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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Robert Steuckers - Karl Haushofer

por Robert Steuckers



Nascido em 27 de agosto de 1869 em Munique, Karl Haushofer escolheu a carreira militar desde 1887. Oficial de artilharia na armada bávara em 1890, desposa em 8 de julho de 1896 Martha Mayer-Doss, descendente de uma família de origem israelita de Munique. Lhe deu dois filhos, Albrecht (nascido em 1903) e Heinz (1906). Subindo rapidamente todos os degraus da hierarquia militar, Haushofer se converte em professor na Academia de Guerra em 1904. Em outubro de 1908, é enviado ao Japão para organizar ali a armada imperial.

Encontra na Índia a Lorde Kitchener, que lhe prediz que todo confronto entre Grã-Bretanha e Alemanha custará às duas potências suas posições no Pacífico em benefício dos EUA e do Japão, advertência profética que Haushofer reterá sempre, acima de tudo quando elaborará suas teses sobre a área do Pacífico. Logo de seu longo périplo, é designado ao regimento de artilharia da campanha da 16ª divisão japonesa. Em 19 de novembro de 1909, é apresentado ao Imperador Mutsuhito (1852-1912), iniciador da era Meiji, e à imperatriz Haruko. Regressando à Alemanha, passa pela Sibéria tomando o transiberiano, notando as imensidões continentais da Eurásia russa.

Em 1913, apresenta sua primeira obra destinada ao grande pública, Dai Nihon (O Grande Japão), balanço de sua experiência japonesa que conhecerá um forte êxito. Em abril de 1913, começa a seguir os cursos de geografia na Universidade de Munique, em vista de obter o título de doutor que obterá de fato sob os auspícios do professor August von Drygalski. Mobilizado em 1914, sai em primeiro lugar para a frente ocidental, onde combaterá em Lorena e Picardie. Em 1915, é deslocado para a Galícia para retornar rapidamente à Alsácia e à Champanha. Em 1916, se encontra nos Cárpatos. Termina a guerra na Alsácia. Durante as hostilidades, seu pensamento geopolítica se especifica: os historiadores ingleses Macaulay e Gibbon, o teórico alemão Albrecht Roscher lhe dão a estrutura onde se inscreverão suas reflexões históricas e políticas enquanto que Ratzel e Kjellen lhe fornecem a armadura de seu pensamento geográfico.

Logo do armistício, é nomeado comandante da 1ª brigada de artilharia bávara. Se reinscreve na universidade, apresenta uma tese sobre os mares internos do Japão (17 de julho de 1919), é nomeado professor de geografia em Munique e dita seu primeiro curso sobre a antropogeografia da Ásia Oriental. Conhece Rudolf Hess em 4 de abril de 1919; uma amizade indefectível unirá a ambos homens. Em qualidade de dirigente nacional-socialista, Hess estenderá sempre seu braço protetor sobre a esposa de Haushofer, descendente por parte de pai de uma velha casta separada, e sobre seus filhos, considerados como "semi-judeus" logo da promulgação das leis de Nuremberg.

Durante a década de 20, Haushofer funda a célebre Revista de Geopolítica, destinado a dar aos diplomatas alemães uma consciência prática dos movimentos políticos, econômicos e sociais que vivificam o mundo. Os principais especialistas em relações internacionais colaboraram nela, desde a publicação do primeiro número em janeiro de 1924. Paralelamente a essa atividade, organiza uma associação, a Associação para os Alemães do Estrangeiro, que se dá na ambição por defender e ilustrar a cultura das minorias alemães fora do Reich. Desde 1923, Haushofer aceita organizar os trabalhos preparatórios para a fundação de uma "Academia Alemã". Essa academia será oficialmente fundada em 5 de maio de 1925. Em 1927, apresenta em Berlim seu estudo magistral sobre as fronteiras. Durante esse decênio, Haushofer encontra vários personagens importantes: Ludendorff, Spengler, os coronéis e diplomatas japoneses Kashyi, Oshima e Koozuki, o almirante Tirpitz, o general suíço U. Wille, o cardeal Schute, Konrad Adenauer, Hitler e o Conde Coudenhove-Kalergi, fundador do conceito de "Pan-Europa".

Seus filhos iniciam uma carreira brilhante, Albrecht, fez uma viagem ao Brasil logo após ter adquirido seu título de doutor em filosofia em Munique. Será secretário de seu pai durante os trabalhos preparatórios à fundação da "Academia Alemã", logo se converterá em secretário da "Sociedade de Geografia" de Berlim.

O cadete, Heinz, obtém seu diploma de engenheiro agrônomo. Em 1930, Karl Haushofer se converte em sócio da Sociedade Geográfica Americana. Efetua numerosas rodadas de conferências na Áustria, na Tchecoslováquia, na Polônia, na Itália e nos Países Baixos. Em 10 de março de 1933, um comando nacional-socialista vasculha a casa dos Haushofer em busca de armas. Gozando da proteção de Hess, que lhe outorga uma "carta de proteção" em 19 de agosto de 1933, Haushofer e seus filhos conservam seus postos universitários, apesar de protestos, a propósito da estirpe de sua esposa e mãe. Em 11 de março de 1934, Haushofer é nomeado Presidente da "Academia Alemã". Permanecerá até abril de 1937. No transcurso desse decênio marcado pelo hitlerismo, Haushofer reencontra, ademais dos dignatários do novo regime, o próprio Hitler, o historiador Hans Kohn, o prefeito independentista de Calcutá, Subas Chandra Bose, o primeiro-ministro húngaro Gombos, o embaixador em Roma Ulrich von Hassell, o Monsenhor Pio XI, Konrad Henlein, o líder dos alemães dos Sudetos, o embaixador do Japão Conde Mushakoji, o almirante Canaris, o Cardeal Pacelli, etc.

É principalmente seu filho mais velho, Albrecht Haushofer, que ocupa um lugar importante na diplomacia alemã a partir de 1935. Aquele ano, de fevereiro a dezembro, Albrecht efetua, por conta da diplomacia alemã, seus viagens à Inglaterra. Regressa ali no ano seguinte. Em 1936 é enviado para uma "missão secreta" em Praga e reencontra Benes. Em 1937, é enviado aos EUA e Japão. Quando a guerra começa, Haushofer entra em profunda depressão: tinha querido evitá-la. Porém o destino da família está selado quando Hess voa para a Inglaterra em maio de 1941. Albrecht é preso em Berlim e Karl Haushofer é convocado pela Gestapo. Em 1944, após o atentado de 20 de julho contra Hitler, a Gestapo vasculha a casa do geopolítico e o interna em Dachau. Albrecht Haushofer passa à clandestinidade e não é preso até dezembro. Heinz, o cadete, é encerrado na prisão de Moabit em Berlim com sua esposa. Em 22 ou 23 de abril de 1945, um comando executa Albrecht com um disparo na nunca. Heinz é liberado.

Logo após a queda do Terceiro Reich, Haushofer é interrogado por oficiais americanos, entre os quais o professor Walsh que tenta protegê-lo. Em 21 de novembro de 1945, um decreto das autoridades de ocupação retiram seu título de professor honorário e seus direitos a uma pensão. Deprimidos, Martha e Karl Haushofer se suicidam em 10 de março de 1946. A geopolítica de Haushofer era essencialmente anti-imperialista, no sentido de se opôr aos conquistadores das potências talassocráticas anglo-saxãs. Estes últimos impediam o desenvolvimento harmonioso dos povos que submetiam e dividiam inutilmente aos continentes. Seduzido pelas idéias pan-asiáticas e pan-européias, Haushofer confessava ultrapassar os nacionalismos e queria contribuir, mediante seus escritos, para o surgimento dos "grandes espaços continentais" formados por nações solidárias. Em seguida, desejo a colaboração dos europeus, russos e japoneses em uma grande aliança eurasiática, fechada às influências inglesas e americanas.

As Fronteiras e sua Significação Geográfica e Política (1927)

Nesse estudo geral sobre o fenômeno histórico-geográfico das fronteiras, Haushofer exorta a seus compatriotas a terem uma idéia clara e precisa do que são suas fronteiras. Uma consciência concreta, quase instintiva, das fronteiras se impõe naturalmente nos povos fortes contra a ausência das formas territoriais que implicam as ideologias cosmopolitas, abstratas e ignorantes dos fatores tempo e espaço Concretas, as fronteiras são fatos biogeográficos que fazem ranger os conceitos jurídicos quando se quer encerrar os fluxos viventes. Os conceitos jurídicos, que quiçá correspondem a antigas fronteiras, são resíduos, girados no fio dos tempos hostis na Vida. Haushofer deduz sua teoria das fronteiras das obras de Ratzel, Penk, Sieger, Volz e dos protagonistas das escolas inglesa (Holdich, Cruzon, Fawcett, Lyde) e francesa (Ténot). Sir Thomas Holdich é aquele que, aos olhos de Haushofer, soube melhor teorizar a arte de fazer fronteiras justas e duráveis O mar não separa senão une, no sentido que o literal oposto sempre atrai, atração que provoca a comunicação.

As fronteiras biologicamente justas são aquelas que são pensadas, concebidas e traçadas partido de um enfoque multidisciplinar e não estritamente jurídico. O enfoque multidisciplinar científico permite conceber e traçar fronteiras estáveis, capazes de desposar o fluxo do real e mudar o caso que vence. Sem concepção viva das fronteiras, alguns povos, principalmente aqueles que não tem colônias, portanto não tem reservas territoriais, são restringidos, às vezes, a ter que recorrer à limitação dos nascimentos com o fim de manter constante a cifra de sua população. Haushofer denuncia o egoísmo das nações colonialistas que condenam à regressão inclusive até o desaparecimento dos povos que não deixaram sua área de sedentarização original. Essa desigualdade de povos em matéria de espaço é a injustiça e, portanto, se deve conceber, daí em diante, as fronteiras em um espírito evolucionário e já não mais estático/jurídico. Haushofer classifica os diferentes tipos de fronteiras (naturais, resultados de equilíbrio diplomático, defensivas, fluviais, litorais, etc). insistentes, seguindo a geografia francesa. Eugène Ténot, sobre as fronteiras desmembradas, permitindo a penetração militar do território do vizinho hostil. França e Alemanha, sem o nevado alsácio-loreno, tem fronteiras desmembradas. Haushofer critica as vontades (principalmente a vontade francesa, herdada de César) de querer estabelecer fronteiras duráveis ao longo dos rios: rios, como os mares, se unem e não se dividem. Um estudo objetivo e geopolítico das fronteiras é útil para todos os homens políticos, qualquer seja sua adesão ideológica.

Geopolítica das Idéias Continentalistas (1931)

No princípio dos anos 30, Haushofer se converteu em advogado das idéias que buscam promover grandes agrupamentos continentais, superando a estreiteza territorial e econômica dos Estados de tipo clássico. Em dimensões, só os impérios mongóis, unificadores da massa continental eurasiática, já executaram, à risca, uma Pan-Idéia. Em 1900, o continente australiano é unificado em um só Estado porém sem seu complemento insular, Nova Zelândia.

A idéia panafricana descansa sobre uma vontade de emancipação racial. A idéia panamericana se deu a princípios do século das estruturas jurídicas (Doutrina de Monroe de 1823, assembléias regulares de Estados americanos, fundação de um departamento panamericano). A Pan-Europa só ficou em um sonho. A história igualmente conheceu os "circum-marinos" panideanos como Roma e o Islã no Mediterrâneo. O Império britânico é "circum-marino" no Oceano Índico. Os EUA, por um lado, e o Japão, pelo outro, tentam unificar sob sua égide todos os rios do Pacífico. Especialista das questões nipônicas e do Pacífico, Haushofer insiste bastante nas sinergias sobre o contorno nas águas dessa imensidão oceânica. A idéia panpacífica tem uma antiguidade de 400 anos: Nuñez de Balboa, em 1513, a reivindica para a Coroa da Espanha. Sir Francis Drake aceitará o desafio em 158, reduzindo a nada essa pretensão. Os americanos tomarão o lugar dos espanhóis do século XIX, logo que o Japão tenha renunciado povoar a Micronésia, que a Rússia haja abandonado o Alaska e o Mar de Bering e que a aliança tácita entre russos e espanhóis para evitar o poder americano se enfraqueça. O Instituto Pacífico de Honolulu lança depois as bases de uma administração americana da maior zona oceânica do mundo.

Para Haushofer, a organização de tal império circum-marino é a idéia política mais grandiosa da história. Porém sela ao mesmo tempo o destino do Japão que, por ter descuidado do povoamento da Micronésia, chegou muito tarde ao curso e deverá se opôr aos EUA para adquirir liberdade de movimento. As idéias pan-pacíficas e panamericanas são evolutivas, enquanto que as idéias panasiáticas são revolucionárias e sustentadas pelos movimentos comunistas russos ou independentistas chineses (Sun Ya-Tsen) e hindus (B.K. Sarkar; Rabinidranath Tagore).

A organização a longo prazo das idéias circum-marinas não foi possível na antiguidade porque as técnicas de comunicação eram insuficientes. Alexandre não pôde manter seu império porque não pôde absorver o espaço sarmato-cita, povoado de nômades rebeldes avessos a toda tentativa de organização. Quanto à idéia eurasiática, se subdivide em duas correntes: a corrente grande eurasiática, onde a Europa é considerada como uma península da grande massa territorial que é a Eurásia, e a corrente pequena eurasiática, nascida na Rússia, que simplesmente deseja apartar a vista da Rússia do Ocidente e dirigir o fluxo de energia russo para o leste. É impossível traçar uma fronteira definitiva entre Europa e Ásia, já que o imenso território que se estende da Manchúria aos Cárpatos, rota de migrações, forma uma unidade indivisível. Haushofer reúne de certo modo os eurasiáticos russos (Nicolás S. Timachey e N. de Boubnov), assinalando com eles que o espaço ucrano-polaco é uma zona de transição e enfrentamento entre Rússia e Europa no fundamento germano-romano. A Eurásia dos teóricos "eurasiáticos" russos correspondem em última instância ao espaço que MacKinder denominava de "eixo central da história". Os "eurasiáticos" russos, explica Haushofer, desenvolvem um projeto geopolítico hostil às culturas decadentes da Europa e Ásia, semelhante ao projeto autárquico e autoritário dos bolcheviques, exceto no domínio religioso, onde preveem um tzar escolhido e uma adesão obrigatória à religião ortodoxa.

Frente a essa vontade dinâmica, os panasiáticos chineses e indianos se opõem a outra vontade revolucionária e a Pan-Europa de Briand e de Coudenhove-Kalergi se refugiam firmemente na defesa do status quo, à maneira da Santa Aliança de Metternich. O panislamismo, a grande idéia árabe, as idéias panindianas e a grande China são outras idéias semelhantes que tratam do espaço eurasiáticas. A solução é evitar todo conflito dilatador e divisório: reconciliar as idéias paneuropéias, paneurasiáticas e panasiáticas.

Para Haushofer, a marcha da humanidade rumo às entidades de dimensões continentais é ineludível: uma primeira etapa poderia ser as semelhanças "subcontinentais", teorizadas pelo geógrafo E. Banse em 1912. Este falava de 12 áreas: Europa, a Grande Sibéria, Austrália, Oriente, Índia, Ásia oriental, a África, a Mongólia (com acesso aos mares via China central, Indochina e Indonésia), a Grande Califórnia, as Terras Indígenas (voltadas para o Pacífico), América (parte da América do Norte voltada para o Atlântico) e a Amazônia. Essa classificação permite pensar uma organização de pessoas sobre a base subcontinental.

A dinâmica que leva todos esses projetos reduz a nada as pretensões de querer paralisar uma quantidade de partes do mundo em fronteiras exíguas e inviáveis.

Política Mundial Atual (1934)

Analisa as grandes instâncias da política mundial do pós-Versalhes, Weltpolitik von Heute começa por definir o espaço centro-europeu: para Haushofer como para MacKinder, a Mitteleuropa é a soma dos espaços do Reno e do Danúbio. Para o francês Martonne, pelo contrário, este é o cordão sanitário aliado à França e instrumentalizado contra Alemanha e Rússia. Este cordão sanitário é uma construção artificial, afirma Haushofer, mantida pelas regras abstratas da Sociedade das Nações. Fora da Europa, o mundo foi europeizado. A América do Sul foi "desindigenizada", o Oriente Médio árabe-persa foi dividido em entidades antagônicas em benefício dos ingleses, Índia está sob tutela inglesa, etc. As principais consequências da Primeira Guerra Mundial são: 1) a divisão da Europa entre nações colonizadoras e possuidoras de vastos espaços de reserva, por um lado e nações sem espaço de reserva, aprisionadas em sua área de povoamento inicial, pelo outro; 2) o Império britânico se desloca; 3) os povos colonizados da Ásia reclamam sua independência. Frente a essa ordem, Haushofer exalta uma política que aponta a liberar o espaço no planeta para os europeus que estão despossuídos (alemães, húngaros, romenos, polacos, tchecos, gregos, eslovacos, búlgaros e iugoslavos, onde o destino está ligado ao da Alemanha apesar da "Pequena Entente" teleguiada por Paris); acelerar a decomposição do Império britânico; dar uma mão as colonizados na revolução contra seus dominantes. Essa política implica opôr a lex feranda à lex lata, o devir natural ao estatismo dos parágrafos e dos tratados impostos pelos vencedores egoístas.

Para adquirir o status de grande potência, se deve, explica Haushofer, enfocar a autarquia e rechaçar as monoculturas. A autarquia, factível no sucessivo no grande espaço federado e já não mais nas estruturas bastante exíguas dos Estados-Nação clássicos, permite a independência alimentária e industrial graças a uma agricultura e uma indústria diversificadas, que respondem a todas as necessidades da população. A tentação de edificar "monoculturas" ultraespecializadas deforma a economia e a fragiliza no caso de crise. Weltpolitik von Heute define ademais a noção de "grande potência", enumera os tipos de dependência política (vassalagem, clientelismo, protetorados virtuais, etc), explicita as formas de apropriação de espaços não mais dominados (os pólos) e de dominação de espaços às defesas desmanteladas (Alemanha após Versalhes).

Mares do Mundo e Potências Mundiais (1937)

Obra completamente consagrada à relação entre a dominação das zonas oceânicas e o poder político e militar das nações, Weltmeere und Weltmachte começa por padronizar os trabalhos de oceanografia física que incrementaram o saber dos homens sobre os mares. Esses conhecimentos fáticos destaparam uma prática política de domínio dos oceanos. O alto mar, depois dos gregos e dos romanos é o "bem de todos os homens" (koinon panton anthropon, dizia Teofos) ou "por sua natureza aberta a todos". Sir Thomas Barclay inaugura o debate jurídico para saber se o mar pertence a todos ou a ninguém (se é res communis ou res nullius).

Em 1894, E.W. May em seu Tratado sobre Direito Internacional, recorda que, os princípios indiscutíveis do direito internacional moderno, existe aquele que impede às potências se apropriarem com toda exclusividade das zonas marítimas (a idéia de mare liberum formulada por Hugo Grotius em 1609). Para Haushofer essa visão é hipócrita quando Grã-Bretanha aplica sua estratégia de bloqueio ou se apodera dos cabos submarinos de telecomunicações, se apodera de grandes partes de território marinho. A idéia de mar livre, defendida pelos juristas ingleses, conduziu assim a uma dominação quase exclusiva dos mares do mundo pela Grã-Bretanha, única potência capaz de utilizar eficazmente a arma do bloqueio. As outras potências são a partir desse fato deixadas por sua conta nessa luta pelo domínio dos espaços marinhos.

A dominação dos mares ocorre quando uma potência logra se dotar de órgãos oceânicos eficazes. As talassocracias, como ilustra o exemplo veneziano, desdobram seu poder a partir de um território reduzido e conquistam barras, faixas litorâneas, quer seja tanto de "ventosas aspirantes" relacionadas com a metrópole por tentáculos móveis e elásticos. As talassocracias começam muitas vezes por dominar mares interiores (o Egeu por Atenas, o Mediterrâneo por Roma, o Mar do Japão pelo Japão). São seja dos Estados litorais ou dos Estados insulares. As talassocracias litorais são mais frágeis, já que estão diretamente ameaçadas por seu interior. As talassocracias insulares dispõem ademais de triunfos para passar da dominação de um mar interior à dominação das grandes vias de comunicação transoceânicas. As talassocracias litorais são construções híbridas, obrigadas a dirigir conjuntamente dois tipos de políticas diferentes, uma continental, a outra marítima (Holanda, Portugal), o que esgota seus recursos e os faz perder na competição frente as talassocracias insulares. Os Estados continentais, como Alemanha, estão prejudicados por sua geografia e não podem dar o melhor de si em um mundo ademais fechado, completamente explorado, onde as talassocracias tiveram um maior progresso no domínio das bases de ultramar, de zonas econômicas que asseguram a subsistência e espaços de colonização onde se expande o excesso de sua população.

A talassocracia britânica é hostil aos canais interiores e à perfuração dos istmos já que essas aberturas relativizam ipso ipso a importância das vias marítimas que controla. Lord Palmerston foi hostil à construção do Canal de Suez já que a França tinha o domínio. A Inglaterra igualmente criticou a construção do Canal do Meio, entre Bordeaux e o Mediterrâneo, já que essa reduzia consideravelmente a importância estratégica de Gibraltar. Ao momento em que a política já não pode ser mundial, os povos que querem sobreviver devem recorrer necessariamente ao largo, aos oceanos, ou organizar seus espaços continentais com o fim de escapar da dominação de uma ou outra potência marítima. Essa organização continental passa pela construção de rotas, de vias férreas, de sistemas de navegação fluvial, etc, controladas pelas únicas potências continentais.

O Bloqueio Continental: Mitteleuropa, Eurásia, Japão (1941)

Escrito logo após o pacto germano-soviético, essa obra persegue dois objetivos: 1) lançar as bases de uma aliança ítalo-germano-nipo-soviética, que reorganizaria a massa continental eurasiática e africana; e 2) reivindicar para a Alemanha o regresso de suas colônias africanas, subtraídas após Versalhes. Analisando os textos editados pelos institutos britânicos e americanos, Haushofer revela uma ameaça recorrente, principalmente a de Lord Palmerstone; e a do geógrafo Homer Lea, de ver se constituir uma aliança entre Alemanha, Rússia e Japão. Tal aliança escaparia totalmente ao controle das talassocracias britânica e americana. As talassocracias, escreve Haushofer, utilizam a política da anaconda: prendem suas presas e as enforcam lentamente. A massa eurasiática se está devidamente organizada, é uma presa bastante grande para a anaconda anglo-americana, uma massa territorial tal, que escapa a todo bloqueio.

A idéia de tal aliança germinou tanto nos cérebros russos e japoneses como nos alemães ou europeus. No momento da guerra russo-japonesa de 1905, quando os britânicos e japoneses conjugam seus esforços para fazer fracassarem os russos, uma parte do corpo diplomático japonês, da qual o embaixador em Londres Hayashi, o príncipe Ito, o primeiro-ministro Katsura e o conde Gote, deseja uma aliança entre alemães, russos e japoneses contra as tentativas inglesas de controlar todo o tráfego marítimo mundial.

Frente a tais proposições, a Alemanha de Guilherme II, deplora Haushofer, fica prisioneira do mito do "perigo amarelo", percebendo muito tarde que os asiáticos são menos perigosos para o futuro da Alemanha que os britânicos e americanos. Na Rússia, a idéia eurasiática foi encarnada pelo Ministro Witte, criador da ferrovia transiberiana e seguidor de uma paz separada com a Alemanha em 1915. O japonês Goto falava da necessidade de uma troika, onde o cavalo central, o mais corpulento e robusto, teria sido a Rússia, flanqueada de dois cavalos mais nervosos, Alemanha e Japão. Na África, a má gestão britânica deixou ir por água a baixo a obra construtora dos colonos agricultores alemães; com a vontade de desenvolver culturas duradouras, os ingleses substituíram a exploração capitalista, que provocava a urbanização das massas africanas, enfraquecendo a agricultura, o que provoca desertificação e fome. Os japoneses, pelo contrário, administraram muito bem a Micronésia ex-alemã.

A "troika" completada pela Itália de Mussolini deve favorecer os independentistas árabes e hindus; a Rússia, em particular, deve se apresentar como a protetora dos armênios e dos curdos com o fim de conectar Mosul com o bloco continental em gestação.

domingo, 4 de novembro de 2012

A Lição de Carl Schmitt

por Guillaume Faye e Robert Steuckers



Nós nos encontramos com Carl Schmitt na aldeia de Plettenburg, seu local de nascimento e retiro. Por quatro horas notáveis nós conversamos com o homem que permanece inquestionavelmente como o maior pensador político e jurídico de nosso tempo. "Nós fomos colocados para pastar", disse Schmitt. "Nós somos como animais domésticos que desfrutam dos benefícios do campo cercado ao qual somos designados. O espaço é conquistado. As fronteiras são fixas. Não há nada mais para descobrir. É o reino do status quo..."

Schmitt sempre alertou contra essa ordem congelada, que se estende sobre a Terra e arrasa soberanias políticas. Já em 1928, em O Conceito do Político, ele detecta nas ideologias universalistas, aquelas "dos Direitos, ou Humanidade, ou Ordem, ou Paz", o projeto de transformar o planeta em um tipo de agregado econômico despolitizado que ele compara a um "ônibus com seus passageiros" ou um "prédio com seus ocupantes". E nessa premonição de um mundo da morte de nações e culturas, o culpado não é o marxismo mas as democracias liberais e comerciais. Assim Schmitt oferece uma das críticas mais agudas e perspicazes do liberalismo, bem mais profunda e original do que as dos "anti-democratas" da velha direita reacionária.

Ele também continua a maneira "realista" de análise da política e do estado, na tradição de Bodin, Hobbes e Maquiavel. Igualmente removido do liberalismo e das teorias totalitárias modernas (bolchevismo e fascismo), a profundidade e a modernidade de suas opiniões o tornam o teórico jurídico constitucional e político contemporâneo mais importante. É por isso que podemos segui-lo, ao mesmo tempo é claro tentando ir além de suas análises, como seu discípulo francês Julien Freund, no ápice de suas capacidades, já fez.

A jornalidade intelectual do teórico jurídico do Reno começou com reflexões sobre Direito e política prática às quais ele devotou duas obras, em 1912 e 1914, ao fim de seus estudos acadêmicos em Estrasburgo. Após a guerra, tendo se tornado professor de Direito nas universidades de Berlim e Bonn, seus pensamentos focaram em ciência política. Schmitt, contra as filosofias liberais da Direita, se recusou a separá-la da política.

Seu primeiro trabalho de teoria política, Romantismo Político (1919), é devotado a uma crítica do romantismo político ao qual ele opõe o realismo. Para Schmitt, os ideais milenaristas dos comunistas revolucionários e os delírios völkisch dos reacionários pareciam igualmente inadequados ao governo do povo. Sua segunda grande obra teórica, A Ditadura (1921), constitui, como Julien Freund escreve, "um dos estudos mais completos e relevantes desse conceito, cuja história é analisada desde a época romana até Maquiavel e Marx".

Schmitt distingue "ditadura" de "tirania" opressiva. A ditadura aparece como um método de governo dirigido a confrontar emergências. Na tradição romana, a função do ditador era confrontar condições excepcionais. Mas Maquiavel introduz uma prática diferente; ele ajuda a visualizar "o Estado moderno", fundado no racionalismo, na tecnologia e no papel poderoso de um executivo complexo: esse executivo não mais depende do soberano singular.

Schmitt demonstra que com o jurista francês Jean Bodin, a ditadura assume a forma de uma "prática dos comissários" que emergiu nos séculos XVI e XVII. Os "comissários" são delegados onipotentes do poder central. O absolutismo monárquico, estabelecido sobre seus subordinados, como o modelo rousseauniano do contrato social que delega poder absoluto aos detentores da "vontade geral" implantada pela revolução francesa, constitui a fundação de formas contemporâneas de ditadura.

Desde esse ponto de vista, a ditadura moderna não está conectada com qualquer ideologia política particular. Contrariamente às análises dos constitucionalistas atuais, especialmente Maurice Duverger, a "democracia" não é mais livre de ditadura do que qualquer outra forma de poder estatal. Os democratas estão simplesmente se iludindo pensando que eles são imunes do recurso à ditadura e que eles reconciliam poder executivo real com pragmatismo e as transações dos sistemas parlamentares.

Em um estudo fundamental sobre parlamentarismo, A Crise da Democracia Parlamentar (1923), Schmitt pondera a identificação entre democracia e parlamentarismo. Para ele, a democracia parece ser um princípio ideológico e abstrato que mascara modalidades específicas de poder, uma posição próxima àquelas de Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca. O exercício de poder na "democracia" está sujeito a uma concepção racionalista do estado que justificava, por exemplo, a ideia da separação de poderes, o diálogo supostamente harmônico entre partidos, e pluralismo ideológico. É também a racionalidade da história que funda a ditadura do proletariado. Contra as correntes democráticas e parlamentares, Schmitt coloca as correntes "irracionalistas", particularmente Georges Sorel e sua teoria de violência, bem como todas as críticas não-marxistas da sociedade burguesa, por exemplo Max Weber.

Essa ideologia burguesa liberal engana a todos ao ver toda atividade política segundo as categorias da ética e da economia. Essa ilusão, ademais, é compartilhada por ideologias liberais ou socialistas marxistas: a função do poder público não é nada mais além de econômica e social. Valores espirituais, históricos e militares não são mais legítimos. Somente a economia é moral, o que torna possível validar o individualismo comercial e ao mesmo tempo invocar ideais humanos: a Bíblia e o negócio. Essa moralização da política não só destrói toda moralidade verdadeira, mas transforma a unidade política em uma "sociedade" neutralizada onde a função soberana não é mais capaz de defender o povo pelo qual ela é responsável.

Por contraste, a abordagem de Schmitt consiste em analisar o fenômeno político independentemente de todas as pressuposições morais. Como Maquiavel e Hobbes, com o qual ele é normalmente comparado, Schmitt renuncia a apelos aos belos sentimentos e à soteriologia dos fins. Sua filosofia é tão oposta à ideologia do Iluminismo (Locke, Hume, Montesquieu, Rousseau, etc.) e aos vários socialismos marxistas quanto ela é ao humanismo político cristão. Para ele, essas ideologias são utópicas em sua cautela em relação ao poder e tendem a esvaziar o político por sua identificação com o mal, mesmo que ele seja permitido temporariamente - como no caso do marxismo.

Mas a essência da crítica de Schmitt se remete ao liberalismo e ao humanismo, que ele acusa de falsidade e hipocrisia. Essas teorias veem a atividade do poder público como uma administração puramente de rotina dedicada a realizar a felicidade individual e a harmonia social. Elas são fundadas no desaparecimento final da política enquanto tal e no fim da história. Elas desejam tornar a vida coletiva puramente prosaica, mas conseguem somente criar selvas sociais dominadas pela exploração econômica e incapazes de dominar circunstâncias imprevistas.

Governos sujeitos a esse tipo de liberalismo estão são sempre frustrados em seus sonhos de transformar a política em administração pacífica: outros Estados, motivados por intenções hostis, ou fontes internas de subversão política, sempre emergem em momentos imprevistos. Quando um Estado, pelo idealismo ou por um moralismo equívoco, não mais situa sua vontade política soberana acima de todo o resto, preferindo ao invés a racionalidade econômica ou a defesa de ideais abstratos, ele também desiste de sua independência e de sua sobrevivência.

Schmitt não acredita no desaparecimento do político. Qualquer tipo de atividade pode assumir uma dimensão política. O político é um conceito fundamental de antropologia coletiva. Enquanto tal, a atividade política pode ser descrita como substancial, essencial, duradoura através do tempo. O Estado, por outro lado, desfruta somente de autoridade condicional, ou seja, uma forma contingente de soberania. Assim o Estado pode desaparecer ou ser despolitizado ao ser privado do político, mas o político - enquanto substancial - não desaparece.

O Estado não pode sobreviver a não ser que mantenha um monopólio político, ou seja, o poder exclusivo de definir os valores e ideais pelos quais os cidadãos concordarão em entregar suas vidas ou matar legalmente seus vizinhos - o poder de declarar guerra. De outro modo, partisans assumirão a atividade política e tentarão constituir uma nova legitimidade. Esse risco ameaça particularmente os Estados burocráticos das democracias sociais e liberais modernas nas quais a guerra civil só é impedida pela influência enervante da sociedade de consumo.

Essas ideias são expressadas em O Conceito do Político, a obra mais fundamental de Schmitt, publicada pela primeira vez em 1928, revisada em 1932, e esclarecida em 1963 por seu corolário Teoria do Partisan. A atividade política é definida ali como o produto de uma polarização ao redor de uma relação de hostilidade. Um dos critérios fundamentais de um ato político é sua habilidade de mobilizar uma população pela designação de seu inimigo, o que pode se aplicar a um partido bem como a um Estado. Omitir tal designação, particularmente por idealismo, é renunciar ao político. Assim a tarefa de um Estado sério é impedir que partisans tomem o poder de designar inimigos dentro da própria comunidade, ou mesmo como o próprio Estado.

Sob circunstância alguma pode a política ser baseada na administração de coisas ou renunciar sua dimensão polêmica. Toda soberania, como toda autoridade, é forçada a designar um inimigo de modo a ser bem sucedida em seus projetos; aqui as ideias de Schmitt encontram a pesquisas dos etologistas sobre comportamento humano inato, particularmente Konrad Lorenz.

Por causa de sua concepção "clássica" e maquiaveliana do político, Schmitt sofreu perseguição e ameaças sob os nazistas, para os quais o político era, ao contrário, a designação do "camarada" (Volksgenosse).

A definição schmittiana do político nos permite compreender que o debate político contemporâneo é despolitizado e conectado com shows eleitorais. O que é realmente político é o valor pelo qual se está disposto a sacrificar a própria vida; pode ser muito bem a própria língua ou cultura. Schmitt escreve nessa conexão que "um sistema de organização social dirigido somente para o progresso da civilização" não possui "um programa, ideal, padrão ou finalidade que pode conferir o direito de dispor da vida física de outros". A sociedade liberal, fundada no consumo de massa, não pode demandar que se mate ou morra por ela. Ela se apoia em uma forma apolítica de dominação: "É precisamente quando ela permanece apolítica", escreve Schmitt, "que a dominação de homens apoiada em uma base econômica, evitando qualquer aparência ou responsabilidade políticas, se prova uma impostura terrível".

O economismo liberal e o "pluralismo" mascaram a negligência do Estado, a dominação das castas comerciais, e a destruição de nações ancoradas em uma cultura e uma história. Junto a Sorel, Schmitt apela por uma forma de poder que não renuncia a seu exercício pleno, que demonstra sua autoridade política pelos meios normais que pertencem a ele: poder, restrição, e, em casos excepcionais, violência. Ao ignorar esses princípios a República de Weimar permitiu a ascensão de Hitler; o totalitarismo tecno-econômico do capitalismo moderno também se apoia na rejeição ideológica da ideia de poder estatal; esse totalitarismo é impossível de evitar porque ele é proclamado humano e é também baseado na ideia dupla de pluralismo social e individualismo, que põe as nações à mercê da dominação tecnocrática.

A crítica schmittiana do pluralismo interno concebido por Montesquieu, Locke, Laski, Cole e toda a escola liberal anglo-saxônica, objetiva defender a unidade política das nações, que é a única garantia de proteção cívica e das liberdades. O pluralismo interno leva à guerra civil latente ou aberta, à competição feroz de grupos de interesses econômicos e facções, e finalmente à reintrodução dentro da sociedade da distinção amigo-inimigo que os Estados europeus desde Bodin e Hobbes haviam deslocado para o exterior.

Tal sistema naturalmente apela à ideia de "Humanidade" para se livrar de unidades políticas. "A humanidade não é um conceito político", escreve Schmitt, que acrescenta:

"A ideia de Humanidade em doutrinas baseadas nas doutrinas liberais e individualistas de direito natural é uma construção social ideal de natureza universal, abarcando todos os homens sobre a terra...que não será realizada até que qualquer possibilidade genuína de combate seja eliminada, tornando qualquer agrupamento em termos de amigos e inimigos impossível. Essa sociedade universal não mais conhecerá nações... O conceito de humanidade é um instrumento ideológico particularmente útil para a expansão imperialista, e em sua forma ética e humana, ela é especificamente um veículo de imperialismo econômico... Um nome tão sublime implica certas consequências para aquele que o porta. De fato, falar em nome da Humanidade, invocá-la, monopolizá-la, demonstra uma pretensão chocante: negar a humanidade do inimigo, declará-lo fora do direito e fora da Humanidade, e assim finalmente empurrar a guerra aos extremos da desumanidade".

Definir a política em termos da categoria do inimigo, recusar o igualitarismo humanitário, não leva necessariamente ao desprezo pelo homem ou ao racismo. É bem o contrário. Reconhecer a dimensão polêmica das relações humanas e o homem como "um ser dinâmico e perigoso", garante o respeito por qualquer adversário concebido como o Outro cuja causa não é menos legítima que a nossa.

Essa ideia se repete usualmente no pensamento de Schmitt: as ideologias modernas que reivindicam verdade universal e consequentemente consideram o inimigo como absoluto, como um "desvalor absoluto", levam ao genocídio. Elas são, ademais, inspiradas pelo monoteísmo (e Schmitt é um pacifista cristão e um converso). Schmitt afirma com boas razões que a concepção europeia convencional que validava a existência do inimigo e admitia a legitimidade da guerra - não pela defesa de uma causa "justa", mas como uma eterna necessidade das relações humanas - causava menos guerras e induzia o respeito pelo inimigo considerado como adversário (como hostis e não inimicus).

Os seguidores de Schmitt, estendendo e refinando seu pensamento, cunharam junto a Rüdiger Altmann o conceito do Ernstfall (caso emergencial), que constitui outro critério fundamental do político. A soberania política e a credibilidade de uma nova autoridade política é baseada na capacidade de encarar e solucionar casos de emergência. As ideologias políticas dominantes, profundamente fincadas no hedonismo e no desejo por segurança, querem ignorar a emergência, o golpe do destino, o imprevisto. A política digna do nome - e essa ideia pulveriza as categorias ideológicas abstratas de "direita" e "esquerda" - é aquela que, secretamente, responde ao desafio do caso de emergência, salva a comunidade de atribulações e tempestades imprevistas, e assim autoriza a mobilização total do povo e uma intensificação de seus valores.

Concepções liberais de política veem o Ernstfall meramente como a exceção e a "normalidade legal" como a regra. Essa visão das coisas, inspirada pela filosofia teleológica da história de Hegel, corresponde à dominação da burguesia, que prefere segurança a dinamismo histórico e ao destino do povo. Ao contrário, segundo Schmitt, a função do soberano é sua capacidade de decidir o estado de exceção, que de modo algum constitui uma anomalia, mas sim uma permanente possibilidade. Esse aspecto do pensamento de Schmitt reflete suas inspirações primariamente francesas e espanholas (Bonald, Donoso Cortès, Bodin, Maistre, etc.) e torna possível localizá-lo, junto com Maquiavel, na grande tradição latina da ciência política.

Em Legalidade e Legitimidade, Schmitt, como discípulo de Hobbes, sugere que a legitimidade precede o conceito abstrato de legalidade. Um poder é legítimo se ele pode proteger a comunidade sob seus cuidados pela força. Schmitt acusa a concepção idealista e "jurídica" de legalidade por autorizar Hitler a chegar ao poder. O legalismo tende à renúncia do poder, que Schmitt chama de "política da não-política" (Politik des Unpolitischen), a política que não atende a suas responsabilidades, que não formula uma escolha em relação ao destino coletivo. "Aquele que não possui o poder de proteger ninguém", escreve Schmitt em O Conceito do Político, "também não possui o direito de demandar obediência. E inversamente, aquele que busca e aceita o poder não possui o direito de recusar obediência".

Essa dialética de poder e obediência é negada pelo dualismo social, que arbitrariamente opõe sociedade e a função soberana e imagina, contrariamente a toda experiência, que exploração e dominação são os efeitos políticos do "poder" enquanto eles emergem muito mais normalmente da dependência econômica.

Assim Schmitt elabora uma crítica do Estado dualista do século XIX com base nas concepções de John Locke e Montesquieu objetivando a uma separação entre a esfera do Estado e a esfera privada. De fato, as tecnocracias modernas, historicamente resultando das instituições de representação parlamentar, experimentam interpenetrações e oposições entre o privado e o público, como demonstrado por Jürgen Habermas. Tal situação desestabiliza o indivíduo e enfraquece o Estado.

Segundo Schmitt, é a fraqueza das democracias que permitiu o estabelecimento de regimes unipartidários, como ele explica em Estado, Movimento, Povo. Esse tipo de regime constitui a revolução institucional do século XX; de fato, ele é hoje o regime mais difundido no mundo. Somente a Europa Ocidental e a América do Norte preservaram a estrutura pluralista da democracia tradicional, mas meramente como ficção, já que o poder verdadeiro é econômico e técnico.

O Estado unipartidário tenta reconstituir a unidade política da nação, segundo uma estrutura tríplice: o Estado inclui funcionários públicos e as forças armadas; o povo não é uma população estatística mas uma entidade que é politizada e fortemente organizada em instituições intermediárias; o partido coloca esse mecanismo em movimento e constitui um portal de comunicação entre o Estado e o Povo.

Schmitt, que retorna de novo e de novo ao nazismo, ao stalinismo, às teocracias e aos totalitarismos humanitários, obviamente não endossa o Estado unipartidário. Ele não defende qualquer "regime" específico. Na velha tradição realista latina herdada de Roma, Schmitt quer um executivo que seja tanto poderoso como legítimo, que não "ideologize" o inimigo e possa, em casos reais fazer uso da força, que possa fazer do Estado a "auto-organização da sociedade".

A guerra assim se torna um tema da teoria política. Schmitt está interessado na geopolítico como extensão natural da política. Para ele, a verdadeira política, a grande política, é a política externa, que culmina na diplomacia. Em O Nomos da Terra (1951), ele demonstra que o Estado segue a concepção europeia de política desde o século XVI. Mas a Europa se tornou decadente: o Estado burocrático foi despolitizado e não mais permite a preservação da história do povo europeu; o ius publicum europaeum que decidia as relações interestatais está declinando em favor de ideologias globalistas e pacifistas que são incapazes de fundar um direito internacional eficaz. A ideologia dos direitos humanos e o suposto humanitarismo das instituições internacionais estão paradoxalmente preparando um mundo no qual a força vem antes do direito. Inversamente, uma concepção realista das relações entre Estados, que permite e normaliza o conflito, que reconhece a legitimidade da vontade de poder, tende a civilizar a relação entre nações.

Schmitt é, junto com Mao Tsé-tung, o maior teórico moderno da guerra revolucionário e da figura enigmática do guerrilheiro que, nessa era de despolitização dos Estados, assume a responsabilidade do político, "ilegalmente" designa seus inimigos, e de fato nubla a distinção entre guerra e paz.

Tal "falso pacifismo" é parte de um mundo em que autoridades políticas e soberanias independentes são apagadas por uma civilização mundial mais alienadora que qualquer tirania. Schmitt, que influenciou a constituição da Quinta República Francesa - a constituição francesa que é a mais inteligente, mais política, e a menos inspirada pelo idealismo do Iluminismo - nos dá essa mensagem: liberdade, humanidade, paz são somente quimeras que levam a opressões invisíveis. As únicas liberdades que contam - seja de nações ou indivíduos - são aquelas garantidas pela força legítima de uma autoridade política que cria lei e ordem.

Carl Schmitt não define os valores que mobilizam o político e legitimam a designação do inimigo. Esses valores não devem ser definidos por ideologias - sempre abstratas e portões para o totalitarismo - mas por mitologias. Nesse sentido, o funcionamento do governo, o puramente político, não é suficiente. É necessário acrescentar a dimensão "religiosa" da primeira função, como definida na tripartição indo-europeia. Nos parece que é assim que se deve completar a teoria política de Schmitt. Porque se Schmitt constrói uma ponte entre antropologia e política, ainda é necessário construir outra entre política e história.


segunda-feira, 5 de março de 2012

Desafios Pós-Modernos: Entre Fausto E Narciso

por Robert Steuckers



Nos termos de Oswald Spengler, nossa cultura Europeia é o produto de uma “pseudomorfose, isto é, do acréscimo de mentalidade estrangeira sobre nossa nativa, original e inata mentalidade. Spengler chama a mentalidade inata de “a Faustiana”.

O Confronto entre a mentalidade Inata e a Adquirida

A mentalidade estrangeira é teocêntrica, a “mágica” perspectiva nascida no Oriente Próximo. Para a mentalidade “mágica”, o ego se curva respeitosamente perante a substância divina, como um escravo diante de seu senhor. No âmbito desta religiosidade, o indivíduo deixa-se guiar pela força divina que ele absorve através do batismo ou iniciação.

Não há nada comparável ao antigo espírito Faustiano europeu, diz Spengler. O Homo europeanus, apesar do verniz mágico / Cristão cobrindo o nosso pensamento, tem uma religiosidade voluntarista e antropocêntrica. Para nós, o bom é não permitir-se guiar passivamente por Deus, mas sim, reconhecer e realizar a nossa própria vontade. "Para ser capaz de escolher", esta é a base fundamental da religiosidade nativa Europeia. No cristianismo medieval, esta religiosidade voluntarista aparece, perfurando a crosta do “magismo" importado do Oriente Médio.

Por volta do ano 1000, este voluntarismo dinâmico aparece gradualmente na arte e em épicos literários, juntamente com uma sensação de espaço infinito dentro do qual o auto de Fausto seria, e pode, se expandir. Assim, para o conceito de um espaço fechado, no qual o eu se encontra bloqueado, se opõe o conceito de um espaço infinito, no qual um aventureiro graceja por diante.

Do Mundo "Fechado" ao Universo Infinito

De acordo com o filósofo americano Nelson Benjamin, o velho sentido helênico de physis (natureza), com todo o dinamismo que isso implica, triunfou no final do século 13, graças ao averroísmo, que transmitiu a sabedoria empírica dos gregos (e de Aristóteles, em particular) para o Ocidente. Aos poucos, a Europa passou do "mundo fechado" para o universo infinito. Empirismo e nominalismo suplantou uma escolástica que havia sido inteiramente discursiva, auto-referencial e auto-fechado (self-enclosed). O Renascimento, seguindo Copérnico e Bruno (o trágico mártir do Campo dei Fiori), renunciou o geocentrismo, tornando-o seguro para proclamar que o universo é infinito, uma intuição essencialmente faustiana de acordo com os critérios de Spengler.


No segundo volume da História do Pensamento Ocidental, Jean-François Revel, que anteriormente oficiou no Ponto e, infelizmente, ilustrou a ideologia ocidentalista Americanocêntrica, escreve bastante pertinente: "É fácil entender que a eternidade o infinito do universo anunciada por Bruno poderia ter tido, sobre os homens cultos da época, o efeito traumatizante da passagem da vida no útero para o projeto vasto e cruel de um vortex frígido e sem limites”.

O medo "mágico", a angústia causada pelo colapso da certeza reconfortante do geocentrismo, causou a morte cruel de Bruno, que se tornaria, no total, uma apoteose terrível. . . Nada poderia refutar o heliocentrismo, ou a teoria da infinitude dos espaços siderais. Pascal dizia, em resignação, com o acento de arrependimento: "O silêncio eterno desses espaços infinitos me assusta."

Do Logos Teocrático à Razão Fixa

Para substituir o pensamento mágico de "logos teocrático," o crescente e triunfante pensamento burguês, seria elaborado um pensamento centrado na razão, uma razão abstrata perante a qual é necessário se curvar, como as pessoas do Oriente Próximo se curvam diante de seu deus. O aluno "burguês" desta “razão mesquinha", virtuoso e calculista, ansiosos para suprimir os impulsos de sua alma ou do seu espírito, encontra assim uma finitude confortável, um espaço fechado e seguro. O racionalismo deste tipo virtuoso humano não é o aventureiro, audacioso, ascético e criativo descrito por Max Weber, o qual educa o homem interior, precisamente para enfrentar a infinitude afirmada por Giordano Bruno. 

A partir do final da Renascença, Duas Modernidades são justapostas

O racionalismo mesquinho denunciado por Sombart domina as cidades por rigidificarem o pensamento político, restringindo construtivos impulsos ativistas. O genuíno racionalismo Faustiano e conquistador descrito por Max Weber, impulsionaria a humanidade europeia para fora dos seus limites territoriais iniciais, dando o impulso principal para todas as ciências do concreto.

A partir do final da Renascença, assim descobrimos, por um lado, uma modernidade rígida e moralista, sem vitalidade, e, por outro lado, uma modernidade aventureira, conquistadora e criativa, assim como estamos hoje no limiar de uma pós-modernidade suave ou de uma pós-modernidade vibrante, auto-confiante e potencialmente inovadora. Ao reconhecer a ambiguidade dos termos "racionalismo", "racionalidade", "modernidade" e "pós-modernidade", entramos em um nível de domínio das ideologias políticas, até mesmo um militante Weltanschauungen.

A racionalização saturada com arrogância moral descrita por Sombart em seu famoso retrato do "burguês", gera os messianismos moles e sentimentais das grandes narrativas tranquilizantes das ideologias contemporâneas. A racionalização conquistadora descrita por Max Weber provoca as grandes descobertas científicas e o espírito metódico, o refinamento engenhoso da conduta de vida e crescente domínio do mundo externo.

Esta racionalização conquistadora também tem seu lado negativo: Desencanta, drena e esquematiza excessivamente o mundo. Embora especializados em um ou outro domínio da tecnologia, a ciência, ou o espírito, sendo totalmente investidos ali, os "Faustianos" da Europa e América do Norte muitas vezes levam a um nivelamento de valores, um relativismo que tende a mediocridade porque nos faz perder o sentimento do sublime, da mística telúrica, e isola cada vez mais os indivíduos. No nosso século, a racionalidade elogiada por Weber, se positiva no início, entrou em colapso com um americanismo quantitativista e mecanizado que instintivamente levou como forma de compensação, para o suplemento espiritual do charlatanismo religioso combinando o proselitismo mais delirante e a religiosidade lamurienta.

Esse é o destino do "faustinianismo" quando cortado dos seus fundamentos míticos, das suas mais antigas memórias, de seu solo mais profundo e fértil. Este rompimento é sem dúvida o resultado da pseudomorfose, o enxerto "mágico" no tronco Fausto / europeu, um enxerto que falhou. O "Magismo" não poderia imobilizar a unidade perpétua Faustiana; para isso, deve-se - e isso é mais perigoso – cortá-la de seus mitos e de sua memória, condená-la a esterilidade e dessecação, como observado por Valéry, Rilke, Duhamel, Céline, Drieu, Morand , Maurois, Heidegger, ou Abellio.

Racionalidade Conquistadora, Racionalidade Moralizante, Dialética do Iluminismo, as "Grandes Narrativas" de Lyotard

A racionalidade conquistadora, se arrancada de seus mitos fundadores, da sua base étnico-identitária, da sua matriz indo-europeia, cai - depois de ataques impetuosos, inertes, vazios - nas armadilhas de um racionalismo mesquinho e na ideologia imatura das "grandes narrativas" do racionalismo e do fim da ideologia. Para Jean-François Lyotard, a "modernidade" na Europa é essencialmente a "Grande Narrativa" do Iluminismo, na qual os heróis do conhecimento trabalham pacificamente e moralmente para alcançarem um final ético-político feliz: a paz universal, onde não haveria nenhum antagonismo. A "modernidade" de Lyotard corresponde à famosa "Dialética do Iluminismo" de Horkheimer e Adorno, os líderes da famosa "Escola de Frankfurt". Na visão deles, a ação do político ou o trabalho do homem de ciência, deve ser submetido a uma razão racional, um corpo ético, uma autoridade moral fixa e imutável, a uma catequese que retarda a sua unidade, que limita o seu ardor Faustiano. Para Lyotard, o fim da modernidade, portanto, o advento da "pós-modernidade", é a incredulidade - progressiva, astuta, fatalista, irônica, zombeteira - em relação a esta metanarrativa.

Incredulidade também significa um possível retorno do dionisíaco, o irracional, o carnal, o turvo, e áreas desconcertantes da alma humana reveladas por Bataille ou Caillois, tal como previsto e esperado pelo professor Maffesoli, da Universidade de Estrasburgo, e pelo alemão Bergfleth, um jovem filósofo não-conformista; ou seja, é possível que vejamos um retorno do espírito fáustico, um espírito comparável com o qual nos legou o gótico ardente, de uma racionalidade conquistadora que tem sido reconectada com a velha e dinâmica mitologia européia, como Guillaume Faye explica em Europa e Modernidade.



 A Metanarrativa Encistada. . .

Uma vez que a metanarrativa Iluminista foi estabelecida - "encistada"- na mente ocidental, as grandes ideologias seculares progressivamente apareceram: o liberalismo, com sua idolatria da "mão invisível", e do Marxismo, com seu forte determinismo e metafísica da história, contestada no alvorecer do século 20 por Georges Sorel, a figura mais sublime do socialismo militante europeu. Após Giorgio Locchi, quem ocasionalmente chama a metanarrativa de "ideologia" ou "ciência" - pensamos que este complexo "metanarrativa / ideologia / ciência” não há mais regras por consenso, mas por constrangimento, na medida em que há uma resistência muda (especialmente na arte e na música) ou um desuso geral da metanarrativa como uma das ferramentas de legitimação.

A metanarrativa liberal-iluminista persiste por golpe de força e propaganda. Mas na esfera do pensamento, poesia, música, arte, ou letras, esta metanarrativa não diz e nem inspira nada. Ela não impulsionou uma grande mente por 100 ou 150 anos. Já no final do século 19, o modernismo literário expressou uma diversidade de línguas, uma heterogeneidade de elementos, uma espécie de caos desordenado que o "fisiologista" Nietzsche analisou e que Hugo von Hoffmannstahl chamou de “die Welt der Bezuge” (o mundo das relações).

Estas inter-relações e sobredeterminações onipresentes nos mostram que o mundo não é explicado por uma história simples, limpa e arrumada, nem submete-se à regra de uma autoridade moral desencarnada. Melhor: eles nos mostram que as nossas cidades, nosso povo, não podem expressar todas as suas potencialidades vitais no âmbito de uma ideologia determinada e instituída uma vez para tudo e para todos, nem podemos indefinidamente preservar a instituições resultantes (o corpo doutrinário derivado da "metanarrativa do Iluminismo ").

A presença anacrônica da metanarrativa constitui um freio sobre o desenvolvimento do nosso continente em todas as áreas: ciência (informática e biotecnologia), economia (o apoio dos dogmas liberais dentro da CEE), militares (o fetichismo de um mundo bipolar e servilismo em relação aos Estados Unidos, paradoxalmente um inimigo econômica), cultural (a mídia concussiva afavor de um cosmopolitismo que elimina a especificidade Faustiana e visa o advento de uma grande aldeia de convívio global, executa os princípios da "sociedade fria" à maneira dos queridos Bororos para Lévi-Strauss).

A Rejeição do Neo-Ruralismo, Neo Pastoralismo...

A desordem confusa do modernismo literário no final do século 19 teve um aspecto positivo: o seu papel era para ser o magma que, gradualmente, torna-se o criador de uma nova luta Faustiana. É Weimar a arena do criativo e fértil confronto do expressionismo, neo-marxismo, e a "revolução conservadora" - que nos legou, com Ernst Jünger, uma idéia de modernidade "pós-metanarrativa" (ou pós-modernidade, se chama "modernidade" da Dialética do Iluminismo, posteriormente teorizada pela Escola de Frankfurt). O modernismo, com a confusão que inaugurou, devido ao progressivo abandono da pseudo-ciência do Iluminismo, corresponde um pouco com o niilismo observado por Nietzsche. Niilismo deve ser superado, ultrapassado, mas não por um retorno sentimental, então negado, por um passado completo. O niilismo não é superado pela Wagnerismo teatral, fulminado por Nietzsche, tal como hoje o naufrágio da "Grande Narrativa" marxista não é superado por um pseudo-rústica neoprimitivismo.

Em Jünger- o Jünger do Tempestades de Aço, O Trabalhador, e Eumeswil – não se encontra referência alguma sobre o misticismo do solo: apenas uma admiração sóbria pela perenidade do camponês, indiferente a perturbações históricas. Jünger nos diz da necessidade de equilíbrio: se houver uma recusa total do rural, do solo, da dimensão estabilizadora da Heimat, o futurismo construtivista Faustiano já não terá uma base, um ponto de partida, uma opção reserva. Por outro lado, se é dada muita ênfase na base inicial, no ponto de lançamento, sobre o nicho ecológico que dá origem ao povo Faustiano, então eles estão envoltos em um casulo e privados de influência universal, prestados cegos para a chamada do mundo, impedidos de saltarem para a realidade em toda sua plenitude, o "exótico" incluído. O regresso tímido à pátria priva o faustinianismo de sua força de difusão e relega seus "vasos humanos" para o nível dos "eternos camponeses a-históricos" descrito por Spengler e Eliade. O equilíbrio consiste em desenhar internamente (a partir das profundezas do solo original) e difundir externamente(em relação ao mundo exterior).

Apesar de toda nostalgia para o "orgânico", rural, ou pastoral –apesar do sereno, idílico e da beleza estética que recomendam Horace ou Virgil - Tecnologia e Trabalho são a partir de agora as essências do nosso mundo pós-niilista. Nada escapa por muito tempo da tecnologia, tecnicidade, mecânica, ou da máquina: nem o camponês que ara com o seu tractor, nem o padre que conecta um microfone para dar mais impacto para sua homilia.


A Era da “Tecnologia”

A tecnologia mobiliza totalmente (Total Mobilmachung) e impulsiona o indivíduo para uma infinitude inquietante, em que nós não somos nada mais que engrenagens intercambiáveis. A metralhadora, nota o guerreiro Jünger, dizima o bravo e o covarde com uma igualdade perfeita, como no total material de guerra inaugurado em 1917 em batalhas de tanques da Frente francesa. O “Ego” Faustiano perde sua introversão e se afoga em um vórtice incessante de atividade. Este Ego, tendo modelado o rendilhado de pedra e pináculos do Gótico exuberante, caiu no quantitativismo Americano, ou, confuso e hesitante, adotou as inundações de informações do século XX, sua avalanche de fatos concretos. Isso foi nosso niilismo, nossa indecisão congelada, devido à um subjetivismo exacerbado, que nos mira na bagunça enlameada dos fatos.

 Cruzando a “linha”, como Heidegger e Jünger dizem, a mônada Faustiana (sobre o quê Leibniz falou) cancela seu subjetivismo e encontra o puro poder, puro dinamismo, no universo da Tecnologia. Com a chegada Jüngeriana, o círculo é fechado de novo: como o universo fechado da “magia” foi substituído pelo pequeno e não-autêntico mundo da burguesia – sedentário, tímido, embalsamado na esfera utilitária – assim o dinâmico “Faustiano” universo é substituído com uma arena Tecnológica, despojando esse tempo de subjetivismo.

A Tecnologia Jüngeriana varre a falsa modernidade da metanarrativa Iluminada, a hesitação modernismo literário do fim do século XIX, e a trompe l’oeil do wagnerismo e do neopastoralismo. Mas essa modernidade Jüngeriana, perpetuamente mal entendida desde a publicação do Der Arbeiter (O Trabalhador) em 1932, permanece como uma escritura morta.

O Babbitt com o paradoxo Sartreano

Em 1945, o tom do debate tecnológico foi estabelecido pelas ideologias vitoriosas. Nóspoderíamos escolher o liberalismo Americano (a ideologia do Sr. Babbitt) ou o Marxismo, uma alegada versão burguesa da metanarrativa. A Grande Narrativa assumiu responsabilidade, caçou qualquer filósofo ou movimento “irracionalista”, manteve uma polícia do pensamento, e, finalmente, brandindo o bicho-papão do feroz barbarismo, inaugurou uma área completamente vazia.

Sartre e seu elegante existencialismo parisiense deve ser analisado na luz da sua restauração. Sartre, crente no seu “ateísmo”, sua recusa em privilegiar um valor, não acreditou nas fundações do liberalismo ou Marxismo. Por fim, ele não estabeleceu a metanarrativa (na sua versão mais recente, o Marxismo vulgar dos partidos Comunistas) como uma verdade, mas como um “inevitável” imperativo categórico, pelo qual se deve militar caso não se quer ser um “bastardo”, i.e., um desses desprezíveis seres que veneram “ordens petrificadas” Isso é o paradoxo por inteiro do sartreanismo: por um lado, nos estimula não adorar “ordens petrificadas”, o quê é propriamente faustiano, e, por outro lado, nos determina “magicamente” a adorar uma “ordem petrificada” do Marxismo vulgar, já derrubada por Sombart e De Man. Portanto, pelos anos cinqüenta, a idade dourada do sartreanismo, o consenso é de fato um constrangimento, uma obrigação ditada pelo pensamento cada vez mais midiatizado. Mas um consenso alcançado pelo consentimento, pela obrigação de acreditar sem discussão, não é um consenso eterno. Por isso, o contemporâneo esquecimento do sartreanismo, com seus excessos e exageros.

O Anti-Humanismo Revolucionário de Maio de 1968

Com o Maio de 68, o fenômeno de uma geração, “humanismo”, o atual rótulo da metanarrativa, foi agredido e destruído pelaas interpretações francesas de Nietzsche, Marx e Heidegger. No sulco da revolta estudantil, acadêmicos e popularizadores tanto proclamaram o humanismo uma ilusão “petite-bourgeois”. Contra o Ocidente, o navio geopolítico da metanarrativa Iluminista, os rebeldes de 68 alçados a montagem das barricadas, tomando lados, algumas vezes com um ingênuo romantismo, em toda luta dos anos 70: Vietnã espartana contra o imperialismo americano, guerrilhas latino-americanas (“Ché”), o separatismo basco, o patriotismo irlandês, ou os palestinos.

A irritabilidade faustiana, incapacitada de ser expressada por modelos autóctones, foi transposta para uma exótica: Ásia, Arábia, África, ou Índia. O Maio de 68, em si mesmo, pela sua fixação resoluta na Grande Política, pelo seu ethos de guerrilha, pela sua opção de luta, apesar de tudo tomou uma dimensão muito mais importante que os bloqueios tensos do sartreanismo ou a grande regressão do contemporâneo neo-liberalismo. Na direita, Jean Cau, escrevendo seu maravilhoso livro sobre Che Guevara, entendeu essa questão perfeitamente, considerando que a direita, a qual é fixada em seus dogmas e memórias da esquerda, não queria ver.

Com a geração de 68 – combativa e politizada, consciente das grandes questões geopolíticas e econômicas do planeta – os último fogos históricos queimaram no espírito público francês antes do grande surgimento da pós-história e pós-política representadas pelo narcisismo do neoliberalismo contemporâneo.

A tradução dos escritos da “Escola de Frankfurt” anunciam o Advento do Neo-Liberalismo Narcisista

A primeira fase do ataque neo-liberal contra o anti-humanismo político do Maio de 68 foi a redescoberta dos escritos da Escola de Frankfurt: nascida na Alemanha, antes da chegada do Nacional Socialismo, amadureceu durante o exílio da California de Adorno, Horkheimer, e Marcuse, e estabeleceu-se como um objeto de veneração na Alemanha Ocidental do pós-guerra. Em Dialektik der Aufklärung, um pequeno e conciso livro que é fundamental para entender a dinâmica do nosso tempo, Horkheimer e Adorno clamam que há duas “razões” no pensamento Ocidental que, no sulco de Spengler e Sombart, somos tentados a nomear “razão faustiana” e “razão mágica”. O molde, para os dois antigos exílios na Califórnia, é o pólo negativo da “razão complexa” na civilização Ocidental: essa razão é puramente “instrumental”; é usada para acrescentar o poder pessoal daqueles que utilizam. É razão científica, a razão que doma as forças do universo e coloca nas mãos de um líder ou de um povo, um partido ou um Estado. Com isso, de acordo com Herbert Marcuse, é de Prometeu, não Narcisista/órfico. Para Horkheimer, Adorno, e Marcuse, esse é o tipo de racionalidade que Max Weber teorizou.

Por outro lado, a “razão mágica”, de acordo com a terminologia genealógica de Spengler, é, amplamente falada, a razão da metanarrativa de Lyotard. É uma autoridade moral que dita uma conduta ética, alérgica à uma expressão de poder, e assim a qualquer manifestação da essência da política. Na França, a redescoberta da teoria da razão de Horkheimer-Adorno próximo do fim dos anos 1970 inaugurou a era da despolitização, a qual, substituindo disconexão generalizada por história concreta e tangível, deu-se para a “era do vazio” descrita tão bem pelo professor de Grenoble Gilles Lipovetsky. Segundo a efervescência militante do Maio de 68, chegou uma geração a qual atitudes mentais são caracterizadas justamente por Lipovetsky como apatia, indiferença (também para a metanarrativa na sua forma crua), abandono (dos partidos políticos, especialmente do Partido Comunista), dessindicalização, narcisismo, etc. Para Lipovetsky, essa resignação e abdicação generalizada constitui uma oportunidade de ouro. Essa é a garantia, ele fala, que a violência irá recuar, portanto nenhuma “totalitarismo”, vermelho, preto, ou marrom, será possível de ganhar poder. Essa fácil mudança fisiológica, unida à uma indiferença narcisista, constitui a idade “pós-moderna”.

Há Várias Definições Possíveis de “Pós-Modernidade”

Por outro lado, se nós compreendemos – contrário ao costume de Lipovetsky – “modernidade” ou “modernismo” como expressões da metanarrativa, assim como quebra a energia faustiana, a pós-modernidade irá necessariamente ser um retorno para a política, uma rejeição de criacionismo para-normal e suspeita anti-política que emergiu depois do Maio de 68, no sulco de especulações na “razão instrumental” e “razão objetiva” descritas por Horkheimer e Adorno.

A complexidade da situação “pós-moderna” fez ser impossível dar uma única definição de “pós-modernidade” que possa ser exclusiva. No limiar do século XXI, várias pós-modernidades se tornam incultas, lado a lado, diversos modelos sociais pós-modernos potenciais, cada uma com base em valores fundamentalmente antagônicos, preparados para o confronto. Essas pós-modernidades diferem – na linguagem ou no seu ‘estilo’ – das ideologias que as procedem; elas são, não obstante, unidas com os eternos, antiqüíssimos, valores que permanecem sobre elas. Conforme a política entra na esfera histórica pelas confrontações binárias, confrontos de clãs opostos e a exclusão das minorias, ousam evocar a dicotomia possível do futuro: uma pós-modernidade neo-liberal Ocidental Americana contra uma brilhante pós-modernidade faustiana e nietzscheana.

A “Geração da Moral” & a “Era do Vazio”

Essa pós-modernidade neo-liberal foi triunfantemente proclamada, com delírio messiânico, por Laurent Joffrin em sua imposição da revolta dos estudantes de Dezembro de 1986 (Un coup de jeune [Um golpe da Juventude], Arlea, 1987). Para Joffrin, quem previu a morte da extrema esquerda, do proletarianismo militante, o Dezembro de 86 é o precursor de uma “geração da moral”, combinada em uma mentalidade levemente de esquerda, coletivismo de preguiça cultural, e egoísmo neo-liberal, narcisista, e pós-político: o modelo social dessa sociedade hedonista centrada na praxis comercial, que Lipovetsky descreveu como a Era do Vácuo. Um vazio político, um vazio intelectual, e um deserto pós-histórico: essas são as características do espaço bloqueado, o horizonte fechado característico do neo-liberalismo contemporâneo. A pós-modernidade constitui um impedimento preocupante para a grande Europa que deve emergir assim que tenhamos um futuro viável e preso a lenta decadência anunciada pelo desemprego massivo e pelas demografias declinantes que espalham devastação sob a luz abatida das ilusões consumistas, a grande mentira dos anunciantes, e os sinais de néon que louvam os méritos de uma fotocopiadora japonesa ou de uma linha aérea americana.

Por outro lado, a pós-modernidade que rejeita e velha metanarrativa anti-política do Iluminismo, com suas metamorfoses e metástases; que afirma a audácia de um Nietzsche ou de um ideal metálica de um Jünger; que cruza a “linha”, como Heidegger estimula, deixando para trás o dandismo estéril de tempos niilístas; a pós-modernidade que reune o aventuroso, para um programa político ousado concretamente implica a rejeição dos blocos de poder existentes, a construção de uma economia autárquica e Eurocêntrica, enquanto luta selvagemente e sem concessões contra todos estilos antigos de religiões e ideologias, desenvolvendo o eixo principal de uma diplomacia independente de Washington; a pós-modernidade que carregará voluntariamente seu programa e negar as negações da pós-história – essa pós-modernidade terá nossa total adesão.

 Nesse breve ensaio, eu gostaria de provar que há uma continuidade na confrontação das mentalidades “faustiana” e “mágica”, e que essa continuidade antagônica é refletida no debate decorrente da pós-modernidade. O Ocidente centro-americano é o realce do “magismo”, com o seu cosmopolitismo e facções autoritárias. A Europa, a herdeira do faustianismo muito abusado pelo pensamento “mágico”, reafirmar-se-á a si mesma com uma pós-modernidade que recapitulará os temas inexpressivos, recorrentes mas sempre novos, do intrínseco faustianismo para a alma Européia.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Moeller e Dostoievski

Por Robert Steuckers


Moeller van den Bruck foi o primeiro tradutor alemão de Dostoievski. Deixou-se influenciar profundamente pelos diários de Dostoievski, tão repletos de severas criticas ao Ocidente. No contexto alemão depois de 1918, Moeller van den Bruck advogava, com argumentos de Dostoievski, por uma aliança Russo-germânica contra o Oeste. Como poderiam os respeitáveis cavalheiros alemães, com uma imensa cultura artística, mostrarem-se a favor de uma aliança com os bolcheviques? Seus argumentos foram os seguintes: durante toda a tradição diplomática do século XIX, a Rússia foi considerada o escudo da reação contra todas as repercussões da Revolução Francesa e contra a mentalidade e os modos revolucionários. Dostoievski, um antigo revolucionário russo, que mais tarde admitiu que sua opção revolucionária tinha sido um erro, considerava, mais ou menos, que a missão da Rússia no mundo era a de apagar na Europa os rastros das idéias de 1789. Para Moeller van den Bruck, a Revolução de Outubro de 1917 foi somente uma mudança de roupagens ideológicas: a Rússia continuava sendo, a despeito do discurso bolchevique, o antídoto à mentalidade liberal do Ocidente. Derrotada, a Alemanha deveria aliar-se a esta fortaleza anti-revolucionária para opor-se ao Ocidente que, aos olhos de Moeller van den Bruck, é a encarnação do liberalismo. O liberalismo, expressa Moeller van den Bruck, é sempre a enfermidade terminal dos povos. Depois de algumas décadas de liberalismo, um povo entrará inexoravelmente em uma fase de decadência final.

Em um âmbito limitado à ND [nova direita] francesa, o redescobrimento do fator “Rússia” e sua valorização positiva desenvolveu-se em várias etapas. Ao final dos anos 70, Alain de Benoist lê uma tradução não publicada de uma obra consagrada à personalidade e a obra de um precursor e fundador da corrente revolucionária-conservadora alemã, Arthur Moeller van den Bruck. Um professor reputado havia redigido a obra: o alemão Schwierskott. Um militante desconhecido havia realizado uma tradução deste livro para o responsável da ND parisiense. Moeller van den Bruck, como se sabe, havia apostado por uma aliança Germano-soviética após Versalles para reduzir ao nada os obstáculos impostos a Alemanha por Clemenceau e Wilson. Extraía seus argumentos do “Diário de um escritor” de Dostoievski, cuja tradução alemã havia realizado. Dostoievski, ao analisar o conflito e os resultados da Guerra da Criméia, havia demonstrado a hostilidade fundamental do Ocidente, orquestrada pela Inglaterra contra a Rússia, que pretendia conter-la sobre as costas setentrionais do Mar Negro. O liberalismo, ideologia de países ricos, não era mais do que uma perigosa subversão para os países que ainda não haviam se desenvolvido, ou que haviam conhecido uma derrota histórica. Moeller van den Bruck fazia diretamente um paralelo com a Alemanha de Weimar.

domingo, 29 de maio de 2011

Robert Steuckers - Sobre a Revolução Conservadora

por Robert Steuckers


Quando o termo Revolução Conservadora é usado na Europa é sobretudo no sentido que lhe deu Armin Mohler no seu famoso livro Die Konservative Revolution in Deutschland 1918-1932. Mohler apresentou uma longa lista de autores que rejeitaram os pseudo-valores de 1789 (desprezados por Edmund Burke como meros blue prints), exaltaram o papel do «germanismo» na evolução do pensamento europeu e recolheram a influência de Nietzsche. Mohler evitou, por exemplo, conservadores puramente religiosos, fossem católicos ou protestantes. Para Mohler a marca essencial da «Revolução Conservadora» era uma visão não linear da História. Mas ele não toma simplesmente a visão cíclica do tradicionalismo. Depois de Nietzsche, Mohler acredita numa concepção esférica da História. O que significa isto? Isto significa que a História não é simplesmente uma repetição dos mesmos padrões com intervalos regulares nem um caminho reto que conduza à bem-aventurança, ao fim da História, ao paraíso na terra, à felicidade, etc., mas que se assemelha a uma esfera que pode girar (ou ser empurrada) em todas as direções, de acordo com os impulsos que receba de fortes personalidades carismáticas. Tais personalidades carismáticas dirigem o curso da História através de algumas vias muito particulares, vias que não estão previamente fixadas pela mão da providência. Neste sentido, Mohler nunca acreditou em doutrinas políticas universalistas mas sempre em tendências particulares e pessoais. Tal como Jünger, queria lutar contra tudo o que fosse «geral» e apoiar tudo o que fosse particular. Mais, Mohler expressou a sua visão das dinâmicas particulares usando o algo invulgar termo nominalismo. Para ele, nominalismo era a expressão que melhor indicaria como as personalidades fortes seriam capazes de abrir novas e originais vias para si e seus seguidores na floresta da existência.

As principais figuras do movimento foram Spengler, Moeller van den Bruck e Ernst Jünger (e o seu irmão, Friedrich-Georg). Podemos acrescentar a este triunvirato os nomes de Ludwig Klages e Ernst Niekisch. Carl Schmitt, como advogado católico e constitucionalista, representa outro aspecto importante da chamada Revolução conservadora.

Spengler ficará como o autor de um brilhante fresco das civilizações mundiais que inspirou o filósofo britânico Arnold Toynbee. Spengler falou da Europa como civilização fáustica, melhor representada nas catedrais góticas, a intersecção da luz e das cores dos vidrais, as tormentas de neve com nuvens brancas e cinzentas de muitas pinturas holandesas, inglesas e alemãs. Esta civilização é uma aspiração da alma humana face à luz e ao autocompromisso. Outra importante ideia de Spengler é o conceito de pseudo-morfose: Uma civilização nunca desaparece completamente depois de uma decadência ou uma conquista violenta. Os seus elementos passam à nova civilização que lhe sucede e formatam-na em direção a caminhos originais. 

Moeller van den Bruck foi o primeiro tradutor alemão de Dostoievski. Deixou-se influenciar profundamente pelo diário de Dostoievski, que continha severas críticas ao Ocidente. No contexto alemão, depois de 1918, Moeller van den Bruck advogava, com base nos argumentos de Dostoievski, uma aliança russo-germânica contra o Ocidente. Como podiam os respeitáveis cavalheiros alemães, com uma imensa cultura artística, mostrar-se a favor de uma aliança com os bolcheviques? Os seus argumentos foram os seguintes: durante toda a tradição diplomática do século XIX a Rússia foi considerada o escudo da reação contra todas as repercussões da Revolução Francesa e contra a mentalidade e modos revolucionários. Dostoievski, enquanto antigo revolucionário russo que mais tarde admitiria que a sua opção revolucionária fora um erro, considerava mais ou menos que a missão da Rússia no mundo era apagar na Europa o rasto das ideias de 1789.Para Moeller van den Bruck a revolução de Outubro de 1917 foi apenas um câmbio de vestes ideológicas: A Rússia continuava a ser, apesar do discurso bolchevique, o antídoto à mentalidade liberal do Ocidente. Derrotada, a Alemanha deveria aliar-se a esta força antirevolucionária para se opor ao Ocidente, que aos olhos de van den Bruck, é a encarnação do liberalismo. O liberalismo, expressa Moeller van den Bruck, é sempre a doença terminal dos povos. Após algumas décadas de liberalismo um povo entrará inexoravelmente numa fase de decadência final.

O caminho seguido por Ernst Jünger é sobejamente conhecido. Começou como um ardente e galante jovem soldado na primeira guerra mundial, saindo das trincheiras sem qualquer pistola, apenas com uma granada de mão, manejada com a mesma elegância com que um típico oficial britânico usava a chibata. Para Jünger, a primeira guerra mundial foi o fim do pequeno mundo burguês do século XIX e da «Belle Époque», onde toda a gente era como devia ser, isto é, comportando-se de acordo com normas estabelecidas por professores ou sacerdotes, exatamente como hoje temos de nos comportar de acordo com as autoproclamadas regras da correção política. Debaixo das tempestades de aço o soldado podia afirmar a sua insignificância, o seu mero ser biológico, mas esta afirmação não podia, a seu ver, levar a um pessimismo inepto, ao medo e desespero. Havendo experimentado o mais cruel dos destinos nas trincheiras, debaixo do bombardeamento de milhares de armas de artilharia que sacudiam a terra, vendo tudo reduzido ao elementar, o soldado de infantaria conheceu melhor que outros o atroz destino humano sobre a face da terra. Toda a artificialidade da vida civilizada urbana surgiu de repente como pura impostura. No pós guerra, Ernst Jünger e o seu irmão Friedrich-Georg, tornam-se os melhores escritores e jornalistas nacional-revolucionários. Ernst evoluiu para uma espécie de cínico, irónico e sereno observador da humanidade e dos factos da vida. Durante um bombardeamento sobre um subúrbio parisiense, onde as fábricas estavam a produzir material de guerra para o exército alemão, na segunda guerra mundial, Jünger ficou aterrorizado com a anormal rota aérea, reta, tomada pelas forças norte-americanas. A linearidade das rotas aéreas sobre Paris era a negação de todas as curvas e sinuosidades da vida orgânica. A guerra moderna implicou a destruição dos ondulantes e serpenteantes traços do orgânico. Ernst Jünger começou a sua carreira como escritor fazendo a apologia da guerra. Depois de haver observado os irresistíveis assaltos dos B-17 americanos ficou totalmente enojado pela falta de nobreza da forma puramente técnica de conduzir uma guerra. Depois da segunda guerra mundial, o seu irmão, Friedrich-Georg, escreveu o primeiro trabalho teórico que levaria ao desenvolvimento do novo pensamento alemão crítico e ecologista, «Die Perfektion der Technik» (A Perfeição da Técnica). A ideia principal deste livro, em meu entender, é a crítica da conexão. O mundo moderno é um processo de intenções de conexão das comunidades humanas e dos indivíduos a grandes estruturas. Este processo de conexão destrói o princípio da liberdade. És um pobre operário acorrentado se estás conectado a uma grande estrutura, ainda que ganhes 3000 libras por mês, ou mais. És um homem livre quando estás completamente desconectado desses enormes tacões de aço. Em certo sentido Friedrich-Georg escreveu a teoria que Kerouac experimentou de forma não teórica escolhendo largar tudo e viajar, convertendo-se num cantante vagabundo.

Ludwig Klages foi outro filósofo da vida orgânica contra o pensamento abstrato. Para ele a principal dicotomia era entre Vida e Espírito (Leben und Geist). A vida é esmagada pelo espírito abstrato. Klages nasceu no norte alemão mas migrou enquanto estudante para Munique, onde passou o seu tempo livre nos pubs de Schwabing, local onde artistas e poetas se encontravam (ainda hoje). Tornou-se amigo do poeta Stefan Georg e um estudante da figura mais original de Schwabing, o filósofo Alfred Schuler, que acreditava ser a reencarnação de um antigo colono romano nas terras do Reno. Schuler tinha um genuíno sentido teatral. Disfarçava-se com a toga de um imperador romano, admirava Nero e montava peças evocativas do antigo mundo grego ou romano. Mas para além da sua faceta fantasiosa, Schuler adquiriu uma importância cardinal na filosofia desenvolvendo, por exemplo, a ideia de «Entlichtung», ou seja, o gradual desaparecimento da Luz desde o tempo das antigas cidades-estados da Grécia ou Roma. Não há progresso na História: Pelo contrário, a Luz está a desaparecer como a liberdade do cidadão para definir o seu próprio destino. Hanna Arendt e Walter Benjamin, na esquerda e no campo conservador-liberal, foram inspirados por esta ideia e adaptaram-na para audiências diferentes. O mundo moderno é o mundo da completa escuridão, com pouca esperança de encontrar períodos «iluminados» novamente, exceto se personalidades carismáticas, como Nero para Schuler, dedicadas à arte e a um estilo de vida dionisíaco, marcassem uma nova era de esplendor que duraria apenas o tempo abençoado de uma primavera. Klages desenvolveu as ideias de Schuler, que nunca escreveu um livro completo, depois da morte deste em 1923 devido a uma cirurgia mal conduzida. Klages, pouco antes da primeira guerra mundial, pronunciou um famoso discurso na colina Horer Meissner, na Alemanha Central, para os movimentos da juventude (Wandervogel). Este discurso teve o título de «Homem e Terra» e pode ser visto como o primeiro manifesto orgânico de ecologia, com uma clara e compreensível, mas sólida, base filosófica.

Carl Schmitt começou a sua carreira como professor de direito em 1912 e viveu até à respeitosa idade de 97 anos. Escreveu o seu último ensaio aos 91.Não posso enumerar todos os pontos importantes do trabalho de Carl Schmitt neste espaço. Resumamos dizendo que Schmitt desenvolveu duas ideias principais, a de decisão na vida política e a de «Grande Espaço». A arte de moldar a política em geral ou uma boa política em particular está na decisão, não na discussão. O líder tem de decidir para liderar, proteger e desenvolver a comunidade política de que está à frente. A decisão não é ditadura como diriam hoje em dia muitos liberais na nossa era do «politicamente correcto». Pelo contrário, uma personalização do poder é mais democrática, no sentido que um rei, um imperador ou um líder carismático é sempre um mortal. O sistema que ele eventualmente imponha não é eterno, já que ele está condenado a morrer como qualquer ser humano. Um sistema monocrático, ao invés, procura eternizar-se, mesmo se os acontecimentos correntes e inovações contradizem as suas normas ou princípios. O segundo grande tópico no trabalho de Schmitt é a ideia de Grande Espaço Europeu (Grossraum). As forças externas devem ser impedidas de interferir nesse Grande Espaço.Schmitt queria aplicar à Europa o mesmo princípio simples que animava o presidente norte-americano Monroe. A América aos americanos. Ok, dizia Schmitt, mas apliquemos a ideia de Europa aos europeus. Schmitt pode ser comparado aos «continentalistas» americanos, que criticaram a intervenção de Roosevelt na Europa e na Ásia. Os latino-americanos também desenvolveram similares ideias continentalistas, tal como os imperialistas japoneses. Schmitt deu a esta ideia de Grossraum uma forte base jurídica.

Niekisch é uma figura fascinante no sentido em que começou a sua carreira como líder comunista no «Conselho da República da Baviera» de 1918-19, que foi destruído pelos Freikorps de von Epp, von Lettow-Vorbeck, etc. Obviamente Niekisch ficou desapontado pela ausência de uma visão histórica entre o trio bolchevique na Munique revolucionária (Lewin, Leviné, Axelrod). Niekisch desenvolveu uma visão euroasiática, baseada na aliança entre a União Soviética, a Alemanha, a China e a Índia. A figura ideal que deveria ser o motor humano desta aliança seria o camponês, adversário da burguesia ocidental. Um certo paralelo com Mao Tse-Tung surge aqui evidente. Nos jornais que Niekisch editou descobrimos todas as tentativas alemãs de apoiar movimentos anti-britânicos ou anti-franceses nos impérios coloniais ou na Europa (Irlanda contra a Inglaterra, Flandres contra uma Bélgica francófona, nacionalistas hindus contra o Reino Unido, etc.).

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Robert Steuckers - Revolução Conservadora e Ordo Aeternus Romano

por Robert Steuckers

A Revolução Conservadora não é somente uma continuação da «Deutsche Ideologie» romântica ou uma reactualização das tomadas de posição anti-cristãs e helenistas de Hegel (anos 1790-99) ou uma extensão do prussianismo laico e militar, mas tem também o seu lado católico romano. Nos círculos católicos, num Carl Schmitt por exemplo, como nos seus discípulos flamengos, liderados pela personalidade de Victor Leemans, uma variante da Revolução Conservadora incrusta-se no pensamento católico, como sublinha justamente um católico de esquerda, original e verdadeiramente inconformista, o Prof. Richard Faber de Berlim. Para Faber, as variantes católicas da RC renovam não com um Hegel helenista ou um prussianismo militar, mas com o ideal de Novalis, exprimido em Europa oder die Christenheit: este ideal é aquele do organon medieval, onde, pensam os católicos, se estabeleceu uma verdadeira ecúmena europeia, formando uma comunidade orgânica, solidificada pela religião.

Depois do retrocesso e da desaparição progressiva deste organon vivemos um apocalipse, que se vai acelerando, depois da Reforma, a Revolução francesa e a catástrofe europeia de 1914. Desde a revolução bolchevique de 1917, a Europa, dizem estes católicos conservadores alemães, austríacos e flamengos, vive uma Dauerkatastrophe. A vitória francesa é uma vitória da franco-maçonaria, repetem. 1917 significa a destruição do último reduto conservador eslavo, no qual haviam apostado todos os conservadores europeus desde Donoso Cortés( que era por vezes muito pessimista, sobretudo quando lia Bakunine). Os prussianos haviam sempre confiado na aliança russa. Os católicos alemães e austríacos também, mas com a esperança de converter os russos à fé romana. 

Enfim, o abatimento definitivo dos “estados” sociais, inspirados na época medieval e na idade barroca (instalados ou reinstalados pela Contra-Reforma) mergulha os conservadores católicos no desespero. Helena von Nostitz, amiga de Hugo von Hoffmannstahl, escreve «Wir sind am Ende, Österreich ist tot. Der Glanz, die Macht ist dahin» [« Estamos no fim, a Áustria está morta. O Esplendor e o Poder desapareceram»].

Num tal contexto, o fascismo italiano, contudo saído da extrema-esquerda intervencionista italiana, dos meios socialistas hostis à Áustria conservadora e católica, figura como uma reacção musculada da romanidade católica contra o desafio que lança o comunismo a leste. O fascismo de Mussolini, sobretudo depois dos acordos de Latran, recapitula, aos olhos destes católicos austríacos, os valores latinos, virgilianos, católicos e romanos, mas adaptando-os aos imperativos da modernidade.

É aqui que as referências católicas ao discurso de Donoso Cortés aparecem em toda a sua ambiguidade: para o polemista espanhol a Rússia arriscava converter-se ao socialismo para varrer pela violência o liberalismo decadente, como teria conseguido se tivesse mantido a sua opção conservadora. Esta evocação da socialização da Rússia por Donoso Cortés permite a certos conservadores prussianos, como Moeller van den Bruck, simpatizar com o exército vermelho, para parar a Oeste os exércitos ao serviço do liberalismo maçónico ou da finança anglo-saxónica, ainda mais porque depois do tratado de Rapallo(1922), a Reichswehr e o novo exército vermelho cooperam. O reduto russo permanece intacto, mesmo se mudou de etiqueta ideológica.

Hugo von Hoffmannstahl, em Das Schriftum als geistiger Raum der Nation [As cartas como espaço espiritual da Nação] utiliza pela primeira vez na Alemanha o termo “Revolução Conservadora”, tomando assim o legado dos russos que o haviam precedido, Dostoievski e Yuri Samarine. Para ele a RC é um contra-movimento que se opõe a todas as convulsões espirituais desde o século XVI. 

Para Othmar Spann, a RC é uma Contra-Renascença. Quanto a Eugen Rosenstock( que é protestante), escreve: «Um vorwärts zu leben, müssen wir hinter die Glaubensspaltung zurückgreifen» [Para continuar a viver, seguindo em frente, devemos recorrer ao que havia antes da ruptura religiosa]. Para Leopold Ziegler (igualmente protestante) e Edgard Julius Jung (protestante), era preciso uma restitutio in integrum, um regresso à integralidade ecuménica europeia, Julius Evola teria dito: à Tradição. Eles queriam dizer por aquilo que os Estados não deviam mais opor-se uns aos outros mas ser reconduzidos num “conjunto potencializador”.

Se Moeller van den Bruck e Eugen Rosenstock actuam em clubes, como o Juni-Klub, o Herren-Klub ou em círculos que gravitam em torno da revista de sociologia, economia e politologia Die Tat, os que desejam manter uma ética católica e cuja fé religiosa subjuga todo o comportamento, reagrupam-se em “círculos” mais meditativos ou em ordens de conotação monástica. Richard Feber calcula que estas criações católicas, neo-católicas ou para-católicas, de “ordens”, se efectuaram a 4 níveis:

1)No círculo literário e poético agrupado em torno da personalidade de Stefan George, aspirando a um “novo Reich”, isto é, um “novo reino” ou um “novo éon”, mais do que a uma estrutura política comparável ao império dos Habsbourg ou ao dos Hohenzollern.

2)No “Eranos-Kreis”( Círculo Eranos) do filósofo místico Derleth, cujo pensamento se inscreve na tradição de Virgílio ou Hölderlin, colocando-se sob a insígnia de uma “Ordem do Christus- Imperator”. 

3)Nos círculos de reflexão instalados em Maria Laach, na Renânia-Palatinado, onde se elaborava uma espécie de neo-catolicismo alemão sob a direcção do teólogo Peter Wust, comparável, em muitos aspectos, ao “Renouveau Catholique” de Maritain na França (que foi próximo, a dado momento, da Acção Francesa) e onde a fé se transmitia aos aprendizes particularmente por uma poesia derivada dos cânones e das temáticas estabelecidas pelo “Circulo” de Stefan George em Munique-Schwabing desde os anos 20.

4)Nos movimentos de juventude, mais ou menos confessionais ou religiosos, particularmente nas suas variantes “Bündisch”, bom número de responsáveis desejavam introduzir, por via das suas ligas ou das suas tropas, uma “teologia dos mistérios”.

As variantes católicas ou catolizantes, ou pós-católicas, preconizaram então um regresso à metafísica política, no sentido em que queriam uma restauração do “Ordo romanus”, “Ordem romana”, definida por Virgílio como “Ordo aeternus”, “ordem eterna”. Este catolicismo apelava à renovação com esse “Ordo aeternus” romano que, na sua essência, não era cristão mas a expressão duma paganização do catolicismo, explica-nos o cristão católico de esquerda Richard Faber, no sentido em que, neste apelo à restauração do “Ordo romanus/aeternus”, a continuidade católica não é já fundamentalmente uma continuidade cristã mas uma continuidade arcaica. Assim, a “forma católica” veicula, cristianizando-a (na superfície?), a forma imperial antiga de Roma, como assinalou igualmente Carl Schmitt em Römischer Katholizismus und politische Form (1923). Nessa obra, o politólogo e jurista alemão lança de alguma maneira um duplo apelo: à forma (que é essencialmente, na Europa, romana e católica, ou seja, universal enquanto imperial e não imediatamente enquanto cristã) e à Terra (esteio incontornável de toda a acção política), contra o economicismo volúvel e hiper-móvel, contra a ideologia sem esteio que é o bolchevismo, aliado objectivo do economicismo anglo-saxónico. 

Para os proponentes deste catolicismo mais romano que cristão, para um jurista e constitucionalista como Schmitt, o anti-catolicismo saído da filosofia das Luzes e do positivismo cienticista( referências do liberalismo) rejeita de facto esta matriz imperial e romana, este primitivismo antigo e fecundo, e não o eudemonismo implícito do cristianismo. O objectivo desta romanidade e desta “imperialidade” virgiliana consiste no fundo, queixa-se Faber, que é um anti-fascista por vezes demasiado militante, em meter o catolicismo cristão entre parênteses para mergulhar directamente, sem mais nenhum derivativo, sem mais nenhuma pseudo-morfose (para utilizar um vocábulo spengleriano), no “Ordo aeternus”.

Na nossa óptica este discurso acaba ambíguo, porque há confusão permanente entre Europa e Ocidente. Com efeito, depois de 1945, o Ocidente, vasto receptáculo territorial oceânico-centrado, onde é sensato recompor o “Ordo romanus” para estes pensadores conservadores e católicos, torna-se a Euroamérica, o Atlantis: paradoxo difícil de resolver, porque como ligar os princípios “térreos” (Schmitt) e os da fluidez liberal, hiper-moderna e economicista da civilização “estado-unidense”?

Para outros, entre o Oriente bolchevizado e pós-ortodoxo e o Hiper-Ocidente fluido e ultra-materialista, deve erguer-se uma potência “térrea”, justamente instalada sobre o território matricial da “imperialidade” virgiliana e carolíngia, e esta potência é a Europa em gestação. 

Mas com a Alemanha vencida, impedida de exercer as suas funções imperiais pós-romanas uma translatio imperii (translação do império) deve operar-se em beneficio da França de De Gaulle, uma translação imperii ad Gallos, temática em voga no momento da reaproximação entre De Gaulle e Adenauer e mais pertinente ainda no momento em que Charles De Gaulle tenta, no curso dos anos 60, posicionar a França “contra os impérios”, ou seja, contra os “imperialismos”, veículos da fluidez mórbida da modernidade anti-política e antídotos para toda a forma de fixação estabilizante (NdT. Daqui presume-se uma distinção entre imperialismo e imperialidade, daí o uso dos dois conceitos).

Se Eric Voegelin tinha teorizado um conservantismo em que a ideologia derivava da noção de “Ordo romanus”, ele colocava o seu discurso filosófico-político ao serviço da NATO, esperando deste modo uma fusão entre os princípios “fluidos” e “térreos” (NdT. naturalmente esta dicotomia que o autor usa recorrentemente no texto é uma referência à tradicional oposição entre ordenamentos marítimos e terrestres) , o que é uma impossibilidade metafísica e prática. Se o tandem De Gaulle-Adenauer se referia também, sem dúvida, no topo, a um projecto derivado da noção de “Ordo aeternus”, colocava o seu discurso e as suas práticas, num primeiro momento (antes da viagem de De gaulle a Moscovo, à América Latina e antes da venda dos Mirage à Índia e do famosos discursos de Pnom-Penh e do Quebeque), ao serviço de uma Europa mutilada, hemiplégica, reduzida a um “rimland” atlântico vagamente alargado e sem profundidade estratégica. Com os últimos escritos de Thomas Molnar e de Franco Cardini, com a reconstituição geopolítica da Europa, este discurso sobre o “Ordo romanus et aeternus” pode por fim ser posto ao serviço de um grande espaço europeu, viável, capaz de se impor sob a cena internacional. 

E com as proposições de um russo como Vladimir Wiedemann-Guzman, que percepciona a reorganização do conjunto euro-asiático numa “imperialidade” bicéfala, germânica e russa, a expansão grande-continental está em curso, pelo menos no plano teórico. E para terminar, parafraseando De Gaulle: A estrutura administrativa acompanhá-la-á?