sábado, 26 de novembro de 2011

Dostoyevsky sobre os Judeus

Fyodor Dostoyevsky (1821 – 1881) foi um dos maiores escritores da Rússia. O filho de um médico de posses modestas, ele teve oportunidade de ter uma educação, e foi treinado como engenheiro. Ele permaneceu próximo ao povo comum da Rússia, porém, nas experiências de sua vida e em sua escrita.
Dostoyevsky foi um patriota fervoroso, mas sua associação com um círculo de escritores radicais levou a sua prisão aos 27 anos de idade. Ele foi subsequentemente sentenciado à morte, perdoado no último minuto, e transportado para a Sibéria, onde ele passou quatro anos em um campo de trabalhos forçados. A isso seguiram-se diversos anos como soldado em uma unidade siberiana do exército russo.
Após seu retorno da Sibéria, Dostoyevsky escreveu diversos romances, incluindo Crime e Castigo (1866), O Idiota (1868), Os Demônios (1871), e Os Irmãos Karamazov (1880), todos os quais tiveram imensa popularidade. Foi seu Diário de um Escritor, porém, publicado em uma série de capítulos no período de 1873 – 1881 que mais explicitamente expressou seu sentimento por seu povo e pela Rússia.
Diário de Dostoyevsky abordava um grande número de questões de grande interesse para seus compatriotas, demonstrando claramente a visão e sensibilidade que fizeram dele um dos mais amados de todos os grandes escritores que a Rússia produziu. Boris Brasol, que traduziu Diário de um Escritor para o inglês, descreveu a reação do povo russo à morte de Dostoyevsky em 9 de fevereiro de 1881:
“A notícia do falecimento de Dostoyevsky espalhou-se instantaneamente, como uma corrente elétrica, às partes mais remotas da Rússia, e uma onda de lamentos varreu os corações de seu povo entristecido… Multidões enromes foram a seu funeral: homens e mulheres de todas as origens – estadistas de alta hierarquia e prostitutas miseráveis; camponeses analfabetos e distintos homens de letras; oficiais do exército e cientistas eruditos; sacerdotes crédulos e estudantes incrédulos – todos eles estavam lá.
Quem a Rússia enterrou com tão grande reverência? Foi apenas um de seus famosos homens de letras? De fato não: naquele caixão jazia um homem nobre e altivo, um professor prudente, um profeta inspirado cujos pensamentos, como picos de montanhas, estavam sempre apontados para o céu, e que haviam medido as profundezas do coração tremulento do homem com todas as suas lutas, pecatos, e tempestades; seus enigmas, dores, e remorsos; suas lágrimas não vistas e paixões em chamas…”
Na mesma medida em que seu povo amava-o, Dostoyevsky por sua vez amava-o e desprezava seus inimigos e exploradores. Principal entre estes últimos estavam os judeus da Rússia. Na época de Dostoyevsky havia aproximadamente três milhões deles, alguns descendidos dos cazares, uma tribo asiática do sul da Rússia que havia convertido-se ao judaísmo mil anos antes, e alguns que haviam fugido para a Rússia vindos do oeste durante a Idade Média, quando eles foram expulsos a força de cada país na Europa ocidental e central.
Desprezando o  trabalho honesto, os judeus haviam fixado-se aos camponeses e artesãos russos como um exército de sanguessugas. Agiotagem, comércio de bebidas álcoolicas, e escravidão branca eram seus meios preferidos de subsistência – e seus métodos para destruir o povo russo.
Tão grande era o ódio russo por seus algozes judaicos que os governantes russos foram obrigados a instituir legislação especial, ao mesmo tempo protegendo os judeus e limitando suas depredações contra o povo russo. Entre estas estava a proibição do assentamento de judeus na Rússia central; eles estavam restritos às regiões do oeste e sudoeste da Rússia (a “Zona de Assentamento”) onde eles haviam estado mais concentrados à época de Catarina a Grande havia proclamado a proibição, no século XVIII.
Isso, é claro, foi considerado pelos judeus como “perseguição”, e foi sua incessante lamentação por não terem permissão para parasitarem o povo da Rússia central que primeiro levou Dostoyevsky escrever sobre a Questão Judaica. Na parte de seu Diáriopublicada em março de 1877, o escritor afirmou:
“…Eu sei que em todo o mundo certamente não há outro povo que reclamaria tanto sobre sua sorte, incessantemente, após cada passo e palavra – sobre sua humilhação, seu sofrimento, seu martírio. Poder-se-ia pensar até que não são eles que reinam na Europa, que dirigem lá e cá as bolsas de valores e, portanto, a política, os negócios domésticos, a moralidade dos Estados”.
Dostoyevsky, que havia tornado-se familiarizado com os judeus e suas atitudes pessoas em relação a seus hospedeiros russos, pela primeira vez como criança na pequena propriedade de seu pai, onde ele observou os negócios dos judeus com os camponeses locais, e depois na prisão, em que ele notou o comportamento arredio dos prisioneiros judeus em relação aos prisioneiros russos, seguiu especulando sobre o que aconteceria aos russos se os judeus eventualmente tivessem o chicote em mãos:
“…Agora, como seria se na Rússia não houvesse três milhões de judeus, mas três milhões de russos, e houvesse oito milhões de judeus – bem, em que eles converteriam os russos e como eles os tratariam? Permitiram eles adquirir direitos iguais? Permitiriam eles praticar sua religião livremente em seu meio? Não os converteriam em escravos? Pior do que isso: não os esfolariam? Não os exterminariam até o último homem, a ponto do extermínio total, como eles costumavam fazer com estrangeiros nos tempos antigos, durante sua história?”
A especulação acabou sendo amargamente profética, pois apenas pouco mais de quatro décadas depois, comissários judeus sanguinários, que eram a maioria dos líderes bolcheviques, estavam supervisionando o extermínio de russos aos milhões.
Dostoyevsky identificou corretamente o segredo da força dos judeus – de fato, de sua própria sobrevivência por um período de mais de quarenta séculos – como sua exclusividade, seua perspectiva mental profundamente enraizada sobre todo o mundo não judaico como uma coisa estranha, inferior, e hostil. Essa perspectiva levou os judeus a sempre pensarem sobre si mesmos como possuindo uma situação ou status especial. Mesmo quando eles estavam tentando insinuantemente convencer os não judeus de que os judeus eram como todo mundo, eles mantinham sua atitude interio de um povo que constituíam uma comunidade especial dentro da comunidade gentil, mais ampla. Dostoyevsky apontou:
“…É possível definir, pelo menos, certos sintomas desse estado dentro do estado – ainda que apenas externamente. Esses sintomas são: alienação e isolação na questão do dogma religioso; a impossibilidade de fusão; crença de que no mundo só existe uma única entidade nacional, a judaica, enquanto, ainda que outras entidades existam, não obstante, deve-se presumir que elas são, como se fossem, inexistentes. ‘Afaste-se da família das nações e forme ua própria entidade, e então vós conehcereis que daí em diante vós sois os únicos perante Deus; exterminai o resto, ou tornai-os escravos. Tenhais fé na conquista de todo o mundo; adirais à crença de que tudo submeter-se-á a vós. Abominai estritamente a tudo, e não tenhais intercurso com quem seja em vosso modo de vida. E mesmo quando vós haveis perdido a terra, vossa individualidade política, mesmo quando vós fostes dispersados por toda a face da terra, entre todas as nações – não vos importeis, tenhais fé em tudo que vos foi prometido, uma vez e para todo o sempre; acreditai que tudo isso passará, e enquanto isso vivei, odiai, unificai, e explorai – e aguardai, aguardai…'”
É de surpreender que, ainda que virtualmente todo americano com educação secundária tenha lido ou Crime e Castigo ou Os Irmãos Karamazov (ou ambos), seu Diário de um Escritor tenha sido silenciosamente consignado ao esquecimento pelo establishment educacional e editorial nesse país? A única edição de Diário de um Escritor atualmente listada é uma feita por uma pequena editora especializada (Octagon Books) para venda a bibliotecas e com o proibitivo preço de $47,50. Esse preço deve ser o suficiente para mantar esse livro fora das mãos de leitores americanos curiosos!
Aqueles felizardos o suficiente para conseguirem uma cópia do livro podem ler ainda um grande número de penetrantes comentários sobre o comportamento e atitude dos judeus na Rússia em relação ao povo russo durante o século XIX. Dostoyevsky especialmente condenou a exploração dos pobres, ignorantes, e indefesos camponeses russos pelos vorazmente gananciosos e absolutamente desalmados judeus. Por exemplo:
“Assim, a judiaria está prosperando precisamente lá onde o povo ainda é ignorante, ou não é livre, ou é economicamente atrasado. É lá que a judiaria possui caminho livre. E ao invés de elevar, por sua influência, o nível de educação, ao invés de ampliar o conhecimento, de gerar aptidão econômica na população nativa – ao invés disso o judeu, onde ele tenha assentado, apenas humilhou e degenerou ainda mais o povo; lá a humanidade foi ainda mais depreciada e o nível educacional caiu ainda mais baixo; lá a miséria inescapável e desumana, e com ela o desespero, espalhou-se ainda mais vergonhosamente. Perguntem à população nativa em nossas regiões fronteiriças: O que move o judeu – o que o tem movido por séculos? Você receberá uma resposta unânime: impiedade. ‘Ele tem sido movido por tantos séculos apenas impiedade em relação a nós, apenas pela sede por nosso suor e sangue’.
E, em verdade, toda a atividade dos judeus nessas regiões fronteiriças nossas consistiu em tornar a população nativa o mais inescapavelmente dependente possível, tirando vantagem das leis locais. Eles sempre conseguiram estar em termos amigáveis com aqueles de quem o povo depende. Aponte a qualquer tribo entre os estrangeiros na Rússia que poderia rivalizar com o judeu por sua influência nefasta nessa conexão! Você não encontrará qualquer outra tribo. Nessa questão o judeu preserva toda sua originalidade em comparação com outros estrangeiros russos, e é claro, a razão para isso é este seu estado dentro do estado, este espírito do qual emana especialmente a impiedade por tudo que não é judeu, com desrespeito por qualquer povo e tribo, por cada criatura humana que não é um judeu…
Agora, e se de algum jeito, por alguma razão, nossa comuna rural [sistema institucionalizado da sociedade campesina russa] fosse desintegrada, aquela comuna que está protegendo nosso camponês nativo contra tantos males; e se, falando diretamente, o judeu e toda sua kehillah [judiaria organizada] caísem sobre o campesinato liberto – tão inexperiente, tão incapaz de resistir a tentações, e que até agora tem sido protegido precisamente pela comuna? Ora, obviamente, instantaneamente este seria seu fim; toda sua propriedade, toda sua força, no dia seguinte cairia sob o poder do judeu, e então teria início uma era comparável não apenas com a era da servidão, mas até mesmo com a do domínio tártaro”.
Novamente, quão tragicamente profético!

A Arte de Anastasia Fomina





































ANASTASIYA FOMINA - artist, designer, illustrator; Creator of New Eon.

Was born in Belarus, Gomel city in 1990.
1997 - 2006 secondary school №19 with deep study of architecture and art;
2006-2011 Gomel State Art College, specialty "Design"

- Diploma of the winner in an international competition of creativity of children and youth in Czechoslovakia, "Child and dog", Czechoslovakia 2004
- Certificate of Award for outstanding achievements in intellectual activities. Gomel 2005
- Diploma of the winner of first degree in a city festival-competition "By love and unity we will be saved" (nominated for "painting"). Gomel 2005
- Diploma of the second degree, winner of the Poster competition "Make your own choice", Gomel 2006
- Certificate for success in creativity and a solo exhibition held in the school № 19, Gomel 2006
- Certificate for participation in the exhibition "Multi-color." Gomel 2006
- Letter of acknowledgment of art college for participation in the youth exhibition of works of students and school teachers, "We are for life. Youth Against Suicide" which took place in December 2008 in G.H.Vaschenko’s gallery
- Certificate of merit 2009 the 40th annual world school children`s art exhibition the republic of China.
- Illustrations for Novikov’s book of children's poems "The music of the winds." Gomel 2010
- Publications in magazines and websites since 2010
- Personal exhibition "Fifth Sun" in the exhibition hall of "May" of University named after Francisc Skorina. Gomel, February 2011
- Personal exhibition "Contemplation once" in Gomel secondary school №19, April 2011
- I participate in the transnational anti-drug Internet Competition "Maya" (2012)
- I participate in the 2ND INTERNATIONAL MAIL ART EXHIBITION IN NYÍRACSÁD (2012)



http://fomina-artist.fo.ru

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Julius Evola - O Imperador Juliano

por Julius Evola


É alentador dar com trabalhos eruditos que vão mais além dos preconceitos e distorções que caracterizam a maioria dos pontos de vista dos historiadores contemporâneos. Este é o caso de Raffaello Prati, que traduziu ao italiano e introduziu ao público os escritos especulativos do imperador romano Juliano Flavius, intitulados coletivamente "De Deuses e Homens".

É destacável que Prati empregara o termo "imperador Juliano" em lugar da expressão predominante de "Juliano, o Apóstata". O termo "apóstata" é dificilmente apropriado neste caso, posto que melhor deveria ser aplicado àqueles que abandonaram as sagradas tradições e os cultos que eram a verdadeira alma da antiga grandeza de Roma e aos que aceitaram uma fé nova, que não era a da estirpe romana ou latina senão de uma origem asiática e judaica. Deste modo, o termo "apóstata" não deveria caracterizar àqueles que, como Juliano Flavius, ousaram ser fiéis ao espírito da tradição, tratando de reafirmar o ideal solar e sagrado do império.

A leitura dos textos publicados, que foram escritos por Juliano em sua barraca de campanha, entre longas marchas e batalhas (como tratando de sacar novas energias de seu espírito para afrontar eventuais dificuldades), deveria servir de proveito aos que seguem a corrente de opinião que define o paganismo, em seus componentes religiosos, como mais ou menos sinônimo de superstição. De fato, Juliano, em sua tentativa de restaurar a Tradição, opôs ao cristianismo uma visão metafísica. Os escritos de Juliano permitem-nos ver, por trás dos elementos alegóricos e externos dos mitos pagãos, uma substância de qualidade superior.

"Sempre que os mitos sobre assuntos sagrados sejam absurdos segundo o pensamento racional, sendo gritados em voz alta, como foram, chamam-nos a não crer neles literalmente, senão a estudá-los e seguir a pista de seu significado oculto... Quando o significado é expressado de modo incongruente há uma esperança de que os homens descuidem do significado mais óbvio (aparente) das palavras, e que a pura inteligência possa ascender à compreensão da natureza inequívoca dos deuses que transcende todos os pensamentos atuais".

Este deveria ser o princípio hermético empregado pelos que estudem os antigos mitos e teologias. Não obstante, quando os eruditos utilizam termos depreciativos como "superstição" ou "idolatria", vem demonstrar que são mentalmente fechados e de má-fé.

Portanto, na revaloração da antiga tradição sagrada de Roma, tentada por Juliano, é o ponto de vista esotérico da natureza dos "deuses" e seu "conhecimento" o que finalmente importa. Este conhecimento corresponde a uma realização interior. Desde esta perspectiva, os deuses não são retratados como invenções poéticas ou como abstrações de teologias filosóficas, senão como os símbolos e as projeções de estados transcendentes de consciência.

Deste modo, o próprio Juliano, como iniciado nos mistérios de Mitra, viu uma relação estreita entre um conhecimento superior de si mesmo e a via que conduz ao "conhecimento dos deuses"; esta é uma nobre meta que não impediu-lhe dizer que inclusive o domínio sobre as terras de Roma e as bárbaras empalidece em comparação.

Isto leva-nos novamente à tradição de uma disciplina secreta através da qual o conhecimento de si mesmo é transformado radicalmente e fortalecido por novos poderes e estados internos, que são simbolizados na teologia antiga por vários numina. Esta transformação diz-se que ocorre após uma preparação inicial, consistente em viver uma vida pura e na prática do ascetismo e finalmente recebendo experiências especiais que estão determinadas por ritos iniciáticos.

Hélios é o poder ao qual Juliano dedica seus hinos, cujo nome invoca inclusive em suas últimas palavras, quando morre ao pôr do Sol em um campo de batalha na Ásia Menor. Hélios é o Sol, o qual não é concebido como um corpo físico, senão como símbolo de uma luz metafísica e de um poder transcendente. Este poder manifesta-se na humanidade e naqueles que foram regenerados, como soberano nous e como uma força mística do alto. Nos dias antigos e inclusive na própria Roma, através da influência persa, considerava-se que esta força estava estritamente associada com a dignidade real. O autêntico significado do culto imperial romano que Juliano tentou restaurar e institucionalizar por cima e contra o cristianismo, somente pode ser apreciado dentro deste contexto. O motivo central no culto é: o autêntico e legítimo líder é o único que está dotado de uma superioridade sobrenatural ontológica e o qual é imagem do rei celestial, chamado Hélios. Quando isso ocorre (e somente então), a autoridade e a hierarquia estão justificadas; o regnum é santificado; e um centro luminoso de gravidade vem a fundar-se, o qual atrai para si a um número de homens e forças naturais.

Juliano ansiava por realizar este ideal "pagão" dentro de uma hierarquia imperial estável e unitária, dotada de um fundamento dogmático, um sistema de disciplinas e leis e uma classe sacerdotal. A classe sacerdotal supunha-se ter como líder o próprio imperador, o qual, tendo sido regenerado e elevado por cima das meras condições mortais graças aos Mistérios, encarnava simultaneamente a autoridade espiritual e o poder temporal. De acordo com este ponto de vista, o imperador era tido como o Pontifex Maximus, um termo antigo recuperado por Augusto. Os pressupostos ideológicos sobre os quais fundamenta-se a visão de Juliano, são: 1) a natureza, é entendida como formada por um todo harmônico e penetrada por forças vivas, porém invisíveis; 2) um monoteísmo professado pelo Estado; 3) um corpo de "filósofos" (seria mais apropriado chamá-los homens sábios) capazes de interpretar a teologia tradicional da antiga Roma e de atualizá-la mediante ritos iniciáticos.

Esta visão está em duro contraste com o primitivo dualismo cristão, exemplificado pela frase de Jesus que diz: "dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César". Esta frase leva finalmente ao cristianismo rechaçar a render homenagem ao imperador em qualquer outro rol que não seja o de um governante. Este rechaço, ocasionalmente, foi considerado como uma manifestação de anarquia e de subversão, e culminou na perseguição estatal contra os cristãos.

Desgraçadamente o tempo não estava maduro para a realização do ideal de Juliano. Uma realização semelhante teria requerido a participação ativa, mediante sinergia, de todos os estratos da sociedade assim como um relançamento da antiga Weltanschauung em termos mais vibrantes. Em lugar disso, dentro da sociedade pagã deu-se uma separação irreversível entre forma e conteúdo.

Inclusive o consenso que havia conseguido o cristianismo foi um signo fatal da decadência dos tempos. Para uma ampla maioria do povo, falar acerca de deuses como experiências internas ou considerar os princípios solares e transcendentes acima mencionados como requisitos necessários para o império era nada mais que uma ficção ou mera "filosofia". Em outras palavras, o que faltava era uma fundação existencial. Ademais, Juliano enganou-se crendo que seria capaz de transformar certos ensinamentos esotéricos em forças formativas políticas, culturais e sociais. Devido a sua verdadeira natureza, esses ensinamentos estavam destinados, não obstante, a cair unicamente dentro da competência de círculos restritos.

Isso não deveria levar-nos à conclusão de que, ao menos em princípio, existiria uma contradição entre a visão de Juliano e o ideal de um Estado forjado na aplicação destes elementos espirituais e transcendentes. A própria existência histórica de uma sucessão de civilizações que foram centradas em uma espiritualidade "solar" (abarcando desde o antigo Egito e ao antigo Irã, até o Japão anterior à Segunda Guerra Mundial) deveria demonstrar que esta contradição não existe em realidade. Deveria dizer-se mais acertadamente que Roma, nos tempos de Juliano, carecia já da substância humana e espiritual capaz de estabelecer as conexões e relações de participação que caracterizam a uma nova hierarquia viva que possa criar um organismo imperial totalitário merecedor do nome pagão.

O célebre texto de Dimitri Merezhkovsky, "Morte dos deuses", reúne de modo admirável e sugestivo o ambiente cultural dos tempos de Juliano com seus presságios de um ocaso dos deuses.

Após um longo parêntese, alguns elementos da antiga Tradição foram destinados a ressurgir. Graças à emergências das dinastias germânicas nos palcos da história europeia, foi possível falar de novo de restauratio imperii, na forma do Sacro Império Romano Germânico medieval. Isso é certo especialmente se consideramos a tradição guibelina que tratou de reclamar para o Império, contra as demandas hegemônicas da Igreja de Roma, uma dignidade sobrenatural não inferior à que a própria Igreja desfrutava.

Atendendo a isso, é importante para um exame mais próximo ter em conta o que foi ocultado na literatura cavalheiresca, na assim chamada lenda imperial e também em outros documentos. Tratei de reunir e interpretar adequadamente todas estas fontes em nossa obra "O mistério do Graal e a tradição guibelina do império", ano 1937.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A Música do Futuro

por Christopher Pankhurst

Um interregnum é um tempo de máxima possibilidade. Aprumados como estamos entre o fim da velha cultura europeia e a possibilidade de uma nova e renascida cultura europeia é útil refletir um pouco sobre a direção que nossa nova cultura deve tomar.

Que a velha cultura morreu será óbvio para qualquer um que tenha alguma sensibilidade para tais questões. A grande tradição musical que alcançou seu ápice com Bach, e que subsequentemente buscou expressão através do gênio individual de Beethoven e Schubert, teve sua marcha fúnebre nas Metamorphosen de Strauss. Essa obra intensamente triste para cordas evocava a grandeza destruída das casas de ópera alemães em que Strauss teve tantos sucessos, e que, como a própria tradição musical, estavam em ruínas na década de 40. Atonalidade, serialismo, jazz, todas passeavam arrogantemente e em certo sentido vingativamente sobre a tuma da tradição ocidental. Agora, na segunda década do século XXI, a feiúra tornou-se tão onipresente que nós estamos em risco de esquecer o que torna a beleza digna em primeiro lugar.



A tradição musical europeia era tão grandiosa, tão intensamente bela, que alguns apoiadores da cultura europeia querem reviver o cadáver e fazê-lo, como um zumbi demente, reviver seus maiores sucessos. Nós devemos ser claros em reconhecer que não importa quão sublime a música de nossa cultura passada foi, ela agora pertence a uma cultura que morreu. Não importa quão triste possa ser pensar que essa grande tradição jamais cantará novamente, nós não devemos ser indevidamente sentimentais no que concerne tais questões. Tudo morre, e nossa velha cultura europeia não é exceção.

Isso não quer dizer que devamos deixar de reconhecer a grandeza de nossa tradição. Ao contrário, nós devemos honrar nossos ancestrais falecidos e aprender com eles. O que não podemos suportar é qualquer engajamento em uma verborragia inútil de ressurreição cultural. Não haverá retorno da velha tradição musical europeia. Uma insistência doentia na superioridade da cultura defunda sobre todas as formas presentes resulta em um tipo de necrofilia cultural, e tende ao tipo de enervação cultura que está sendo explícitamente resistida. Resumidamente, é algo fútil.

Não houve uma gênese única para nossa cultura musical, mas o Concílio de Trento (1545-1653) é às vezes tomado como sendo a parteira do contraponto. Nessa conferência eclesiástica a questão do contraponto foi discutida. A questão era controversa porque era sentido por alguns que o contraponto estava sendo utilizado para mera ornamentação, com valor de entretenimento. Enquanto o cantochão permitia clareza completa nas linhas vocais da escritura, o contraponto tendia (assim argumentava-se) a obscurecer o texto pelo emprego de técnicas musicais elaboradas que demandavam adulação por si mesmas. A música era feita para ser um mero veículo da adoração a Deus. Lendas relatam que o compositor Palestrina persuadiu o Concílio dos méritos do contraponto compondo uma missa que utilizava essa técnica de modo tão belo que eles aceitaram sua aplicação como uma arte adequada à adoração.

Em todo caso, o contraponto, ou polifonia, veio a ser o modo quintessencialmente europeu de expressão em forma musical. Enquanto o resultado do Concílio permitiu ao gênio de Bach emergir em toda sua glória ele também, inadvertidamente e tortuosamente, levou à atual degeneração da música. Por que? Porque a decisão do Concílio inaugurou a possibilidade da composição musicial poder existir por conta própria, apartada da busca do numinoso.

O propósito de toda arte Tradicional é encontrar expressão para a apreensão numinosa, recriar o inefável através de um simulacro simbólico. Tão logo este imperativo retire-se da função criativa os apetites e desejos do homem tornam-se uma matéria válida para a expressão artística. O resultado final de tal processo, inevitavelmente, é o tipo de egoísmo degenerado mascarada como arte que nós vemos em todo lugar no Ocidente hoje.

Esse declínio de uma arte numinosa a uma arte pessoal pode ser mapeado de diversas formas mas, para o século XX, a emergência de numerosos modismos avant garde na música clássica é um bom exemplo. Para a maioria das pessoas, atonalidade, serialismo, et al., parecem ser demasiado desprovidas de alma. Essa opinião do senso comum possui uma grande medida de verdade, na medida em que essas formas musicais tentam elevar um senso de novidade e esperteza intelectual a uma posição que demanda adoração.

Aqui, talvez seja sábio ter em mente a origem da palavra 'cultura' no latim colere. Colere significa "habitar" daí a palavra "colônia" também derivada. "Cultivo", como na agricultura, é outra palavra derivada de colere, que então assume o sentido adicional de respeito e adoração, de onde "culto" desenvolve-se. Esse exercício etimológico é necessário porque alerta-nos para o fato de que a cultura era tradicionalmente relacionada ao respeito pela própria terra.

Dessa posição a importância da arte folclórica torna-se clara. Dessa arte folclórica é possível desenvolver uma cultura superior que esteja preocupada com a adoração do numinoso, mas é essencial notar que essa forma de adoração do numinoso cresce a partir de uma comunidade popular, enraizada. Dentro desse modelo de arte Tradicional não há lugar para arte "nova" ou "esperta". Adorar a própria soberba é mediocrizar o que significa ser humano.

Defensores da cultura europeia podem, como resultado de seu declínio, parecer estarem remontando dias de glória que nunca realmente existiram (ao menos não do modo em que imaginamos hoje). Esse conservadorismo cultural nunca pode ser realmente bem sucedido porque a cultura, mesmo enquanto retenha fidelidade à tradição perene, deve ser uma foma de vida dinâmica. O espírito que cria arte grande e duradoura é o mesmo espírito que é encontrado nos campos de batalha, ou na dor altruísta da mãe em trabalho de parto, mas não no espírito de um curador de museu. Esse espírito (se aceitarmos que o numinoso encontra expressão através do homem ao invés do oposto) buscará articulação em formas vitais, viventes, e não necessariamente respeitará nossas noções de gosto.



Ouça "Das Wirthaus" do Winterreise de Schubert, e então "Whilst the Night Rejoices Profound and Still", do Soft Black Stars do Current 93. Eu sugeriria que o tom aguda tristeza que permeia ambas canções brota da mesma fonte. Sugerir que uma é um clássico do cânon ocidental e condenar a outra ao status de Entartete Musik trai uma atitude que é cegada pela santimônia da anti-modernidade. Apenas o mais decidado taxonomista da arte europeia seria capaz de discernir qualquer distinção significativa entre as duas peças musicais. Em verdade, considerando que Schubert estava criando o molde para a canção pop moderna (curta, lírica, a emoção em primeiro plano, etc.) e que David Tibet está ativamente buscando uma forma de expressão mais profunda e espiritual, poder-se-ia dizer que Tibet é um exemplar maior de cultura europeia. Heresia para aficionados, sem dúvida, mas o que mais além de esnobismo sustenta sua opinião?


A perspectiva de Oswald Spengler será pertinente aqui. Em Declínio do Ocidente ele compara a Dies Irae cristã com a Völuspá pagã e encontra, "a mesma vontade determinada de superar e romper todas as resistências do visível". (1) Em nossa arte europeia encontra-se de tempos em tempos o mesmo espírito faustiano manifestando-se de várias formas superficialmente distintas. Como Odin, esse espírito vaga incansavelmente, envergando e descartando máscaras conforme sua conveniência. A tarefa importante para nós é discernir a verdadeira essência dentro da forma. No momento presente de nossa cultura esse espírito não é encontrado no mundo da música clássica.

Ao longo do século XX, é verdade, houve algumas obras musicais importante, até mesmo numinosas, criadas na tradição musical clássica. Pode-se considerar Ligeti, Messiaen, Pärt, et al. Mas essas obras tendem cada vez mais a serem criadas por gênios individuais excêntricos capazes de criar arte apesar da cultura, e não por causa dela.

A Tradição musical europeia costumava ser sinônima com música sacra, e enquanto tal estava firmemente ligada ao objetivo de presenciar o numinoso. Este era um projeto apoiado e financiado pelos poderosos das sociedades europeias. A arte elevou-se como um imperativo orgânico, articulando a alma do Ocidente em um nível superior.

Hoje não há uma única cultura europeia em existência em qualquer lugar no mundo. Consequentemente, o tipo de arte que surgiu de culturas passadas do Ocidente não é mais possível. Não há em lugar algum uma cultura europeia superior baseada em comunidades locais homogêneas pequenas, unidas por observâncias sagradas compartilhadas. Sem a existência de tal cultura, não pode haver continuação da corrente artística do passado.

Análogo ao desenvolvimenti e declínio da tradição musical é o declínio de nossa tradição literária. À época de Shakespeare, a literatura inglesa ainda era baseada em certas formas tradicionais autênticas (Hamlet, afinal, era originalmente uma saga germânica), mas a decadência de um cosmopolitanismo sofisticado já estava em evidência. Quando Macbeth lamenta que ,"Os multitudinosos mares encarnadinos/Fazendo do verde um vermelho", a supérflua segunda linha é simplsmente um eco elegante dos neologismos estrangeiros na primeira. Essa capacidade voraz de roubar palavras estrangeiras é uma das razões da eloquência de Shakespeare, mas também significava que a poesia já estava apelando aos desejos estéticos do homem ao invés de servir ao grande imperativo de santificar suas qualidades superiores. A tradição literária mais antiga, como evidenciada nos Eddas, nas Sagas, e nos poemas de batalha, buscavam tornar os feitos do homem sagrados imortalizando o heróico e santificando sua emulação.

Por volta da época de Wordsworth o declínio da literatura era tão preocupante que ele e Coleridge tentaram revive-la apresentando uma nova forma de balada poética. Eles tentaram descargar a retórica ornamentada e de corosa que havia tornad-se tão popular na poesia, e retornaram a uma tradução mais simples, quase campesina. As mais espiritualmente inclinadas Songs of Innocence and Experience de William Blake também tentaram um uso mais simples do inglês. Uma ação de retaguarda similar foi efetivada no século XX quando T.S. Eliot tentou reinventar a literatura através da utilização de diferentes registros discursivos e da justaposição de perspectivas distintas. O circo da pós-modernidade foi a recompensa por seus esforços.

A fasa do ciclo cultural que nós agora alcançamos é talvez a mais excitante de todas, já que contém a maior possibilidade. As estruturas de poder moribundas do Ocidente estão desabando ao nosso redor. O espírito faustiano do Ocidente não olhará para essas estruturas desprovidas de alma para sua manifestação, mas ao invés para formas novas, emergentes. Essas podem aparecer no mundo pretensioso da arte hermética ou, igualmente, em formas bem mais populares. O que é importante não é a pretensão de esnobismo, baseada em um gosto supostamente "refinado", mas a essência interna da forma da arte independentemente de seus meios de aparência. Coomaraswamy define bem a questão:

"A distinção não é tanto uma de cultura aristocrática em relação a cultura campesina quanto uma de culturas aristocráticas e campesinas em relação a culturas burguesas e proletárias...Um tradicional não deve confundir-se com uma arte acadêmica ou meramente ornamental; a tradição não é uma mera fixação estilística, nem meramente uma questão de sufrágio geral. Uma arte tradicional possui finalidades fixas e meios certificados de operação, tem sido transmitida em sucessão papilar desde um passado imemorial, e retem seus valores mesmo quando, como no presente, saiu de moda. As artes hieráticas e folclóricas são ambas tradicionais... Uma arte acadêmica, por outro lado, não importa quão grande seja seu prestígio, e quão elegante ela possa ser, pode muito bem e geralmente é de um tipo sentimental, profano, pessoal, e anti-tradicional". (2)

Como Coomaraswamy indica tanto em sua obra, são frequentemente as classes inferiores que são mais hábeis em preservar os ensinamentos Tradicionais porque elas são menos suscetíveis aos encantos do cosmopolitanismo sofisticado do que seus compatriotas mais afluentes. Essa opinião é bastante contra-intuitiva para muitos que percebem as classes mais educadas como sendo os melhores exemplares de cultura. É verdade que quando uma cultura está em seu ápice de realização seus frutos vem da elite. Mas quando essa elite apoia uma cultura degenerada, expressa através do materialismo, do hedonismo, e do egoísmo, nós devemos olhar para outras, talvez desprezadas, formas de expressão artística para encontrar algo que seja mais autenticamente europeu.

Se a roda há de virar uma vez mais e a cultura europeia há de experimentar uma nova fase de criação isso será possível apenas com a criação de novos tipos de sociedade que desprezem as pressuposições materialistas, globalistas, e autoritárias do tempo presente. Tais sociedades devem ser baseadas em comunidades menores, mais rurais, mais auto-suficientes. A vacuidade da cultura moderna é uma consequência de modos enervantes de vida que promovem ideologias abstratas, e relacionamentos virtuais, tudo sob a ordem do capital e do desgaste do numinoso. A arte Tradicional erguer-se-á apenas (à parte de ocasionais indivíduos de gênio) a partir de comunidades menores baseadas em relações sociais mais pessoais, e em uma compreensão mais autêntica da terra e da passagem das estações. Apenas em tais circunstâncias pode um novo (e ainda assim imemorialmente antigo) entendimento numinoso surgir.

Nesse momento nós devíamos estar buscando a formação de agrupamentos ao estilo Männerbund que garantam o ethos guerreiro necessário para a formação de tais comunidades. Esses agrupamentos são prováveis de serem formados em claques subculturais um tanto rebeldes, uma das quais já vimos na cena Black Metal. A cena Black Metal norueguesa foi demonstrada, em um livreto pelo escrito austríaco Kadmon (3), como sendo uma remanifestação inconsciente da Oskorei, a Caçada Selvagem.

Na Noruega, em tempos pagãos, grupos cúlticos de homens jovens solteiros cavalgavam com selvageria pela sua área local à época do Solstício de Inverno. Em comum com suas contrapartes posteriores no Black Metal eles vestiam-se como cadáveres, cometiam atos de incêndio premeditado, e fazia uma grande cacofonia. A relevância disso para a continuação da Tradição Musical europeia não será compreendida para muitos, mas o elemento-chave é que os músicos do Black Metal estavam restaurando um equilíbrio natural para o que havia tornado-se doentio. Os antigos grupos cúlticos ao estilo Männerbund não estavam simplesmente causando caos pelo caos. Eles possuíam uma função sagrada, e operando no Solstício de Inverno eles eram um contraponto "escuro" às celebrações de fertilidade "claras" da Primavera. Ambos são necessários para que o equilíbrio seja mantido.

Eu não estou tentando sugerir que o Black Metal é necessariamente o tipo de música que todos deveriam ouvir ainda que algumas faixas, tais como "Det Som Engang Var" do Burzum, possuam uma inegável beleza austera. Ao invés eu estou preocupado com o reconhecimento da manifestação do espírito numinoso faustiano do Ocidente independentemente de como esteja mascarado. Mais prosaicamente, nós seremos comovidos apenas por aquilo que fala efetivamente a nós. Sem dúvida é verdade que a tradição clássica representa a mais eloquente expressão da música europeia, mas a voz mais eloquente não é sempre a única que comover-nos-á mais urgentemente.


Na ausência de uma cultura funcional europeia as manifestações autênticas do espírito ocidental erguer-se-ão às margens da cultura. Quer seja no Black Metal, na música folk, no neofolk, ou em algo ainda por emergir, a questão importante é se estes grupos subculturais mantem uma conexão com a essência numinosa do espírito europeu. O fato de que há tanta estética pagã e ocultista nos gêneros supramencionados é causa para celebração já que demonstra uma preocupação em expressar uma visão-de-mundo autenticamente europeia e numinosa.

Se as novas formulações musicais expressadas através do black metal, do neofolk, ou do que seja são "melhores" ou "piores" que os clássicos do cânon europeu precedente é uma questão irrelevante. Talvez essas formas modernas sejam menos realizadas e menos musicalmente articuladas do que as formas precedentes. Mas a questão é que, na ausência de formas contemporâneas, autenticamente europeias, de expressão no idioma clássico, a existência dessas expressões populares do espírito faustiano deveria ser celebrada sem reservas. Não importa quão juvenis eles possam ser enquanto gêneros musicais (e aqui eu uso o termo "juvenil" apenas como um ponto de comparação musical com a tradição clássica - estes músicas não são pueris) permanece verdadeiro que um grande carvalho crescerá apenas de uma noz, e não de um galho caído.

Desde a Renascença o deus Orfeu tem sido uma figura arquetípica para a música europeia. Seu era o poder de enfeitiçar a natureza à submissão através de sua arte, um atributo assaz faustiano. Quando a mulher de Orfeu, Eurídice, morreu Orfeu viajou ao submundo e pela majestade de sua música persuadiu Hades e Perséfone a permitirem que Eurídice acompanhassem ele para casa, assim desafiando a morte. Os deuses do submundo estabelecem uma condição: que Orfeu não olhe para trás. Conforme Orfeu emerge vai emergindo do submindo ele é acometido de anseio por Eurídice e vira-se para olhar para ela, mas ela não havia ainda seguido para a Terra, então ela foi arrastada de volta, dessa vez para nunca mais voltar. Essa história é salutar para todos aqueles preocupados com o futuro da cultura europeia.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Castas

por Vijay Prozak



Quando eu era um garotinho, a desigualdade me chocava. Algumas crianças nunca tinham suéteres que eram novos, e eles voltavam para seus apartamentinhos sujos e jantares assistindo TV. Eles não saberiam o que fazer em um restaurante, e a linguagem deles era estranha; eles tropeçariam em palavras irregulares. Quando nós todos íamos à escola no primeiro dia, levávamos uma lista adiantada de materiais que a professora que nos deu, para colocá-los todos numa cesta comunitária, e nunca mais víamos o que nossos pais tinham comprado pra gente. Isso era feito para que os meninos pobres sentissem-se menos pobres.

É claro, isso era horrível pra qualquer um que tinha um pai que o levou meticulosamente a uma loja e selecionou mesmo as opções mais razoáveis, bem como os lápis que não se fragmentam em pedaços de madeira afiada, ou o papel almaço que não tinha uma impressão borrada. Mesmo coisas mais simples como uma aquarela, verdadeira à "liberdade" do capitalismo, poderia ir de tintas que faziam água suja em um certo tom, a tintas de qualidade que uma criança realmente poderia usar. Enquanto isso, os pais bêbados e empobrecidos corriam à loja em liquidação e "economizando dinheiro" compraram cada pedaço de merda da mais baixa qualidade que podiam e mandaram as crianças pra escola com isso.

E tudo isso foi para a cesta, e você pegaria o que quer que fosse de forma aleatória – isso é “ser justo”. Essa idéia vem de uma grande tradição de fazer as pessoas sentirem-se melhores por colocar em evidência as desigualdades das situações. Bote os meninos retardados para tocar junto com a banda de jazz, então cada uma das pessoas da audiência pode desconfortavelmente fingir que eles não estão fazendo um barulho descoordenado. Porque não colocar a garota feia e gorda para ser rainha do baile? Faremos os empobrecidos sentirem-se melhores ao forçar a todos na classe a submeter-se à igualdade, para que o ressentimento aumente.

Sempre foi perturbador, como algum julgamento passou por nós, fazendo de uns normais, alguns pobres e poucos, ricos. Através do colegial e os anos prósperos que se passaram, eu acreditei que o único caminho para acabar com a disparidade entre os ricos e pobres era jogar todos os materiais na cesta, para que os garotos pobres e ricos juntos usassem as mesmas coisas. Eventualmente eu conheci um cara que tinha crescido num vizinhança de trailers, e ele me deu um breve insight: "A maioria das pessoas que estavam naquela vizinhança de trailers, pertenciam àquela vizinhança de trailers".

Ele me falou dos caminhos diferentes para a pobreza. Não ter noção de dinheiro e ser incapaz de se planejar para o futuro. Ser idiota. Usar drogas, ou beber. Ou ser um criminoso, e ter tendência a comportamentos destrutivos, incluindo auto-destrutivos. Ele disse que existem aqueles também que nasceram na pobreza e continuaram nela por que simplesmente não conseguiam reter a energia para melhorias à longo prazo, como consertar o trailer ou ir ao colégio ou comprar alguma outra coisa que não seja para o trailer. Para eles, cada desastre era uma surpresa, e todas as infelicidades eram tão esperadas que tinham pouco impacto psicológico.

Eu não sabia como entender o que aprendi, tanto pelo que ele tinha me dito, quanto pela minha experiência pessoal com pessoas pobres. Eles, os pobres, não estavam prontos para nada a não ser para o tipo de vida que tinham; dê dinheiro extra pra eles, e eles gastariam com jogos e bebida. Se você dissesse para eles que queria ajudar, eles ririam de você ou veriam como conseguiriam levar vantagem num acordo. Não tinha jeito. Eu não via nenhum jeito desses indivíduos existirem numa sociedade que demandava deles as mesmas coisas esperadas de um negociante ou de um doutor. E esse foi o meu erro: eu achava que todas as pessoas deveriam encaixar-se na mesma forma e ser tratadas igualmente.

Para mim, os próximos anos envolveram engolir essa proposição lúdica de várias formas. Em um trabalho, o tabu era que Debbie era, gentilmente falando, uma escrota idiota. Infelizmente, nós não podíamos despedi-la, então nós demos a ela trabalhos não-essenciais e contratamos outra pessoa pra checar os trabalhos dela. O resultado final foi que quando a companhia estava com problemas, e eles contrataram um “consultor administrativo” para ajudar, ele promoveu as pessoas com notas de trabalhos impecáveis. Uma vez que a Debbie nunca teve nenhum projeto importante, todos os seus trabalhos indicaram amplo sucesso, então o consultor olhando os números, concluiu que ela deveria ser a chefa do nosso departamento. Seu primeiro ato, claro, foi de demitir qualquer pessoa mais inteligente que ela. Eu passo por aquele prédio vez e outra e dou risada.

Uma noite quieta aqui em casa, eu estava lendo o Bhagavad-Gita, examinando delirantemente suas várias contorções e metáforas. Como seus primos, a Ilíada, a Eneida e A Canção dos Nibelungos, esse épico Indo-Europeu é escrito em enigmas, descrevendo eventos externos e a reação dos heróis a eles, como meios de mapear a psicologia dos humanos e sugerir um ascendente, em direção beligerante. Não é “literatura” para estudantes de faculdade, viciados em drogas, mães de futebol e hippies ensebados; é literato para aqueles com os pés no chão.

Um aspecto do Gita é um julgamento em diplomacia marcado por sabedoria e tranquilidade, algo como Maquiavel ou Dante, em que um dos temas é o de castas. Me chame de condicionado, mas assim que li aquilo, o velho sentimento assustador – duvide que eu seja honesto e chame de culpa? – se instalou, e eu me peguei pensando nos meninos pobres com sua cesta de barganhas para os materiais escolares. Imagens de tintas apagadas, borrachas sujas, papel almaço borrado e canetas que vazam vieram para mim com o mesmo cheiro daquelas salas de aula: perfumes mistos, cheiros de comida, suor, flatulência e aquele estranho pó de serragem que eles usavam para absorver vômito.

É importante entender que um sistema de castas é fundamentalmente diferente de um sistema de classes sociais. Num sistema de classes, nós somos todos classificados pela quantidade de dinheiro que recebemos, e então investimos, passando o dinheiro para os nossos descendentes. Se você trabalha na cozinha de um grande hotel, trabalhe para ser supervisor e eventualmente seja proprietário do negócio, você pode comprar uma cadeia de hotéis e viver entre os muito ricos. Você foi da baixa a alta classe através de uma determinação singular de riqueza. Na linguagem seletiva natural, isso significa que a pessoa que é mais devotada a ganhar dinheiro forma a base da classe mais alta.

Um sistema de castas é baseado em especialização. Como cada raça é formada por uma série de tratados específicos que refletem certas escolhas tomadas como um grupo, bem como usar tecnologia para se especializar na vida agrária ou tecnológica, cada casta reflete as inclinações e aptidões demonstradas pelas ações passadas. Algumas pessoas são mais especializadas para, e ainda mais saudáveis que, fazendeiros ou encanadores e alguns são advogados; quer que oficializemos isso num sistema de castas ou não, é verdade naturalmente.

O que é triste num sistema de classes é que eles promovem o ridículo entre as pessoas que trabalham, geralmente em alguma base Darwiniana presumida, sobre a ilusão que um advogado tem “mais sucesso” biologicamente do que um encanador. Essa sobre-simplificação repugnante descansa ao assumirmos um único caminho de carreira para todas as pessoas, com um nível alto (mais bem pago) e baixo (trabalho inábil). Permitindo aqueles que fazem dinheiro salvar a sua baixa auto-estima com “Nós todos tivemos o mesmo objetivo e as mesmas oportunidades, então há algo errado com você, não comigo”.

Isso significa que da mesma forma que em uma democracia, um bêbado sem teto tem o mesmo voto que um herói, em um sistema de classes, a “nata” da sociedade são pessoas que fizeram dinheiro de qualquer forma. Pessoas inteligentes e trabalhadoras que criaram negócios decentes em sucesso estão par a par com pornógrafos, traficantes, vendedores internacionais de armas e pessoas com “idéias geniais” como o fastfood, isqueiros descartáveis e seriados enlatados americanos. Você pode imaginar a filha trazendo pra casa dos pais o noivo e dizendo “eu sei que ele é pequeno, feio, estúpido e malvado, mas ele fez um bilhão com pornografia anal!”.

Um sistema de castas, em contraste, nos divide por tarefas e não recompensa ninguém com um preferencial, status de deus individual. Se uma casta está entre os líderes, não há grande valor em deixar de fazer isso para ser um encanador – afinal, não foi apenas sua escolha, mas o produto dos seus ancestrais que você é um líder (e: um teste de sua própria forma, desde que nenhuma sociedade sã aceita pessoas em valor real). Seu trabalho não é mais importante que o do encanador, mas é mais especializado.

Você pode ver isso como num contexto de uma banda de rock. Se qualquer música estiver acontecendo, seu baterista e guitarrista provavelmente não serão capazes de trocar de lugar, mas ambos são essenciais. Mesmo que o seu guitarrista possa provavelmente substituir o baixista, ele não irá fazer isso, se possível, por que ele está acostumado a pensar em um papel diferente e ainda tende a perder as sutilezas de um baixista. Similarmente, todos podem cantar – mas um se especializa como cantor. E todos são vitais; sem eles a banda não existe.

Em eras prévias e medievais, o sistema de castas beneficiou esses individuais agora agrupados na categoria genérica de “trabalhador” (significando que todos que trabalham sem ter propriedade de trabalho). Isso acontecia principalmente porque, libertos da competição monetária, eles têm segurança no emprego e ainda são capazes de se focar nos detalhes de cada trabalho, nuances como essas não seriam apoiadas por um sistema que compete de acordo com “o fim da linha”. Líderes não deveriam disputar para serem eleitos, e encanadores não teriam de gastar menos com materiais para fazer seus preços mais “competitivos”. Todo mundo teve um lugar, e enquanto a competição existia, era na forma da tarefa em si mesma e não o separado, mas relatada tarefa de fazer dinheiro a partir daquela habilidade.

Governo localizaria, como em cada população local você tem alguns líderes e alguns de cada outro tipo. Cada casta teria seu próprio lugar e seu trabalho garantido, com os mais competentes no topo de cada papel, o que seria visto como sendo a par com “profissões” como advogado, médico, líder. A inimizade entre as pessoas sobre quantidade de dinheiro seria amplamente diminuída, como todas as pessoas não estariam mais competindo pela mínima coisa, mas estariam trabalhando para se tornar as melhores nas coisas que elas fazem.

Mais importantemente entretanto, essa atitude seria capaz fazer voltar o amor entre as pessoas que neste tempo estão mais amargas e vingativas umas com as outras. Seus líderes não seriam mais importantes do que seu encanador, mas eles seriam especializados diferentemente. Seu papel como aqueles que são ultimamente responsáveis por guiar a pessoas, não seria um “trabalho” mas mais como um anexo familiar, e eles seriam também capazes de trabalhar diretamente para sua área local e para suas pessoas. Esse tipo de sistema nos deixa tomar papéis diferentes e cada um ser importante neles, sem nos classificar por quanto de dinheiro nós conseguimos juntar, investir, levantar ou então roubar.
Fale sobre esse tipo de idéia numa democracia liberal, é claro, e as pessoas começam a reclamar sobre a perda de “liberdade”. Se você perguntar pra elas o que significa, a melhor definição seria alguma ilusão crente com a cabeça nas nuvens, algo como “cada um de nós pode crescer pra ser presidente, uma estrela do esporte, ou super-herói mágico ou mártir”. ‘Não leve sua “liberdade” embora!’ eles cantariam em uníssono. Obviamente, qualquer coisa que compactue com tal desespero bovino pode não ser flor que se cheire, ou essas pessoas teriam realizado as grandes vantagens da “liberdade”. Ao invés disso eles tem desculpas: eu nasci debaixo de um mal augúrio, meu pai era um bêbado, eu fui sodomizado por lobos quando era mais jovem, e coisas do tipo. Justificativas para não ser “livre”.

Um sistema de classes te dá essa “liberdade” forçando você e todo mundo a pertencer a uma categoria “igual” de trabalhadores, num ponto em que você compete contra os outros por dinheiro. Se você não é fascinado por dinheiro, ou não tem parentes ricos, ou não aparece com uma idéia “brilhante” como pornografia inter-racial entre anões amputados, você vai trabalhar por amendoins e enquanto ninguém aparecer e dizer isso, todo mundo ganhando mais do que você irá sutilmente sentir um aumento de confiança por ser mais rico. Isso explica porque quando essa droga que é a falsa autoconfiança é levada embora, tantas pessoas previamente chamadas de “bem sucedidas”, se auto destroem.

Nos categorizar pela quantidade de dinheiro que ganhamos, e assumir de alguma forma que Darwin gozou Jesus, que essa é uma seleção do “melhor” de nós, é acéfalo. Faz nós nos odiarmos. Não seleciona quem faz o melhor trabalho, mas quem pode enganar a maioria das pessoas a comprar o seu produto por tempo o bastante para fazer dinheiro fora do sistema e se aposentar. E quem pode culpá-los? Eles não têm lugar garantido para eles por taxas, e ainda estão à mercê de qualquer outro idiota que quiser levar o seu pedaço do bolo pra casa.
Dessa forma, eu fui desde temer um sistema de castas à gostar dele. Nós nunca iremos ser iguais em riqueza, e alguns garotos irão conseguir a aquarela de sete dólares enquanto o resto de nós estará usando o tosco de três dólares. Tentar equalizar essa desigualdade tirando a média significa que todos nós sofremos num sistema designado para uma pessoa que não existe, a pessoa “normal” abstrata e mítica, e como resultado disso, nós estamos nas gargantas um dos outros por pequenos pedaços de papel e centavos de metal e números na nossa conta bancária. Isso é tão idiota que até a Debbie gostaria.