosfera, o que ocorre através de ações como deflorestamento, perda de solo arável, e uso excessivo de água da superfície. Segundo a maior parte das indicações, a humanidade como um todo está sobrecarregando o planeta em 30-40% - uma condição que, se verdadeira, claramente não pode continuar indefinidamente. Mas o segundo e mais importante fator para os EUA é uma situação por meio da qual nós somos capazes, através da globalização e do comércio internacional, de consumir o equivalente à área terrestre de recursos de outras nações - sob a forma de produtos agrícolas importados, bens manufaturados, produtos químicos, roupas, maquinaria, veículos, e combustíveis fósseis.

Tanto por razões de justiça social e sustentabilidade ecológica, o mundo do futuro terá que viver dentro de suas possibilidades. Em um sentido prático isso significa três coisas: reduzir o consumo total (global) a níveis sustentáveis, reduzir o consumo per capita (considerando a suposição da ONU de que a população crescerá), e, mais criticamente, viver dentro das capacidades da área terrestre de cada nação.

Então para os EUA, o cálculo é bastante direto. Com 1.9 bilhões de acres de terra, nós podemos suportar no máximo (1.9 bilhões/24 acres) 80 milhões de pessoas sustentavelmente. Compare isso à população atual de 308 milhões que está rapidamente se dirigindo a maias de 400 milhões. Assim, nós devemos contemplar uma redução de 75% ao invés seguir na direção de um crescimento de 40%. (Isso, é claro, assume um nível fixo de consumo; se nós estivéssemos dispostos a cortar nossa pegada pela metade, nós poderíamos nos limitar a um corte de apenas 50% da população, para algo como 150 milhões de pessoas.)

Mas a situação é pior do que isso. Autêntica sustentabilidade a longo prazo demanda que uma grande porção de terra seja separada para natureza selvagem, não utilizada e inexplorada, de modo a manter a viabilidade geral do ecossistema. Quanto separar é uma questão difícil, especialmente considerando a ampla variabilidade e sensibilidade de diferentes ecossistemas, e a falta de consenso sobre a medição apropriada. Estimativas mínimas parecem girar em torno de 20-25%, e na pior das hipóteses, alguns defendem 50% ou mais, especialmente nas regiões mais biodiversas. Se, no pior dos cenários, nos for permitido usar apenas ao redor de 1 bilhão de acres de terra, os níveis de consumo atuais sustentarão apenas 40 milhões de pessoas - uma redução de 87%.

Francamente, estes são números assustadores. E como eu mencionei acima, mesmo que os valores das pegadas estejam significativamente equivocados - se, por exemplo, nós estivermos consumindo a uma taxa de apenas 10 ou 12 acres por pessoa - então a população sustentável a longo prazo volta a ser de 80-100 milhões. Assim não há como sair pela tangente sofísticamente no que concerne a esse problema simplesmente afirmando exageros por parte de ambientalistas malucos. Claramente atitudes mais drásticas são necessárias.

Considerando a não-sustentabilidade radical de nossa presenta situação, nós precisamos abordar imediatamente tanto o nível de consumo e a questão populacional simultaneamente. Do lado do consumo, nós precisamos claramente nos tornar mais eficientes, menos esbanjadores, e consumir menos. Os americanos como um todo desperdiçam uma quantidade tremenda de energia e recursos, e isso ajuda pouco ou nada em nosso padrão de vida. A Alemanha, por exemplo, possui uma qualidade de vida igual ou superior, e a consegue com uma pegada de apenas 11 acres por pessoa - menos da metade da nossa. Um nível comparável para os EUA é claramente alcançavel, especialmente ao longo de algumas décadas. Mas isso não vai ocorrer sem a superação da oposição feroz de certos interesses.

A outra metade da equação é ainda mais difícil e contenciosa. Abordar a questão espinhosa do controle populacional, quanto mais de redução populacional, só é um pouco menos controverso do que negar o Holocausto. E na verdade qualquer tentativa de discutir redução populacional em larga escala invariavelmente leva a piadas sobre câmaras de gás e crematórios. Mas a situação demanda uma discussão racional, e aqui estão alguns primeiros passos.



Um: Um fim imediato a toda imigração. O mito da América como a "terra dos livres e lar dos bravos", para a maioria dos imigrantes, não faz sentido algum. Os imigrantes não vem para cá porque eles "amam nossas liberdades". Eles vem primariamente por uma razão: para ganhar dinheiro, e melhorar seu padrão de vida. Mas cada novo imigrante - seja um mexicano empobrecido ou um asiático educado - contribui diretamente para um ecossistema já sobrecarregado. Nem nossa nação ou o planeta podem aguentar mais americanos.
Dois: Deportação de todos os imigrantes ilegais, e fim do privilégio do "green card". Dada a urgência, cada pessoa ilegal aqui deveria ser presa e deportada. O sistema do green card deve ser terminado, e aqueles que atualmente o possuem devem se sujeitar a uma expiração acelerada sem renovação.

Três: Pagar pessoas para ir embora. Se alguém quiser ir embora permanentemente dos EUA, o governo deve pagar todos os custos da mudança, e talvez jogar um pequeno incentivo financeiro também. Isso obviamente não faz nada pelo problema da população global, mas ajuda o problema de consumo total; o fato permanece de que qualquer pessoa vivendo fora dos EUA consumirá, em média, muito menos.

Quarto: Pressão total no planejamento familiar e nas opções contraceptivas. Acesso gratuito ou a baixo custo a camisinhas, pílulas do dia seguinte, programas educacionais, e até abortos, deveriam ser considerados.

Quinto: Um fim para todos os incentivos tributários à natalidade. As leis tributárias atuais permitem isenções para todas as crianças, independentemente do número. Elas devem ser revisadas para permitir isenção apenas para o primeiro filho, e aumentar os desincentivos a partir do segundo.

Se essas não forem suficientes, opções mais radicais estão à disposição:

Seis: Esterilização custeada pelo Governo. Certamente alguma percentagem da população americana vai querer ser esterilizada se isso for grátis. Mais radical ainda seria dar incentivos monetários para a esterilização. Imagine se o governo oferecesse $5.000 para cada adulto sem filhos que quisesse ser esterilizado - e imagine os protestos! Mas não pode haver qualquer reclamação, desde que não haja coerção e o programa seja completamente voluntário. Sim, as classes mais baixas são mais prováveis de participar; isso talvez seja infeliz, mas já que nós aceitamos desigualdades financeiras extremas em nosso país, nós temos que aceitar as consequências. (Na pior das hipóteses, isso compensaria as taxas de natalidade mais altas das populações de imigrantes pobres.)

Sete: Licenças de natalidade ou "créditos". Essa é uma versão capitalista da política chinesa. Kenneth Boulding e Herman Daly, entre outros, propuseram um sistema que dá a cada mulher um certo número de créditos, os quais permitem a ela ter apenas um filho legal. Se ela quiser dois ou mais, ela deve comprar os créditos de outras mulheres que queiram vender os seus. Um mercado nacional determinaria o preço, e mulheres sem filhos claramente lucrariam. Isso talvez seja um método insensível, mas o sistema atual é excessivamente cruel a seu modo - uma peste humana sem controle devorando o planeta.

Sem dúvida muitos leitores considerarão programas de esterilização ou créditos natais como absurdos e impossíveis. A isso oferece duas respostas: (1) nós obviamente começaríamos pelas abordagens menos radicais primeiro, e apenas contemplaríamos ações mais extremas caso necessário; e (2) temos opções melhores? Continuar tudo do mesmo jeito não é uma opção racional. Isso apenas convidaria à catástrofe como meio de reduzir nossa população - o que certamente ocorrerá se não fizermos nada. Os números humanos vão diminuir; nós podemos planejar racionalmente uma redução suave, ou simplesmente esperar uma Mãe Natureza impiedosa nos esmagar.

As ações acima, abordando população e consumo simultaneamente, sem dúvida terão impacto substancial. O efeito real obviamente dependerá da velocidade de implementação. A situação é cada vez pior, mas parece haver tempo suficiente para que essas ações funcionem. Consumo reduzido e eficiências cada vez maiores podem ocorrer de modo razoavelmente rápido, mas ninguém está propondo reduções populacionais de 50% ou 75% em uma década.

De modo mais realista, eu proporia algo na ordem de um plano de 50 anos para alcançar os objetivos acima. Se, ao longo das próximas cinco décadas, nós pudermos reduzir tanto nossa pegada como nossa população por apenas 2% ao ano, nós chegaremos a 2060 com 110 milhões de pessoas, consumindo a um nível de 8.7 acres por pessoa - uma pegada sustentável de 1 bilhão de acres no total. Reduções anuais de 2% são facilmente alcançáveis, e mal causariam qualquer impressão nas consciências públicas.
Há bastante flexibilidade nos números, é claro. Se nós fôssemos capazes de conseguir, digamos, apenas reduções de 1% por ano em média, o processo ainda funcionaria - mais isso levaria 100 anos para alcançar sustentabilidade. Compensações entre população e consumo também são possívels. Se nós pudéssemos, por exemplo, reduzir a população a 3% ao ano, então o consumo só precisaria cair 0,5% anualmente; ou vice-versa.

E finalmente, crítico a qualquer esquema de redução populacional é uma implementação equitativa e proporcional. Não seria válido, por exemplo, que uma classe ou etnia voluntariamente adotasse políticas de baixo crescimento ou de crescimento negativo enquanto outras as ignorassem com impunidade. Deve haver uma política mínima de monitoramento e, particularmente para sistemas de penalidades tributárias ou créditos natais, aplicação equitativa.

A cada ano que esperamos as coisas ficam piores: população crescente, consumo per capita crescente, e um ecossistema global próximo da exaustão. Com uma população sustentável na América, nós poderíamos nos alimentar, gerar toda a nossa própria energia (pense nisso - sem mais guerras por petróleo!), e manter vastas áreas de natureza selvagem. Isso é realmente alcançável. É apenas uma questão de vontade. Mas a discussão deve começar agora.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Na Casa de Pound - Entrevista com Gianluca Iannone

por Colin Liddell



Casapound é um movimento político italiano que toma seu nome do poeta e simpatizante fascista americano, Ezra Pound. Ainda que seja inevitavelmente referido como "extremista", "racista", e "neofascista", o movimento, que foi fundado em 2003, é na verdade mais complexo e interessante, especialmente a partir de uma perspectiva alternativa de direita. Ele assume uma abordagem holística e comunitária à política, focando em cultura, comunidade, e uma variedade de atividades para seus membros, tanto quanto em política de rua tradicional. Esta é uma entrevista que fiz por email com Gianluca Iannone, o líder do movimento, no início de 2011 para um artigo que eu estava escrevendo.

A CasaPound ainda não é muito conhecida nos países anglófonos, mesmo para aqueles ativos em política direitista. Tu poderias introduzir seu movimento para nossos leitores e descrevê-lo? Quão grande é CasaPound? Quantos membros e quanto apoio tendes?

Em primeiro lugar, ligar a CasaPound à direita é um pouco restritivo. CasaPound Italia é um movimento político organizado como uma associação de promoção social. Ele começa na direita e passa por todo o panorama político. Direita ou esquerda são duas visões antigas da política, e nós precisamos gerar uma nova síntese. A CPI tem mais de 4000 membros por toda a Itália, mas as ajudas e simpatia que nós recebemos diariamente é muito maior... Basta considerar que o Blocco Studentesco, nossa organização estudantil, conseguiu 11.000 votos em Roma nas eleições estudantis.



Por favor, conte-nos um pouco sobre ti e teu background.

Eu nasci em agosto de 1973 e comecei a fazer ativismo político aos 14 na Fronte della Gioventù em Acca Larenzia, uma das vizinhanças do centro de Roma. Desde então eu nunca parei de ser parte desse mundo. Jornalista desde 1999, eu trabalhei para estações de TV e rádio e também escrevi para jornais nacionais sobre conflitos internacionais, literatura, cinema e música.

Por que tu te tornastes politicamente ativo? Foi algum evento, ação, ou pessoa que impeliu-te ao ativismo político?

Para falar a verdade, não houve uma coisa em particular. Creio que foi simplesmente destino.


Quais são as principais políticas e objetivos da CasaPound, tanto a curto prazo como a longo prazo?

A CPI trabalha com tudo que tenha relação com a vida de nossa nação: do esporte à solidariedade, cultura, e é claro política. Nos esportes, nós temos times de futebol e uma academia, nós praticamos hockey, rugby, skydiving, boxing, brazilian jiu-jitsu, scuba diving, escalada, espeleologia.  A nível de solidariedade, nós temos equipes de auxílio, nós levantamos fundos para o povo Karen, e nós prestamos auxílio a órfãos e mães solteiras. Uma linha telefônica chamada "Dillo to CasaPound" está ativa 24h/dia para dar conselhos gratuitos em questões legais e tributárias. No campo cultural nós, promovemos autores e organizamos apresentações de livros; nós temos um clube de artistas, uma escolha de teatro, aulas gratuitas de guitarra, baixo e bateria, nós criamos uma tendência artística chamada Turbodinamismo, nós temos uma casa editorial, dúzias de livrarias e sites. Politicamente nós propusemos diversas leis como o Mutuo Sociale (Hipoteca Social), o Tempo di essere Madri (Tempo de ser mãe) ou contra a privatização da água e diversas outras. Falar sobre a CPI nunca é fácil porque todas essas coisas são CasaPound. Todas elas representam nossos desafios e projetos para agora e para o milênio. 



Tu tens alguma ligação significativa com grupos ou partidos de fora da Itália?

Não.
A primeira coisa que chama a atenção nos países anglófonos é o nome de teu grupo, que, é claro, faz referência ao famoso poeta americano Ezra Pound. Quão importantes são as idéias de Poundo para teu movimento? Por que resolveu-se incluir seu nome no título de teu movimento?

Ezra Pound foi um poeta, um economista e um artista. Ezra Pound foi um revolucionário e um fascista. Ezra Pound teve que sofrer por suas idéias, ele foi enjaulado para impedi-lo de falar. Nós vemos em Ezra Pound um homem livre que pagou por suas idéias; ele é um símbolo das "visões democráticas" dos vencedores.

Ezra Poundo também é um nome rotineiramente associado com o antissemitismo. Alguns automaticamente verão a invocação de seu nome como uma chamada ao antissemitismo. Poderias esclarecer a posição da CasaPound em relação aos judeus e Israel?

Associar Ezra Pound e antissemitismo é uma falsificação total. É a mesma coisa para a CasaPound, não faz sentido. É verdade que nós somos contra a política israelense em relação aos palestinos, contra o bombardeio de civis, e contra o embargo sobre o auxílio internacional. Dizer isso não significa ser antissemita, significa analisar os fatos.
Tu também és conhecido por uma retórica anti-usurária. A maioria das pessoas racionais opõe-se a usura excessiva, mas tu te opões a toda forma de usura? Se não, onde termina o crédito construtivo e começa a usura destrutiva?

Usura é a pior das coisas. É a cabeça do polvo. É aquilo que deu início às guerras que estão começando no Mar Mediterrâneo, que gera a imigração ilegal e a destruição. É aquilo que cria desemprego, e dívidas. É o que ameaça o futuro de nossas crianças, que as torna fracas e preparadas para o massacre.
Minha impressão da CasaPound é a de que é fundamentalmente uma organização comunitária que opera com sucesso na arena da política de rua, com marchas, paradas, e eventos que fortalecem a identidade e a comunidade, ao invés de através de eleições convencionais. Nos países anglo-saxões a política de rua da direita falhou no passado, permitindo à mídia oficial pintar imagens bastante negativas do National Front na década de 70 e do BNP posteriormente. Por causa disso o BNP agora evita a rua como arena política. O sucesso de teu grupo sugere que a rua é uma arena política muito mais aceitável para a direita na Itália. Por que crês que seja assim? Quais são as diferenças que tornam isso possível?

Em primeiro lugar, a Inglaterra nunca foi um estado fascista. Isso já cria uma grande diferença cultural. Também, como eu disse antes a CPI trabalha em dúzias de projetos e com diversos métodos: de conferências a demonstrações, distribuição de informações, pôsteres, etc. O que é importante é gerar contra-informação e ocupar o território. É fundamental criar uma rede de apoiadores ao invés de focar em eleições. Nas eleições, tu estás competindo com grupos com um forte financiamento e com apenas uma ou duas pessoas eleitas, não podes mudar nada. Política para nós é uma comunidade. É um desafio, é uma afirmação. Para nós, política é tentar ser melhor a cada dia. É por isso que nós dizemos que se não te vemos, é porque tu não estás lá. É por isso que estamos nas ruas, nos computadores, nas livrarias, nas escolas, nas universidades, nos ginásios, no topo das montanhas ou nas bancas de jornal. É por isso que estamos na cultura, no ativismo social e nos esportes. Este é um trabalho constante.


Por causa das diferenças entre Grã-Bretanha e Itália pensas que seja melhor para a direita no Reino Unido evitar a política de rua? Nesse contexto, qual é sua opinião da English Defence League, um grupo que obviamente vê a rua como sua arena ou fórum?

 Eu penso que a EDL está apelando para o discurso do choque de civilizações. Para mim e para a CasaPound, isso provoca um certo desagrado. Se a direita britânica está reduzida a isso, então vamos conversar sobre futebol, que será melhor.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Vivemos em uma Sociedade Gineocrática?

por Julius Evola



Muito tem sido escrito ultimamente na Itália sobre J.J. Bachofen, um pensador de Basel e contemporâneo de Nietzsche, cuja obra de gênio passou quase desapercebida durante sua vida, mas que é particularmente estudado hoje, especialmente na Alemanha. Bachofen devotou-se principalmente à exploração das civilizações antigas dos mundos clássico e mediterrâneo, especialmente em seus aspectos ético-religiosos, simbólicos e mitológicos, e sua idéia fundamental nessa área é de uma oposição original entre espiritualidade heróica, "solar", olímpica e viril, e espiritualidade "ctônica", "lunar", e feminina. Foi nessas linhas que ele interpretou as concepções religiosas, sistemas sociais, mitos, símbolos e formas político-legais das civilizações antigas, notando mais e mais o contraste e a interferência entre influências relacionadas a várias formas de espiritualidade que hoje podem facilmente serem referidas a distintos componentes raciais do mundo mediterrâneo arcaico: a civilização "solar" ou "urânica" obviamente associada às raças arianas, e a "ctônica" e feminina, associada, ao contrário, às raças pré-arianas ou anti-arianas.

As opiniões de Bachofen, ademais, não tem apenas um valor retorspectivo, elas usualmente oferecem importantes pontos de referência para compreender o significado mais profundo de alguns aspectos de nossa própria civilização moderna, através de impressionantes relações de analoga. É por isso que pensamos que pode não ser desprovido de interesse desenvolver algumas considerações sobre este tópico.

Em primeiro lugar, nós gostaríamos de nos deter na natureza e nos vários aspectos dessa civilização chamada por Bachofen de civilização da Mãe ou gineocracia (de "gyne" e "krateia", quer dizer: governada pelas mulheres) e que, para nós, é identificada com a civilização anti-ariana e pré-ariana do mediterrâneo arcaico.

A primeira característica distintiva de tal civilização é o "telurismo" (de "tellus", que, bem como "chthonos" significa "terreno"). Essa civilização considera a lei da terra como sendo a lei suprema. A terra é a Mãe. Sob o aspecto da Mulher Divina, da Grande Mãe da Vida, ela incorpora o que é eterno e imutável. Ela permanece idêntica a si mesma e inexorável, enquanto tudo que ela produz tem um nascimento e um declínio, uma vida individual puramente finita e evanescente. Desprovido de qualquer virilidade espiritual e sobrenatural, tudo que é força e masculinidade então assume uma natureza obscura, selvagem, em verdade "ctônica" e "telúrica". E se "telúrico" geralmente nos faz pensar em fenômenos sísmicos, essa associação de idéias, em certa medida, faz sentido. Na v isão do mundo em questão, a virilidade tem como seus protótipos divinos figuras como Posêidon, também chamado o "fazedor de terremotos", o deus do subterrâneo ctônico e das águas turbulentas, analogamente ligado pelos antigos a forças de passionalidade e instinto. Mais geralmente, a era ou civilização da Mãe é "telúrica", com referência a um sentido de destino, de necessidade, de evanescência fatal, de vida misturada com morte, fonte de impulsos selvagens e irrepreensíveis.

Para Bachofen, matriarquia, "gineocracia", aquela de Deméter ou de Afrodite, esta na qual a Mãe Divina, diferentemente da antiga Deméter, tinha simultaneamente características sensuais, é a consequência social dessa visão central. Onde quer que o princípio supremo seja entendido como uma Grande Mãe (Magna Mater), a mulher terrena, que aparece como a encarnação mais próxima dela, vem a assumir naturalmente uma dignidade religiosa e a maior autoridade. É ela que essencialmente aparece como a doadora da vida, e, em relação a ela, o homem é apenas um instrumento. Sob seu aspecto maternal, ela então incorpora a lei, ela é a verdadeira base e o centro da família. Como amante, sob seu aspecto afrodítico, ela é então novamente a soberana do homem que é meramente escravo de seus sentidos e da sexualidade, meramente o ser "telúrico" que encontra seu descanso e seu êxtase apenas na mulher. Daí os vários tipos de mulheres da realiza asiática com características afrodíticas, acima de tudo nas antigas civilizações de linhagem semítica, e as rainhas-amantes de cujas mãos os homens recebem o poder e que se tornam o centro de um extremo refinamento da vida, um sinal de uma civilização essencialmente baseada no lado físico e sensual da existência. Mas onde quer que a mulher tenha características "demetéricas" mais que "afrodíticas" (a Deméter mítica possuía uma natureza majoritariamente casta e maternal), ela aparece também como uma Iniciadora no mundo antigo, como aque mantém e participa dos maiores mistérios. Em uma civilização na qual a virilidade significa apenas materialidade, a mulher, seja por causa do enigma da geração ou por causa de suas habilidades sutis de devoção e encanto, assume características religiosas, e ela se torna o ponto de referência de cultos e iniciações que prometem um contato com as Mães da Vida, com a espiritualidade cósmica, com o mistério do ventre da terra geradora.

Duas outras características do tipo de civilização em questão derivam disso, nomeadamente o elemento "dionisíaco" e o elemento "lunar". O mistério desses elementos, que podem ser mediados por uma mulher, não podem ser o mistério da espiritualidade olímpica, apolínea, solar, não pode ser aquele que está ligado à luminosidade viril e heróica da existência mortal, guiada pelo ideal de uma existência que, segundo o símbolo oferecido pelas naturezas solar e estelar do céu, é livre de qualquer mistura promíscua com a matéria e com o devir e é subsistiente e luz radiante por si própria.

Este, por contraste, era o ideal "urânico" (de "ouranos", "céu") que era específico ao outro tipo de espiritualidade. O mistério da Mãe ao invés leva a algo similar a uma dissolução panteística. É uma liberação disforme, alcançada, para não dizer arrebatada, em experiências desordenadas nas quais o elemento sensual e suprassensual misturam-se curiosamente e o lado "telúrico" se reafirma no sentido dominante de "orgia sagrada", na exaltação mística combinada com qualquer excesso e todos os tipos de manifestações selvagens. Tal era, em geral, o "dionisianismo".

É por isso que, no mito antigo, Dionísio é sempre significativamente acompanhado pelas Mães da Natureza, que assumem características majoritariamente "afrodíticas"; historicamente, também, seu culto era fortemente conectado com o sexo feminino e suas seguidores mais alegres e entusiasmadas eram mulheres.

Nessa conexão, a "lunaridade" já havia sido mencionada. A lua costumava ser chamada "terra celestial". Ela era assim entendida como uma sublimação do terreno, isto é do elemento ctônico. É luz, não como luz radiante, mas como luz refletida. É luz sem um centro próprio; seu centro, diferentemente do sol, está fora de si, ela é então luz "feminina" passiva - está intimamente conectada com a espiritualidade disforme dos êxtases e liberações que subjazem o signo da Mulher, enquanto, por outro lado, ela pode ser pensada como um contemplativismo, uma abstração ou um entendimento de leis abstratas, ao invés de um conhecimento "solar" essencial.



Agora, era uma característica das civilizações antigas da Mãe conferir à Lua uma preeminência sobre o Sol - nelas, a Lua às vezes até se torna masculina em gênero, o deus Lunus, seja para designar essa primazia ou para caracterizar o lado presumidamente negativo da virilidade. Mas o que também é específico à civilização que estamos analisando aqui é a idéia de uma primazia da Noite sobre o Dia, da Escuridão sobre a Luz. Escuridão e Noite são o elemento sagrado maternal, primordial e essencial: no mito, o Dia é produzido pela Noite, na qual ele se dissolve de novo.

Dois outros aspectos permanecem para serem considerados: a promiscuidade social, ou igualitarismo, e o "amazonismo". Bachofen, entre seus outros méritos, tem aquele de trazer à luz as origens "telúricas" e matriarcais da assim chamada doutrina do direito natural. A premissa original de tal doutrina é precisamente que todos os homens, como filhos da Mãe e seres também sujeitos à lei da terra, são iguais, de modo que qualquer desigualdade é uma "injustiça", um ultraje à lei da natureza. Daí a conexão que a antiguidade nos mostra entre o elemento plebeu e seus cultos maternos e ctônicos e o fato de que essas antigas festas orgiásticas e dionisíacas, que, junto com as mais extremas formas de licenciosidade e promiscuidade sexual, foram pretendidas para celebrar o retorno dos homens ao estado de natureza através da obliteração momentânea de qualquer diferença social e de qualquer hierarquia, eram centradas precisaente nas divindades femininas do ciclo "telúrico", mais ou menos diretamente derivadas do tipo da Grande Mãe da Vida. Quanto ao "amazonismo", Bachofen o via como uma variante de "gineocracia". Onde a mulher não consegue se afirmar através de seu elemento religioso materno ("demetérico"), ela tenta se afirmar vis-a-vis o homem através de uma falsificação das qualidades viris de poder e combatividade.

Tai são as características fundamentais da "Civilização da Mãe", característica, para assim dizer, do substrato pré-ariano do antigo mundo mediterrâneo. Ela foi derrotada pela Grécia Apolínea, Dórica e Olímpica; e então, e ainda mais completamente, pela Roma "solar", guardiã ciumenta do princípio do direito paternal e do ideal de espiritualidade viril. Porém, como as coisas são um processo de renovação constante, as variedades dessa cultura "telúrica" se manifestam novamente onde quer que um ciclo termine, onde quer que a tensão heróica e a vontade construtiva desaparecem e formas decadentes e degeneradas de vida e espiritualidade começam a reaparecer.

Agora, o que é notável aqui é a correspondência de muitos aspectos da civilização contemporânea à civilização da Mãe. Em suas manifestações externas, essa correspondência já foi notada. "Nas ruas de Berlim, Paris, ou Londres", como por exemplo, Alfred Baeumler, um famoso pensador nacional-socialista, escreveu, "tudo que você tem que fazer é observar por um momento um homem ou uma mulher para perceber que o culto de Afrodite é aquele diante do qual Zeus e Apolo tiveram que bater em retirada... A presente era porta, em verdade, todas as características de uma era gineocrática. Em uma civilização tardia e decadente, novos templos de Ísis e Astarte, dessas deusas maternais asiáticas que eram celebradas em orgias e licenciosidade, em um afundar desesperado no prazer sensual, emergem. A fêmea fascinante é o ídolo de nossos tempos, e, com lábios pintados, ela caminha pelas ruas das cidades européias como ela outrora caminhou por Babilônia. E como se ela quisesse confirmar a profunda intuição de Bachofen, a levemente trajada governadora do homem mantém na correia um cão, o antigo símbolo da promiscuidade sexual ilimitada e das forças infernais". Mas essas analogias podem ser ainda mais desenvolvidas.

Os tempos modernos são "telúricos", não apenas em seus aspectos mecanicistas e materialistas, mas também, e essencialmente, em diversos de seus aspectos "vitalistas", em suas várias religiões da Vida, do Irracional e do Devir, precisa antítese de qualquer concepção "clássica" e "olímpica" do mundo. Para Keyserling, muitas das correntes da assim chamada "revolução mundial" revelam uma natureza "telúrica" - ou seja irracional, principalmente associadas a formas de coragem, auto-sacrifício, fervor e dedicação sem referência transcendente. Em muitos casos, ele está certo.

Com o advento da democracia, com a proclamação dos "princípios imortais" e dos "direitos do homem e do cidadão" e o desenvolvimento subsequente dessas "conquistas" na Europa no marxismo e no comunismo, é exatamente o "direito natural", a lei niveladora e anti-aristocrática da Mãe, que o Ocidente resgatou, renunciando a qualquer valor "solar" e viril ariano e confirmando, com a onipotência tão comumente garantida ao elemento coletivista, a antiga irrelevância do indivíduo para a concepção "telúrica".

Dionísio reaparece com o romantismo moderno: nós temos aqui o mesmo amor pelo disforme, pelo confuso, pelo ilimitado, a mesma promiscuidade entre sensação e espírito, o mesmo antagonismo frente ao ideal viril e apolíneo de clareza, forma e limite. Pode a natureza "lunar" do tipo mais difundido de cultura moderna possivelmente ser posto em dúvida? Para fazer referência a uma cultura baseada em um intelectualismo pálido e vazio, uma cultura estéril separada da vida, capaz apenas de criticismo, especulação abstrata e "criatividade" vã: cultura que levou o refinamento material ao extremo e na qual a mulher e a sensualidade muitas vezes se tornam motivos predominantes a um nível quase patológico e obsessivo.

E onde quer que a mulher não se torne o novo ídolo das massas sob as formas modernas da "estrela de cinema" e de similares aparições afrodíticas, ela normalmente afirma sua primazia em novas formas "amazônicas". Assim nós vemos o novo tipo da mulher esportista masculinizada, da garçonne, da mulher que se devota ao desenvolvimento insano de seu próprio corpo, que trai sua verdadeira missão, que se torna emancipada e independente ao ponto de ser capaz de escolher os homens que ela quer ter e usá-los. E isto não é tudo.

Na civilização anglo-saxã, e particularmente na América, o homem que esgota sua vida e tempo nos negócios e na busca por riqueza, uma riqueza que, em grande medida, serve apenas para pagar pela luxúria, caprichos, vícios, e refinamentos femininos, concedeu à mulher o privilégio e até mesmo o monopólio de lidar com coisas "espirituais". E é precisamente nessa civilização que nós vemos uma proliferação de seitas "espiritualistas", espíritas, místicas, nas quais a predominância do elemento feminino já é significativo por si mesmo (a principal, a seita teosófica, foi totalmente e simplesmente criada e comandada por mulheres, Blavatsky, Besant e, finalmente, Bailey). Mas é por uma razão muito mais importante que o novo espiritualismo nos aparece como uma forma de reencarnação dos antigos mistérios femininos: é o escapismo disforme em experiências suprassensuais confusas, a promiscuidade da mediunidade e do espiritualismo, a evocação inconsciente de influências verdadeiramente "infernais" e a ênfase posta em doutrinas como a reencarnação, que confirmam, nessas correntes pseudo-espirituais, a correspondência que nós já mencionamos e provam que, nesses desejos desviados de ir para além do "materialismo", o mundo moderno não conseguiu encontrar nada que o conecte com as tradições superiores, olímpicas e solares da espiritualidade ariana.

Não confirma a psicanálise, com a proeminência que ela dá ao inconsciente sobre a consciência, à "noite", ao subterrâneo, ao atávico, ao instintivo, ao lado sensual do ser humano sobre tudo que é vida, vontade e verdadeira personalidade, novamente a antiga doutrina da primazia da Noite sobre o Dia, do maternal, da Escuridão sobre as formas, supostamente evanescentes e irrelevantes, que emergem dela para a luz?

Deve ser reconhecido que estas analogias, longe de serem extravagantes ou arbitrárias, são baseadas em fundamentos que são amplos e substanciais e portanto gravemente perturbadores, já que uma nova "Era das Mães" pode ser o sinal do fim de um ciclo. Isso não é, obviamente, o mundo ao qual nós pertencemos e que está em harmonia com as forças de nossa revolução restauradora. Porém, infiltrações e desvios podem ser notados mesmo onde eles seriam menos esperados. Na Alemanha, nós poderíamos mencionar Klages e Bergmann, pensadores que, apesar de arianos, ainda proclamam de um modo surpreendentemente extremo concepções gineocráticas e "telúricas" de vida. Na Itália, nós mencionaremos apenas dois casos. Eis o que pode ser lido na página 185 de uma recém publicada "Inchiesta sulla Razza": "O maior avanço da humanidade na direção da perfeição é constituído pela mulher. A mulher realmente é a intérprete do reino dos espíritos puros. Ela é mais pura e mais perfeita que o homem. E o homem sente uma atração irresistível por ela, a mesma atração, porém conspícua que um ser menos puro sente pelo mais puro". Nas páginas 152-153 de outro livro, "Valori della Stirpe Italiana", outra camada de "gineocracia" é acrescentada: "Ao redor da mulher, como da Santa Mãe, todo o paraíso gira. Ventre de incontáveis vidas, é da Mãe que nasce tudo que vive no mundo. Da Noite nasce a vida, da Mãe Terra tudo se difunde. Ela é o sacramento vivo, como o Pão implicitamente contém o Deus vivo. A mulher é então a guardiã e o símbolo da raça: seus efeitos podem ser vistos em todas as criaturas, mas é nela que sua substância fundamental é adorada".

O fato de que, na Itália, dentro do movimento restaurador romano e ariano, idéias desse tipo podem ser proclamadas, mesmo como expressões esporádicas, mostra em que medida a confusão de valores pode às vezes chegar. As antíteses definidas por Bachofen são de importância fundamental para uma orientação correta. Nós temos visto que as formas contidas na antiga civilização da Mãe poderia nos permitir a identificar com precisão tudo que é crepuscular no mundo moderno. Os valores e ideais da civilização solar, olímpica e viril podem inversamente nos dar, com bastante precisão, as diretrizes para uma verdadeira reconstrução européia, sobre bases autenticamente arianas, romanas, e fascistas, um ponto ao qual nós teremos que retornar ocasionalmente.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Dez Mandamentos da Manipulação

Por Noam Chomsky


1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes.

A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas')”.

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES
Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO
Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE POUCA IDADE
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê. “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas'')"

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos.

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada as classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE
Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE
Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. 

Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM
No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A Escravidão do Consumo

Por Wellington Lisboa de Sena


Ao longo dos séculos o ser humano foi domesticado para viver dentro de um paradigma econômico totalmente equivocado. A pirâmide das necessidades de Maslow refrata inúmeras necessidades, das mais básicas até as mais sofisticadas, que segundo prega a moderna economia diz que o homem possui ilimitadas necessidades. Isso não é bem verdade. Terá o homem que trabalhar toda a vida para satisfazer “necessidades” aparentes em termos de bens e serviços? – Há pessoas que ocupavam elevados cargos da sociedade, eram enormemente bem pagas e tinham um status-quo absoluto quando abandonaram este tipo de vida e foram viver uma rotina totalmente diferente, seja no campo morando numa casinha rústica, seja numa praia isolada até sem linha telefônica. E estas pessoas, ao serem interpeladas sobre sua satisfação atual com o padrão de vida que deixaram e estão a viver, invariavelmente responderam que não se arrependeram nenhum pouco e que sentem-se até mais realizadas. Será que estas pessoas subiram a pirâmide das necessidades e desceram em sentindo inverso e, com essa atitude de vida, deixaram de serem felizes ou de viver plenamente?; A economia sempre pregou que os recursos (bens e serviços) são limitados enquanto que as necessidades humanas são ilimitadas. Desse pressuposto podemos concluir que uma economia baseada em dinheiro, instrumento utilizado para adquirir bens e serviços, será sempre uma doutrina onde haverá os mais beneficiados e os menos beneficiados, os incluídos, os excluídos, os que prosperam e os que, indiscutivelmente, sucumbem. E quem vai produzir estes bens e serviços? Os próprios consumidores, ou seja, o povo. Esse é um circuito medíocre mas bem interessante; o trabalhador, mau remunerado, trabalha todos os dias durantes os melhores 35 anos de sua vida para sua própria subsistência. Daí o estereótipo: “o homem é o que ele faz” (uma alusão à aparência social, o que veste e o que possui). Do valor em dinheiro que recebe ele utiliza para adquirir os bens e serviços que nas mais das vezes são mais valiosos do que o que ele produz (por exemplo: um funcionário de uma empresa de TV produz um aparelho de 32” que custa mais do ele recebe em termos monetários como salário mensal) e ainda terá que pagar imposto sobre a renda (descontados em folha), previdência social (descontado em folha), etc. além dos impostos sobre os bens e serviços que ele adquire.

Este é um ciclo infernal, aterrorizador e escravizante. Nossa geração que nasceu, cresceu e está a viver dentro deste paradigma de comportamento não tem a menor idéia do que é estar do lado de fora. Fomos, desde criança, ensinados pelos nossos pais a sempre obedecer nossos superiores, acatar ordens e seguir como cordeirinhos sem reclamar para não sermos punidos (pois há muitos desempregados que gostariam de estar em nosso lugar). A busca por um “lugar ao sol” e “estabilidade financeira” levam as pessoas a praticar coisas absurdas na vida em sociedade. A competição, a inveja, a acumulação de bens e determinados padrões sociais que são impostos acabam por escravizar completamente as pessoas, forçando-as a deixarem de ser “elas mesmas” no que de melhor elas têm como virtudes e vocação. E quando alcançamos o “emprego dos sonhos” continuamos sendo dependentes do sistema tão mais intensamente quando éramos jovens sonhadores sem compromisso. Sonhos que tínhamos na infância são paulatinamente massacrados e pulverizados no decorrer dos anos pela necessidade de “independência” que somos levados a ter numa sociedade puramente materialista, racional e estagnante. Mas voltando ao assunto das necessidades, gostaria de frisar um outro aspecto: a lei da escassez. A lei da escassez é uma lei férrea e incontornável, que reflete a natureza limitada dos meios disponíveis em relação aos fins que as pessoas tem em suas ações. A economia tem como fundamento o entendimento da noção de escassez. Tecnicamente, escassez é definida como o caso onde num preço nulo a oferta de um bem é menor do que a demanda. Um bem abundante é assim classificado quando num preço nulo sua oferta ainda é superior a procura. A escassez submete os homens ao seu jugo desde sempre, levando-os a se organizarem e a estabelecerem entre sí relações a fim de enfrentá-la ou, melhor falando, conviver com ela atenuando-lhe o quanto possível a severidade. A divisão do trabalho e todas as instituições de natureza economica surgiram para melhor alocar os meios escassos em relação a vários fins possíveis. Quando há escassez os agentes tem que decidir como alocar e usar estes recursos. Daí onde surgem as guerras. Quem governa determina aos “escravos” que lutem e deem suas vidas para a garantia da prosperidade dos “patrões” e a continuidade da economia reinante, com suas moedas, seus bancos e seu jugo escravizador.

A escassez esta intimamente relacionada com a lei da oferta e da procura. A escassez, assim como várias premissas do pensamento econômico dominante, são questionadas por autores como Hazel Henderson. A escassez é refutada em vista da inesgotabilidade da capacidade humana de produzir inovações tecnológicas e da utilização de energias renováveis. Há inúmeros recursos não escassos na natureza que poderiam melhor servir a toda humanidade e reutilizados eficazmente. Tal pressuposto é conveniente em particular para as teorias que priorizam a concorrência, a acumulação individual e a dominação. Talvez seja difícil imaginar uma sociedade sem o jugo escravizador do dinheiro, onde as pessoas ao invés de trabalhar durante anos para subsistência e aquisição de bens e serviços, pudesse produzir o melhor de sí para sua elevação moral, cultural e intelectual. Seria o caso de um artesão que fabrica peças de cerâmica que, vivendo numa sociedade livre de bancos, dinheiro em moeda e especulação, teria como destino o fruto de seu trabalho para trocar com outra pessoa ou mesmo presentear a uma pessoa conhecida ou parente. O horário de trabalho seria planejado conforme sua vontade, sobrando tempo para dedicar à educação dos filhos, por exemplo. Não haveria no mundo assaltos, pois todos poderiam viver tranquilamente sem necessidade de roubar do próximo; não haveria dívidas! Por que não teria a existência do dinheiro como elemento de troca; não haveria fome, pois os bens inesgotáveis da Terra seriam cultivados a tal ponto que a palavra de ordem seria “fartura” para todos; não haveria desemprego, pois todos poderiam trabalhar com mais ânimo de coração e felicidade, pois não haveriam empregados e sim colaboradores-patrões de seus próprios empreendimentos; não haveria guerras nem revolução, pois todos respeitariam o próximo como a sí mesmos e a riqueza seria distribuída de forma equânime. Talvez esse seja um mundo perfeito em teoria, caso não existissem a inveja, o egoísmo e a ambição características do ser humano. Mas isso poderia ser superado caso esta doutrina não tivesse sido levada à cabo por uma minoria que, séculos após séculos, através da força brutal e da lavagem cerebral (através da mídia controlada) vêm realizando nas gerações de pessoas de todos os países. Os que se levantam contra o sistema dominante são severamente dizimados (Jesus o foi, Gandhi, Martin Luter King, etc.) durante a história, também cheia de mentiras, que nos foi contada. Toda a nossa vida atual é muito mais ilusão do que realidade. Infelizmente somos joguetes de uma caricata vida social que não tem lógica. Como o próprio Jesus pronunciou em passagem dos evangelhos: “Daí a César o que é de César”. O dinheiro só tem valor para quem é escravo do dinheiro. É a força motriz deste paradigma cheio de engrenagens que é a economia. Sair dela é um lema impensado para muitos.


Retirado do blog parceiro Yrminsul.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Face Oculta da Globalização

por Elena Atxaga
 


Desde que o mundo gira, a melhor forma de ocultar o poder é dissimulá-lo. Sem grandes escândalos e com uma estrutura não muito orgânica, ao invés de hierárquica ou piramidal, o poder desliza pelas rachaduras de toda sociedade, com suas cabeças visíveis aos seus líderes midiáticos. A história do grupo Bilderberg e da Comissão Trilateral é a história de dois grupos, aparentemente inofensivos e dedicados ao estudo e ao intercâmbio de opiniões, cujas conclusões, interesses e gostos coincidem surpreendentemente com as tendências políticas do mundo nos últimos cinqüenta anos. Seus líderes já falavam há trinta anos dos benefícios da “globalização” e da “economia globalizada” e até utilizavam a terminologia extremista do “governo mundial”, quando ninguém se dava conta do que já era evidente: a construção de um mundo único em que, acima de toda diferença, não tivessem lugar barreiras nacionais de nenhum tipo.

Como pode um grupo assim influenciar tanto? É evidente que não desde a ação direta sobre os governos, embora o fato de que numerosos presidentes pertençam a estes foros não descarte tal possibilidade. Pois eles fazem uso da chave que abre todas as portas: o prestígio. Um tipo de prestígio que impõe linhas de pensamento nos centros nevrálgicos nos quais se formam os futuros dirigentes do planeta. O sistema de subvenções privadas a universidade é uma boa estratégia para eles e, outra similar, a ajuda a fundações e aos meios de comunicação ou a criação dos mesmos. Portanto, o ato de compartilhar ideias e conquistar o consenso sobre as questões chave pode ter enorme importância na política mundial dependendo de quem alcance ditos acordos. Não é o mesmo que o presidente de Castela-Leão, por exemplo, oponha suas opiniões com as de seus colegas, que em uma reunião de reitores das universidades mais prestigiadas do mundo, três conselheiros de presidentes de países importantes, seis fundações bilionárias e uma dúzia de presidentes de multinacionais, cheguem a uma linha de pensamento básica sobre como devem ir as coisas na política internacional. As reuniões deste tipo de grupo constituem, mais que a desculpa da “necessidade histórica” apresentada por nossos governos, o motor do processo de globalização no planeta.

Se além das ideias e do prestígio existem fabulosas quantidades de dinheiro, então este tipo de reunião necessariamente resultará no poder em estado puro, embora nem mesmo seus membros tomem consciência disso. Tal acontecimento é similar à lei da gravidade, na qual não existe nenhuma ação voluntária por parte de ninguém, mas somente ocorre se são proporcionadas as condições favoráveis.

O coquetel explosivo de fortes ideias, disseminadas desde os centros de maior prestígio no mundo, se constitui em um tremendo poder que permeia os resquícios mais negligenciados pelos governos e pelas estruturas de poder de todos os Estados. Com o tempo, tanto a Trilateral quanto o grupo Bilderberg o terão de sobra, surge uma sutil, porém sólida teia de ideias, de influências, de prestígios, de opiniões e de recursos econômicos, que se apoiam uns nos outros e que os novos governantes ou os que se formam para eles, recebem como algo já dado, como uma série de ideias pré-concebidas que não se pode duvidar. A poderosa teia é também um poderoso filtro que se assegura que os que chegam ao topo não são “outsiders”, ou seja, que não sejam pessoas “de fora”, que não sustentem opiniões marginais contra o que já foi estabelecido.

Tal ação de campo, que se reforça a cada dia, destaca a importância de ideias como fonte e origem do poder e nega o tópico, incentivado por setores da esquerda e até mesmo de extrema direita, de que o processo de globalização nasceu da necessidade econômica para crescer sempre.

Ao invés de algo puramente econômico, a globalização surge como uma tendência cultural, uma visão de mundo conscientemente incentivado por pessoas com nomes e sobrenomes, que mantêm uma concepção subvertida de qual deveria ser a organização do poder e da sociedade. Em suma, está acontecendo em todos os lugares uma polarização de ideias: trabalho contra o domínio, o respeito pelo planeta contra a exploração econômica de seus "recursos", economia popular contra a economia transnacional, os políticos a serviço do povo contra os grupos de pressão, afirmação das identidades dos povos frente à dissolução globalizante.

A conclusão disso tudo é que cada vez mais fica claro que o poder de decisão está onde ninguém quer vê-lo, em todo caso, não onde nos dizem.