Mostrando postagens com marcador Oswald Spengler. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Oswald Spengler. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Paz Mundial é Possível?


por Oswald Spengler

A questão de saber se a paz mundial será um dia possível só pode ser respondida por alguém familiarizado com a história mundial. Estar familiarizado a história mundial significa, no entanto, saber como os seres humanos têm sido e sempre serão. Há uma grande diferença, que a maioria das pessoas nunca vai compreender, entre ver a história futura como ela vai ser e ver como gostaríamos que ela fosse. Paz é um desejo, guerra é um fato; e a história nunca reparou nos ideais e desejos humanos.

A vida é uma luta envolvendo plantas, animais e humanos. É uma luta entre indivíduos, classes sociais, povos e nações, e pode tomar a forma de competição econômica, social, política ou militar. É uma luta pelo poder de fazer sua vontade prevalecer, explorar essa vantagem, ou avançar com sua opinião do que é justo ou conveniente. Quando todos os outros meios falham, um recurso será usado uma e outra vez até o fim: violência. Um indivíduo que usa a violência pode ser chamado de criminoso, uma classe pode ser chamada de revolucionária ou traidora, um povo pode ser chamado de sanguinário. Mas isso não altera os fatos. O comunismo moderno chama suas guerras de “levantes”, nações imperialistas descrevem as suas como “pacificação dos povos estrangeiros”. E se o mundo existisse como um estado unificado, as guerras seriam chamadas de “levantes”. As distinções são puramente verbais.

Falar de paz mundial hoje somente é possível entre os povos brancos, e não entre os muito mais numerosos povos de cor. Este estado de coisas é perigoso. Quando pensadores individuais e idealistas falam de paz, como tem feito desde tempos imemoriais, o efeito é sempre insignificante. Mas quando povos inteiros se tornam pacifistas, é um sintoma de senilidade. Raças fortes e por utilizar não são pacifistas. Adotar tal posição é abandonar o futuro, pois o ideal pacifista é uma condição estática e terminal que é contrária aos fatos básicos da existência.

Enquanto o homem continuar a evoluir haverão guerras. Se os povos brancos se tornarem tão cansados da guerra que seus governos não possam mais incitá-los a travá-la, a terra cairá inevitavelmente como vítima dos homens de cor, assim como o Império Romano sucumbiu aos Germânicos. Pacifismo significa deixar o poder para não-pacifistas inveterados. Entre os últimos sempre haverão homens brancos – aventureiros, conquistadores, líderes – que aumentam com todos os acontecimentos. Se uma revolta contra os brancos ocorresse hoje na Ásia, muitos brancos se juntariam aos rebeldes simplesmente porque eles estão cansados de viver em paz.

Pacifismo continuará um ideal, e a guerra um fato. Se as raças brancas resolverem nunca mais fazer a guerra, os homens de cor atuarão diferente e serão os governantes do mundo.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Pessimismo?

por Oswald Spengler



O meu livro (O Declínio do Ocidente, Vol I) se deparou com ampla incompreensão. Em um certo sentido, isso é quase um concomitante inevitável para qualquer abordagem nova que chegue a novas conclusões. Tal reação é mais ainda esperada quando as conclusões alcançadas, ou mesmo as perspectivas e metodologia que levou a elas, apresentam um desafio sério ao humor dominante de uma era. Quando um livro assim por acaso se torna popular, as incompreensões se multiplicam. Pois então as pessoas são confrontadas subitamente por um complexo de idéias que elas de fato não deveriam ter tentado diferir até anos depois de leituras preparatórias.

Com meu próprio livro há ainda a dificuldade de que apenas o lado negativo da figura chegou até então ao público. A maioria dos livros esqueceu de observar que este primeiro volume representa apenas um fragmento a partir do qual, como eu logo perceberia, não é fácil formar conclusões sobre o que deve seguir. O segundo volume ainda por vir abordará a "Morfologia da História Mundial", levando então a um fim meu exame de ao menos um aspecto do problema. Leitores atentos terão notado que eu toquei brevemente em um segundo aspecto, a questão ética, em meu ensaio Prussianismo e Socialismo.

Um outro obstáculo a uma compreensão do meu livro é o título um tanto quanto desconcertante que ele leva. Eu fui cuidadoso em enfatizar que este título foi escolhido anos antes de sua publicação, e que ele objetivamente descreve um fato simples para o qual evidências podem ser encontradas nos eventos mais familiares da história mundial. Ainda assim, há pessoas que não podem ouvir a palavra "declínio" sem pensar em uma calamidade súbita e temível. Meu título não implica catástrofe. Talvez possamos eliminar o "pessimismo" sem alterar o sentido real do título se substituíssemos "declínio" pela palavra "realização", tendo em mente as funções especiais que Goethe atribuiu a esse conceito em sua própria visão-de-mundo.

Porém, mesmo a primeira parte do meu livro não era dirigida a pessoas especulativas, mas sim ativas. Meu objetivo era apresentar uma imagem do mundo com o qual se deve viver, ao invés de construir um sistema para que sobre ele filósofos profissionais ruminem. Eu não percebia essa distinção à época, mas ela obviamente previne um grande número de leitores de chegarem a uma compreensão verdadeira do tema do livro.

A pessoa ativa vive no mundo dos fenômenos e com eles. Ele não demanda provas lógicas, de fato geralmente ele não as pode compreender. O "ritmo fisionômico" - um dos termos que praticamente ninguém foi capaz de compreender totalmente - lhe dá percepções mais profundas do que qualquer método baseado na prova lógica jamais poderia dar. Eu fiz afirmações em meu livro que leitores acadêmicos consideraram como completamente contraditórias. Ainda assim, todas essas são coisas que há muito já tem sido consideradas e sentidas privadamente, ainda que não necessariamente de modo consciente, por indivíduos inclinados a uma vida de ação. Quando tais indivíduos leem livros, isto quer dizer, quando eles entram no reino da teoria, eles rejeitam o mesmo "relativismo histórico" que é segunda natureza para eles quando estão engajados em atividades práticas, ou quando estão observando pessoas e situações para os propósitos de ação.

A pessoa contemplativa, por outro lado, é por natureza remota da vida. Ele a vê à distância, por ele é estranho e nada contra a maré. Assim que ela ameace se tornar algo mais do que um objeto observado, ele se incomoda. Pessoas contemplativas colecionam, dissecam e arrumam coisas, não para qualquer propósito prático, mas simplesmente porque isso as satisfaz. Elas demandam provas lógicas e sabem como consegui-las. Para eles, um livro como o meu deve permanecer eternamente uma aberração.

Pois eu confesso que eu jamais tive nada além de desprezo pela "filosofia pela filosofia". Para o meu modo de pensar não há nada mais tedioso do que a lógica pura, a psicologia científica, a ética geral, e a estética. A vida não é feita de ciência e generalidades. Cada linha que não é escrita à serviço da vida ativa me parece supérflua. Sob risco de ser entendido literalmente demais, eu diria que meu modo deo lhar o mundo se relaciona ao modo "sistemático" assim como as memórias de um estadista se relacionam ao Estado ideal de um utópico. O primeiro escreve o que ele viveu; o segundo registra o que ele sonhou.

Agora de fato existe, particularmente na tradição germânica, o que se pode chamar de um modo estadista de experimentar o mundo, uma atitude não-forçosa e assistemática em relação a vida que só pode ser registrada por um tipo de escrita memorial metafísica. É importante perceber que meu livro pertence a essa tradição. Se a seguir eu menciono alguns nomes ilustres, isso não tem como intenção implicar qualquer coisa sobre a qualidade do livro, mas meramente indicar o tipo de visão que estava presente em sua criação.

Uma poderosa corrente de pensamento germânico corre de Leibniz a Goethe e Hegel, e segue em direção ao futuro. Como todas as coisas germânicas, essa corrente foi forçada a correr de modo subterrâneo e a seguir desapercebida ao longo dos séculos. Por mais do que esse período mesmo os criadores dessa tradição descobriram que eles tinham que se adaptar a padrões de pensamento estrangeiros e superficiais.

Leibniz foi o grande professor de Goethe, ainda que este jamais tivesse tido consciência disso. Goethe costumeiramente adotou idéias genuinamente leibnizianas, seja por uma afinidade natural por seu pensamento ou pela influência de seu amigo Herder. Em tais instânicas, porém, ele sempre se referiu a Espinoza, cujo modo de pensar era na verdade bastente diferente. A característica notável de Leibniz era seu envolvimento constante nos eventos importantes de seu tempo. Se removessemos de suas obras todos os itens que são relativos à política, à reunificação das igrejas, aos projetos de mineração, e à organização da ciência e da matemática, não sobraria muito. Goethe se assemelha a ele no sentido de que ele sempre pensou historicamente, ou seja, com referência constante aos fatos reais da existência. Como Leibniz, ele jamais teria sido capaz de construir um sistema filosófico abstrato.

Hegel foi o último grande pensaro a tomar as realidades políticas como seu ponto de partida sem deixar seu pensamento ser completamente sufocado por abstrações. Então veio Nietzsche, um diletante no melhor dos sentidos, que se manteve firmemente distante da filosofia acadêmica, que à sua época já havia se tornado completamente estéril. Ele foi tomado pelas teorias de Darwin, e ainda assim ele transcendeu a era do darwinismo inglês. Ele nos deu a visão com a qual nós podemos agora concretizar uma vitória para uma abordagem vital e prática da história mundial.

Essas são, como eu vejo agora, as premissas que inconscientemente influenciaram minha escrita. Entre elas não há um único "sistema" de generalidades. As compilações históricas de Leibniz, as observações da natureza de Goethe, e as palestras de Hegel sobre a história mundial foram todas escritas tendo claramente em vistas a realidade factual - algo que não pode ser dito das obras de Kant e Schopenhauer.

Eu construo as relações entre realidade e pensamento especulativo de uma maneira completamente diferente dos filósofos sistemáticos. Para eles a realidade é matéria morta da qual se pode derivar leis. Para mim, a realidade apresenta exemplos que iluminam um pensamento experimentado, um pensamento que é comunicável apenas nessa forma.

Porque essa abordagem é acientífica, ela requer uma facilidade incomum para pensar em linhas amplas e em sintetizar. Normalmente ocorre, como eu já percebi ocasionalmente, que conforme o leitor se concentra em um ponto de meu livro ele rapidamente perde vistas dos outros. Ao fazê-lo, ele entende tudo errado, pois o livro é tão coeso que isolar um único detalhe equivale a cometer um erro. Ademais, é necessário ser capaz de ler nas entrelinhas. Muitas coisas são apenas sugeridas, enquanto outras não podem ser ditas de modo algum de modo científico.

A idéia central é o conceito de Destino. A razão pela qual é tão difícil fazer o leitor compreendê-lo é que o processo do pensamento sistemático e racional o leva a seu oposto: a idéia de causalidade. Destino e Acaso são questões bastante remotas da apreensão da causa e do efeito, do antecedente e do consequente. Há um perigo em que o Destino possa ser equivocadamente compreendido como simplesmente outro modo de se referir a uma sequência causal que existe sem estar prontamente visível. A mente científica jamais será capaz de entender isso. A habilidade de perceber fatos de natureza emocional e vital cessa logo que se começa a pensar analiticamente. O Destino é uma palavra cujo significado é sentido. O Tempo, o Anseio e a Vida são conceitos próximos. Ninguém pode presumir compreender a essência do meu pensamento a não ser que ele possa sentir o sentido último dessas palavras do modo que eu pretendi.

A idéia de Destino leva a um tipo de experiência que é excessivamente difícil de compreender. Eu a chamo de "experiência de profundiade". Ela é mais proximamente relacionada ao pensamento racional, mas apenas em seu efeito final, não em suas origens. Esse conceito nos apresenta com dois dos problemas mais difíceis. O que se quer dizer pela palavra "Tempo"? Não há resposta científica para essa questão. O que se quer dizer pela palavra "Espaço"? Aqui, o pensamento racional pode talvez nos dar uma resposta. Porém uma conexão existe entre Destino e Tempo, e também entre Espaço e Causalidade. Qual é, então, a relação entre Destino e Causa? A resposta para isso é fundamental para o conceito de experiência de profundidade, mas ela se encontra para além todos os modos de experiência e comunicação científica. O fato da experiência de profundidade é tão indisputável quanto inexplicável.

Um terceiro conceito, também muito difícil de compreender, é aquele de Ritmo Fisionômico. Isso é na verdade algo que todo ser humano possui. Ele vive com isso e constantemente o aplica para fins práticos. É algo com o que se nasce e que não pode ser adquirido. A ingenuidade proverbial e a comicidade demonstrada em questões públicas pelo retrógrado acadêmico abstrato é um resultado do desenvolvimento retardado desse ritmo. Não obstante, mesmo esse tipo de personalidade possui o bastante dele para seguir vivendo.

O que eu tenho em mente, porém, é uma forma bastante exaltada desse Ritmo, uma técnica inconsciente de compreender não apenas os fenômenos da vida quotidiana, mas o sentido do universo. Poucas pessoas podem ser consideradas como mestras nisso. Essa é a técnica que faz do genuíno historiador igual ao estadista nato, apesar da disparidade entre teoria e prática. Das duas principais técnicas de adquirir conhecimento e entendimento, essa é sem dúvidas a mais importante para a história e para a vida real. O outro método, o pensamento sistemático, serve apenas para descobrir verdades. Mas fatos são mais importantes do que verdades. Todo o curso da história política e econômica, de fato de todas as realizações humanas, é dependente da aplicação constante dessa técnica por indivíduos, incluindo os indivíduos significativos que são historicamente passivos bem como os grandes que fazem a história.

A técnica fisionômica é predominante durante a maior parte da vida dos indivíduos historicamente ativos e passivos. Por comparação, a técnica sistemática, que é a única reconhecida pela filosofia, é virtualmente reduzida à insignificância histórica. O que faz da minha abordagem tão heterodoxa é o fato de que ela é conscientemente baseada na técnica da vida real. Como resultado, ela é interiormente consistente, ainda que careça de um sistema.

O conceito que causou as incompreensões mais sérioes é aquele ao qual eu assignei, não muito afortunadamente talvez, o termo "relativismo". Este não possui absolutamente nada em comum com o relativismo da ciência física, que é baseado tão somente no contraste matemático entre constante e função. Levará anos para que leitores se tornem suficientemente familiarizados com meu conceito para que ele ganhe vigência real. Pois ele é uma visão completamente ética do mundo no qual as vidas individuais tem seu curso. Para aqueles que não compreenderam o conceito de Destino, esse termo parecerá sem sentido. Como eu o vejo, o Relativismo na história é uma afirmação da idéia de Destino. A singularidade, irrevogabilidade, e não-recorrência de todos os eventos é a forma na qual o Destino se manifesto aos olhos humanos.

Como a Técnica Fisionômica, esse Relativismo existiu, seja na vida ativa ou na observação passiva, em todos os tempos. Ele é uma parte tão natural da vida real, e está em tamanho controle das ocorrências quotidianas, que ele não alcança a consciência. Em verdade, quando a mente se engaja na teorização, ou seja, quando ela está formando generalizações, a existência desse Relativismo é normalmente negada empiricamente. A idéia não é realmente nova enquanto tal. Em nossa era tardia não pode haver idéias novas. Ao longo de todo o século XIX nem uma única questão foi levantada que já não houvesse sido descoberta, refletida, e brilhantemente formulada pelos Escolásticos.

É apenas porque o Relativismo é uma elemento tão intrínseco da vida, e assim uma idéia tão não-filosófica, que ele nunca foi considerado adequado como parte de um "sistema". O velho adágio "A carne de um é o veneno de outro", é basicamente o contrário de toda filosofia acadêmica. O acadêmico é impelido a demonstrar que a carne de um é carne para todos os homens, ou seja, que o ponto ético que ele acaba de demonstrar em seu livro vincula a todos. Eu de modo bastante consciente assumi a perspectiva oposta, nomeadamente aquela da vida, e não a do pensamento. As duas posições ingênuas, mantém ou que existe algo que possui valor normativo por toda a eternidade independentemente de Tempo e Destino, ou que tal coisa não existe.

Porém, o que é aqui chamado Relativismo não é nenhuma dessas duas posições. É aqui que eu criei algo novo. É um fato experimentado que a "história mundial" não é uma sequência unificada de eventos, mas uma coleção de altas culturas, das quais houve oito em número até agora. As histórias vitais dessas culturais são bastante independentes umas das outras, porém cada uma partilha de um padrão estrutural similar à de todas as outras. Estando isso estabelecido, eu demonstrei que cada observador, independentemente de ele pensar em termos de vida ou apenas de pensamento, pensa unicamente como representante de seu tempo particular. Com isso nós podemos descartar uma das críticas mais absurdas lançadas contra minhas perspectivas: o argumento de que o Relativismo carrega consigo sua própria refutação.

A conclusão a ser tirada é que para cada cultura, para cada época dentro de uma cultura, e para cada tipo de indivíduo dentro de uma época, existe uma perspectiva geral que é imposta e comandada pelo tempo em questão. Essa perspectiva deve ser considerada absoluta para aquele tempo particular, mas não em relação a outros tempos. Há uma perspectiva imposta pelo nosso próprio tempo, porém é desnecessário dizer que ela é diferente daquela da Era de Goethe. "Verdadeiro" e "falso" são conceitos que não podem ser aplicados aqui. Os únicos termos descritivos pertinentes são "profundo" e "superficial". Quem pense diferente é, de qualquer modo, incapaz de pensar historicamente.

Qualquer abordagem vital dos problemas da história, incluindo a que eu estou propondo, pertence a um único tempo. Ela evoluiu a partir de uma abordagem prévia e por sua vez evoluirá em outra. Há em toda a história tão poucas abordagens totalmente corretas ou totalmente falsas quanto há fases certas e erradas do crescimento deu uma planta. Todas são necessárias, e a única coisa razoável a se dizer é que uma certa fase é bem sucedida ou não em relação às demandas do momento. O mesmo é verdadeiro para cada visão de mundo, não importa quando ela emerja. Mesmo o filósofo mais ferrenhamente sistemático sente isso. Ele usa termos como "obsoleto", "típico de sua época", e "prematuro" para descrever as opiniões dos outros. Ao fazê-lo ele está admitindo que os conceitos de verdade e falsidade possuem sentido apenas para a casca externa da ciência, mas não para sua essência vital.

Assim nós chegamos à distinção entre fatos e verdades. Um fato é algo único, algo que realmente existiu ou realmente existirá. Uma verdade é algo que pode existir como possibilidade sem jamais adentrar a realidade. O Destino tem relação com fatos; a relação entre causa e efeito é uma verdade. Tudo isso tem sido sabido desde tempos imemoriais. O que os homens falharam em perceber, porém, é que a vida, por essa mesma razão, tem a ver apenas com fatos, que ela é exclusivamente feita de fatos, e que seu único modo de resposta é factual. Verdades são quantidades de pensamento, e sua importância reside somente circunscrita no reino do pensamento. Verdades podem ser encontradas em uma dissertação doutoral em filosofia; ser reprovado em um exame de doutorado é um fato. A realidade começa onde o reino do pensamento finda. Ninguém, nem mesmo o sistemático mais ascético, pode ignorar esse fato da vida. E, de fato, ele não o ignora. Mas ele o esquece assim que ele começa a pensar a vida ao invés de vivê-la.

Se eu posso reivindicar alguma realização, é que ninguém jamais poderá ver o futuro de novo como uma tábua em branco na qual qualquer um pode inscrever o que lhe agradar. A perspectiva caprichosa e arbitrária que defende o motto "Que assim seja!" deve agora dar lugar a uma visão fria e clara que vê os possíveis, e portanto necessários, fatos do futuro, e que constrói suas opções de acordo. A primeira coisa que confronta o homem na forma do Destino é o tempo e lugar de seu nascimento. Este é um fato inescapável; nenhuma quantia de pensamento pode compreender sua origem, e ninguém pode impedi-la. Ademais, este é o fato mais decisivo de todos. Todo mundo nasce dentro de um povo, uma religião, uma classe, uma época, uma cultura. É o Destino que determina se um homem nascerá escravo na Atenas de Péricles, um cavaleiro na época das Cruzadas, ou um filho de um trabalhador ou de um burguês em nossos dias. Se algo pode ser chamado de fado, fortuna, ou destino, é isso. A história significa que a vida está constantemente mudando. Para o indivíduo, porém, a vida é precisamente de certo modo, e não de outro. Com seu nascimento o indivíduo recebe sua natureza e uma amplitude particular de tarefas possíveis, dentro da qual ele possui o privilégio da livre escolha. Independentemente do que sua natureza deseje ou seja capaz, independentemente do que seu nascimento permita ou impeça, para cada indivíduo está prescrita uma amplitude definida de felicidade ou miséria, grandeza ou covardia, tragédia ou absurdo, que fará de sua vida exclusivamente sua. E mais, o Destino determina se sua vida terá significância para as vidas daqueles que o cercam, isto é, se ela será significativa para a história. Sob essa luz, os mais fundamentais dos fatos, toda filosofia sobre "a" tarefa da "humanidade" e "a" natureza da "moralidade" é perda de tempo.

Isto é o que é verdadeiramente novo em minha abordagem, uma idéia que teve que ser expressa e feita acessível à vida após todo o século XIX ter buscado por ela: a relação consciente do homem faustiana com a história. As pessoas não entenderam por que eu escolhi colocar uma imagem nova no lugar do padrão usual (antiguidade - idade média - tempos modernos). O homem vive constantemente "em uma imagem"; ela governa suas decisões, e molda sua mentalidade. Ele jamais pode se livrar de uma velha imagem até que ele tenha adquirido uma nova e a tenha tornado completamente sua.

"Visão histórica" - isso é possível apenas para o homem europeu ocidental, e mesmo para ele isso é possível apenas desse momento em diante. Nietzsche podia ainda falar da doença histórica. Ele usou este termo para descrever o que ele viu ao seu redor: o romantismo sentimental dos poetas e escritores, a nostalgia onírica dos filólogos pelo passado distante, o habito dos patriotas de timidamente consultar a história prévia antes de chegar a qualquer decisão, a avidez pela comparação, sintomática de independência mental insuficiente.

Desde 1870 nós alemães temos sofrido mais dessa doença do que qualquer outra nação. Não é verdade que nós temos continuamente olhado para os antigos teutônicos, para os cavaleiros cruzados, e para os gregos de Hölderlin sempre que não sabemos o que fazer na Era da Eletricidade? Os britânicos tem sido mais sortudos. Eles preservaram todas as instituições que emergiram após a Conquista Normanda: suas leis, liberdades, e costumes. Em todos os tempos eles tem sido capazes de sustentar uma impressionante tradição sem jamais colocá-la em perigo. Eles jamais sentiram a necessidade de compensar por mil anos de ideais despedaçados olhando nostalgicamente para o passado remoto. A diença histórica perdura ainda no idealismo e humanismo da Alemanha de hoje. Ela está nos fazendo desenvolver planos pretensiosos para melhorar o mundo; cada dia traz algum esquema radicalmente novo e infalível para dar a todos os aspectos da vida sua forma correta e final. O único resultado prático de todos esses desenhos reside no fato de que eles estão exaurindo energícias cruciais através de querelas inúteis, desperdiçando nossas chances de descobrirmos oportunidades reais, e falhando em dar a Londres e Paris qualquer competição real.

Visão histórica é o oposto direto disso. Aqueles que a tem são especialistas - confiantes e frios especialistas. Mil anos de pensamento e pesquisa históricas espalharam diante de nós um vasto tesouro, não de conhecimento, pois isso é relativamente desimportante, mas de experiência. Uma vez que essas experiências sejam vistas na perspectiva que eu acabei de descrever, elas adquirem um significado inteiramente novo. Até agora - isso é mais verdadeiro para os alemães do que para qualquer outra naçã - nós temos olhado para o passado em busca de modelos segundo os quais viver. Mas não há modelos. Há apenas exemplos de como a vida de indivíduos, povos, e culturas tem evoluído, alcançado a maturidade, e se extinguido. Esses exemplos nos mostram as relações que existem entre caráter inato e condições externas, entre Tempo e Duração. Não nos são dados padrões a imitar. Ao invés, nós podemos observar como algo ocorreu, e assim aprender que consequências esperar de nossa situação.

Até agora poucas pessoas tiveram tais percepções, e então apenas em relação a seus pupilos, subordinados ou cotrabalhadores diretos. Alguns estadistas superiores também as tiveram, mas apenas em conexão com personalidades e nações de seu próprio tempo. Essa era a arte refinada de controlar as forças vitais, adquiridas pela habilidade de tomar de assalto suas oportunidades e prever suas mudanças. Com essa arte é possível se tornar mestre sobre outros ou mesmo ser o próprio Destino. Nós estamos agora em uma posição de fazer o mesmo por nossa própria cultura, prevendo seu curso pelos séculos vindouros como se ela fosse um organismo cuja estrutura interior nós estudamos exaustivamente. Nós percebemos que cada fato é uma ocorrência do acaso, imprevista e imprevisível. Ainda assim com a figura de outras culturas diante de nós, nós podemos ter tanta certeza de que a natureza e curso da vida futura, de indivíduos bem como de culturas, não são acidentais. Desenvolvimentos futuros porém, é claro, ser levados à perfeição, ameaçados, corrompidos, e destruídos pela livre escolha de pessoas ativas. Mas eles jamais podem ser afastados de sua direção e sentido.

Isso tornou possível pela primeira vez uma verdadeiramente grande forma de educação. Ela demandará o reconhecimento de potencialidades interiores. Ela significará impor obrigações, não com base em abstrações "ideais", mas em concordância com a previsão de fatos futuros. Ela necessitará do treinamento de indivíduos e gerações inteiras para a realização dessas obrigações. Pela primeira vez nós somos capazes de ver que toda a literatura de "verdades" ideais, todos aqueles esquemas, contornes e inspirações nobres, de boa intenção, e tolas, todos aqueles livros, panfletos, e discursos são completamente inúteis. Todas as outras culturas, em uma fase correspondente de seu desenvolvimento, chamaram essas coisas pelo que elas são e as consignaram ao esquecimento. Seu único efeito tangível foi fazer com que acadêmicos decrépitos escrevessem livros sobre elas depois. Permitam-me repetir: Para o mero observador pode haver tais coisas como verdades; para a vida não há verdades, somente fatos.

Isso me leva à questão do pessimismo. Quando em 1911, sob a impressão dos eventos em Agadir, eu subitamente descobri minha "filosofia", o mundo euro-americano estava infundido com o otimismo trivial da era darwinista. Com o título de meu livro, escolhido em oposição instintiva ao humor dominante, eu inconscientemente coloquei o dedo no aspecto da evolução que ninguém queria ver. Se eu tivesse que escolher de novo agora, eu tentaria com outra fórmula atingir o pessimismo igualmente trivial de hoje. Eu seria a última pessoa a manter que a história pode ser avaliada por meios de um slogan.

Mas seja como for, no que concerne ao "objetivo da humanidade" eu sou um pessimista convicto e cabal. Conforme eu vejo, a humanidade é uma entidade zoológica. Eu não vejo progresso, nem objetivo ou caminho para a humanidade, exceto talvez nas mentes dos progressistas ocidentais. Nessa mera massa de população eu não posso distinguir tal coisa como um "espírito", nem falar em uma unidade de esforço, sentimento, ou entendimento. O único lugar onde eu posso identificar um avanço significativo da vida em direção a algum objetivo particular, uma unidade de alma, vontade, e experiência, é na história das culturas. O que nós descobrimos ali, com certeza, é limitado e factual. Ainda assim nos mostra uma progressão do desejo à realização, culminando em novas tarefas que não assumem a forma de slogans éticos e generalidades mas, ao invés, de objetivos históricos tangíveis.

Quem escolha chamar isso de pessimismo revelará assim seu idealismo absolutamente pedestre. Esse tipo de pessoa vê a história como uma estrada, com a humanidade seguindo constantemente em uma direção, eternamente seguindo algum clichê filosófico ou outro. Os filósofos, cada um a sua própria maneira, mas não obstante "corretamente" em cada caso, há muito já atingiram a terminologia sublime e abstrata para descrever o verdadeiro objetivo e essência de nossa jornada terrena. Consiste ainda em otimismo seguir perseguindo esses slogans sem jamais alcançá-los. Um fim concebível para toda essa busca estragaria o ideal. Quem levante objeção a tudo isso é um pessimista.

Eu me envergonharia se seguisse pela vida com ideais tão vulgares. Há em tudo isso a insegurança dos sonhadores e covardes natos, pessoas que não são capazes de encarar  realidade e formular um objetivo real com umas poucas palavras razoáveis. Eles insistem em generalidades amplas que brilham à distância. Isso acalma os medos daqueles que são impotentes em relação a tudo que demanda liderança ou iniciativa. Eu sou consciente de que um livro como o meu pode ter consequências devastadoras para essas pessoas. Alemães tem escrito para mim da América, que para pessoas determinadas em ser algo na vida, o livro possui o efeito de um tônico fortificante. Ainda assim, aqueles nascidos apenas para sonhos, poesia, e oratória podem ser contaminados por qualquer livro. Eu conheço esses "belos jovens"; as universidades e círculos literários estão repletas deles. Primeiro foi Schopenhauer, e então Nietzsche, que os libertaram da obrigação de gastar energias. Agora eles encontraram um novo libertador.

Não, eu não sou um pessimista. Pessimismo significa não ver mais qualquer tarefa. Eu vejo tantas tarefas por resolver que eu temo que não terei nem tempo, nem homens suficientes para realizá-las. Os aspectos práticos da física e da química nem ao menos se aproximam dos limites de suas possibilidades. A tecnologia tem ainda que alcançar seu pico em quase todos os campos. Uma das principais tarefas ainda confrontando a filologia clássica é criar uma imagen da antiguidade que removerá das mentes de nossa população educada a imagem "clássica", com seu convite ao idealismo pedestre.

Não há lugar melhor do que a antiguidade clássica para entender como as coisas realmente estão no mundo, e como o romantismo e os ideais abstratos tem sido despedaçados de novo e de novo por eventos factuais. As coisas seriam bastante diferentes para nós se nós tivéssemos gasto mais tempo na escola com Tucídides e menos com Homero. Até agora nenhum estadista já pensou em escrever um comentário sobre Tucídides, Políbio, ou Tácito para nossos jovens. Nós não temos nem uma história econômica da antiguidade, nem uma história da política antiga. Apesar dos paralelos assombrosos com a história européia ocidental ninguém jamais escreveu uma história política da China até o reino de Shih Huang Ti. A Lei, imposta pela estrutura social e econômica de nossa civilização, está ainda em seus estágios iniciais de ser investigada. Segundo aqueles familiares com o campo, a ciência da jurisprudência tem ainda que se expandir para além da filologia e do escolasticismo seco. A economia política ainda não é efetivamente uma ciência.

Eu vou evitar discutir as tarefas políticas, econômicas, e organizacionais que nós encaramos em nosso próprio futuro. O que nossos contemplativos e idealistas estão buscando é uma Weltanschauung confortável, um sistema filosófico que demanda apenas que sejamos convencidos por ele; eles querem uma desculpa moral para sua covardia. Esses são os debatedoes natos que desperdiçam seus dias nos rincões remotos da vida discutindo coisas. Deixemos que eles fiquem lá.

Nós não podemos desenvolver um programa para o futuro milênio da humanidade sem correr o risco dele ser abortado imediatamente pela realidade. É possível, porém, fazer algo do tipo para os próximos poucos séculos de cultura faustiana, cujos contornos históricos são visíveis. Quais são as implicações desses fatos? O orgulho puritano da Inglaterra diz, "Tudo é predestinado. Portanto eu devo emergir vitorioso". Os outros dizem, "Tudo é predestinado. Isso é prosaico e nada idealista. Assim não vale a pena nem tentar". Mas a verdade é que as tarefas encarando as pessoas factuais entre nós ocidentais são inúmeras. Para os românticos e ideólogos, porém, que não podem pensar o mundo sem escrever poemas, pintar quadros, desenvolver sistemas éticos, ou solenes Weltanschauungen, é bem compreensivelmente um prospecto desesperançoso.

Eu afirmarei diretamente - que aqueles que quiserem chorem em protesto: a importância histórica da arte e do pensamento abstrato é seriamente superestimada. Não importa o quão importante seu papel tenha sido durante grandes eras, sempre houve coisas mais essenciais. Na história da arte a importância de Grünewald e Mozart não pode ser superestimada. Na história real das de Carlos V e Luís XIV sua existência é completamente insignificante. Pode ser que um grande evento histórico estimule um artista. O reverso jamais ocorreu. O que está sendo produzido ao nível de arte hoje nem ao menos possui importância para a história da arte. E no que concerne a filosofia acadêmica de hoje, nenhuma de suas várias "escolas" possui a menor pertinência para a vida ou para a alma. Nem nossos cidadãos educados ou acadêmicos nas outras disciplinas estão realmente prestando atenção a elas. Tudo para que elas servem é para que dissertações sejam escritas sobre elas, que serão citadas em ainda outras dissertações, nenhuma das quais jamais será lida a não ser por futuros professores de filosofia.

Foi Nietzsche quem questionou a validade da ciência. Já é hora de fazermos as mesmas perguntas à arte. Eras sem arte e filosofia genuínas podem ainda ser grandes eras; os romanos demonstraram isso para nós. Porém para aqueles que estão sempre um passo atrás dos tempos, as artes são sinônimo da própria Vida.

Não para nós, porém. Pessoas me disseram que sem arte a vida não vale a pena ser vivida. Eu pergunto em retorno: Para quem ela não vale a pena ser vivida? Eu não daria a mínima para o fato de ter vivido como escultor, filósofo ético, ou dramaturgo nos dias de Caio Mário e César. Nem eu me interessaria por ter sido membro de algum Círculo Stefan George, atacando a política romana de trás do Fórum com a pose grandiosa do littérateur.

Ninguém poderia ter uma afinidade maior pela grande arte de nosso passado - pois não há nenhuma hoje - do que eu. Eu não me interessaria por viver sem Goethe, Shakespeare, ou os grandes monumentos arquitetônicos antigos. Eu fico excitado com qualquer obra de arte renascentista sublime, precisamente porque eu tenho noção de suas limitações. Eu amo Bach e Mozart mais do que posso expressar; mais isso não pode me fazer falar dos milhares de escritores, pintores, e filósofos que inundam nossas cidades como verdadeiros artistas e pensadores.

Há mais pintura, escrita, e "delineações" acontecendo na Alemanha hoje do que em todos os outros países juntos. Isso é cultura? Ou é uma deficiência de nosso senso de realidade? Nós somos tão ricos assim em talento criativo, ou carecemos de energia prática? E os resultados justificam de alguma maneira toda a auto-propaganda barulhenta?

O expressionismo, a moda de ontem, não produziu uma única personalidade ou obra artística notável. Assim que eu comecei a questionar a sinceridade daquele movimento eu fui silenciado por mil vozes. Pintores, músicos, e poetas tentaram provar que eu estava errado, mas com palavras, não com ações. Eu estarei refutado quando eles se apresentarem com um equivalente de Tristão, da Sonata para Piano nº29, de Rei Lear, ou das pinturas de Marées.

É um grande equívoco considerar esses "movimentos" flácidos, afeminados, supérfluos como os fenômenos necessários de nossa era. Eu chamo isso de abordagem decorativa. A arquitetura, a pintura, a poesia, a religião, a política, mesmo a filosofia são tratadas como artesanatos, como técnicas que podem ser ensinadas e aprendidas entre as quatro paredes do estúdio. Este é o argumento que emana de todos os nossos "círculos" e fraternidades, cafés e salões de leitura, exibições, jornais, e editoras - e seu fedor alcança os céus. Ele não apenas quer ser tolerado, como ele quer domínio total. Ele se diz alemão. Ele almeja reivindicar o futuro.

Mesmo nessa área eu vejo tarefas a nossa frente, porém eu procuro em vão pelos homens (homens!) para realizá-los. Uma das tarefas para nosso século é o romance alemão. Até agora nós tivemos apenas Goethe. A arte do romance demanda personalidades impressionantes, superiores em vigor e amplitude de visão, geradas em excelência cultural, altivas porém dotadas de tato em suas perspectivas. Ainda não há prosa alemã comparável à inglesa e à francesa. O que nós temos é o estilo individual de escritores singulares, exemplos isolados de maestria pessoal contra um pano-de-fundo de performance média muito pobre. O romance poderia fazer emergir essa melhora. Hoje em dia, porém, homens práticos como os industrialistas e oficiais do exército estão usando uma linguagem melhor, mais sonora, mais clara, e mais profunda do que os rascunhadores de quinta categoria que acham que estilo é um esporte.

Aqui na terra de Till Eulenspiegel nós temos que ainda produzir uma comédia à grande maneira, sublime e profunda, esperta, trágica, leve e refinada. É agora quase a única forma remanescente na qual um escritor pode ser poeta e filósofo ao mesmo tempo, e sem pretensiosidade. Como Nietzsche há pouco tempo, eu ainda sinto a necessidade por uma Carmen alemã, cheia de tempero espirituosidade, faiscando com melodia e ritmo, uma obra para se erguer na orgulhosa tradição de Mozart, Strauss, Bruckner, e do jovem Schumann. Mas os acrobatas orquestrais de hoje são incompetentes. Desde a morte de Wagner nenhum único grande criador de melodia apareceu em cena.

Houve um tempo em que a arte era uma iniciativa vital, quando o ritmo da vida tomava o controle de artistas, de suas obras, e de seu público de maneira tão notável que a profundidade de pensamento, ao invés da exatidão formal, era o verdadeiro critério de grandeza artística. Ao invés desse ritmo vital, nós temos hoje o que é chamado de "contorno criativo" - a coisa mais desprezível imaginável. Tudo que carece de vida está sendo "delineado". Estão "delineando" uma cultura privada com teosofia e cultistas; estão "delineando" uma religião privada com edições de Buda em papel manufaturado; estão "delineando" um Estado no espírito de Eros. Desde a Revolução tem havido "delineamentos" para agricultura, comércio, e indústria.

Esses ideais deveriam ser despedaçados; quanto mais barulhento, melhor. Dureza, dureza romana está agora assumindo o controle. Logo não haverá espaço para nada mais. Arte, sim; mas em concreto e aço. Literatura, sim; mas escritas por homens com nervos de aço e profundidade descompromissada de visão. Religião, sim; mas pegue seu hinário, não sua edição clássica de Confúcio, e vá à Igreja. Política, sim; mas nas mãos de estadistas, e não idealistas. Nada mais será de consequência. E nós não devemos jamais perder de vistas o que se encontra por trás e diante de nós, cidadãos desse século. Nós alemães jamais produziremos de novo um Goethe, mas sim um César.


sábado, 12 de maio de 2012

A moral de Marx nos ingleses




A moral marxista é também de origem inglesa. O marxismo revela em cada frase que os processos de pensamento a partir do qual nasceram foram teológicos e não políticos. Sua teoria econômica é o resultado de uma atitude moral fundamental, e a visão materialista da história é simplesmente o capítulo final de uma filosofia com raízes na Revolução Inglesa, cujos humores bíblicos permaneceram dominantes no pensamento inglês.

É por isso que os conceitos básicos de Marx são sentidos como alternativas morais. As palavras "Socialismo" e "Capitalismo" são os termos para o bem e o mal desta religião irreligiosa. O "burguês" é o diabo, o assalariado é o anjo de uma nova mitologia, e necessita-se de apenas uma amostra vulgar dos caminhos do Manifesto Comunista, para reconhecer-se por trás da máscara literária, um "Cristianismo dos Independentes". A evolução social é "a vontade de Deus." O "objetivo final", em uma idade anterior, era a salvação eterna, o colapso "da civilização burguesa"costumava ser chamado de Juízo Final.

Marx conseguiu pregar o desprezo pelo trabalho. Talvez ele mesmo não tenha percebido isso. O trabalho (longo, duro, cansativo) é para ele uma desgraça, e o ganho sem esforço uma bênção. Por detrás do desprezo tipicamente Inglês para com o homem que vive com o suor de seu próprio rosto, é que podemos sentir o instinto do Viking, cuja vocação é a pirataria e não remendar velas. Por este motivo, o trabalhador manual é mais escravo na Inglaterra do que em qualquer outro lugar. E a sua escravidão é moral, ele sente que sua profissão se opõe ao que ostenta o título de "Gentleman". Os conceitos de "burguesia" e "proletariado" geralmente refletem a preferência do inglês para os negócios, em vez do trabalho manual. [20] O primeiro é uma bênção, o último uma calamidade, um é nobre, o outro, plebe. Mas, com seu ódio os infelizes dizem: "O negócio é a ocupação do mal, o trabalho manual do bom." (20. Mas é claro que não sobre trabalho mental. Assim como o intelectual Inglês foi por escolha, quer um Tory ou um Whig, ele teve de escolher entre os dois novos grupos econômicos. Sendo um "Gentlemen", ele naturalmente optou pelos grandes negócios.)

Esta é a explicação para a atitude mental que deu origem à crítica social de Marx e que o tornou tão catastrófico para o verdadeiro socialismo. Ele sabia a natureza do trabalho apenas do ponto de vista Inglês, como um meio de ficar rico, como um meio carente de toda profundidade moral. Só sucesso e dinheiro, os sinais visíveis e tangíveis da graça de Deus, foram importados da ética. O inglês não tem noção da dignidade do trabalho duro. Para ele, o trabalho é uma coisa humilhante, uma necessidade feia. Vê de maneira compassiva a pobre alma que não tem nada além do trabalho, que não possui nada além de mais e mais trabalho, mas que acima de tudo, nunca terá riqueza no futuro! Se Marx tivesse entendido o significado do trabalho na Prússia, da atividade de sua própria causa, de serviço em nome da totalidade, pois "todos juntos" e não para si mesmo, do dever que enobrece, independentemente do tipo de trabalho realizado, se tivesse sido capaz de compreender estas coisas, seu Manifesto provavelmente nunca teria sido escrito.

Sobre este assunto ele era auxiliado por seu instinto racial, que ele mesmo caracterizou em seu ensaio sobre a questão judaica. A maldição do trabalho físico se pronunciou no início da Gênesis, a proibição da profanação do Sabbath pelo trabalho, essas coisas fizeram-no receptivo ao pathos do Antigo Testamento e a sensibilidade inglesa. Daí o seu ódio àqueles que não precisam trabalhar. O socialismo de Fichte iria acusar essas pessoas de preguiça, iria marcá-los como irresponsáveis, preguiçosos e parasitas dispensáveis. Mas o instinto marxista os inveja. Eles estão muito bem desta meneira, portanto, eles [marxistas] devem se revoltar contra esta situação. Marx inoculou o seu proletário com um desprezo pelo trabalho. Seus discípulos fanáticos querem destruir toda a cultura, a fim de diminuir a quantidade de trabalho indispensável. Martin Luther elogiou a atividade manual mais simples como agrado a Deus, Goethe escreveu sobre a "demanda do dia." No entanto, Marx sonhava com o proletariado "Feácio" que possuiria tudo sem nenhum esforço. Isto é, afinal, o significado da expropriação do abençoado. E, tanto quanto o o instinto inglês se envolveu, ele estava correto. O que o inglês chama de felicidade, negócios de sucesso que poupa trabalho físico e, portanto, faz um "Gentlemen", é bom para todos os ingleses. Para nós, é obsceno. E cheira a mafiosos e esnobes.

Oswald Spengler in Prussianismo e Socialismo

domingo, 7 de agosto de 2011

Nietzsche e Seu Século

por Oswald Spengler

Voltando os olhos para o século XIX e deixando seus grandes homens passarem diante dos olhos de nossa mente, nós podemos observar uma coisa incrível sobre a figura de Friedrich Nietzsche, algo que dificilmente foi perceptível em seu próprio tempo. Todos os outros personagens fantásticos, incluindo Wagner, Strindberg e Tolstói, refletem em certa medida a cor e forma daqueles anos. Cada um deles estava de alguma forma amarrado com o otimismo superficial dos progressistas, com sua ética social e utilitarismo, sua filosofia da matéria e da energia, pragmatismo e "adaptação"; cada um deles fez sacrifícios após sacrifícios ao espírito do tempo. Apenas uma pessoa representa uma separação radical desse padrão. Se a palavra "extemporâneo", que ele mesmo criou, é aplicável a alguém, então é a Nietzsche. Busca-se em vão através de toda sua vida e todo seu pensamento por alguma indicação de que ele possa ter sucumbido internamente a algum modismo.

Nesse sentido ele é a antítese de, e ainda assim em algumas maneiras profundamente relacionado a, um segundo alemão dos tempos modernos cuja vida foi um grande símbolo: Goethe. Esses são os dois únicos alemães notáveis cuja existência possui significância profunda à parte de e em adição a suas obras. Porque amobs estavam conscientes disso desde o início e continuamente deram expressão a essa consciência, sua existência tornou-se um tesouro para nossa nação e uma parte integral de sua história espiritual.

Foi a boa sorte de Goethe ter nascido no ápice da cultura ocidental, em um tempo de intelectualidade rica e madura que ele mesmo eventualmente veio a representar. Ele tinha apenas que tornar-se o epítome de seu próprio tempo de modo a alcançar a grandeza disciplinada implicada por aqueles que posteriormente chamaram-no o "Olímpico". Nietzsche viveu um século depois, e no meio tempo uma grande mudança ocorreu, uma que apenas agora nós somos capazes de compreender. Foi seu destino vir ao mundo após o período rococó, e estar em meio as décadas completamente aculturais de 1860 e 1870. Considere as ruas e casas nas quais ele teve que viver, as modas, os móveis, e os costumes sociais que ele tinha que observar. Considere o modo como as pessoas moviam-se em círculo sociais em sua época, o modo como pensavam, escreviam, e sentiam. Goethe viveu em uma época plena com respeito pelas formas; Nietzsche almejava desesperadamente por formas que haviam sido destruídas e abandonadas. Goethe precisava apenas afirmar o que ele viu e experimentou ao seu redor; Nietzsche não tinha recurso senão protestar apaixonadamente contra tudo contemporâneo, se ele devia resgatar alguma coisa que seus antepassados haviam transmitido-lhe como herança cultural. Ambos estes homens lutaram durante toda sua vida por uma  forma e disciplina interiores rígidas. Mas o século XIX estava em si mesmo "em forma". Possui o tipo mais elevado de sociedade que a Europa Ocidental jamais conheceu. O século XIX não tinham nem uma sociedade distinguida ou qualquer outro tipo de atributos formais. À parte dos costumes incidentais da classe alta urbana ele possuía apenas os restos espalhados, preservados com grande dificuldade, da tradição aristocrática e da classe média. Goethe foi capaz de compreender e solucionar os grandes problemas de seu tempo como um membro reconhecido de sua sociedade, como nós aprendemos em Wilhelm Meister e Afinidades Eletivas; Nietzsche podia permanecer verdadeiro a sua tarefa apenas virando as costas para a sociedade. Sua solidão assombrosa permanece como um símbolo acima e contra a alegre gregariedade de Goethe. Um desses grandes homens deu forma às coisas existentes; o outro ruminou sobre coisas inexistentes. Um deles trabalhou por uma forma prevalecente; o outro contra uma prevalecente ausência de forma.

À parte isso, porém, forma era algo muito diferente para cada um deles. De todos os grandes intelectuais alemães, Nietzsche foi o único músico nato. Todos os outros - pensadores, poetas, e pintores - haviam sido ou moldadores de material ou separadores de material. Nietzsche vivia, sentia, e pensava pelo ouvido. Ele era, afinal, dificilmente apto com os olhos. Sua prosa não é "escrita", ela é ouvida - poder-se-ia até mesmo dizer cantada. As vogais e cadências são mais importantes do que as símiles e metáforas. O que ele sentia conforme ele vasculhava as eras era sua melodia, sua métrica. Ele descobriu os acordes musicais de culturas estrangeiras. Antes dele, ninguém havia sabido o tempo da história. Muitos de seus conceitos - o Dionisíaco, o Pathos da Distância, o Eterno Retorno - devem ser compreendidos bastante musicalmente. Ele sentiu o ritmo do que é chamado nobreza, ética, heroísmo, distinção, e moralidade-mestra. Ele foi o primeiro a experimentar como sinfonia a imagem da história que havia sido criada por pesquisa acadêmica a partir de dados e números - a sequência rítmica de eras, costumes, e atitudes.

Ele mesmo tinha música, conforme ele andava, falava, vestia, experimentava outras pessoas, constatava problemas, e tirava conclusões. O que Bildung havia sido para Goethe, para Nietzsche tato no sentido mais amplo: tato social, moral, histórico, e linguístico, um sentimento para a sequência apropriada das coisas, tornada mais aguçada por seu sofrimento em uma era que tinha muito pouco desse sofrimento. Como Zaratustra, o Tasso de Goethe nasceu do sofrimento, mas Tasso sucumbiu a um sentimento de fraqueza quando confrontado por um mundo contemporâneo que ele amava e que ele considerava superior a si mesmo. Zaratustra abominava o mundo contemporâneo, e fugiu dele para mundos distantes do passado e do futuro.

A inabilidade de sentir-se "em casa" no próprio tempo - esta é a maldição alemã. Por causa da culpa de nosso passado nós viemos a florescer tarde demais e rápido demais. Começando com Klopstock e Lessing, nós tivemos que cobrir em oitenta anos uma distância para a qual outras nações tiveram séculos. Por essa razão nós nunca desenvolvemos uma tradição formal interior ou uma sociedade distinta que pudesse agir como guardiã de tal tradição. Nós pegamos emprestadas formas, motivos, problemas, e soluções de todos os lados e lutamos com elas, onde outros cresceram com elas e nelas. Nosso fim estava implícito em nosso começo. Heinrich von Kleist descobriu - ele foi o primeiro a fazê-lo - a problemática de Ibsen ao mesmo tempo em que ele lutou para emular Shakespeare. Esse estado trágico produziu na Alemanha uma série de personalidades artísticas impressionantes em um tempo em que Inglaterra e França já haviam partido para produzir literati - arte e pensamento como profissão ao invés de como um destino. Mas isso também causou a fragmentação e frustração expressada em muito de nossa arte, o impedimento de objetivos finais profundidade artística.

Hoje nós usamos os termpos "Clássico" e "Romântico" para denotar a antítese que apareceu por volta de 1800 em todo lugar na Europa Ocidental, inclusive na Petersburgo literária. Goethe era um Clássico na mesma medida em que Nietzsche era um Romântico, mas estas palavras meramente designam as tonalidades predominantes em suas naturezas essenciais. Cada um deles também possuía a outra potencialmente, a qual em tempos impelia para a frente. Goethe, cujos monólogos de Fausto e Westöstlicher Diwan são os pontos altos da sensibilidade romântica, lutou em todos os momentos para confinar esse impulso pela distância e ausência de fronteiras dentro de formas tradicionais claras e estritas. Similarmente, Nietzsche usualmente suprimia sua inclinação adquirida pelo Clássico e pelo racional, que tinham uma fascinação dupla para ele por razão de temperamento e profissão filológica, pelo que ele denominou Dionisíaco, ao menos quando ele estava avaliando. Ambos homens eram casos fronteiriços. Assim como Goethe foi o último dos Clássicos, Nietzsche foi, junto a Wagner, o último dos Românticos. Por suas vidas e suas criações eles exauriram as possibilidades desses dois movimentos. Após eles, não era mais possível representar o sentido das eras nas mesmas palavras e imagens - os imitadores do drama clássico e os Zaratustras-dos-últimos-dias provaram isso. Ademais, é impossível inventar um novo método de ver e dizer como o deles. A Alemanha pode muito bem parir mentes formativas impressionantes no futuro; porém, felizmente para nós, eles vão não obstante ser ocorrências isoladas, pois nós chegamos ao fim do grande desenvolvimento. E eles sempre serão sobrepujados pelas duas grandes figuras de Goethe e Nietzsche.

Uma característica essencial do Classicismo Ocidental foi sua preocupação intensa com o mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo em que buscava controlar impulsos humanos que tendiam em direções opostas, ele tentava fazer com que passado e futuro coalescessem na situação contemporânea. O ditado de Goethe sobre as "Demandas do Dia", seu "presente alegre", implicam afinal que ele invocou vários tipos de figuras e eventos passados - seus Gregos, sua Renascença, Götz von Berlichingen, Fausto, e Egmont - de modo a infundi-los com o Espírito de seu tempo. O resultado é que lendo tais obras como Tasso ou Ifigênia nós não estamos de modo algum conscientes de precedentes históricos. Exatamente o oposto é o caso com os Românticos; seu domínio próprio eram lugares e tempos remotos. Eles almejavam ela fuga do presente para reinos distantes e estranhos, para o passado e para o futuro da história. Nenhum deles jamais teve um relacionamento profundo com as coisas que cercavam-nos.

O Romântico é enfeitiçado por tudo que é estranho a sua natureza, o Clássico pelo que é próprio a sua natureza. Nobres sonhadores por um lado, nobres mestres dos sonhos por outro lado. Um tipo adorava os conquistadores, os rebeldes, e os criminosos do passado, ou os Estados ideais e super-homens do futuro; o outro tipo construiu o estadismo em termos práticos e metódicos ou, como Goethe e Humboldt, até mesmo praticaram-no. Uma das obras-primas de Goethe é o diálogo entre Egmont e Guilherme de Orange. Ele amava Napoleão, pois ele foi testemunha de seus feitos em seu próprio tempo e localidade. Ele nunca foi capaz de recriar artisticamente as personalidades violentas do passado; seu Caesar permaneceu não-escrito. Mas esta é precisamente o tipo de personalidade que Nietzsche adorava - à distância. De perto, como com Bismarck, ele sentia-se repelido. Napoleão também teria repelido-o. Ele teria parecido-lhe rude, superficial, e acéfalo, como os tipos napoleônicos que rodeavam-no - os grandes políticos europeus e os comerciantes pragmáticos que ele nunca viu, nem mesmo compreendeu. Ele precisava de uma vasta distância entre o Então e o Agora de modo a ter um relacionamento genuíno com uma dada realidade. Assim ele criou seu Super-Homem e, quase tão arbitrariamente, a figura de Cesare Bórgia.

Essas duas tendências estão tragicamente presentes na mais recente história alemã. Bismarck era um Clássico da política. Ele baseava seus cálculos inteiramente em coisas que existiam, coisas que ele podia ver e manipular. Os patriotas fanáticos nem amavam-no ou compreendiam-no até que sua obra criativa aparecesse como produto finalizado, até que ele pudesse ser romanticamente transfigurado como um personagem mítico: "O Velho das Florestas Saxãs". Por outro lado, Ludwig II da Bavária, que pereceu como um Romântico e que nunca criou ou mesmo poderia ter criado qualquer coisa de valor duradouro, efetivamente recebeu esse tipo de amor (sem retorná-lo) não apenas do povo em grande medida, mas também de artistas e pensadores que deveriam ter olhado mais de perto. Kleist é considerado na Alemanha com, no máximo, uma admiração relutante que é quase equivalente à rejeição, particularmente naquelas instâncias em que ele foi bem-sucedido em superar sua própria natureza Romântica. Ele é interiormente muito remoto da maioria dos alemães, diferentemente de Nietzsche, cuja natureza e destino foram em muitas maneiras similares à do rei bávaro, e que é instintivamente honrado até mesmo por aqueles que nunca leram-no.

O desejo de Nietzsche pelo remoto também explica seu gosto aristocrático, que era aquele de um completo solitário e de uma personalidade visionária. Como o Romantismo ao estilo de Ossian que originou-se na Escócia, o primeiro Classicismo do século XIX começou no Tâmisa e foi posteriormente levado para o Continente. É impossível considerá-lo à parte do Racionalismo do mesmo período. Os classicistas engajavam em um ato de criatividade conscientemente e deliberadamente; eles substituíam imaginação livre com conhecimento, às vezes até mesmo com erudição acadêmico. Eles entendiam os gregos, a Renascença, e inevitavelmente também o mundo das questões contemporâneas ativas. Esses classicistas ingleses, todos eles de alto nível social, ajudaram a criar o liberalismo como uma filosofia de vida como era entendido por Frederico o Grande e seu século: a ignorância deliberada das distinções que eram sabidas existirem na vida prática mas que eram em todo caso não consideradas como obstáculos; a preocupação racional com questões de opinião pública das quais não poderia-se nem livrar-se ou apagar, mas que de algum modo tinham que ser tornadas inofensivas. Esse classicismo de classe alta deu origem à democracia inglesa - uma forma superior de tática, não um programa político codificado. Ele era baseado na longa e intensiva experiência de um estrato social que habitualmente lidava com possibilidades reais e práticas, e que nunca esteve sob risco de perder sua congenialidade essencial.

Goethe, que também era consciente de seu nível social, jamais foi um aristocrata no sentido apaixonado e teórico - diferentemente de Nietzsche, que carecia da habitualidade de uma experiência prática regular. Nietzsche jamais tornou-se familiarizado com a democracia de seu tempo em toda sua força e fraqueza. Certamente, ele rebelou-se contra o instinto de rebanho com a fúria de sua alma extremamente sensível, mas a causa principal de sua ira deve ser encontrada em algum lugar do passado histórico. Ele era indubitavelmente o primeiro a demonstrar de modo tão radical como em todas as culturas e épocas do passado as massas não contam para nada, que elas sofrem da história mas não criam-na, que eles estão em todos os momentos peões e vítimas da vontade pessoal de indivíduos e classes nascidas para governar. Pessoas já haviam sentido isso muitas vezes antes, mas Nietzsche foi o primeiro a destruir a imagem tradicional da "humanidade" como progresso na direção da solução de problemas ideais através da agência de seus líderes. Aqui está a imensa diferença entre a historiografia de um Niebuhr ou de um Ranke, que como idéia eram similarmente de origem romântico, e o método de visão histórica de Nietzsche. Seu modo de olhar dentro da alma de épocas e povos passados superou a mera estrutura pragmática de fatos e eventos.

Porém tal técnica necessitava de distância. O classicismo inglês, que produziu o primeiro historiador moderno da Grécia em George Grote - um comercianete e político prático - era algo exclusivo da alta sociedade. Ele enobrecia os gregos considerando-os como pares, apresentando-os no mais verdadeiro sentido da palavra como seres humanos distintos, cultivados, intelectualmente refinados que em todo momento agiam "com bom gosto" - mesmo Píndaro, poeta que a escola inglesa de filologia clássica foi a primeira a preferir acima de Horácio e Virgílio. Dos círculos mais altos da sociedade inglesa, esse classicismo entrou nos únicos círculos correspondentes na Alemanha, as cortes dos pequenos principados, onde os tutores e sacerdotes agiam como intermediários. A atmosfera cortesã de Weimar era o mundo no qual a vida de Goethe tornou-se o símbolo da convivalidade alegre e da atividade propositada. Weimar era o centro da Alemanha intelectual, um lugar que oferecia satisfação calma em um grau desconhecido por qualquer outro escritor alemão, uma oportunidade para crescimento harmonioso, amadurecimento, e envelhecimento que era clássico em um sentido especificamente alemão.

Próxima a essa carreira há outra, que também terminou em Weimar. Ela começou na reclusão da casa de um pastor protestante, o berço de muitas senão da maioria das grandes mentes alemãs, e alcançou seu ápice na solidão ensolarada de Engadin. Nenhum outro alemão jamais viveu uma existência privada tão apaixonada, completamente distante de toda sociedade e publicidade - apesar de todos os alemães, mesmo se eles são personalidades "públicas", possuem um desejo por essa solidão. Seu desejo intenso por amizada foi em última análise simplesmente sua inabilidade de liderar uma vida social genuína, e assim era mais uma forma espiritual de solidão. Ao invés da amistosa "casa de Goethe" em Weimar, nós vemos as tristes e pequenas casas-de-campo em Sils-Maria, a solidão das montanhas e do mar, e finalmente um colapso solitário em Turim - foi a carreira mais profundamente romântica que o século XIX já ofereceu.

Não obstante, sua necessidade de comunicar-se era mais forte do que ele mesmo acreditava, muito mais forte em qualquer medida do que a de Goethe, que era um dos homens mais taciturnos apesar da vida social que cercava-o. As Afinidades Eletivas de Goethe é um livro secreto, para não falar em Os Anos de Viagem de Wilhelm Meister e Fausto II. Seus poemas mais profundos são monólogos. Os aforismas de Nietzsche jamais são monólogos; nem e Canção da Noite e os Ditirambos de Dionísio completamente monólogos. Uma testemunha invisível está sempre presente, sempre observando. É por isso que ele permanecem em todos os momentos um Protestante. Todos os românticos viveram em escolas e círculos sociais, e Nietzsche inventou algo do tipo imaginando que seus amigos eram, como ouvintes, seus pares intelectuais. Ou novamente, ele criou no passado remoto e no futuro um círculo de íntimos, apenas para reclamar com eles, como Novalis e Hölderlin, de sua solidão. Toda sua vida foi preenchida com a tortura e prazer da renúncia, do desejo de render-se e de forçar sua natureza interior, de amarrar-se de alguma maneira a alguma coisa que sempre provou-se ser estranha a ele. Porém foi assim que ele desenvolveu um entendimento da alma das épocas e culturas que jamais revelariam seus segredos a mentes clássicas e seguras.

Esse pessimismo orgânico de seu ser explica as obras e a sequência na qual elas apareceram. Nós que não fomos capazes de experimentar o grande florescimento do materialismo em meados do século XIX jamais deveríamos cessar de ficarmos assombrados com a audácia que foi posta na escrita, em tão tenra idade e contrariamente às opiniões do academicismo filológico contemporâneo, de O Nascimento da Tragédia. A famosa antítese de Apolo e Dionísio contém muito mais do que até mesmo o leitor médio de hoje pode compreender. A coisa mais significativa sobre aquele ensaio não foi que seu autor descobriu um conflito interior na Grécia "Clássica", a Grécia que havia sido a manifestação mais pura da "humanidade" para todos os outros exceto talvez Bachofen e Burckhardt. Mais importante ainda foi que mesmo naquela idade ele possuía a visão superior que permitia-lhe perscrutar dentro do coração de culturas inteiras como se elas fossem indivíduos vivos, orgânicos. Nós precisamos apenas ler Mommsen e Curtius para notar a tremenda diferença. Os outros consideravam a Grécia simplesmente como a soma das condições e eventos ocorrendo dentro de um certo período do tempo e do espaço. Nosso método presente de olhar para a história deve sua origem, mas não sua profundidade, ao Romantismo. Nos dias de Nietzsche, a história, no que concernia Grécia e Roma, era pouco mais do que filologia aplicada, e em relação aos povos ocidentais concernia pouco mais do que pesquisa arquivológica aplicada. Ela inventou a idéia de que a história começou com os registros escritos.

A liberação dessa perspectiva veio do espírito da música. Nietzsche o músico inventou a arte de sentir o próprio caminho no estilo e no ritmo das culturas estrangeiras, à parte de e muitas vezes em contradição com os documentos escritos. Mas que importavam mesmo os documentos escritos? Com a palavra "Dionísio" Nietzsche descobriu aquilo que os arqueólogos eventualmente trouxeram à luz trinta anos depois - o submundo e o inconsciente da Cultura Clássica, e ultimamente a força espiritual que subjaz toda a história. A descrição histórica tornou-se a psicologia da história. O século XIX e o classicismo, incluindo Goethe, acreditavam em "cultura" - uma única, verdadeira, mental e moral cultura como a tarefa de uma humanidade unificada. Desde o início Nietzsche falou bem naturalmente de "culturas" como fenômenos naturais que simplesmente começavam em um certo tempo e lugar, sem razão ou objetivo ou o que seja que uma interpretação demasiado humana pudesse fazer daquilo. "Em um certo tempo" - o ponto foi tornado claro desde o início no livro de Nietzsche de que todas essas culturas, verdades, artes, e atitudes são peculiares a um modo de existência que faz seu aparecimento em u mcerto tempo e então desaparece para sempre. A idéia de que cada fato histórico é a expressão de um estímulo espiritual, que culturas, épocas, estados e raças possuem uma alma como aquela dos indivíduos - esse foi um passo tão grande na análise de profundidade histórica que até mesmo o próprio autor não estava consciente na época de suas verdadeiras implicações.

Porém, uma das coisas que o romântico deseja é escapar de si mesmo. Esse desejo, junto com o grande azar de ter nascido naquele período particular da história, fizeram com que Nietzsche tornasse-se o arauto da mais banal forma de realismo em seu segundo livro, Humano, Demasiado Humano. Esses foram os anos nos quais o Racionalismo Ocidental, após abandonar seus primórdios gloriosos com Rousseau, Voltaire, e Lessing, terminou como farsa. As teorias de Darwin, junto com a nova fé na matéria e na energia, tornaram-se a religião das grandes cidades; a alma foi considerada como um processo químico envolvendo proteínas, e o sentido do universo resumiu-se à ética social de filisteus iluminados. Nem uma única fibra do ser de Nietzsche era parte desses desenvolvimentos. Ele já havia dado vazão a seu desprezo na primeira de suas "Considerações Intempestivas", mas o acadêmico nele invejava Chamfort e Vauvenargues e sua leveza e às vezes cínica maneira de tratar tópicos sérios no estilo do grand monde. O artista e o entusiasta nele estavam perplexos pela sobriedade massiva de um Eugen Dühring, que ele confundiu com verdadeira grandeza. Caráter sacerdotal que ele era, ele precedeu a desmascarar a religião como um pré-conceito. Agora o objetivo da vida era o conhecimento, e o objetivo da história tornou-se para ele o desenvolvimento da inteligência. Ele disse isso em um tom de ridículo que servia para aguçar sua própria paixão, precisamente porque era doloroso fazê-lo, e porque ele sofria do desejo insatisfeito de criar em meio a seu próprio tempo uma imagem sedutora do futuro que contrastasse com tudo em que ele nasceu.
Enquanto o utilitarismo extático da escola darwinista era extremamente remoto em relação ao seu modo de pensar, ele tomou dela certas revelações secretas com as quais nenhum darwinista jamais sonou. Em Aurora e A Gaia Ciência apareceram, em adição a uma maneira de olhar para as coisas que pretendia ser prosaica e mesmo desdenhosa, outra técnica de examinar o mundo - uma atitude restrita, quieta, e admiradora que penetrou mais profundamente do que qualquer mero realista poderia esperar alcançar. Que, antes de Nietzsche, jamais havia falado da mesma maneira da alma de uma era, de um estado, uma profissão, do sacerdote e do herói, ou do homem e da mulher? Quem jamais foi capaz de resumir a psicologia de séculos inteiros em uma fórmula quase metafísica? Quem jamais havia postulado em história, ao invés de fatos e "verdades eternas", os tipos da vida heróica, sofredora, visionária, forte, e doentia como a substância atual dos eventos como eles ocorrem?

Esse era um tipo completamente novo de formas vivas, e somente poderia ter sido descoberto por um músico nato com um sentimento para ritmo e melodia. Seguindo essa apresentação da fisionomia das eras da história, uma ciência da qual ele foi e sempre será o criador, ele alcançou os limites exteriores de sua visão para descrever os símbolos de um futuro, seu futuro, que ele precisava de modo a ser limpo do resíduo da história contemporânea. Em um momento sublime ele conjurou a imagem do Eterno Retorno, como ela havia sido vagamente apresentada por místicos alemães na Idade Média - um círculo sem fim no vácuo eterno, na noite das eras incomensuráveis, um modo de perder a própria alma completamente nas profundezas misteriosas do cosmo, independentemente de tais coisas serem cientificamente justificáveis ou não. No meio dessa visão ele posicionou o Super-Homem e seu profeta, Zaratustra, representando o sentido incarnado da história humana, em toda sua brevidade, no planeta que era seu lar. Todas essas três criações eram completamente distantes, impossíveis de relacionar com condições contemporâneas. Por essa própria razão elas exerceram uma curiosa atração sobre cada alma alemã. Pois em cada alma alemã há um lugar no qual sonhos são sonhados de ideais sociais e de um futuro melhor para a humanidade. Goethe carecia de tal canto em sua alma, e é por isso que ele nunca tornou-se um personagem realmente popular. O povo sentia essa carência, e assim eles chamavam-no de arredio e frívolo. Nós jamais superaremos esse nosso devaneio; ele representa dentro de nós a porção não vivida de um grande passado.

Uma  vez tendo chegado a seu ápice, Nietzsche apresentou a questão sobre o valor do mundo, uma questão que acompanhava-o desde a infância. Fazendo-o ele pôs fim ao período da filosofia ocidental que havia considerado os tipos do conhecimento como seu problema central. Essa nova questão similarmente tinha duas respostas: uma resposta clássica e uma romântica ou, para colocá-lo nos termos do tempo, uma resposta social e uma aristocrática. "A vida possui valor na mesma medida em que serve a totalidade" - essa era a resposta dos ingleses educados que haviam aprendido em Oxford a distinguir entre o que uma pessoa afirmava como sua opinião e o que a mesma pessoa fazia em momentos decisivos como um político ou comerciante. "A vida é mais valiosa, quanto mais fortes forem seus instintos" - essa foi a resposta dada por Nietzsche, cuja própria vida era delicada e facilmente afetada. Seja como for, pela mesma razão que ele era remoto da vida ativa ele era capaz de compreender seus mistérios. Sua compreensão última da história real era que a Vontade de Poder é mais forte do que todas as doutrinas e princípios, e que ela sempre fez e sempre fará a história, não importa o que outros possam provar ou pregar contra isso. Ele não preocupava-se com a análise conceitual de "vontade"; para ele a coisa mais importante era a imagem da Vontade ativa, criativa, destrutiva na história. O "conceito" de vontade dava lugar ao "aspecto" de vontade. Ele não ensinava, ele simplesmente apontava as coisas: "Assim foi, e assim será." Mesmo que indivíduos teóricos e sacerdotais queiram mil vezes diferentemente, os instintos primordiais da vida ainda assim emergerão vitoriosos.

Que diferença entre a visão de mundo de Schopenhauer e esta! E entre os contemporâneos de Nietzsche, com seus planos sentimentais para melhorar o mundo, e esta demonstração de fatos! Tal realização coloca este último pensador romântico no próprio pináculo do seu século. Nisso nós somos todos seus pupilos, quer queiramos ser ou não, quer saibamos disso ou não. Sua visão já conquistou imperceptivelmente o mundo. Ninguém escreve história mais sem buscar ver as coisas sob sua luz.

Ele assumiu para si avaliar a vida usando fatos como o único critério, e os fatos ensinaram que a vontade mais forte ou mais fraca de vencer determinam se a vida é valiosa ou indigna, que bondade e sucesso são quase mutuamente exclusivas. Sua imagem do mundo alcançou sua culminação com uma magnífica crítica da moralidade na qual, ao invés de pregar moralidade, ele avaliou as moralidades que surgiram na história - não segundo qualquer sistema moral "verdadeiro" mas segundo seu sucesso. Isso foi de fato uma "transvaloração de todos os valores", e ainda que nós saibamos agora que ele declarou inexatamente a antítese entre moralidade cristã e moralidade-mestra como resultado de seu sofrimento pessoal durante a década de 1880, não obstante a antítese última da existência humana encontra-se por trás dessa afirmação; ele buscou-a, e sentiu-a, e acreditou que havia capturado-a com sua fórmula.
Se ao invés de "moralidade mestra" nós disséssemos a pratica instintiva de homens que estão determinados a agir, e ao invés de "moralidade cristã" os modos teóricos nos quais pessoas contemplativas avaliam, então nós teríamos diante de nós a natureza trágica de toda a humanidade, cujos tipos dominantes sempre não entenderão, combaterão, e sofrerão um com o outro. Ação e pensamento, realidade e ideal, sucesso e redenção, força e bondade - essas são as forças que jamais virão a termos uma com a outra. Porém na realidade histórica não é o ideal, a bondade, ou a moralidade que prevalecem - seu reino não é desse mundo - mas sim a decisividade, a energia, a presença mental, o talento prático. Esse fato não pode ser descartado com lamentações e condenações morais. O homem é assim, a vida é assim, a história é assim.

Precisamente porque toda ação era estranha a ele, porque ele sabia apenas como pensar, Nietzsche compreendeu a essência fundamental da vida ativa mehor do que qualquer grande personalidade ativa do mundo. Mas quanto mais ele compreendeu, mais timidamente ele recolheu-se de contato com a ação. Nesse modo seu destino romântico alcançou sua realização. Sob a força dessas últimas compreensões, a fase final de sua carreira tomou forma no contraste estrito àquela de Goethe, que não esta estranho à açãom as que considerava sua verdadeira vocação como sendo a poesia, e assim restringiu alegremente suas ações.

Goethe, o Conselheiro Privado e Ministro, o celebrado ponto focal do intelecto europeu, foi capaz de confessar durante seu último ano de vida, no ato final de seu Fausto, que ele olhava para sua vida como tendo alcançado realização plena. "Espere agora, tu és tão bela" - essa é uma frase expressiva da mais prazeirosa saciedade, falada no momento em que o trabalho físico ativo está completo sob o comando de Fausto, para perdurar agorar e para sempre. Foi o grande e último símbolo do Classicismo para o qual essa vida havia sido dedicada, e que levou da educação cultural controlada do século XVIII para o exercício controlado do talento pessoal do século XIX. 

Porém, não pode-se criar distância, apenas pode-se proclamá-la. Tanto quanto a morte de Fausto trouxe uma carreira clássica a um fim, a mente do mais solitários dos vagantes desapareceu com uma maldição sobre sua idade durante aqueles misteriosos dias em Turim, quando ele testemunhou as últimas névoas desaparecem de sua imagem do mundo e dos picos mais altos clarearem em suas vistas. Esse episódio final enigmático de sua vida é a própria razão pela qual a existência de Nietzsche tem tido uma forte influência sobre o mundo desde então. A vida de Goethe foi uma vida plena, e isso quer dizer que ela trouxe algo à completude. Incontáveis alemães honrarão Goethe, viverão com ele, e buscarão seu apoio; mas ele não pode jamais transformá-los. O efeito de Nietzsche é uma transformação, pois a melodia de sua visão não terminou com sua morte. A atitude romantica é eterna; ainda que sua forma possa às vezes estar unificada e completa, seu pensamento nunca é. Ele sempre conquistará novas áreas, ou destruindo-as ou mudando-as radicalmente. O tipo de visão de Nietzsche passará tanto a amigos como a inimigos, e estes por sua vez transmitir-lhe-ão a outros seguidores e adversários. Mesmo que algum dia ninguém mais leia suas obras, sua visão perdurará e será criativa.

Sua obra não é parte de nosso passado para ser aproveitada; é uma tarefa que faz de nós todos servos. Como uma tarefa ela é independente de seus livros e seu tema, e assim um problema do destino alemão. Em uma era que não tolera ideais outromundistas e vinga-se de seus autores, quando a única coisa de valor reconhecível é o tipo de ação impiedosa que Nietzsche batizou com o nome de Cesare Borgia, quando a moralidade dos ideólogos e dos melhoradores do mundo é limitada cada vez mais radicalmente do que nunca a escritos e discursos supérfluos e inócuos - em tal era, a não ser que aprendamos a agir conforme a história real quer que ajamos, nós cessaremos de existir como povo. Nós não podemos viver sem uma forma de sabedoria que não console meramente em situações difíceis, mas ajude a escapar delas. Esse tipo de sabedoria dura faz seu primeiro aparecimento no pensamento alemão com Nietzsche, apesar do fato de que estava mascarado em pensamentos e impressões que ele havia reunido de outras fontes. Para o povo mais esfomeado de história em todo o mundo, ele mostrou a história como ela realmente é. Sua herança é a obrigação de viver a história da mesma maneira.