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domingo, 29 de dezembro de 2013

Jean Thiriart - Os Pretorianos Políticos

por Jean Thiriart



Ou O Preço da Potência Militante

A sociedade plutodemocrática, guiada pelas virtudes da comodidade (facilidade) e não pelas do combate (esforço, risco, compromisso), faz gala de toda uma série de qualidades que em realidade não possui.

A maioria dos resistentes são uns farsantes [refere-se o autor aos membros da Resistência na Segunda Guerra Mundial. NdT], os antigos combatentes igualmente, e o mesmo ocorre com os "heróis da Frente Oriental". Tudo isso é como material contrachapado, trata-se realmente de meio milímetro de bom carvalho sobre trinta milímetros de pinho barato.

O poder da corrupção de uma sociedade hedonista é excessivo, pois afeta inclusive à vida militante dos partidos revolucionários que, por definição, se consideram fora da coletividade degenerada.

Muitos revolucionários são como o material contrachapado. Existem falsos militantes como existem falsos resistentes. Na vida civil, existe todo um ritual da falsa virilidade: as faixas de "rally" pintadas nos carros, os tubos de escape ruidosos, as jaquetas de couro, os bigodes ao estilo dos "mercenários de Katanga". Retiremos esses adornos e só nos ficarão empregados medíocres, homens sem cor, heróis de taverna.

Na vida política, pelo menos nos partidos considerados como duros, sucede o mesmo. Os militantes de contrachapado da extrema-esquerda levam ostensivamente uniformes maoístas, cortam as barbas ao estilo Castro, são intencionalmente repugnantes.

Os pseudomilitantes de extrema-direita também tem seu ritual: as noitadas regadas a cerveja, os discos alemães, as cruzes de ferro compradas em feiras, as boinas ao estilo "Bigeard" [atualmente a estética de uns e de outros variou ainda que sejam igualmente reconhecíveis. NdT]. Isso quanto aos simples. Para os intelectuais, a virilidade consiste em recitar os poemas de Brasillach escritos em Fresnes. Tenho que esclarecer, de passagem, que minha simpatia humana é dirigida a Brasillach e não a seus verdugos. Porém os garotos que quarenta anos mais tarde jogam duro lendo autores fuzilados são, desde o ponto de vista revolucionário, uns impostores. Assim pois, a técnica do contrachapado afeta inclusive os meios revolucionários paraprofissionais.

Seita Política e Seita Juvenil

Mais adiante, farei uma descrição da seita política e das fontes de sua potência. Aqui vamos nos ocupar da seita juvenil.

O adolescente deve passar por um portal psicológico em que está obrigado a se afirmar para poder entrar no mundo dos adultos.

Nas sociedades primitivas (na África e na Amazônia, por exemplo) essa passagem é o objeto de um ritual preciso, imutável, formal, indiscutível. Depois de ter sofrido as provas (geralmente de coragem e mutilações superficiais), o adolescente se faz homem. Uma vez superado isso, seu caráter de adulto não se põe em dúvidas. Nesse aspecto concreto, as sociedades primitivas estão melhor organizadas que as nossas. Posteriormente, na Antiguidade grega, por exemplo, os ritos de adolescência eram também muito precisos, muito ritualizados oficialmente.

Hoje tudo isso foi deixado à iniciativa pessoal. As sociedades plutodemocráticas não se preocupam com esses problemas tão importantes. Assim, os adolescentes criam eles mesmos os ritos: o batismo estudantil, a pornografia verbal, o alcoolismo juvenil, e - o caso que mais nos interessa - o pertencimento a uma seita "dura". Os fenômenos neonazis do pós-guerra são assombrosamente frequentes entre os muitos jovens. Não se trata aqui de opção filosófica, senão de captação de um ritual mágico. Todo um maravilhoso mundo de terror vinculado às lembranças da SS e do NSDAP. Assim, certos jovens atravessam a obrigatória crise de afirmação frente a sua condição de adulto criando frequentes seitas juvenis.

A máquina de propaganda político-científica americano-sionista apresenta essas seitas juvenis como seitas políticas. Essa manipulação é muito rentável para os sionistas, para os meios fanáticos judaicos de extrema-esquerda. A perpetuação do "perigo fascista" é o mito justificativo de sua própria ação. É o pretexto para reclamar umas centenas de milhões de marcos a mais da República Federal Alemã. Todos os círculos denominados de estudantes "nacionalistas" substituem igualmente essas seitas juvenis. Isso dá lugar a que os membros desses grupos se renovem continuamente. O jovem permanece em geral um máximo de um ou dois anos, o tempo necessário para superar sua crise. Uma vez cruzado o umbral, uma vez que se considera adulto, abandona a seita juvenil e se integra facilmente na sociedade adulta e burguesa.

Ocorre às vezes, que à cabeça dessas seitas nos encontramos com alguns homens de idade que não as manipulam para conseguir objetivos políticos, senão para resolver seus próprios problemas psíquicos. A impotência sexual devida à idade ou ao vício em certos quarentões ou cinquentões se vê sobrecompensada por algumas campanhas de imprensa racistas de caráter sexual (a obsessão do negro que tem relações com uma branca). Aqui, ademais, se considera ação política o que é um caso que compete ao sexólogo ou ao psicanalista.

Há que evitar confundir a seita juvenil com uma seita política. A primeira se caracteriza por uma indisciplina interna - o adolescente deve se afirmar e crê ingenuamente que a indisciplina é um ato de maturidade - e pela ausência de uma nova e original ideologia política. A seita juvenil é desordenada, sem hierarquia funcional e busca como referentes mágicos em um passado estimado como prestigioso. Se faz e se desfaz constantemente, seus membros são passageiros efêmeros.

As Seitas Políticas e suas Fontes de Potência

A sociedade em que vivemos, é muito corrupta politicamente, muito fraca devido a suas preocupações economicistas. É uma sociedade sem tensão política. A energia se destina à busca dos meios que proporcionam prazeres. A energia se canaliza na direção do "fazer dinheiro". É uma sociedade hedonista. Por isso, os jovens prefere o carro esportivo ao serviço militar, e os adultos o prestígio de "ter mais" ao de "ser mais". É a sociedade plutodemocrática. Não obstante, a história nos deu a conhecer em épocas passadas formas de sociedades militares ou teocráticas entre outras. Esta sociedade demoplutocrática é extremamente vulnerável à ação de minorias políticas determinadas e organizadas. Não crê no poder puro, crê que todo poder se reduz ao dinheiro e que tudo se soluciona com uma tecnocracia aperfeiçoada. Se equivoca nisso, e se bem em tempos de paz tais sociedades se estabilizam mediante uma espécie de estancamento hedonista, não ocorrerá o mesmo com motivo de uma guerra ou de uma grave crise

A sociedade burguesa demoplutocrática se encontra livre, passiva perante uma ação exterior que irrompa através de um grupo organizado de reformadores decididos. Não confundir reformadores com reformistas. É a analogia entre a faca de carniceiro e a baleia. Com uma pequena faca bem afiada e bem manejada pelo esquartejador, um homem pode esquartejar uma baleia de cinco toneladas. A fonte de potência "da faca", quer dizer, da seita política reside no acúmulo e intensidade das virtudes de que carece a débil sociedade burguesa. Uma das virtudes é a lealdade. É a primeira condição da potência da seita. As seitas políticas extraem suas forças da prática da honestidade interna absoluta. A mentira, o interesse pessoal, a reserva mental, que debilitam tanto à sociedade ordinária como aos vulgares partidos parlamentares, não são admissíveis na seita. A seita obtém sua força de uma virtude real, de uma virtude praticada. Ela possui duas forças morais: uma dirigida à vida interior, outra ao mundo exterior. Assim pois, as virtudes de pureza, de retidão, de lealdade que produzem tanto riso aos burgueses, até o ponto que as qualificam como "moral de escoteiro" é precisamente a fonte da potência da seita política. Aí onde a sociedade está dividida, a seita está integrada; aí onde a sociedade rechaça a força, a seita a glorifica; aí onde a sociedade celebra o prazer, a seita exalta o sacrifício. A sociedade demoplutocrática não toma em consideração aos jovens ambiciosos, aos jovens impacientes, aos espíritos plenos de vida, os grandes sacrifícios.

Para evitar que seja contaminada pelas debilidades da sociedade burguesa, a seita deve se isolar totalmente dela. A seita tem que ter suas próprias forças morais, uma delas muito estrita voltada ao seu interior, e outra muito oportunista para socavar a grande sociedade. Ela deve manter sua organização interna vivendo em um circuito fechado, completo.

Recorrendo a um exemplo, direi que assim como o ovo posto por certos insetos no corpo de um animal de outra espécie, ovo que dará lugar ao nascimento de uma larva que carcomerá inexoravelmente ao animal suporte, a seita política determinada deve ser também um organismo completo inserido em outro organismo. A seita será intransigente e evitará os compromissos com a sociedade, sem isso se dissolveria e paradoxalmente a reforçaria, reviveria o organismo que se propõe a eliminar.

Enfim, a seita estará extremamente "conjurada" (eu entendo por isso que a solidariedade interna total dominará todo o resto de preocupações). É a solidariedade levada até a cumplicidade. Em resumo, a densidade dos comportamentos heróicos multiplicada por uma total cumplicidade cria a seita capaz de se apoderar de uma sociedade moderada, pusilânime, apática. É o Partido Revolucionário.

Por uma parte, há uma imensa sociedade em plena digestão de prazeres que permite todo tipo de concessões para prolongar essa digestão, e por outro lado está a seita determinada, exigente.

Por uma parte, alguns homens que não querem renunciar à menor parte de seus prazeres, e que a priori não estão dispostos a morrer, se chegasse o caso, para ter que defendê-los; por outro lado, alguns homens decididos a buscar sua potência na renúncia a toda uma série de prazeres comuns e que, se chega o caso, porão os pesos de sua vida na balança da luta.

Inevitavelmente ocorre que alguns homens insuficientemente integrados tratarão de dominar a seita não satisfeitos apenas em formar parte dela. Logo deslocados, eles se acabam indo. É o que se denomina na política pelo nome de dissidência e na igreja pelo nome de herege. Em seguida, mais ou menos, esses ramos separados do tronco apodrecem e logo desaparecem.

A explicação do fenômeno é simples. A seita possui uma espécie de aura que lhe outorga poderes especiais no plano psicológico. Essa aura é indivisível. Aquele que abandona a seita levará, às vezes, algum elemento característico dessa aura. Assim, o dissidente, o excluído, o desterrado, o exilado jamais dispõe do elemento paramágico que dá força à seita. Que se chamassem Trotski ou Doriot, não impediu que apesar de seu brilhantismo fossem excluídos e enterrados longe de sua amada terra.

O Preço Humano da Potência Militante

Certos homens podem dispôr de um poder que não é sobrenatural - tal termo os faria rir com muita razão - senão de um poder supranatural (eu entendo por isso tudo que está acima da média). O homem pode dedicar, orientar sua energia a uma ou outra atividade física ou intelectual. É o fenômeno conhecido como "fakirismo" elemental: pode-se dominar a dor física depois de um treinamento adequado. No plano intelectual, pode-se igualmente obter resultados supranaturais. A polarização da energia vital, da vontade, pode proporcionar poderes, resistências. Na vida corrente, a um nível mais trivial, o atleta pode obter resultados inacessíveis ao comum dos burgueses. Porém ao custo de uma disciplina especial: proibindo certos alimentos, proibindo certas distrações, com treinamento diário. Em cada caso concreto é necessário pagar um preço quando se requer um aumento de capacidade.

O aumento da potência em um âmbito se paga com a renúncia em outros âmbitos. Em nenhum caso o crescimento da potência física, psíquica, intelectual vem a se acrescentar à vida ordinária, banal, trivial. Em todos os casos o crescimento da potência se adquiriu a custo de amputações na vida banal, na vida comum. O mesmo ocorre no setor do militantismo revolucionário. Se exige tanto a um militante que resulta impossível conciliar a vida frívola com a vida militante. A vida militante é irreconciliável com a vida normal. A primeira se desenvolverá ao custo da segunda. Existe, pois, certa ascese política. Isso faz pensar injustamente, em muitas ocasiões, que os chefes políticos dessas seitas sejam puritanos. Em primeiro lugar há um abismo entre a ascese e o puritanismo. Ademais, essa ascese não é um fim em si mesmo, senão o meio de adquirir a concentração da vontade indispensável para a posse desses poderes supranaturais aos quais me referia antes. A vida política militante não permite o estilo da sala de festas permanente onde é possível entrar e sair a qualquer momento. Uma revolução vivida e organizada por uma minoria determinada de ascetas implacáveis ou de "monstros frios" exige no plano cronológico, a dedicação de uma vida inteira.

A maioria das pessoas desconhece sempre a longa fase de incubação pois essa fase lhes resulta imperceptível. Só os policiais políticos se dão conta do desenvolvimento das seitas na fase de incubação. Por exemplo, a vocação político-histórica de Lênin se situa no enforcamento de seu irmão em 188, ou seja, trinta anos antes da Revolução de Outubro.

Na vida militante ocorrerá que quando um homem seja excluído, expulso da seita, no mesmo momento perde seus amigos de antes. Não só o partido lhe expulsa com menosprezo, senão também seus amigos de combate lhe rechaçam simultaneamente. É um dos testes que permitem medir a intensidade de uma seita. Se é fraca, o expulso seguirá vinculado a suas amizades pessoais dentro da mesma. Se é forte, o expulso o será duas vezes: uma vez pela seita e outra por cada amigo em particular. Rechaçado pela seita, é simultânea e instantaneamente rechaçado pelos militantes dessa. No militantismo não há lugar para uma amizade que estivesse em contradição com as decisões e atitudes da seita. Essa contradição só é admissível nos meios burgueses onde é possível "conservar uma amizade pessoal" com um excluído, com um expulso. Nos revolucionários, o Partido é cem vezes mais importante que a amizade.

Uma das últimas provas que aguardam o militante em seu noviciado, é a humildade revolucionária que lhe conduz, à diferença do mundo burguês, a se abster sempre de "dar sua opinião" (ato frequentemente estéril em si mesmo, por outro lado) e a se obrigar a executar ordens que sacrifiquem seu amor próprio adquirido em sua antiga educação. Porém essa humildade se compensa amplamente pelo orgulho de pertencer a um grupo eleito, elitista.

Por último, para finalizar, o militante em seu noviciado descobre que a seita é uma sociedade igualitária: ao entrar ali, deve aceitar que à seita não importam as categorias e os cargos obtidos em outros lugares, na vida burguesa. A seita só reconhece suas próprias referências de honra, suas próprias referências hierárquicas.

Assim pois, o preço humano da potência militante é elevado, muito caro, não está ao alcance de todos, nós dizemos inclusive que está ao alcance de muitos poucos. O militante é um tipo de monge político, do mesmo modo que em outro tempo os primeiros templários foram monges-soldados. O que pode e quer pagar o preço humano desejado conhecerá então as sensações estimulantes de participar na conquista de um poder.

A conquista dos demais passa obrigatoriamente e acima de tudo pela conquista de si mesmo. Quem se dirija a si mesmo, dirigirá aos outros. Esse é o primeiro exercício, e com muito, é o mais difícil, o mais duro. Nele está a chave da potência.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A Europa-Estado e a Europa-Nação se farão contra os EUA

por Jean Thiriart



A construção europeia nascida do tratado de Roma (25 de março de 1957) deve conduzir à Europa-Estado. É uma construção válida, indispensável e não deveríamos rechaçá-la por seu caráter técnico em nome do sentimentalismo. A Europa do Mercado Comum é positiva. Porém está limitada em suas ambições. Aponta à posta em marcha de estruturas estatais. É ao mesmo tempo muito e pouco. A Europa não estará terminada até que não seja ao mesmo tempo Estado e Nação, ou seja estruturas e consciências.

Somos historicamente os primeiros, e os únicos, em haver exprimido a vontade de realizá-la. Nossa corrente comunitária é a fonte de onde brotou pela primeira vez o conceito de nacionalismo europeu. Este é essencialmente diferente, de fato é diametralmente oposto ao das Europas hegemônicas (Europa francesa de Bonaparte ou de Gaulle e Europa alemã de Hitler) e ao da Europa das pátrias. A diferença entre Europa-Estado e Europa-Nação é a que existe entre o inorgânico e o orgânico, entre a matéria e a vida, entre a química e a biologia, entre o átomo e a célula.

A Traição dos Oficialistas

Todos os governos europeus ocidentais saíram dos furgões anglo-saxões de 1945. São os colaboradores dos ocupantes, diretamente ou por adesão. Desde então as construções políticas europeias dos oficialistas estão hipotecadas por nossos ocupantes. A prova dessa hipoteca, dessa traição, está por todas as partes, porém de modo formal e claro em um documento oficial do "Parlamento Europeu" (sic): "A União Europeia tem como missão a de promover a unidade da Europa".

Muito bem, perfeito. Porém um pouco mais abaixo lemos:

"...A adoção de uma política de defesa comum, no quadro da Aliança Atlântica, contribuindo para o fortalecimento da Aliança Atlântica".

Aí está a confissão, muito explícita. A confissão de que essa "Europa" não é mais que um apêndice do imperialismo americano, porque a Aliança Atlântica é um tubarão americano rodeado de cabalas europeias oficialistas. A Europa oficial não se logra construir porque está enredada na contradição formal, fazer uma nação que ao princípio mesmo reconhece depender de outra. Idiotice, hipocrisia.

Europa deve fazer-se contra os Estados Unidos

Uma nação se define particularmente no que a diferencia das outras, em seu estilo, suas intenções, seus interesses. Aqueles que pretendem construir a Europa e que simultaneamente encontram nos EUA um modelo perfeito de sociedade, modelo que há somente que copiar, e que consideram que cada guerra americana é também a nossa, estão em contradição com eles mesmos. Por que construir a Europa se os EUA são perfeitos? Que estendam os EUA, seria mais lógico. A camarilha de supostos "europeus" que a cada noite se deitam rezando a Washington faria melhor em propor a Inglaterra como o estado número 51 dos EUA, a Alemanha como o 52, a Itália como o 53. Porque essa é a realidade.

Há uma contração absoluta, formal, conceitual, entre o fato de ser europeu e o fato de ser pró-americano. Aquele que se diga pró-americano é inimigo da Europa, quer seja um social-democrata ou algum idiota da extrema-direita.

Aquele que colabore com os americanos é um traidor da Europa.

Europa sem riscos: Idiotice

Alguns supostos intelectuais, às vezes bem intencionados, esperam fazer uma Europa por meios pacíficos, razoáveis. É um sonho. A história se faz com as convulsões, com os combates, com o esforço e o sacrifício. Uma nação se faz, particularmente, contra alguma coisa, contra seus inimigos. Não somente os EUA são historicamente os inimigos da Europa nascente sobre o plano objetivo, senão que devem sê-lo sobre o plano psicológico também. Uma nação necessita de inimigos para se fazer, para se manter. Viver frente aos inimigos cria a unidade, cria a saúde moral, mantém o vigor característico. Para nós não é questão de pedir a Europa, senão de tomar a Europa. Objetivamente jamais nenhum estado hegemônico (como os EUA nesse momento frente a Europa) deu independência a seus vassalos; senão que estes a tiveram que conquistar. A Itália se fez contra os austríacos e contra os franceses. A Europa se fará contra os americanos. Uma nação se forja no combate e se sela com o sangue. Os riscos são grandes porém devem ser assumidos. A vida é um risco permanente. O risco deve ser buscado, calculado.

Uma Europa sem riscos é uma quimera desmentida por toda a experiência da história.

O Escudo e o Calendário

O grande argumento dos filoamericanos vergonhosos é o do "escudo americano".

O que é o escudo?

Pálida em 1945, convalescente em 1955, a Europa está hoje no plano industrial e econômico em plena forma. A proteção americana - contra o assalto stalinista - era indispensável em 1948, útil em 1951 (no espírito da época). Hoje em dia não é o mesmo. Em fábricas, em dinheiro, em homens, a Europa ocidental não necessita dos americanos. Que se vão então. Nenhuma gratidão deve nos atar a eles. Vieram a Europa por seu interesse e não pelo nosso. Em 1949 podíamos ser filoamericanos por hipocrisia e interesse. Hoje em dia não.

Somente a parte ocidental da Europa é suficientemente forte para por de pé facilmente uma força militar suscetível de suprimir qualquer adversário potencial. Tudo é querer essa força militar, e querer a unidade política da Europa. Os que dizem que não se pode estar sem os americanos não fazem nada para que se possa.

O "escudo americano" é a cartada dos covardes, é a cartada dos preguiçosos, é a cartada dos impotentes.

A hipócrita construção americana é a seguinte: dizem, com a boca pequena, que se irão da Europa quando sejamos suficientemente fortes para nos defendermos sozinhos, (o dizem porém não o pensam) e ao mesmo tempo fazem todo o possível para que jamais sejamos fortes sozinhos. Essa é a chave dessa vergonhosa mentira.

Os EUA não querem nos vender armamento atômico ou nos confiá-lo no marco da OTAN. A OTAN é uma farsa (o tubarão e a cavala - ver mais acima) porque há aliados de primeira linha (EUA) e aliados de segunda linha (os pequenos países europeus), os primeiros tendo direito à bomba e os segundos não.

Os americanos são suficientemente realistas para saber que o fim de sua ocupação militar na Europa significaria, seis meses mais tarde, o fim de sua soberania política. Daí que os americanos não contemplem sinceramente sua saída.

Os estadounidenses, com razão, não confiam em uma livre associação da Europa com os EUA em um plano de igualdade. Sabem que uma Europa forte, independente, não será aliada dos EUA.

Desde então os estadounidenses fazem todo o possível para serem militarmente indispensáveis na Europa. A tese dos colaboradores pró-americanos segundo a qual não podemos estar sem os americanos é hipócrita, em realidade deveriam reconhecer que não querem estar sem os estadounidenses. O argumento do "escudo americano" somente seria válido em duas condições formais:

Nenhum dos dois pontos é respeitado, nem o será. Irei inclusive mais longe que este prudente plano. Diria inclusive que é desejável que as tropas americanas saiam correndo antes inclusive de que o calendário esteja estabelecido. Quando a Europa tenha medo, se reforçará. Atualmente a Europa é preguiçosamente covarde ao amparo do "escudo estadounidense". Para acelerar a conscientização da Europa há que desejar deliberadamente um perigo. É a necessidade, é a urgência, é a iminência que despertarão a Europa. Portanto há que aceitar e desejar os riscos de um relevo perigoso. Para cimentar a Europa, fará falta colocá-la parcialmente em perigo. Isso não passou desapercebido para a França em 1792...

Não se cria uma nação com discursos, votos piedosos e banquetes. Se cria uma nação com fuzis, com mártires, com perigos comuns. De fato os filoamericanos são covardes, gente que não tem nem vontade de lutar caso surja a oportunidade. Aceitam a humilhação da ocupação americana para não ter que lutar. É a mesma atitude que o da burguesia francesa durante a ocupação alemã de 1942. Se acreditavam muito prontos dizendo que "os alemães morrem na frente russa para proteger nossas caixas-fortes". Se acreditavam muito prontos, porém não se viam covardes. Outra tradição que não se perdeu. A mesma desonrosa burguesia que se fazia proteger pelo "escudo alemão" em 1942 aceita hoje com complacência a proteção do "escudo americano". Enquanto seus dividendos estejam protegidos, estão contentes. Eles tem medo físico da marcha dos estadounidenses, porque estarão sozinhos: nós não temos medo. Esse é o abismo que nos separa da camarilha filoianque.

As Soluções Garibaldianas

A unidade italiana se fez com a ajuda de distintos fatores: o idealismo e a magnífica presença de Mazzini, a epopeia ativista de Garibaldi, os cálculos de Cavour. É um conjunto indissociável. Sobre o plano puramente militar a ação garibaldiana foi insignificante. Sobre o plano histórico foi capital, determinante. É graças a Garibaldi que brotou o sangue. E quando o sangue brotou, se criou um profundo fosso entre o ocupante e o ocupado. Um fosso que obrigou todos a tomarem partido por ou contra o ocupante. Após as primeiras mortes já não há lugar para os "sim, mas".

O fenômeno se pôde verificar na Argélia entre 1954 e 1962. Em 1954 alguns argelinos podiam defender ainda o argumento de que a ocupação francesa era um "mal menor". Em 1960 nenhum argelino ainda podia fazê-lo. O fosso foi cavado pelos mortos. Que tenha sido artificialmente, deliberadamente, não muda nada.

Durante a ocupação alemã os comunistas procederam desse modo. Mataram soldados alemães inocentes, de um tiro pelas costas. As autoridades ocupantes caíram em uma armadilha: fuzilaram franceses igualmente inocentes. A maquinaria se pôs em marcha. Aquilo não podia deixar de terminar com a eliminação de um dos dois. Se podia ser expectante em 1940, mas não em 1945.

Quando Garibaldi teve entre suas filas de soldados regulares seus primeiros cem mortos, a Itália começava a se sentir obrigada a acabar o assunto com canhões. Foi o que fez.

A Europa também se construirá contra seus ocupantes. Se a chantagem se faz bem, se fará sem muito sangue ou inclusive sem violência. Porém é provável que a chantagem ao princípio seja reforçada por "ações garibaldianas".

Em uma duplicidade patriótica bastante política, como a de Garibaldi e Cavour, colocaremos os ocupantes para fora. Um revolucionário europeu deve portanto contemplar como uma hipótese de trabalho uma eventual luta armada insurrecional contra o ocupante americano. Àquele a quem essa hipótese dê medo, não é um revolucionário. Tampouco será um nacionalista europeu. Quando se quer o fim, se quer os meios. Quando queremos a Europa, queremos todos os meios para construí-la.

A Europa que deveremos construir nós mesmos

A Europa oficialista tropeça com a construção europeia, quer seja pelos ranços micronacionalistas ou pelos filoianques. A Europa do tratado de Roma não se terminará ela sozinha. Devemos construir a Europa, fazê-la nós mesmos. É evidente: A Europa foi um pretexto dos políticos para se fazer valer. Cada um deles calculou o que poderia retirar da Europa, quer seja para ele como meio publicitário ou para seu país como vantagem econômica egoísta. Cálculos com astúcia, mentiras, hipocrisias que situam à Europa oficial em um beco sem saída. E está assim porque seus promotores não tinham a vontade de construí-la. Como muito o tinham alguns, porém era um desejo vago e débil.

É por isso que devemos nós mesmos construir a Europa. Fazê-lo através de um grande partido histórico, através de um grande partido patriótico nacional-europeu. Fará falta atuar diretamente sobre os fatos, eliminar da cena política aos políticos antieuropeus e convencer os que ainda duvidam. Hoje mais que nunca estou convencido de que a Europa se construirá com um partido que obrigará a construir a Europa, com um partido que dará uma consciência dela mesma à Europa, com um partido preparado para as tarefas ideológicas ou passionais, legais ou ilegais, dialéticas ou violentas. Ontem fez falta o neo-destour para construir Túnis, um Istiqlal para fazer o Marrocos, um FLN para fazer a Argélia como há um século tem feito falta um Risorgimento para fazer a Itália.

Para parir a Europa-Nação faz falta um partido.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Europa até Vladivostok

por Jean Thiriart


História e Geopolítica

A história conhece cidades-estado: Tebas, Esparta, Atenas, depois Veneza, Florença, Milão, Gênova.

Hoje ela conhece estados territoriais: França, Espanha, Inglaterra, Rússia.

Finalmente ela descobre estados continentais, tais como os Estados Unidos da América, a atual China e a União Soviética de outrora. (1)

A Europa atual passa por uma fase de transformações.

Ela tem que proceder da mais ou menos estável fase de estados territoriais à fase do estado continental.

Para a maioria do povo, essa transição é atrapalhada por inércia mental, sem mencionar preguiça de pensamento.

Ainda que não fosse maior que um pedaço de fio, Esparta possuía uma forte vitalidade, de um ponto de vista história, sendo fundamentalmente vital em seu aspecto militar. Suas dimensões e recursos eram suficientes para conter um exército capaz de ganhar respeito de todos os seus vizinhos.

Aqui nós abordamos o problema básico da vitalidade dos estados. A cidade-estado histórica foi substituída pelo estado territorial. O Império Romano substituiu Atenas, Esparta, Tebas. E sem muito esforço. (2)

Hoje a vitalidade histórica do estado depende de sua vitalidade militar, que por sua vez depende de sua vitalidade econômica; que nos leva à seguinte alternativa.

Primeira hipótese: estados territoriais são compelidos a se tornarem satélites de estados continentais. França, Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra não representam mais que uma ficção de estados independentes. Já há muito, desde 1945, todos esses países se tornaram satélites dos Estados Unidos da América.

Segunda hipótese: esses estados territoriais são transformados em um único estado continental - Europa.

A falha histórica de um estado continental: a URSS

A pesarosa desintegração da URSS é explicada, em particular, pela compreensão teórica insuficiente do estado por Marx, Engels, Lênin, e de certa forma Stálin. Já em 1984 meu discípulo e colaborador, José Cuadrado Costa, com base nas obras de Ortega y Gasset e nas minhas, publicou um ensaio brilhante e profético sob o título "Inadequação e Obsolescência da Teoria Marxista-Leninista da Nacionalidade". (3)

No que concerne a compreensão da essência do estado, os jacobinos eram obviamente muito mais avançados que os marxistas. Nessa área, Marx permaneceu limitado à era romântica da Revolução de 1848. Já ao fim do século XVIII Sieyes escreveu sobre o modo de obter um estado-nação "homogêneo". O estado-nação é um fruto de vontade política.

Outro exemplo de tolice marxista, derivada do romantismo oitocentista, é a idéia da desintegração do estado. É difícil pensar em uma besteira maior. Este é um velho sonho anarquista. (4)

Assim Lênin preservou a existência formal das repúblicas. Eu propositalmente escrevo a palavra como plural.

Devido à aplicação do princípio de centralismo dentro do partido comunista e à personalidade peculiar de Stálin, essa ficção ou comédia durou até 1990. O enfraquecimento do Partido resultou na desintegração da URSS em linhas derivadas do período 1917-1922.

Ficção se tornou realidade.

Em 1917, os jacobinos russos criaram a República dos Conselhos (eu chamo sua atenção para o singular). Lênin concordou com essa ficção da União das Repúblicas Soviéticas (eu chamo sua atenção para o plural) e a tolerou. De 1946 a 1949, no ápice de seu poder, Stálin também preservou essa aparência de Estados "Independentes", se estendendo da Polônia à Bulgária. Mais uma imprudência teórica.

O estado político enquanto oposto ao estado étnico

No dicionário francês "Le Petit Larousse" está escrito que as condições de uniformidade para uma etnia são sua língua e sua cultura.

Para o propósito dessa análise, eu darei minha própria interpretação estendida desse conceito, tendo dito que a unidade do estado étnico tem suas raízes na unidade de raça, religião, língua, símbolos comuns, memórias comuns, frustrações ou medos comuns.

O conceito do estado político (como um sistema aberto, expansivo) é efetivamente oposto ao conceito do estado étnico (como um sistema fechado, fixo). O estado político é a expressão da vontade de homens livres para ter um futuro comum. 

O estado político, ou mais precisamente o estado-nação político - do qual eu sou considerado o teórico moderno, após Ortega y Gasset (5) - permite aos indivíduos preservar sua individualidade pessoal (perdoe esse pleonasmo bárbaro) dentro da estrutura da sociedade.

Menos de dois meses atrás (6) eu afirmei minha opinião sobre a importância dos conceitos de Imperium e Dominium. Desde 1964 eu jamais parei de desenvolver este conceito de origens romanas.

A um amigo político que me chamou "valão" (não era o bastante para mim!), eu escrevi, como usual, que eu não sou nem valão, nem flamengo, nem alemão, ou belga, e nem mesmo europeu. Eu sou eu. A pessoa de Jean Thiriart - esta é Jean Thiriart, eu lhe escrevi. Eu não gosto de modo algum de aparecer junto a outras pessoas em qualquer arquivo, no qual esteja escrito que eles "me lembram".

Eu quero preservar constantemente minha ironia socrática. Um defensor do totalitarismo quando o assunto é o Imperium, eu me torno um anarquista na esfera do Dominium.

Marx e Engels não sabiam absolutamente nada sobre essa dicotomia fundamental entre Imperium e Dominium; é por isso que eles escreveram "A Ideologia Alemã", dirigida contra Max Stirner. A visão stirniana de Imperium (livre escolha federativa, o direito de secessão, e daí em diante) será sempre utópica e inaplicável. Ao contrário, sua visão de liberdade interna, da esfera de Dominium, sempre será interessante. Eu sou bolchevique, jacobino, prussiano, stalinista, onde quer que o discurso seja sobre o Imperium e sua disciplina civil, mas meu gosto e interesses intelectuais relativos a minha vida privada, minha vida dentro da estrutura do Dominium, elas se inclinam a Ulisses, o campião em imitar os cínicos, a Diógenes, que em resposta à pergunta: "Você pode ver algum homem bom na Grécia?" - respondeu, "Em lugar algum; mas eu vejo uns bons rapazes nos lacedemônios..."

É sabido que Diógenes e os outros cínicos admiravam o sistema espartano porque os espartanos eram partidários da disciplina e da austeridade e inimigos do luxo e da preguiça.

Assim, como Diágoras, eu sou contra religião. Na esfera privada, é claro!

Certamente, eu sou famoso como o mensageiro da Europa unida de Dublin a Vladivostok. (7)

Mas essa Europa unida, que eu escrevo e invoco, está conectada à esfera do Imperium. E em minha opinião tal Imperium tem que ser poderoso, dinâmico, impiedoso - de modo a ser efetivo.

Quanto a personalidade, ela está conectada à categoria de Dominium.

Minha personalidade cultural me proíbe de escolher entre categorias. Ela é única, como único é meu código genético.

Biologicamente, cada pessoa é a corporificação de um código único. Ele é um. No campo da cultura - música, arquitetura, literatura, pintura, etc. - eu reivindico para mim o status de individualista inabalável.

No estado político não pode haver "minorias", já que estas lidam apenas com individualidades, enquanto coletivamente lida com o Imperium.

Esses laços representam limitações, o que eu já mencionei antes.

Infortúnios recentes: federalismo, confederalismo

Tão logo quanto no conceito de construção do estado o conceito gêmeo de "Imperium-Dominium" é introduzido, tais soluções perversas, como federalismo ou mesmo pior que isso, confederalismo, perdem qualquer sentido e utilidade.

Eu não posso deixar de citar aqui um autor americano, o qual eu conheço apenas por uma única citação sua - mas uma citação tão relevante:

"Qualquer grupo de pessoas, independentemente de seu número e similaridade recíproca, e qualquer seja o grau de sua firmeza em avaliar sua opinião - qualquer grupo acaba se dividindo em grupos menores aderindo a variantes diferentes da mesma opinião; nesses subgrupos por sua vez emergem sub-subgrupos, e daí em diante, até o limite final de tal divisão - o indivíduo singular".

Essas palavras são atribuídas a Adam Ostwald, autor de um livro chamado "Sociedade Humana".

Os anarquistas do século XIX e muitos outros, incluindo Proudhon, persistiam no erro grosseiro de acreditar que conflitos e tensões dentro de grupos grandes poderiam quase desaparecer, encontrando para si uma solução em grupos pequenos.

Essa é a harmonia social do século XIX - a harmonia do grupo pequeno, oposta ao horror da dominação intolerável do grupo grande.

Mesmo Lênin inventou um sem-sentido histórico na moldura do conceito absurdo do "grupo pequeno sempre bem sucedido e harmonioso" - o que depois o forçou a escrever sobre o desaparecimento do estado, e também a querê-lo e prevê-lo.

Europa até Vladivostok: O Tamanho Mínimo

O estado-nação, querendo ser independente, é compelido a ter meios militares adequados.

Possuir estes meios depende da demografia, da autarquia de matérias-primas, e do poder industrial do estado.

Entre Islândia e Vladivostok nós podemos unir 800 milhões de pessoas (ao menos para mantar o equilíbrio com os 1,2 bilhões de chineses) e ainda encontrar no solo siberiano tudo que é necessário apra satisfazer necessidades estratégicas e energéticas.

Eu afirmo que, sob o ponto de vista econômico, a Sibéria é a província do império europeu mais necessária para sua viabilidade.

Uma grande união da altamente industrializada e tecnologicamente avançada Europa Ocidental com a Europa Siberiana, dispondo de reservas de commodities quase inexauríveis, permitirá a criação de um poderoso império republicano, com o qual ninguém deixará de entrar em acordo.

Limitações impostas pelo império europeu

Esse estado é uma unidade. Ele não quer conhecer e não sofrerá a divisão horizontal (autonomias regionais), ou a divisão vertical (classes sociais). (8)

Seu princípio central forma uma cidadania uniforme: em qualquer lugar do império europeu, o cidadão possui o direito de eleger, ser eleito e trabalhar. Ele pode de modo absoluto mudar sua residência e seu emprego. Sua qualificação profissional é reconhecida por toda a Europa: o doutor que recebeu seu diploma em Madri, sem qualquer limitações pode praticar em São Petersburgo.

Qualquer corporativismo regionl é excluído.

Separação de qualquer porção de território é excluída por virtude do princípio central.

Nós faremos uso novamente do princípio jacobino: "A República é unitária e indivisível". Não é recomendável repetir o erro leninista do "direito de auto-determinação".

A "região" ou o antigo estado nacional entra nela para sempre. A unidade desse estado é irreversível e consolidada pela lei constitucional.

Ao contrário, esse Império pode se expandir, não por "conquistas", mas pela anexação daqueles que quiserem se unir.

O exército é popular e integrado. Uma casta militar não pode desfrutar de qualquer monopólio ou privilégios sob a excusa do profissionalismo. Esse exército será completamente subordinado à autoridade política.

Dentro dos primeiros 25-50 anos de existência, esse exército integrado receberá atenção especial de modo que os recrutas de diferentes regiões do Império sirvam juntos.

Não é necessário supor a existência de regimentos croatas ou divisões francesas ou exércitos alemães ou russos.

Há uma única moeda. Possuir moeda estrangeira ou usá-la como meio de pagamento é punível.

Não é humilhante, vergonhoso, que hoje seja possível ir à Rússia possuindo apenas dólares americanos?

É humilhante de fato tanto para os turistas da Europa Ocidental, como para os russos.

É um símbolo de nossa decadência comum: os europeus ocidentais colonizados desde 1945, os europeus orientais balcanizados e colonizados desde 1990. Seria mais correto pagar o hotel Moscou em ECUs europeus, ao invés de em dólares estrangeiros. O inglês deveria ser a língua comum. (9)

Eu não escrevi "americano". Aí consiste minha escolha pragmática, inevitável. O conceito de uma legislação uniforme é um dos princípios fundamentais desse Império. Leis civis, leis criminais, leis trabalhistas e leis comerciais são uniformes. Interpretação e aplicação da lei são idênticas em todo lugar.

Dominium e suas limitações

Cada um conhece o ditado de que a liberdade de uma pessoa termina onde a de outra começa.

Em um artigo anterior eu indiquei, entre as áreas gerais do Imperium, aquelas nas quais a República unitária "...jamais recua...". Quanto ao Dominium, ele assume uma liberdade de escolha ilimitada, dispondo de todas as liberdades pessoais que não causem dano ao Imperium.

Essas liberdades são garantidas dentro da moldura da vida privada.

Em velhos sistemas políticos e regimes, sentimentos, emoções, medos da vida privada inevitavelmente tentarão penetrar - com frequência excessiva - na vida política.

O Imperium deve permanecer uma área elaborada, estruturada e dirigida pelo neocórtex apenas.

De modo a compreender o comportamento de uma pessoa, é necessário estudar os mecanismos do cérebro. (10)

Eu repetirei aqui minha piada favorita sobre eu mesmo: "...eu não tenho alma. Eu tenho um cérebro. Na verdade, como qualquer outro indivíduo, eu tenho três cérebros, nomeadamente:

- o córtex originário, o mais antigo (a velha pele do cérebro), que nos permite caminhar, escalar, rastejar ou bater com o taco de baseball;

- o cérebro "intermediário" (meso-córtex), contendo todo meu "software" emocional "programado", necessário para a sobrevivência. Sergey Chakhotin, estudioso de Pavloc, há muito tempo descreveu essas paixões e emoções.

A sobrevivência do indivíduo é promovida pelos impulsos para lutar e para a nutrição; a preservação de uma espécie - por inclinação sexual e parental (associativa).

E finalmente o mais moderno de nossos três "programas de manutenção" é o neo-córtex, esse magnífico instrumento do ser humano. E ferramente insuficientemente utilizada.

A antiga pele do cérebro já possui 200 milhões de anos. O neo-córtex se formou apenas há 1 milhão de anos.

A doutrina (ou tese) dos três tipos de cérebro, "sobrepostos uns contra os outros", ou sobre um cérebro tríplice, como escrita pelo tradutor francês Roland Guyon, foi proposta pelo psicólogo americano Paul D. MacLean. Ela foi então tornada popular por Arthur Koestler.

Na "Psicologia Social" de Otto Klineberg há uma longa discussão sobre a questão do comportamento emocional da pessoa.

Dois séculos antes das obras científicas de Paul D. MacLean aparecerem, Sieyes antecipou a tese moderna sobre a superposição dos três cérebros.

Bastide, em sua dissertação de 328 páginas, menciona o manuscrito de Sieyes "Sobre o cérebro e o instinto".

Muito antes de mim, Sieyes ficou surpreso e irritado por conta de pseudo-demonstrações em linguagem política.

Se eu também impor essa digressão sobre o leitor, é apenas para mostrar que uma grande parte dos discursos amargos e agressivos emerge de nosso cérebro médio superemocional.

Um bom estudo do discurso político é possível somente conhecendo o mecanismo de funcionamento do cérebro humano.

Nesse caso é fácil detectar a razão da introversão, ou o ódio por algo. Isso se torna um simples problema clínico explicado pela fisiologia cerebral.

Por muitos anos eu tive que lidar com "escritores" descrevendo a política como um reflexo do comportamento "meso-cortical" (paixão, emoção, impulso, frustração, medo, repulsão), enquanto eu com todas as minhas forças tento descrever uma República "neo-cortical"...sic!

Um dos meus críticos disse que eu sou um "frio monstro racional".

Eu concordo com ele, e eu prefiro essa condição à de "monstro báquico irracional", tão amada por velhacos pós-nietzscheanos.

Eu persistentemente recomendo ao leitor educado, que seja interessado em política, a se familiarizar com as obras de Paul D. MacLean.

O absurdo de discursos políticos pseudo-racionais pretendendo serem persuasivos (o advogado persuade, o cientista prova), é claramente evidente a partir dessa citação de Marc Jeannerod:

"...o caráter indireto das relações entre o sujeito e o mundo externo. O sujeito cria para si mesmo sua própria representação desse mundo, e essa representação guia sua ação. Nessa perspectiva, a ação não é a resposta para qualquer situação externa, como a consequência ou produto daquela particular representação".

Qualquer vanilóquio primitivo sobre "ethnos" é muito simplesmente explicado através desse conceito de "representação" (fictícia) de uma realidade rejeitada (produção da realidade). Rejeito da realidade, necessidade de devaneio.

Para a pessoa que recebeu uma educação científica rígida, a política e sua lingiagem representam absurdos óbvios.

As pessoas lançam sobre as faces umas das outras invenções e ficções de hostilidade pessoal, se recusando a aceitar aquelas situações...

Mas nós devemos retornar aos três tipos de cérebro de MacLean.

Quando consideramos as órbitas de satélites, a trajetória de sondas espaciais, a durabilidade do aço, as correções óticas introduzidas em construir uma fotolente, nós usamos apenas nosso neo-córtex.

Durante uma rusga entre motoristas, que acaba em uma briga, nós usamos os mecanismos reativos (arqueo-corticais) e emocionais (meso-corticais) e nos comportamos como mamíferos e répteis.

Na briga entre motoristas, impulsos agressivos assumem o controle, gradualmente suprimindo a função reguladora do neo-córtex. A inclinação sexual, às vezes intolerável, nos forçará a desejar a filha menor de idade do vizinho.

A mesma pessoa sempre funciona com a ajuda desse "programa" duplo: os programas de impulsos-paixões-sentimentos-emoções, e o programa do pensamento absolutamente racional.

Essa digressão era necessária como uma transição para a questão do governo de pessoas.

A religião se refere à área do Dominium.

É um tipo de atividade privada, que não deve ter qualquer possibilidade de exercer influência sobre a vida pública (com o consequente risco de ver como "islamistas" desafiaram a autoridade na Iugoslávia). É ridículo supor que a religião deveria interferir com uma vida política razoável, no Imperium. Apenas por se ignorar este princípio, matanças tolas e cruéis ocorreram no Líbano, na Palestina, na Armênia, na Iugoslávia e na Moldávia.

Aqueles que misturam religião com política são os atuais "aprendizes de feiticeiros". É criminoso aquele que criou essa condição de relações tensas, mas, sob o ponto de vista histórico, também criminoso é aquele que desviou os olhos do fato de que paixões religiosas podem ser usadas em um contexto político.

No Imperium laico das Repúblicas Unidas da Europa, a liberdade religiosa será permitida (eu preferiria escrever "admitida") dentro da moldura do Dominium, e impiedosamente suprimida à primeira tentativa de interferir na área pertencente ao Imperium. Racistas falsos e vergonhosos cunharam a tese do etno-diferencialismo e das "identidades etno-culturais". Como resultado disso, verdadeiras guerras emergiram na Moldávia, Iugoslávia, no Cáucaso - guerras travadas por criminosos comuns, ou, em nome da precisão, por gângsters.

Além de roubos, prostituição, jogatina e narcotráfico, os criminosos há pelo menos vinte anos tem demonstrado interesse até mesmo pela questão de "minorias oprimidas".

Essas tolices religiosas e etno-diferenciais tem sido devidamente manipuladas primeiro por charlatães, e então por gângsters - essas tolices, sustentadas por desesperados com armas automáticas em mãos, nos lançarão tão baixo que nos transformaremos nas "milhares de tribos de Nova Guiné", caçando cabeças.

Em resumo, eu deverei dizer que o Dominium significa uma liberdade de opinião praticamente sem controle (mesmo a mais idiota), mas o Imperium das repúblicas laicas e unidas jamais, mesmo por um único instante, admitirá a liberdade de "fazer o que se quiser". Desde 1945, a história nos ensina exemplos claros e sangrentos do que não deve ser feito. Do que não se deve permitir que ocorra amanhã.

Quando doente, Moscou chama a ajuda de "velhas mãos".

É simplesmente insano, o que tem se passado na Rússia nos últimos dois anos.

A economia devia ter sido liberalizada passo a passo, de baixo para cima, permanecendo em cada fase por 2-3 anos. (11)

Ao invés disso, em Moscou os piores aventureiros das finanças internacionais foram admitidos. A venda por barganha dos resultados do trabalho de três gerações do povo soviético está aberta.

Tubarões de Wall Street começam a demonstrar interesse excessivo na economia da antiga URSS.

Ela não deve enfraquecer suas bolas políticas, permitindo a separação de seus povos, mesmo se Lênin, em seu analfabetismo político (uma herança do marxismo ascendente de por volta 1848) concedeu (muito hipocritamente e descuidadamente) "o direito de auto-determinação".

A partição política e militar da URSS é e sempre será um erro histórico imperdoável. Um evento fatídico e irreversível.

A força centrífuga destruirá em cinco anos o que as forças centripetas criaram em quatro ou cinco séculos.

Primeiro teria sido recomendável encher as lojas de salsicha e pão, favorecendo a criação de um milhão de pequenas empresas (de 1 a 50 trabalhadores). Simultaneamente era necessário fortalecer a repressão política contra todos aqueles "combatentes" pela separação, independência e autonomia.

Outro exemplo do comportamento suicida dos novos líderes russos foram suas "viagens" a Washington ao invés de concordarem em receber auxílio econômico da Europa Ocidental.

De um ponto de vista histórico e geopolítico, os EUA são o inimigo especial da URSS.

A estratégia dos EUA é separar a Europa e partir a URSS.

Por quatro séculos a Inglaterra conduziu a mesma política contra os reis espanhóis, contra a França e a Alemanha.

Hoje a Inglaterra deixou seu lugar para os EUA. Mas apenas ontem ela incansavelmente objetivava destruir a principal força continental, capaz de unir o continente europeu em uma federação: Os Habsburgos espanhóis, Bonaparte, Guilherme II, Hitler.

A Rússia "solitária" é o futuro "Brasil na neve".

A partição da URSS é irreversível. A "Grande Rússia" não tem mais chances de ser uma grande potência.

Então a "Rússia solitária" é um país sem futuro, assim como a Alemanha desde 1945, e a França desde 1962.

De um ponto de vista histórico a Alemanha perdeu todo e qualquer sentido em 1945. Ainda que ela hoje seja uma grande potência industrial, ela é completamente passiva, absolutamente não-influente na arena internacional. (12)

Sim - 47 anos se passaram, desde que a Alemanha não possui nenhuma política externa. Em si, isso não é tão ruim para a unidade européia.

A histeria nacionalista causou muito mal para a Europa: duas guerras suicidas - em 1914 e 1939.

Se algum sonhador ainda espera que a Rússia se tornará novamente "Grande Rússia", uma potência de primeira linha, que ele saiba desde o início que Washington ainda tem muitas armas sobrando. Washington cinicamente jogou a carta de Bagdá contra Teerã, e então a carta de Riad, e aquela de seus cúmplices em Damasco e Cairo, contra Bagdá.

Washington ainda tem muitos punhais guardados com os quais, em caso de necessidade, para finalizar a partição da URSS, e então seguir à partição da própria Rússia.

Se necessário, Washington sem a menor dúvida jogará contra Moscou a carta de Pequim ou a carta mundial islamista (do Paquistão ao Marrocos).

Hoje França, Inglaterra, Alemanha não são mais que a ficção histórica de estados independentes, as paródias deles.

Todos esses chamados "grandes" países não possuem mais políticas externas.

A Guerra do Iraque demonstrou que Washington necessita da França e da Inglaterra apenas como fornecedores de "fuzileiros senegaleses".

NOTAS

1 - De 1981 a 1985 eu publiquei uma série de obras (algumas delas traduzidas ao russo), promovendo a possibilidade teórica de unir a Europa de Leste a Oeste através da repetção de um cenário histórico chamado "macedônio". Desde 338 até a revolta na Galiléia, em Queronéia, Filipe da Macedônia efetivamente realizou a unificação da Grécia. 

Naquelas obras a argumentação prosseguia em direção ao método militar-ideológico adequado para unir a Europa na direção de Vladivostok a Dublin.

O continente chinês foi unificado há 22 séculos por um incrível político - Tsin Shihuanti.

A dinastia Tsin (221-206). Estado centralizado unitário, liderança burocrática; subordinação dos senhores feudais. Construção da Grande Muralha.

Eventos subsequentes compeliram a esquecer o temor do Exército Soviético e o habilidosamente alimentado nojo pelo comunismo. Em 1992, a solução "macedônia" já parecia inadequada em comparação com o período de 1982-1984. Hoje nós deveríamos elaborar um conceito de retomar a totalidade do território soviético através da construção da Grande Europa, formulá-lo e desejar urgentemente sua realização.

O conceito infantil e anti-histórico da "Comunidade de Estados Independentes", proposto pelo ingênuo Gorbachev, não possui a menor chance de sucesso. Era uma criança natimorta. Seu absurdo semântico é óbvio: comunidade de estados independentes (sic)...; igualmente bem seria possível falar sobre casais católicos devotos praticando o amor livre.

2 - Roma era um Estado Político objetivando a expansão de suas fronteiras.

Não eram assim, no plano teórico, as cidades de Esparta, Atenas e Tebas, com seu conceito, fadado à paralisia, da "imanente e eterna cidade-estado". Aproximadamente 2000 anos após, a Prússia também se tornaria um estado político em expansão. Porém tal expansão não implica necessariamente em conquista. Um exemplo teórico e concreto disso. Se durante os anos de 1950-55, em plena Guerra Fria, os EUA nos haviam oferecido a integração política da Europa Ocidental em uma sincera e honesta estrutura "atlântica", nós teríamos sido testemunhas do nascimento da República Atlântica, se estendendo de São Francisco a Veneza, e de Los Angeles a Lübeck.

Eu trago este exemplo teórico para que o leitor possa distinguir um imperialismo escravizador usual de um imperialismo integrador.

Tal óbvia habilidade para expansão também deveria ter a República Européia Uniforme. Todos os meus conceitos geopolíticos postulam a necessidade de preservar um Estado-Nação vital.

Eu usarei a geopolítica com o propósito da criação do conceito e descrição da vitalidade da República.

Ambos são imperialistas bem mal disfarçados.

A diferença entre o teórico e o ideólogo é imensa.

Haushofer apenas racionalizou seu pan-germanismo animal. Seu conceito do bloco "Berlim-Moscou-Tóquio" não é mais que um mascaramento racional de suas ficções pan-germanistas.

Quanto aos EUA, eles remetem ao seu "Destino Manifesto". Isso é geopolítica ideológica, messiânica, nascida de imaginações, por sua vez causadas pela leitura regular de uma literatura paranóica e de saques através do texto bíblico.

Weinberg lista os expressivos títulos de capítulo para essa paranóia histórica: "predestinação geográfica", "missão de regeneração", "destino inevitável", "poder de polícia internacional". Psicólogos e psiquiatras encontrarão aí comida para reflexão e entretenimento.

Meu conceito geopolítico é completamente diferente. Eu diria, que o progresso industrial e tecnológico peculiar aos EUA deve ou pode criar tal situação, quando se administrará razoavelmente o Estado Continental do Alasca à Patagônia.

Ao invés de provocadoramente "passearem" com sua frota nos mares chinês e mediterrâneo.

Teorias geopolíticas ideológicas operam nos termos de subordinação e/ou exploração, enquanto a geopolítica teórica "em seu estado puro" lida com desenvolvimento e construção de estados vitais.

3 - José Cuadrado Costa “Insuffisance et depassement du concept marxiste-leniniste de nationalite”, October 1984, in “Conscience Europeenne” n.9, Charleroi Belgique. (Conceito de "nacionalidade" em Marx, Engels, Lênin, Stálin, Ortega y Gasset e Jean Thiriart).

4 - É necessário ler criticamente essa obra de Daniel Guerin ("L'Anarchisme", Poche Gallimard). Lá todos os sem-sentido do romantismo oitocentista estão escritos. É difícil encontrar alguém mais ingênuo e mais tolo que Proudhon. Ele descreveu um mundo idílico, o mundo de "federações de federações". Ele não esperava guerras moldavas, croatas e armenas com o propósito da destruição brutal da "Minoria das Minorias". E com apenas uma rajada de uma arma automática!

5 - Jose Ortega-y-Gasset “La Revolte des Masses”, Editions Stock 1961; Jose Ortega-y-Gasset “La vocation de la Jeune Europe”, Revue de la S.S. Universitaire “LA JEUNE EUROPE” Berlin 1942, Cahier 8.

6 -  Jean Thiriart “EUROPE: I’Etat-Nation Politique”, revue “Nationalisme et Republique” n.8, juin 1992 25, Cours Foch 13640, La Roque d’Antheron (France).

7 - Já há mais 1/4 de século eu tenho desenvolvido o conceito de Europa como: (a) estado unitário, (b) de nações europeias. O general DeGaulle queria uma França forte (e unida) e uma Europa impotente (confederada).

A Europa não gostava disso. Assim como Maurras, ele foi pego em um impasse.

Em 1965 o escritor alemão Heinz Kubi me atacou pelos antigos profetas da Grande Alemanha, aos quais eu supostamente pertencia.

Kubi escreve:

"L'Europe: ume nation? (Europa: uma nação?). O paradoxo do terreno político na Europa Ocidental é que as mesmas pessoas que são mais intolerantes em relação aos próprios inimigos (na questão européia: gaullistas-confederalistas e thiriaristas-unionistas) são apoiadores do mesmo conceito de estado. Para De Gaulle era impensável que o estado podia e devia ser algo diferente do estado nacional, como a nação é a única base legítima para a política. O mesmo conceito é dominante entre uma facção da oposição europeia ("Jeune Europe"). Este último quer sair da moldura nacional, mas não pode oferecer qualquer outro tipo de estado, exceto o nacional. Então, eles querem substituir os estados atuais com o estado nacional europeu. Eles sonham a nação europeia, e não é casual, que nessa questão eles concordem com os profetas da "Grande Alemanha" e outros fascistas do passado".

Ver "PROVOKATION EUROPA", Kiepenheuer und Witsch, Koln-Berlin, 1965. French translation: ” Defi à l’Europe “, Seuil, 1967.

 A derrota da "Grande Alemanha" racista eu conheci muito bem, durante a guerra e depois, nos anos de prisão. Eu assumi disso uma útil lição sobre o fato de que o estado racialmente unificado (o de Hitler) não pode se expandir sem guerras constantes. Portanto em uma cela escura eu trabalhei o conceito do estado político (não racial) unido expansionista.

Eu tomei e desenvolvi os conceitos de Sieyes e Ortega y Gasset, o conceito de nação política a ser concluído em um destino superior, um destino europeu.

8 - Em um encontro, em 7 de setembro de 1789, o abade Sieyes claramente e inequivocamente afirmou e repetiu: "Soberana é apenas a Nação. A Nação não possui nem ordens, nem classes, nem grupos. A soberania não pode ser dividida e transmitida". Ver Colette Clavreuil "L'influence de la theorie d'Emmannuel Sieyes sur les origines de la representation en droit public", doctoral dissertations, Université de Paris, 1982; Jean-Denis Bredin "Sieyes, la clé de la Revolution française", Editions de Fallois, Paris 1988; Paul Bastid "Sieyes el sa pensée" re-ed Hachette 1970.

Ninguém poderia formular o conceito do estado unitário melhor do que Sieyes. Quanto a mim, eu transfiro este conceito de república unida e indivisível para minhas reflexões sobre a criação de uma repúblicai mperial de Dublin a Vladivostok. Assim como Sieyes, eu estou cansado de todas essas teorias federativas, fontes de ameaças de guerras civis, fontes de partições territoriais.

9 - Para a pessoa cientificamente educada, todas as nossas linguagens são meios de expressão fracos demais, indistintos, obsolescentes. A linguagem científica é inequívoca, a linguagem literária é sempre ambígua. Por essa razão "escritores" não se expressam tão claramente em sociologia ou política. Ver a obra capital por Louis Rougier "La metaphysique el le langage", Denoel 1973.

De fato por todo o mundo o inglês já é inevitavelmente a linguagem comum da ciência e da tecnologia. O Instituto Parisiense Pasteur não publica mais nada em francês. Todas as suas obras são publicadas apenas em inglês.

10 - Paul D. MacLean “Les trois cerveaux de l’homme”, Robert Laffont 1990 (French translation); Arthur Koestler “Le cheval dans la locomotive ou le paradoxe humain”, Caiman-Levy 1968; ver Capítulo XVI "Les trois cerveaux". Koestler se dirige aos muitos leitores educados. MacLean escreve para o leitor familiarizado com a neuropsicologia cerebral.

Sergey Chakotin "Le viol des foules par la propaganda politique", Gallimard 1952. Chakotin é discípulo e seguidor de Pavlov. Sua "Violência contra as Massas" é uma obra capital indispensável para aqueles que querem ir mais fundo na questão.

Otto Klineberg “Psychologie Sociale”, Presses Universitaires de France 1967.

Josè M.R. Delgado “Le conditionnement du cerveau et la liberte de L’esprit” Charles Dessart, Bruxelles 1972.
 
Jean-Didier Vincent “Biologie des Passions”, Seuil 1986.

Marc Jeannerod “Le cerveau-machine”, Fayard 1986. Guy Lazorthes “Le cerveau et l’esprit – Complexité et malleabilité “, Flammarion 1982.

11 -  Jean Thiriart e René Dastier (1962-1965) "Principes d'Economie Communautaire", 170pg. Uma obra compreensiva sobre teorias sócio-econômicas de Jean Thiriart. (Socialismo em escala europeia: comunitarianismo). Há também uma breve exposição dessa doutrina em um pequeno volume de 42 páginas: Yannik Sauveur e Luc Michel "Esquisse du Communautarisme" (1987). E por último, o artigo de Jean Thiriart "Esquisse du communautarisem", publicado na revista "La nation européenne", n.l., fevereiro de 1966.

O atual regime russo está realizando a liberalização da economia na direção mais perniciosa. Primeiro eles invocaram a ajuda de tubarões financeiros internacionais, o que era a última coisa a se fazer. E Yeltsin o fez, se provando um leigo, uma pessoa sem qualquer conhecimento seja no campo da economia seja no da história.

Teria sido muito mais correto: (a) liberalizar imediatamente todas as empresas com uma força de trabalho de 1 a 50 pessoas; (b) liberalizar em 2-3 anos empresas com uma força de trabalho de 50 a 500 pessoas. Teria sido necessário ir de baixo para cima, da liberalização imediata das pequenas empresas às de maior importância em 6-8 anos. A livre iniciativa estimula o trabalho. É impossível dizer o mesmo sobre a finança internacional especulativa, que olha apenas para seu próprio benefício imediato. Aqui nós não descreveremos a ampla margem entre capitalismo industrial ("Ford", "Renault", "Citroen") e capitalismo bancário especulativo (FMI). Centenas de páginas de pesquisas econômicas por Dastier e Thiriart (1962-1965) são devotadas a este tema. Consideravelmente simplificador, pode-se dizer que o comunitarismo significa uma economia completamente livre para as empresas com um volume de emprego de até 50 pessoas, economia regulada para aquelas com mais de 500, controlada para aquelas acima de 5.000 e estatal para aquelas com mais do que 50.000. É um sistema de "geometria variável", em um caminho intermediário entre capitalismo industrial e socialismo clássico.

12 - A Alemanha moderna é um gigante econômico, por um lado, e um anão político, por outro. É um país historicamente estripado desde 1945. A Alemanha atual é uma das zonas de exploração da economia cosmopolita baseada em Wall Street.

List brilhantemente demonstrou a diferença entre economia cosmopolita e economia política. Partindo dessa diferença, Thiriart construiu a teoria da economia como poder oposta à economia americana focada no lucro.

Há uma excelente análise das idéias de List pelo autor americano Edward Mead Earl (ver Edward Mead Earl in “Makers of Modern Strategy”, Princeton University 1943). Em 1980, a editora Berger-Levrault publicou essa obra em francês sob o título “Les maitres de la strategie” (Chapitre 6: “Adam Smith, Alexander Hamilton, Friedrich List: les fondements economiques de la puissance militaire”).

List passou muitos anos nos EUA. Ele disse que "riquezas são inúteis sem a unidade e o poder de uma nação". Sobre a qualidade analítica de sua obra Edward Mead Earl escreveu que podia valer a pena incluí-la em uma antologia de estudos geopolíticos.
 
 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Jean Thiriart, Teórico da Revolução Européia

por Christian Bouchet

Poucos são os franceses aos quais o nome de Jean Thiriart evoque alguma lembrança. Desde 1960 a 1969, através da organização européia transnacional "Jeune Europe" e o mensal "La Nation Européene" promoveu a primeira tentativa, inigualável de criação de um Partido Nacionalista Europeu e Revolucionário e definiu claramente em seus escritos o que forma parte do corpo doutrinário de não poucos movimentos nacionalistas da Europa.

Nascido no seio de uma grande família liberal de Liége que teve grandes simpatias pela esquerda, Jean Thiriart militou primeiro na "Jeune Garde Socialiste" e na "Union Socialiste Anti-Fasciste" e durante a Segunda Guerra Mundial na Fichte Bund (uma liga seguidora do movimento Nacional-Bolchevique de Hamburgo dos anos 20) e no "Amis du Grand Reich Allemand", uma associação que reagrupa na Bélgica latina a antigos elementos da extrema-esquerda favoráveis à colaboração européia, e inclusive à anexação ao Reich.

Condenado a três anos de prisão depois da "Liberação", Thiriart não ressurge politicamente até 1960 participando, durante a descolonização do Congo, na fundação do "Comité d'action et de Défende des belgiens d'Afrique" que transformou-se mais tarde na "Mouvement d'Action Civique". Em pouco tempo Jean Thiriart converte este grupo poujadista em uma estrutura revolucionária eficaz que - considerando que a tomada do poder pela OAS [*Organização do Exército Secreto, um movimento nacionalista de militares] na França seria um tremendo trampolim para a revolução européia - aportou um apoio eficaz e sem falhas ao Exército Secreto.

Paralelamente, organizou-se uma reunião em Veneza em março de 1962. Participando Thiriart pelo MAC e pela Bélgica, o "Movimento Sociale Italiano" pela Itália, o "Sozialistische Reichspartei Deutschlands" pela Alemanha e o "Union Movement" de Oswald Mosley pela Grã-Bretanha. Em uma declaração comum, estas organizações declararam querer fundar "Um Partido Nacional Europeu, enfocado na idéia de uma Unidade Européia, que não aceita uma satelização do Oeste pelos Estados Unidos e que não rende-se na reunificação dos territórios do Leste de Polônia a Bulgária passando pela Hungria." Porém o Partido Nacional Europeu tem uma curta existência, os arcaicos e estreitos nacionalismos de italianos e alemães fazem romper logo suas visões pró-européias.

Isto, acrescentado ao fim inglório da OAS fez refletir Thiriart, que chegou à conclusão de que a única solução estava na criação de um Partido Europeu Revolucionário em uma frente comum junto aos partidos e países opostos à ordem de Yalta.

Resultado de um trabalho iniciado nos fins de 1961, o MAC transforma-se em Jovem Europa, organização européia que implanta-se na Áustria, Alemanha, Espanha, França, Grã-Bretanha, Itália, Países Baixos, Portugal e Suíça. O novo movimento está fortemente estruturado, insiste no treinamento ideológico em verdadeiras escolas de quadros, tenta fundar uma central sindical embrionária, o Sindicato Comunitário Europeu. Ademais Jovem Europa pretende fundar as Brigadas Revolucionárias Européias para começar a luta contra o ocupante norteamericano e busca um pulmão exterior. Daí, os contatos com a China comunista, Iugoslávia e Romênia, assim como com o Iraque, Egito e a Resistência Palestina.

Se Jean Thiriart é reconhecido como um revolucionário com o qual contar - entrevistou-se com Zhou En-Lai em 1966 e com Nasser em 1968 e tem seu acesso proibido a 5 países europeus - e se a aportação militar de seus militantes no combate anti-sionista não é discutido - o primeiro europeu a cair com arma em mãos combatendo o sionismo, Roger Coudroy, era membro do Jovem Europa - seus potenciais aliados sentiram-se impedidos por reflexos ideológicos ou assuntos diplomáticos que não permitiram-lhes prestar à Jovem Europa a assistência material e financeira desejada. Ademais, depois da crise da descolonização, a Europa beneficiou-se de uma década de prosperidade econômica que tornou mais difícil a sobrevivência de um movimento revolucionário. A imprensa da organização, primeiro "Jovem Europa" e depois "A Nação Européia" teve uma certa audiência e uns colaboradores de alto nível, entre os quais encontravam-se o escritor Pierre Gripari, o deputado de "Alpes Maritimes" Francis Palmero, o embaixador da Síria em Bruxelas Selim El Yafi, o do Iraque em Paris Nather El Omari e Tran Hoai Nam, chefe da missão vietcong na Argélia assim como personalidades como o líder negro Stockeley Carnichael, o coordenador do Secretariado Executivo do FLN Cherif Belkacem, o Comandante If Larbi e Djambil Mendimred, ambos líderes do FLN argelino ou o predecessor de Arafat à cabeça da OLP, Ahmed Choukeiri aceitaram sem dificuldade as ofertas de entrevistas. E o General Perón, exilado em Madri, declarará "Leio a Nação Européia com regularidade e compartilho completamente de suas idéias não só em relação à Europa senão a todo o mundo".

Em 1969, decepcionado pelo relativo fracasso de seu movimento e pelo tímido apoio internacional, Thiriart renuncia a seu combate militante. Apesar dos esforços de alguns de seus Executivos, Jovem Europa não sobreviverá ao abandono do principal Chefe. Não obstante há uma reivindicação parecida a princípios dos anos 70, nos militantes da Organização "Luta do Povo" na Alemanha, Áustria, Espanha, França, Itália e Suíça, nos anos 80 nas equipes da revista belga "Vontade Européia" e na francesa "O Partisan Europeu", assim como na tendência Terceirista Radical no seio do movimento NR francês "Troisième Voie". Jean Thiriart sairá do exílio político em 1991, para apoiar a criação da Frente Européia de Liberação a qual viu como sucessora da Jovem Europa. Ele ia na delegação do FEL que foi a Moscou entrevistar-se com os líderes da oposição a Boris Yeltsin. Infelizmente Jean Thiriart sofreu um ataque do coração pouco depois de voltar à Bélgica. Deixou inacabados vários trabalhos teóricos, nos quais analisava a evolução do combate anti-americano após o desaparecimento da URSS.

Inspirado por Maquiavel e Pareto, Thiriart disse que era um doutrinário do racional e rechaçou as classificações comuns da política, agradava-lhe citar uma frase de Ortega y Gasset "Ser de esquerda ou direita é uma das infinitas maneiras das quais dispõe o homem para ser imbecil, ambas são, de fato, formas de hemiplegia moral". O Nacionalismo que desenvolveu era um ato de vontade, o desejo comum de uma minoria de fazer algo. Estava baseado em considerações geopolíticas. Somente tem, para ele, "futuro as nações de amplitude continental (EUA, China, URSS), se queres fazer grande e importante a Europa, tens que unificá-la através da constituição de um Partido revolucionário de tipo leninista que inicie imediatamente a luta pela liberação contra o ocupante americano e seus colaboradores, os partidos do Sistema e as tropas coloniais da OTAN. A Europa Ocidental, liberada e unificada poderá então entrar em negociações com a ex-URSS para construir o Império Europeu de Galway a Vladivostok capaz de resistir à Nova Cartago americana e ao Bloco Chinês e seus milhões de habitantes."

Oposto aos modelos federais e confederais, assim como à "Europa das 100 bandeiras", Thiriart que definiu-se como um "jacobino da Grande Europa" quis construir uma Nação unitária concebida nas bases de um Nacionalismo de integração de um extenso Império dando a todos seus habitantes a cidadania e a herança legal e espiritual do Império Romano.

No plano econômico Thiriart rechaça "a economia do proveito" (capitalismo) e "a economia da utopia" (comunismo) para advogar pela "economia do poder" que promove o desenvolvimento do máximo potencial nacional. Sem dúvida, em sua mente a única dimensão viável para esta economia é a Europa. Discípulo de Johann Gottlieb Fichte e de Friedrich List, Thiriart é partidário da "autarquia dos grandes espaços", assim Europa saindo do FMI e dotada de uma moeda única, protegida por sólidas barreiras aduaneiras e velando por sua auto-suficiência poderia escapar às leis da economia global.

Apesar de datar dos anos 60, os livros de Jean Thiriart são surpreendentemente atuais. Desde 1964 descreveu o desaparecimento do partido russo na Europa, mais de 10 anos antes do nascimento do Eurocomunismo e aproximadamente 25 anos antes dos transtornos da Europa Oriental. Da mesma maneira sua descrição dos milhares de "quislings" americanos é todavia uma realidade na Europa e tem sido demonstrada recentemente nas posições de muitos dos políticos durante a Guerra do Golfo, os distúrbios na antiga Iugoslávia ou nas últimas insurreições africanas. Também avisou sobre a leitura do ianque James Burnham, conselho que ainda pode-se seguir encontrando no livro deste último: "Pela Dominação Mundial" frases como estas: "Devemos abandonar o que resta da doutrina da igualdade das nações. Os Estados Unidos deve permanecer abertamente como candidato à direção da política mundial."

Discutível em certas coisas (jacobinismo, demasiado racionalismo, etc...) não ignoramos que Thiriart permanece como um dos nossos maiores mentores deste século. Corresponde-nos nutrir suas teorias, avaliá-las e saber aplicá-las para abordar as dificuldades do ano 2000.