segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O Verdadeiro Estado Segundo Platão

por Giorgio Freda



"Nós acreditamos tornar o Estado feliz não convertendo em felizes dentro do Estado a alguns poucos indivíduos, considerados em forma separada e singular, senão ao Estado em seu conjunto". (Politeia, 420c)

Os modernos atribuem à justiça um fundamento exclusivamente de caráter moral.

Sobre a base de tal caráter, os mesmos converteram a justiça em um valor do mundo moral, em um mandamento da consciência, situado in interiore homine.

Rompida a relação analógica entre o mundo divino e o humano, o mundo divino perdeu seu caráter concreto, de realidade natural que a atribuíam os antigos e, consequentemente, ao humano foi subtraída a dimensão divina: como resultado disso derivou a fratura entre as duas ordens e a progressiva queda de seus caracteres divinos - convertidos em elementos morais - no mundo da consciência por um lado e a absolutização do humano, reduzido a termos profanos e "laicos", pelo outro.

Não deve-se atribuir totalmente à virulência do Cristianismo o haver quebrado esta unidade originária; o Cristianismo mais bem valeu para constituir a consequência de um processo de dissolução - ou, melhor ainda, de derrocada acontecido nas duas entidades - dissolução que não obstante já preexistia-lhe. A aparição do Cristianismo significou, em um certo sentido, a "consciência" da crise, a representação, inserida em termos de hábeas teológico, de um estado de ânimo que vinha assumindo tais características lentamente, pelo menos desde alguns séculos antes de sua chegada.

Não é este o lugar - nem nós estaremos suficientemente qualificados - para determinar as fases da passagem de uma afirmação objetiva, "nua", ativa, do valor-justiça, à interiorização emotiva, moralista, passiva do mesmo na consciência humana: acreditamos que seja suficiente para nossos fins, partir do pressupostos de que a sensibilidade clássica não admitisse hiato algum entre o mundo dos valores e o mundo político, entre a esfera da consciência moral e o plano dos princípios políticos, sendo este hiato uma consequência que resulta inerente às concepções dos modernos, e que seria ilícito referi-lo aos antigos, se não fosse colocado em evidência o caráter abstratos que os termos de tal separação traíam para eles.

Consequentemente é arbitrário em relação à concepção clássica distinguir a justiça entre justiça "individual" e justiça "social": para Platão existe a justiça-idéia, a justiça-valor, a qual aplica-se seja à alma individual como ao corpus estatal.

A justiça é um valor que é realizado pelo conjunto dos cidadãos segundo o paralelismo absoluto com a realização do mesmo por parte da alma individual: pelo que política é "cuidado da alma" e o que se ocupa da saúde da alma, também o faz "da pólis em si mesma".

Assim pois, no Górgias, Sócrates denomina "política" a arte que toma como objeto a alma: esta é a concepção clássica para a qual o lugar natural do homem é o Estado e não o indivíduo, nem as estruturas políticas tem em si mesmas uma existência autônoma, senão que ambos estão movidos por uma tensão que os organiza e integra necessariamente.

Ainda assim no século IV emergia sempre mais rapidamente um estado de ânimo individualista que, por efeito de novas exigências e sob o influxo da investigação sofística, tendia a contrapor à esfera dos interesses e das necessidades individuais a atividade da pólis que tais interesses tratavam de incluir dentro dos limites coercitivas da lei; ainda assim aflorava quase como um leitmotiv na investigação sofística a antítese natureza-lei, a alma grega devia igualmente permanecer - em sua essência e não obstante tais "incertezas" - ancorada àquela identidade natural de indivíduo e de Estado, que operava para ela à maneira de um cânon normativo.

Também para Sócrates em efeito, a ciência do humano significa investigação e conhecimento do homem integral, em seu aspecto individual e em seu aspecto político: é apenas a perspectiva segundo a qual se assume o homem - objeto unitário e idêntico em seus aspectos - que muda.

Através desse aspecto da influência socrática nós podemos compreender como Platão, na medida em que tenda a buscar o melhor modus vivendi, o conhecimento daqueles princípios que induzirão no homem a posse da sabedoria, se encarrega do mesmo modo a determinar a melhor forma de Estado, o Estado perfeito, cuja meta suprema é a "felicidade".

O que importa agora é desenvolver a premissa inicial da inseparabilidade entre "moral" e política ou, se for preferido, entre ética individual e ética "social"; quer dizer, ressaltar como os dois termos, na existência dual na qual nós os captamos, não tenham uma autêntica realidade segundo a obra de Platão, posto que a justiça individual não assume um significado propriamente "moral" e ao regime platônico, ademais, não são inerentes os elementos profanos e temporais que o cidadão moderno atribui necessariamente ao Estado. Portanto, trata-se é de dar razão da correspondência analógica entre indivíduo e Estado na determinação platônica da justiça.

Segundo Platão, assim como a justiça no homem é relação que integra harmonicamente os três graus da vida individual e se põe como virtude que fortalece e une à sabedoria, à coragem e à temperança, da mesma maneira no Estado a mesma se determina como o elemento que vincula, coordena as três castas, vistas sob o perfil das funções que as mesmas exercem. Ele reputa que o elemento fundamental no ser humano encontra-se constituído pela alma e do outro lado, o que assume maior importância na atividade humana é a política, quer dizer, tudo o que concerne ao funcionamento orgânico da cidade. Alma humana e sociedade estatal tem a mesma estrutura: na uma e na outra a mesma causa produz o mesmo efeito. Por isso a injustiça não é somente uma forma particular de desordem, senão a desordem mesma naquilo que ela traz como mais perigoso e característico, incidindo seja no Estado como na alma humana quando uma casta ou uma das faculdades da alma, em vez de permanecer no lugar que a natureza assignou para ela, desenvolvem uma função que não lhes é própria. Assim como a alma injusta é aquela na qual não existe subordinação das outras faculdades ao nous, cujo rol é o de conduzir ao homem para a realização do Bem; da mesma maneira a cidade injusta é aquela na qual a autoridade não é exercida pelos philosophoi, quer dizer, pelos que em exclusividade possuem o conhecimento do Bem.

Porém a afirmação de que os mesmos caracteres diferenciais se põem no indivíduo no mesmo lugar que no Estado, quer dizer, que existe um só problema da injustiça e que o mesmo formula-se tanto para o indivíduo como para o Estado; que da justiça - em si mesma unitária - sejam expressadas simples "aplicações", paralelas, nos dois níveis: esta afirmação não é demonstrada por Platão. Ele não formula o problema de verificar se os suportes de tal injustiça, representados respectivamente pelo indivíduo e pelo Estado, sejam suscetíveis de ser contrastados entre si. A questão a resolver está constituída por ele pela delimintação dos elementos substanciais da justiça, não dos termos formais aos quais a mesma é inerente.

Que a justiça, em efeito, pondo-se como cânon normativo para o homem tenha que se apresentar na mesma medida também para o Estado e vice-versa, é um dado que Platão aceita "naturalmente", como pressuposto: pressuposto que não é convertido em termos de demonstração, não porque seja indemonstrável como princípio de raciocínio, senão justamente pela espontânea objetividade com a qual seu reconhecimento se impõe. Já vimos de passagem - ainda de modo incompleto - como a idéia de fazer aderir o indivíduo ao "regime político", de construir uma relação entre o ser individual e o Estado, fora reconhecida de maneira totalmente natural pelos antigos gregos.

Era em efeito espontaneamente aceita pelos gregos a concepção de que a ética individual estivesse relacionada ao organismo político, assim como o princípio segundo o qual as duas entidades se determinam reciprocamente em uma relação de mútua coordenação.

É portanto oportuno repetir que na pólis antiga não existe solução dualista entre indivíduo e cidade, nem o indivíduo nem a cidade tem uma existência concluída em funções e limites específicos e como tais exclusivos: existe o cidadão que é homem inserido na cidade e existe a cidade que é cidade do cidadão.

Para voltar a Platão, sobre a base dessa premissa é necessário ressaltar que a analogia não constitui o elemento de uma investigação "original" relativa ao filósofo, senão que a mesma remete a uma tendência dominante no mundo grego. Platão não tinha nenhuma necessidade de buscar a identidade "formal" homem-Estado, posto que para ele o problema não se apresentava, faltando aos termos o mesmo caráter dual que lhes é concedido pelos modernos.

Em efeito, quando na Politeia Sócrates propunha transferir a investigação da justiça do nível espiritual ao estatal, ninguém formula objeção alguma, posto que a transferência é reputada como legítima: posto que não se trata aqui de mudança de substância, senão de mudança de plano, de perspectiva, de ângulo de visão.

De Platão emerge por sua vez a intensificação de tal pressuposto unitário, que converte em ainda mais evidente a analogia quando o pressuposto chega a ser distinto em seus componentes. A identidade qualitativa do homem com a sociedade política induz em efeito um laço estreito entre organismo individual e organismo estatal: tendo as duas entidades "a mesma estrutura, as mesmas necessidades, o mesmo princípio organizador", posto que para Platão a cidade é um ser vivo. Platão em relação a isso é explícito, desenvolvendo a comparação pela qual o Estado e o indivíduo apresentam os mesmos traços: com a diferente de que os da cidade são escritos em dimensões maiores e a leitua emerge mais facilmente. O Estado não é pois senão a "imagem engrandecida" da pessoa e assim como a essência da pessoa resulta ordenada pela Virtude que confere harmonia às outras virtudes, no mesmo princípio está também fundado o Estado. O Estado é em suma a pessoa mesma, constitui sua alma mais vasta, de modo que não existe alguma relação de alteridade entre cidadão e Estado: ao colocar-se o Estado como imagem da alma individual em um nível diferente e ao possuirem as virtudes da alma valores éticos e políticos ao mesmo tempo.

Acima de tudo a partir do livro IV da Politeia emerge tal continuidade de natureza entre indivíduo e Estado, pelo qual - tal como foi antes ressaltado - a passagem do nível da ética ao da política mais que uma passagem verdadeira e própria é um colocar-se sob os diferentes ângulos de visão.

Em tal maneira nós assistimos ao fato de que Platão não se preocupa em formular um plano de "constituição" política, senão de determinar as "virtudes" postas como fundamento do Estado e é sintomático que, quando qer dar uma imagem geral da Politeia ele a defina como: "o Estado no qual os desejos de uma massa viciosa são dominados pelos desejos e pela sabedoria de uma minoria virtuosa".

A meta suprema, seja do indivíduo como do Estado, é a felicidade no sentido clássico de integração, de plenitude e de participação no divino.
Tendo em vista tal fim, o Estado não se coloca como realidade exterior à alma, senão como íntima presença no homem: enquanto que o mesmo permaneça como simples estrutura exterior, como mero fator de organização social, não é o Estado segundo a justiça. Chegará a ser se ordena-se em seu núcleo metafísico, na idéia de valor que o verdadeiro Estado tem em comum com o cidadão justo. Razão pela qual - tal como se ressaltou - entre a realidade deste e a realidade do indivíduo não existe diferença ontológica alguma, senão em todo caso, uma distinção de possibilidade e de intensidade, desde o momento em que a pólis representa o centro de tensão a fim de que o cidadão converta-se em eudaimon (feliz).
Porém qual valor ou função representa o Estado perante o cidadão? É evidente - segundo o que tratamos de ressaltar antes - que o problema - tal como está apresentado - é tão somente para aqueles que, interpretando em termos duais os termos Estado e cidadão, referem a mesma alteridade à concepção platônica. Duas teses despertam de modo prevalecente o interesse a tal respeito: a primeira se refere aos que apresenta o Estado platônico como Estado totalitário; a segunda é própria de quem atribui à Politeia uma "função ética" a serviço da alma individual.

No que concerne à tese que divida na Politeia platônica os elementos típicos dos regimes totalitários, nós reputamos que a idéia de converter o Estado em uma entidade "divinizada" ante a qual a pessoa deve sacrificar-se e à qual deve referir a razão das próprias ações, seja completamente estranha à postura platônica. Se nós consideramos todas as funções ou melhor, as aplicações do totalitarismo, uma comparação de qualquer tipo do mesmo com um sistema que - como a Politeia - esteja fundado na identidade entre a economia interior da alma individual e a vida do Estado, é de um absurdo evidente. Se do Estado platônico afloram elementos aptos a conformar em aparência a tese de um Estado "centralizador", não é de Estado totalitário em suas típicas dimensões do que aqui se trata. No sistema totalitário a unidade é imposta desde o exterior, não sobre a base de um princípio emanado do alto, de uma natural e reconhecida autoridade, senão de parte de um poder político materialista. O mesmo se afirma como uma das últimas implicâncias - no âmbito político - da decadência que já se havia iniciado com a cisão do elemento humano, laico, em relação ao elemento sagrado. A esclerose típica do Estado totalitário, o instinto de truncar toda harmonia e toda liberdade diferenciada que no mesmo se queira realizar, a absolutização conferida à esfera inferior das necessidades humanas e outros elementos que é inútil ressaltar neste lugar, se encontram em antítese radical com as formas orgânicas do Estado platônico, com a multiplicidade e vivacidade das funções presentes no mesmo, com a Idéia transcendente sobre o qual se apoia. Mais exatamente, as articulações diferenciadas e orgânicas do Estado platônico são tais que não se tenha que falar em totalitarismo, senão de "ordem total", que se apresenta com relação ao cidadão com os mesmos caracteres do cosmos interior ao nível individual. As preocupações dos governantes "ideais" não se identificam pois com as instâncias vulgares que conferem a preeminência - no marco das formas estatais que os tempos modernos vão desenvolvendo - aos fatores materialistas, econômicos e tecnicistas: para Platão a política permanece sempre aderida a um cânon normativo e a uma função formativa que, enquanto tal, assume como sujeito próprio à alma do cidadão e a suas inclinações. 

Porém neste ponto, é necessário tomar postura contra a tese oposta, que queria atribuir ao Estado platônico a função de auxiliar da moral individual ponto a atividade política como suborrdinada desta.

Reputamos que a tese do fundamento moral do Estado platônico vale para restringir a politeia dentro dos limites de uma atividade puramente temporal, humana, suscitadora de "virtudes" no sentido moderno do termo: sem situa-la portanto no domínio que lhe resulta própria.

Agora bem, segundo nós, a polis representa no sistema platônico o elemento de mediação que favorece a reintegração do cidadão na realidade divina: através do Estado, o cidadão realiza a superação da mera ética individual para abrir-se a uma realidade que o transcende. Não deve pois considerar-e o Estado platônico nem como fim (Estado totalitário, entidade laica sublimada e divinizada) nem como elemento funcional restringido à consciência do homem. Caso se queira, pode-se também dizer que o Estado está "em função" da relação harmônica entre os poderes da alma, advertindo não obstante que fundar a justiça in interiore homine não significada de modo algum para Platão limitar tal realização ao interior da consciência humana, posto que, diz Platão, ao expressar Deus todo bem, portanto também o justo cumprimento de todo esforço para converter-se em justos significa tender a converter-se em similares a Deus. 

A justiça na alma constitui o pressuposto da ascensão ao divino: é o Estado que, realizada a justiça, induz no indivíduo uma tensão anagógica, na direção do suprahumano. Portanto o que é moral individual, em contato com a ordem representada pelo Estado, abre-se, intensifica-se, objetiviza-se, converte-se em uma ética absoluta e desligada daqueles traços de mera "virtude" que os modernos são levados a lhe atribuir.

Portanto - segundo nós - quando se fala em prioridade do homem em relação ao Estado segundo Platão, nos fechamos em uma abstração tão absurda como a que resulta de atribuir à Politeia uma dimensão totalitária. Platão não fala de homens tal como nós estamos levados a conceber: os homens de Platão são seres diferenciados, cada um dos quais possui uma determinada categoria, uma diferente liberdade, um diferente estilo.
Estes homens são assumidos como objeto da obra do Estado e sua perfeição é o fim ao qual o ordenamento estatal está subordinado. Em relação a isso se tem falado de função anagógica da ordem política, ou bem do que constitui sua legitimação: cultivar, suscitar, sustentar as disposições de quem se insere no mesmo organicamente, e atuar em função do que vai mais além da simples individualidade.

Isso é possível enquanto a politeia, encarnação da justiça, vale como ordem que participa hierarquicamente da "estabilidade" em sentido espiritual, como o reflexo "eficaz" do mundo do ser, quer dizer da idéia do Bem, sobre o devir.

Somente os modernos podem conceber a existência de uma ordem política que reclama sua própria legitimidade e a própria destinação da vida associada simplesmente temporal: assim como pertence à decadência dos modernos o pensamento de que seja somente a "moral" que se propõe o problema do fim último do homem. Na politeia platônica - como por outra parte em todos os regimes políticos "normais" - o Estado está sustentado por um poder não-humano, por uma idéia e por um significado extranatural: portanto, enquanto expressão de uma realidade sobre-elevada, o Estado deve valer também como "via" para a mesma.

Para concluir, em Platão a instância política está legitimada por valores supraindividuais e é tarefa do Estado a de atribuir a tais valores seu lugar em uma ordem completa, de modo a realizar em sentido superior a justiça. Portanto o Estado determina a direção a seguir a fim de que os cidadãos vivam na prática dos valores na terra e mereçam a eudamonia (felicidade) que os Deuses concedem a quem vive de acordo à justiça.

O regime platônico emerge de uma idéia determinada do destino do homem e dos deveres que ao mesmo se impõem: neste Estado os governantes tem os olhos dirigidos para a idéia do Bem ao qual os mesmos tentam aderir com sua ação política. Não se trata nem do bem da alma individual como "prática da virtude", nem do bem do Estado: senão do Bem absoluto, do princípio dividno que somente em forma impessoal aparece; do supremo, como tal superior à existência - porque nada existe sem ele - e à essência, porque não pode estar concluído em alguma definição.

É nestes termos que fica reduzido o significado da Politeia platônica: surgida da existência de fundar a "felicidade", a mesma "ordena" os momentos através dos quais o homem chega ao fim da viagem justamente à eudaimonio, que consiste em sua participação no divino. O Estado não pode existir sem uma tensão de vontade da parte do homem (acima de tudo do homem-philosophos) para aderir ao Bem autêntico, porém é a sua vez verdade, reciprocamente, que somente esta Politeia pode permitir ao sábio elevar-se à idéia do Bem.

É somente na perfeita polis que o sábio opera realizando aquela perfeição integral, aquela "felicidade" à qual aspira: portanto a ação política se impõe ao sábio como aquilo que deve ser feito. Por isso ele deverá voltar a descer à caverna para instruir e governar os prisioneiros. O mito da caverna não assume outro significado: o homem político possui a vocação de operar em termos políticos e operar em termos políticos significa conduzir para a realidade verdadeira - que é a realidade divina - os governados. Justamente em relação com este significado antes se considerou como dominante do Estado o caráter de mediação, de relação: quer dizer de "via" que vincula a existência humana com a realidade suprahumana.

E a tal direção para o alto nós devemos nos remeter para considerar a Politeia platônica, obra nascida em uma época que já apresentava elementos de ruptura, como uma tentativa orgânica de restaurar não tanto o aspecto político exterior, quanto o significado e a posição do homem em sua relação com a realidade divina.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Julius Evola - Roma e o "Natal Solar" da Tradição Nórdico-Ária

por Julius Evola


No plano espiritual, a doutrina da raça deveria ter, pelo menos, entre outros, dois resultados de grande importância. Em primeiro lugar, com um retorno à origem, essa deve conduzir de volta à luz e aos significados mais profundos das tradições e dos símbolos, que se são obscurecidos no curso dos milênios, ocorre de não sobreviverem a não ser como fragmentos esparsos, decaídos em costumes e em festas convencionais. Em segundo lugar - e não sem relação a isso - a doutrina da raça deve reviver a sensibilidade por uma concepção vivente do mundo e da natureza, a limitar o poder da concepção racionalista, profana, cientificista e fenomenicista, pela qual o homem ocidental tem estado seduzido por quase um século. E, em relação a esse senso vivente e espiritual das coisas e dos fenômenos, o melhor ponto de referência pode ser dado sobretudo pela concepção "solar" e heroica, que a mais antiga tradição ariana tinham como própria.

Poucos suspeitam que as festas do dia de hoje, que mesmo atualmente, no século dos arranha-céus, da rádio, dos grandes movimentos das massas, são celebradas e até nas metrópoles bem como nas trincheiras, nas máquinas de guerra e nas massas combatentes, continuando uma tradição remota, que reporta aos tempos de outrora, quase à aurora da humanidade, quando se iniciou o movimento ascendente da primeira civilização ariana; uma tradição, na qual porém se expressa menos uma crença particular do homem, do que a grande voz das coisas mesmas.

Querendo dizer qualquer coisa a propósito, deve-se notar, em primeiro lugar, um fato ignorado por muitos, vale dizer, que originalmente a data do Natal e do início do novo ano coincidiam, não sendo essa data arbitrária, mas ligado a um evento cósmico preciso, com o solstício de inverno. O solstício de inverno cai, na verdade, em 25 de dezembro, que é a data do Natal, sucessivamente conhecido, mas que na origem tinha um significado essencialmente "solar". Isto aparece ainda na Roma antiga: a data de Natal na Roma antiga era a da ascensão do deus invencível Sol - Natalis solis invicti -. Com ele, vem o dia do novo sol - dies solis novi - na época imperial vésperas do início do ano novo, o novo ciclo. Mas este "Natal solar" do período imperial de Roma, por sua vez, refere-se a uma tradição bem mais remota de origem nórdico-ariana. Além disso, Sol, a divindade solar aparece já entre os dii indigetes, ou seja entre as divindades de origem romana, recebidos dos mais antigos ciclos civilizatórios. Na verdade, como se diz, a religião solar do período imperial, em grande parte teve o significado de uma recuperação e quase de um renascimento, ainda que infelizmente prejudicada por vários fatores de decomposição de uma antiquíssima herança ariana.

Já a pré-história itálica pré-romana está cheia de vestígios de que o culto solar: carros solares, discos radiantes, estrelas radiantes, cruzes de todos os tipos, sem excluir suásticas gravadas, por exemplo, em eixos arcaicos encontrados em Piemonte e na Ligúria. Por tal via pode-se constatar a passagem, na Itália antiga, da mesma tradição, que desde a Idade da Pedra deixou vestígios semelhantes ao longo de todas as rotas das grandes migrações ano-ocidentais e nórdico-arianas. Símbolos, sinais, hierogramas, notações de calendário ou astrais rudimentares, figuras em vasos, armas ou ornamentos, disposições enigmática de pedras rituais ou de cavernas, ademais, mais tarde, mitos e rituais sobreviveram em civilizações tardias, se estudados segundo o novo ponto de vista próprio das pesquisas espirituais e raciais do mundo originário, no entanto, fornecem evidência consistente e inequívoca não só sobre a presença de um culto solar unitário como centro da civilização dos povos arianos primordiais, mas também sobre a importância especial que entre eles tinha a data do "Natal", ou seja, a do solstício de inverno, 25 de dezembro.

Para que não restem dúvidas, no entanto, será por bem lembrar a uma certa classe de leitores aqui o que já tivemos ocasião de notar, isto é, que falar de um culto pré-histórico solar não se deve pensar em em formas inferiores da religião "naturalista" e idólatra. É um mito, que a humanidade antiga, e especialmente a da grande raça ariana, divinizasse supersticiosamente fenômenos naturais - é verdade, ao contrário, que a antiguidade concebia fenômenos naturais essencialmente como símbolos sensíveis de significados superiores, espirituais - portanto, mais ou menos como sustentáculos espontaneamente oferecidos ao sentidos frente a natureza de modo a poder pressentir estes significados transcendentes. Que as coisas entre entre a parte menos qualificada de um dado povo antigo talvez possa ter se dado de modo diferente, é algo possível de se conceber, mas isso prova tão pouco quanto o fato não raro de alguns cultos cristãos assumirem forma de superstição barata, em certas populações incultas e fanáticas do Sul. Evitando assim um equívoco conhecido, o significado simbólico de expressões arcaicas arianas como "luz dos homens", ou "luz dos campos" - landa ljòme - datas para o sol, deve ficar claro, e se pode também compreender, que o próprio curso inteiro do sol no ano, com suas fases ascendente e descendente, também são apresentados em termos de um grande símbolo cósmico. Neste evento solar o solstício de inverno constitui uma espécie de ponto crítico, vivido segundo uma particular dramaticidade no período no qual a estirpe ariana originária ainda não havia deixado a região na qual havia sobrevindo o clima ártico e o início de uma longa noite. Sob essas condições, o ponto do solstício de inverno - o mais baixo da eclíptica - aparece como aquele em que a "luz da vida" parecia morrer, ir para baixo, afundando na terra desolada e congelada, ou nas águas ou entre as madeiras escuras, mas aqui é onde de súbito novamente emerge a resplandecer uma nova luz.

Surge uma nova vida, põe-se um novo início, abre-se um novo ciclo. A "luz da vida", se reacende. Surge ou nasce da água o "herói solar". Da escuridão e do gelo moral vem um renascimento, uma liberação. A árvore simbólica da vida e do mundo se anima de novas forças. E em relação a todos estes significados que já em tempos pré-históricos anteriores em milênios à era vulgar uma quantidade de ritos e de festas sagradas celebravam a data do 25 de dezembro, como data de nascimento ou renascimento, no mundo tanto quanto no homem, da força "solar". Pouco é sabido que a própria árvore de Natal tradicional, ainda em uso em muitos países e em parte na Itália, mas sob a forma de um rosto de bebê ou, na melhor das hipóteses, com boas famílias de classe média, é um eco residual próprio daquela antiquíssima e severa tradição ariana e nórdico-ariana . Tal árvore, feita a partir de uma perenifólia, "sempre verde", semper virens, ou seja, que não morre no inverno, pinheiro ou abeto, reproduz a árvore arcaica da vida ou do mundo, que ao solstício de inverno se ilumina de nova luz, coisa expressa pelos candelabros e luzes que usamos como adorno e que são acesas nessa data. E os "presentes" que a árvore guarda - hoje, presentes simples para crianças - na verdade, retratam simbolicamente o "dom da vida" próprio à força solar que nasce ou renasce. Mas quando o semper virens, a planta que não morre, se renova e se ilumina é, no simbolismo primordial, mesmo aquele em que, como dissemos, surge das águas o "herói solar" ao mesmo modo que, segundo um rito que continuou até o fim do Medievo guibelino depois de ter tido uma parte importante nas lendas relativas a Alexandre Magno, a árvore cósmica é também uma árvore "solar" tendo uma relação íntima com a chamada "árvore do império" - arbor solis, arbor imperii.

Isso nos leva a considerar um outro aspecto muito interessante das tradições em questão, para a qual nos referimos particularmente ao mundo romano antigo. O mitraísmo, ou culto de Mitra, como é conhecido, é a forma tardia assumida pela antiga religião ário-irânica (mazdeana), em uma formulação particularmente adaptada a uma mentalidade guerreira. Difundido este culto na romanidade, sob Aureliano a data do "natal solar ou solstício de inverno", o 25 de dezembro, identificou-se à da celebração do Natalis Invicti, ou seja do nascimento de Mithra considerado como "herói solar".

Sobre o mitraísmo em Roma, como já foi mencionado, seria muito superficial, se não completamente rude, falar pura e simplesmente de "importações" ou "influências orientais": o Oriente daquela época era uma coisa muito complexa, na qual figuravam elementos muito heterogêneos - mas entre eles, indubitavelmente, também uma parte importante e incorrupta da antiquíssima herança espiritual dos povos arianos e indo-europeus. Com respeito à relação que foi estabelecida entre Mithra e o "natal solar" romano, um importante estudioso salientou muito justamente que esta não foi uma alteração, mas sim uma renovação do calendário romano segundo aquele seu antigo aspecto astronômico e cósmico, o qual havia sido vigente na época primitiva de Rômulo e de Nula e que conferia às festas o significado de grande símbolo na coincidência das datas com grandes épocas da vida do mundo.

Depois disso, é importante examinar o atributo de invictus-aniketos - dado a Mithra - ao herói solar - e à própria força solar na nova concepção romana. É um atributo "triunfal". Na originária tradição ário-irânica e afins esse é o atributo de toda natureza celeste e, eminentemente, do sol, enquanto luz que vence as trevas, força luminosa urânica contra a qual as forças da noite e das terras sombrias nunca prevalecem. Mas, em Roma, vemos que o mesmo epíteto invictus torna-se título imperial, cesáreo, e nós sabemos que o mithraísmo, mais que ser culto de uma divindade abstrata, pretendia "induzir" por assim dizer - a própria qualidade de Mithra no iniciado, por meio de uma certa transformação de sua natureza. É aí evidente a tendência a compreender ainda que em modo simbólico e analógico o atributo "solar", de modo a permitir fazer com que este valha para o homem e, propriamente, assinalar o tipo e o ideal de uma humanidade superior - para não dizer até mesmo de uma "supra-humanidade" . Como o sol nasce novamente, eternamente triunfante sobre as trevas, assim também, em uma vitória perpétua interior sobre a natureza mortal e instintiva, transmuta-se o ser rendendo uma virtude mística, em via normal, eminentemente adequada à função de rei, de chefe, de Duce. É assim que, em Mithra, o "herói solar", foi venerado em Roma um fautor imperii, na medida em que ele estabelecia uma relação íntima do simbolismo solar com a idéia de realeza e de império, em sua mais elevada forma. Tal relação foi particularmente enfatizada nas tradições heróicas dos povos antigos arianos, e nós, neste mesmo local, falamos sobre como lidar com a doutrina mística da "glória". Não querendo repetir, então, o que foi dito, vamos apenas mencionar a presença dos mesmos significados na Roma antiga. A victoria Caesaris, ou seja, a força mística triunfante que, no símbolo de uma estatueta, de um César era transmitida a outro, reflete exatamente a mais antiga tradição ário-iraniana sobre a realeza e o suposto hvarenò: porque, como já mencionado no "artigo mencionado, o hvareno é como que uma força misteriosa "solar" de invencibilidade e de "glória" que investe os líderes, fazendo deles algo mais que homens e cinge-lhes com os louros da vitória.

Uma antiga efígie romana do Sol retratando esse deus com a mão direita levantada num gesto simbólico de proteção "pontifícia" e com a mão esquerda segurando uma esfera, o símbolo de dominação universal. Em outra imagem, no entanto, vê-se o mesmo deus que transmite o globo ao imperador, próximo a inscrições, as quais referem-se à "solaridade", à estabilidade e ao imperium de Roma: Sol conservator orbis, Sol dominus romani imperii. Outro medalhão particularmente interessante traz porta na direita a imagem laureada do imperador - com a cabeça cingida com a sempre virens, com suas folhas imperecíveis: no verso há o deus solar com a esfera, porém mais que isso, ao lado, uma suástica (dessas que vemos presentes na Roma antiga) e a escrita: soli invicto comiti, isto é: ao deus do sol, companheiro invencível. Ainda uma imagem conservada no Museu Capitolino - mostra a associação do símbolo do Sol sanctissimus com a Águia, com o animal fatídico de Roma, que se pensava fosse também aquela forma na qual o espírito transmutado dos imperadores mortos vinha simbolitcamente para marcar a pira funerária no céu. Testemunhos semelhantes podem ser facilmente multiplicadas. É seguro dizer que eles falam de um verdadeiro "mandato divino Solar" qual alma viva daquela função imperial cesárea, que, para nós, no mundo antigo, foi uma espécie de último jorro de significados arcaicos que pouco a pouco perderam-se.

Na antiga semana romana o "dia do sol" era o "dia do senhor" - e este significado tem sobrevivido nos últimos tempos, até o final de domingo, de dominus, senhor, bem como na designação germânica sontag ou inglesa sunday pois o mesmo dia de "festa" conserva literalmente o significado de "dia do sol" e, com isso, o reflexo da antiga concepção solar ariana. Algo da sabedoria dos primórdios parece ter se preservado de alguma forma, na mesma festa atual de Natal, mesmo estando a celebração do ano novo dissociada dela. O simbolismo da luz é mantido ali - se recordamos por exemplo as palavras do prólogo do Evangelho de João: erat lux vera quae illuminat omnem venientem hominem venientem in hunc mundum - tal como o atributo de "glória", que aparece um tanto quanto oculto. Nos rastros monumentais do primeiro período românico o próprio símbolo da cruz se une ao símbolo do sol.


Na tradição ariana e nórdico-ária e na própria Roma o mesmo tema tinha uma capacidade não só religiosa e mística, mas sagrado, heróico e cósmica, ao mesmo tempo. Foi a tradição de um povo, ao qual a própria natureza das coisas falou em voz alta naquela data de um mistério da ressurreição, do nascimento ou renascimento de um princípio não apenas de "luz" e de uma nova vida, mas também de imperium, no sentido mais elevado e augusto do termo.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Filippo Marinetti

por Kerry Bolton



Filippo Marinetti, 1876 - 1944, era diferente da maior parte da vanguarda cultura do século XIX. Eles estavam rebelando-se contra o espírito de vários séculos de liberalismo, racionalismo, a ascensão das massas democráticas, o industrialismo, e o domínio da elite financeira. Sua revolta contra o impacto nivelador da era democrática não intencionava retornar a certas "idades do ouro" percebidas como a era medieval sustentada por Yeats e Evola, ou rejeitar a tecnologia em favor de um retorno à vida rural, como advogado por Henry Williamson e Knut Hamsun. Ao contrário, Marinetti abraçava os novos fatos da tecnologia, da máquina, da velocidade, e da energia dinâmica, em um movimento chamado Futurismo.

A resposta futurista para os fatos da nova era é então uma reação bastante singular dos artistas e letrados anti-liberais e uma que continua a influenciar certos aspectos de sub-culturas industriais e pós-industriais.

Marinetti nasceu na Alexandria em 1876. Ele formou-se em Direito em Gênova em 1899. Apesar de os aspectos políticos e filosóficos do curso terem mantido seu interesse, ele viajou frequentemente entre França e Itália e interessou-se pelas artes avant-garde do fim do século XIX, promovendo jovens poetas em ambos países. Ele já era um forte crítico das abordagens conservadores e tradicionais de poetas italianos. Ele era nessa época um entusiasta da música moderna e revolucionária de Wagner, vendo-a como assaltando "o equilíbrio e a sobriedade...a meditação e o silêncio..."

Por volta de 1904, elementos futuristas já haviam se manifestado em sua escrita, particularmente seu poema "Destruição" que ele chamou de "um poema erótico e anarquista", um eulogio ao "mar vingativo" como um símbolo da revolução. Após uma destruição apocalíptica, o processo de reconstrução começa nas ruínas do "Velho Mundo". Aqui já há o elogio da morte como dinâmica e transformadora.

Com a morte do pai de Marinetti em 1907, sua herança permitiu-lhe viajar bastante e ele tornou-se uma figura cultural conhecida por toda Europa. Nietzsche era à época um dos intelectuais mais conhecidos que desejavam a liberação da velha ordem. Nietzsche era amplamente lido pelos letrados da Itália, e o futuro colega intervencionista de Marinetti, D'Annunzio, era o mais proeminente em promovê-lo naquele país.

Entre os outros filósofos de particular interesse que Marinetti estudou estava o teórico sindicalista francês Georges Sorel. Esse sindicalismo soreliano rejeitava o marxismo em favor de uma sociedade composta por pequenas unidades cooperativas de produção ou sindicatos, e fundava um novo mito de ação e luta heróicas. Desprezando o pacifismo da Esquerda, Sorel via a guerra como uma dinâmica de ação humana. Sorel por sua vez foi ele próprio influenciado por Nietzsche, e aplicando o Super-Homem nietzscheano ao socialismo, afirma que a revolução proletária necessita de líderes heróicos.

Sorel tornou-se influente não apenas entre sindicalistas de esquerda mais também entre certos nacionalistas radicais tanto na França como na Itália. Uma manifestação disso foi o Círculo Proudhon na França composto por monarquistas direitistas maurrasianos e sindicalistas revolucionários sorelianos, e batizado em homenagem ao assim chamado "pai do anarquismo", em uma síntese que daria origem ao Fascismo naquele país ao mesmo tempo em que ele apareceu na Itália.

As idéias artísticas de Marinetti cristalizaram no movimento futurista que originou-se de um encontro de artistas e músicos em Milão em 1909 para rascunhar um Manifesto Futurista.  Com Marinetti estavam Carlo Carra, Umberto Boccioni, Luigi Russolo, e Gino Severini. O manifesto foi publicado pela primeira vez no jornal parisiense Le Figaro, e exortava a juventude a, "Cantar o amor pelo perigo, o hábito da energia e da ousadia". O movimento inicial atraiu o interesse de anarquistas e sindicalistas da esquerda não-ortodoxa que buscavam uma revolta contra a "segurança" democrática burguesa.

Em 1913 o programa político futurista foi publicado, o qual serviu como a base para o estabelecimento do Partido Político Futurista em 1918; isto é, depois que Marinetti deu início a uma campanha para a entrada da Itália na Guerra Mundial, junto com Mussolini e D'Annunzio.



O Primeiro Congresso Fascista foi realizado em Florença em 1919, e Marinetti ressaltou que a atmosfera era preponderantemente futurista em sentimento, mas um pacto eleitoral entre os futuristas e os fascistas foi abortivo, e Marinetti insistiu em aderir à esquerda radical, ao mesmo tempo que ele mantinha um grande elemento de apoio entre os fascistas

Em contraste com aqueles fascistas e nacionalistas que buscavam inspiração na Roma Clássica, os futuristas desprezavam toda tradição, tudo que pertencia ao passado: "Nós queremos exaltar o movimento agressivo...nós afirmamos que a magnificência do mundo foi enriquecida por uma nova beleza: a beleza da velocidade".

A máquina era poeticamente elogiada. O carro de corrida tornou-se o ícone da nova época, "que parece correr como uma metralhadora". A estética futurista devia ser a alegria na violência e na guerra, como "a única higiene do mundo". Movimento, energia dinâmica, ação, e heroísmo eram os fundamentos da "cultura do futuro futurista". A briga, a corrida, e o chute eram expressões de cultura. O Manifesto Futurista é tanto um desafio à ordem política e social como ao status quo nas artes.

Ele declarava:

1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.

3. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o extase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.

4. Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia.

5. Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.

6. É preciso que o poeta prodigalize com ardor, fausto e munificiência, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.

7. Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostar-se diante do homem.

8. Nós estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente.

9. Nós queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo - o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas idéias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.

10. Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academia de toda natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.

11. Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas; as estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as oficinas penduradas às nuvens pelos fios contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de carros; e o voo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multidão entusiasta.

É da Itália, que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência arrebatadora e incendiária, com o qual fundamos hoje o "Futurismo", porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários.

Já é tempo de a Itália deixar de ser um mercado de belchiores. Nós queremos libertá-la dos inúmeros museus que a cobrem toda de inúmeros cemitérios.

Museus: cemitérios!... Idênticos, na verdade, pela sinistra promiscuidade de tantos corpos que não se conhecem. Museus: dormitórios públicos em que se descansa para sempre junto a seres odiados ou desconhecidos! Museus: absurdos matadouros de pintores e escultores, que se vão trucidando ferozmente a golpes de cores e linhas, ao longo das paredes disputadas!

Que se vá lá em peregrinação, uma vez por ano, como se vai ao Cemitério no dia de finados... Passe. Que uma vez por ano se deponha uma homenagem de flores diante da Gioconda, concedo...

Mas não admito que se levem passear, diariamente pelos museus, nossas tristezas, nossa frágil coragem, nossa inquietude doentia, mórbida. Para que se envenenar? Para que apodrecer?

E o que mais se pode ver, num velho quadro, senão a fatigante contorção do artista que se esforçou para infrigir as insuperáveis barreiras opostas ao desejo de exprimir inteiramente seu sonho?... 
Admirar um quadro antigo equivale a despejar nossa sensibilidade numa urna funerária, no lugar de projetá-la longe, em violentos jatos de criação e de ação.

Vocês querem, pois, desperdiçar todas as suas melhores forças nesta eterna e inútil admiração do passado, da qual vocês só podem sair fatalmente exaustos, diminuídos e pisados?

Em verdade eu lhes declaro que a frequência diária aos museus, às bibliotecas e às academias (cemitérios de esforços vãos, calvários de sonhos crucificados, registro de arremessos truncados!...) é para os artistas tão prejudicial, quanto a tutela prolongada dos pais para certos jovens ébrios de engenho e de vontade ambiciosa. Para os moribundos, para os enfermos, para os prisioneiros, vá lá:- o admirável passado é, quiçá, um bálsamo para seus males, visto que para eles o porvir está trancado... Mas nós não queremos nada com o passado, nós, jovens e fortes futuristas!

E venham, pois, os alegres incendiários de dedos carbonizados! Ei-los! Ei-los!... Vamos! Ateiem fogo às estantes das bibliotecas!... Desviem o curso dos canais, para inundar os museus!... Oh! a alegria de ver booiar à deriva, laceradas e desbotadas sobre aquelas águas, as velhas telas gloriosas!... Empunhem as picaretas, os machados, os martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas!

Os mais velhos dentre nós têm 30 anos: resta-nos assim, pelo menos um decénio mais jovens e válidos que nós deitarão no cesto de papéis, como manuscritos inúteis. - Pois é isso que queremos!

Nossos sucessores virão de longe contra nós, de toda parte, dançando à cadência alada dos seus primeiros cantos, estendendo os dedos aduncos de predadores e farejando caninamente, às portas das academias, o bom cheiro das nossas mentes em putrefacção, já prometidas às catacumbas das bibliotecas.

Mas nós não estaremos lá... Por fim eles nos encontrarão - uma noite de inverno - em campo aberto, sob um triste telheiro tamborilado por monótona chuva, e nos verão agachados junto aos nossos aviões trepidantes, aquecendo as mãos ao fogo mesquinho proporcionado pelos nossos livros de hoje, flamejando sob o voo das nossas imagens.

Eles se amotinarão à nossa volta, ofegantes de angústia e despeito, e todos, exasperados pela nossa soberba, inestancável audácia, se precipitarão para matar-nos, impelidos por um ódio tanto mais mais implacável quanto os seus corações estiverem ébrios de amor e admiração por nós.

A forte e sã injustiça explodirá radiosa em seus olhos - A arte, de facto, não pode ser senão violência, crueldade e injustiça.

Os mais velhos dentre nós têm 30 anos: no entanto, temos já esbanjado tesouros, mil tesouros de força, de amor, de audácia, de astúcia e de vontade rude, precipitadamente, delirantemente, sem calcular, sem jamais hesitar, sem jamais repousar, até perder o fôlego... Olhai para nós! Ainda não estamos exaustos! Os nossos corações não sentem nenhuma fadiga, porque estão nutridos de fogo, de ódio e de velocidade!... Estais admirados? É lógico, pois não vos recordais sequer de ter vivido! Erectos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas!

Vós nos opondes objecções?... Basta! Basta! Já as conhecemos... Já entendemos!... Nossa bela e hipócrita inteligência nos afirma que somos o resultado e o prolongamento dos nossos ancestrais. - Talvez!... Seja!... Mas que importa? Não queremos entender!... Ai de quem nos repetir essas palavras infames!...

Cabeça erguida!...

Erectos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas.

Uma pletora de manifestos escritos por Marinetti e seus colegas seguiu-se, englobando o cinema, a pintura, a música, e a prosa futuristas, mais as implicações políticas e sociológicas.


Guerra, a Única Higiene do Mundo

O manifesto de Marinetti sobre a guerra mostra o lugar central que a violência e o conflito possuem na doutrina futurista, escrevendo da mesma maneira que em seu manifesto aos estudantes no ano anterior:

Nós Futuristas, que por maias de dois anos, desprezados pelos Aleijados e Paralisados, temos glorificado o amor do perigo e da violência, elogiado o patriotismo e a guerra, a higiene do mundo, estamos felizes em finalmente experimentar essa grande hora Futurista da Itália, enquanto a imunda tribo de pacifistas aninham-se agonizantes nas masmorras profundas do ridículo palácio em Haia. Nós tivemos recentemente o prazer de lutar nas ruas com os mais fervorosos adversários da guerra e gritar em suas faces nossas firmes crenças:

1. Todas as liberdades devem ser dadas ao indivíduo e à coletividade, menos a liberdade de ser covarde.
2. Que seja proclamado que a palavra Itália deve prevalecer sobre a palavra Liberdade.

3. Que a cansativa memória da grandeza romana seja cancelada por uma grandeza italiana cem vezes maior.
Para nós hoje, a Itália possui a forma e poder de um belo Couraçado de guerra com seu esquadrão de ilhas-torpedeiros. Orgulhosos de sentir que o fervor marcial por toda a nação é igual ao nosso, nós incitamos ao governo italiano, futurista finalmente, a magnificar todas as ambições nacionais, desdenhando as acusações estúpidas de pirataria, e proclamar o nascimento do Pan-Italianismo.

Poetas, pintores, escultores, e músicos futuristas da Itália! Enquanto a guerra durar deixemos de lado nossos versos, nossos pincéis, nossas escápulas, e orquestras! Os feriados vermelhos do gênio chegaram! Não há nada para nós admirarmos hoje além das espantosas sinfonias dos estilhaços e as insanas esculturas que nossa inspirada artilharia molda entre as massas do inimigo.

Soldado Artístico de Assalto

Marinetti empenhou seu caráter dinâmico em uma campanha agressiva para promover o Futurismo. Os futuristas objetivavam agravar a sociedade para longe da complacência burguesa e da existência segura através do teatro de rua inovador, da arte abrasiva, de discursos, e manifestos. O estilo oratório de Marinetti era ele próprio bombástico e trovejante. A arte ofensiva para a sociedade convencional e o establishment artístico. Se uma pintura era de um homem com um bigode, as suíças eram representadas com as cerdas do pincel coladas na tela. Um trem seria representado com as palavras "puff, puff".



Tanto as palavras como os feitos dos futuristas encaixavam-se na natureza da arte em expressar o desprezo pelo status quo com sua preocupação com "passadismo" ou o "passé". Marinetti por exemplo, descreveu Veneza como "uma cidade de peixes mortos e casas decadentes, habitadas por uma raça de garçons e cambistas".

Para o futurista Boccioni, Dante, Beethoven e Michelangelo eram "nauseantes", enquanto Carrà engajou-se em pintar sons, ruídos e até odores. Marinetti atravessou a Europa dando entrevistas, organizando exibições, encontros e jantares. Pôsteres em vermelhão com enormes letras quadradas soletrando "futurismo" foram colados por toda Itália em fábricas, salões de dança, cafés e praças. Performances futuristas foram organizadas para provocar tumultos. Colas eram colocadas em assentos. Dois bilhetes para um mesmo assento eram vendidos para provocar uma briga. "Música de ruído" (Noise) tocava enquanto poesia ou manifestos eram recitados e pinturas exibidas. Frutas e spaghetti estragados eram arremessados pela audiência, e as performances normalmente terminavam em pancadaria.

Marinetti respondia a deboches com humor. Ele comia a fruta lançada contra ele. Ele saudava a hostilidade como demonstrativo de que o futurismo não agradava ao medíocre.

Política

Os primeiros contatos políticos de Marinetti e os Futuristas foram com a esquerda ao invés de com a direita, apesar do nacionalismo extremo de Marinetti e seu elogio da guerra como a "higiene da humanidade, e seu apoio pelas aventuras embrionárias neo-imperiais da Itália, apoiando a invasão italiana da Líbia em 1912." Houve sindicalistas e anarquistas que compartilhavam das opiniões de Marinetti sobre a natureza energizante e revolucionária da guerra e deram-lhe uma audiência.

Em 1909, Marinetti participou das eleições gerais e publicou um "Primeiro Manifesto Político" o qual é anti-clerical e afirma que o único programa político futurista é o "orgulho nacional", pedindo pela eliminação do pacifismo e dos representantes da velha ordem. Durante esse ano, Marinetti esteve fortemente envolvido nas agitações pela soberania italiana sobre Trieste, governada pela Áustria. A aliança política com a extrema esquerda começou com o anarco-sindicalista Ottavio Dinale,  cujo jornal republicou o Manifesto Futurista. O jornal, La Demolizione era de uma natureza geral combativa, objetivando unificar em um "fascio" todos aqueles de tendências revolucionárias, para "fazer oposição com energia total à inércia e indolência que ameaça sufocar toda a vida". A frase é distintamente futurista.



Marinetti anunciou que ele pretendia fazer campanha política tanto como sindicalista como nacionalista, uma síntese que eventualmente emergeria no Fascismo. Em 1910, ele forjou elos com a Associação Nacionalista Italiana, que possuía um programa sindicalista, pró-trabalhador.  Em 1913, um manifesto político futurista foi publicado que demandava a expansão das forças armadas, uma "política externa agressiva", o expansionismo colonial, e o "pan-italianismo"; um "culto" do progresso, da velocidade, e do heroísmo; oposição à nostalgia por monumentos, ruínas, e museus; protecionismo econômico, anti-socialismo, anti-clericalismo. O movimento foi recebido com amplo entusiasmo entre estudantes universitários.

Intervenção

A chance para o "lugar sob o Sol" da Itália veio com a Primeira Guerra Mundial. Não apenas os nacionalistas demandavam a entrada da Itália na guerra, mas também certos sindicalistas revolucionários e uma facção de socialistas liderados por Mussolini. Dos letrados vieram D'Annunzio e Marinetti.

Em um manifesto endereçado aos estudantes em 1914 Marinetti afirma o propósito do futurismo e demanda a intervenção na guerra. O futurismo era o "médico" que curaria a Itália do "passadismo", um remédio "válido para todo país". O "culto dos ancestrais longe de cimentar a raça" estava fazendo dos italianos "anêmicos e pútridos". O futurismo estava agora "sendo plenamente realizado na Grande Guerra Mundial".



Sua exortação para que os estudantes italianos demandem o lugar da Itália no mundo através da participação na Guerra Mundial, garantia um aspecto romântico à campanha intervencionista que também foi assumida por D'Annunzio. Porém, longe de se inspirar na herança romana da Itália, Marinetti amaldiçoava o grande passado como um impedimento a um futuro ainda maior. Seu manifesto aos estudantes dá um insight no repúdio revolucionário do "passadismo" por Marinetti, porque "um passado ilustre está esmagando a Itália e um futuro infinitamente mais glorioso".

Esse "passadismo" era condenado junto com a arqueologia, o academicismo, a velhice, o quietismo, a obsessão com o sexo, a indústria de turismo, etc. "Nosso nacionalismo ultra-violento, anti-clerical e anti-tradicionalista é baseado na inexaustibilidade do sangue italiano e na luta contra o culto do ancestral, que, longe de cimentar a raça, faz dela anêmica e podre..."

Marinetti, como muitos sindicalistas que romperam com a perspectiva internacionalista do socialismo ortodoxo, via a guerra como uma causa revolucionária, descreveu a guerra como "o mais belo poema futurista que já foi visto até agora". O futurismo em si era guerra artística, e "a militarização dos artistas inovadores...", a guerra como ação revolucionária varreria do poder todos os representnates decrépitos do passado: "diplomatas, professores, filósofos, arqueólogos, críticos, a obsessão cultural, o grego, o latim, a história, o senilismo, museus, bibliotecas, a indústria de turismo, etc.". "A guerra promoverá a ginástica, o esporte, as escolas práticas de agricultura, comércio e indústria. A Guerra rejuvenescerá a Itália, a enriquecerá com homens de ação, a forçará a não viver mais do passado, de ruínas e do clima ameno, mas a partir de suas próprias forças nacionais".

Os futuristas foram provavelmente os primeiros a organizar protestos em favor da guerra, segundo o Professor Jesnen. Mussolini e Marinetti fizeram seu primeiro encontro conjunto em Milão em 31 de março de 1915. Em abril, ambos foram presos em Roma por organizarem um protesto.

Os futuristas não eram meros falastrões. Os futuristas estiveram entre os primeiros a se alistarem para serviço ativo. Quase todos eles se distinguiram na guerra, como Mussolini e D'Annunzio. O arquiteto futurista Sant Elia foi morto, bem como Boccioni. Marinetti alistou-se com o regimento Alpini e foi ferido e condecorado por valor.

Partido Futurista

Em 1918, Marinetti começou a dirigir sua atenção a uma nova Itália pós-guerra. Ele publicou um manifesto anunciando o partido político futurista, cujo nome, interessantemente, era Fasci Politici Futuristi. O manifesto, uma elaboração do Manifesto Político Futurista de 1913, demandava por "nacionalismo revolucionário", tanto por imperialismo como revolução social. "Nós devemos empreender nossa guerra até a vitória total".



As demandas do manifesto incluíam as 8 horas diárias de trabalho e salários iguais para mulheres, a nacionalização e redistribuição de terra para os veteranos; impostos pesados sobre a riqueza herdada e a gradual abolição do casamento através do divórcio fácil; uma Itália forte livre de nostalgia, turistas, e padres; e a industrialização e modernização de "cidades moribundas" que vivem como centros turísticos. Uma política corporativista demandava a abolição do Parlamento e sua substituição por um governo técnico de 30 ou 40 jovens diretores escolhidos das associações de ofícios.

O partido futurista concentrou sua propaganda nos soldados, e recrutou muitos veteranos de guerra das tropas de elite Arditi, as tropas de choque de camise negra do exército que investiam no combate nus até a cintura, com uma granada em cada mão e uma adaga entre os dentes. Enquanto o programa era extremo demais para ter apelo popular, ele conquistou muitos veteranos Arditi, que tornaram-se a base de um movimento político futurista. Em 1919 o veterano Arditi e futurista, Mario Carli, fundou a Associação Arditi, com Roma Futurista como seu órgão, e a associação logo teve 10.000 membros.
Em dezembro de 1919, os futuristas reviveram os "Fasci" ou "grupos", que haviam sido organizados em 1914 e 1915 para fazer campanha pela intervenção na guerra,  e dos quais emergeriam os fascistas.

Futuristas & Fascistas

A primeira ação conjunta pós-guerra entre Mussolini e Marinetti ocorreu em 1919 quando uma manifestação do Partido Socialista foi atrapalhada em Milão, em que o socialista Bissolati estava tentando defender um programa de renúncia italiana das reivindicações dos territórios pertencentes majoritariamente a italianos étnicos, porém sob soberania estrangeira. O professor Jensen afirma que esta foi "a primeira violência política planejada na Itália pós-guerra".

Naquele ano Mussolini fundou sua própria Fasci di Combattimento em Milão com o apoio de Marinetti e do poeta Ungaretti. Os futuristas e os Arditi compunham o núcleo da liderança fascista. O primeiro manifesto fascista foi baseado no manifesto do partido futurista de Marinetti.



Em abril, contra a vontade de Mussolini que achava essa ação prematura, Marinetti liderou fascistas e futuristas e arditi contra uma manifestação massiva do Partido Socialista. Marinetti lançou-se com punhos, mas interviu para salvar um socialista de ser espancado por arditi. (Para colocar a situação pós-guerra em perspectiva, os socialistas haviam regularmente espancado, abusado, e até assassinado veteranos de guerra). Os fascistas e futuristas então prosseguiram até o escritório do jornal socialista Avanti, o qual eles saquearam e queimaram.

Marinetti concorreu como candidato fascista nas eleições de 1919 em Milão e persuadiu o maestro Toscanini a fazê-lo também. Os resultados foram ruins.

Enquanto a base para a fundação do partido fascista haviam sido os veteranos arditi liderados pelos futuristas, a rejeição extrema da tradição pelos futuristas sempre faria com que esta fosse uma aliança inquieta, apesar da base doutrinária do fascismo ser uma de síntese dialética. Está claro que Marinetti não acreditava em qualquer síntese do tipo, ou com o que ele certamente teria considerado como compromisso com o "passadismo".

Quando o Congresso Fascista de 1920 recusou-se a apoiar a demanda futurista pelo exílio do rei e do Papa, Marinetti e outros futuristas abandonaram o partido fascista. Marinetti considerou que o partido fascista estava comprometendo-se com o conservadorismo e com a burguesia. Ele também era crítica da concentração fascista na agitação anti-socialista e em sua oposição a greves. Certas facções futuristas realinharam-se especificamente com a extrema esquerda. Em 1922, houve diversas exibições e performances futuristas organizadas pela associação cultural comunista, a Proletkult, que também organizou uma palestra por Marinetti para explicar a doutrina do futurismo, porém a linha leninista, apesar dos sentimentos pró-futuristas do comissário de educação soviético Lunacharsky, logo rejeitou o futurismo e elementos futuristas foram expurgados do partido comunista.

Quando os fascistas assumiram o poder em 1922 Marinetti, como D'Annunzio, foi um apoiador crítico do regime. Marinetti considerou: "A chegada ao poder dos fascistas contituí a realização do programa futurista mínimo".  Ele aludiu ao papel que os futuristas tiveram em fundar as associações de veteranos arditi e em estarem entre os primeiros membros do Fasci de Combattimento.

De Mussolini o estadista, Marinetti escreveu: "Profetas e precursores da grande Itália de hoje, nós futuristas estamos felizes em saudar nosso Primeiro-Ministro de maravilhoso temperamento futurista".



Em 1923, Marinetti começou uma reaproximação com os fascistas, já tendo agora Mussolini assumido o governo da Itália. Em 1 de maio de 1923, o manifesto de Marinetti "Império Italiano" lembrou Mussolini da agitação futurista pelo ressurgimento imperial italiano, e incitava Mussolini a rejeitar qualquer aliança com conservadores, monarquistas, clérigos, ou socialistas.

Naquele ano ele também apresentou a Mussolini seu manifesto "Os Direitos Artísticos Promovidos pelos Futuristas Italianos".  Aqui ele rejeitou o alinhamento dos futuristas na URSS. Ele apontou para os sentimentos futuristas que haviam sido expressados por Mussolini em discursos, aludindo ao fascismo como sendo um "governo de velocidade, cortando tudo que representa estagnação na vida nacional". Sob a liderança de Mussolini, escreve Marinetti:
O Fascismo rejuvenesceu a Itália. É agora seu dever ajudar-nos a reparar o establishment artístico... A revolução política deve sustentar as revoluções artísticas

Marinetti estava entre os intelectuais do Congresso Fascista que em 1923 aprovaram as medidas tomadas pelo regime para restaurar a ordem pela supressão de certas liberdades constitucionais entre o caos crescente causado tanto por squadristas fascistas radicais fora de controle e anti-fascistas.
No Congresso Futurista de 1924, os delegados aprovaram a declaração de Marinetti:

Os Futuristas Italianos, mais do que nunca devotados às idéias e à arte, completamente distantes da política, dizem a seu velho camarada Benito Mussolini, livre-se do Parlamento com um golpe violento e necessário. Restaure para o Fascismo e para a Itália o maravilhoso, desinteressado, ousado espírito anti-socialista, anti-clerical, anti-monárquico... Recuse permitir que a monarquia sufoque a maior, mais brilhante e justa Itália de amanhã... Esmague a oposição clerical... Com uma dura e dinâmica aristocracia do pensamento.

Em 1929, Marinetti aceitou sua escolha para a Academia Italiana, considerando importante que o "Futurismo seja representado". Ele também foi escolhido Secretário para a União dos Escritores Fascistas e como tal foi o representante oficial para a cultura fascista.  O futurismo tornou-se uma parte das exibições culturais fascistas e foi utilizado na arte de propaganda do regime. Durante a década de 30 em particular a expressão cultural fascista estava passando por uma transição para longe da tradição e na direção do futurismo, com a ênfase fascista na tecnologia e na modernização. Mussolini já havia em 1926 definido a criação de uma "arte fascista" que seria baseada em uma síntese cultural, como ela era a nível político: "tradicionalista e ao mesmo tempo moderna".  Porém, o futurismo jamais tornou-se a "Arte de Estado" oficial do regime fascista. Griffin afirma: "Em contraste marcante com o Terceiro Reich, a Itália Fascista acomodou vários graus de modernismo (incluindo o movimento internacional, o futurismo, e a abstração) ao lado de elementos neoclássicos ou abertamente antimodernistas".
Dos movimentos modernistas, além do futurismo, o Novecento ("Século Vinte") parece ter sido o mais significativo, que celebrava o dinamismo da vida urbana moderna e desenvolvia uma arquitetura neoclássica. Do outro lado, houve aqueles fascistas proeminentes que buscaram uma posição direitista mais familiar em oposição ao modernismo estético como uma "algazarra internacionalista, bastarda, estrangeira, manipulada por banqueiros, pederastas, e cafetões judeus", que se adotado corromperia a raça italiana; como Mino Maccari, editor de Il Selvaggio, afirmou, com uma referência específica ao Novecento.

Não obstante, o futurismo manteve sua posição entre outras escolas estéticas, modernistas e tradicionais, e o próprio Marinetti permaneceu fiel ao regime quando o colapso chegou.

Em 1943, com os Aliados invadindo a Itália, o Grande Concílio Fascista derrubou Mussolini e rendeu-se às forças de ocupação. Os fascistas fieis estabeleceram uma última resistência, no norte, chamada República Social Italiana, ou República de Saló.

Com um novo idealismo, até antigos comunistas e líderes liberais foram atraídos para a República. O Manifesto de Verona foi redigido, restaurando várias liberdades, e defendendo o trabalho contra a plutocracia dentro da visão de uma Europa unida.

Marinetti continou a ser honrado pela República Social. Ele morreu em 1944.