domingo, 22 de janeiro de 2012

O Cérebro do Mundo: Os Verdadeiros Objetivos da Globalização - Uma Opinião da Argentina

por Adrian Salbuchi




"Aqueles que não aprendem com a história estão condenados a repeti-la" - George Santayana

Mais e mais pessoas estão assumindo uma opinião cada vez mais crítica do fenômeno mundial chamado globalização. Não que elas sejam contra a cooperação construtiva entre nações soberanas do mundo em objetivos comuns, mas sim que elas rejeitam este atual modelo de globalização.

Como agora a temos, a globalização pode ser definida como uma ideologia que identifica o Estado-Nação soberano como seu principal inimigo. Ela busca, então, enfraquecê-lo, dissolvê-lo e eventualmente destrui-lo como instituição social de modo a substitui-lo com novas estruturas administrativas supranacionais globais.  Essas estruturas ligam-se com os objetivos políticos e interesses econômicos de um pequeno número de grupos altamente concentrados e muito poderosos que hoje movem e manobram o processo de globalização em uma direção bastante específica.

Esses grupos consistem em interesses privados que hoje alcançaram algo sem precedentes na história humana e que pode ser descrito como a privatização do poder em escala global. A globalização é uma descrição incompleta daquilo que os ex-presidentes americanos Woodrow Wilson, Franklind D. Roosevelt, Harry Truman e George Bush, cada um em diferentes tempos históricos descreveu como uma "nova ordem mundial".

Uma Nova Ordem Mundial! Claramente, quando o ex-presidente Bush indiscretamente usou este termo há uma década, o Sistema rapidamente o silenciou e substituiu o termo pelo termo mais neutro e indefeso "globalização" que, não obstante hoje possui apenas um significado: Neoimperialismo anglo-americano a nível planetário e absoluto.

Quem são eles? O que eles querem?

O processo que nós descrevemos não é de maneira alguma anônimo ou secreto, porque os grupos de influência promovendo e dirigindo a globalização estão em plena vista da opinião pública: corporações multinacionais especialmente as Fortune 500 que correspondem a 80% da economia americana; a estrutura financeira global que inclui bancos, fundos de investimento, bolsas de valores e mercados de commodities, monopólios midiáticos, principais universidades da Ivy League, organizações multilaterais internacionais e, mais importante, postos governamentais chave nos EUA e outras nações industrializadas.

O que não é imediatamente óbvio é o fato de que todos os jogadores nessa roda de poder global possuem uma coisa em comum: seus principais gerentes, investidores, estrategistas, banqueiros, funcionários governamentais, acadêmicos, e cotistas pertencem à mesma rede de think-tanks. Essa rede forma um centro comum dirigindo a roda do poder global em seu curso.

Entre esses importantes think-tanks - que são realmente centros de planejamento geopolítico - o papel do Conselho de Relações Exteriores, a Comissão Trilateral, o Instituto Real de Assuntos Internacionais, a Instituição Brookings, a Corporação RAND, e o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, entre outros, são de vital importância.

Um pouco de história

Para entender corretamente o mundo atual precisa-se olhar para ontem, de modo a  ver como as coisas ficarão como são. Foi em 1919 quando um pequeno grupo de banqueiros influentes, advogados, políticos e acadêmicos todos os quais estavam fazendo parte das negociações de paz em Paris entre os Aliados vitoriosos e as Potências Centrais conquistadas da Europa se encontraram no Hotel Majestic e chegaram a um acordo transcendental: eles decidiram criar um "think tank"; um tipo de "clube de cavalheiros" ou loja a partir da qual eles pudessem desenhar o tipo de "nova ordem mundial" que acomodaria apropriadamente os interesses coloniais da aliança anglo-americana.

Em Londres, esse think tank teria o nome de Instituto Real de Assuntos Internacionais (RIIA), enquanto nos EUA ele seria conhecido como o Conselho de Relações Exteriores (CFR), baseado na cidade de Nova Iorque. Ambas organizações tinham o selo inequívoco da estratégia social de gradualmente impôr uma ordem socialista como meio de controle das massas que então estava sendo promovida pela Sociedade Fabiana, financiada pelo Grupo Távola Redonda que por sua vez foi criado, controlado e financiado pelo magnata sul-africano Cecil Rhodes, pela dinastia financeira internacional dos Rothschilds, e pela Coroa Britânica.

O CFR conseguiu seu apoio inicial das famílias mais ricas, poderosas e influentes nos EUA que incluíam os Rockfeller, os Mellon, os Harriman, os Morgan, os Schiff, os Kahn, os Warburg, os Loeb, e os Carnegie (este último em particular através de sua própria organização de fachada, o Fundo Carnegie para a Paz Internacional).

De modo a expressar e assim propagar sua influência entre círcuos de elite, uma das primeiras medidas do CFR consistiu em fundar seu próprio jornal que até hoje continua sendo a principal publicação sobre geopolítica e ciência política: Foreign Affairs. Entre os primeiros diretores do CFR, nós encontramos Allan Welsh Dulles, uma figura chave na comunidade de inteligência americana que posteriormente consolidaria a estrutura de espionagem da CIA; o jornalista Walter Lippmann, diretor e fundador do Nova República; J.P. Morgan, advogado corporativo; os banqueiros Otto H. Kahn, e Paul Moritz Warburg, este último um imigrante alemão que veio aos EUA e em 1913 projetou e promoveu a legislação que levou à criação do Banco da Reserva Federal que até hoje controla a estrutura financeira dos EUA. Quando a Segunda Guerra Mundial terminou em 1945, o Banco da Reserva Federal foi suplementado pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial, ambos os quais foram projetados pelo CFR na Conferência Bretton Woods em 1944.

Outro membro do CFR e um dos seus primeiros diretores foi o geógrafo e presidente da Sociedade Geográfica Americana, Isaiah Bowman, que redesenharia o mapa da Europa Central após a Primeira Guerra Mundial impulsionando assim tempos de grande turbulência que levariam à Segunda Guerra Mundial. Foram os advogados do CFR como Owen D. Young (presidente da General Electric) e Charles Dawes (J.P. Morgan Bank), que na década de 20 projetaram os planos de "refinanciamento" para as dívidas de reparação de guerra da Alemanha impostas pelo Tratado de Versalhes. Foram os diretores do Banco da Reserva Federal e membros do CFR que gerariam as distorções monetárias que levaram à crise financeira de 29 e à Depressão subsequente. Foram os diretores da CFR que através de poderosos meios midiáticos como as redes de radiodifusão NBC e CBS e jornais como o The Washington Post e o The New York Times pressionariam a opinião pública a romper a neutralidade isolacionista dos EUA e colocariam a nação e outra guerra europeia em 1939, a qual eles próprios vinham promovendo desde o início da década de 30.

A Segunda Guerra Mundial

Logo no início da guerra europeia na qual os EUA só tomariam parte formalmente em 1941, membros do CFR estabelecer o Grupo de Estudos Guerra e Paz que literalmente tornou-se parte do Departamento de Estado, e projetou suas principais políticas externas em relação à Alemanha, Itália, Japão e seus aliados. Depois, eles começaram a preparar para ainda outra "nova ordem mundial" após a então previsível vitória aliada. Dessa maneira, o CFR projetou e promoveu a criação das Nações Unidas para gerir a política global e algumas de suas agências econômicas principais como o FMI e o Banco Mundial, através de seus membros Alger Hiss, John J. McCloy, W. Averell Harriman, Harry Dexter White e muitos outros.

Uma vez que a guerra terminou, o presidente americano Harry Salomon Truman estabeleceria a doutrina de segurança nacional que foi baseada na doutrina de contenção da expansão soviética, por sua vez baseada na proposta de um outro membro do CFR e à época embaixador americano em Moscou, George Kennan, que descreveu suas idéias em um famoso artigo seminal do Foreign Affairs que ele assinou com o pseudônimo "X"; bem como na diretiva de segurança nacional NSC68 emitida pelo Conselho de Segurança Nacional que foi esboçada pelo membro do CFR Paul Nitze. O mesmo pode ser dito do assim chamado Plano Marshall projetado por uma força-tarefa da CFR e posteriormente implementado por W. Averell Harriman.

Estruturas de Poder

Ainda que seja uma organização pouco conhecida entre a opinião pública, o CFR é muito poderoso e tem crescido em influência, prestígio e amplitude de atividades. Tanto que hoje nós podemos dizer sem dúvida que ele conforma o "cérebro mundial" silenciosamente dirigindo o curso dos muitos complexos e altamente voláteis processos sociais, políticos, financeiros, e econômicos através do mundo. Não há um povo, região ou aspecto da vida humana que não seja afetada pela influência do CFR, conscientemente ou inconscientemente e é o fato de que ele não obstante tem sido capaz de permanecer "por trás dos bastidores" que faz do CFR tão excepcionalmente poderoso.

Hoje, o CFR é uma organização discreta possuindo mais de 3.600 membros, as pessoas mais capazes, poderosos e influentes em suas respectivas profissões, instituições, corporações, cargos de governo e ambientes sociais. Desse modo, o CFR reúne os principais funcionários corporativos de instituições financeiras, gigantes industriais, a mídia, organizações de pesquisa, acadêmicos, altos oficiais militares, chefes de governo, reitores de universidades, líderes sindicais e investigadores de centros de estudos. Seus objetivos fundamentais consistem em identificar e avaliar uma ampla gama de fatores políticos, econômicos, financeiros, sociais, culturais e militares abrangendo cada aspecto imaginável da vida pública e privada nos EUA, seus principais aliados e no resto do mundo. Hoje, graças ao enorme poder exercido pelos EUA, a amplitude das atividades do CFR literalmente abrange todo o planeta.

Suas pesquisas e investigações são realizadas por diferentes forças-tarefa e grupos de estudo dentro do CFR que identificam oportunidades e ameaças, avaliam forças e fraquezas, e projetam estratégias a longo prazo para promover seus interesses ao redor do mundo, cada um com seus respectivos planos táticos e operativos. Ainda que tarefas tão intensivas e amplas sejam realizadas dentro do CFR, a questão principal para compreender seu enorme sucesso está no fato de que o CFR per se, jamais faz nada sob seu próprio nome, ao invés são seus membros individuais que o fazem, e isso através de seus cargos formais como presidentes e diretores das principais corporações, instituições financeiras, instituições multilaterais internacionais, mídia, e cargos de governo, universidades, forças armadas, e sindicatos. Eles jamais invocam ou mesmo fazem referência ao CFR como sendo o principal centro de planejamento e coordenação.

Os membros do CFR são efetivamente poderosos já que nós encontramos hoje entre eles (e nós precisamos fazer referência a apenas um punhado dos 3600 membros do CFR), pessoas como David Rockfeller, Henry Kissinger, Bill Clinton, Zbignew Brzezinski, Samuel Huntington, Francis Fukuyama, a ex-secretária de estado Madeleine Albright, o especulador internacional George Soros, o juiz da Suprema Corte Stephen Breyer, o CEO da Lowes/CBS Laurence A. Tisch, o atual secretário de estado General L. Colin Powell, o CEO da General Electric Co. Jack Welsh, o CEO da CNN W. Thomas Johnson, o presidente e CEO do The Washington Post/Newsweek/International Herald Tribune Katherine Graham, o vice-presidente dos EUA, ex-secretário de defesa e ex-CEO da Halliburton Richard Cheney, o presidente George Bush, o ex-conselheiro de segurança nacional do presidente Clinton Samuel "Sandy" Berger, o ex-diretor da CIA John M. Deutch, o governador do Banco da Reserva Federal Alan Greenspan, o presidente do Banco Mundial James D. Wolfensohn, o CEO da CS First Boston Bank e ex-governador do Banco da Reserva Federal Paul Volcker, os repórteres Mike Wallace e Barbara Walters, o ex-CEO do CitiGroup John Reed, os economistas Jeffrey Sachs e Lester Thurow, o ex-secretário do tesouro, ex-CEO da Goldman Sachs e o atual diretor do CitiGroup Robert E. Rubin, o ex-secretário de estado e "mediador" durante a Guerra das Malvinas entre Argentina e Grã-Bretanha General Alexander Haig, o "mediador" no conflito dos Balcãs Richard Holbrooke, o CEO da IBM Louis V. Gerstner, o senador democrata George J. Mitchell, o congressista republicano Newt Gingrich, e a atual conselheira de segurança nacional Condoleeza Rice, entre muitos outros.

No mundo dos negócios, as principais corporações do ranking da Fortune 500 possuem todas elas um diretor sênior que é um membro do CFR. Essas corporações juntas possuem um valor de mercado combinado quase duas vezes maior que o PIB dos EUA, concentram a maior parte da riqueza e poder do país, e controlam recursos chave e tecnologias ao redor do mundo. Juntos elas empregam mais de 25 milhões de pessoas só nos EUA e são responsáveis por 75% de seu PIB. Em resumo, elas manejam um poder e influência gigantescos nos EUA e em nosso planeta.

Nós assim encontramos aqui a chave para a enorme efetividade do CFR em que suas decisões e planos são esboçados e acordados em seus encontros, conferências e forças-tarefa por trás de portas fechadas, e então colocados em prática por seus diferentes membros cada um a partir de seus postos formais em diferentes organizações. E que postos poderosos são esses!

Se, por exemplo, houve uma série de planos relativos, digamos, à globalização da economia e do sistema financeira, ou quais países terão paz e prosperidade e quais terão guerra e fome, então nós podemos supor que a ação coordenada de personalidades como o presidente dos EUA, seus secretários do estado, defesa, comércio e tesouro, o diretor da CIA, os principais banqueiros e investidores, capitães da indústria, meios de mídia, repórteres e escritores, oficiais militares e acadêmicos, diretores do FMI, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio, será capaz de coordenar ações concretas, eficazes e sem dúvida quase irresistíveis. Isso tem sido assim pelos últimos oitenta anos.

Poder real e poder formal

De modo a realmente entender como o mundo realmente funciona, nós devemos primeiro entender a diferença entre poder formal e poder real. O que a mídia propaga com um diariamente em seus veículos de notícia na televisão, rádio e na imprensa não é nada senão os resultados concretos e vísiveis das ações das estruturas de poder formal, particularmente aquelas dos governos nacionais e das estruturas financeiras e corporativas tecnocráticas e supranacionais. Porém, as influências de poder real são muito menos visíveis e eles são aqueles que planejam o que ocorrerá no mundo, quando e onde ocorrerá e quem fará.

O poder formal é de curto prazo e possui alta visibilidade; o poder real é de longo prazo e praticamente não possui visibilidade. O poder formal é "público", o poder real é "privado". Como os EUA são a única superpotência planetária hoje, é razoável concluir que essa estrutura de poder global como aquilo que realmente administra provisoriamente esse governo mundial a partir de seu território e de suas estruturas políticas e econômicas. Isso de modo algum implica que a maioria das pessoas dos EUA necessariamente formam parte desse esquema de coisas, mas sim que suas elites e classes governantes sim. Nós estamos então falando de um grupo de influência que opera dentro dos EUA (como também por dentro da Grã-Bretanha, Alemanha, e Japão, e através de seus agentes na Espanha, Argentina, Brasil, Coréia, e muitos outros países), mas que não está necessariamente identificado com a população dos EUA (nem de qualquer outros países com cujos povos, necessidades e interesses eles não precisam concordar).

De modo a melhor compreender a verdadeira natureza dos EUA, nós devemos ter em mente que especialmente no que se refere a sua política externa a "Administração" americana como eles tão aptamente chamam seu governo, é baseado em Washington DC., que é o assento do poder formal dos EUA, enquanto suas estruturas de poder real estão localizadas na cidade de Nova Iorque. Ou seja, os EUA são administrados a partir de Washington DC, mas governados a partir de Nova Iorque. Uma vez que entendamos isso, então muitas outras coisas se encaixam automaticamente. Adicionalmente, o verdadeiro centro de poder planetário situa-se não em Nova Iorque, mas em Londres...

Que isso deva ser assim é compreensível quando lembramos que o exercício do poder real demanda conformidade com um conjunto de regras e condições cuja continuidade abarca anos e décadas de modo a alcançar objetivos de longo prazo e estratégicas complexas que, por sua vez, abarcarão todo o planeta, suas nações e recursos. Isso demanda planejamento de longo prazo: 20, 30, 50 anos a frente. Essas elites sabem bem que não há ameaça maior à continuidade e consistência política no planejamento e execução dessas estratégias globais, do que tê-las subjugadas ao processo democrático que impõe uma alta visibilidade sobre seus líderes que devem ouvir a voz do público a cada passo que dão, e as constantes interrupções de poder que os processos eleitorais democráticos representam.

O quão melhor é operar discretamente, a partir do que se poderia formalmente chamar de um mero clube de cavalheiros como o CFR, nos quais homens e mulheres poderosos e influentes podem ser funcionários, diretores e presidentes por décadas sem ter que prestar explicações a quem seja exceto seus próprios pares. Dessa maneira, 3.600 pessoas poderosas podem exercer enorme influência política, econômica, financeira e midiática sobre incontáveis milhões através do planeta. É desnecessário dizer que a mídia impõe o "politicamente correto" que pode ser expresso simplesmente por dois partidos políticos principais, democratas e republicanos nos EUA, trabalhistas e conservadores no Reino Unido, CDU e SPD na Alemanha, radicais e justicialistas na Argentina, que são meras variações dos mesmos elementos fundamentais. Na prática, democracias ocidentais estáveis todas conformaram ao que é na prática um sistema unipartidária com facções internas levemente diferentes.

O que nós estamos descrevendo é na verdade o foco central de uma verdadeira rede de homens e mulheres poderosos, considerando que o CFR é por sua vez suplementado por uma miríade de instituições similares tanto dentro como fora dos EUA. Entre essas podemos mencionar um punhado: O Instituto Hudson, a Corporação RAND, o Instituto Brookings, a Comissão Trilateral, o Fórum Econômico Mundial, o Instituto Aspen, o Instituto Americano de Iniciativas, a Sociedade Alemã para Política Externa, e o Fundo Carnegie para a Paz Internacional.

Todos esses think tanks reúnem os homens e mulheres mais inteligentes, preparados, criativos, e ambiciosos de uma grande gama de campos e disciplinas. Eles são pagos e recompensados muito bem economicamente e socialmente, enquanto eles se alinhem claramente e completamente com as crenças básicas dos objetivos políticos do CFR. Estes são nada menos que a criação de um governo mundial privado, a erosão sistemática das estruturas de todas os Estados-Nação soberanos (ainda que, naturalmente, nem todos do mesmo jeito, na mesma velocidade ou ao mesmo tempo), a padronização dos valores culturais e normas sociais, a difusão do sistema financeiro globalizado de base usurário-especulativa, e o gerenciamento de um sistema de guerra global de modo a manter a coesão social necessária de suas próprias massas através da intimidação e alinhamento permanentes contra inimigos reais ou imaginários da "democracia", dos "direitos humanos", da "liberdade" e da "paz".

Assim, de modo a melhor compreender o mundo, precisamos ler e avaliar o que o CFR ou melhor, seus membros individuais - diz e propaga, já que muitas de suas atividades não são secretas, mas ao invés meramente discretas. Qualquer pessoa visitando sua sede na Park Avenue e na 68th Street em Nova Iroque como este que subscreve já fez várias vezes em anos recentes, será capaz de obter uma cópia grátis de seu mais recente Relatório Anual que descreve suas principais atividades e a lista completa dos 3.600 membros. Então a informação está abertamente disponível para todos os que querem procurar.

Cabe, porém, a nós ter o trabalho de cruzar todas as informações relativas aos membros do CFR com o que cada um realmente faz em suas atividades profissionais, corporativas, acadêmicas e governamentais. Nós também precisamos olhar para a história moderna e avaliar a influência excepcional que o CFR tem tido ao longo do século XX tanto por conta própria como em conjunção com suas organizações associadas, assim promovendo e influenciando ideologias, eventos públicos, guerras, formação de alianças, crimes políticos, atividades secretas, guerra psicológica, crises econômicas e financeiras, a promoção e destruição de personalidades políticas e empresariais, e outros eventos de grande impacto muitos dos quais claramente difíceis de admitir ou confessar, todas as quais porém marcaram o curso da humanidade em nossos tempestuosos tempos modernos.

Pareceria que nós todos somos mantidos ocupados demais e fascinados como espectadores passivos do turbilhão de eventos que tem lugar a cada dia no mundo de modo a garantir que nenhum de nós pense em olhar para qualquer outro lugar em busca de explicações adequadas para as crises graves de hoje, o que nos permitira identificar não tanto os efeitos e resultados chocantes de muitas dessas decisões políticas e ações secretas que são tomadas, mas sim suas causas e fontes reais e concretas.

De modo a essa gigantesca guerra psicológica, pois é disso que se trata - vencer, a mídia de massa desempenha um papel essencial e vital que não pode ser suficientemente enfatizado. Pois eles são os instrumentos cujo objetivo é minar e neutralizar a capacidade de pensamento independente entre a população mundial. Este é o papel de mídias de massa como a CNN, CBS, NBC, The New York Times, The Daily Telegraph, Le Figaró, The Economist, The Wall Street Journal, o Corrieri della Sera, Le Monde, Washington Post, a Time, o Newsweek, US News & World Report, Business Week, RTVE, todas as quais são dirigidas por membros do CFR ou de suas organizações associadas nos EUA e outros lugares.

Implicações para a Argentina

Nesse contexto, nós podemos dizer que a mídia local na Argentina, e nossos políticos estão todos alinhados ao processo de globalização, e estão engajados em alcançar três objetivos fundamentais:

1. Ocultar da opinião pública como o mundo realmente funciona, sabendo que se nós não pudermos compreender e diagnosticar a origem de nossos problemas e fraquezas, nós dificilmente poderíamos encontrar as soluções adequadas para eles. Assim nós somos ludibriados em acreditar que nós estamos em "paz", quando na verdade uma verdadeira e violenta guerra total está sendo travada contra a Argentina há mais de meio século nos âmbitos político, econômico, financeiro, midiático, educacional, tecnológico e ambiental. É primariamente uma guerra psicológica.

2. Nos fazer acreditar que nós estamos em uma situação difícil, mas que "as coisas vão melhorar" desde que nós alcancemos um novo acordo com o FMI, privatizemos ainda mais nossos interesses públicos, reformemos nossos governos federais e provinciais ao agrado do Banco Mundial, reformemos nossa legislação trabalhista e social de modo que os "investidores internacionais" sorriam para nós, e façamos nosso dever de casa implementando as "receitas" do FMI e do Banco Mundial. A verdade é que dizer que estamos em uma "situação difícil" é uma subestimação absurda. A Argentina está em situação terminal e se não acordarmos para essa realidade em alguns anos, no máximo em uma década, nós deixaremos de existir como país.

3. Nos fazer acreditar que, queiramos ou não, não há nada que possamos fazer para parar a "globalização". A verdade é, porém, que há uma miríade de coisas que podem ser feitas para neutralizar os efeitos adversos da globalização. Estas basicamente implicam recuperar o Estado-Nação de modo que ele se conforme com suas funções básicas e fundamentais de:

- integrar forças sociais internas em conflito;

- prever todas as possíveis ameaças e oportunidades internas e externas, e

- liderar a Nação em um curso político defendendo seu interesse nacional.

Essas funções implicam a existência de um Estado-Nação soberano que a Argentina não é mais hoje. Nós nos tornamos uma colônia e nós devemos, como um primeiro passo, promover uma verdadeira Segunda Declaração de Independência de modo a então fundar uma Segunda República. As implicações e aspirações para nossa região e mais além no mundo seriam realmente momentosas. Adicionalmente, devemos ter em mente e está além do escopo desse breve artigo entrar em detalhes, que a infraestrutura financeira global está à beira de um colapso controlado que é algo que o CFR vem cuidadosamente planejando ao longo de seus programas Projeto de Vulnerabilidades Financeiras, e Nova Arquitetura Finnaceira Internacional. Conforme nos tornamos conscientes dessas realidades, a estrada que devemos trilhar se torna cada vez mais clara também e, na verdade, as coisas então não parecem ser tão complexas quanto havíamos pensado. É tudo basicamente uma questão de pensarmos com nossa própria cbeça e não com a de nossos inimigos; de começar a avaliar e defender nossos interesses nacionais, o que implica ter nossa própria perspectiva dos eventos, interesses e forças globais, e então defendê-los segundo nossas necessidades, verdadeiras possibilidades e idiossincrasia. Em verdade, nós precisamos "reinventar a roda" porque o próprio CFR nos dá um modelo para um planejamento e administração política, econômica, financeira e social para o poder nacional. Por que não aprender com eles? Por que não formar nossa própria rede de think tanks reunindo uma grande gama de interesses, jogadores e pensadores locais e regionais de diferentes campos, colocando todos para trabalhar na promoção dos interesses nacionaias da Argentina e seus vizinhos, de modo a recuperar nossa soberania e a autodeterminação para nossos povos de maneira consistente e coerente, independentemente do que as potências mundiais queiram nos impor? Isso implicaria compreender o que a globalização realmente é: uma gama de ameaças e oportunidades enormes que nós precisamos evitar e tirar vantagem, conforme seja o caso. Em cada questão que tenha um impacto potencial sobre nós, nós precisamos começar a compreender quais são nossas forças e fraquezas de modo a sermos capazes de enfrentá-los, se não hoje, então certamente no futuro. Isso requer planejamento adequado. Planejamento de médio e longo prazo. Isso demanda tentar estar sempre um passo adiante do Inimigo, de alcançar e manter uma vantagem sobre eventos futuros.

Sem dúvida isso poderia nos levar a projetar políticas consistentes com nossos interesses nacionais, as quais em muitas instâncias não coincidirão com os interesses dos poderosos atuais, para cujo fim nós precisamos buscar e trabalhar em proximidade com nações e organizações na América Central e do Sul, África, Ásia, e Europa, com um objetivo comum de neutralizar os efeitos negativos do domínio global. Em verdade issi implicaria criar uma Nova Argentina. Nós temos muitos dos instrumentos necessários à disposição; nós temos milhões de compatriotas preparados para aceitar o desafio, faltando apenas explicar a eles claramente o que está em jogo; e milhões mais além de nossas fronteiras com quem podemos trabalhar por uma Causa comum.

Então é uma questão de entender que na política há dois tipos de pessoas: aqueles que são atores na arena política e aqueles que apenas observam. O Conselho de Relações Exteriores é um ator central na arena política global onde eles fazem sua força ser sentida. Não seria a hora de fazermos o mesmo em nosso país?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

SOPA não é o problema

por Matt Parrott




É uma coisa boa que o SOPA e PIPA foram abalados por tempo indeterminado pelo drama digital de ontem. Nada me agrada mais do que imaginar uma nuvem escura de ira popular varrendo os lobbyistas de Washington, forçando-os a fugir, engatinhando como vermes, de quaisquer males que eles estivessem planejando. Todo o episódio me lembra da bola de fogo de revolta popular que destruiu a tentativa de John McCain em 2007 de passar uma lei de anistia total.

Mas a coisa toda foi só um drama digital, e diversos comentaristas estão corretos em notar que ainda que essas revoltas tenham seu lugar, a indústria de tecnologia precisa desenvolver uma estratégia de longo prazo para derrotar as doninhas da indústira do entretenimento de uma vez por todas. E não é por causa do meu "antissemitismo" ou minha aversão pseudo-comunista a pagar por propriedade intelectual. Eles são uma ameaça genuína à liberdade de expressão e precisam ser derrotados.

Mas como?

Will Oresmus insiste que a indústria de tecnologia precisa amadurecer e jogar o velho jogo de influência em Washington...

"Os blecautes de hoje serão bem sucedidos em influenciar a opinião pública. Isso não quer dizer, porém, que nós vamos ver o amanhecer de um novo tipo de lobbyismo corporativo. Há uma razão pela qual empresas simplesmente não entram em greve a cada vez que eles estão preocupados com uma legislação nova. Até os negócios mais populares só podem retirar seus serviços um certo número de vezes antes que as pessoas percam sua paciência e comecem a procurar por uma alternativa permanente.

Além disso, a única razão pela qual a indústria de tecnologia entrou em erupção foi porque eles não jogaram o jogo bem o bastante desde o início. Se os lobbyistas de tecnologias tivessem sido capazes de abrir um espaço na mesa quando SOPA e PIPA estavam sendo rascunhadas, essas leis jamais teriam sido tão mal escritas. Essa campanha de guerrilha anti-SOPA certamente não foi o Plano A- foi uma opção de último recurso, tomada porque a bem conectada indústria de entretenimento colocou a indútria de tecnologia para escanteio em Washington".
Em primeiro lugar, nós temos que dar um passo atrás e reconhecer o verdadeiro escopo do problema. SOPA e PIPA foram escritas com termos genéricos demais e a ameaça das leis serem tomadas fora de contexto para alcançar o verdadeiro oposto do efeito pretendido é uma preocupação válida. Afinal, mais cedo nessa semana, uma lei que considera crime de "linchamento" arrancar um suspeito de um oficial está sendo usado contra a própria massa do Occupy Wall Street. Certo, mas as leis que estão sendo promovidas pela indústria do entretenimento ainda são basicamente sobre propriedade intelectual.

A internet tornou-se a arma mais poderosa do povo contra tiraonia governamental, e eu não estou apenas falando de dar poder ao povo pela possibilidade de se educarem por conta própria e enviar e-mails aos políticos. Eu estou falando de revolução, com as revoltas da Primavera Árabe tendo sido basicamente organizadas e orquestratadas através de redes sociais como o Twitter. Hillary nem pisca ou derrama uma lágrima quando soldados americanos são mutilados em combate, mas fica acordada à noite temendo que em algum lugar, de algum modo, poderia haver um vídeo que revele a realidade de suas guerras e que se torne viral.

Se a indústria de tecnologia decidir se tornar uma força lobbyista em Washington, então ela fará lobby por seus próprios interesses corporativos - não pelos nossos. Ela vai ingressar nos bastidores e jogar o jogo. Até esse ponto, eles tem sido relativamente transparentes e majoritariamente não tem sido malignos (talvez estúpidos). A quase aprovação do SOPA levou a era de inocência a um fim para a indústria de tecnologia, e a campanha de blecaute foi meramente uma medida desesperada para ganhar algum tempo antes de encararem a dura escolha que os aguarda: Tornar-se parte da máquina de influência de Washington ou ser destruído por ela.



Mas há uma terceira possibilidade (...) uma posição mais radical na qual nós nos tebelamos contra o fato mais importante de que o governo possa de algum modo censurar a internet. O problema real é que o governo é capaz de censurar conteúdo na internet. Ponto. É um problema técnico, não um problema legal ou político. E deveria ser tratado como tal pela indústria de tecnologia. O fato de que o roteamento de domínios está à mercê de regimes soberanos e que ISPs podem ser conhecidos ou considerados legalmente responsáveis pelo que você está baixando ou hospedando é uma falha de segurança no modelo. Essa falha não era grande coisa antes de a internet virar um negócio sério, mas a Internet agora é algo sério. No grande esquema das coisas, o SOPA é simplesmente sobre se o Facebook será considerado legalmente responsável por hospedar imagens da Oprah andando de jet ski sem permissão da Harpo LLC.

Tecnologias de criptografia e roteamento anônimo existem e são relativamente maduras, mas ainda tem que receber o mesmo tipo de apoio institucional necessário para levá-las para além do reino dos pedófilos, dissidentes políticos, hackers, e hobbyistas. A rede escura espreitando sob a rede conhecida pelos n00bs precisa emergir e assumir o controle. O e-mail da minha mãe sobre as confusões mais recentes do meu sobrinho deveriam ser tão difíceis para o governo monitorar ou regular quanto os e-mails criptografados em PGP que eu envio para meus camaradas dissidentes.

Nosso primeiro obstáculo é que os gigantes da indústria de tecnologia não se importam com a censura governamental. Na verdade, eles dariam alegremente os nomes de incontáveis centenas de dissidentes políticos para regimes bárbaros do terceiro mundo em troca de acesso aos mercados desses regimes. Eles só se importam com essa nova censura do SOPA porque serem responsabilizados legalmente pelo que seus usuários postam ameaça seu modelo empresarial de lucrar com o que os outros postam. O segundo obstáculo é também sobre dinheiro. As maiores corporações tecnológicas tem modelos empresariais que dependem fortemente da coleta de dados de seus e-mails privados e atualizações de status para identificar quais são suas inadequações sexuais de modo que os marqueteiros virtuais possam te oferecer o remédio apropriado para a condição específica que sua ex-namorada te acusa de ter no Google Chat.

O terceiro e mais importante obstáculo é nossa própria ignorância: Ninguém culpa o Google por ter um servidor de e-mail que pode ter seu sigilo quebrado por qualquer governo que calhe de possuir o território no qual um servidor resida. Claro, não é uma pena que o governo chinês oprime seu povo? Não é uma pena que o governo iraniano rastreou e assassinou um ativista no Texas há uns dias? Não é uma pena que iogurte estrague tão rápido? Sim, sim, e sim. Mas oprimir é o que fazem os governos, e nós deveríamos começar a exigir que nossos fornecedores de tecnologia deixem de nos colocar no caminho do perigo nos expondo à maior vulnerabilidade de segurança de todas: o mandato judicial.

Quando nós nos mobilizamos junto com as corporações de tecnologia contra leis como o SOPA, nós na verdade estamos permitindo que elas enquadrem o debate de um modo que traça a linha da censura no ponto no qual ela ameaça seu modelo empresarial - ao invés de no ponto no qual ela ameaça nossa liberdade. Ela já ultrapassou essa linha, e nosso foco precisa ser investido em iniciativas open source de garantir a segurança da internet contra todo e qualquer tipo de intrusão governamental, fazendo lobby junto às corporações de tecnologia para apoiarem e colaborar com esses projetos, ou mesmo fazendo lobby junto às corporações para que elas desenvolvam suas próprias soluções para o problema. O que funcionar. Mas o que não funciona é permitirmos que nós como comunidade sejamos corneados pela indústria de tecnologia. Nós não deveríamos nos mobilizar em apoio a corporações multinacionais que estão se embrulhando de modo hipócrita na mesma bandeira anti-censura com a qual eles limpam o traseiro em virtualmente cada caso de censura que não ameace seu modelo empresarial.

O SOPA é uma droga, e ele deve ser derrotado. Mas ele não é o problema.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Sujeito Sem Limites

por Aleksandr Dugin



Ultrapassando o limite

Quando a questão é sobre definir o fenômeno da agressão, as pessoas mais comumente apelam a esferas emocionais, psicológicos e sentimentals, deixando de levar em consideração, como é comum no mundo moderno, os aspectos mais profundos e metafísicos do fenômeno. Na veia da tradição humanista apareceu por conta própria a atitude negativa em relação a agressão, que é considerada como algo sujeito à eliminação total ou (o que é mais realista) a redução. Porém, a agressão é tão intimamente ligada à natureza humana, que ela remete a si mesma constantemente - tanto no quotidiano, na psicologia da vida privada e na realidade política de guerras, conflitos, lutas. Tentemos compreender a agressão, abstraindo-nos de todas as opiniões estereotípicas usuais - pacifistas, escandalosamente apologéticas, psicanalíticas ou socialmente deterministas.

A agressão como um fenômeno poderia ser melhor definida como um "ultrapassar violento de limites". Exatamente aí sua qualidade essencial consiste, essa qualidade é reconhecida em conflitos do quotidiano, em uma ocorrência criminal, em um conflito militar em larga escala. Um criminoso violentamente transgride os limites da ética social, da moral, da integridade física ou econômica de um humano ou uma comunidade. Isto é agressão. Um exército violentamente ultrapassa a fronteira de um país hostil ou de linhas defensivas do inimigo. Isso também é agressão. Finalmente, ideólogos, rompendo os modos estereotipados de pensamento, violentamente ultrapassa os limites dos clichês mentais. E isto também é agressão.

Não apenas a existência social ou exclusivamente humana está plena de vários tipos de limites, transgredindo os quais dá origem a vários tipos de agressão. A estrutura de toda realidade é construída simplesmente em vários limites, separando cada coisa e cada modo de existência de todos os outros. Em algum sentido, o próprio limite faz de cada coisa o que ela é por si própria, sendo a corporificação da diferença, diferenciando em relação aos outros objetos. No sentido mais geral, a agressão também pode ter uma dimensão cósmica, universal, expressa através da interferência violenta de um em outro. Há exemplos abundantes de agressão nos reinos animal e vegetal, nos quais a existência de uma espécie ou um indivíduo é muitas vezes sustentada pelo uso de violência contra outros, que gera a roda contínua de transformações, assimilação e adaptações do ambiente e dos seres do Universo. Consequentemente, a agressão é algo geral, universal, e integral à base da própria realidade.

Vae Victis

O ultrapassar violento do limite possui dois aspectos: um é relativamente negativo, o outro é relativamente positivo. O sujeito da agressão, isto é o ser que realiza um ataque agressivo contra outro (contra o objeto da agressão), busca estender seus próprios limites por tal ação, busca fortalecer, aperfeiçoar, preencher sua própria natureza. Tomando a vida da vítima, um predador aplaca sua fome, sustenta sua própria existência, obtendo recursos necessários para seu organismo. A agressão militar expande territórios e multiplica a riqueza da parte vitoriosa, e mesmo uma briga de bar fortalece a auto-confiança do vencedor, sua fé em si mesmo e sua satisfação moral. Em resumo, na agressão a expansão positiva do sujeito, expandindo sua esfera de potencialidades, é realizada.

Mas o objeto, sujeito a agressão, a vítima devorada ou espancada, a nação subjugada, etc., ao contrário, como resultado do rompimento dos limites (mútuo no processo dado), apenas perde o que tinha antes, reduz sua esfera de potencialidades. O objeto se torna um botim para o sucesso alheio, um bode expiatório. Em certo sentido, o próprio fato da agressão o transforma em objeto, de fato, quando previamente, antes do ataque, ele poderia possuir a ilusão de seu próprio caráter subjetivo, dando início a agressões contra outros seres, objetos, nações. Este é o aspecto negativo do "ultrapassar violento de fronteiras".

Na civilização pré-humanista e em civilizações não-humanistas (tradicionais), que existem até hoje, ambos aspectos da agressão eram considerados em conjunto, como dois elementos mutuamente complementares, inscritos na estrutura primordial do Universo. O símbolo chinês "Yin e Yang" é um exemplo perfeito deste dualismo fatalista. O fragmento branco do círculo representa o sujeito aqui; o negro representa o objeto correspondentemente.

No simbolismo dos sexos, o primeiro é identificado com o princípio masculino (yang), o segundo é identificado com o princípio feminino (yin). Daí segue-se a "legitimação" comum da agressão, que era peculiar ao mundo tradicional, no qual não entraria na mente de ninguém opôr artificialmente o humano a forças básicas da realidade. Certamente, as civilizações mais refinadas obscureceram por todos os meios as leis da agressão a nível social, de modo que a diferença dos costumes bárbaros estava a disposição. Porém, em todos os casos o direito de "ultrapassar violentamente os limites" foi preservado, ainda que de forma sublimada, tanto nos casos de guerra como nos casos de repressão individual, cuja aplicação era função de algumas organizações tradicionais especiais - o protótipo da polícia atual. Os feitos de conquistadores, subjugadores, destruidores foram cantados em lendas e épicos, que são todas construídas sobre a fórmula "Vae Victis!" ("Ai dos vencidos!").

Legitimação da Agressão na Tradição

Qual é a justificativa metafísica da agressão em civilizações tradicionais, além da observação direta da estrutura da natureza?

A questão é que a tradição considerava o próprio fato da existÊncia de limites como a expressão da imcompletude do Universo em relação a sua Causa, concebida como algo Absoluto, Uno e para além de todos os limites. Consequentemente, a aspiração pela expansão da própria existência, pela expansão existencial, pela "transgressão de limites" (em latim é transcendere, "transcender") era considerada como um impulso profundo de movimento na direção do divino, como o eco da perda do Absoluto, implantado no mundo e nos entes do mundo.

Certamente, práticas metafísicas e ascéticas neste caso poderiam ser chamadas de a forma pura da agressão. Nestas práticas os iniciados buscavam transgredir todos os limites, levar ao máximo seu próprio "ego" a um estado absoluto, colocando sob agressão não apenas alguns objetos, mas toda a realidade como um todo. No caminho da autodeificação direta o máximo do umpulso agressivo é concentrado, pois o Divino é simplesmente o cancelamento de barreiras e limites, constituindo a essência do não-divino, imanente. Aliás, daí segue a palavra hebraica "Satã", literalmente significando "barreira", "obstáculo", isto é "limite", compreendido como algo negativo. Saindo disso, é simples dar o próximo passo e explicar o mecanismo da assim chamada "demonização de um adversário", cujos exemplos são tão abundantes nas lendas, épicos, e ensinamentos religiosos tradicionais. O que serve como um obstáculo no caminho da expansão de uma nação, país, religião, mais estreitamente a comunidade de um povo e, finalmente, um humano; o que limita a vontade deste último à totalização, à expansão da existência, tudo issi automaticamente cai sob o signo de "Satã", obtém a qualidade do mal teológico, e consequentemente, a agressão se torna legitimada no mais alto nível. Graças a tal "demonização de um adversário" ou de uma vítima, sua objetificação ocorre, retirando eles sua qualidade subjetiva, abstraindo da solidariedade específica, social ou religiosa.

Irã contra Turânia, Aqueus contra Troianos, Israelitas contra Goyim, Muçulmanos contra Giaours, Deuses contra Titãs, e às vezes até mulheres (amazonas) contra homens - os vários paradigmas do dualismo, nascidos do impulso primordial para a agressão, são abundantes nas mais antigas crônicas, códigos religiosos, lendas poéticas e daí em diante. Pela justificativa de seu próprio campo, o povo da Tradição justificou, na verdade, algo que é mais - o próprio princípio da agressão, a própria vontade primordial do "ultrapassar violento de limites", a aspiração pela totalização do seu próprio caráter subjetivo (independentemente de como isso possa ser expressado - seja através de afiliação nacional ou religiosa, ou tribal).



Anti-Agressão

No mundo moderno ocorreu o rompimento com tradições de séculos, que modificaram completamente as estruturas mentais e sociais da humanidade moderna em comparação com longos milênios do passado. "Iluminismo", humanismo, racionalismo e outras tendências "progressistas" expressam o sistema de estimações e valores, contradizendo completamente as orientações básicas da sociedade tradicional. Isso certamente (e talvez do modo mais expressivo) tocou o princípio da agressão.

A Idade europeia do Iluminismo implantou nas pessoas uma visão unilateral da agressão, uma visão exclusivamente da perspectiva da vítima.

O lado leve desse fenômeno, baseado na vontade do Absoluto, de alcançar o caráter total, de uma máxma extensão de um sujeito até a esfera do Divino, deixou de ser compreensível, concreto e ontologicamente enraizado, e, consequentemente, foi identificado com a "sobrevivência", com atavismo, com barbarismo inerte, com o defeito temporal e fundamentalmente retificável da civilização. Tendo perdido sua legitimidade metafísica, a agressão veio a ser percebida como transgressão injusta da integridade do que foi proclamado valor supremo em si mesmo - um indivíduo humano, uma sociedade, etc. Daí segue toda tendência "jusnaturalista", que foi desenvolvida desde os tempos de Rousseau. Posto que a expansão existencial deixou de ser metafisicamente justificada, a vítima apresentou suas próprias reivindicações de "segurança total", isto é, do imperativo artificial e elevado ao mais alto imperativo ético de defesa contra agressão. A agressão foi efetivamente banida. Com isso, em particular, o estatuto jurídico "democrático" geral, que proíbe a propaganda de guerra, está conectado.

Passou a ser possível modificar as fundações culturais e sociais da sociedade, ao passo que estava naturalmente além dos poderes de qualquer um modificar as tendências básicas tanto do cosmo como de seres humanos. Portanto a agressão jamais desapareceu ou da história, ou do quotidiano, ou da natureza selvagem. Ela apenas começou a ser percebida como um mal, como a reivindicação de um ser limitado em utilizar outro, que emerge espontaneamente de tempos em tempos.

Posto que o processo de totalização do sujeito foi excluído, a agressão passou a ser considerada como mera aquisição quantitativa, acúmulo de sujeitos externos, como egoísmo trivial e vulgar, como a fatal "luta pela vida". Portanto toda a agressão veio a ser gradualmente reduzida meramente à esfera econômica e todas as suas manifestações em outras esferas foram estritamente culpadas pela "opinião pública". "Segurança total" e "direitos humanos" foram daí em diante garantidos pela transferência da agressão para a esfera dos padrões materiais abstratos - dinheiro, capital.

Gênese Metafísica do Terrorismo

Conforme o modo ocidental de pensamento se tornou mais e mais popular, conforme o sistema capitalista, liberal alcançou seu caráter global, o descrédito tanto da agressão como de suas manifestações estava se desenrolando. Isso alcançou esferas políticas, culturais, e ideológicas. A civilização, completamente baseada na defesa exclusiva dos interesses da vítima, aspirou a gradualmente se afastar dessas instituições, estruturas e modelos de comportamento, que como partes integrais foram preservadas na comunidade humana desde seu estado tradicional "pré-humanista". Com essa tendência o pacifismo, o sufrágio feminino, e as tendências para o enfraquecimento do aparato estatal, a ideologia dos "direitos humanos" e daí em diante se misturam - tudo o que compõe a fachada ideológica do liberalismo atual, que se tornou um modelo social e político, dominando o planeta.

Na última fase este processo fez emergir o fato, de que praticamente todas as formas de agressão - a vida quotidiana, política, estética e daí em diante - foram "banidas" e limites passaram a ser considerados como algo inviolável e sagrado. Junto com isso outro fenômeno emergiu - a tendência para a "superação inviolável dos limites", à mundialização do mundo, à mistura "suave" de todos os sujeitos, pessoas e entes em um caldeirão comum, em Um Mundo. Após afirmar a inviolabilidade dos limites, o cancelamento dos limites foi afirmado, mas dessa vez a questão não era uma de expansão e totalização do sujeito, do agressor, mas de mobilizar vítimas meramente objetivo cosmos comum. A forma perfeita de tal ideologia é o modelo, conhecido como "ideologia suave", no qual a questão é a de misturar uns com os outros os ingredientes mais variados, no caso de eles estarem desprovidos de um princípio agressivo claramente expresso, do caráter subjetivo. No aspecto histórico, ao mesmo tempo, quando os primeiros sinais da ideologia suave apareceram (isto é nos fins da década de 60/início da década de 70 de nosso século), o fenômeno adjacente emergiu: o terrorismo moderno. Certamente, o terrorismo existia antes também, mas até certo momento ele permaneceu um fenômeno razoavelmente lumpen, no qual as manifestações mais intensivas de agressão política estavam concentradas, confrontando com o muro inabalável do Sistema. O terrorismo moderno, porém, é bastante diferente da tendência política radical dos revolucionários do século XIX/início do XX, pois ele tende a se converter de ser um meio político e pragmático para um fim a ser um fenômeno independente, autosuficiente e representante um tipo especial de ideologia. Os representantes da civilização, baseados na ideologia suave, gradualmente expandiram a noção "terrorismo", tendo incluído todas aquelas manifestações que contrastavam com as fundações básicas de sua própria doutrina. Em outras palavras, o terrorismo tornou-se um sinônimo para agressão no sentido metafísico mais geral. Todos os componentes da realidade presente, que não se confinaram a normas, impostas por uma "comunidade global de vítimas", foram gradualmente levadas ao pólo terrorista. Partidos políticos, queram alternativas ao sistema liberal, tendências religiosas, até nações inteiras passaram ao setor do "terrorismo", sendo lá levadas pela expansão do modelo ocidental.

O terrorismo tornou-se gradualmente o último asilo do sujeito, buscando a totalização no mundo, onde esse desejo havia sido banido. Então não é surpreendente, que a doutrina de agressão independente gradualmente tornou-se a doutrina do puro terror para além dos interesses mais estreitas de um partido, nação, ou religião. 

A Primeira Linha

O fenômeno do puro teror é a última palavra na história da agressão e na luta liberal contra ele. O tempo do "terrorismo em nome dos interesses estreitos de um partido" acabou. Mais e mais pessoas percebem o caráter pragmático de uma filiação partidária concreta no caso de suas escolhas existenciais pessoais. Ademais, a indefensabilidade das ideologias clássicas em face de uma ideologia suave mundialista absorvedora e dissolvedora torna-se mais e mais aparente.

O levante radical de maio de 1968 levou ao triste e insípido reformismo reduzido, à paródia social-democrata. A intifada palestina resultou na colusão de Arafat com Tel-Aviv. Como resultado da quebra do sistema soviético os restos decadentes da guerrilha estão abandonados na América Latina. O terrorismo de direita foi derrotado ainda antes. A derrota doutrinária e ideológica de todos os "inimigos da sociedade aberta" era iminente.

Mas a pesar de todos os substitutos, propostos pelos adeptos da ideologia suave (agressividade ecêntrica e puramente visual na moda juvenil; incontáveis sucessos de TV com sangue e corpos; remoção da proibição de produções sadomasoquistas, etc.), um tipo especial de pessoas foi preservado, dos quais a agressão é inseparável, que experimentam o desejo incessante pungente pela "totalização do sujeito", excedendo as fronteiras da esfera do transcendente. São estes que começam a esboçar os contornos de uma nova ideologia, uma ideologia universal para além de clichês obsoletos e ultrapassados.

Em 1994 na Itália o livro de Enrico Galmozzo foi publicado com o nome "Sujeito sem limites" - "Il soggetto senza limite". Seu autor é um dos fundadores da organização terrorista de extrema-esquerda "Primeira Linha", Prima Linea, que competia com as famosas "Brigadas Vermelhas". É extremamente significativo, que o livro do anarco-comunista de extrema-esquerda Galmozzi é dedicado a d'Annunzio, o fundador do partido fascista na Itália, o aderente da aristocracia e, finalmente, o homem, que via de regra aderia a àla da extrema-direita. Enrico Galmozzi brilhantemente analisa o fenômeno de d'Annunzio do ponto de vista existencial e traça paralelos muito interessantes entre ele e figuras do anarquismo e até mesmo entre ele e Lênin. O que é mais importante, a questão aqui não é interpretar d'Annunzio do ponto de vista esquerdista, mas na busca de um critério universal, que poderia unir pessoas de um mesmo tipo metafísico para além de diferenças ideológicas. A fórmula, que foi encontrada por Galmozzi para o nome de seu livro, parece tão afortunada que poderia servir como um slogam comum, universal para todos os oponentes do "campo de concentração suave" do mundialismo moderno.

"Sujeito sem limites" é a realização mais pura possível do sentido metafísico de agressão, é um slogan surpreendentemente preciso, expressando a natureza interior do Puro Terror. De agora em diante tudo dependerá apenas da habilidade de "pessoas solitárias" abandonarem as ilusões ideológicas prévias, tendo reconhecido a necessidade metafísica e inevitabilidade de uma nova sistematização de uma esfera social - não segundo a escala "o direitista contra o esquerdista", mas segundo a escala "amigos da agressão" contra "inimigos da agressão".

E quem sabe, se a integração mundialista das pessoas, que são objetos, pessoas, que são vítimas, em uma comunidade planetária liberal, em um Único Objeto Absoluto provoque a emergência de um novo e último caráter da história mundial - o Sujeito Absoluto, Sujeito sem limites, que cometerá o ato conclusivo do drama escatológico.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Eurásia como conceito espiritual

por Claudio Mutti



Da Irlanda ao Japão

"Sublinhar e enfatizar as conexões, as linhas de força nas quais se sustenta a trama do conceito espiritual de Eurásia, da Irlanda ao Japão" (1): a esta preocupação de P. Masson Oursel, que se inspira em uma programa esboçado em 1923 em La Philosophie Comparée e prosseguido em 1948 em La Philosophie en Orient (2), Henry Corbin (1903-1978) atribui um "valor especial" (3). Transcendendo o nível das determinações geográficas e históricas, o conceito de Eurásia vem a constituir a "metáfora da unidade espiritual e cultural que irá recompor o final da era cristã em vista da superação dos resultados desta" (4). Estas são, ao menos, as conclusões de um estudioso que na obra corbiniana descobriu as indicações idôneas para fundar: "aquela grande operação de hermenêutica espiritual comparada, que é a busca de uma filosofia - ou melhor dito: de uma sabedoria - eurasiática" (5). Em outras palavras, a própria categoria geofísica de "Eurásia" não é mais que a projeção de uma realidade geosófica vinculada à Unidade originária, posto que "Eurásia" é, na percepção interior, na paisagem da alma ou Xvarnah ("Luz de Glória", no léxico mazdeano), a Cognitio Angelorum, a operação autológica do Anthropos Téleios, ou inclusive, por último, a unidade entre o Lumen Naturae e a Lumen Gloriae. Daí a possibilidade de abordar a Eurásia com o conhecimento imaginal da Terra como um Anjo. (6)

É o mesmo Henry Corbin quem invoca a experiência visionária do filósofo alemão Gustav Theodor Fechner, que identificou com a figura de um Anjo o rosto da terra envolta de luz gloriosa, e para citar a passagem concordante de um ritual avéstico: "Celebramos esta liturgia em honra da Terra, que é um anjo" (7). De fato, segundo a doutrina mazdeísta, à Terra se percebe na "pessoa" de seu Anjo, quando a alma, projetando a imagem traduz o mistério dessa projeção da seguinte maneira: Spenta Armaiti, arcanjo feminino da existência terrena, é a mãe de Daena, o anjo feminino que sustenta à Alma caelestis, o Corpo de Ressurreição. Dessa maneira, "a formulação mesma da categoria geofísica de 'Eurásia' pertence ao processo de palingenesia, que é a Ressurreição à luz da Transfiguração" (8).

A geosofia mazdeísta, intimamente vinculada com a essencial característica sofiânica de Spenta Armaiti, se refere principalmente a uma Terra celeste; aplicada ao espaço terrestre, nos apresenta um kyklos, um orbis, similar ao que Homero simbolizou no escudo de Aquiles e Virgílio no de Enéas (9), quer dizer, para permanecer no âmbito irânica, com esse atributo do Homem Universal (insân-e kâmil) que é a Taça de Jamshid. Nessa representação, a Terra está rodeada do oceano cósmico e dividida em sete zonas (Keshvar) (10); no centro da zona central, chamada Xvaniratha ("roda luminosa"), "se encontra Airyanem Vaejah (pahlavi Erân-Vêj), o berço dos Arianos. É ali onde se criaram os Kayanidi, os heróis lendários; é aí onde foi fundada a religião mazdeísta, desde onde se difundem aos outros Keshvar; é ali onde nascerá o último dos Saoshyant que reduzirá Ahriman à impotência e levará a cabo a ressurreição e a existência vindoura" (11). Situado ao centro da superfície da terra, o Irã se apresenta, portanto, como "dobradiça, não só geográfica, senão também e acima de tudo espiritual" (12), da ecúmene eurasiática.

A representação mazdeísta, posteriormente reelaborada, passou a formar parte do legado cultural que o Irã transmitiu ao Islã. No Kitab al-Tafhîm de Abû Rayhân Mohammad ibn Ahmad Bîrûnî (13) se encontra um esquema no qual o círculo central, Irã, está rodeado de outros seis círculos, tangentes entre si, que correspondem a outras tantas regiões: Índia, Arábia e Abissínia, Síria e Egito, a zona bizantino-eslava, o Turquestão, China e o Tibet.

Oriente e Ocidente

Segundo a perspectiva islâmica, o centro do mundo terrestre se encontra na Kaaba, o mais antigo dos templos de Deus, inicialmente construído na época de Adão, depois edificado por Abraão em sua forma atual. Na planta e na estrutura desse santuário primordial e central meditou Qâzî Sa'îd Qommî no primeiro capítulo da Kitâb asrâr al-Hajj ("O sentido esotérico da Peregrinação"), que constitui o objeto de um minucioso estudo de Henry Corbin (14). "Sempre entra em jogo - diz este último - o mesmo princípio: as formas de luz (sowar nûrîya), as figuras superiores se imprimem nas realidades de baixo que são seus espelhos (sublinhemos que, geometricamente as considerações elaboradas aqui seguiriam sendo válidas se fosse tomado como objeto de meditação a forma do templo grego)" (15). Agora, no plano superior das realidades-arquétipos (...) encontramos quatro "limites metafísicos" (16), dois dos quais (a Inteligência Universal e a Alma Universal) se encontram ao leste da realidade ideal, enquanto que as outras duas (a Natureza Universal e a Matéria Universal) se encontram ao oeste. A lei rigorosa das correspondências exige que no plano da Kaaba terrestre, os ânbulos estejam igualmente dispostos segundo a mesma ordem de relação: "Dois destes ângulos estão voltados para o oriente: o ângulo no qual está encaixada a Pedra Negra (o ângulo iraquiano) e o ângulo iemenita; os outros dois estão ao ocidente: o ângulo ocidental e o ângulo sírio" (17). São estes dois orientes (mashriqayni) e os dois ocidentes (maghribayni) aos quais alude o versículo 17 da sura do Misericordioso, pontualmente citado por Corbin.

O versículo corânico chama a outro, o que começa com as palavras: "A Deus pertence o Oriente e o Ocidente" (sura da Vaca, 115). "Gottes ist der Orient! - Gottes ist der Okzident!": é a forma na qual reconstrói Wolfgang Goethe, a quem Corbin nos mais mais de uma vez a convergência com a sabedoria islâmica. Porém a dupla "Oriente-Ocidente" retorna no versículo da Luz, em parte reportado na epígrafe ao primeiro capítulo de seu estudo sobre o homem de luz no sufismo iraniano: "...uma lâmpada que arde com um azeite de oliva que não é nem do Oriente nem do Ocidente, inflanando-se sem ao menos necessidade de que o fogo a toque...E é luz sobre luz."

Entre Oriente e Ocidente, como entre Norte e Sul, percorrem linhas ideais das quais dependem não somente a orientação geográfica, senão também a categoria antropológica. Na perspectiva do simbolismo espiritual, estas direções horizontais assumem um sentido em base ao modo pelo qual o ser humano experimenta a dimensão vertical de sua presença no espaço e no tempo; e é uma orientação desse gênero o que constituirá um dos principais temas do sufismo iraniano: "é a busca do Oriente, porém nos é advertido, caso não o compreendamos desde o primeiro momento, que se trata de um Oriente que não se encontra em nossos mapas geográficos nem pode ser situado neles. Este Oriente não está incluído em nenhum dos sete climas (os keshvar); é, de fato, o oitavo clima. E a direção na qual este "oitavo clima" deve ser buscado não está na horizontal senão na vertical. Este Oriente místico suprassensível, lugar de Origem e de Retorno, objeto da busca eterna, está no pólo celeste; é o Pólo, um extremo norte, tão extremo como o umbral da dimensão do mais além" (18). A geografia sagrada do Irã faz corresponder a este Pólo celeste à montanha cósmica de Qâf, onde começa aquele mundo de Hûrgalyâ que é iluminado pelo sol da meianoite. É a terra dos Hiperbóreos (19), os quais "simbolizam ao homem cuja alma alcançou tal perfeição e harmonia que está livre de negatividade e de sombra; não é nem do Oriente nem do Ocidente" (20).

Ishraq, nome verbal, que em árabe significa o irradiar do sol desde o ponto do qual surge, é um termo peculiar da sabedoria islâmica do Irã. Ishrâqîyûn ou Mashriqîyûn ("Orientais") são os sábios da antiga Pérsia, chamados assim "certamente não somente por sua localização geográfica, senão porque seu conhecimento era oriental, no sentido que se fundamentava sobre a revelação interior (kashf) e a visão mística (moshâhadat)" (21). Não obstante, o significado do Oriente como um Oriente iluminativo, direção que conduz ao Pólo espiritual, não é um conceito que caracteriza exclusivamente ao pensamento tradicional iraniano. "Esta orientação se dava já aos mistagogos do orfismo. Ela é encontrada no poema de Parmênides onde, guiado pelas filhas do sol, o poeta empreende uma viagem para o Oriente. O sentido das duas direções, direita e esquerda, Oriente e Ocidente do cosmos, é fundamental na gnose valentiniana. (...) Ibn Arabi eleva a símbolo sua própria partida ao Oriente; da viagem que de Andaluzia o leva a Meca e Jerusalém faz sua Isra, homologando um ékstasis que repete a ascensão do Profeta de céu em céu até o "Lótus do Limite". Aqui o Oriente geográfico, literal, se converte em símbolo do Oriente "real", o pólo celeste" (22).

Umbilicus Terrae

Na geografia sagrada resultante das explorações espirituais de Henry Corbin, o extremo ocidental de Eurásia está representado pelas Ilhas Britânicas. Aqui os fieis da igreja celta primitiva foram designados em irlandês como céle Dé: denominação que equivale a Amici Dei, "se encontra na gnose islâmica (Awliyâ' Allâh) e na mística renana (Gottesfreunde)" (23). Estes coli Dei, "estabelecidos em York, em Iona, no país de Gales e na Irlanda, seu símbolo fundamental era a pomba, como símbolo feminino do Espírito Santo. Desde esta perspectiva, não resulta estranho encontrar o druidismo misturado a sua tradição e os poemas de Taliesin integrados a seu corpus. Igualmente, a epopéia da Távola Redonda e a Busca do Santo Graal foram também interpretadas em relação com os ritos dos coli Dei" (24). A esta mesma irmandade espiritual é reconduzida a existência do santuário de Kilwinning, sobre a montanha de Heredom, desde onde se irradiou aquela Ordem Real pela qual o rei Robert I Bruce teria se afiliado aos Templários, realizando a convergência entre o celtismo e o templarismo.

Na extremidade da Eurásia se estende a China "o limite do mundo humano, do mundo que pode ser explorado pelo homem nas condições da consciência comum" (25). Por outra parte, influências taoístas teriam sido exercidas sobre a hierocosmologia do sufismo centroasiático e sobre algumas técnicas de recitação do dhikr adotadas pela escola de Najm Kobra (26). Entre os templos que se levantam nos confins da China há um, descrito no século X pelo historiador árabe Mas'ûdî (27), que em sua estrutura obedece ao paradigma arquitetônico dos templos sabeus; o mesmo Mas'ûdî havia visto aquele de Harrán (a antiga Carrhae) e pode todavia ler no umbral a inscrição de teor platônico: "Aquele que conhece a si mesmo é deificado" (Man 'arafa nafsahu ta'allaha). "Inscrição de tero platônico" (28), certo, no qual "o termo técnico árabe é o equivalente da theosis dos místicos bizantinos" (29), porém também a explicação do preceito délfico, que finalmente será validado no hadîth qudsî: "Quem conhece a si mesmo conhece a seu Senhor" (Man 'arafa nafsahu 'arafa rabbahu). Enquanto isso, os sábios hermetistas de Harrán aportarão como dote sua herança ao Islã, derivada de uma antiga sabedoria siríaca ou síriobabilônica reinterpretada à luz do neoplatonismo.

Equidistante de Escócia e China está Al-Quds, "a cidade santa" por antonomasia. No lugar onde se iniciou a Assunção do Mensageiro de Deus - segundo Corbin um verdadeiro Umbilicus Terrae- "assume aí uma função homóloga à da Pedra Negra no templo da Kaaba" (30), o Domo da Rocha (Qubbat al-Sakhrat). Este edifício, comumente chamado a Mesquita de Omar, "tem a forma de um octógono regular culminado por uma cúpula; foi o protótipo das iglejas templárias construídas em Europa, e a cúpula foi o símbolo da Ordem e figurava no selo do Grão-Mestre" (31). Este entrelaçamento de linhas espirituais diferentes faz de Jerusalém o simbólico edifício microcósmico, no qual se reflete a multiplicidade tradicional do macrocosmo eurasiático, aquela multiplicidade de formas que Henry Corbin nos apresenta em sua unidade essencial.

A oposição radical entre Jerusalém e Atenas, identificadas como pólos emblemáticos respectivamente do monoteísmo e do politeísmo, é o ponto onde convergem entre eles os zelotas das supostas "raízes judaico-cristãs" da Europa e alguns defensores de um mal-entendido "paganismo" grego. Sustentar uma posição desse tipo, querendo reduzir a um esquema ideológico uma relação bem mais profunda, complexa e articulada do que imagem os "judeo-cristãos" e "neopagãos", signifca ignorar como a mais rigorosa doutrina metafísica da Unidade (o Tawhid integral da metafísica islâmica) não exlcui de fato a multiplicidade relacionada à hierarquia dos Nomes Divinos. Entre os que entenderam perfeitamente o anterior, está justamente Henry Corbin, que, mediante o estabelecimento de uma ideal "comparação, por uma parte entre Ibn Arabî (...) e Proclo, por outra" (32) e recordando o comentário do chefe da escola de Atenas ao Parmênides platônico, evoca o encontro dos físicos da escola jônica com os metafísicos da escola itálica, uns e outros se encontram na cidade-símbolo de Atenas para participar nas Panatenéias. "Celebrar esta festa - ele escreve - é encontrar na escola ática de Sócrates e Platão a mediação que eleva os dois extremos a um nível superior" (33).

1. Henry Corbin, L’Iran e la filosofia, Guida, Napoli 1992, p. 62.
2. P. Masson-Oursel, La Philosophie en Orient, in Histoire de la philosophie, a cura di É. Bréhier, Paris 1948, 1° fasc. suppl.
3. Henry Corbin, L’Iran e la filosofia, cit., ibidem.
4. Glauco Giuliano, Nitartha. Saggi per un pensiero eurasiatico, La Finestra, Lavis 2004, p. 14
5. Glauco Giuliano, Nitartha, cit., p. 221
6. Glauco Giuliano, Nitartha, cit., p. 16.
7. Sîrôza, vigésimo octavo día, op. cit.: Henry Corbin, Cuerpo espiritual y Tierra Celeste. Del Irán mazdeísta al Irán chiíta, Ediciones Siruela, Madrid, 1996, p. 37.
8. Glauco Giuliano, Nitartha, cit., p. 16, n. 25.
9. Ilíada, XVIII, 478-608; Eneida, VIII, 626-728.
10. La división septenaria del espacio terrestre que se repite en otras culturas tradicionales: cf. Claudio Mutti, Gentes. Popoli, territori, miti, Effepi, Genova 2010, pp. 19-20.
11. Henry Corbin, Cuerpo espiritual y Tierra Celeste, cit., p. 51.
12. Glauco Giuliano, Nitartha, cit., p. 22.
13. Henry Corbin, Historia de la Filosofía. Del mundo romano al Islam Medieval, vol. 3. Siglo veintiuno editores, México DF, 1990, pp 307-308.
14. Henry Corbin, Templo y contemplación, Editorial Trotta, Madrid, 2003, pp. 181-257. Sobre Qâzî Sa'îd Qommî, cf. Henry Corbin, Historia de la Filosofía. La Filosofía en Oriente, vol. 11. Siglo veintiuno editores, México DF, 1990, p. 154-157
15. Henry Corbin, Templo y contemplación cit., p. 206.
16. Henry Corbin, Templo y contemplación cit., p. 207.
17. Henry Corbin, Templo y contemplación, cit., p. 207.
18. Henry Corbin, El hombre de luz en el sufismo iranio, Ediciones Siruela, Madrid, 2000, p. 20.
19. Sobre la Hiperbórea y similares representaciones tradicionales de la septentrional “Tierra de luz”, cf. Claudio Mutti, op. cit., pp 15-23.
20. Henry Corbin, El hombre de luz en el sufismo iranio, cit., p. 56.
21. Henry Corbin, Storia della filosofia islamica, cit., p. 211.
22. Henry Corbin, El hombre de luz en el sufismo iranio, cit., págs. 73-74.
23. Henry Corbin, Templo y contemplación, cit., p. 342 n. 217.
24. Henry Corbin, Templo y contemplación, cit., p. 342.
25. Henry Corbin, Templo y contemplación, cit., p. 132.
26. Henry Corbin, El hombre de luz en el sufismo iranio, cit., pp. 72 y 77 y ss.
27. Mas'ûdî, Les prairies d'or, ed. e trad. Barbier de Maynard, Paris 1914, vol. IV, p. 52.
28. Henry Corbin, Templo y contemplación, cit., p. 133.
29. Henry Corbin, Templo y contemplación, cit., p. 133, n 7.
30. Henry Corbin, Templo y contemplación, cit., p. 351.
31. Henry Corbin, Templo y contemplación, cit., p. 334.
32. Henry Corbin, La paradoja del monoteísmo, Editorial Losada, Madrid, 2003, p. 22.
33. Henry Corbin, La paradoja del monoteísmo, cit., p. 30.

sábado, 14 de janeiro de 2012

"Serviço ao Estado" e Burocracia

por Julius Evola



Um sinal característico da decadência da idéia de Estado no mundo moderno está representado pela perda do significado daquilo que, em uma acepção superior, significa o serviço ao Estado.

Ali onde o Estado se apresenta como a encarnação de um poder, no mesmo tem uma função essencial aquelas classes políticas definidas por um ideal de lealismo, classes que, na ação de servir ao Estado, sentem uma elevadíssima honra e que, sobre tal base, elas participam da autoridade, da dignidade e do prestígio inerentes à idéia central, de modo tal de diferenciar-se da massa dos simples cidadãos "privados". Nos Estados tradicionais tais classes foram acima de tudo a nobreza, o exército, a diplomacia e, finalmente, aquilo que hoje se denomina a burocracia. É sobre esta última que nós queremos dirigir uma breve consideração.

Tal como foi definida no mundo democrático moderno do último século, a burocracia não é mais que uma caricatura, uma imagem materializada, opacada e defasada daquilo ao qual deveria corresponder sua idéia. Ainda prescindindo do presente imediato, no qual a figura do "estatal" se converteu na imagem esquálida de um ser em luta permanente com o problema econômico, de modo tal de ser já o objeto preferido de uma espécie de ludibrio e de amarga ironia, ainda prescindindo disso, o sistema apresenta caracteres inverossímeis. Nos atuais Estados democráticos se trata de burocracias privadas de qualquer autoridade e de qualquer prestígio, privadas de uma tradição no melhor sentido da palavra, com pessoal em excesso, medíocre, mal retribuído, caracterizado por práticas lentas, apáticas, pedantes e enfastiantes. O horror pela responsabilidade direta e o servilismo pelo "superior" são aqui outros traços característicos; no alto, outro traços que se encontra é um vazio escritorismo. Em geral, o funcionário estatal médio de hoje em dia se diferencia muito pouco do tipo genérico moderno do "vendedor de trabalho"; efetivamente, nos últimos tempos os "estatais" assumiram justamente a figura de uma "categoria de trabalhadores" que vai atrás das outras no que se refere às reivindicações sociais e salariais com agirações e até greves, coisas estas absolutamente inconcebíveis em um Estado verdadeiro e tradicional, tão inconcebíveis como o caso de um exército que se pusesse a fazer greve em uma determinada circunstância para impôr ao Estado, compreendido como um "empregador" sui generis, suas exigências.

Na prática, hoje se chega a ser empregado do Estado quando se carece de iniciativa e não se tem nenhuma perspectiva melhor na vida, tendo em vista um soldo modesto, porém seguro e contínuo: portanto algo próprio de um espírito mais que pequeno-burguês e utilitário.



E se na baixa burocracia a distinção entre quem serve ao Estado e um trabalhador ou empregado privado qualquer é a tal respeito quase inexistente, nas altas esferas o burocrata se confunde com o tipo do politiqueiro. Temos assim "honoráveis" e "pessoas influentes" investidas do poder de governo, porém na maioria das vezes sem o correlato de uma verdadeira e específica competência, as quais nos arranjos ministeriais tomam-se ou mudam-se as pastas de um ou outro ministério, apurando-se em chamar ao seu redor os amigos ou companheiros de partido, tendo menos em vista o fato de servir o Estado ou ao Chefe do Estado quanto o de tirar proveito da situação.

Este é o lamentável espetáculo que hoje nos apresenta tudo o que é burocracia. Podem influenciar aqui razões técnicas, o desmedido crescimento das estruturas e superestruturas administrativas e dos "poderes públicos": porém o ponto fundamental é uma queda de nível, a perda de uma tradição, a extinção de uma sensibilidade, todos estes fenômenos paralelos ao do ocaso do princípio de uma verdadeira autoridade e soberania.

Nos vem à mente o caso de um funcionário, que pertencia a uma família da nobreza, o qual apresentou sua demissão quando caiu a monarquia de seu país. Perguntou-se-lhe então: "Como é que vossa senhoria, possuidor de riquezas incalculáveis, podia ser um funcionário assalariado, sem ter nenhuma necessidade disso?". O estupor de quem se sentiu fazer semelhante pergunta não foi menor do que daquele daquele a quem ela havia sido feita: posto que ele não podia conceber uma honra maior que a de servir ao Estado e a seu soberano. E, desde a perspectiva prática, não se tratava aqui de uma "utilidade", senão da aquisição de um prestígio, de um "nível", de uma honra. Porém hoje em dia, quem não se assombraria se o filho de um grande capitalista ambicionasse converter-se em um..."estatal"?

Nos Estados tradicionais o espírito antiburocrático, militar, do serviço ao Estado teve seu simbolo no uniforme o qual, assim como os soldados, endossavam também os funcionários (note-se como no fascismo existiu um desejo de retomar tal idéia). E em contraposição com o estilo do alto funcionário de hoje em dia que faz servir seu posto a suas utilidades individuais, existia neles o desinteresse de uma impessoalidade ativa. Na língua francesa a expressão: "On ne le fait pas pour le Roi de Prussie" quer dizer aproximadamente: se faz ainda quando não nos vem uma moeda no bolso. É uma referência àquilo que, pelo contrário, foi o estilo de puro e desinteressado lealismo que constituiu o estilo da Prússia de Frederico II. Porém também no primeiro auto-governo inglês as funções mais altas eram honoríficas e confiadas a quem gozasse de uma independência econômica, justamente para garantir a pureza e impessoalidade da função e simultaneamente o correspondente prestígio. 

Tal como se mencionou, a burocracia em sentido negativo formou-se paralelamente com a democracia, enquanto que os Estados da Europa Central, por terem sido os últimos a conservar os traços tradicionais, conservam também muito do estilo do puro e antiburocrático "serviço ao Estado". Mudar as coisas, em especial na Itália, é hoje uma tarefa desesperada. Existem gravíssimas dificuldades técnicas, assim como financeiras. Porém a maior dificuldade se encontra naquilo que deriva da queda de nível do espírito burguês, do espírito materialista e vantagista, da carência de uma idéia de verdadeira autoridade e soberania.