quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sobre o Perigo

por Ernst Jünger

Entre os sinais da época em que nós entramos agora pertence a crescente intrusão do perigo na vida diária. Não há acidente ocultando-se por trás desse fato mas uma mudança compreensiva no mundo interior e exterior.

Vemos isso claramente quando lembramo-nos que importante papel foi assignado ao conceito de segurança na época burguesa passada. A pessoa burguesa é talvez melhor caracterizada como alguém que coloca a segurança entre os mais altos valores e conduz sua vida de acordo. Seus arranjos e sistemas são dedicados a garantir seu espaço contra o perigo que às vezes, quando raramente uma nuvem aparece para escurecer o céu, manifesta-se à distância. Porém, ele está sempre ali: ele busca com constância elemental romper as represas com as quais a ordem cercou-se.


A peculiaridade da relação burguesa com o perigo encontra-se em sua percepção dele como uma contradição irresolúvel com a ordem, ou seja, como sem sentido. Nisso ele diferencia-se de outras figuras como, por exemplo, o guerreiro, o artista, e o criminoso, que possuem uma relação altiva ou vulgar com o elemental. Assim a batalha, aos olhos do guerreiro, é um processo que completa-se em uma ordem superior; o conflito trágico, para o escritor, é uma condição na qual o sentido mais profundo da vida deve ser compreendido muito claramente; e uma cidade em chamas ou assolada pela insurreição é um campo de atividade intensificada para o criminoso. Por sua vez, os valores burgueses possuem tão pouca validade para o crente, pois os deuses aparecem nos elementos, como a sarça flamenjante não consumida pelas chamas. Através do azar e do perigo impele-se o mortal na esfera superior de uma ordem mais alta.

O supremo poder através do qual o burguês vê a segurança garantida é a razão. O mais perto que ele encontra-se do centro da razão, mais as sombras escuras nas quais o perigo oculta-se disperam, e a condição ideal que é a tarefa que o progresso deve realizar consiste na dominação mundial da razão através da qual a fonte do perigo não apenas é minimizada mas ultimamente completamente secada. O perigoso revela-se à luz da razão como sem sentido e renuncia a sua reivindicação sobre a realidade. Nesse mundo, tudo depende da percepção do perigoso como o sem sentido, assim no mesmo momento em que ele é superado, aparece no espelho da razão como um erro.

Isso pode ser demonstrado em todo lugar e em detalhe dentro dos arranjos intelectuais atuais do mundo burguês. Revela-se claramente no projeto de ver o Estado, que sustenta-se na hierarquia, e a sociedade, com a igualdade como seu princípio fundamental e sendo fundada através de um ato de razão. Revela-se no estabelecimento generalizado de um sistema de seguros, através do qual não apenas os riscos da política externa e doméstica mas também da vida privada deve ser uniformemente distribuída e assim subordinada à razão. Revela-se ainda nos muitos e muito confusos esforços de compreender a vida da alma como uma série de causas e efeitos e assim remove-la da imprevisibilidade na direção de uma condição previsível, e assim inclui-la dentro da esfera na qual a consciência governa.

Nesse sentido a garantia da vida contra o destino, esta grande mãe do perigo, aparece como um problema verdadeiramente burguês, que é então sujeito às mais diversas soluções econômicas ou humanitárias. Todas as formulações de questões no presente, sejam estéticas, científicas, ou políticas em natureza, movem-se na direção da reivindicação de que o conflito é evitável. Caso o conflito não obstante emerja, como não pode, por exemplo, ser ignorado em relação ao fato permanente da guerra ou da criminalidade, então tudo depende de provar ser isso um erro cuja repetição deve ser evitada através da educação ou da iluminação. Esses erros aparece pela única razão de que os fatores daquela grande equação - o resultado da qual tem a população do globo tornando-se uma humanidade unificada e fundamentalmente boa, bem como fundamentalmente racional, e portanto também fundamentalmente segura - ainda não alcançaram reconhecimento geral. A fé na força persuasiva dessas opiniões é uma das razãos pelas quais o iluminismo tende a superestimar os poderes dados a ele.

Uma das melhores objeções que já foi levantada contra essa valoração é que sob tais circunstâncias a vida seria intoleravelmente tediosa. Essa objeção jamais foi de uma natureza puramente teórica mas sim foi aplicada praticamente por aquelas pessoas jovens que, na escuridão enevoada da noite, deixaram seus lares para buscar o perigo na América, no mar, ou na Legião Estrangeira. É um sinal da dominação dos valores burgueses que o perigo espreite na distância, "lá longe na Turquia", em cujas terras cresce pimenta, ou onde seja que o burguês gosta de deplorar por não conformar-se a seus padrões. Pois o desaparecimento completo desses valores, porém, jamais será possível, não apenas porque eles estão semprep resentes mas acima de tudo porque o coração humano necessita não apenas de segurança mas de perigo também. Porém esse desejo é capaz de revelar-se na sociedade burguesa apenas como um protesto, e de fato aparece, na forma de protesto romântico. O burguês quase foi bem sucedido em persuadir o coração aventureiro de que o perigoso não encontra-se de modo algum presente. Assim tornam-se possíveis figuras que dificilmente ousam falar sua própria linguagem superior, quer seja do poeta, que compara-se ao albatroz, cujas poderosas assas não são mais que o objeto de uma curiosidade entendiada em um ambiente estranho e sem vento, ou a do guerreiro, que aparece como um vagabundo porque a vida de um lojista enche-lhe de nojo. Incontáveis exemplos poderiam mostrar como em uma era de grande segurança qualquer vida lucrativa separar-se-á das distâncias simbolizadas por terras estranhas, intoxicação, ou morte.

Nesse sentido a guerra mundial aparece como a grande linha vermelha de equilíbrio sob a era burguesa, cujo espírito explicava - isto é, acreditavva-se capaz de invalidar - o júbilo dos voluntários que saudaram a guerra atribuindo-o ou ao erro patriótico ou a uma suspeita luxúria pela aventura. Fundamentalmente, porém, esse júbilo foi um protesto revolucionário contra os valores do mundo burguês; foi um reconhecimento do destino como a expressão do poder supremo. Nesse júbilo uma transvaloração de todos os valores, a qual foi profetizada por espíritos exaltados, foi completada: após uma era que buscou subordinar o destino à razão, outra seguiu-se que viu a razão como serva do destino. Desse momento em diante, o perigo não mais era o objetivo de uma oposição romântica; era ao invés uma realidade, e a tarefa do burguês era novamente recolher-se dessa realidade e escapar para a utopia da segurança. Desse momento em diante, as palavras paz e ordem tornaram-se um slogan ao qual uma moral mais fraca recorreu.

Essa foi uma guerra que não apenas nações, mas duas épocas conduziram uma contra a outra. Como consequência, ambos vencedores e vencidos haviam aqui na Alemanha. Vencedores são aqueles que, como salamandras, atravessaram a escola do perigo. Apenas esses resistirão em uma época quando o perigo, não a segurança, determinarão a ordem da vida.


Precisamente por essa razão, porém, as tarefas que a ordem deve realizar tornaram-se muito mais amplas do que antes; essas tarefas devem ser realizadas onde o perigo não é a exceção, mas sim constantemente presente. Como um exemplo, a força policial pode ser mencionada. Ela transformou-se de um grupo de funcionários públicos em uma formação que já parece-se bastante com uma unidade militar. Do mesmo modo os vários partidos grandes reconhecem a necessidade de adotar meios de poder que expressam o fato de que a batalha de opiniões não será decidida somente através de votos e programas mas também pelos adeptos comprometidos a marchar em apoio a esses programas. Tais fatos não devem de modo algum ser isolados e considerados como uma mudança temporária ou transitória na paisagem política. Nem pode a inclinação pelo perigo ser ignorada nas iniciativas intelectuais, e é inconfundível que novas formas do espírito vulcânico estão em operação. Fenômenos como a moderna teoria atômica, a cosmogonia glacial, a introdução do conceito de mutação na zoologia, todas apontam claramente, de modo completamente separado de seu conteúdo real, o quão forte o espírito está começando a participar em eventos explosivos. A história das invenções também levanta cada vez mais claramente a questão de se um espaço de conforto absoluto ou um espaço de perigo absoluto é o objetivo final oculto na tecnologia. Completamente à parte da circunstância de que dificilmente uma máquina, dificilmente uma ciência já existiu que não preencheu, diretamente ou indiretamente, funções perigosas na guerra, invenções como o motor de automóvel já resultaram em perdas maiores do que qualquer guerra, não importa quão sangrenta.

O que caracteriza especialmente a era na qual encontramo-nos, na qual entramos cada vez mais fundo a cada dia, é o relacionamento íntimo que existe entre perigo e ordem. Pode ser expresso desse modo: o perigo aparece meramente como o outro lado de nossa ordem. O todo é mais ou menos equivalente a nossa imagem do átomo, que é completamente móvel e completamente constante. O segredo oculto aí é um novo e diferente retorno à natureza; é o fato de que nós somos simultaneamente civilizados e bárbaros, de que nós aproximamo-nos do elemental sem termos sacrificado a acuidade de nossas consciências. Assim apresenta-se como duplo o caminho através do qual o perigo penetrou nossa vida. Ele interferiu sobre nós primeiro de tudo como uma arena na qual a natureza é ainda mais vital. Coisas, "as quais só eram possíveis na América do Sul", agora são familiares a nós. A diferença é que o perigo, a partir de uma dimensão romântica, tornou-se desse modo real. Em segundo lugar, porém, nós estamos envuando o perigo de volta por todo o globo em uma nova forma.

Essa nova forma de perigo aparece na conexão mais próxima realizada entre os eventos elementais e a consciência. O elemental é eterno: como as pessoas sempre encontraram-se em conflito apaixonado com coisas, animais, ou outras pessoas, como é o caso hoje. A característica particular de nossa era, porém, é precisamente que tudo isso transpira na presença da mais aguda consciência. Isso encontra expressão acima de tudo na circunstância de que em todos esses conflitos o mais poderoso servo da consciência, a máquina, está sempre presente. Assim o eterno conflito da humanidade com a natureza elemental do mar apresenta-se na forma temporal de um dispositivo mecânico supremamente complicado. Assim a batalha aparece como um processo durante o qual o motor blindado move-se enfrentando homens através do mar, da terra, ou no ar. Assim o próprio acidente diário, com os quais nossos jornais estão repletos, aparecem quase exclusivamente como uma catástrofe de tipo tecnológico.

Para além de tudo isso a maravilha de nosso mundo, ao mesmo tempo sóbrio e perigoso, é o registro do momento no qual o perigo transpira - um registro que é ademais realizado onde quer que ele não capture a consciência humana imediatamente, por meio de máquinas. Não necessita-se de qualquer talento profético para prever que logo qualquer dado evento estará lá para ser visto ou ouvido em qualquer lugar. Já hoje dificilmente há um evento de importância humana em direção ao qual o olho artificial da civilização, a lente fotográfica, não está dirigido. O resulto geralmente são fotos de precisão demoníaca através da qual a nova relação da humanidade com o perigo torna-se visível de modo excepcional. Deve-se reconhecer que é uma questão aqui muito menos da peculiaridade das novas ferramentas do que de um novo estilo que faz uso das ferramentes tecnológicas. A mudança torna-se iluminadora na investigação da mudança nas ferramentas que há muito tem estado a nossa disposição, como a linguagem. Ainda que nosso tempo produza pouco em termos de literatura no sentido antigo, muito de significância é realizado através de relatórios objetivos de experiência. Nosso tempo é instigado pela necessidade humana - o que explica, entre outras coisas, o sucesso da literatura de guerra. Nós já possuimos um novo estilo de linguagem, um que gradualmente torna-se visível sob a linguagem da época burguesa. O mesmo, porém, é verdadeiro de nosso estilo como um todo; ele é reminiscente do fato de que o automóvel foi por um longo tempo construído na forma de uma carruagem puxada por cavalos, ou de que uma sociedade completamente diferente já há muito estabeleceu-se sob a superfício da sociedade burguesa. Como durante a inflação, nós continuamos por um tempo a gastar as moedas usuais, sem sentir que a taxa de câmbio não é mais a mesma.

Nesse sentido, pode ser dito que nós já mergulhamos fundo em novos e mais perigosos reinos, sem estamos conscientes deles.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Interpretação e Desfiguração do Pensamento de Nietzsche na Sociedade Moderna

por Raul Castillo


Introdução

Perscrutando a Literatura, Filosofia, História e demais áreas do conhecimento através das épocas, deparamo-nos sempre com algumas personagens cujas idéias parecem causar certo aborrecimento e embaraço à atual sociedade moderna, e que exatamente por possuírem essa natureza indomável e crítica, necessitam ser submetidas a uma espécie de “seleção de idéias”, na qual se pretende estabelecer um limite do que é aceitável dentro do atual panorama intelectual, político e acadêmico, tanto a nível nacional como internacional.

Nesse processo, muitos autores, intelectuais e políticos de qualidade têm sido condenados à escuridão, ao esquecimento e ao silêncio, sufocando suas vidas. Não obstante, o mais comum é encontrarmos esses homens e suas obras desfigurados, já “purificados” pelos professores acadêmicos ou intelectuais engajados na mídia que guiam a educação em nosso país.

Infelizmente encontramos Nietzsche na situação acima descrita. No entanto, o oposto também é verdadeiro. Quantos maus escritores e maus políticos não têm sido enaltecidos como heróis pela nossa mídia, que se proclama digna e íntegra.

Basta estudar com atenção as obras, as vidas e a influência de certos autores e políticos, como Che Guevara, Karl Marx, Mao Tsé-Tung, Freud e perceberemos como os ensinamentos dessas personalidades foi tão fatal e maligno a toda humanidade, que os caminhos indicados por eles levaram o homem a sua condição mais vil na terra, uma condição jamais vista.

É necessário apenas um momento de lucidez para chegar à conclusão de que algo está errado. Existem muitas idéias ocultas, interpretações mascaradas e acima de tudo improbidade intelectual. Porém, todas essas características tão contraditórias entre si se encaixam com perfeição na nossa civilização “social-democaratahumanitária-capitalista”.

Destarte, diante de toda venenosa ladainha da mídia, encontramo-nos, não com admiração, mas sim com espanto, com o filósofo Nietzsche. Mas como? Poderia o pensamento Nietzschiano, tão temido, tão combatido, cheio de perigos e verdades, uma filosofia que isola o seu adepto, ser compreendida pela nossa geração? Poderia o típico cidadão do mundo moderno retirar de seus ensinamentos algo de proveitoso para alcançar seus propósitos, que no geral são simplesmente materialistas, consumistas, sexuais e tão destituídos de moral, arte e filosofia? Tendo essas questões como ponto de partida, coloquemo-nos seriamente a pensar. Por mais perspectivistas que possamos ser, parece-nos impossível encontrar uma resposta positiva a tais questões.

Temos assistido, em nosso cotidiano, um estranho crescimento da freqüência com que se tem invocado o filósofo em diferentes ambientes. Sejam em novelas, jornais, livros, filmes ou outros meios de “comunicação”, tem-se feito ecoar o nome de Nietzsche. E o que parece importar é como ele tem sido representado, e não o que ele realmente representa.

Apresentam-nos o filósofo como um destruidor de preconceitos, que abominava o anti-semitismo de sua época, um gênio com uma personalidade terna, sublime, quase um salvador que procurava libertar o homem de uma carga pesada e desnecessária. Em síntese, praticamente um liberal! Portanto, não é muito difícil compreender o porquê do enorme crescimento daqueles que se proclamam seus admiradores ou simpatizantes, bem como sua aceitação em diversas camadas da sociedade. Restanos perguntar: sabem, esses, realmente a quem estão a admirar? Sabem com que tipo de mundo sonhava esse homem?

Sua filosofia, de caráter complexo e que muitas vezes parece à primeira vista cheia de contradições, pode facilmente ser deformada e apresentada aos leigos e estudantes como algo que não é, usando-se apenas fragmentos do seu pensamento, frases isoladas, e que de forma alguma podem dar uma visão completa de como sua filosofia encarava o mundo.

É exatamente por isso que não destino esse artigo aos que desconhecem o filósofo por completo, mas sim àqueles que já possuem certa familiaridade (ou pensam ter) com suas idéias, bem como aos que compartilham de um conhecimento mais profundo de seus ensinamentos, já que somente esses poderão estar a par do que será exposto nestas páginas. Poderão confrontar tudo que aprenderam sobre o pensador estudando suas obras e aquilo a que têm sido induzidos a acreditar através da mídia de massa, dos nossos professores e intelectuais que ás vezes parecem estar a tratar de uma outra pessoa... um Nietzsche que deveria ter sido.

Sendo assim, torna-se necessário reproduzir alguns trechos de suas obras, visando uma melhor compreensão do que aqui buscamos pôr em foco.

Embora seja um trabalho simples e até mesmo ingênuo (pois qualquer leitor atento e honesto poderia facilmente escrevê-lo), torna-se diante dos fatos de suma importância para uma compreensão mais completa de Nietzsche. Uma compreensão que DEVERIA ser alcançada pela maior parte de seus leitores com uma simples e HONESTA leitura.

Aqui não há a intenção de barbarizar ou bestializar este homem, mas apenas de expor uma parte de sua face que parece ter sido esquecida nas sombras pelo nosso atual modernismo, possivelmente por encontrar nele algo corrosivo aos seus alicerces.

Racismo e Feminismo

Muito se fala e se repete sobre as suas críticas aos alemães e ao seu germanismo, bem como a sua atitude de indignação diante do anti-semitismo, destacando-se os seus elogios aos judeus. No entanto, aquele que levar mais em consideração a sua própria experiência com o filósofo e suas obras do que os meros e simplórios comentários a que temos observado sobre o seu posicionamento sobre a questão semita, notará facilmente que Nietzsche não foi tão “benévolo” com o povo judeu, chegando a afirmar categoricamente que “os judeus são o povo mais funesto da história universal”.

Abaixo seguem alguns trechos selecionados de suas obras, nos quais o filósofo se refere aos judeus de forma crítica e desembaraçada de preconceitos, pondo em evidência uma faceta ainda não explorada nos nossos dias do seu pensamento sobre a questão judaica:

Os judeus são o povo mais singular na história, porque, ao verem-se colocados perante o dilema do ser ou não ser, preferiram com uma lucidez extraordinária, o ser por qualquer preço: esse preço era a falsificação radical de toda a natureza, de toda a realidade, tanto do mundo interior como do exterior. Entrincheiraram-se contra todas as condições que permitiam até ai que um povo tivesse a possibilidade, o direito de viver; fizeram de si próprios uma antítese das condições naturais - perverteram sucessivamente e de modo irremediável a religião, o culto, a moral, a história, a psicologia, transformando-os na antítese dos seus valores naturais.”

É por essa razão que os judeus são o povo mais funesto da história universal: a humanidade foi a tal ponto falseada pelo ulterior efeito da sua ação que, hoje em dia, um cristão pode sentir-se antijudeu sem se considerar a si próprio como a última conseqüência do judaísmo.”

Sob o ponto de vista psicológico, o povo judeu é o que possui força vital mais tenaz, o que, colocado em condições dificílimas, toma livremente, por uma profundíssima sabedoria de conservação, o partido de todos os instintos de decadência - não por estar sujeito a esses instintos, mas porque advinha neles um poder que lhe permitia afirmar-se contra o “mundo”. Os judeus são o contrário de todos os decadentes: tiveram de representar o papel destes até a perfeita ilusão, souberam colocar-se à frente de todos os movimentos de decadência com um non plus ultra [1] do gênio teatral (na forma do cristianismo de Paulo) para deles fazer algo que fosse mais forte que qualquer partido de adesão à vida. Para o tipo de homens que no judaísmo e no cristianismo aspiram ao poder, a decadência é um estado sacerdotal, unicamente um meio: é interesse vital dessa classe de homens tornar a humanidade doente e perverter as noções de “bem” e de “mal”, de “verdadeiro” e de “falso” num sentido mortal para a vida e infamante para o mundo.” ( O Anticristo, Capítulo XXIV, Editora Martin Claret.)

No cristianismo, a arte de mentir santamente é o judaísmo, uma aprendizagem, uma técnica judaica de muitos séculos, e das mais sérias, que alcança aqui a sua mais alta perfeição. O cristão, essa ultima ratio da mentira, é o judeu, ainda judeu, triplicemente judeu...” (O Anticristo, Capítulo XLIV, Editora Martin Claret.)

Reside nesta inversão de valores - em que convém empregar-se a palavra “pobre” como sinônimo de “santo” e de “amigo”- a importância do povo judaico. A rebelião dos escravos na moral começa com os judeus.” ( Para Além do Bem e do Mal, aforismo 195, Editora Martin Claret.)

Nietzsche não era um anti-semita, um mero racista, isto temos que concluir. Mas a que conclusão perigosa chegamos nós! Se há um minuto atrás essa mesma conclusão causava alívio aos construtores de um Nietzsche moderno, quão consternados não devem ficar após lerem os trechos supracitados! Oras, se Nietzsche não era um anti-semita, o que significam todas essas críticas?

Na verdade, tudo é muito simples e claro. O filósofo, em suas pesquisas filosóficas, históricas e psicológicas não poupava a ninguém. Se ele mesmo, como alemão, não poupou aos alemães, porque pouparia aos judeus? As frases são claras, a intenção é clara. Não há espaços para interpretações dúbias quanto ao sentido. Durante toda a leitura de O Anticristo esbarramos com censuras ao “povo escolhido”, do início ao fim, sem que possamos nos esquivar ao seu exame frio e extremamente lúcido. Analisando o filósofo por esse ângulo não é difícil compreender a simpatia que despertou em muitos Nacional Socialistas, embora suas apreciações sobre o povo judaico não fossem o único elo entre o filósofo e esses, como observamos em sua obra Aurora, aforismo 272, A purificação da raça:

Não há provavelmente raças puras, mas somente raças depuradas, e estas são extraordinariamente raras. O mais freqüente são raças cruzadas, nas quais, ao lado dos defeitos de harmonia nas formas corporais (por exemplo, quando os olhos e a boca não harmonizam), há necessariamente sempre defeitos de harmonia nos costumes e nas apreciações de valor. (Livingston ouviu uma vez um indivíduo dizer: “Deus fez homens brancos e homens negros, mas o diabo criou as raças misturadas”).

As raças cruzadas produzem sempre, ao mesmo tempo que culturas cruzadas, morais cruzadas; geralmente são piores, mais cruéis, mais inquietas.


E mais abaixo conclui:

Mas, enfim, quando o processo da depuração foi conseguido, todas as forças que antes se perdiam na luta entre as qualidades sem harmonia encontram-se à disposição do conjunto do organismo; por isso as raças depuradas são sempre mais fortes e mais belas. Os gregos nos oferecem o modelo de uma raça e de uma cultura assim depuradas: e é de esperar que se conseguirá também um dia a criação de uma raça e de uma cultura européias puras.“

Junte-se a isso ainda a sua afirmação de que a Alemanha já possuía judeus demais, sendo que não se devia deixar entrar novos fluxos no país. Acreditava ingenuamente que as raças inteligentes tiveram medo freqüentemente, tornando-se pálidas e permanecendo pálidas até os dias de hoje, “pois a inteligência se mede pela capacidade de temer”. Afirma ainda: “A diminuição progressiva do homem é precisamente a força motriz que nos faz pensar na criação de uma raça mais forte.” A divergência entre os nacional-socialistas e o filósofo reside no fato de suas opiniões não sustentarem ou visarem ao racialismo e ao nacionalismo, já que o último não passava de um movimento de massas, fruto de uma época decadente, uma neurose, segundo Nietzsche.

Sua acidez é fruto de seu estudo e de seu entendimento do mundo, e não de meros preconceitos. Sua época não estava tão condicionada ao politicamente correto como a nossa se encontra. Tão politicamente correta a ponto de impedir que certas pessoas ou certos grupos exponham publicamente suas idéias, com ameaças de prisão e até de morte.

Continuemos então, já que ainda estamos “livres”, a nossa batalha contra os medíocres que insistem em ver no mundo somente aquilo que reforça as suas teses acadêmicas e que serve aos seus propósitos de falsificação histórica.

Atualmente a mulher tem sido elevada acima dos homens e já não resta mais nenhuma dúvida sobre a sua aceitação em nossa civilização moderna. O chamado “sexo frágil” inclusive tem conquistado cada vez mais liberdade e independência em questões jurídicas, possuindo mais direitos e menos deveres do que os homens. Para se chegar a essa constatação basta observarmos o nosso cotidiano, principalmente no que envolve a justiça, como separação judicial, decisões pela guarda dos filhos, casos de agressão física (ela é sempre a vítima, independente do que se tenha sucedido na ocasião) e até mesmo na busca por trabalho elas parecem levar vantagem.

Em uma sociedade onde o feminismo é uma virtude, é interessante saber que lugar Nietzsche teria reservado às mulheres em sua ética. Para tanto, é imprescindível lermos um trecho de Para Além do Bem e do Mal, aforismo 232.

A mulher quer emancipar-se. Para atingir esse desiderato começa a esclarecer os homens sobre a “mulher em si”. Sem dúvida que isto constitui um dos piores progressos no sentido do geral afeamento da Europa. Quanta coisa não se revelará nestas tentativas desajeitadas de cientificismo e autodesnudamento femininos! A mulher tem tantas razões para ficar envergonhada! Há tanto pedantismo na mulher, tanta superficialidade, doutrinarismo, presunção mesquinha, pequenez desenfreada e imodesta! Preste atenção no seu convívio com crianças! Até agora, só o medo ao homem refreou e reprimiu essas fraquezas. Ai de nós no dia em que o “eternamente aborrecido na mulher” [2] - e ela é rica nisso! – ouse aparecer! Se ela começar a desaprender, radicalmente e por princípio, a sua inteligência e a sua arte, a da graciosidade, a de brincar, de dissipar cuidados, de aliviar as penas e de as tornar ânimo leve, o seu delicado jeito para desejos agradáveis! Agora já se ouvem vozes femininas que, por Santo Aristófanes!, assustam. Explica-se ameaçadoramente e com clareza de médico o que, em primeira e última análise, a mulher quer do homem.”

E prossegue ainda:

Que importa, à mulher, a verdade! Desde a origem, nada é mais estranho, mais avesso, mais odioso à mulher do que a verdade. A sua grande arte é a mentira, o que mais lhe interessa é a aparência e a beleza. Confessemo-lo entre nós homens: nós honramos e amamos na mulher exatamente essa arte e esse instinto. Nós que temos uma vida difícil e, para nos aliviarmos, gostamos de nos juntar a seres sob cujas mãos, olhares e tolices ternas, a nossa seriedade, a nossa gravidade, a nossa profundidade quase nos aparecem como uma tolice. Pergunto por fim: alguma vez uma mulher concedeu profundidade a um cérebro de mulher, justiça a um coração de mulher?.”

Realmente não há o que comentar. Com o passar do tempo a tendência é que se oculte e se deixe morrer no silêncio e na escuridão essa visão que o filósofo possuía das mulheres, como coisa repugnante, um mero preconceito que mais uma vez foi derrubado, ultrapassado pela modernidade. Sem dúvida, “machismo da pior espécie”.

Democracia, Socialismo e Aristocracia.

Embora saibamos que o nacionalismo o exasperasse, tem-se exposto o que pensava de outras formas de política, que espécie de governo desejava? Suas opiniões têm sido colocadas à vista dos leigos e estudantes sobre essa questão, ou têm sido (como muitas) sorrateiramente empurradas “para debaixo do tapete”? Novamente pensamos seriamente e chegamos à mesma conclusão! Ocultam-nos a verdade!

Nietzsche havia se posicionado contra a democracia, pois para ele tudo que age em favor do sufrágio universal beneficia o domínio dos homens inferiores. Para ele a democracia não representava apenas a decadência da organização política, mas também a mediocrização e desvalorização do homem. Sua filosofia não se destinava aos homens que se achassem ao nível médio das massas, mais sim àqueles que estavam muito além delas. E como em todo rebanho há manipulação, o poder do povo simplesmente não existe.

Tão pouco possuía simpatia para com o socialismo. Em Ecce Homo deixa claro: “A última coisa que eu me prometeria seria “melhorar” a humanidade”. Não se preocupava em absoluto com o sofrimento ou com os direitos do proletariado, não colocando, inclusive, nenhuma objeção ao sacrifício desses, desde que fossem necessários para a produção de um homem superior. Acredita, aliás, que o socialismo só poder existir através do extremo terrorismo e dominar pelo pavor, sendo sua missão exterminar o indivíduo, o qual lhe aparece como um injustificado luxo da natureza, que deve ser adequado aos fins da comunidade. Há uma passagem em Para Além do Bem e do Mal, aforismo 203, que nos da uma imagem clara do que pensava dos socialistas:

A degenerescência global do homem até àquilo que é considerado pelos cretinos e boçais socialistas como o seu “homem do futuro” - seu ideal! – Essa degenerescência e amesquinhamento do homem até ao perfeito animal de rebanho – ou, como eles diriam, até ao homem da “sociedade livre” -, essa bestialização do homem até converter-se em animúnculo dos direitos iguais e reivindicações igualitárias é possível não haja dúvida!”.

O filósofo desejava um governo aristocrata. Para ele a aristocracia era a responsável por toda a cultura superior que surgira na terra. A aristocracia, inicialmente, seria formada sempre por uma casta de bárbaros, de conquistadores que teriam se lançado sobre povos mais fracos, mais civilizados. Antes das revoluções francesa e americana praticamente todos os governos dos grandes estados foram dirigidos por aristocracias. Inclua-se neste currículo a civilização egípcia, grega, romana entre dezenas de outras e poderemos compreender porque desejava tal espécie de governo. Lembre-se que para Nietzsche era indiferente o que acontecia com as massas sobre um governo aristocrata, desde que as castas aristocráticas estivessem exercendo o poder e criando uma cultura superior de acordo com seus valores. Portanto, para compreendermos sua posição não devemos julgar o que aconteceu com as massas sobre o governo das aristocracias, como se costuma fazer com os atuais governos democráticos e socialistas, onde as condições de vida das massas populares (como a diminuição da miséria, o equilíbrio social e o alto desempenho escolar) passam a ser o avaliador da atuação de um governo. Devemos apenas buscar pelas criações na arte, filosofia e ciência de tais aristocracias, que seriam fruto de uma moral de senhores, dos nobres. Além do mais, uma simples análise da pobre arte produzida durante os governos socialistas ou democratas é o bastante para lhe dar razão, embora algumas poucas exceções sobrevivam.

A moral e o espírito livre

Com razão Nietzsche se considerava um imoral em sua época, já que seus valores conflitavam radicalmente com os valores defendidos pelos seus contemporâneos. Erroneamente muitos acreditam que o filósofo era contra todo tipo de moral, mas como veremos adiante essa crença está edificada em uma visão falsa.

Para ele a moral de sua época não passava da moral de rebanho, a moral dos fracos, dos escravos. Era contra essa moral que Nietzsche estava em luta, proclamando-se dessa maneira como um imoral. A moral de rebanho ensina ao indivíduo a ser função do rebanho, a se atribuir valor apenas em função do rebanho. Essa moral teria se originado com “os violentados, os oprimidos, os sofredores, os servis, os inseguros e cansados de si mesmos”. Estes veriam a vida como sofrimento, a existência seria dessa forma indigna. Sua moral prestaria honras à compaixão, à humildade, ao bom coração e à paciência como ”virtudes” úteis para se agüentar a pressão da existência.

Contrastando com essa moral de decadência se encontraria a moral dos senhores, dos nobres. A moral dos senhores é diferente das outras porque não se encaixa no espírito de rebanho. Essa moral é a criadora de valores e surge dos dominadores, dos conquistadores, fruto de estados de alma elevados e altivos; a moral nobre enobrece a vida e afirma tudo que há de grande, de belo e mesmo de repreensível nela. Essa não seria para todos, mas deveria permanecer como pertencente a uma minoria aristocrática, isolando o seu possuidor. Nietzsche diz ainda: “Nenhuma moral é possível sem um bom nascimento

Portanto, devemos considerar como um “mal entendido moderno” o fato de muitos verem o filósofo como um imoral no sentido literal da palavra, ou seja, como se não passasse de um indivíduo sem princípios, sem valores. Isso demonstra que ainda estamos presos a dualismos em nossos dias. Quão perigoso não pode ser esse mal entendido quando algum desinformado entende sua imoralidade como ausência de valores e pretende dessa forma conduzir suas ações!

Os espíritos livres, também denominados como filósofos do futuro seriam aqueles que conseguiram se libertar de todo dogmatismo, e que por isso mesmo seriam os novos criadores de valores. Estariam libertos de todo dualismo, lançando-se para além do bem e do mal. Isso lhes permitiria a criação de infinitas perspectivas, sem medo de experimentações com o pensamento, pois “o temor é o pai da moral”.

No entanto, ser um espírito livre não significa necessariamente não possuir nenhuma perspectiva, mas sempre estar aberto ao perpectivismo, procurando encarar uma realidade por diversos ângulos, o que impediria o dogmatismo, pois infinitas são as possibilidades do pensamento e sendo assim não há razões para se fechar em uma única visão do mundo.

Em Para Além do Bem e do Mal, aforismo 44 existem algumas passagens esclarecedoras sobre a importância de não se confundir o espírito livre nietzschiano com o que se tem denominado como espírito livre moderno.

Em todos os países da Europa e, igualmente, da América, há agora gente que abusa desse nome, um tipo de espíritos muito estreitos, presos, algemados, que querem mais ou menos o contrário do que está nas nossas intenções e instintos, não falando do fato de que eles, em relação àqueles novos filósofos que emergem no horizonte devem ser, em oposição, janelas fechadas e portas aferrolhadas. Expressando-me sem rodeios, eles fazem parte, infelizmente, dos niveladores, esses falsamente denominados “espíritos livres”, porque são os escravos fecundos e primitivos do gosto democrático e das suas “idéias modernas”. São todos eles homens sem solidão, sem uma solidão que lhes pertença, bons rapazes simplórios a quem não se deve negar coragem nem boa conduta, mas que são ridiculamente superficiais e não-livres, principalmente na sua tendência básica de ver, mais ou menos, nas formas desta velha sociedade, a causa de toda a miséria e sofrimento humanos. Dessa forma, a verdade fica certeiramente de cabeça para baixo. O que aspiram com todas as forças é à verde felicidade geral dos rebanhos no pasto, com a segurança, a ausência de perigos, o bem-estar e a vida fácil para toda a gente. As suas duas cantilenas e doutrinas mais estafadas chamam-se “igualdade de direitos” e “piedade para com os que sofrem”. O próprio sofrimento é considerado por eles como algo que se deve suprimir. Nós, que vemos as coisas sob outra óptica, nós que abrimos os olhos e a consciência à questão de saber onde e como se desenvolveu até aqui mais rigorosamente a planta “homem” [3], julgamos saber que tal se deu sempre em condições absolutamente opostas”.

Achamos que a dureza, a violência, a escravidão, o perigo na alma e na rua, que a dissimulação, o estoicismo, a artimanha e os sortilégios de toda ordem, que tudo o que é mau, terrível, tirânico, tudo o que o homem possui de fera e de serpente, tudo isso serve tão bem à elevação da espécie homem, como o seu contrário”.

No que se refere à perigosa fórmula “para além do bem e do mal”, com a qual evitamos pelo menos ser confundidos com outros, somos coisa bem diferente dos libres-penseurs, dos liberi pensatori, Freidenker ou de qualquer outra coisa que se queiram chamar esses bravos defensores das “idéias modernas””.

Conclusão

Como podemos observar nada escapou a sua visão penetrante: alemães, europeus, nacionalistas, anti-semitas, judeus, socialistas, democratas, feministas, filósofos, cristãos, todos foram alvo de suas investidas. E até mesmo toda a história da humanidade foi questionada, lançando sobre ela o seu olhar interrogador. Nietzsche era extremamente honesto a sua inteligência e as suas conclusões. Não se sentia embaraçado diante de cada verdade ou de cada mentira que descobria. Talvez se espantasse às vezes com a própria perspicácia. Parece, porém, que em nenhum momento deixou de expressar suas idéias, mesmo que a verdade pudesse doer em muitos, e muitos pudessem se proclamar seus inimigos.

Estamos diante de um homem que estava em guerra com a sua época e que continua em guerra com a nossa, pois cada vez mais estamos distantes do mundo que desejava. Tudo o que descreveu em suas obras como decadente está cada vez mais destinado a servir de alicerce a nossa sociedade. Será esse o motivo por que se tem ocultado, ou pelo menos dispensado uma atenção insuficiente a muitos de seus princípios, principalmente àqueles onde ele mais se opunha de forma clara e estarrecedora a uma determinada situação, que encontra na nossa atual sociedade o seu modelo exemplar? Podemos concluir que sim, embora não deixe de ser uma conclusão infeliz. Que governo fanaticamente democrata (como os governos ocidentais) gostaria de encarar frente a frente e desarmado a tal personagem? Mas sejamos sinceros, e que a verdade doa a quem doer!

É necessário que se explique novamente: por mais perspectivistas que possamos ser, por mais que tenhamos boa vontade, não se pode chegar a um entendimento, a uma compreensão de certas posturas a que tem sido exposto o pensamento nietzschiano. Como entender que pessoas envolvidas com o entretenimento vulgar das massas estejam se inspirando em seus escritos? Que justamente aqueles a quem considerava como decadentes, os que transformavam a cultura em comércio, sejam agora seus admiradores e simpatizantes, ou antes, pior, os divulgadores de suas “idéias”? Que jovens imbuídos de idéias modernas até a medula se sintam influenciados e até mesmo identificados com o filósofo, sendo que o mesmo os desprezaria com repugnância? Ele é um guerreiro a quem a civilização atual não pode digerir, a não ser que o transforme em parte dela mesma.

Há ainda os que argumentam que o seu pensamento é uma forma de filosofar e não uma filosofia em si, como norma de conduzir a vida. Constata-se, entretanto, tratar-se de um sério equívoco quando estudamos a vida do filósofo, já que tudo indica que ele seguiu de forma radical a todos os ensinamentos que se encontram em suas obras.

Talvez muitos se deixem levar pela beleza poética de algumas passagens de suas obras, primando por interpretar as palavras do filósofo de forma pessoal, ao invés de interpretá-las dentro do pensamento Nietzschiano, gerando (talvez) muitos dos mal entendidos.

No entanto, isso é compreensível somente diante dos ingênuos, dos desinformados e iniciantes. A maior culpa pelo desconhecimento e deformação de suas idéias é sem dúvida de origem acadêmica e dos intelectuais que dominam com mãos de ferro a educação de todos nós.

Repete-se como propaganda as famigeradas acusações de falsificação contra a sua irmã Elizabeth, que, no entanto, também podem servir aos nossos educadores, de uma forma mais sutil é verdade. Aliás, há um verso do poeta-filósofo que representa de forma adequada e irônica a situação: “O pecado deste minuto livrará o antigo da memória” [6]. E não é exatamente isso que pretendem?

Nietzsche estava contra tudo que é tépido, morno, que possui um brilho fraco e que conduz ao conformismo e ao comodismo. Inicialmente suas idéias nos guiam à dúvida e no meio do caminho somos forçosamente postos frente a frente ao niilismo justamente para ultrapassá-lo. E aquele que o ultrapassa está mais perto de compreender a sua filosofia. Pode até mesmo topar com suas pegadas! E esse é o objetivo, a vitória sobre toda a negação. A afirmação do querer até mesmo na dor, no sofrimento, nas horas mais infelizes.

Por fim, espero que se torne claro, desta maneira, conforme tudo que foi exposto nestas páginas, como o seu pensamento tem sido desconfigurado, tendo em vista sua aceitação em uma sociedade decadente, deformando suas idéias, dando a elas um sentido moderno, aceitável ao rebanho atual, que não apresenta perigo à ordem vigente, passando a ser mero entretenimento. Dá-se aos seus escritos outros ares, algo que se pode respirar sem grandes perigos. E assim ele passa para a lista dos prediletos de muitos, sem que o compreendam é claro, pois a sua compreensão os faria lançar para longe de si as suas obras, como algo maldito, como a visão de um mundo que jamais deveria ser.

Esses que se fazem presentes são apenas os descendentes daqueles que o condenaram e contra os quais lutou. E porque não os condenaria também?

É importante frisar que muitas vezes chegamos a uma visão mais clara e honesta sobre o filósofo através de leituras que o colocam contra a parede, que o combatem e que mesmo assim reconhecem a sua grandeza em tudo de terrível, de belo e artístico que possamos encontrar em sua vida e obra.

Mesmo que os difamadores da inteligência monopolizem suas idéias e as direcionem a um único rumo; que tentem pintar o tigre feroz com cabrestos, a águia com sentimentos de pomba, ainda muitas pessoas se colocarão diante de tal blasfêmia. E por acaso já não se escuta ao longe certo alarido, um tanto tímido é verdade, que amaldiçoa àqueles que querem nos roubar o diamante, ou melhor, transformá-lo em bijuteria para que todos possam vendê-lo e comprá-lo?
______
Fonte: Revista Cultural Tholf nº5

[1] Não mais além, isto é, algo inexcedível, que não se ultrapassa.

[2] “Das Ewig-Langweilige am Welbe” é evidente paródia dos versos finais do Fausto de Goethe, baseada na similitude entre weiblich, feminino, e langwlich, aborrecido:

Das Ewig-Weibliche
Zieht uns hinan.
(O eterno feminino
impele-os para o alto).


[3] Alusão a Stendhal, Rome, Naples et Florence, 1854, citando Vittoria Alfieri sobre a Itália: “A planta homem nasce aqui mais robusta que em qualquer outra parte”.

[4] O verso se encontra no poema “A piedosa Beppa”, em Gaia Ciência.

sábado, 15 de outubro de 2011

A Mídia e a comparação entre Comunismo e Nazismo

por Alain de Benoist


A recusa obstinada, bem demonstrada pelo Livro Negro, de comparar o comunismo e o nazismo tem uma conseqüência direta: a diferença de tratamento entre dois totalitarismos e de tudo o que possa parecer aparentado com eles. Enquanto que o nazismo é considerado como o regime mais criminoso do século, o comunismo, que causou a morde de um maior número de homens, continua a ser considerado como um sistema, por certo contestável, mas não obstante perfeitamente defensável tanto no plano político, como intelectual ou moral.

Poderíamos dar inúmeros exemplos desta diferença de tratamento, relativa aos homens e às idéias. Ela pesa também sobre a paisagem política. O nacionalismo é freqüentemente assimilado ao fascismo, e este ao nazismo, enquanto que o socialismo nunca é considerado como potencialmente estalinista. A direita é sempre suspeita de “fascismo”, enquanto que o comunismo, apesar de seus erros, é tido como pertencente ás “forças do progresso”. A venda de um livro nazi suscita veementes protestos (e pode cair na alçada da lei), a de um livro comunista não se presta a nenhum comentário particular. Um velho nazi fica infreqüentável para sempre, enquanto que o fato de ter sido comunista não implica nenhuma perda de prestígio nem de estatuto social, mesmo para quem nunca exprimiu arrependimento. O mínimo laço, real ou suposto, com uma ideologia apresentada como tendo, de perto ou de longe, algum parentesco que seja com o nazismo, é uma marca de infâmia indelével que leva à denúncia e ao ostracismo. Um escritor da Colaboração fará para sempre parte dos “malditos”, mas não se vê um escritor ou artista estalinista recusar retrospectivamente alguma homenagem relacionada com o seu stalinismo. Pablo Neruda, Bertold Brecht ou Eisenstein são, e com razão, celebrados pelo seu talento. Drieu, Céline ou Leni Riefenstahl, ainda que não vejam negado o seu, continuam envoltos numa aura sulfurosa, que leva a lembrar que “o talento não é desculpa”. Jamais se perdoaria a um escritor fascista a redação de um hino à glória da Gestapo (coisa que, de resto, nunca aconteceu), mas que Aragon tenha cantado as virtudes do Guépéou [1] jamais afetou a sua reputação. Zomba-se do anticomunismo primário” e louva-se os comunistas por terem, pelo menos, combatido Hitler, mas ninguém se lembra de ironizar sobre o “antinazismo primário” ou de creditar aos nazis, pelo menos, o fato de terem combatido Stalin. Acusa-se o stalinismo de “desvio” do ideal comunista, enquanto ninguém sonha ver no nazismo um “desvio” do ideal fascista. Existe o direito de se enganar sobre o comunismo, mas não sobre o nazismo [2]. Em suma, qualquer compromisso com o nazismo desacredita absolutamente, enquanto os compromissos com o comunismo continuam a ser vistos como faltas comuns e sem gravidade.

Não só a denúncia do nazismo excede a do comunismo, como tende paradoxalmente a amplificar-se, à medida que o tempo passa. Mais de cinqüenta anos após a queda do III Reich, os crimes nazis, não os crimes comunistas, são objeto de um fluxo ininterrupto de livros, filmes, emissões de rádio e televisão. “A damnatio memoriæ do nazismo, sublinha Alain Besançon, longe de conhecer a mínima prescrição, agrava-se todos os dias” [3]. Meio século depois da sua morte, Hitler continua com uma bela carreira na mídia, enquanto Stalin está quase esquecido.

Em 1989, o sistema comunista desmoronou-se diante dos olhos espantados daqueles que, ainda alguns meses antes, afirmavam que o bloco soviético estava mais poderoso do que nunca e que o Exército Vermelho se preparava para invadir a Europa Ocidental [4]. Esta implosão, de que as circunstâncias exatas não foram, até ao momento, seriamente estudadas, produziu-se sem grande impacto de opinião. Não só os antigos dirigentes comunistas não foram massivamente conduzidos ante os tribunais, mas quase todos (exceto na Alemanha e na República Tcheca) foram autorizados a prosseguir, sob uma etiqueta ou outra, a sua carreira política, e em alguns casos chegaram mesmo a voltar ao poder [5]. Na Áustria, o ex-presidente Kurt Waldheim, antigo Secretário-geral da ONU, foi, pelo contrário, objeto de um ostracismo geral quando o seu “passado nazi” foi descoberto. Esta anistia de fato não suscitou no Ocidente nenhum protesto nem espanto particular. Hoje, ninguém sonha em transformar os antigos campos soviéticos em museus, nem construir monumentos às vítimas do terror stalinista [5]. Na França, onde um partido nazi seria imediatamente interditado, o partido comunista, não há muito tempo financiado por Stalin e durante cerca de meio século às ordens de Moscou, não vê ser contestada por ninguém a sua legitimidade, sequer a sua honorabilidade, apesar de tudo o que sabemos hoje sobre o seu passado komiteriano. Criticado pela direita pela sua aliança com este partido, Lionel Jospin chegou mesmo a declarar-se “orgulhoso de contar com ministros comunistas no [seu] governo” [6]. Enquanto nenhum fascista francês se designou a si próprio como “hitlerista”, os dirigentes do PCF vangloriavam-se durante muito tempo de serem “stalinistas”. [7]

No passado, os antifascistas, por outro lado, sempre foram incondicionalmente acreditados, enquanto aqueles que denunciavam o comunismo eram, freqüentemente, olhados como fabuladores ou espíritos partidários. Em 13 de Novembro de 1947, Victor Kravchenko, ao revelar em J’ai choisi la liberte, a realidade do sistema concentracionário, foi tratado pelo jornal comunista Les Lettres Françaises como “falsário” e “bêbado”. Inicia, então, um processo por difamação, que se desenrola em Paris, de 24 de Janeiro a 4 de Abril de 1949. Margaret Buber-Neumann veio testemunhar em 23 de Fevereiro. Quando ela explicou com base na experiência vivida, que na sua opinião não existe uma diferença de nível entre os campos soviéticos e os campos nazis, foi apelidada de cúmplice dos nazis. O antigo deportado da resistência David Rousset, que também deu o seu apoio a Kravchenko, foi igualmente acusado por Pierre Daix de ter “inventado os campos soviéticos” [8]. No processo que moveu, em 1950, contra Les Lettres Françaises, Marie-Claude Vaillant-Couturier declarou: “Sei que não existem campos de concentração na União Soviética e considero o sistema penitenciário soviético como indiscutivelmente o mais desejável do mundo inteiro” [9]. Em 1973, quando Soljénitsyne publicava O Arquipélago de Gulag, o jornal Le Monde acusa-o de lamentar “que o Ocidente tenha apoiado a URSS contra a Alemanha nazi” – o autor do artigo, Bernard Chapuis, compara-o explicitamente a Pierre Laval, Marcel Déat e Jacques Doriot – e não hesita em difundir o boato da sua instalação no Chile de Pinochet [10]. Um ano depois, um editor alemão que tinha comprado os direitos do livro de Pierra Chaunu, Le refus de la vie, recusou-se a publicá-lo depois de o ter traduzido integralmente, porque o autor fazia menção aos crimes do comunismo. O massacre de Katyn, descoberto pelo exército alemão, só foi definitivamente reconhecido como um crime soviético depois do Kremlin ter decidido confessá-lo.

Outro sinal revelador: o discurso anticomunista só começa a ser considerado crível a partir do momento em que é feito por antigos comunistas desiludidos [11]. Os seus hábitos do passado foram tomados como garantia da sua nova lucidez, enquanto que o fato de ter sido lúcido desde o início era olhado como suspeito. Só eram, portanto, dignos de crédito por uma vivência adquirida na época dos seus antigos hábitos...

Hoje, a situação só evoluiu parcialmente. Dois anos após a queda do Muro de Berlin, um Guy Sitbon ainda escrevia: “No final, estaremos nós seguros de que o comunismo se ruborizará [sic] pelo seu balanço na Rússia, no império, ou na China?” [12]. A maneira como a mídia noticiou o filme sobre o pacto germano-soviético e a partilha da Polônia realizado por Jean-Françoise Delassus e Thibaut d’Oiron [13] é igualmente significativa: para além das suas qualidades evidentes, pode ler-se na revista L’Histoire que o filme teria “o defeito de querer a qualquer preço demonstrar que o sistema soviético é o maior flagelo que o nosso século tinha conhecido” e de propor uma comparação entre os dois sistemas, comunista e nazi, “com desvantagem para Stalin” (sic). Quanto aos crimes do comunismo, existe o hábito de não os qualificar como tal. Jean Daniel escreve, por exemplo, que o comunismo stalinista recorreu a “meios nazis” [14], quando seria provavelmente mais conforme à verdade histórica escrever que foi o nazismo que usou os “meios comunistas”, pois foi desde a época de Lênin, e sob as suas ordens, que o comunismo se comprometeu deliberadamente na via do crime contra a humanidade como forma de governo [15].

“Se o monstro está morto como fenômeno político, escreve Jean-François Revel, continua bem vivo como fator cultural. O muro caiu em Berlin, mas não nos cérebros. Descrever o comunismo na sua realidade continua um delito de opinião [...] Porque é que o negacionismo definido como um delito quando se refere ao nazismo não o é quando escamoteia os crimes comunistas? É que, aos olhos da esquerda, subsistem os bons e os maus carrascos” [16]. “A insistência em relembrar os crimes do comunismo, observa por seu lado Jacques Julliard, varia na razão inversa da profundidade das nossas convicções progressistas” [17]. Ainda hoje, acrescenta Stéphane Courtois, “os crimes do comunismo não foram submetidos a uma avaliação legítima e normal, tanto do ponto de vista histórico como moral”.

Todos esses fatos confirmam, ainda hoje, que o nazismo suscita um horror que o comunismo, apesar dos seus crimes, não suscita. A questão que então se coloca é saber o porquê. É o que faz Alain Besançon quando, depois de ter sublinhado que “a amnésia do comunismo impele para uma memória muito forte do nazismo e reciprocamente quando a simples e justa memória conduz à condenação de ambos”, pergunta: “Como é possível, hoje, [...] a memória histórica tratar desigualmente [estes dois sistemas] ao ponto de parecer querer esquecer o comunismo?” [18]. Como se explicam o silêncio voluntário e a condenável cegueira que os crimes comunistas beneficiaram durante tanto tempo? Por que razão fatos conhecidos de longa data só hoje começam a ser admitidos? Por que razão encontramos, de um lado, a “memória” e mesmo a hipermnésia e, do outro, tanta indiferença e esquecimento?
___
Fonte: Reflexão nº 12 do Livro “Comunismo e Nazismo”

[1] “Je chante le Gépéou nécessaire à la France. Demandez un Guépéou. Il vous faut un Guépéou. Vive le Guépéou, figure dialectique de l’heroïsme1” (sic).

[2] “Se era suposto que Maurice Papon conhecesse a realidade de Auschwitz durante a guerra, como imaginar que marchais tenha podido ignorar o Gulag durante a paz?”, pergunta Jacques Julliard (L’année des fantômes, op. Cit., p.434).

[3] Comunicação apresentada na sessão de abertura do Institut de France, art. cit. p. 790.

[4] Somente cinco anos antes da queda do Muro de Berlin, Raymond Aron qualificava a hipótese segundo a qual “a União Soviética estaria ameaçada de desmoronamento” de “idéia aberrante” (Les dèrnieres annés du siècle, Julliard, 1984, p.119). “Se os Soviéticos, acrescenta, sonharem em conquistar a Europa Ocidental, sem a destruir usando armas nucleares, os próximos anos, os anos oitenta e, também, os anos noventa, são, parece, os melhores” (ibid., .p139). O poder soviético também não se deslocou sob o efeito da “revolta das nações” prognosticado freqüentemente por Hélène Carrière d’Encausse (L’Empire éclaté. La revolte des nations de l’URSS, Flammarion, 1978). François Furet reconheceu, em 1995, que, sem ilusões sobre a URSS desde 1956, nunca tinha imaginado um fim tão rápido.

[5] Na Polônia, Alexandre Kwasniewski, antigo membro do governo de Jaruzelski, foi recentemente eleito para a presidência contra Lech Walesa. Na Hungria, o atual Primeiro-Ministro, Guyla Horn, pertenceu ao último governo comunista do país. Na Rússia, os comunistas que, em 1917, não obtinham 20% dos votos, constituem em 1998 a fração mais importante no Parlamento. Sobre a ausência de perseguições contra os antigos dirigentes comunistas, cf. Timothy Garton Ash, “Les Séquelles Du passe em Europe de l’Est” in Espirit, Outubro de 1998, pp. 45-66.

[6] Este é o mesmo partido que, em Novembro de 1949, acusava de “falsificação” aqueles que evocavam a existência de campos de concentração na URSS, que fez adotar há alguns anos a lei Gayssot. Note-se ainda que os alemães não pensaram criar, na França, uma rua Heinrich-Himmler, mas já houve uma municipalidade comunista francesa que criou, em Pantin, uma rua Dzerjinski, em homenagem ao fundador da Checa.

[7] Em 28 de Abril de 1951, Maurice Thorez foi qualificado como o “melhor stalinista da França” pelo semanário comunista France Nouvelle.

[8] Eduquer contre Auschwitz ESF, 1997, p. 18.

[9] Les Lettres Françaises, 21 de Abril de 1949. Cf. Victor Kravchenko, J’ai choisi la liberté, Serf, 1947; Guillaume Malaurie, L’affaire Kravchenko, Robert Laffont, 1982.

[10] Cf. Alfred Grosser, Le crime et la mémoire, pp. 166-173.

[11] Cf. Pierre Frémion, “Écrivains et intellectuels à Paris. Une esquisse”, in French Politics and Society, Primavera de 1998, pp. 1-29. Descrevendo “a batalha política e intelectual em torno de “O Arquipélago Gulag” o autor escreve: “Desde o princípio, o Le Monde e o seu diretor colocaram-se do lado dos opositores do escritor russo. Durante longos anos, o jornal não cessará de fazer prova de uma perseverança assinalável na mediocridade tendenciosa cada vez que tem oportunidade de evocar Alexandre Soljénitsyne e os seus livros” (p.5).

[12] É, nomeadamente, o caso de Annie Krigel, François Furet, Emmanuel Leroy-Ladurie, Claude Lefort, Stéphane Courtois, etc. É provável que, há quinze anos, a maioria dos autores do Livro Negro tivessem recusado acreditar naquilo tudo que hoje afirmam.

[13] Jeune Afrique, 11 de Setembro de 1991.

[14] “Hitler et Staline. Liasions dangereuses”, filme difundido por FR-3 em 31 de Novembro, 7 e 14 de Dezembro de 1996.

[15] Le Nouvel Observateur, 13 de Novembro de 1997.

[16] Com um espírito semelhante, um Jean D’Ormesson pôde escrever que “entre os homens de esquerda que conduziram com sucesso, durante um período mais ou menos longo, uma política de direita ou de extrema-direita, podemos citar, lamentavelmente, Mussolini e Stalin” (Le Figaro, 14 de Abril de 1998). “85 millions de morts!” in Le Point, 15 de Novembro de 1997, p.65. O mesmo autor constatava recentemente: “Existe um negacionismo pró-comunista muito mais hipócrita, mais eficaz e mais difuso do que o negacionismo pró-nazi, que continua sumário e grupuscular [...] A organização do não-arrependimento em relação ao comunismo foi a principal atividade política do último decênio, como a organização do seu não-conhecimento foi a dos sete decênios anteriores (“Nazisme-communisme. L’éternel retour des tabous”, in Le Point, 10 de Outubro de 1998, p. 118).

[17] “Les plureuses du communisme”, art. cit. p.59.

[18] Art. cit. pp. 793 e 790. “Courtois e Besançon têm razão ao afirmarem que a história não tratou de forma igual o comunismo e o nazismo”, estima Valeria Monchi no Jewish Chronicle (11 de Setembro de 1998).

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ainda o Fardo do Homem Branco

por Slavoj Žižek

A visão politicamente correta encena uma estranha inversão do ódio racista à Alteridade; ela representa um tipo de negação/superação da rejeição e do ódio abertamente racistas ao Outro, da percepção do Outro como o Inimigo que constitui uma ameaça ao nosso modo de vida. Na visão politicamente correta, a violência do Outro contra nós, por mais deplorável e cruel que seja, é sempre uma reação contra o “pecado original” da nossa rejeição e opressão (do homem branco, imperialista, colonialista) da Alteridade. Nós, homens brancos, somos responsáveis e culpados, o Outro apenas reage como uma vítima; nós temos de ser condenados, o Outro tem de ser compreendido; nosso domínio é o da moral (condenação moral), enquanto o dos outros envolve a sociologia (explicação social). Naturalmente é fácil discernir, por trás da máscara de extrema auto-humilhação e admissão de culpa, que essa postura de verdadeiro masoquismo étnico repete o racismo em sua própria forma: embora negativo, o famoso “fardo do homem branco” ainda está aí – nós, homens brancos, somos os sujeitos da História, enquanto os outros, em última análise, reagem às nossas (más) ações. Em outras palavras, é como se a verdadeira mensagem da culpa admitida pelos moralistas politicamente corretos fosse: se não podemos mais ser o modelo de democracia e de civilização para o resto do mundo, pelo menos podemos ser o modelo do Mal.


Slavoj Žižek - "Em defesa de causas perdidas"

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Leonid Savin - A Necessidade da Quarta Teoria Política

por Leonid Savin



A atual crise financeira mundial marca a conclusão do dano feito pela ideologia liberal que, tento aparecido durante a época do Iluminismo Ocidental, por décadas dominou a maior parte do planeta.

Vozes perturbantes e criticismo começaram durante o final do último século, com o nascimento de fenômenos como a globalização e o unimundialismo. Este criticismo soou não somente de oponentes externos – conservadores, Marxistas e povos indígenas –, mas começou dentre o campo da comunidade Ocidental. Pesquisadores perceberam que o moderno choque de globalização é a conseqüência do liberalismo universal, que se opõe a qualquer manifestação de distinções. O programa último do liberalismo é a aniquilação de quaisquer distinções. Por isso, o liberalismo mina não somente o fenômeno cultural, mas também o próprio organismo social. A lógica do liberalismo Ocidental contemporâneo é aquela do mercado universal desprovido de qualquer cultura que não seja aquela do processo de produção e consumo. [1]

A experiência histórica provou que o mundo liberal Ocidental tentou forçosamente impor sua vontade sobre todos os outros. De acordo com esta idéia, todos os sistemas públicos no Mundo são variantes do sistema – liberal – Ocidental [2], e suas características distintas devem desaparecer antes da aproximação da conclusão desta época mundial. [3]

Jean Baudrillard também declara que este não é o choque de civilizações, mas a quase resistência inata entre uma cultura homogênea universal e aqueles que resistem a esta globalização. [4]

Ideologias Universais

Além do liberalismo outras duas ideologias são conhecidas por terem tentando atingir a supremacia mundial: Nomeadamente, o Comunismo (isto é, o Marxismo em seus vários aspectos) e o Fascismo/Nacional-Socialismo. Como Aleksandr Gelyevich Dugin bem observa, o Fascismo surgiu após as duas outras ideologias e desapareceu antes delas. Após a desintegração da URSS, o Marxismo que nasceu no século XIX foi definitivamente desacreditado também. O liberalismo, baseado principalmente em uma sociedade individualista e atomista, nos direitos humanos e no Estado-Leviatã, descrito por Hobbes, emergiu por conta do bellum omnium contra omnes [5] e há desde então se manteve a isso.

Aqui é necessário analisar a relação das ideologias supracitadas no contexto da época e locos dos quais elas emergiram.

Sabemos que o Marxismo foi de certa forma, uma idéia futurística – o Marxismo profetizava a futura vitória do comunismo em uma época que, contudo, permaneceu incerta. Neste respeito, é uma doutrina messiânica por ver a inevitabilidade de sua vitória, que conduziria à culminação e ao fim do processo histórico. Mas Marx foi um falso profeta, e a vitória nunca aconteceu.

O Nacional-Socialismo e o Fascismo, ao contrário, tentaram recriar a abundancia de uma mítica Era Dourada, mas com uma forma modernista [6]. Fascismo e Nacional-Socialismo foram tentativas de inaugurar um novo ciclo, lançando as bases para uma nova Civilização como conseqüência do que foi visto como o declínio cultural e a morte da Civilização Ocidental (assim, de forma mais apropriada com idéia do Reich de Mil anos). Isto foi abortado também.

O Liberalismo (como o Marxismo) proclamou o fim da história, mais convenientemente descrita por Francis Fukuyama (o Fim da história e o último homem) [7]. Tal fim, contudo, nunca aconteceu; e temos, ao invés disso, um tipo nômade de “sociedade da informação”, composta de indivíduos egoístas atomizados [8], que consomem avidamente os frutos da técno-cultura. Além disso, colapsos econômicos tremendos acontecem em todo o mundo; conflitos violentos ocorrem (muitas revoltas locais, mas também guerras de longo termo em escala internacional); e assim, o desapontamento domina nosso mundo ao invés da utopia universal prometida em nome do “progresso” [9].

A Quarta Teoria Política e o Contexto do Tempo

Como deveriam os especialistas da nova quarta teoria política enquadrar suas análises no contexto das épocas do tempo histórico? Deveria ser a união com a eternidade, sobre a qual o teórico conservador-revolucionário Arthur Moeller van den Brück expõe em seu livro Das Dritte Reich.

Se os humanos considerarem a si mesmos e ao povo ao qual pertencem não como algo momentâneo, entidades temporais, mas em “perspectiva da eternidade”, então eles serão libertados das desastrosas conseqüências da abordagem liberal para a vida humana, onde os seres humanos são considerados a partir de um ponto de vista estritamente temporal. Se a premissa de A. Moeller van den Brück for alcançada, nós devemos ter então uma nova teoria política, cujos frutos serão simultaneamente conservadores e portadores dos novos valores que nosso mundo desesperadamente necessita.

De tal perspectiva histórica, é possível entender os elos entre a emergência de uma ideologia dentro de uma época histórica particular; ou o que foi chamado de zeitgeist, “espírito da era”.

O Fascismo e o Nacional-Socialismo perceberam as fundações da história no estado (Fascismo) ou na raça (Nacional-Socialismo Hitlerista). Para os Marxistas era a classe trabalhadora e as relações econômicas entre as classes. O Liberalismo, por outro lado, vê a história em termos do indivíduo atomizado, separado de um complexo de herança cultural, contato inter-social e comunicação. Contudo, ninguém considerou como sujeito da história o Povo como um Ser, com toda a riqueza dos elos interculturais, traduções, características étnicas e cosmovisão.

Se considerarmos as várias alternativas, até mesmo países nomeadamente “socialistas” adotaram mecanismos e modelos liberais que expuseram regiões com um modo de vida tradicional a uma acelerada transformação, deterioração e obliteração total. A destruição do campesinato, religião e laços familiares pelo Marxismo foram manifestações deste rompimento das sociedades orgânicas tradicionais, seja na China Maoísta ou na URSS sob Lênin e Trotsky.

Esta oposição fundamental à tradição, incorporada em ambos, liberalismo e Marxismo, pode ser entendida pelo método de análise histórica considerado acima: tanto o liberalismo quanto o Marxismo emergiram do mesmo zeitgeist na instância destas doutrinas, do espírito do dinheiro [10].

Alternativas ao Liberalismo

Muitas tentativas de criar alternativas ao neoliberalismo são agora visíveis – o socialismo Libanês de Jamahiria, o Xiismo político no Irã, onde o principal objetivo do estado é aceleração para a chegada do Mahdi e a revisão do socialismo na América Latina (as reformas na Bolívia são especialmente indicativas). Estas respostas anti-Liberais, no entanto, são limitadas dentro das fronteiras do Estado-Nação singular em questão.

A antiga Grécia é a fonte de todas as três teorias da filosofia política. É importante entender que no principio do pensamento filosófico, os Gregos consideravam primeiramente a questão do Ser. Contudo, eles arriscaram o ofuscamento pelas nuances das altamente complicadas relações entre o ser e o pensamento, entre o puro ser (Seyn) e sua expressão na existência (Seiende); entre o ser humano (Dasein) e o próprio ser em si (Sein). [11]

Por isso, a renúncia ao (neo) Liberalismo e a revisão das antigas categorias e, talvez, de toda Filosofia Ocidental são necessárias. Nós deveríamos desenvolver uma nova ideologia política que, de acordo com Alain de Benoist, será o Novo (Quarto) Nomos da Terra. O filósofo Francês está certo em sua observação de que a reconsideração positiva da identidade coletiva é necessária; para o nosso inimigo não é “o outro”, mas uma ideologia que destrua todas as identidades. [12]

É digno de nota que três ondas de globalização foram os corolários das três teorias políticas supramencionadas (Marxismo, Fascismo e Liberalismo). Como resultado, depois disso nós precisamos de uma nova teoria política, que geraria a Quarta Onda: o restabelecimento do Povo (todos eles) com seus valores eternos. E, é claro, após a consideração filosófica necessária, a ação política deve acontecer.

_____
Fonte: Necessity of the Fourth Political Theory

Leonid Savin é o Administrador Chefe do “Movimento Eurasiano Internacional”; Editor Chefe da “Geopolítica do pós-modernismo”, internet media (www.geopolitica.ru); Especialista Sênior no Centro de Pesquisa Geopolítica e Parceiro no Centro de Estudos Conservadores da Faculdade de Sociologida da Univercidade Estadual de Moscou.

Publicado na revista Ab Aeterno No. 3.

[1] Gustav Massiah, “Quelle response a la mondialisation”, em Après-demain (4-5-1996), p.199.

[2] Por exemplo, a insistência que todos os estados e povos deveriam adotar o sistema parlamentar Inglês de Westminster como um modelo universal, independentemente de tradições ancestrais, estruturas sociais e hierarquias.

[3] “Les droits de l´homme et le nouvel occidentalisme”, em L’Homme et la société (numéro spécial [1987]), p.9

[4] Jean Baudrillard, Power Inferno, Paris: Galilée, 2002. Também veja, por exemplo Jean Baudrillard, “The Violence of the Global”. ().

[5] Em Português: A guerra de todos contra todos.

[6] Por isso o criticismo do Nacional-Socialismo e do Fascismo por Tradicionalistas de Direita como Julius Evola. Ver K. R. Bolton, Thinkers of the Right, (Luton, 2003), p.173.

[7] Francis Fukuyama, The End of History and the Last Man , Penguin Books, 1992.

[8] G Pascal Zachary, The Global Me, NSW, Australia: Allen and Unwin, 2000.

[9] Clive Hamilton, Affluenza: When Too Much is Never Enough, NSW, Australia: Allen and Unwin, 2005.

[10] Este é o significado da declaração de Spengler, de que “Herein lies the secret of why all radical (i.e. poor) parties necessarily become the tools of the money-powers, the Equites, the Bourse. Theoretically their enemy is capital, but practically they attack, not the Bourse, but Tradition on behalf of the Bourse. This is as true today as it was for the Gracchuan age, and in all countries…” Oswald Spengler, The Decline of the West (London: George Allen & Unwin, 1971), Vol. 2, p. 464.

[11] Note Martin Heidegger nestes termos.

[12] – Ален де Бенуа (Alain de Benoist), Против Либерализма (Contra o Liberalismo), São Petersburgo: Амфора, 2009, pp.14 -15.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Radicais a favor do Sistema: O Faz-de-Contas da Falsa Esquerda & da Falsa Direita em Occupy Wall Street

por Kevin DeAnna

For it’s the End of History
It’s caged and frozen still
There is no other pill to take
So swallow the one that made you ill.
- Rage Against the Machine, "Sleep Now in the Fire"
A grande força da Esquerda é que ela constitui tanto o sistema como a única alternativa permissível. Esse país, e o Ocidente, são governados pelo poder da finança internacional e pelo profano conglomerado do grande capital e da grande burocracia controlados por aqueles hostis a nós. Juntos eles sabotam a soberania nacional, bancam a destruição de valores tradicionais, financiam a extrema-esquerda, esvaziam o movimento conservador em uma defesa inútil da corrupção e do privilégio, e apoiam fronteiras abertas e a despossessão de nosso povo. Eles são o inimigo de qualquer conservadorismo real e dos proprietários de pequenos negócios e dos trabalhadores que compõem qualquer movimento de direita autêntica. Porém incrivelmente, novamente, nós encontramo-nos em uma situação em que a Esquerda cooptou o chamado pela mudança, mesmo em uma sociedade em que ela controla todos os níveis de poder. Também, dando a deixa, a Direita Americana (enquanto tal) está mobilizando-se para defender o status quo, para discutir em defesa dos cleptocratas que estão destruindo-a.

Nós já estivemos aqui antes. Durante a Guerra do Vietnã, um grupo de trabalhadores de construção (na época em que americanos costumavam conseguir esses empregos) lutaram com um grande grupo de manifestantes anti-Guerra do Vietnã em Wall Street. Os operários estavam usando capacentes de segurança, e o capacete de construção tornou-se um símbolo da coalização de Direita que elegeu o Presidente Nixon, e depois Reagan. Um dos cartazes entre os operários dizia, "Deus abençoe o Establishment", comunicanto uma fúria absolutamente justificada contra os manifestantes privilegiados que desprezavam o próprio país e cuspiam nos valores que tornaram a nação grande. É claro, o "establishment" dificilmente poderia ser dito conservador. Richard Nixon estava longe de ser o gênio louco da extrema-direita que vemos na cultura popular. Ele fez pressão a favor de ação afirmativa, do programa de moradia Seção 8, de controles de salário e preços, da remoção do lastro áureo, e de mais ações judiciais e regulamentações da burocracia de direitos civis no departamento executivo. Não apenas ele não opôs-se à agenda de transformação cultural da extrema-esquerda, como ele efetivamente trabalhou para solidifica-la. Porém, porque os "radicais" odiavam-o, a maioria silenciosa mobilizou-se a seu favor. Mesmo enquanto radicais reclamavam a partir de suas posições em cargos públicos estáveis em universidades sobre a virada do país para a Direita, os radicais de esquerda tornaram-se o establishment e criaram o tipo de sociedade na qual vivemos hoje. Em última instância, a responsabilidade por isso deve ser colocada aos pés da Direita Americana.


O mesmo tipo de coisa ocorre hoje. Republicanos estão reagindo com desprezo arrogante, chamando-os de uma multidão de gente imunda. É uma reação compreensível. Protestos são a Quarta Geração da Guerra em miniatura, no sentido de que não há absolutamente nada que a polícia possa fazer para evitar parecer fascista. Portanto, todos os protestos contemporâneos são um moralidade escrava guiado pela mídia. Em cada protesto, nós vemos supostos militantes tentarem instigar um confronto, conseguirem, e então começarem a gemer e rolar pelo chão como a seleção italiana em busca de um cartão vermelho. É claro, isso só funciona se você tem uma mídia simpática que possui uma narrativa de idealismo esquerdista firmemente estabelecida. Um aglomerado de idosos segurando cartazes e pedindo a redução dos impostos foi tratado como a marcha da Sturmabteilung, enquanto clamores pela derrubada do governo são tratados como simples idealismo. Não é de surpreender que muitos conservadores queiram mandar a cavalaria com espadas desembainhadas para limpar essa massa imunda.

Eles estão errados e enquanto emocionalmente satisfatório, esse modo de pensar é perigoso em dois níveis. Primeiro, eles estão subestimando dramaticamente o potencial desse movimento. Diferente dos conservadores, os progressistas tem uma enorme rede de ativistas profissionais, financiados por grandes fundações, universidades, sindicatos e órgãos governamentais. Ativistas que estão envolvendo-se agora permanecerão envolvidos pelo resto de suas vidas. Esse movimento não vai desfazer-se. Ele continuará a crescer nos próximos meses e a criar novas instituições para financiar-se.

Segundo, os republicanos estão simplesmente errados no ponto principal. A afirmação de Hermain Cain de que "Se você não é rico, culpe a si mesmo", é mais do que imbecil. Ainda que ele disfarce-se como algum tipo de outsider do Tea Party, ele tem o mesmo fedor do desprezo pelos trabalhadores americanos que os piores lobbystas corporativos "conservadores" de Beltway. O ponto essencial dos protestos está correto - de que esse país é governado por uma oligarquia econômica que é profundamente hostil ao povo americano e que os trabalhadores americanos estão sofrendo enquanto Wall Street está sendo protegida. De novo e de novo, o povo americano é presenteado com uma escolha entre esquerdistas que abertamente desprezam-os e conservadores que na melhor das hipóteses são indiferentes, mas estão principalmente interessados em proteger seus financiadores corporativos. Esses últimos são um mal menor, mas dificilmente uma alternativa real. Em termos eleitorais, parece que a Direita Americana vai ganhar espaço no Congresso nas eleições de 2012 (isso se ela não capturar a Casa Branca) mas ela não vai fazer nada com isso.

Dito isso, é claro, o que os manifestantes realmente querem não apenas não resolverá o problema, mas são algumas das próprias coisas que meteram-nos nessa confusão (apesar de que tenham em mente que enquanto escrevo isso não há qualquer lista "oficial" de demandas). Gastar um trilhão de dólares que não temos para fazer mais projetos de emprego imediato, ou descartar toda a dívida (eu presumo que os impostos não estão incluídos), ou criar um "direito" ao trabalho (garantido por quem?) não vão resolver nada. Pedir por fronteiras abertas pode ser um mandamento multicultural, mas como Samuel Gompers e outros antigos líderes trabalhistas confirmariam, isso obviamente leva a um mercado de trabalho mais frouxo e, portanto, a salários menores. Na verdade, os manifestantes estão repetindo a linha da Câmara de Comércio nessa questão. Como outros comentaristas apontaram, os protestos estão dirigidos à inabilidade para americanos comuns de levar uma vida de classe média sob essas circunstâncias mas que não consideram as mudanças sociais, culturais e governamentais que causaram esses problemas. Os estilos de vida esquerdistas, o politicamente correto, o multiculturalismo (incluindo a ação afirmativa e empréstimos preferenciais e programas de financiamento para grupos minoritários), as fronteiras abertas, o crescimento do poder governamental, o crescimento dos programas assistencialistas, e a fiança baseada na dívida necessária para pagar por tudo isso é a razão pela qual o americano da classe média e a nação americana estão entrando em colapso. Na verdade, se nós não tivéssemos esse sistema financeiro movido por dívidas, nós não teríamos o dinheiro para pagar os professores de "estudos em globalização" que vemos na Democracy Now! todas as noites dizendo-me como eles estão ajudando a organizar esses protestos.

O que os academicamente credenciados, porém muito pouco educados manifestantes parecem querer é uma nação que parece-se com um típico campus universitário. Haverá um monte de privilégios, você estará protegido de opiniões que possam desafiar seus preconceitos esquerdistas, você não terá que fazer realmente muito, e você não terá que pensar muito sobre quem paga por tudo isso. Para muitos dos formados em artes liberais lá fora, a razão pela qual eles não tem empregos é porque uma educação em artes liberais nem ao menos ensina as artes liberais, quanto mais algo que ajude a contribuir para a sociedade. O desemprego é o menos danoso que podemos esperar para esses caras. Alguém realmente acredita que o que nossa sociedade realmente necessita é de mais caras que tiveram seus empréstimos estudantis de 200.000 pagos para que eles possam ter o "direito" de ser um representante da "juventude LGBT?"

Está na moda, principalmente em protestos como esses, falar sobre estar além da Esquerda e da Direita. Publicações como American Conservative e blogs conservadores ocasionalmente falam sobre uma aliança entre Esquerda e Direita contra os bancos, o governo, e o "Establishment" de modo a criar um sistema mais humano. O problema é que isso só existe em uma via. Os manifestantes estão deixando claro que ninguém que acredite digamos, em diferenças de gênero, leis de imigração, ou mesmo "discriminação baseada em habilidade" (!), ou seja, ninguém que remotamente encaixe-se na direita seja bem-vindo. Como resultado, enquanto esse movimento crescerá em força, ele permanecerá exclusivamente um movimento da Esquerda e, como tal, jamais desafiará realmente o sistema. De fato, será um movimento do establishment esquerdista.

Porém, até mesmo isso de certa forma não esgota a compreensibilidade da questão. Assim como os protestos de maio de 1968 em Paris que quase derrubaram de Gaulle, a ação nas ruas é tão impelida por uma busca por sentido como por justiça econômica. Em um mundo de consumismo e comunidade desintegrada, tomar as ruas é um modo de mostrar que você ainda importa, que você tem uma identidade, e que há ainda algo como uma democracia nesse país. Isso falhará. Nossos mestres econômicos há muito tempo já dominaram a arte de vender rebelião de esquerda de volta para os consumidores. Até a Adbusters percebe isso. Em última instância, o mundo dos indivíduos desenraizados, autônomos, atomizados tagarelando sobre os "direitos" que eles aprenderam na universidade serve tanto ao mundo corporativo como ao establishment esquerdista. Na verdade, ambos são a mesma coisa. Afinal, a principal figura de maio de 68, o ousado revolucionário Danny the Red, é agora o membro do Parlamento Europeu Daniel Cohn-Bendit, lutando para trazer-lhe as políticas antissépticas e devastadoras da União Européia que irá te dizer que lâmpadas você tem permissão para usar.

O maior obstáculo ao McMundo não é alguma teoria retardada sobre racismo institucional - e sim comunidades realmente existentes construídas na Tradição e na Identidade. Mudança autêntica, rebelião real, tem que vir de uma Direita não-apologética e explícita que reconheça e defenda hierarquia, excelência e os direitos dos povos de determinarem o próprio destino. Isso virá de uma Direita autêntica que coloque a nação acima dos banqueiros, que coloque a livre iniciativa acima das corporações, e que não despreze os trabalhadores que são parte da comunidade nacional. O exemplo mais próximo teria sido o movimento por trás de Pat Buchanan que teria acabado com a imigração maciça, com o outsourcing de empregos, e com a desindustrialização da América. Ao invés de buscar sentido em uma rebelião existencialista que tentou e já falhou antes, o que é necessário é Revolução Nacional que possa criar uma versão superior de uma comunidade atualmente existente construída sobre nacionalidade, cultura, e tradição. No que concerne a juventude, nós deveríamos estar marchando contra os administradores de universidade que arrancam-nos 200.000 por diplomas inúteis. Nós deveríamos ativamente buscar estourar a bolha educacional, lutar contra os subsídios federais para universidades que permitem-lhes continuar a aumentar a mensalidade e demandar cortes para disciplinas inúteis que servem como uma desculpa para esquerdistas mamarem da teta governamental. É necessário dizer que os esquerdistas estão protestando contra o mundo que eles criaram. Agitar por mais do mesmo não vai fazer nada por nós.
Nós já vimos esse tipo de movimento antes tanto nos campi como nas ruas na Europa e nos EUA em 68. Eu vi algo disso em menor escala na Islândia em 2009. A Esquerda conhece o problema mas não tem solução - a falsa Direita parece fingir que nem há um problema para início de conversa. Nós já estivemos aqui antes e isso não é nada de novo. Tanto a Esquerda como a falsa Direita tiveram sua oportunidade e falharam. É hora de construir uma Direita real que esteja oposta ao sistema atual para que aproveite-se desse movimento antes que ele desapareça.