quinta-feira, 23 de junho de 2011

Tradicionalismo: Eis o Inimigo!

por Guillaume Faye

Nos círculos do que podemos chamar eufemisticamente de a "direita revolucionária", ou mais genericamente de a "direita anti-liberal", pode-se observar a ascensão recorrente - como crises de acne - do que podemos chamar apenas de "tradicionalismo metafísico."

Autores como Evola ou Heidegger são em geral os pretextos - marque bem minhas palavras: os pretextos - para a expressão dessas tendências, muitos aspectos os quais parecem ser negativos e desmoralizantes. Estes autores mesmos não são o problema. Para fazer referência apenas a Evola e Heidegger, as obras de nenhum desses autores - cujas verdadeiras idéias estão geralmente extremamente distantes das dos "evolianos" e "heideggerianos" - são suscetíveis às críticas que aplicam-se aos seus "discípulos" direitistas que estão em questão aqui.

Como caracterizamos esse "desvio" do tradicionalismo metafísico e quais são os argumentos contra ele? Essa mentalidade é caracterizada por três pressuposições axiomáticas:

1. A vida social deve ser governada pela "Tradição", cujo esquecimento traz decadência.
2. Tudo que tem relação com nosso tempo é escurecido por essa decadência. Quanto mais dirigimo-nos ao passado, menor a decadência, e vice-versa.
3. Ultimamente, as únicas coisas que importam são as preocupações e atividades "interiores", voltadas para a contemplação de alguma coisa geralmente chamada "Ser".

Sem demorarmo-nos na superficialidade relativamente pretensiosa dessa perspectiva que prefere, ao invés de reflexão autêntica e clareza, o obscurantismo fácil do inverificável e dos jogos de palavras, que - sob o pretexto de profundidade (e até mesmo, em certos autores com fortes tendências narcisistas, de "poesia") - ignora a própria essência de toda filosofia e todo lirismo, deve-se especialmente reconhecer que esse tradicionalismo metafísico está em profunda contradição com os próprios valores que geralmente afirma defender, ou seja, o combate às ideologias modernas, o espírito conhecido como a "Tradição Européia", o anti-igualitarismo, etc.

De fato, em primeiro lugar, a obsessão com a decadência e a nostalgia dogmática que ela induz fazem-na parecer com um progressismo reverso, uma visão linear "invertida" da história: o mesmo esquema mental, herdado do finalismo cristão, de todas as ideologias progressistas "modernas". A História não ascende do passado para o presente, mas descende.

Porém, contrariamente às doutrinas progressistas, o tradicionalismo cultiva um pessimismo profundamento desmoralizante em relação ao mundo. Esse pessimismo é exatamente do mesmo tipo que o otimismo ingênuo dos progressistas. Procede da mesma mentalidade e incorpora o mesmo tipo de vaidade, nomeadamente a propensão às profecias verborrágicas e a erigir a si mesmo como um juiz da sociedade, da história, e de outras coisas do tipo.

Esse tipo de tradicionalismo, em sua tendência a odiar e denegrir tudo que é "do presente", não apenas leva seus autores à amargura e a uma arrogância geralmente injustificável, mas também revela sérias contradições que tornam seu discurso incoerente e inacreditável.

Esse ódio do presente, da "modernidade", não é em absoluto colocado em prática no dia-a-dia, diferentemente do que se vê, por exemplo, no Cristianismo. Nossos anti-modernos podem perfeitamente beneficiar-se das conveniências da vida moderna.

Nisso eles revelam o verdadeiro sentido de seu discurso: a expressão de uma consciência culpada, uma "compensação" realizada por almas profundamente burguesas mal-ajustadas ao mundo atual, mas ainda assim incapazes de superá-lo.

Em segundo lugar, esse tipo de tradicionalismo usualmente leva a um individualismo exagerado, o mesmo individualismo que sua visão "comunitária" do mundo afirma denunciar na modernidade.

Sob o pretexto de que o mundo é "mau", de que seus contemporâneos são patentemente decadentes e imbecis, de que essa sociedade materialista "corrompida pela ciência e pela tecnologia" não pode compreender os valores superiores da interioridade, o tradicionalista, que sempre pensa em si mesmo como estando no topo das montanhas, não dignam-se a descer e aceitar a necessidade de combater no mundo, mas rejeita qualquer disciplina, qualquer solidariedade com seu povo, qualquer interesse na Política.

Ele está interessado apenas em seu ego hipertrofiado.

Ele transmite "seu" pensamento às gerações futuras como uma garrafa no oceano - sem ver a contradição, já que elas supostamente serão incapazes de compreendê-lo por causa da crescente decadência.

Esse individualismo, portanto, leva logicamente ao próprio oposto da ideologia original, ou seja, a um globalismo e universalismo implícitos.

Efetivamente, o tradicionalista metafísico é tentado a crer que as únicas associações que contam são "espirituais", a comunicação de grandes pensadores, que é similar ao redor do mundo, independentemente de sua origem e fonte, desde que eles rejeitem a "modernidade ocidental." Eles substituem o serviço ao Povo, à Política, à Comuniudade, ao Conhecimento, a uma Causa, não apenas com o serviço e a contemplação do próprio ego, mas com o serviço a meras abstrações.

Eles defendem "valores", independentemente de seu local de encarnação. Daí, para alguns, vem uma cativação com o Orientalismo; para outros, um globalismo militante; e para todos eles, um desinteresse desiludido quanto ao destino do seu próprio Povo.

Costuma-se até mesmo chegar a atitudes abertamente cristãs - da parte de "filósofos" que muitas vezes estão ocupados combatendo o Cristianismo.

Alguns exemplos aleatórios: a escolha de valorizar a intenção acima do resultado; a escolha de julgar uma idéia ou um valor em termos de suas características intrínsecas ao invés de sua eficácia; uma mentalidade espiritualística que julga todas as culturas e projetos em termos de seu "valor" espiritual ao invés de seus efeitos materiais.

Essa última atitude, ademais, obviamente tem muito pouco que ver com o "paganismo" Europeu que nossos tradicionalistas geralmente afirmam professar.

De fato, observando-se uma obra, projeto, ou cultura a partir de um ponto de vista exclusivamente "espiritual", afirma-se o princípio cristão da separação entre matéria e Espírito, a dissociação dualista entre a idéia pura e o produto concreto.

Uma cultura, um projeto, uma obra não são mais que produtos, no sentido concreto e dinâmico do termo.

Sob nossa perspectiva não existe qualquer separação entre o "valor" e o seu "produto". As qualidades líricas, poéticas, estéticas de uma cultura, obra ou projeto estão intimamente incorporadas em sua forma, em sua produção material. Espírito e Matéria são uma e a mesma coisa. O valor de um homem ou de uma cultura estão em suas Ações, não em seu "Ser" ou seu passado.

É precisamente essa idéia, partindo das fontes mais antigas da  Tradição Européia, que nossos tradicionalistas metafísicos - tão imbuídos com seu espiritualismo e seu monoteísmo da "tradição" ou de sua busca pelo "Ser" - prontamente traem.

Paradoxo: Ninguém está mais distante das Tradições Européias do que os tradicionalistas. Ninguém está mais próximo do espírito oriental dos mosteiros.

Tudo que caracteríza a Tradição Européia, tudo que os cultos orientais tentaram abolir, é exatamente o oposto do que os tradicionalistas europeus atuais defendem.

O Espírito Europeu, ou aquilo nele que era o mais elevado e mais civilizador, era otimista e não pessimista, exteriorizava e não interiorizava, era construtivista e não espiritualista, filosófico e não teológico, aberto à mudança e não satisfeito e complacente, criador de suas próprias tradições e formas ou idéias imutáveis, conquistador e não contemplador, técnico e urbano e não pastoral, ligado às cidades, portos, palácios, e templos, e não ao campo (o domínio da necessidade), etc.

Em realidade, o espírito dos tradicionalistas atuais é uma parte integral da civilização comercial ocidental, assim como os museus fazem parte da civilização do supermercado. O tradicionalismo é o ego sombrio, a justificativa, o cemitério vivo do burguês moderno.

Ele serve como suplemento espiritual. Faz com que ele acredite que não importa se ele gosta de Nova Iorque, novelas, e rock n'roll, desde que ele tenha suficiente "interioridade".

O tradicionalista é superficial: o escravo de suas idéias puras e de sua contemplação, dos jogos intelectuais de posers filosóficos, no fundo ele acredita que o pensamento é uma distração, um exercício agradável porém inútil, como colecionar selos ou borboletas - não um meio para a Ação, ou para a transformação do mundo,  ou para a construção de uma cultura.

O  tradicionalista acredita que valores e idéias preexistem à Ação. Ele não compreende que Ação precede tudo, como disse Goethe, e que é através da combinação dinâmica de Vontade e Ação que todas as idéias e valores nascem a posteriori.

Isso mostra-nos a verdadeira função de ideologias tradicionalistas na "direita" anti-liberal. O tradicionalismo metafísico é uma justificativa para desistir de todo combate, de todo projeto concreto de criar uma realidade européia diferente da dos dias atuais.

É a expressão ideológica de pseudo-revolucionários. Suas utopias regressivas, considerações nubladas e obscuras, e metafísica inútil fazem mais do que causar fatalismo, inação, e enervação. Eles também reforçam o individualismo burguês pela pregação implícita do tipo ideal do "pensador" - se possível contemplativo e descorporificado - como o pivô da história. Homens de Ação - as verdadeiras personalidades históricas - são assim, desvalorizados.

Porque o tradicionalista ultimamente não apoia a "comunidade", ele a declara impossível hic et nunc e transforma-a em uma fantasia utópica e regressiva perdida nas névoas de sabe-se-lá que "tradição".

Nesse sentido, o tradicionalismo "anti-moderno" e "anti-burguês" pertence objetivamente ao sistema das ideologias burguesas. Como estas ideologias, seu ódio pelo "presente" é um bom jeito, um bom pretexto, para rejeitar como impossível qualquer construção histórica concreta, até mesmo àquelas opostas ao presente.

No coração de seu discurso, o tradicionalismo mantém uma confusão absurda entre a "modernidade" da civilização tecnológico-industrial européia e o "espírito moderno" das ideologias igualitárias e ocidentais (que são arbitrariamente ligadas uma à outra). Assim o tradicionalismo desfigura, desvaloriza (às vezes para o lucro de um Terceiro Mundo idealizado "tradicional"), e abandona o Espírito Ocidental e Americano, o próprio gênio da civilização européia.

Como o Judaico-Cristianismo, mas por razões diferentes, o tradicionalista diz "Não" ao mundo e assim sabota a tradição de sua própria cultura. Ultimamente, um tradicionalista é alguém que sempre já sabe que há apenas uma tradição, como um idealista sempre já sabe que tudo é uma idéia.

Finalmente, sob o ponto de vista do "pensamento" - aquele cavalo de batalha do tradicionalismo metafísico - o que poderia ser mais negativo para o Espírito, mais incompatível com a qualidade do debate intelectual e para a reflexão que torna a si mesmo livre e contemplativo, do que afastá-lo de todos os projetos "políticos" (no sentido nietzscheano) e desviá-lo para o elitismo de bibliófilos e autodidatas assalariados?

Ousemos liquidar os Evolianos e Heideggerianos.

Porém leiamos Evola e Heidegger: para colocá-los em perspectiva, ao invés de montá-los em papel sulfurizado.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Cultura de Direita

"Diz-se, por exemplo, que a cultura está à esquerda porque é ali em que se encontra mais dinheiro, de editoras, de meios de propaganda. E também afirma-se que se o vento mudasse, muitos 'comprometidos com a esquerda' revisariam seu engagément.

Em tudo isso há parte de razão. Uma cultura ou, melhor, o ponto de partida do qual tem necessidade uma cultura são também organização, dinheiro e propaganda. Resulta induvidável que o predomínio esmagador das edições de orientação marxista, do cinema social-comunista, convida ao engagément também a muitos que em um ambiente diferente teriam permanecido neutros.

Sem embargo, isso não deve fazer-nos esquecer a verdadeira causa do predomínio da hegemonia ideológica da esquerda. Esta reside no fato de que ali, na esquerda, existem as condições para um cultura, existe uma concepção unitária da vida, materialista, democrática, humanitária, progressista. Esta visão do mundo e da vida pode assumir diferentes matizes, pode tornar-se radicalismo e comunismo, neo-iluminismo ou 'cientificismo' de caráter psicanalítico, marxismo militante e cristianismo positivo de natureza 'social'. Porém sempre nos encontramos frente a uma visão unitária do mundo, dos fins da história e da sociedade.

Dessa concepção comum surge uma massiva produção ensaística, histórica e literária que pode ser mesquinha e decadente mas que possui uma lógica e uma coerência íntima próprias. Esta lógica, esta coerência exercem uma fascinação crescente sobre as pessoas cultas. Não é nenhum mistério para ninguém que um grande número de docentes médios e universitários é marxista e que o processo de extensão do marxismo entre o corpo de profissionais do ensino verifica-se com uma impressionante rapidez. E entre os jovens que tem o hábito de ler, as posições de esquerda ganham terreno de forma evidente.

No âmbito da direita não produz-se nada semelhante. Aqui vaga-se em uma atmosfera deprimente, feita de conservadorismo  caseiro e respeitabilidade burguesa. Pode-se ler artigos nos quais solicita-se que a cultura tenha mais em conta os 'valores patrióticos' ou a 'moral', tudo por meio de uma pitoresca confusão de idéias e linguagens.

À esquerda sabe-se perfeitamente o que é que se quer. Quer esteja-se a falar da nacionalização do setor elétrico ou urbanístico, da história da Itália ou da psicanálise, sempre trabalha-se para um fim determinad, para a difusão de uma determinada mentalidade, de uma certa concepção da vida.

À direita anda-se tateando na incerteza e na imprecisão ideológica. É-se 'patriótico-ressurgimentista' e ignora-se os aspectos obscuros, democráticos e maçônicos que coexistiram no Ressurgimento com a idéia unitária. Ou bem aposta-se em um 'liberalismo nacional' e esquece-se que o mercantilismo e o nacionalismo liberais constribuíram de maneira importante para a destruição da ordem européia. Ou, inclusive, fala-se de Estado nacional do trabalho e esquece-se que, desgraçadamente, já temos uma república italiana fundada no 'trabalho' e que reduzir a estes termos nossa alternativa significa simplesmente rebaixar-nos ao nível de social-democratas acessórios.

Quiçá as pessoas cultas não sejam em menor número à direita do que à esquerda. Se considera-se que a maior parte do eleitorado de direita é burguês, dever-se-ia deduzir que entre eles são abundantes as pessoas que tenham realizado estudos superiores e deveriam ter contraído um certo 'hábito de leitura'.

Sem embargo, enquanto o homem de esquerda dispõe também dos elementos da cultura de esquerda e lê Marx, Freud, Salvemini, o homem de direita dificilmente possui uma consciência cultural de 'Direita'. Não suspeita da importância de um Nietzsche na crítica à civilização, jamais leu um único romance de Jünger ou Drieu La Rochelle, desconhece a Decadência do Ocidente de Spengler e não duvida em absoluto que a Revolução Francesa constituiu uma página insigne na história do progresso humano. Enquanto mantém-se no âmbito da cultura é um bravo liberal, somente, talvez, um pouco nacionalista e patriota.

Unicamente quando começa a falar de política diferencia-se: Opina que Mussolini era um homem honesto e não queria a guerra e que os filmes de Pasolini são 'obscenos'.

Não falta muito para dar-se conta de que à direita não existe uma cultura porque não existe uma verdadeira idéia da 'Direita', uma visão do mundo qualitativa, aristocrática, agonística, antidemocrática; uma visão coerente acima de certos interesses, de  certas nostalgias e de certas oleografias políticas."
(Adriano Romualdi)


terça-feira, 21 de junho de 2011

Europa Calling


Don't you see the tide is turning
Towers tubling to the ground
Can't you see the world is burning
The spirit's waiting to be found

Don't you know a fire's burning
Since the ancient times of Rome
Don't you hear Europa calling
For him who leads the children home

Can't you hear the thunder roaring
It's time to wake up from that sleep
Can't you hear Europa crying
Her painful longing to be freed?
 
 
 
The Walls are falling
They wake the Dead

See the rubble
Running blood red

The wolf is howling
Breaks the leash

Specters gather
At the feast

Sharp the sword
Blunt the bone

A new king
For an old throne

The petals flower
Wet with tears

Bloom in slaughter
Blood and fear

Heroes and Villains
Who's to say?

When the victors
Put pen to page

See flags in tatters
Graves in the woods

What horrors hide
Beneath nights hood

The beast is smiling
His sins in fruit

Lays cards of treason
In different suits

The rats in the gutter
Now are on the table

We are all brothers
Cane and Able

Dead winters
Dead summers

Dead Buglers
Dead Drummers

Crimepensar

"Como nós já vimos no caso da palavra livre, palavras que já portaram um significado herético foram às vezes retidas por conveniência, mas apenas com os significados indesejáveis purgados deles. Incontáveis outras palavras tais como honra, justiça, moralidade, internacionalismo, democracia, ciência, e religião simplesmente cessaram de existir. Algumas palavras cobriram-nas, e, ao fazerem isto, as aboliram. Todas as palavras que agrupavam-se ao redor dos conceitos de liberdade e igualdade, por exemplo, foram contidas na única palavra crimepensar, enquanto todas as palavras agrupando-se ao redor dos conceitos de objetividade e racionalismo foram contidas na única palavra velhopensar. Maior precisão teria sido perigoso. O que era necessário em um membro do Partido era uma perspectiva similar àquela do antigo hebreu que sabia, sem saber muito mais, que todas as nações que não a sua própria adoravam 'falsos deuses'. Ele não precisava saber que esses deuses eram chamados Baal, Osiris, Moloch, Ashtaroth, e similares: provavelmente quanto menos ele soubesse melhor para sua ortodoxia. Ele conhecia Jeová e os mandamentos de Jeová: ele sabia, portanto, que todos os deuses com outros nomes ou outros atributos eram falsos deuses."
(George Orwell, 1984)



segunda-feira, 20 de junho de 2011

Biografia de Pierre Drieu La Rochelle

por José Antonio Hernández García

"Se Pierre Drieu La Rochelle não tivesse morrido em 1945, hoje seria ele o príncipe da juventude." - Robert Poulet

Pierre Drieu La Rochelle nasceu em 3 de janeiro de 1893 e suicidou-se em 15 de março de 1945 em Paris. Aos catorze anos, em 1907, descobre Assim Falou Zaratustra de Friedrich Nietzsche, influência que nunca o abandonará. Depois de uma viagem pela Alemanha e Inglaterra, define-se como "germanófilo e anglómano." Quando tem início a guerra de 1914 serve na infantaria e será ferido três vezes; sua experiência no front o marcará para sempre e determinará sua obra posterior. Ao finalizar a guerra torna-se amigo de Aldous Huxley, autor do romance de antecipação Admirável Mundo Novo. Devora os livros de Shakespeare, de Goethe, de Schopenhauer, de Dostoievsky, de Proudhon, de Sore, de Barrès, de Kipling, de Péguy, de Guénon e de Maurras. Interrogação, livro que reúne seus primeiros poemas, o publica em 1917. Entre 1920 e 1924 é atraído pelo dadaísmo e aproxima-se aos surrealistas André Breton e Paul Éluard, e seu nome aparece na revista Littérature; também torna-se amigo de Louis Aragon.

Porém em 1925 assina um artigo histórico na Nouvelle Revue Française que o afasta para sempre da vanguarda. Enquanto isso, escreve e alterna o ensaio lírico, Medida de França, e o romance analítico, O Homem Coberto de Mulheres. Em 1926, reencontra-se com Emmanuel Berl depois de ter colaborado na Revue Hebdomadaire. O ano de 1927 marca o ano de mais intensa amizade de Drieu com André Malraux, que permanecerá fiel a sua memória até o fim. Drieu escreve artigos para Bertrand de Jouvenel na La Lutte des Jeunes em 1934, onde conhece o militante Pierre Andreu, seu futuro biógrafo. Faz sua profissão de fé no Socialismo Fascista: "Este desejo de fazer uma política de esquerda, com homens de direita." Nesse mesmo ano conhece a Ernst von Salomon em Berlim. Drieu é insuperável no diário íntimo e no testemunho introspectivo. Suas reflexões decadentistas e suas descrições pessimistas do mundo literário e político fazem dele o melhor memorialista de seu tempo. Isso sem esquecer seu talento como jornalista que encontramos nas compilações de artigos: Crônica política, 1934-1942 e em O Francês da Europa. Em 1936 adere ao Partido Popular Francês (P.P.F.) dirigido por Jacques Doriot - antigo comunista - e assiste a sua fundação em Saint-Denis. Escreve regularmente no L'Émancipation Nationale, órgão de imprensa do partido. Em 1939 envia sua carta de demissão ao PPF. Depois da derrota de 1940, torna-se membro da direção da N.R.F. Também aparecem seus artigos na La Gerbe de Alphonse de Châteaubriant. Em 1943 colabora no hebdomadário La Révolution Nationale, de Lucien Combelle. Se assume como "socialista europeu" porém se decepciona rapidamente em virtude da iminente queda do Terceiro Reich. A concepção da Europa de Drieu é idealizada e utópica devido à influência de suas leituras de autores românticos alemães. Cada vez mais se interessa nos místicos hindús. Perseguido e vivendo na clandestinidade, se mata aos 52 anos, depois de ter finalizado seu Relato Secreto, onde aponta: "me conduzi com plena consciência, duramente minha vida, de acordo com a idéia que me fiz dos deveres do intelectual." É o testamento sincero de um humanista sensível, de um asceta e de um poeta lúcido em busca do absoluto em uma época atormentada e decadente. Apesar de sua obra desigual, sua vitalidade e seu temperamento único aparecem em todos os seus livros: "Por princípio sou um escritor desigual. O essencial do que tinha a dizer já o havia assinalado, porém apoiando a pena em uma força mal-fadada. Há em meus primeiros escritos o melhor e o pior. Por uma razão de vida e morte, devia separar o melhor do pior." (Escritos de Juventude, 1941). Pierre Drieu La Rochelle pode ser considerado o filho espiritual de Friedrich Nietzsche e de Maurice Barrès.



Ilusão Liberal-Democrata do Humanismo

"Esse pessimismo religioso e filosófico, que é constitutivo de todo liberalismo (inclusive do socialismo), saibam ou não seus cultivadores católicos, em definitivo, é o fator determinante para que ideologias como a democracia e os "direitos humanos" possam exercer atualmente papel de religião universal sob a forma de autodivinização do homem, que em vez de humanismo está acabando em 'hominismo'. Semelhante humanismo petulante é quiçá a mais nefasta de todas as ideologias, no sentido de 'sucedâneos' da Fé, porque logrou revestir-se de um moralismo abstrato, sem nenhuma base ética autêntica. Como tal sucedâneo erigiu-se em uma das formas predominantes com as quais hoje preenche-se o vazio criado pela aniquilação sistemática do numinoso na alma do homem como 'homo religiosus'. É o falso humanismo - ateu, agnóstico ou panteísta em sua essência - que não contrapõe o 'homo' ao animal, senão a Deus, inclusive sublinhando alegremente o animal no homem e declarando-se abertamente partidário. É idêntico com o 'antropocentrismo prático' no qual Gabriel Marcel descobriu tanto a raiz do materialismo soviético como da totalidade da tecnocracia moderna. E, o efeito perverso desse falso humanismo é a 'o selvagem com sua alma nua', expressão feliz que identifica também a essência da tentação cosmopolítica e multiculturalista na educação."
(Dr. Andreas A. Böhmler)


domingo, 19 de junho de 2011

Biodiversidade Humana

A Maçonaria e o Homosexualismo

Ligação da Maçonaria com o Movimento Homossexual

Albert Pike foi um maçom muito estimado pelos colegas maçons. Em honra de Pike eles erigiram um monumento, denominado Consistório Albert Pike. Também dedicaram a ele uma imponente loja maçônica (o Albert Pike Memorial Temple em Little Rock, Arkansas), e é ricamente elogiado em muitos de seus livros. Pike, que atingiu o nível mais elevado do Rito Escocês da Maçonaria (grau 33º), foi um prolífico autor de numerosas obras sobre a Maçonaria. Várias citações de um de seus livros, "Morais e Dogmas do Antigo e Aceito Rito Escocês da Maçonaria", provavelmente seu trabalho mais renomado, será apresentado neste artigo.

O grupo esotérico de apenas homens conhecido como Maçonaria é bastante controverso, e foi ligado ao movimento homossexual por inúmeros investigadores. "Porquê?" você pode perguntar.

Como outros grupos esotéricos e algumas fraternidades, os maçons têm doutrinas secretas e iniciações. Agora, como Pike misteriosamente colocou, a Maçonaria "esconde seus segredos de todos, exceto dos "Adeptos e Sábios", ou os "Eleitos", e usa falsas explicações e falsas interpretações sobre seus símbolos para enganar aqueles que merecem apenas ser enganados, para esconder a Verdade, que chama de Luz, e para levá-los para longe dela. A verdade não é para aqueles que são indignos ou incapazes de recebê-la, pois iriam perverte-la."[1]

Ao invés dos maçons explicitamente enunciarem os seus segredos, eles os comunicam apenas indiretamente. Pike declara: "O que os chefes da Ordem realmente acreditavam e ensinavam, é indicada para os Adeptos através de sugestões contidas nos graus elevados da Maçonaria" [2]. Pike diz novamente: "Os símbolos e cerimônias da Maçonaria têm mais de um significado . Eles preferem esconder do que revelar a verdade. Eles fazem apenas sugestões"[3]. E fala ainda mais:: "... Temos sugestões, e não os detalhes"[4]. "...sugestões dos verdadeiros objetivos e finalidades dos Mistérios"[5]. Os "Mistérios" são as secretas "Verdades Maçônicas"" e os rituais secretos de iniciação.

Pike está acostumado a falar em enigmas, porque ele pode apenas sugerir segredos maçônicos. Os maçons fazem juramentos de não revelar os segredos do grupo.

Até mesmo maçons de mais altos graus guardam segredos dos maçons de nível inferior. De acordo com Pike, um nível inferior Mason "é intencionalmente enganado por falsas interpretações [dos símbolos maçônicos]. Não se pretende que ele compreenda [os símbolos], mas a intenção é que ele deve imaginar que ele compreende os seus verdadeiros significados. A verdadeira explicação é reservada aos Adeptos, os Príncipes da Maçonaria"[6]. Os maçons de nível mais baixo são apenas joguetes sendo usados por aqueles de nível superior, os chamados "Príncipes da Maçonaria".


Agora, para dirigir a nossa atenção para a ligação entre a Maçonaria e a homossexualidade: estariam os maçons usando seu poder e influência para tentar espalhar "valores" homossexual? Com as seguintes palavras enigmáticas, Pike parece estar sugerindo que os maçons praticam sexo oral homossexual. Ele afirma que um iníciado "celebra em observância sacramental essa paixão misteriosa, e enquanto partilha da carne crua das vítimas, parece ser revigorado por um freco gole da fonte universal da vida... Daí a importância do falo."[7]. Como é seu costume, Pike não explica estas palavras. Por exemplo, ele não especifica o que ele quer dizer com "essa paixão misteriosa". Mas em outras partes do livro, ele observa duas vezes que a adoração ao culto fálico (ao membro sexual masculino) é uma parte dos "Antigos Mistérios" [8].

Não apenas o sexo homossexual aparentemente desempenha um papel na Maçonaria, mas também existem evidencias que orgias homossexuais também seu papél.

Pike, falando de forma genérica sobre um membro recém-iniciado, diz: "ele se mistura com a multidão de iniciados, e, coroado com flores, comemora com eles as orgias sagradas.[9]" Não é nem preciso dizer que Pike não define a tal "orgia sagrada". Em pelo menos dois outros locais em seu livro, ele menciona que orgias são associadas com iniciações maçônicas[10].

Uma importante característica compartilhada pela Maçonaria e do movimento homossexual, e que aponta para uma possível conexão entre os dois, é a prevalência de atitudes sexistas entre os membros de ambos os grupos.

A Maçonaria, que é basicamente é um grupo de homens, Pike fornece indícios sérios de sexismo na organização na Maçonaria, através destas palavras: "O amor de uma mulher não se extingue, e ele tem um destino terrível e incontrolável.[20]". Como de costume, ele não explica o que ele quer dizer com esta declaração surpreendente (mas o significado heterofóbico parece bastante óbvio).

Em outra parte, afirmou que "o cristianismo ... deu a mulher o seu grau próprio e influência, ela regula a vida doméstica"[21].

Em alguns círculos, é uma opinião comum, equivocada ou não, que o cristianismo, especialmente o catolicismo, coloca as mulheres em uma classificação mais baixa do que os homens porque as mulheres não podem se tornar padres, bispos, cardeais ou papas e porque as esposas devem ser submissas ou subordinadas àos suas maridos, de modo geral.

Em suma, embora Pike não declare explicitamente que as mulheres são inferiores aos homens, ou que elas não são dignas de amor, ele sugere claramente neste sentido.

A Maçonaria é ainda uma força na América e no mundo. O fato de que este grupo é evidentemente preconceituoso contra a mulher (que não podem se juntar ao grupo) e parcialmente em favor dos relacionamentos homossexuais não deve passar em branco, e também que a possibilidade muito real de que esse grupo está usando sua influência para tentar impor "valores" pró-homossexuais para o público.

Vamos terminar este breve ensaio com uma citação do autor maçom Carl H. Claudy: "Os verdadeiros segredos da Maçonaria nunca são ditos, nem mesmo da boca para os ouvidos. Porque o verdadeiro segredo da Maçonaria é falado ao seu coração, e deste para o coração de seu irmão maçom. Nunca a linguagem feita para a língua pode falar [os segredos]. É proferida apenas na linguagem do olho, em tais manifestações do amor que um homem tem para o seu amigo, que excede todos os outros amores, até mesmo aquele de uma mulher"[22]. Observe as últimas quatro palavras.

Parvoíce Antitradicionalista

"Se as idéias antitradicionalistas valessem mais que nossa tradição, esta teria tornado-se uma espécie de pré-história, mas apenas um pouco melhor conhecida. Isso é o que se tem desejado fazer nesses anos ao chamarem 'homens das cavernas' aos espanhóis amantes das glórias do passado. Porém quando pergunta-se pelos títulos das idéias que julgam-se novas, os inimigos hão de guardar silênico, se não preferem envolver-se em retórica inane. Porque a árvore é conhecida por seus frutos e os seus não aparecem. Nem uma filosofia que sustente-se, nem um sistema de Direito satisfatório, nem o bem-estar do povo, nem uma grande arte, nem história, nem poesia. Um trágala perpétuo, uma ameaça incessante, um insulto permanente. São estes os títulos das novas idéias? A arte pela arte? Não produziu uma única grande obra em país algum. A economia individualista? É a mãe dos problemas sociais. O socialismo? Arruina aos povos. A democracia? É a incapacidade para o governo. O liberalismo espiritual? É o triunfo da difamação. O bacharelado enciclopédico? Como quase todo o cômputo de Instrução pública não serve senão para infiltrar nos espíritos o horror ao trabalho. Repitamo-nos para consolar-nos, que a maioria dessas coisas foram-nos trazidas por gente de boa-fé, que lançaram-se a buscar pelo mundo o que necessitávamos. Porém não esqueçamos que acompanhavam-nas e empurravam-nas os ressentidos, os negadores, os anormais, que não moviam-se senão por impulsos destrutivos, que, pelo visto não satisfizeram-se em despedaçar o que foi o mais generoso e humano de todos os Impérios que houveram no mundo."
(Ramiro de Maeztu)



sexta-feira, 17 de junho de 2011

Armin Mohler: discípulo de Sorel e teórico da vida concreta

Por Dr. Karlheinz Weissmann

O “mito”, como a “representação de uma batalha”, surge espontaneamente e exerce um efeito mobilizador sobre as massas, incute-lhes uma “fé” e torna-as capazes de actos heróicos, funda uma nova ética: essas são as pedras angulares do pensamento de Georges Sorel (1847-1922). Este teórico político, pelos seus artigos e pelos seus livros, publicados antes da primeira guerra mundial, exerceu uma influência perturbante tanto sobre os socialistas como sobre os nacionalistas.
Contudo, o seu interesse pelo mito e a sua fé numa moral ascética foram sempre – e continuam a sê-lo apesar do tempo que passa – um embaraço para a esquerda, da qual ele se declarava. Podemos ainda observar esta reticência nas obras publicadas sobre Sorel no fim dos anos 60. Enquanto algumas correntes da nova esquerda assumiram expressamente Sorel e consideravam que a sua apologia da acção directa e as suas concepções anarquizantes, que reclamavam o surgimento de pequenas comunidades de “produtores livres”, eram antecipações das suas próprias visões, a maioria dos grupos de esquerda não via em Sorel mais que um louco que se afirmava influenciado por Marx inconscientemente e que trazia à esquerda, no seu conjunto, mais dissabores que vantagens. Jean-Paul Sartre contava-se assim, evidentemente, entre os adversários de Sorel, trazendo-lhes a caução da sua notoriedade e dando, ipso facto, peso aos seus argumentos.

Quando Armin Mohler, inteiramente fora dos debates que agitavam as esquerdas, afirmou o seu grande interesse pela obra de Sorel, não foi porque via nele o “profeta dos bombistas” (Ernst Wilhelm Eschmann) nem porque acreditava, como Sorel esperara no contexto da sua época, que o proletariado detivesse uma força de regeneração, nem porque estimava que esta visão messiânica do proletariado tivesse ainda qualquer função. Para Mohler, Sorel era um exemplo sobre o qual meditar na luta contra os efeitos e os vectores da decadência. Mohler queria utilizar o “pessimismo potente” de Sorel contra um “pessimismo debilitante” disseminado nas fileiras da burguesia.

Rapidamente Mohler criticou a “concepção idílica do conservantismo”. Ao reler Sorel percebeu que é perfeitamente absurdo querer tudo “conservar” quando as situações mudaram por todo o lado. A direita intelectual não deve contentar-se em pregar simplesmente o bom-senso contra os excessos de uma certa esquerda, nem em pregar a luz aos partidários da ideologia das Luzes; não, ela deve mostrar-se capaz de forjar a sua própria ideologia, de compreender os processos de decadência que se desenvolvem no seu seio e de se desembaraçar deles, antes de abrir verdadeiramente a via a uma tradução concreta das suas posições.

Uma aversão comum aos excessos da ética da convicção

Quando Mohler esboça o seu primeiro retrato de Sorel, nas colunas da revista Criticón, em 1973, escreve sem ambiguidades que os conservadores alemães deveriam tomar esse francês fora do comum como modelo para organizar a resistência contra a “desorganização pelo idealismo”. Mohler partilhava a aversão de Sorel contra os excessos da ética da convicção. Vimo-la exercer a sua devastação na França de 1890 a 1910, com o triunfo dos dreyfusards e a incompreensão dos Radicais pelos verdadeiros fundamentos da Cidade e do Bem Comum, vimo-la também no final dos anos 60 na República Federal, depois da grande febre “emancipadora”, combinada com a vontade de jogar abaixo todo o continuum histórico, criminalizando sistematicamente o passado alemão, tudo taras que tocaram igualmente o “centro” do tabuleiro político.

Para além destas necessidades do momento, Mohler tinha outras razões, mais essenciais, para redescobrir Sorel. O anti-liberalismo e o decisionismo de Sorel haviam impressionado Mohler, mais ainda do que a ausência de clareza que recriminamos no pensamento soreliano. Mohler pensava, ao contrário, que esta ausência de clareza era o reflexo exacto das próprias coisas, reflexo que nunca é conseguido quando usamos uma linguagem demasiado descritiva e demasiado analítica. Sobretudo “quando se trata de entender elementos ou acontecimentos muito divergentes uns dos outros ou de captar correntes contrárias, subterrâneas e depositárias”. Sorel formulou pela primeira vez uma ideia que muito dificilmente se deixa conceptualizar: as pulsões do homem, sobretudo as mais nobres, dificilmente se explicam, porque as soluções conceptuais, todas feitas e todas apropriadas, que propomos geralmente, falham na sua aplicação, os modelos explicativos do mundo, que têm a pretensão de ser absolutamente completos, não impulsionam os homens em frente mas, pelo contrário, têm um efeito paralisante.

Ernst Jünger, discípulo alemão de Georges Sorel

Mohler sentiu-se igualmente atraído pelo estilo do pensamento de Sorel devido à potencialidade associativa das suas explicações. Também estava convencido que este estilo era inseparável da “coisa” mencionada. Tentou definir este pensamento soreliano com mais precisão com a ajuda de conceitos como “construção orgânica” ou “realismo heróico”. Estes dois novos conceitos revelam a influência de Ernst Jünger, que Mohler conta entre os discípulos alemães de Sorel. Em Sorel, Mohler reencontra o que havia anteriormente descoberto no Jünger dos manifestos nacionalistas e da primeira versão do Coração Aventureiro (1929): a determinação em superar as perdas sofridas e, ao mesmo tempo, a ousar qualquer coisa de novo, a confiar na força da decisão criadora e da vontade de dar forma ao informal, contrariamente às utopias das esquerdas. Num tal estado de espírito, apesar do entusiasmo transbordante dos actores, estes permanecem conscientes das condições espacio-temporais concretas e opõem ao informal aquilo que a sua criatividade formou.

O “afecto nominalista”

O que actuava em filigrana, tanto em Sorel como em Jünger, Mohler denominou “afecto nominalista”, isto é, a hostilidade a todas as “generalidades”, a todo esse universalismo bacoco que quer sempre ser recompensado pelas suas boas intenções, a hostilidade a todas as retóricas enfáticas e burlescas que nada têm a ver com a realidade concreta. É portanto o “afecto nominalista” que despertou o interesse de Mohler por Sorel. Mohler não mais parou de se interessar pelas teorias e ideias de Sorel.

Em 1975 Mohler faz aparecer uma pequena obra sucinta, considerada como uma “bio-bibliografia” de Sorel, mas contendo também um curto ensaio sobre o teórico socialista francês. Mohler utilizou a edição de um fino volume numa colecção privada da Fundação Siemens, consagrado a Sorel e devida à pluma de Julien Freund, para fazer aparecer essas trinta páginas (imprimidas de maneira tão cerrada que são difíceis de ler!) apresentando pela primeira vez ao público alemão uma lista quase completa dos escritos de Sorel e da literatura secundária que lhe é consagrada. A esta lista juntava-se um esboço da sua vida e do seu pensamento.

Nesse texto, Mohler quis em primeiro lugar apresentar uma sinopse das fases sucessivas da evolução intelectual e política de Sorel, para poder destacar bem a posição ideológica diversificada deste autor. Esse texto havia sido concebido originalmente para uma monografia de Sorel, onde Mohler poria em ordem a enorme documentação que havia reunido e trabalhado. Infelizmente nunca a pôde terminar. Finalmente, Mohler decidiu formalizar o resultado das suas investigações num trabalho bastante completo que apareceu em três partes nas colunas da Criticón em 1997. Os resultados da análise mohleriana podem resumir-se em 5 pontos:

Uma nova cultura que não é nem de direita nem de esquerda

1. Quando falamos de Sorel como um dos pais fundadores da Revolução Conservadora reconhecemos o seu papel de primeiro plano na génese deste movimento intelectual que, como indica claramente o seu nome, não é “nem de direita nem de esquerda” mas tenta forjar uma “nova cultura” que tomará o lugar das ideologias usadas e estragadas do século XIX. Pelas suas origens este movimento revolucionário-conservador é essencialmente intelectual: não pode ser compreendido como simples rejeição do liberalismo e da ideologia das Luzes.

2. Em princípio, consideramos que os fascismos românicos ou o nacional-socialismo alemão tentaram realizar este conceito, mas estas ideologias são heresias que se esquecem de levar em consideração um dos aspectos mais fundamentais da Revolução Conservadora: a desconfiança em relação às ideias que evocam a bondade natural do homem ou crêem na “viabilidade” do mundo. Esta desconfiança da RC é uma herança proveniente do velho fundo da direita clássica.

3. A função de Sorel era em primeiro lugar uma função catalítica, mas no seu pensamento encontramos tudo o que foi trabalhado posteriormente nas distintas famílias da Revolução Conservadora: o desprezo pela “pequena ciência” e a extrema valorização das pulsões irracionais do homem, o cepticismo em relação a todas as abstracções e o entusiasmo pelo concreto, a consciência de que não existe nada de idílico, o gosto pela decisão, a concepção de que a vida tranquila nada vale e a necessidade de “monumentalidade”.


Não há “sentido” que exista por si mesmo.

4. Nesta mesma ordem de ideias encontramos também esta convicção de que a existência é desprovida de sentido (sinnlos), ou melhor: a convicção de que é impossível reconhecer com certeza o sentido da existência. Desta convicção deriva a ideia de que nunca fazemos mais que “encontrar” o sentido da existência forjando-o gradualmente nós próprios, sob a pressão das circunstâncias e dos acasos da vida ou da História, e que não o “descobrimos” como se ele sempre tivesse estado ali, escondido por detrás do ecrã dos fenómenos ou epifenómenos. Depois, o sentido não existe por si mesmo porque só algumas raras e fortes personalidades são capazes de o fundar, e somente em raras épocas de transição da História. O “mito”, esse, constitui sempre o núcleo central de uma cultura e compenetra-a inteiramente.

5. Tudo depende, por fim, da concepção que Sorel faz da decadência – e todas as correntes da direita, por diferentes que sejam umas das outras, têm disso unanimemente consciência – concepção que difere dos modelos habituais; nele é a ideia de entropia ou a do tempo cíclico, a doutrina clássica da sucessão constitucional ou a afirmação do declínio orgânico de toda a cultura. Em «Les Illusions du progrès» Sorel afirma: “É charlatanice ou ingenuidade falar de um determinismo histórico”. A decadência equivale sempre à perda da estruturação interior, ao abandono de toda a vontade de regeneração. Sem qualquer dúvida, a apresentação de Sorel que nos deu Mohler foi tornada mais mordaz pelo seu espírito crítico.

Uma teoria da vida concreta imediata

Contudo, algumas partes do pensamento soreliano nunca interessaram Mohler. Nomeadamente as lacunas do pensamento soreliano, todavia patentes, sobretudo quando se tratou de definir os processos que deveriam ter animado a nova sociedade proletária trazida pelo “mito”. Mohler absteve-se igualmente de investigar a ambiguidade de bom número de conceitos utilizados por Sorel. Mas Mohler descobriu em Sorel ideias que o haviam preocupado a ele também: não se pode, pois, negar o paralelo entre os dois autores. As afinidades intelectuais existem entre os dois homens, porque Mohler como Sorel, buscaram uma “teoria da vida concreta imediata” (recuperando as palavras de Carl Schmitt).