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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Superando o Corpo e a Mente Burguesas

por Mark Dyal e Nick Fiorello


"Eu caminho entre essas pessoas e mantenho meus olhos abertos; elas se tornaram menores e estão se tornando cada vez menores: mas isso é por causa de seus ensinamentos sobre felicidade e virtude. Tanta gentileza, tanta fraqueza eu vejo. Tanta justiça e piedade, tanta fraqueza. Suaves, justos e gentis eles são uns com os outros, como grãos de areia são suaves, justos e gentis uns com os outros". - Zaratustra

Essa discussão da relação entre vitalidade corpórea e conceitual começou com dois tópicos históricos: a "eugenia espiritual" da Itália Fascista e a "eugenia propriamente dita" da Esparta de Licurgo. Na primeira, nós vimos que os fascistas desejavam transformar corpos burgueses fracos em corpos capazes de suportar o peso físico, moral e intelectual da revolução fascista, assim tornando a fisiologia central para o fascismo. Na segunda, nós vimos Licurgo demandar que os espartanos superem a decadência social pela transformação de suas expectativas e da posse de seus corpos.

O exemplo espartano, enquanto revelava as distâncias necessárias para a transvaloração corporal e social de comportamentos e valores decadentes, demonstrou também o poder do ideal grego. Esse ideal, que mantém a interconexão entre mente/alma e o que elas fazem com o corpo, levou à educação simultânea de mente e corpo. Licurgo promovia caráter e traços nobres e masculinos, enquanto limitava caminhos ao status de elite que não envolvessem o enobrecimento da mente pela devoção à guerra e ao sacrifício por Esparta.

Mesmo na descrição da Plutarco da Esparta de Licurgo, escrita uns 600 anos depois de Licurgo ter transformado seu Estado e povo, se vê a naturalidade do ideal grego. Pois em lugar nenhum Plutarco questiona a ideai de que ética e caráter tem algo a ver com o estado do corpo. Plutarco não estava nem mesmo surpreso de que Licurgo era capaz de vender um regime tão duro a seu povo. Talvez isso seja somente dedução da parte de Plutarco (e da nossa). A Esparta de Licurgo aconteceu. Se houve baixas entre o povo espartano - afinal, os modernos estão culturalmente programados a buscar dissenso quando ideais elevados e raros são "impostos" sobre um povo - então que assim seja. A história grega e romana, para não mencionar valores, dão pouca atenção a falhas; mas ao invés abrem vastos espaços para enobrecimento e enriquecimento através de exemplos de grandeza - o próprio ponto das Vidas de Plutarco.

A visão licurgana de vida, com as aspirações humanas focadas em um ideal, é certamente heroica no sentido homérico da palavra; pois o que finalmente se tornaria digno de elogios no pensamento grego - a harmonia platônica e a autorreflexão ociosa - era em Esparta dispensado como decadente. Competição, conflito, poder, ação e conquistas mundanas eram valores olímpicos partilhados por Licurgo e pelos heróis de Homero. E poderia ser dito que os espartanos e os heróis de Homero estão entre um pequeno punhado de homens ocidentais que alcançaram a imortalidade - algo a se considerar quando se examina literatura científica moderna motivada por um claro medo da morte. Ainda que heroísmo e glória (kleos) não sejam o ponto desse trabalho, eles estão implícitos nas reformas de Licurgo, pois as ações que garantiam a nobreza espartana culminavam neles.

Nossa atenção agora se volta para a ciência pós-moderna, especificamente para a Nova Biologia e sua promoção da epigenética como corretivo para a genética newtoniana/materialista. Ao fazê-lo, porém, devemos ter em claro: enquanto Mussolini, outros pensadores fascistas, e Licurgo colocavam o corpo nas trincheiras de uma guerra entre decadência lassa e nobreza dura, a ciência pós-moderna tende a compreender o que é melhor para o corpo como o que é melhor para o homem burguês. Assim, nós devemos ler suas teorias e conclusões contra as aplicações assumidas pelos próprios cientistas burgueses; pois a dureza, nosso objetivo, não é um ideal partilhado pela Nova Biologia, mesmo enquanto seus métodos demonstram o quão transformativa ela possa ser para o homem moderno. Em outras palavras, nós não mais temos o luxo e honra de sermos enobrecidos pela pesquisa. Em outras palavras, nós passamos de dizer Sim para dizer Não.

Corpo e Ambiente

Como a epígrafe do Zaratustra deixa claro, Nietzsche entendeu uma relação direta entre mente, corpo e ambiente. Ainda que ele vá ser discutido detidamente no próximo artigo dessa série, é suficiente dizer que Nietzsche compreendeu o humano como uma série de tipos criados em conjunção com as necessidades morais e sociais das várias formas de vida humana. Os homens modernos, como ele diz acima, estão sendo tornados fracos pela vida mole, confortável e igualitária prometida pela modernidade burguesa. E ainda que o contexto fosse diferente para Licurgo, tanto a Itália Fascista como a Esparta de Licurgo partilhavam do entendimento de Nietzsche sobre o homem e a sociedade. O epigeneticista (e neobiólogo) Bruce Lipton também o faz, explicando sucintamente que o ambiente exerce algum controle sobre a atividade dos genes humanos.

Lipton está trabalhando à sombra de Jean Baptiste de Lamarck, o evolucionista que acreditava que traços individuais adquiridos como resultado da influência ambiental poderiam ser transmitidos transgeneracionalmente. Na verdade, essa ideia básica de Lamarck, conhecida como "herança suave", forma a própria base da ciência epigenética. Enquanto Lamarck foi influente em meados do século XIX e novamente em meados do século XX), sendo lido com entusiasmo por muitos dos principais fisiólogos da época, sua obra foi desacreditada entre os evolucionistas após o sucesso da publicação de A Origem das Espécies de Darwin em 1859. Muitas das suposições de Darwin, tais como a responsabilidade de  fatores hereditários transmitidos no controle dos traços da prole, foram construídos em contradistinção direta a Lamarck. E mesmo ainda que Darwin tenha vindo a lamentar a falta de atenção dada aos fatores ambientais na modificação de material genético, a ciência genética moderna veio a ser dominada pelo determinismo inerente ao A Origem das Espécies.

Ainda que "determinismo genético" possua uma conotação negativa em uma pós-modernidade (popularmente) comprometida com a negação da primazia genética - ao menos no que concerne as proclividades raciais ou de gênero para a excelência ou para a mediocridade - na comunidade científica (genética) esse tem sido um importante controle nas metodologias e hipóteses. A genética clássica, especialmente a obra de Thomas Morgan e a obra redescoberta de Gregor Mendel, foi essencialmente construída dentro do universo conceitual da seleção natural darwiniana, buscando identificar o material hereditário que se acreditava controlar a vida orgânica.

Crick e Watson acreditavam ter encontrado esse material em 1953 quando eles descobriram o DNA, chegando até mesmo a criar o Dogma Central, ou primazia do DNA. A primazia do DNA fornece a lógica para o determinismo genético, reduzindo a vida orgânica a uma série de proteínas codificadas no DNA que representam o determinante primário dos traços de um organismo. Mas ao início do século XXI, o Projeto Genoma Humano (de agora em diante PGH) lançou dúvidas sobre a primazia do DNA, demonstrando que não há genes suficientes para dar conta da complexidade humana. Enquanto muito da ciência do século XX assumia uma razão 1-1 de genes e proteínas construtivas do corpo humano - o que representaria aproximadamente 120.000 genes - o PGH encontrou ao invés somente 25.000; deixando inexplicados 80% dos genes presumidos necessários para a vida e comportamento humanos. 

O geneticista David Baltimore interpretou os resultados do PGH como um chamado para a primazia do ambiente, o que nos leva à epigenética. A epigenética, ou "controle sobre a genética", oferece um modelo explanatório capaz de responder as perguntas levantadas pelo PGH. A pesquisa epigenética recente estabeleceu que a planta do DNA transmitida através dos genes não está firmada em pedra no nascimento, mas ao invés responde ao seu ambiente. Em outras palavras, genes não são destino. Influências ambientais, "incluindo nutrição, estresse e emoção", podem modificar os genes, sem modificar sua estrutura básica.

Ao focar nas proteínas cromossomais regulatórias às quais os filamentos de DNA se ligam, os epigeneticistas tem sido capazes de discernir as funções fisiológicas dos cromossomos independente de DNA, sugerindo um fluxo mais sofisticado de informação através das células humanas. A biologia, segundo esse pensamento, começa com um sinal ambiental, então vai para uma proteína regulatória e apenas então para DNA, RNA e o resultado final, uma proteína.

Porque a pesquisa científica focou primariamente na planta do DNA, as contribuições à hereditariedade humana feitas pelo ambiente passaram majoritariamente desapercebidas. Essas contribuições se manifestam primariamente através de impulsos que ativam doenças hereditárias como o câncer. Predisposições genéticas, em outras palavras, não são em si mesmas causas de doença. Na verdade, somente 5% daqueles que sofrem de câncer ou doença cardiovascular podem atribuir sua aflição à hereditariedade. Mas se o ambiente pode ativar uma doença, ele também pode prevenir doenças.

A fluidez e responsividade final do genoma a fatores ambientais - sejam eles internos ou externos ao corpo - efetivamente nos leva de volta a Mussolini, Licurgo e Nietzsche. Pois ainda que eles não estivessem em uma posição de compreender o corpo nos termos da ciência pós-moderna, sua insistência em uma relação entre corpo e concepção é cientificamente justificada pela epigenética - especialmente quando consideramos as consequências fisiológicas da ciência quântica.

Célula, Corpo e Mente

Einstein revelou que nós não vivemos em um universo com objetos físicos, discretos, separados por espaço morto. O universo é um todo indivisível e dinâmico em que energia e matéria estão tão profundamente emaranhados que é impossível considerá-los como elementos independentes.

Quando cientistas estudam as propriedades físicas dos átomos, tais como massa e peso, eles olham e agem como matéria física. Porém, quando os mesmos átomos são descritos em termos de potenciais de voltagem e comprimentos de onda, eles exibem as qualidades e propriedades de ondas de energia; levando à conclusão de que energia e matéria são a mesma coisa. Para epigeneticistas, esse modelo de energia e matéria permitiu que mente e corpo fossem reunidos, com vários cientistas - entre eles o Dr. Lipton - buscando explicar como o pensamento, como a energia da mente, controla a fisiologia do corpo. O trabalho de Lipton efetivamente demonstrou uma relação direta entre pensamento e o comportamento de proteínas cromossomais regulatórias, tornando possível inferir a habilidade de um indivíduo em sobrepujar a programação genética.

Cada célula é um ser inteligente que pode sobreviver por conta própria, como os cientistas demonstram quando eles removem células individuais do corpo e os transformam em uma cultura. Similarmente, cada célula individual realiza as funções biológicas realizadas por cada sistema de nosso corpo. Cada eucariota (célula possuidora de núcleo) possui o equivalente funcional de nosso sistema nervoso, digestivo, respiratório, excretor, endócrino, muscular e esquelético, circulatório, tegumentar, reprodutor e até mesmo um sistema imunológico primitivo, que utiliza uma família de proteínas similares a anticorpos.

Como humanos, as células solitárias analisam milhares de estímulos do microambiente em que elas habitam. Pela análise desses dados, as células selecionam respostas comportamentais apropriadas para garantir sua sobrevivência. Células singular são também capazes de aprender através dessas experiências ambientais e são capazes de criar memórias, tais como imunidades, que elas transmitem a sua prole.

Lipton crê que é possível explicar o comportamento de humanos através de uma melhor compreensão das células individuais. E colocando de modo simples, o ser humano é somente uma coleção de trilhões de células, cada uma consciente, e respondendo ao ambiente - incluindo a energia corporal. Finalmente, Lipton aponta para a primazia dessa energia em controlar o comportamento celular. E, algo previsivelmente dado suas proclividades americanas pós-modernas para o ecumenicalismo, ele ponta para a "percepção" como uma influência importante na direção e contornos da energia corporal.

Se acreditamos que há algo útil na epigenética e nos resultados dos estudos celulares de Lipton, e acreditamos, então é certamente não o mesmo valor de uso assumido pelo próprio Lipton. Como mencionado acima, Lipton está confortável com a ideia de que o corpo e cada uma de suas células pode ser cuidado pelo controle de "nutrição, estresse e emoção". Porém, em lugar algum em seu trabalho o valor positivo da forma de vida burguesa é questionada em relação a isso. O Dr. Lipton (e certamente não só ele) parece assumir a normalidade da preguiça, da glutonia e do filistinismo cultural que fornece o conteúdo da vida americana contemporânea como de valor positivo para o corpo humano natural, desde que se gerencie adequadamente esses três fatores ambientais.

Dureza Destrói Decadência

A pesquisa epigenética aponta para a fluidez de massa e energia. Essa fluidez nos fornece um modo científico de compreender o ideal grego, bem como um modo científico de explicar o que Yukio Mishima compreendeu instintivamente sobre o corpo: que sem resistências, nós nos tornamos espiritualmente e fisicamente flácidos e dóceis. No espírito do Sol e Aço de Mishima, nós deixaremos de lado "nutrição, estresse e emoção", ao menos ao modo como os cientistas burgueses os assumem, e focaremos ao invés no exercício e em seu papel em criar e sustentar vitalidade. Ao fazê-lo, nós também demonstraremos o grande potencial da epigenética como ferramente dirigida contra a forma burguesa de vida.

O ataque de Mishima contra a modernidade era muscularmente motivado. Ademais de sua conceitualização do heroísmo e da vida heroica - ambas as quais demandam músculos para serem alcançadas - Mishima compreendeu uma relação fisiológica entre palavras e corpos. Os primeiros, ele disse, são figurativamente projetados nos segundos; e o corpo, como o repositório natural de palavras, conceitos e sistemas gramaticais (epistêmicos), é um medidor melhor do estado "espiritual" de um homem do que seus pensamentos. Isso é porque o corpo, segundo Mishima, possui uma relação mais próxima com as ideias do que o "espírito".

Assim, o corpo se conformará a qualquer ideal que se tenha como objetivo. No mundo homérico, a nobreza demandava músculos, porque o heroísmo era o caminho para a nobreza. Mas assumindo uma abordagem epistêmica à idealização do heroísmo de Licurgo, Mishima explicou que, sem palavras, os corpos jamais teriam se conformado a um ideal grego. Não obstante, Mishima também seguiu o caminho de Licurgo através da fisicalidade ao ideal mais elevado da consciência. O aço, como ele disse, ensina o que as palavras não conseguem.

Como Nietzsche, que também usava modelos fisiológicos de consciência, os pensamentos de Mishima sobre o corpo realmente ganham asas quando se passa do corpo individual ao ambiente no qual ele recebe sentido. Geralmente falando, Nietzsche compreendeu que os corpos humanos refletiriam os sistemas éticos e morais em que eles viviam. Mishima assume uma abordagem similar, compreendendo que os corpos refletem os ideais do dia (em questão). Assim, enquanto os gregos idealizavam força e coragem - o suficiente para colocar esses entre os ideais mais valiosos aos quais um homem pode aspirar - a modernidade idealiza o julgamento passivo e a docilidade resignada. Enquanto tal, o heroísmo é tornado um inimigo do povo, a história é privada de exemplos singulares, e homens são ensinados a viver em sistemas codificados através dos quais o possível é popularizado. Os músculos, a base do heroísmo, não possuem valor e são resignados à extinção.

No ambiente moderno decadente descrito de Mishima, a boa forma física não é o ideal; pois a boa forma física é ela mesma burguesa e decadente - mais um veículo para promover o hiper-consumo e o individualismo superficial e auto-congratulatório. O que é ideal é a dureza. É o corpo sendo transformado pela resistência (aço) de flácido e moderno a duro e clássico - não por como ele "parece" (mesmo que isso seja importante) mas pela transformação conceitual que deve ter acompanhado a do que é aparente. Mishima demanda que consideremos quantas de nossas metáforas conceituais como o cinismo e a imaginação estão apoiadas em um senso de inferioridade física e preguiça.

Diferente de Nietzsche, que - para ser lido corretamente - demanda que o leitor veja muito do Último Homem em si mesmo, Mishima parece mais frutífero para aqueles já iniciados nas afecções transformativas do aço. Em outras palavras, é duro entender a transformação que Mishima descreve a não ser que se tenha passado por uma transformação similar. Uma percepção ampliada, ou consciência, através da dureza física é algo que se deve experimentar por si mesmo.

Mas, se nós brevemente nos voltarmos de novo para a ciência, nós podemos ter uma imagem clara de como o corpo reage à dureza. Restringindo nossa discussão somente à testosterona, é possível demonstrar que a mente e o corpo são igualmente transformados pela atividade física dura. Treinamento com pesos breves e com alta intensidade são a maneira mais eficaz de promover grandes aumentos em níveis de testosterona. Testosterona é o principal hormônio sexual nos homens, não somente guiando a libido mas também a experiência prazerosa de encontros sexuais. Ademais das funções sexuais, a testosterona é crítica no desenvolvimento e manutenção da massa muscular e dos ossos.

Porém, estudos do impacto da testosterona na mente também confirmam o valor da dureza física para a cognição. Um desses, publicado em 2006, demonstrou habilidades visual-espaciais, cognição/recognição, e sensos de vitalidade e estima ampliados em homens com altos níveis de testosterona (versos estrogênio). Quimicamente, esses efeitos são causados pelo impacto da testosterona sobre o hipotálamo, o "centro nervoso" da produção e distribuição de hormônios, e o "centro de comando das emoções". Vários homens com os quais discutimos esse artigo - incluindo músicos de jazz vencedores do Grammy - apontaram para a importância da musculação no estímulo da criatividade, da clareza e da concentração.

Como muito do que descrevemos sobre o ideal grego, há uma relação bidirecional entre usar testosterona e muscularidade. Quando a massa muscular do corpo se eleva, sua taxa metabólica - seja ativa ou em repouso - também se eleva. Isso significa que o corpo tem que trabalhar mais para suportar a massa muscular aumentada. Tudo o mais sendo igual, o corpo utilizará mais gordura como combustível para conseguir realizar essa tarefa. Isso é importante porque há uma relação inversa entre níveis de gordura e testosterona, enquanto há uma relação direta entre níveis de gordura e estrogênio. Assim, um alto nível de gordura em relação a massa muscular possui um efeito deletério sobre os hormônios, a vitalidade e a concepção.

Conclusão

Não é o propósito desse artigo, o terceiro em uma série de quatro, argumentar contra a importância da genética na determinação no conteúdo das vidas humanas. Ao contrário, o artigo busca explicar a importância do ambiente e do comportamento pessoal no funcionamento adequado e óptimo do material genético humano. Nossa esperança era usar a ciência, não para justificar a compreensão instintiva de Nietzsche, Mishima, Licurgo ou Mussolini sobre o corpo, a mente e a sociedade, mas para convencer os homens contemporâneos a colocarem a fisiologia no centro de uma revolta contra a modernidade burguesa.

Tanto a epigenética como a ciência hormonal demonstram que o ambiente manipula corpo e mente. Através da dureza (nesse caso, musculação intensiva) é possível colocar uma distância considerável entre si e o ambiente da modernidade burguesa.

A forma de vida burguesa cria o corpo que ela necessita - máquinas obesas e preguiçosas de obediência que consomem alimentos, estilos de vida e remédios inventados pelo capitalismo - com a mesma regularidade e objetividade que a Esparta de Licurgo. Onde um busca decadência e consumo, o outro buscava pureza e heroísmo. Mas mesmo se concordarmos com Nietzsche de que há algo de diminutivo sobre os corpos modernos quando comparados aos produzidos pelas narrativas clássicas de grandeza, nobreza, competição e beleza; e mesmo se o corpo moderno haja sido ativamente disciplinado por processos disgênicos; nós ainda partilhamos da mesma escolha que aquela primeira geração de homens espartanos: fraqueza ou força.

O ambiente burguês moderno dirige o corpo de uma maneira, em direção à suavidade, à doença e à preguiça. Uma revolta contra essa forma de vida deve transvalorar esse processo. O valor final da epigenética não reside somente em fornecer dados científicos para apoiar as compreensões filosóficas tradicionais e contra-iluministas da relação entre sistemas sócio-conceituais e a forma e conteúdo dos corpos, mas também em tornar claro que o corpo desempenha um papel crítico tanto em nossa escravidão, como na nossa liberação, da modernidade burguesa.

Mas a fisiologia decadente, por pior que seja, é composta pela crença contra-moderna de que o conteúdo de nossos pensamentos combina com a forma de nossos corpos. A fraqueza física se acreditava (por Mussolini, Licurgo, Nietzsche e Mishima - só para nomear as figuras importantes nessa série de artigos) representar tanto a causa como efeito da fraqueza ética e conceitual. Certamente, o exemplo individualizado de Mishima da desconfiança das ideias dos preguiçosos, e o olhar pós-cristão de Nietzsche sobre as devastações dos "odiadores do corpo" fornece rupturas na narrativa da decadência fisiológica burguesa. O enobrecimento, como ambos nos lembram, está naturalmente associado com a força.

A ciência epigenética e a Nova Biologia parecem contentes em promover o fortalecimento físico como meio de prevenir a enervação fisiológica, como a mente busca (para eles) a mesma tranquilidade decadente e ócio que até o corpo "apto". Ao invés, nós estamos discutindo que a enervação é o estado normal da mente e corpo burgueses e que a baixa testosterona e vitalidade são consequências diretas dessa forma de vida. O que nós prescrevemos para alcançar nosso potencial fisiológico e conceitual não é tranquilidade e ócio, mas dor e dureza. Essa série de artigos concluirá com um exame das ideias de Nietzsche sobre essa questão.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Mark Dyal - Licurgo e o Estado Espartano

por Mark Dyal

"Licurgo de Esparta" por Merry Joseph Blondel.

"E Teopompo, quando um estranho continuou a dizer, conforme ele lhe demonstrou gentileza, que em sua própria cidade ele era considerado amante de Esparta, disse: 'Meu bom senhor, melhor seria para ti ser chamado amante de tua própria cidade'." - Plutarco 

Assim como Mussolini olhava para a Roma Antiga por um modelo de uma sociedade sadia e orgânica, os antigos romanos olhavam para Esparta. No primeiro século, conforme Roma continuava sua ascensão imperial a uma dominação quase hemisférica, a distância entre a virtuosa nobreza republicana e a espalhafatosa nobreza imperial começou a alertar muitos para o potencial de degeneração social. Um desses era Plutarco, um sábio romano de origem grega.

Plutarco é melhor conhecido por sua série de vidas paralelas dos mais virtuosos gregos e romanos, escrita para explicar as virtudes e vícios particulares que ou elevam ou subordinam um povo. Sua "Vida de Licurgo", assim, é menos uma história celebratória do lendário rei que transformou Esparta da típica pólis grega no maior estado guerreiro na história ocidental do que uma descrição desse estado. Suas lições não são menos assombrosas para americanos contemporâneos do que eram para os romanos imperiais. E, enquanto muitos gregos, romanos, e escritores contemporâneos exploraram as origens da Esparta guerreira, a "Vida de Licurgo" de Plutarco permanece a única fonte necessária sobre o tema.

A Esparta de Licurgo nasceu da decadência. Como o mentor do jovem rei espartano Carilau, seu sobrinho, Licurgo desempenhou um papel como o de Catão. Ele transmitiu virtudes conservadoras e austeras ao jovem rei, buscando represar o amor por dinheiro e ostentação entre a nobreza da cidade. Quando essa tática incomodou a elite espartana, Licurgo deixou a cidade e viajou pela Grécia e Ásia. Ele descobriu os épicos homéricos e visitou o Oráculo de Delfos. Lá, sacerdotes de Apolo lhe disseram que sob sua orientação um estado se tornaria o mais poderoso na Grécia. Assim, com o apoio de Apolo, ele retornou para Esparta e recebeu comando legal da cidade. Ele imediatamente estabeleceu um sistema social no qual a decadência seria impossível.

Licurgo buscou acima de tudo acabar com a vaidade, fraqueza e extravagância do povo espartano. Politicamente, ele desenvolveu um sistema de governo dualmente senatorial e monárquico que governava para o bem do estado, e não somente para seus cidadãos mais ricos. Antes de Licurgo, os reis das duas famílias reais governavam Esparta, um modelo já desenvolvido para limitar a tirania. Ao acrescentar o senado, Licurgo buscou somente ampliar a estabilidade política, compreendendo que a democracia só era tão valiosa quanto seus súditos eram nobres.

Assim enquanto os atenienses fizeram da democracia a razão do estado, Licurgo fez da nobreza a racionalidade da vida espartana. As vidas espartanas individuais estavam subordinadas a esse ideal. Mas o que fez da nobreza licurgana tão extraordinária era que, primeiro, ela só era alcançável pelos guerreiros mais corajosos, fortes e completos - e suas mulheres; e segundo, o quão longe o estado ia em gerar esse tipo de nobreza.

Assim como vimos no pensamento fascista italiano, Licurgo estava interessado nos instintos humanos. Contextualmente falando, porém, nós não damos a este tanto crédito quanto aos primeiros. Pois Licurgo vivia em uma época muito distante dos entendimentos modernos sobre a separação entre mente e corpo. O ideal grego, então, era possível precisamente porque o corpo era compreendido como manifestação externa da mente. O que é notável na Esparta de Licurgo, porém, é a compreensão do elo entre instinto e concepção; e é essa compreensão que fazia dos guerreiros os mais nobres dos nobres. Em outras palavras, o treinamento espartano não era estruturado para criar corpos e conceitos guerreiros, mas instintos guerreiros, dos quais os corpos eram meros sintomas. Daí a importância colocada na ética e no ambiente, como veremos abaixo.

Licurgo pegou um ideal e o transformou no objetivo do estado e seus súditos. Mas enquanto a nobreza grega havia se tornado associada com riqueza hereditária, criando um sistema auto-perpetuador de luxúria e qualidade (ao qual os modernos devem muito do valor do legado helênico, em particular) Licurgo transvalorou a nobreza, fazendo dela algo somente alcançável pelo serviço violento (e sua preparação) ao estado. Ele sentia mais profundamente do que outros gregos a relação entre nobreza e forma humana - conceitualmente e fisiologicamente - e a ideia de treinar estes em consonância. E, ele reformou o estado espartano para se tornar uma fábrica de nobreza corpórea. Foram suas reformas sociais e psicológicas para esse fim que foram críticas para a transformação de Esparta, estabelecendo, como elas fizeram, os refeitórios, a agogê (significando abdução, mas também liderança e treinamento), e a eugenia que deram conteúdo aos guerreiros espartanos.

As primeiras tarefas de Licurgo, como estabelecer o senado, foram desenvolvidas para modificar o clima político e social imediato da cidade. Ele redistribuiu toda a terra em Esparta de modo que cada família cidadã tinha um pequeno pedaço de terra para cultivar. Ele também baniu a moeda cunhada, instituindo o comércio com barras de ferro banhadas em vinagre, tornando quase impossível acumular riqueza. Quase todas as formas de iniquidade desapareceram de Esparta, escreve Plutarco, "pois quem roubaria ou receberia como suborno, ou furtaria ou saquearia aquilo que não poderia ser nem oculto, nem possuído com satisfação, não, nem mesmo cortado em pedaços com qualquer lucro?" Em outro lugar, Plutarco explica que a riqueza "não despertava inveja alguma, nem trazia honra alguma" a seu portador espartano.

Ainda que a maioria dos artesãos tenha abandonado Esparta quando não mais havia uma maneira de comercializar seus bens, Licurgo agravou sua miséria banindo quaisquer artes "desnecessárias e supérfluas". Quando não em campanha, os homens espartanos passavam seu tempo em festivais, caçadas, exercícios, e instruindo a juventude. Dentro de meses das reformas monetárias de Licurgo, se tornou impossível comprar bens estrangeiros, receber cargas estrangeiras, contratar professores de retórica ou visitar videntes e prostitutas em Esparta. Ainda que tais restrições não fossem motivadas pelo desejo de proteger ou desenvolver os ofícios de artesãos, bens localmente produzidos logo se tornaram desejados por todo o mundo grego. Após se estabelecer os limites do que seria permitido em Esparta, Licurgo dirigiu as vistas para a educação com vistas à nobreza.

Para garantir a unidade e aptidão gastronômica dos homens espartanos, Licurgo criou um sistema de refeitórios nos quais homens e guerreiros jovens jantavam juntos. Estudiosos apontaram para os refeitórios como um elemento crucial das reformas de Licurgo, e um que só fazia sentido pela compreensão de Licurgo do relacionamento próximo entre mente e corpo. Como Plutarco explica, o refeitório garantia mais do que coesão social, fornecendo um fórum para a manutenção do próprio guerreiro:

"Com vistas a atacar o luxo, [Licurgo] ... introduziu os refeitórios comuns para que pudessem comer uns com os outros em companhias, comidas comuns e especificadas, e não tomar suas refeições em casa, reclinados em sofás caros em mesas caras, se entregando nas mãos de servos e cozinheiros para serem engordados no escuro, como animais vorazes, arruinando não somente seus caráteres como seus corpos." 

O infame agogê operava com motivações similares. Rompendo com a tradição grega - Xenofonte explica que Licurgo literalmente transvalorou todas as práticas de educação e criança infantil gregas - nenhum tutor ou educação privada eram permitidos em Esparta. O estado espartano, ao invés, educava todos os garotos desde os sete anos de idade, independentemente de seu status familiar. No agogê garotos eram treinados para disciplina, coragem e luta. Eles aprendiam somente o suficiente de leitura e escrita para servirem seu propósito como guerreiros, com sua educação "calculada para lhes fazer obedecer bem a comandos, resistir a privações e conquistar em batalha". Similarmente, os garotos ficavam de pés no chão e em maior parte sem roupa para que pudessem funcionar melhor em terrenos rústicos e clima inclemente. Roupas, Xenofonte explica, se considerava como encorajando o afeminamento e uma inabilidade em lidar com variações na temperatura.

Bem como pouco vestidos, os meninos no agogê eram pouco alimentados e encorajados a roubar comida. Isso lhes ensinava a resolver o problema da fome com as próprias mãos com esperteza e ousadia e encorajava o desenvolvimento de instintos guerreiros. Para promover esse desenvolvimento, os garotos eram forçados a viver por um período no ermo montanhoso, sem armas, e não vistos. Se os garotos fossem pegos roubando, seus superiores no agogê lhes espancavam. Kennell debate a lenda de que esses espancamentos tinham consequências fatais. Afinal, um jovem espartano era o foco de todo o sistema social, e não seria morto prematuramente. Outra parte da lenda não é discutível, porém: os garotos não apanhavam por terem furtado, mas por terem sido medíocres o bastante para terem sido capturados.

Voltando ao refeitório, os garotos, como responsabilidade comum de todos os cidadãos homens de Esparta, estavam constantemente cercados por "pais, tutores e governadores". No jantar, os garotos eram questionados sobre virtudes e vícios, comandados a responder em estilo simples e honesto, agora chamado de lacônico (depois lacedemônio). Normalmente essas perguntas demandava que eles julgassem a conduta dos cidadãos. Aqueles sem resposta eram considerados deficientes na "vontade de excelência", como qualquer ausência de resposta, seja por respeito ou ignorância, fosse produto de uma mente pouco crítica.

Na Esparta de Licurgo, os guerreiros governavam porque a guerra, e o preparo para a guerra, havia feito deles os mais virtuosos. Licurgo recebe o crédito por codificar o valor de uma vida limpa de todos os detalhes supérfluos. A vida tão essencializada se tornou não somente o perfeito guerreiro hoplita, se movendo em harmonia com suas coortes, mas também o mais virtuoso e confiável cidadão. Isso porque o treinamento de guerra espartano era desenvolvido primariamente para endurecer a mente contra o medo, a adversidade, e a dor, sobrando clareza e a confiança de conquistar qualquer adversário em qualquer situação.

Polinices, de Steven Pressfield, explica essa concepção de cidadão-modelo:

"A guerra, e não a paz, produz virtude. A guerra, e não a paz, expurga o vício. A guerra, e o preparo para a guerra convoca tudo que é nobre e honrado em um homem. Ela o une a seus irmãos e os liga no amor altruísta, erradicando no crisol da necessidade tudo que é medíocre e ignóbil".

Mas e quanto aos homens espartanos que não correspondiam a esses ideais nobres e honrados? Xenofonte explica que, em Esparta, o homem covarde era, na verdade, um homem sem cidade. Ele era desprezado em todas as áreas da vida pública, incluindo os refeitórios, jogos de bola, ginásio e assembleias. Esse fato da vida pode ser discernido na crença "oficial" espartana de que a morte honrosa valia mais que a vida ignóbil. Xenofonte resume todo o sistema social de Licurgo assim: garantir "que os bravos tenham alegria e os covardes miséria". Enquanto na Itália fascista, homens covardes poderiam ser encorajados a serem "corajosos" em seu próprio contexto, em Esparta os homens só tinham um caminho para a coragem - a guerra e o preparo para a guerra.

A agogê tem sido central para as visões acadêmicas e populares de Esparta da antiguidade à modernidade, e justificadamente. Os romanos ficaram tão encantados com a agogê que turistas romanos iam a Esparta somente para visitar seus locais e templos (Ártemis e os Dióscuros desempenhavam papéis importantes na instrução religiosa dos jovens). De fato, por volta do ano 100 Roma havia restaurado a agogê em Esparta e a usava como escola para jovens nobres romanos. É somente graças a esse período da agogê que nós sabemos algo sobre sua glória clássica.

E, mesmo que tenhamos sido forçados a especular a partir das poucas anedotas fornecidas por Plutarco e Xenofonte em relação ao conteúdo do treinamento da agogê, nós temos uma definição clara de seu propósito. Como Plutarco explica, a agogê era um regime de treinamento sistemático no qual garotos e jovens aprendiam habilidades de guerra (incluindo a disciplina, senso de dever e liderança já discutidas) bem como "os princípios mais importantes e vinculantes que conduzem à prosperidade e virtude de uma cidade". Estes não eram ensinados somente por aulas e regurgitação, mas "implantados nos hábitos e treinamento dos garotos", através do que "eles permaneceriam imutáveis e seguros, tendo um elo mais forte que a compulsão". Como se diz que Licurgo resumiu a lógica da agogê: "Uma cidade será bem fortificada se for cercada por homens bravos e não tijolos".

Assim como o conteúdo da agogê é especulativo, parece que também o é a compreensão de Licurgo das conexões entre vitalidade conceitual e corpórea. Até agora, só se demonstrou que Licurgo buscava derrotar a fraqueza e o vício com força e nobreza. Porém, a compreensão de Licurgo do corpo e da mente é melhor demonstrada pelo destino das mulheres e crianças espartanas.

Como sugerido acima, os filhos não eram propriedade do pai na Esparta de Licurgo, mas propriedade comum do estado. Diferente de outros estados gregos, em Esparta a decisão de criar uma criança estava com um conselho de anciãos que verificavam os bebês em busca de saúde e vigor. Se um fosse mal nascido e deformado ele era descartado, já que a vida "que a natureza não equipou bem desde o início para a saúde e a força não era vantajosa nem para si mesma ou para o estado".

Em muitos casos, as crianças espartanas não eram nem produto de um casamento aleatório, "mas projetadas para emergir do melhor que há". Eugenia. Durante seu tempo de exílio, Licurgo notou algo peculiar sobre os homens gregos. Em Atenas, explica Plutarco, ele viu homens discutindo sobre a linhagem de certos cães e cavalos. E ainda assim, esses mesmos homens geravam crianças mesmo que fossem "idiotas, enfermas ou doentias, como se crianças de estirpe ruim não devessem sua ruindade aos seus pais". Casamentos e nascimentos eram cuidadosamente regulados, então, sempre com vistas ao bem-estar físico e político da cidade.

Por causa do exagero licúrgico do ideal educacional grego, Plutarco exclamou que a educação das crianças espartanas começava antes do nascimento - um conceito extraordinário, considerando o contexto do século VII a.C. Na realidade ela começava antes da concepção. O que nos leva às mulheres espartanas como mães. Singularmente no mundo grego clássico, as mulheres espartanas se exercitavam lado a lado com os homens. Elas corriam, lutavam, e arremessavam disco e dardo, para que pudessem lidar facilmente com o parto, e para que sua prole tivesse uma "raiz vigorosa em corpos vigorosos".

Licurgo possuía uma lógica eugênica bem concebida, acreditando que o corpo humano aumentaria de tamanho quando não entulhado por excesso de nutrição. Coisas que são bem nutridas, ele notou, tendem a crescer grossas e largas, ambas coisas que iam contra os ideais de beleza e divindade. Assim, enquanto a magreza marcava a forma humana como mais bela, ela também a aproximava do divino. Porém, para as mães e sua prole, os benefícios também eram mundanos; já que mães que se exercitavam supostamente geravam crianças magras porque a leveza da matéria genetriz tornava a prole mais suscetível a ser moldada.

Após o nascimento, as crianças eram criadas sem serem enfaixadas para que seus membros se desenvolvessem de modo livre e robusto. Garotos no agogê usavam uma simples tanga, e homens pouco mais. Aos grupos de garotos e homens seminus se juntavam as garotas e mulheres seminuas. Talvez a mais deliciosa transvaloração de valores decantes por Licurgo tenha sido seu comando de que em Esparta, a condição sadia do próprio corpo deveria ser mais estimada do que o preço das próprias roupas. Nudez e um código rígido de beleza física - que equiparava beleza a nobreza - parecem estímulos potentes para a saúde; isso sem falar na crença de que o comprometimento com a beleza e a nobreza era de grande benefício para si mesmo, para a própria prole, e para o próprio povo.

Licurgo acreditava que a escassez de roupa encorajava nas mulheres o hábito de viver com simplicidade. Mais ainda, porém, ele queria que as mulheres espartanas desejassem ardentemente um corpo sadio e belo. E porque o caminho para a saúde e para a beleza levava ao ginásio e ao campo esportivo, um corpo feminino belo garantia que seu portador possuísse "coragem, ambição e um gosto por sentimentos elevados".

Em lugar algum no mundo antigo as mulheres eram tão integradas na lógica social e política de um povo. Como resultado das reformas de Licurgo, as garotas espartanas eram educadas para princípios e padrões de coragem, disciplina e honra similares aos garotos. Elas eram alfabetizadas. Elas realizavam rituais públicos para Ártemis e Apolo. Elas eram atléticas o bastante para ganhar medalhas nos jogos olímpicos - mesmo quando competindo contra homens. E elas eram conhecidas por sua "vitalidade, graça e vigor".

Enquanto isso em Atenas, as garotas não recebiam qualquer educação além dos deveres domésticos de uma esposa e mãe. E elas viviam vidas de reclusão, sem atenção para como sua degeneração física poderia afetar Atenas. Daí a reação escandalosa provocada pelas mulheres espartanas. Pois era o estado das mulheres que provocava a ideia de que os homens espartanos eram meros escravos das mulheres. Mas é também a fonte do sentimento, expressado tão sucintamente pela Gorgo, de Zack Snyder, de que "Só mulheres espartanas parem homens de verdade". Incidentalmente, a linha vem de Plutarco e não de Frank Miller.

Licurgo usou filosofia política e fisiologia para combater a degeneração. E enquanto Esparta pode parecer um lugar assustador para homens modernos, esse é precisamente seu valor. Pois Esparta se destaca como o lugar que valorizava a nobreza física e conceitual de seus cidadãos acima de tudo o mais.

Plutarco descreveu o legado da Esparta de Licurgo como um exemplo do que é possível quando todo um povo vive e se comporta ao modo de um único homem sábio treinando para a guerra. Sabedoria, treinamento e guerra: três dos traços clássicos mais amaldiçoados pela modernidade - ao menos segundo o modo como eles eram compreendidos e praticados por povos clássicos. Acima foi sugerido que as lições de Esparta seriam tão chocantes para um romano quanto para um americano. Ainda assim, isso talvez não seja tão verdade; e a razão está na natureza da afirmação de Plutarco sobre Esparta agindo como um único homem sábio. Pois, em efeito, essa foi a explicação de Plutarco da eficácia das reformas de Licurgo. Assim como sua representação da tomada de poder de Licurgo focada na benção de Apolo e na vontade de um punhado de homens, de modo que aqui Plutarco não vê qualquer lógica moderna em funcionamento; mas ao invés um caminho natural de escolha para homens verdadeiramente nobres.

Pois, segundo Plutarco, o que Licurgo fez foi estabelecer uma aristocracia ética divinamente sancionada às custas de uma aristocracia monetária. Essa era uma aristocracia na qual se devia nascer, mas também para a qual se devia nascer. Licurgo incorporou cada espartano vivo na aristocracia, por virtude de estar vivo. Um garoto espartano se saberia digno da nobreza que lhe era demandada simplesmente porque ele havia sido escolhido no nascimento e progredido através do treinamento da agogê. Se pode imaginar que a dureza da vida espartana teria sido aceita bem mais prontamente por alguém provido de uma lógica hereditária e ética para inclusão e aceitação do que pelo homem moderno liberado e atomizado.

Há outro aspecto de Esparta que causa desconforto a homens modernos ainda maias do que a equação de sabedoria e treinamento de guerra, porém: pureza. Nos 300 anos de aderência rígida às reformas de Licurgo, nenhum espartano teve permissão para viver fora do território espartano. Mais ainda, nenhum estrangeiro sem um propósito útil tinha permissão de passar a noite em Esparta. Nenhum deles tinha permissão para ensinar vícios.

"Pois junto com pessoas estranhas, doutrinas estranhas devem vir; e doutrinas novas trazem decisões novas, das quais deve emergir desarmonia dentro da ordem política existente. Portanto Licurgo considerou mais necessário impedir maus costumes de invadirem e infestarem a cidade do que era manter afastadas as doenças infecciosas".

Esse desejo por pureza social também funciona como parte do sistema de Licurgo de transformação ética e fisiológica. Pois não há razão para crer que homens e mulheres nobres pioram em um ambiente que só favorece sua nobreza. Imagine, ao invés, que o corpo se torna aquilo que o meio espera e de manda dele. A dureza é a única coisa que produz vitalidade corporal. Licurgo acreditava que uma dureza corpórea similar também produzia nobreza conceitual. Assim, ao invés de ensinar tais valores em uma fossa e esperar que a natureza forneceria alguns poucos exemplos de destaque em cada geração, Licurgo se espelhou na natureza, fornecendo um meio que garantisse a Esparta o "bom" em cada cidadão. Isso atende a definição de utopia, mas diferente da utopia anti-natural, moderna e igualitária, a utopia espartana de Licurgo era hiper-natural. Assim como o era sua aristocracia ética.

Essa conquista de um alto padrão de vida nobre era um dever público. Os jovens eram geralmente produto de uma procriação seletiva, e era demandado de todos que estivessem em forma e fossem vitais. Os sentimentos e características maiores e mais nobres disponíveis para o homem só eram alcançáveis pelo esforço físico e pela ação guerreira. A beleza era reservada para os dignos e ativamente negada aos indignos. Em resumo, era demandado que homens e mulheres fossem tão nobres quanto possível fisicamente e conceitualmente. E, enquanto a Itália fascista não foi tão longe para promover a "melhoria eugênica" dos fascistas, ela também compreendeu a relação entre ética, comportamento e meio. Estranhamente, a ciência pós-moderna concorda, mesmo que seja para usar esse conhecimento para promover uma comunidade burguesa global privada de conflitos. Não obstante, o próximo artigo explicará como a química do corpo é influenciada pelo meio, abrindo grandes possibilidades para colocar o corpo diretamente no centro de uma guerra contra a modernidade burguesa; e mais, à mercê da compreensão nietzscheana de instintos, corpo e vitalidade conceitual.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Epistemologia e a Nova Direita

por Mark Dyal

 

"Se constrói-se uma ilusão enquanto tal, a vontade - se ela quer continuar a existir - deve construir uma nova" - Nietzsche

Após examinar as duas resenhas da American Renaissance postadas no Counter-Currentes em 1 de agosto de 2012 eu não pude deixar de sentir como eu sempre sentia quando eu também era parte da academia americana. Eu ficava assombrado pela inabilidade dos pesquisadores em considerar o papel representado pela ordem prevalescente de conhecimento em sua conceitualização e implementação de pesquisa. A maioria das pessoas da academia fala apenas das "hipóteses intelectuais" de pesquisadores, buscando desentranhar os "preconceitos e equívocos" sustentados por aqueles envolvidos no estudo que possam afetar suas descobertas. Porém, os próprios entendimentos essenciais e culturais do humano - e do que significa ser humano - jamais são questionadas, e a realidade burguesa liberal (hoje monoliticamente antirracista, antibranca e multicultural) acrescenta outra pedra a sua fortaleza. Assim, o estudo de gêmeos não tem necessidade de criticar modelos burgueses de realização; como o estudo sobre altruísmo entendia a normalidade, legitimidade e decência do multiculturalismo.

É claro isso faz muito sentido quando consideramos que cada modo de vida sempre educou seus membros a incorporar seu critério particular de ser humano. Isso somente se torna um problema quando este critério de ser humano cria degenerados mentais ou físicos; ou quando homens como nós nos situamos fora da ordem dominante de conhecimento, ou episteme, apenas para sermos cercados pela realidade esquálida que ela cria.

Os objetos de pesquisa, especialmente na antropologia, meu antigo campo, são sempre já presumidos como sendo burgueses e liberais, mesmo quando eles existem em um dos poucos espaços que ainda não estão sob ontrole do liberalismo burguês, porque a maioria dos americanos em qualquer nível intelectual possui dificuldade em contextualizar qualquer coisa que eles saibam. Não é que é simplesmente fácil demais assumir que a mutilação genital feminina é abominável e um "problema" para todas as mulheres; que as pessoas no Irã querem apenas ser livres; ou que os fascistas italianos são paroquiais, homofóbicos e racistas; mas que os sujeitos culturais burgueses americanos e ocidentais - enquanto seres humanos - vivem, creem, conceitualizam, e portanto criam o mundo, nos termos de uma episteme específica.

Para um racialista, raça é tudo; para um culturalista, é a cultura; para mim, o conhecimento é tudo - especialmente como ele é produzido e como ele opera para motivar comportamentos. E quanto a forças políticas e econômicas? O materialismo é uma ideologia - um esquema que torna algumas coisas cognoscíveis e possíveis e outras coisas incognoscíveis e impossíveis. É o mesmo para a história, biologia, física, psicologia e cada disciplina na academia. Cada disciplina e ideologia opera dentro de uma episteme. Cada episteme é um conjunto coerente de valores e valorações que limitam e dirigem as condições da possibilidade humana. Epistemes o fazem por causa de um fato básico sobre o animal humano: nós somos uma espécie narrativamente impulsionada. Nós dizemos a nós mesmos quem, o que, onde, quando, e como, nós somos. Não há um único aspecto do comportamento humano que não recebe conteúdo através de uma narrativa. Comer, procriar, defecar, dormir, apenas para mencionar os comportamentos mais naturais, todos fazem sentido por causa da narrativa. Dizer isso não diminui a importância dos aspectos materiais de ser humano. Ao invés, aponta a um modo mais profundo de entender porque fazemos o que fazemos.

Enquanto outros como Alain de Benoist, Alexander Dugin, Pierre Krebs, Guillaume Faye e Tomislav Sunic (sem mencionar Nietzsche, Evola e Sorel) discutem o liberalismo e a forma de vida burguesa epistemicamente, ninguém na Nova Direita americana forneceu um esquema para compreender como o conhecimento opera e como o conhecimento burguês nos mantém enredado em sua rede. Estranhamente este é um problema inerente ao nome "nova direita" e sua contradistinção da "velha direita". Pois a que apontamos com tal distinção é nada menos que uma transição epistêmica, ou revolução conceitual.

Enquanto alguns acadêmicos entre nós ainda se apegam à idéia de que ler os clássicos ou nossos contemporâneos é importante apenas para sabermos o que eles disseram (usualmente para serem refutados e melhorados), vendo nosso problema epistemicamente - como um problema de conhecimento - torna importante ler o pensamento da Nova Direita de modo a continuar a tarefa - começada pela clássica e contemporânea Nova Direita europeia - de criar uma nova episteme, em resumo, uma nova ontologia que crie as possibilidades conceituais de nossa grandeza. Eu proponho que fazê-lo dará à Nova Direita americana um ímpeto revolucionário, e enquanto tal, um propósito superior do que meramente embranquecer a América.

Em essência, este trabalho está argumentando em duas frentes. Na primeira, é uma explicação um tanto simplista de como o conhecimento é produzido e como ele funciona. É uma curta síntese de uma vida acadêmica de teoria e filosofia do conhecimento, poder e transvaloração. Ela nos convida a compreender as consequências de nosso uso continuado de conceitos burgueses, liberais e modernos de "ser humano". Na segunda, ela nos convida a sermos mais como nossos pares europeus, que com sucesso herdaram e construíram sobre o pensamento de Nietzsche, Evola e Sorel (meus Três Grandes - sinta-se livre para acrescentar Schmitt, Ludovici, Jünger, etc.) para combater o homem moderno e pós-moderno em uma guerra de conhecimento e conceitos. Por que isso nunca aconteceu aqui, até agora, é tornado claro em Homo Americanus de Sunic, e talvez em Por que não há Socialismo nos Estados Unidos de Werner Sombart. Talvez os americanos "não tenham a aptidão" para criticar o homem burguês, mas eu me recuso a crer que nossa Nova Direita queira ser "americana". De outro modo, nós estaríamos simplesmente fazendo campanha para os republicanos e estaríamos contentados com "retomar nosso país".

Antes que nos atolemos discutindo epistemes, vamos tentar compreender como o conhecimento opera.

Como o conhecimento opera?

O conhecimento é afetivo. Ele produz ação. Pura e simplesmente, ele é a história necessária para motivar uma espécie narrativamente orientada - como a nossa - a agir.

Ele é a força uqe molda nosso daemon em formas e direções úteis para qualquer seja o rebanho entre o qual vivamos. Gilles Deleuze e Felix Guattari, pós-estruturalistas franceses que teorizaram o impacto do capitalismo e do desejo capitalista no corpo, usaram um modelo territorial para explicar como nossa energia corpórea, puissance, ou o que os gregos chamaram de daemon, é codificado e disciplinado a desejar por diferentes formas de expressão e redenção, na forma do pouvoir. (É possível conceber a expressão metaforicamente como forma e redenção como conteúdo - mas esta é muito mais importante e imbuída de valor do que isso. Ela é moral em conteúdo, mas ela é mais uma questão de que processo de acumulação é considerado óptimo em uma forma de vida. Pode ser dito que a vida grega homérica oferecia redenção heroica, o cristianismo medieval oferecia redenção espiritual, e a modernidade liberal burguesa oferece a redenção material para aqueles que abracem mais plenamente seu sistema de verdades e valorações). Qualquer um que tenha lido Genealogia da Moral de Nietzsche sabe que ele explicou a função do conhecimento moralista em termos similares, mas deixando de lado a linguagem pós-modernda hipnótica de Deleuze e Guattari.

Essa energia primordial e corpórea talvez originalmente existia como modo de garantir a procriação e a autopreservação, o que é comumente chamado de "lutar ou correr". Com o desenvolvimento da linguagem, porém, ela se tornou amarrada com a comunicação e a manipulação social do desejo. Ela foi, nos termos de Deleuze e Guattari, desterritorializada - trazida de seu domínio corpóreo de sexo e violência - e reterritorializada em algo útil para um agregado de pessoas mais complexo.

Ainda que essa descrição nos faça visualizar um processo repressivo e manipulativo, na verdade ele é criativo e gentil. Nietzsche falou sobre a vontade da mente de ordenar, organizar, controlar, reprimir, dirigir, impor limites e finalmente de disciplinar a informação sensória. Deleuze e Guattari subsumiram essa forma da vontade na produção corpórea de desejo, assim explicando que a subordinação e ordenamento da puissance não é uma imposição cursória nos modos nos quais se espera que vivamos, mas a própria produção da realidade e experiência vivida. Da perspectiva do desejo, a vida (puissance) e o governo da vida (pouvoir) são uma e a mesma coisa. Com a impossibilidade da coisa-em-si na mente, o pouvoir seria a única maneira pela qual nós podemos conscientemente conhecer o desejo - como um desejo por. Em outras palavras, o conhecimento dirige, organiza e disciplina o desejo, e ao fazê-lo normaliza o governo da vida. Assim, nós não podemos ser liberados desse processo, mesmo que o liberalismo tente nos fazer crer de outro modo, como eu explicarei abaixo.

De onde vem o conhecimento?

O conhecimento vem na forma de narrativa, seja popular, acadêmica, política, artística ou religiosa. Para epistemologistas, além de modelos tentados de conhecimento-implementação interpessoal (por exemplo, por que o capitalismo é capaz de nos manter buscando uma série infinita de objetos de consumo "definidores de personalidade", ao ponto de nós efetivamente liberarmos endorfina quando compramos e consumimos), os alvos mais valiosos de investigação são os regimes de verdade que produzem a informação mais útil e importante na episteme. Assim, no mundo burguês moderno, as ciências atraem a maior atenção. Tendo vindo a essa forma de investigação altamente filosófica a partir dos Estudos Afro-Americanos, eu sempre estive mais preocupado com a criação de altruísmo do que com a criação de diagnósticos psicológicos e médicos. Em qualqeur caso, um regime de verdade é um método de produzir, impor e proteger a verdade e as bases epistêmicas de ser humano. Foucault cunhou o termo "regime de verdade" de modo a tornar sensata sua hipótese de que a ciência e o conhecimento científico estão ligados a fontes de poder epistêmico. Não são apenas política e economia que controlam o que conhecemos, mas um sistema que que tornam nossas crenças verdadeiras e justificam seu status como conhecimento. Porque a vasta maioria dos homens modernos não estão lendo Foucault, mas sim assistindo a Fox News, eles ainda opdem supor que o status epistemológico das afirmações de conhecimento são independentes das operações de poder. Para nós, porém, é imperativo que começamos a pensar nosso projeto como um rompimento epistêmico.

Interessantemente, Foucault foi motivado em seu intelectualismo por Nietzsche, e foi um dos principais proponentes do "Nietzsche como democrata pós-moderno". Não obstante, o que permanece do "nosso Nietzsche" em Foucault é normalmente colocado em ótimo uso. Por exemplo, em "Verdade e Poder", Foucault explica que o problema político fundamental (com o qual nos deparamos, nós da Nova Direita) não é meramente criticar o que atualmente se passa por verdade, ou mudar a consciência das pessoas, mas separar "o poder da verdade das formas de hegemonia, social, econômica e cultural, na qual elas operam atualmente". Em outras palavras, nós devemos começar a criação de um novo regime de verdade; e a questão política se torna uma questão de uma nova narrativa. Onde Nietzsche está presente, aqui, é na suposição de que a verdade recebe poder epistemicamente e que qualquer vitória para nós só pode estar fundada em uma nova episteme.

Como estamos começando a ver, o conhecimento opera dirigindo nossas energias primais, e o conhecimento é produzido em acordo com as bases epistêmicas de formas de vida. O conhecimento é sempre um sistema que faz sentido. Enquanto tal, algumas coisas são cognoscíveis e outras são incognoscíveis. Outrora, nossa condição atual estava para além do reino da possibilidade.

As coisas mudam, porém. Há um pequeno punhado de estudiosos associados com a proeminente professora da Universidade de Stanford Sylvia Wynter que estudam as transições epistêmicas que culminaram com a criação da escravidão e do humano racial. Partindo do uso papal de Aristóteles para "entender" os nativos do Novo Mundo, para a transformação do feudalismo em capitalismo, eles leem a história da espécie como um caminho em direção ao altruísmo universalizado. Para esses estudiosos, a modernidade é um problema, mas não como ela é para nós. Enquanto nós experimentamos a modernidade como uma época construída sobre a domesticação do homem europeu e a destruição de suas tradições e capacidades para a auto-defesa violenta (entre outras coisas), eles experimentam a modernidade como aqueles que estão desesperados para crer na Revolução Francesa. Em outras palavras, eles querem que o Ocidente seja mais moderno - mais livre, igualitário, e universalmente fraternal. Eu menciono isso não apenas para ressaltar como é possível compreender nossa situação epistemicamente, mas para demonstrar como o regume de verdade do antirracismo ajudou sua causa. Pois nenhuma das críticas acadêmicas dirigidas a Wynter e seus companheiros jamais mencionou a natureza política de sua pesquisa ou questionou a moralidade de promover o altruísmo universal como progressivo. A episteme (e seus vários regimes operativos de verdade) tornaram essas preocupações incognoscíveis.

O linguista Philip Lieberman, uma das fontes favoritas de Wynter, buscou explicar o relacionamento entre valoração e altruísmo descobrindo de onde os dois entram na experiência humana. Seu trabalho é assombroso por duas razões: o quão claramente ele explica o poder da narrativa e a relação entre altruísmo e moralidade, e por falhar em contextualizar seu trabalho epistemicamente. Resultando do desenvolvimento biológico do cérebro e das ferramentas supralaríngeas necessárias para produzir a fala humana, ele deduziu que um novo tipo de capacidade cognitiva evoluiu. Essa era a habilidade humana de construir linguisticamente comportamentos codificaos como os controlados por sistemas de moralidade e ética. "Esses desenvolvimentos nos permitiram induzir os modos de altruísmo que nos ligam como grupos. Em consequência...no lugar de programas genéticos que regulam os comportamentos de todas as espécies orgânicas, nós desenvolvemos...programas culturalmente específicos pelos quais nossos comportamentos humanos - cognoscitivos, afetivos e acionais - vieram a ser...regulados".

Essa é a mesma conclusão alcançada por Nietzsche. Após primeiro explorar o elo entre linguagem e consciência, e concluir que o pensamento consciente, aquilo que assume a forma de linguagem, é a forma mais superficial de pensamento porque ela é construída apenas para conectar uma pessoa a outra, Nietzsche então busca compreender como a consciência está conectada a formas sociais humanas. "A consciência", ele diz, "pertence não à existência do homem como um indivíduo, mas sim à comunidade e aos aspectos gregários de sua natureza; ela é desenvolvida apenas em relação a sua utilidade para o rebanho. Consequentemente, nós somente podemos nos conhecer através do que é mediano e cognoscível desde a perspectiva do rebanho. Nós conhecemos exatamente tanto quanto seja útil para o rebanho humano".

Lieberman continua sua explicação do desenvolvimento do altruísmo para demonstrar como a tecnologia permitiu que o humano saísse de suas pequenas comunidades para povoar cada continente e para canalizar as forças da natureza. Nós o fizemos, porém, tendo ultrapassado a estreiteza dos modelos atruísticos ainda operacionais dos séculos anteriores. Enquanto a escravidão, por exemplo, era outrora um componente universal das formas de vida humanas, ela é agora "universalmente ilegalizada" (graças a nossos progressistas sistemas de ética e moral). Infelizmente, ele diz, a raça, a maldição de uma de suas variantes posteriores - a escravidão racial americana - ainda permanece "inconquistada".

Ao falar assim, Liberman demonstra não apenas que os sistemas ético-comportamentais eram narrativamente impulsionados, mas também que eles continuam a ser. Pois em lugar algum em seu livro sobre a evolução dos comportamentos altruístas e sua relação com a moralidade ele sente a necessidade de quantificar suas próprias posições morais - nem seu uso dessas posições para justificar a ideia de que a espécie está progredindo por causa de sua aversão ético-moral à escravidão. Nem, obviamente, ele sente a necessidade de explicar por que o "preconceito racial" é abominável.

De fato, a linguagem não é epifenomenica em relação às estruturas sociais nas quais ela opera, mas uma parte essencial dessas estruturas. Alexander Dugin afirma que o humano não é derivado de qualquer coisa-em-si mas da política. O sistema político, ele diz, "nos dá nossa forma". Este é um processo narrativamente impulsionado, dado que "o sistema político possui um poder intelectual e conceitual...para moldar o paradigma, integrado na sociedade através de instituições estatais". Esse paradigma, ou episteme, ele continua, é o que "nos constitui...a Política nos fornece nosso status político, nosso nome, e nossa estrutura antropológica". Ele conclui sua demolição epistêmica da primazia do homem burguês explicando que a transição do Estado tradicional para o moderno não foi apenas marcada por uma transformação de instituições políticas mas por uma "transformação do homem ao nível mais fundamental". Cabe a nós, ele diz, nos movermos similarmente para além da concepção moderna (e pós-moderna) operativa de nossa espécie. Fazê-lo, porém, não pode ser alcançado materialmente.

Fernand Hallyn concorda, propondo que "estruturas de significação" organizem "poeticamente", isto é, através da linguagem e da gramática, para fornecer, entre outras coisas, as fronteiras e limites entre "nós e eles". Ele chama esse processo de "poética do propter nos" - o "nós" por quem "nós" agimos. Para o desapontamento da Nova Direita americana, Francis Parker Yockey compreendeu que a raça é um conceito que só pode ser entendido no contexto do liberalismo. Como Michael O'Meara eplica, "o conceito científico de raça emergiu como a visão auto-interessada da burguesia anti-cultural, cujo materialismo negava a importância do espírito, da alma e da identidade - desprezadas não apenas como formas de privilégio aristocrático, mas como meros subprodutos superestruturais de um mundo inerentemente 'irracional'". Em outras palavras, o conceito do humano biologicamente racial nos deixa irrevogavelmente amarrados à forma de vida que tornou possível este conceito.

Pierre Krebs faz uma abordagem similar da questão de povos e raças. Como um europeu, Krebs tem toda uma vida de interação com aqueles grupos culturais e linguísticos fechados que se entendem como povo. Esses povos hoje se tornam a base das resistências europeias à padronização. Assumindo sua perspectiva, Krebs é capaz de selecionar diversos regimes de verdade - história, humanidade e mesmo raça - e mostrar como seu encaixe epistêmico não apenas determina seu poder criativo (pense: a metodologia sempre gerará os resultados que ela foi feita para produzir) mas também problemas para aqueles de nós que buscam viver em uma sociedade "racial" e não em uma multirracial ou multicultural. No caso da Europa, a "brancura" é difícil de se vender. Ela é americana demais - associada demais à demolição capitalista da singularidade e da particularidade para fazer sentido - ligada epistemicamente à América em excesso, isto é.

A critica de Krebs à raça deriva de uma abordagem epistêmica de nosso problema e de uma leitura correta de Nietzsche. Krebs é consciente, como Heidegger disse, que nomear uma coisa é chamá-la à existência. Se nós nos chamarmos à existência através das verdades epistêmicas do mundo que buscamos destruir, nós seremos finalmente menos bem sucedidos do que presumimos. Pois os conceitos que usamos atualmente para conhecer e criar o homem e o mundo estão inerentemente ligados à episteme que combatemos. Nestes termos, a insistência de Nietzsche de que pensemos diferentemente de nossos inimigos se torna menos abstrata, como é a chamada de Sunic por descolonização mental.

Com a explicação de Lieberman e Wynter sobre a origem e funcionamento do altruísmo acima, nós temos um exemplo decente de como os regimes de verdade liberal operam - e um exemplo irônico, considerando o quão prontamente eles selecionam e escolhem o que atacar na modernidade. Para prosseguirmos em direção a uma conclusão, eu quero contrastar como o liberalismo e o fascismo compreender o conhecimento. Isso também tornará minha posição mais clara.

Como o liberalismo entende o funcionamento do conhecimento?

O conhecimento, como tudo mais na forma liberal de vida, foi castrado e empacotado para consumo de massa. Ele é seguro. Ele é horizontal. Ele é neutro. Ele não tem valor e não tem ligação com o poder, muito menos com regimes de verdade. A suposta neutralidade do conhecimento é aparente quando dizem aos pais que "ler é essencial para o desenvolvimento de seus filhos". Primeiro, desenvolvimento é um dos conceitos favoritos do regime de verdade psicológico liberal. Ele inevitavelmente trará à existência um tipo particular de pessoa - um cujas conquistas serão medidas monetariamente e cuja felicidade será medida por uma falta de agressão, violência ou pensamento excessivamente crítico. Em segundo lugar, ler jamais possui valor neutro. Cada palavra que passa pelos nossos olhos e ouvidos é construída para impactar o fluxo de desejo - para fazer você se mover, e normalmente em direção a um shopping. O liberalismo burguês nos faz acreditar que o conhecimento é neutro, e então nos faz matar uns aos outros por um X-Box. Em resumo, o conhecimento liberal não possui qualquer função além de ser consumido.

O liberalismo herdou o que Nietzsche descreveu como o regime de verdade original: o Deus judaico-cristão. A verdade recebeu uma fonte, e uma tão infalível que questioná-la significaria queimar pela eternidade. A ciência moderna, com seu raciocínio teleológico e poder criativo herético, herdou o trono de Deus como fonte única de verdade. Como Deus, ela também cria seres a sua imagem: frouxos psicologizados, automatos geneticamente determinados, e escurinhos etnicamente relativos mas "mais reais do que brancos".

A ciência que nos dá essas verdades acredita sem ironia que suas metodologias são apolíticas e não relacionadas com os resultados que sempre milagrosamente demonstra que o humano é inerentemente burguês. (Ops, vê quão fácil é escorregar? O humano DEVE por definiçã oser burguês, pois nada pode preexistir a sua conceitualização.) O mais óbvio e egrégio dos ofensores científicos é a História. Pode-se notar que eu jamais escrevo história. Aqueles com um sentido para o "problema da História", aqueles talvez apenas parcialmente epistemicamente resignados, dirão, "a história é o que realmente ocorreu, enquanto a História é aquilo que escrevemos sobre isso", mas eventos não fazem História - apenas historiadores fazem; e a História não é sobre nada senão valoração.

Um exemplo perfeito de como a Nova Direita tenta abordar esse problema epistêmico é o ensaio de Greg Johnson sobre revisionismo do holocausto. Primeiro, o dr. Johnson separa "história de Historiografia", uma separação que eu acho supérflua, sendo motivada, enquanto tal, por uma concepção materialista (burguesa) do processo histórico e fenomenológico. Em segundo lugar, eme brilhantemente aponta que é a narrativa do holocausto que é usada como cassetete moral e não qualquer evento associado a ele; demonstrando assim que os efeitos disciplinares do holocausto podem ser compreendidos melhor como um regime de verdade. Ele torna certas coisas cognoscíveis e outras incognoscíveis.

Finalmente, porque o liberalismo assume que o conhecimento é naturalmente neutro e que a verdade é livre de valores, ele nos faz crer que apenas seus inimigos (como nós) "manipulam" o conhecimento. Essa manipulação eles chamam de propaganda. Na melhor das hipóteses, porém, a propaganda deveria meramente designar o conhecimento, porque o modo como os estudiosos liberais a descrevem é exatamente como o conhecimento opera, ponto. É irônico que o liberalismo acusou o fascismo de propaganda, porque longe longe de propagandizer, ele meramente demandava que seus súditos entendessem que o conhecimento manipula e aceitassem as possibilidades de manipulação.



Como o fascismo entende o funcionamento do conhecimento?

Enquanto o capitalismo e o comunismo, as duas filosofias políticas liberais dominantes, assumem que as bases biológicas e econômicas de ser humano, a igualdade humana e a primazia da busca do conforto (capitalismo) ou produção mecânica (comunismo), o fascismo assume que o humano é uma criatura narrativamente impulsionada que deve ser inspirada ao sacrifício, ao compromisso e à disciplina. Para muitos, ver o comunismo descrito como uma filosofia política liberal pode parecer absurdo. Mas, quando ele é estudado epistemicamente, se descobre que não há nada no comunismo que desafie o homem econômico liberal e sua dissociação da Tradição e da valoração heroica. Longe das estratégicas econômicas de "terceira via", essa é a diferença crucial entre liberalismo e fascismo.

O conhecimento fascistas nunca é neutro. Ele jamais produz nada acidentalmente. E ele jamais vem sem um preço. Derrida cunhou a expressão "lógica de parergonalidade" para nomear o modo pelo qual o establishment de qualquer sistema como um sistema sugere um para além de si; consistindo naquilo que o sistema exclui seja por virtude do que ele não pode compreender ou do que ele proíbe de modo a realizar seus objetivos sistemáticos. Os intelectuais fascistas sob a tutela de Giovanni Gentile utilizaram uma conceitualização e uma crítica da verdade burguesa liberal similares. Gentile, então encarregado da criação de uma pedagogia fascistas - e assim semeando a própria base de uma episteme fascista - estava preocupado com o que a compreensão liberal do conhecimento deixava de fora, e mais importante, o que ela produziu com o que ela incluía. Ele concluiu, como Nietzsche, que a forma burguesa de vida (especificamente anglo-saxônica) estava construindo os limites de possibilidades humanas nos termos mais medíocres e vulgares, assim normalizando e mesmo exaltando a covardia, a ganância e a indiferença.

O fascismo entendeu que o "povo italiano" precisava ser criado, mas apenas em termos muito específicos. De modo a fazê-lo, eles se dispuseram a controlar e dirigir os regimes de verdade da nação. Assim como o sistema burguês liberal de produção da verdade garante que nos valoremos o materialismo e o conforto acima de tudo, o governo fascista buscou limitar o conhecimento disponível àquilo que inspira o povo ao orgulho, à responsabilidade, à identidade concentrada e a um altruísmo estreitamente definido. Através da Romanità, o culto da grandeza romana, os fascistas literalmente tentaram implementar a bela formulação nietzscheana da História: "A História deve falar apenas do grande e único, do modelo a ser emulado". Isso não era propaganda vulgar ou lavagem cerebral, mas ao invés um uso mais nobre e heroico do conhecimento.

Recentemente um leitor do Counter-Currents me admoestou por sujeitar meu filho a uma restrição e direção similares do conhecimento e do desejo. A suposição dele ou dela, eu presumo, era de que "não se pode pensar pelos filhos e se deve deixá-los livres para que se tornem quem eles podem ser". Um entendimento mais burguês do conhecimento eu dificilmente poderia imaginar. Eu tive que assumir enquanto olhava espantado para o site que esta pessoa acreditava que entregar meu filho para o liberalismo e permitir que ele - o porta-estandarte de nossa espécie, o futuro do nome de minha família - vague sem direção de um estacionamento de shopping a outro é algo mais nobre, e mais valioso para nossa espécie, do que ensiná-lo sobre Grécia, Roma, SEUS Deuses, e os milhares sobre milhares de exemplos de coragem, honra, decência, brilhantismo, maestria e irmandade nutridos por nosso povo. Não, você está certo caro leitor, Rua Sésamo e sua moralidade multicultural nos servem muito melhor. Mas eu estou divagando.

"Que extraordinária falta de livros exsudando força heroica em nosso tempo", meditou Nietzsche, enquanto ele ponderava a "luta de conhecimento contra conhecimento". É essa luta na qual devemos estar engajados - não necessariamente a luta para limpar etnicamente a America liberal. Greg Johnson uma vez disse "Em uma sociedade nacionalista branca nós ainda estaremos discutindo sobre legalização das drogas, direitos homossexuais, ambientalismo, aborto, etc..." E ele está certo, a não ser que nós descontruamos epistemicamente a concepção burguesa do humano que torna o Estado-nação moderno possível. Lembre, as verdades, os conceitos que possuem a mais alta autoridade na forma de vida liberal, não são construídos apenas para manter essa forma de vida, mas para criar um certo tipo de humano. Se nós criarmos um Estado liberal totalmente branco, nós não teremos feito absolutamente nada para evitar o declínio de nossa espécie. Porém, se nós pudermos reconceitualizar nossa guerra em termos nietzscheanos, com um entendimento profundo de nosso verdadeiro inimigo, nós ao invés criaremos uma pátria na qual um homem baseado em direitos em guerra com o mundo natural e seus próprios instintos será impensável e incognoscível.

O fascismo foi fundado sobre o pensamento heroico e aristocraticamente radical do Contra-Iluminismo (um termo simpático, mas discutível, para as correntes de pensamento europeu que se opuseram aos vários movimentos em direção à padronização e degradação culminando na modernidade oitocentista) e buscou ressacralizar a vida através de mitos, lendas e narrativas de grandeza, força e honra. Ele criou uma política para reestabelecer a hierarquia, a vontade e uma estimativa mais natural do humano - tudo com uma vontade de criar um novo homem. Em outras palavras, ele estava rompendo com a episteme liberal, não para liberar um mercado, mas para criar um homem mais nobre, heroico e viril. O fascismo compreendeu que todo conhecimento é construído para manipular entendimento e comportamento. Nenhum conhecimento é neutro.

Um famoso cristão disse, "a verdade o libertará". Nós sabemos, porém, que ela apenas o libertará para ser manipulado por outra verdade. Já passou o tempo para que nós "imaginemos o inimaginável", para que transvaloremos os valores liberais, e abracemos completamente o Contra-Iluminismo - o único inimigo epistêmico que o liberalismo já conheceu - e o poder revolucionário da Nova Direita. Como Evola explica, até que uma escolha e comprometimento de tal magnitude sejam feitos, nós podemos ser utilidade para a episteme "democrática, burguesa e humanista" que corresponde "com o advento de um tipo humano inferior", mas nunca para um no qual o homem é natural, hierárquico ou obediente à dureza e exatidão na qual a grandeza prospera.