sábado, 27 de agosto de 2011
Heidegger e o Retorno às Origens
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Moeller e Dostoievski
Moeller van den Bruck foi o primeiro tradutor alemão de Dostoievski. Deixou-se influenciar profundamente pelos diários de Dostoievski, tão repletos de severas criticas ao Ocidente. No contexto alemão depois de 1918, Moeller van den Bruck advogava, com argumentos de Dostoievski, por uma aliança Russo-germânica contra o Oeste. Como poderiam os respeitáveis cavalheiros alemães, com uma imensa cultura artística, mostrarem-se a favor de uma aliança com os bolcheviques? Seus argumentos foram os seguintes: durante toda a tradição diplomática do século XIX, a Rússia foi considerada o escudo da reação contra todas as repercussões da Revolução Francesa e contra a mentalidade e os modos revolucionários. Dostoievski, um antigo revolucionário russo, que mais tarde admitiu que sua opção revolucionária tinha sido um erro, considerava, mais ou menos, que a missão da Rússia no mundo era a de apagar na Europa os rastros das idéias de 1789. Para Moeller van den Bruck, a Revolução de Outubro de 1917 foi somente uma mudança de roupagens ideológicas: a Rússia continuava sendo, a despeito do discurso bolchevique, o antídoto à mentalidade liberal do Ocidente. Derrotada, a Alemanha deveria aliar-se a esta fortaleza anti-revolucionária para opor-se ao Ocidente que, aos olhos de Moeller van den Bruck, é a encarnação do liberalismo. O liberalismo, expressa Moeller van den Bruck, é sempre a enfermidade terminal dos povos. Depois de algumas décadas de liberalismo, um povo entrará inexoravelmente em uma fase de decadência final.
Em um âmbito limitado à ND [nova direita] francesa, o redescobrimento do fator “Rússia” e sua valorização positiva desenvolveu-se em várias etapas. Ao final dos anos 70, Alain de Benoist lê uma tradução não publicada de uma obra consagrada à personalidade e a obra de um precursor e fundador da corrente revolucionária-conservadora alemã, Arthur Moeller van den Bruck. Um professor reputado havia redigido a obra: o alemão Schwierskott. Um militante desconhecido havia realizado uma tradução deste livro para o responsável da ND parisiense. Moeller van den Bruck, como se sabe, havia apostado por uma aliança Germano-soviética após Versalles para reduzir ao nada os obstáculos impostos a Alemanha por Clemenceau e Wilson. Extraía seus argumentos do “Diário de um escritor” de Dostoievski, cuja tradução alemã havia realizado. Dostoievski, ao analisar o conflito e os resultados da Guerra da Criméia, havia demonstrado a hostilidade fundamental do Ocidente, orquestrada pela Inglaterra contra a Rússia, que pretendia conter-la sobre as costas setentrionais do Mar Negro. O liberalismo, ideologia de países ricos, não era mais do que uma perigosa subversão para os países que ainda não haviam se desenvolvido, ou que haviam conhecido uma derrota histórica. Moeller van den Bruck fazia diretamente um paralelo com a Alemanha de Weimar.
Sobre a questão de Classe
“Somente as massas trabalhadoras são as verdadeiras criadoras da História, e o verdadeiro socialismo somente pode ser construído pelo trabalho criador de milhões de trabalhadores”.
O conceito de Classe possui um sentido duplo. Por um lado expressa a constatação de um fato: A sociedade se divide em dois grandes grupos, dos que possuem os meios de produção e o grupo dos que não possuem nenhuma porção destes meios de produção e que, por isso, caem na dependência dos primeiros. O primeiro grupo está conformado pela classe dos proprietários, os burgueses, e a segunda é a classe trabalhadora, os proletários. Por outro lado, a Classe é a parte politicamente ativa da classe trabalhadora, que é consciente de sua situação e que está determinada a transformá-la.
A formação do conceito de Classe exige uma especial consciência, do mesmo modo que, em seu momento, o exigiu a formação de uma consciência estamental (na sociedade feudal), ou de cidadania (nas democracias burguesas). Não é certo que o trabalhador industrial, simplesmente por sua condição social, forma automaticamente parte do coletivo politicamente ativo da classe proletária. São necessários conhecimentos e, sobretudo a vontade resoluta de incluir-se na classe do proletariado. Somente se pertence à classe trabalhadora, em um sentido de luta, quando se quer pertencer a ela. Somente uma limitada porção dos proletários está, neste sentido, capacitado, sabe o que quer. Um se eleva sobre a massa quando toma consciência de classe, torna-se então advogado dos interesses proletários e, caso seja necessário, em revolucionário profissional, funcionário ou dirigente. Os trabalhadores com consciência de classe se convertem nos eleitos, a elite de uma vanguarda de combatentes da causa da classe trabalhadora. Somente eles sabem o que necessita o proletariado, suas carências, e somente eles estão em situação de compreender e tomar conta de seus interesses com êxito e resultados. É assim como a idéia de classe se converte também em principio forjador de uma nova elite (elite que superará as elites aristocráticas da sociedade feudal e as elites burguesas das democracias capitalistas – uma nova elite de, e para a classe trabalhadora. Uma elite, além disso, baseada na Técnica).
A perspectiva de classe contém um propósito agressivo. Para a burguesia, o sentido da idéia de Nação foi de ocultar que as diferenças entre proprietários e despossuídos tivessem significado algum; a democracia parlamentar também caminha para um encobrimento do mesmo tipo. É o axioma do estado burguês, que as diferenças econômicas são questão da esfera privada, e nunca uma questão a ser considerada no público e político.
A perspectiva de classe aponta, sem contemplações, contra as distintas tendências encobridoras burguesas. Ele não só leva à luz o duro significado destas diferenças, mas enfatiza também seu papel decisivo e central. Enquanto pôde-se esconder seu peso, pôde o proprietário burguês, mediante sua útil afirmação de igualdade, manter-se na crença de que não existiam diferenças importantes entre eles, a classe dirigente, e os despossuídos, a classe explorada. A perspectiva de classe rompe com esta crença nas mentes dos despossuídos, um acontecimento que sacode os fundamentos da ordem burguesa. A perspectiva de classe fundamenta a solidariedade entre os despossuídos frente aos possuidores. O burguês tem como conseqüência todos os motivos para odiá-la profundamente. É compreensível o quão repelente é, para o burguês, quando ouve falar da “classe burguesa”; é a fala do “proletariado incitado” que, para sua desgraça, se esclareceu sobre eles.
Existem identificações sociais de todo o tipo que, no passado, foram de grande efetividade. O que para os aristocratas feudais o foi Deus, para a burguesia o foi o “Povo” (ou a cidadania). Isto é, as massas para os trabalhadores com consciência de classe.
O destino das elites está tão ligado aos princípios que as legitimam que ela existe e morre com eles. Isto é particularmente válido quando este princípio é descoberto e submetido à especulação. As especulações podem ser alienantes ou desalienantes; isto depende se a mente especuladora pensa para elite, ou contra ela. No primeiro caso, converte-se este princípio em portador de todos os valores positivos, é a promessa e base de toda realização; no segundo, em troca, é fonte de todas as desgraças. A mesma posição que se tenha frente à elite na prática toma-se, também, como principio no teórico.
A elite da classe trabalhadora, aqueles que alcançaram a consciência de si mesmos e de sua própria situação, que se reuniram ao redor do estandarte da consciência de classe, especulam, em conseqüência, sobre a “massa”. Escuta o pulsar da massa, se dobra ante sua vontade. O trabalhador com consciência de classe se desvanece na massa, deseja somente cumprir sua vontade, ser arrastado por ela. Não ousa dar nenhum passo por sua própria conta e responsabilidade, qualquer movimento deve ser aprovado pela massa.
A Nação já não pode seguir com sua ordem de camadas sociais; estas já foram liquidadas, a burguesia não teve escrúpulo algum com os aristocratas. Nenhuma elite deveria existir mais além da Nação; qualquer um que estivesse à margem de suas noções, foi qualificado de antinatural e foi desenterrado, perdeu seu direito de existir. Não menos intolerante deve ser a Classe Trabalhadora. Nenhuma outra elite deve existir paralelamente a ela. Somente quando se consiga liquidar os últimos restos da elite anterior, se poderá alcançar a sociedade sem classes. Esta carecerá de classes porque a classe do proletariado terá abarcado a totalidade, e sua exigência por ser o único órgão da massa não deverá voltar a ser posta em questão por nenhum poder social.
Cada elite tem suas armas particulares para impor-se. O antigo regime (feudal-estamental) confiou na espada. Com ela, derrotava a todos que ousassem levantar-se contra sua ordem e procurava-se o respeito e a distância que lhe eram tão necessários. O Estado burguês confiou em seu dinheiro. A possessão, que determinava o nível de privilégios e oferecia os meios de se financiar uma existência melhor, assim como a compra da servidão e da submissão, com a qual os proletários acabavam sendo os que carregavam todo o peso social. A classe trabalhadora fundamenta seu futuro no poder da Técnica. Embora os estados burgueses já haviam compreendido e desenvolvido o poder da técnica sobre sua tutela, isto só foi feito desde a perspectiva da rentabilidade; se não era rentável, não se desenvolvia. Além disso, este interesse na técnica centrou-se nas energias da Natureza; dominar as forças da natureza foi a meta da técnica para eles. A sociedade poderia abandonar-se a si mesma. Somente a desgosto, e obedecendo a força das circunstâncias, começou-se a organizar ela também na Técnica. A classe, em troca, quer a totalidade da capacidade da Técnica; quer mobilizar tanto as energias naturais, quanto as sociais dela. Ela calcula o imenso poder que possui a Técnica. A sociedade, em seu conjunto, será uma grande maquinaria e aquele que tenha suas mãos nas alavancas e botões será seu condutor na totalidade. A classe trabalhadora sente-se chamada pela História a manejar estas alavancas e botões decisivos.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Giorgio Locchi - A Essência do Fascismo como Fenômeno Europeu
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Alain de Benoist - Sobre o Paganismo
- Ética fundamentada sobre a Honra.
- Atitude heróica diante de inconvenientes da existência.
- Exaltação e sacralização do mundo.
- A Beleza.
- O Corpo.
- A Força e a Saúde.
- Rechaço aos paraísos e infernos.
- Inseparabilidade entre estética e moral.
O paganismo não poderia separar o bom do belo e isto é bastante normal, posto que o bom são acima de tudo as formas mais excelentes deste mundo. Para os gregos a arte era a forma mais elevada sob a qual o povo representava aos Deuses.
Chamado aos Jovens Europeus
Para evitar repetir-me, devo primeiramente pontuar a afirmação que fiz no começo do manifesto Why We Fight [Porque Nós Lutamos]. Agora, vamos resumir, seguindo esta afirmação, algumas sugestões referidas neste manifesto. Por conta de nossa situação sem precedentes históricos, recomendo uma estratégia inspirada por certos líderes revolucionários cujos nomes não necessitam ser mencionados.
1. Em primeiro lugar, é importante unificar, em uma escala Européia, todas as forças identitárias de resistência ao redor de uma doutrina e de um programa revolucionário básico.
Ignorando desavenças ideológicas ou emocionais secundárias, que comumente são a mera expressão de pequenos nacionalismos, ou de disputas familiares sectárias; nós devemos seguir ao conselho de Lênin, de “resolver nossas diferenças após a revolução”. Por piedade, é preciso acabar com as oh-tão-deliciosas disputas internas (os rumores, excomunhões e paranóias) e reservar nossos golpes para o inimigo real. Concentraremos-nos no essencial, naquilo que nos une, porque somos confrontados com uma emergência absoluta (o Erntsfall, teorizado por Carl Schmitt). Olhe para os Muçulmanos: eles deixam de lutar entre si, assim que isto se torne uma questão de levar a Jihad contra o infiel.
2. Para nós, o principal inimigo comum (o que invade concretamente, fisicamente) é a colonização estrangeira e seu estabelecimento sob o banner do Islã; é óbvio que se podem compartilhar certos valores comuns com o inimigo, mas não se deve cair na armadilha de sentir qualquer simpatia por ele. O inimigo, além disso, lucra com os colaboracionistas – aqueles bons Europeus etno-masoquistas que são os mais perigosos a nós. Quanto ao adversário comum (que parece nos enfraquecer e dominar), é os Estados Unidos, o aliado objetivo dos anteriores.
3. Nosso movimento – que possui um pensamento radical (e não “extremista”) – possui um verdadeiro monopólio na dissidência revolucionária, já que somos os únicos que buscam uma total inversão dos valores dominantes e das formas civilizacionais (O Umwertung [trans-valorização] de Nietzsche).
4. Os três pilares de uma ideologia e projeto de unidade Européia são: (1) acordar uma consciência étnica que faça defender nossa herança biológica comum, nossa raça, a prioridade máxima; (2) a regeneração dos valores ancestrais, o esquecimento dos quais é a principal causa das tragédias de hoje; e (3) a declaração criativa de uma doutrina política Européia totalmente inclusiva e revolucionária.
5. Como indicado no excelente título desta revista [Réfléchir & Agir], reflexão é fundamental, mas, pelo mesmo motivo é também preciso agir. Mas como agir? O que deve ser feito? Esta é sempre a questão-chave. Devemos formar uma rede Européia de resistência, solidariedade e ação ao redor de um programa ideológico comum. Isto não deveria excluir, mas incluir a política. Agora é tarde demais para ganhar poder pelas urnas e pela democracia parlamentar. É necessário fazer a seguinte aposta. É arriscada como qualquer aposta, mas é nossa única chance nesta era do crepúsculo: nos próximos dez a quinze anos é provável que haja uma grande crise (“caos”), que irá tomar a forma de um de um conflito étnico de grande magnitude, provavelmente baseado no empobrecimento econômico; isto poderia mudar a mentalidade das massas, que hoje são alimentadas à força, como gansos, por nossa mídia de massa neo-totalitária.
É uma questão, então, de antecipar o “pós-caos”, de preparar-se para a vindoura tempestade, construindo uma rede Européia – horizontal, como uma teia, informal, polimórfica – de minorias revolucionárias, uma rede de solidariedade, uma internacional Européia da resistência e propaganda. “A Rede” não deveria tomar qualquer nome ou forma institucional. É o que chamo de estratégia da cobra. Deve se espalhar, de uma forma clandestina, porém inabalável, de Portugal à Rússia, conectando quadros ou oficiais eleitos de partidos políticos, associações e círculos de todas as naturezas; individuais, editores, homens de negócio, financiadores, internautas, pessoas da mídia, etc. Com três objetivos: agitprop geral, formação e recrutamento e a aquisição da mídia. Em uma palavra, deve preparar-nos para a inevitável confrontação. É uma questão de estar prontos e poderosos para o dia em que o furacão chegar – furacão que é nossa única chance, nossa única alavanca para mover o mundo. Nós também temos de parar de pensar que “o sistema é invencível”. Ele é forte somente por conta de nossa atual fraqueza e desorganização. Finalmente, é necessário abandonar este culto psicopata da derrota, do “último reduto”. Os únicos que vencem são aqueles trágicos otimistas que pensam em si mesmos como o “primeiro reduto”.
Quando tal rede existir, será tempo de passar para a próxima, a um estágio propriamente político, que é impossível planejar hoje. Comecemos, então, por construir nossa rede com paciência, determinação e profissionalismo. E que tiremos de nossas fileiras os incompetentes, medíocres, exaltados e loucos. Para tal rede, unida ao redor de uma doutrina clara e comum, deve-se constituir, acima de tudo, uma elite rigorosa. Da Resistência à Reconquista, da Reconquista à Revolução.
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De Réfléchir & Agir, no. 9 (Verão de 2001).
Fonte: Counter-Currents Publishing
domingo, 21 de agosto de 2011
Knut Hamsun
Knut Hamsun é um mistério. Enquanto quase todos os seus trabalhos foram traduzidos para o Francês; enquanto houve algumas adaptações para o cinema e televisão; enquanto – diferentemente de tantos outros –, seus livros não são “nem antiquados, nem obsoletos” (Hubert Nyssen), ele ainda é ignorado pelo público francês.
O Laureado pelo premio Nobel de literatura em 1920, muitas vezes comparado a Dickens, Ibsen ou Gorky, Knut Hamsun não foi, contudo, meramente o renovador da linguagem Norueguesa e o grande escritor Norueguês do século 20 – o que já é muito. Em seu Prefácio à edição Americana de Fome, Issac Bashevis Singer (que traduziu Victoria para o Yiddish), escreveu que “toda a literatura moderna deste século encontra sua fonte aqui”.
É por este motivo que ele foi saudado e admirado por autores tão diferentes, como Thomas Mann, Henry Miller, Octave Mirbeau, André Gide, John Galsworthy, André Breton, H. G. Wells, Bertold Brecht, Franz Kafka, Robert Musil, D. H. Lawrence, ou Jean Paulhan.
Knut Hamsun, é verdade, foi um inimigo do mundo moderno. Uma das grandes constantes de seu trabalho é a profunda aversão pelo burguês. Desde o começo, seu realismo lírico foi dirigido contra a sociedade industrial, a modernidade urbana e capitalista e o reino do dinheiro. Mas, estaria errado aquele que vê nele um novelista “populista”, ou um simples enaltecedor da terra “que não mente”.
Para ele, a natureza é um recurso concedido. Mas é uma natureza selvagem, tão selvagem quanto podem ser as bestas e o homem. Seu estilo narrativo, herdeiro das tradições orais, é um na qual a natureza, a paisagem e os próprios objetos inanimados, longe de interpretarem um papel decorativo, interagem com comportamentos, sentimentos e idéias. Pode-se ver isso claramente em Pan, esta grande história de amor que exalta a união íntima do coração e a natureza, por fazê-las duas expressões da mesma realidade.
“Eu sou realista no mais alto senso do termo”, disse Knut Hamsun, “isto é, eu mostro as profundezas do coração humano”. De fato, ele queria retratar “a vida inconsciente da alma inteira”; e é por isto que, desde o começo, ele retrata a vida interior com uma extraordinária riqueza e complexidade. Sem dúvidas, este foco é o mais alheio ao mundo contemporâneo, onde os seres são motivados apenas por razões externas. Ele mesmo esteve em milhares de locais representantes do narcisismo atual. Inconformista, indiferente às honras, ele fugiu de sua casa em seu aniversário para escapar da curiosidade do público. Seu gosto o atraiu para as pequenas comunidades rurais, tais como aquelas das ilhas Lofoten, tão queridas à sua infância. É por isso que Henry Miller o descreveu como um “marginal, um vagabundo, um rejeitado, um rebelde irredutível, um inimigo implacável do estabilishment... um aristocrata do espírito”.
Seus personagens dificilmente são movidos pela indignação social ou o engajamento, mas por uma tensão interior, uma exigente complexidade que se deve à sua própria natureza de exceções. Eles não são homens comuns e também não são heróis. Longe de serem apenas parte de um elenco, nesta precisa extensão eles (sem reconhecer o fato) pertencem a uma modernidade que gerou mais ansiedades do que liberdades; eles são seres despedaçados, comumente solitários, cheios de dissonâncias e contradições. Sua natureza é inicialmente honesta e orgulhosa, mas eles beiram o abismo e as dificuldades nas quais se encontram são, algumas vezes, intransponíveis.
O próprio Knut Hamsun, aos 15 anos, embarcou em uma vida difícil e aventurosa, “temperada pelo infortúnio” (Octave Merbeau), cheia de sofrimento e depravações, que o levaram a uma America desapontadora, onde ele pode tomar uma medida completa do novo mundo que foi prometido.
Pode-se, certamente, falar de uma “visão negra” no oeuvre [obra] de Hamsun. Mas seria muito apressado explicar isso como um tipo de pessimismo Escandinavo, produto dos Fiordes perolados Nórdicos e as noites sem sono do verão boreal. Nas novelas de Hamsun, o amor e a sensualidade estão sempre presentes. Hamsun ama tudo aquilo que o cerca, tudo o que tenha significância; tanto que não é exagerado dizer que o amor é o verdadeiro coração de sua escrita.
Mas este amor é inseparável de uma visão trágica, pois seus personagens sempre se deparam não somente contra seus próprios limites, mas também contra as mentiras e a inautenticidade. Como em Victoria, onde os amantes são pervertidos por uma sociedade na qual as carícias destroem seus corpos ou, como em Benoni e Rosa, onde o amor é uma força cruel, sob cujo poder os corações raramente estão em acordo.
O amor, além disso, é inseparável do ódio, assim como a alegria e a vontade não podem ser separadas da consciência clara e da finitude humana. Em Hamsun, os sentimentos opostos estão baseados um no outro, sem nunca se solidificarem, no sentido que as eras da vida seguem-se uma à outra com o ritmo das estações. A Complementaridade dos opostos.
Nascido em 1859, Knut Hamsun morreu em 1952. Um Germanófilo desde os tempos de Bismarck, que permaneceu assim durante toda a sua vida. Isto foi o suficiente, em 1945, aos 86 anos, para merecer um destino comparável ao de Ezra Pound: condenado a pagar ao estado uma multa que o reduziu à pobreza, ele foi internado em um hospital psiquiátrico por ter “colaborado”.
Até hoje, nem uma rua, nem um prédio publico tem o seu nome na Noruega, onde ele nunca foi o motivo de um selo comemorativo.
Hamsun, contudo, não foi um político, mas um músico das palavras. “A linguagem”, ele disse, “deve cobrir toda a gama da música”; o escritor está sempre em busca da “palavra que vibra”, o termo exato “que pode render meu coração até que eu soluce, por sua precisão”. É por isso que ele não escrevia de “ânimo leve”, mas, ao contrário, com dificuldade, com dor. Para ele, a escrita era uma forma de permanecer vivo.
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Notas:
[1] Editorial da edição da revista Nouvelle Ecole (2006) dedicada a Knut Hamsun.
[2] Este ensaio foi publicado em 2006. Em 2009, no 150º aniversário de seu aniversário, Knut Hamsun foi honrado, na Noruega, com um selo comemorativo. Vários espaços públicos e edifícios foram, também, nomeados em sua honra.
Fonte: Counter-Currents Publishing




